Para Juarez Fonseca

Eu sou o menino que abriu a porta das feras no dia em que todas as
famílias visitam o zôo.

Gilberto Gil, "Zooilógico”

Honti nóisfumoz no sológico. Foi um bunito paçeio. Eu goztei muntu du sológico. Nóis demo aminduim pru elephanti. Mais du qui eu maiz goztei foi da sebra qui é alistadinha qui nem u pijama du meu vô Noé.
Apenas não sabiam exatamente por que tinham ido parar no jardim zoológico. Pois se tinham existido os campos, um pouco antes, a encosta cheia de vacas olhando para eles com grandes olhos castanhos, o lago lá embaixo, a superfície do lago com suas manchas móveis, azuis e verdes, os quero-queros que não os deixavam aproximar-se demasiado, com vôos rasantes sobre suas cabeças nuas. Como em Os pássaros, alguém lembrou sem muito propósito, porque os quero-queros de maneira alguma pareciam ameaçadores. Nada ameaçava ninguém naquela encosta, um deles disse que gostaria de ficar para sempre ali, entre o cheiro de terra, bosta de vaca, capim, esmagando ervinhas com o corpo, o verde novinho de outubro rebentando em brotos macios. Sim, sim, sim — a encosta, o campo,o lago, os cheiros, um pouco antes. Poderiam ter permanecido lá o tempo que quisessem, mas agora estavam numa fila de carros e precisavam pagar e pagaram e o cobrador não tinha perguntado se eram estudantes e estudante tinha desconto mas agora o cobrador já tinha preenchido um talão e alguém quis reclamar mas outro disse que não, coitado do moço, devia preencher mais de mil talões por dia e tudo continuava bem embora estivessem chegando de campos inteiramente gratuitos, sem talões, sem cobrador, coitado, com aquela calça Lee tão esfarrapadinha, sem filas de carros, sem. O automóvel movia-se lento, os seis pesando dentro. O automóvel movia-se entre dezenas de outros automóveis. O automóvel movia-se quase imóvel. Tanto que eles eram obrigados a ver, a não ser que fechassem os olhos. Mas fazia calor, fechar os olhos trazia uma cegueira úmida, heia de felpas. Eram forçados a abri-los para ver. E o que viam. Alguém tentou brincar dizendo que o estampado da zebra era extremamente artístico, vejam só, uma precursora da op-art, e todos riram, os olhos parados da zebra, meio nervosamente, o camelo era um momento pouco inspirado de Deus, havia uma amiga deles parecida com o camelo, os cascos rachados, e depois as corças, não sabiam bem se corças ou cervos ou veados ou mesmo gazelas, mas corças era tão bonito que repetiam encantados, as corças! as corças!, e um lhama, você já foi ao Peru?, e búfalos, e mais carros, a poeira da estrada, as pessoas oferecendo Coca-Cola, amendoim, pipoca para os javalis, o elefante introduzia a tromba no tanque de água vazio e jogava terra seca sobre a casca grossa, o elefante não tinha presas, o elefante quase cego e surdo, como todos os elefantes, mas aquele especialmente cego, especialmente surdo, sem um cemitério onde pudesse morrer discreto, recolhido, obrigado a morrer sordidamente na presença das mocinhas de pantalonas e colantes e jóias de plástico que riam jogando coisas secas para o elefante sedento. Rodaram estonteados por alguns minutos, depois a moça conseguiu estacionar o carro e desceram rápidos, como se não suportassem ficar juntos por mais um segundo sequer, então procuraram procuraram. Cimento, arame farpado: uma cerca alta cortou seus passos. Voltaram-se para o outro lado, mas as pessoas, as pessoas em mesas de madeira cortando nacos de carne sangrenta com facas afiadas, podiam sentir a carne fibrosa espirrando sangue quando os dentes se fechavam em torno dela, o cheiro de carne queimada que o vento espalhava entre os pinheiros, o vôo rasante dos quero-queros, latas vazias, pontas de cigarro, papéis engordurados, crianças nuas, senhoras gordas balançando-se em redes, adolescentes mastigando olhos castanhos de vaca torrados na brasa, homens sem camisa, os músculos do peito movendo-se atrás dos pêlos no gesto de cortar galhos para suas fogueiras, garrafas de cerveja, sacolas de plástico & arrotos sobre a grama. Deram volta, os seis, à esquerda havia um campo quase como aquele de antes, onde não tinham ousado ficar porque era liberdade demais? e não suportariam? mais um campo de vacas e quero-queros? E outra cerca. Uma placa proibindo a entrada. desorganizaram-se e de repente um não sabia mais onde estava o outro, levaram alguns segundos para localizar-se outra vez, os olhos de cada um lendo no rosto do outro o que ainda não tinham decifrado no próprio olho, contaram-se: cinco. O rapaz com a pedrinha da Mauritânia no pescoço tinha desaparecido (era uma pedrinha estampada, diziam que na Mauritânia havia rochas e rochas inteiras assim, estampadas, coloridas — mas eles nunca tinham estado lá, da Mauritânia, além de lendas, só conheciam a pedrinha que o rapaz desaparecido trazia). Um outro enveredou às cegas por um caminho de gravatás e lá no fundo descobriu, com alívio, no fundo do caminho estava o desaparecido, de pernas cruzadas, como se meditasse. Aproximou-se devagar, controlando o estalo dos gravetos sob a sola dos tênis, pensou em cobrir-lhe os olhos com as mãos em concha, como quando eram crianças, nunca tinham sido crianças juntos, mas não tinha importância, aproximou-se devagar e viu o movimento dos ombros do outro, que se ergueu brusco, chorando, as faces congestionadas. No mesmo momento abraçaram-se e o rapaz que não estava perdido, sem que fosse nem um pouco necessário, atropelou perguntas como o-que-foi-que-calma-te-aconteceu-respira-fundo-calma-por-que-você-calma-está-chorando-assim-calma-está-calma-tudo-calma-bem. Depois desabraçaram-se, afastaram-se, a pedrinha da Mauritânia, ele viu, e um pouco acima a boca do rapaz que chorava perguntou:
