Porto Alegre, verão de 2002

Queridos amiguinhos e amiguinhas, meu nome é Cláudia, sou a irmã caçula do Caio Fernando, autor deste livro, e quero dizer a vocês que As frangas é uma mistura de história com “estória”, pois antigamente a gente dizia que “estória” é quando se escreve sobre algo que não é verdade. Vivi parte da minha infância em Santiago, no Rio Grande do Sul, com o Caio, e posso confirmar aquilo que ele escreveu, e que vocês irão ler a seguir. As frangas realmente existiram e hoje algumas estão guardadas com muito carinho com o Luis Felipe (sobrinho do Caio e, conseqüentemente, meu), outras “fugiram” do galinheiro. Na página ao lado, você vê uma foto das sobreviventes e de outras que o Caio ganhou depois da publicação.
Quando o Caio escreve que você pode confirmar as peripécias de Ulla, Gabi, Juçara, Otília, Blondie e das Três Marias (p.17), infelizmente isso não é mais possível. Ele morreu em 1996 e meus pais também partiram para outro plano; hoje estão os três juntos. O telefone também mudou. Eu precisava dar este recado para vocês.
A todos, ótima leitura.
Com carinho
Cláudia

Para Clarice Lispector,
que também gostava delas,
ficar quentinha do lado de lá.

E para Rodrigo de Abreu Cabral
e Fernanda Gauss de Abreu,
meus primeiros sobrinhos,
ficarem quentinhos enquanto crescem.

Vai sempre existir uma galinha como Laura
e sempre vai haver uma criança como você.
Não é ótimo? Assim a gente não se sente só.

CLARICE LISPECTOR,
A VIDA ÍNTIMA DE LAURA


ACHO

... QUE A MELHOR HISTORIA sobre galinhas que eu conheço chama-se A vida íntima de Laura. Laura era uma galinha, claro. Lendo esse livro você vai descobrir que As galinhas também têm uma vida íntima. Quem contou a história de Laura foi uma grande escritora, a Clarice Lispector. Ela entendia muito de galinhas. De gente também. Bem no finzinho lá do livro dela, a Clarice diz assim: “Se você conhece alguma história de galinha, quero saber. Ou invente uma bem boazinha e me conte”.
Foi por isso que resolvi escrever esta história. Eu gostava muito da Clarice e queria agradar um pouco a ela. Ela ja morreu, mas sempre acho que a gente pode continuar querendo agradar a quem já morreu. Gosto de pensar que quem já morreu fica num lugar quentinho, que a gente não vê, cuidando de quem ainda não morreu. E se você quiser agradar a essa pessoa, é só fazer coisas que ela gostava. Aí ela fica ainda mais quentinha e cuida ainda melhor da gente.
Pois como eu sei umas histórias de galinhas bem engraçadas, vou tentar contar elas pra Clarice e pra vocês, certo? Mas antes de começar tenho que explicar que gosto muito mais de chamar galinha de franga do que de galinha. Por quê? Olha, pra dizer a verdade, nem sei direito. Quando olho para uma galinha, acho ela muito mais com cara de franga. Acho mais engraçado. Ou só acho que acho, nem sei. Faz tanto tempo que digo franga que agora já acostumei.
A história que quero contar é uma história de frangas. Mas se você quiser dizer que é uma história de galinhas, tudo bem. Pode dizer, eu não me importo.
Antes de começar tenho que explicar também que nasci numa cidade muito pequena, numa casa com um pátio enorme. Hoje em dia as pessoas quase não moram mais em casas com pátios. Nem enormes nem pequenininhos. Principalmente as que moram em cidades grandes.
Eu também moro agora numa cidade grande. Mas isso só vou contar daqui a pouco.
O que eu ia dizendo é que no pátio enorme dessa casa em que eu nasci tinha todas as coisas que têm em pátios. Uma porção de árvores, por exemplo. A que eu mais lembro é uma pereira. No verão ela enchia de peras. Daquelas meio avermelhadas, que nem bochecha de bebê gordinho.
Tinha também formiga, passarinho, cachorro. Os cachorros mudavam muito, porque uns iam embora, outros ficavam velhos e morriam. Tem casa que cachorro muda muito. A nossa era dessas.
Mas eu me lembro bem de dois. Um era o Faruque. Ele tinha esse nome porque era o mesmo de um rei da Pérsia que estava muito na moda, naquele tempo. A Pérsia agora virou Irã, nem tem mais rei. O Faruque não era rei nem nada. Pra ser bem sincero, era um cachorro bem vagabundo até. Desses que adoram roer as pernas das cadeiras. Acho que pensava que tudo era osso.
Me diga você: que rei você conhece que gosta de roer osso ou perna de cadeira? É por isso que eu digo que o Faruque não era rei coisíssima nenhuma. Mas era ótimo. Também, não precisa ser rei pra ser legal, não é?
A minha mãe, que sempre foi boa pra dar nomes, foi quem acho que Faruque é nome de cachorro mesmo. Que nem Duque ou Rex. Só que Faruque é muito mais original: nunca mais encontrei outro cachorro com esse nome.
O outro que eu lembro não era cachorro, era uma cadela. Como ela era muito grandona e desajeitada — e acho também que todo mundo estava com preguiça de inventar um nome — , a gente chamava ela de Cadeluda.
O pátio era tão enorme que tinha três partes. Uma ficava ao lado da casa. Era mais um jardim que um pátio. Era cheio de hortênsia, uma flor bem grande — como é que eu vou explicar? Uma flor assim feita de cachos com florzinhas azuis, brancas ou cor-de-rosa. As lá de casa eram das azuis. Tinha também um jasmineiro tão cheiroso que dava até tontura na gente, umas margaridas e uma bergamoteira.
Você sabe o que é ber-ga-mo-tei-ra?
Pois é a árvore que dá a bergamota, entendeu? Não? Tá bom, eu explico. É que tudo isso aconteceu bem lá no Sul do Brasil. Lá tem umas coisas que também tem aqui, só que a gente chama de outro nome. Bergamota, por exemplo, é essa frutinha amarela que em outros lugares chamam de mexerica.
Sempre achei que ela tinha mais cara mesmo era de bergamota. Assim como o Faruque, mesmo não sendo rei, tinha a cara perfeita dum Faruque. Assim que nem chamar galinha de franga. E agora eu estou pensando que o bom, quando a gente conta uma história, é poder chamar as coisas como a gente quer chamar, não como todo mundo chama. Experimente só, você vai ver.
Outra coisa boa de inventar uma história é que você pode ir contando aquilo que tem vontade de contar. Foi assim que eu comecei a falar das frangas e acabei falando no pátio. Depois parei de falar no pátio e comecei falar no que eu estava inventando.
Agora me lembrei do pátio e vou continuar.

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| Por ludelfuego | 26.4.07 | 00:38.