— O que fizeram de nós?
Tentou apontar as cercas, talvez as jaulas, o lixo cobrindo a grama. Mas não conseguiu. Apenas soluçava e repetia:
— Eu tenho ódio. Eu tenho muito ódio.
E rapidamente os outros quatro estavam também ali com eles. O rapaz sentou-se chorando num tronco coberto de musgo, as unhas rasgavam o musgo verde-escuro enterrando-se na madeira, os dentes cerrados, os pés afundados entre os espinhos dos gravatás. Existiam cercas, souberam de repente, ou não de repente, mais uma vez, e quietamente souberam como nunca tinham sabido antes, os seis: existiam cercas, concreto, arame farpado, existiam cercas segregando animais e verde.
— As cercas — ele disse. —Já não somos humanos. Que não suportaria ver de novo, mas era preciso que se movessem, como se o lugar tivesse ficado impregnado do ódio que o rapaz descarregara e se fechasse, cheio de arestas, sobre suas cabeças confusamente lúcidas. Aos tropeções rastejaram até um pequeno gramado onde permaneceram cegos, surdos, mudos, de mãos vazias, sem coragem de olhar-se nos olhos, as pessoas em volta hesitando entre jogar-lhes pipocas ou procurar animais mais interessantes. Caminharam lentos, as cabeças baixas, uma escassa manada, por uma escada de madeira até o bosque de eucaliptos e foram entrando sem olhar para trás. No meio da clareira as folhas secas estalaram sob seus pés. Sem saber, tiveram certeza e deixaram que os troncos das árvores e o chão aos poucos sustentassem o cansaço das costas de cada um. Passou-se algum tempo — como se o que acontecesse aqui, agora, fosse uma história qualquer contada por qualquer um deles e não o que acontecia ali, então. Algum tempo de mãos cruzadas na nuca e olhos postos na copa dos eucaliptos, passou-se. Depois apareceu uma borboleta negra, laranja e azul esvoaçando sem rumo e alguém disse que elas viviam apenas vinte e quatro horas, que não precisavam trabalhar nem montar um lar, o lar eram as flores onde iam pousando descuidadas, depositando seus ovos, e os filhos que se virassem sozinhos. Mas antes alguém lembrou, ou ninguém, talvez todos tenham pensado sem dizer, antes foram crisálida, larva lenta, feia, cascuda, escura, fechada sobre si mesma, elaborando em silêncio e desbeleza as asas de mais tarde. Suspiraram e riram e fizeram coisas como observar uma fileira de formigas tirando pacientes mínimos montículos do interior da terra para depositá-los longe, de maneira a não atrapalhá-las em suas entradas e saídas, e um outro disse que o estalo na ponta do chicote era a barreira do som sendo quebrada, e todos riram outra vez, o verde vibrante de uma mosca varejeira, jóia viva parada no ar. Então estavam outra vez dentro do automóvel e vinham voltando por entre as fábricas. O ar cheirava mal, a fuligem das chaminés depositava-se nas dobras da roupa, um dia, disseram, um dia talvez consigam acarpetar toda a terra de asfalto. Mas restarão os mares, um outro quis reclamar, veemente, mas lembrou-se de que os mares seriam grandes extensões de lodo e lixo. E no meio da estrada um rapaz espancava um cavalo, o chicote inúmeras vezes quebrando a barreira do som sobre as ancas do animal. Filho da puta, gritaram com as sobras do ódio, vai chicotear tua mãe, mas o rapaz botou a mão no pau escancarando as pernas os dentes afiados, carnívoros, depois as pontes, o sangue dos caminhões e o muro separando a cidade do rio como a parede de um túnel fechando-se sobre eles nos últimos andares dos edifícios — como se escorregassem pela garganta de um enorme animal metálico, como se caíssem sem fundo nem volta, sugados por um estômago que os digeriria faminto, massa visguenta, em direção às inúmeras voltas de um intestino de concreto para defecá-los numa vala podre. A sinaleira mandou que seguissem em frente. Eles seguiram. Alguém acendeu um cigarro. Outro rebuscou um biscoito no fundo do pacote. A moça ligou o rádio. A moça esperava um bebé. O rádio tocou um blues. Os blues costumam ser lentos, doloridos. Aquele também. Eles acompanharam o lento e o dolorido com os dedos tamborilando nos vidros sujos.

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| Por ludelfuego | 21.5.07 | 20:28.

3 Responses to “ZOOLÓGICO BLUES”

  1. # Blogger Thai

    Um dos melhores, quem sabe.  

  2. # Blogger Shijun Lin
  3. # Blogger xjd7410@gmail.com
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