A VERDADEIRA
ESTÓRIA DE SALLY CAN DANCE
(AND THE KIDS)
HISTÓRIA

EPIGRAPHE:
Os discos voadores (OVNIs) existem e são pilotados por seres procedentes de outros pla­netas, esta a conclusão a que chegou o gover­no dos EUA, o qual lançará uma campanha com a finalidade de preparar o mundo para aceitar os visitantes extraterrestres.
From Almanaque do Correio do Povo 1975, p. 21

INTRODUCTION TO HELL

La madrecita empezó a hablar machucado, q nem se podia sequer tentar conversar naquele hogar, q estavam todos locos, no começo Sally até deu força, pêro la ma­drecita empezó a hablar cada vez más machucado y con más frecuencia, então Sally deu um pontapé no cuzco (era un perrito de estimação, peruano autêntico) q costuma­va se roçar en sus legs y gritou q cachorro tinha q ser tra­tado na porrada, senão vira bicha, sacou, madrecita? La madrecita dijo q não entendia cockney y q cada vez fica­va más difícil, y diga-se a favor de Sally q nessa época ela tentou de muitos ways, cuando la barra pesava mucho apanhava o café ou o prato de comida (as peleias eram always na hora das refeições) y subia para su habitación, donde se quedava ouvindo Bob Dylan (sobretudo "Hurrycane" y fumando horrores, hasta q la madrecita rides again: q Sally estava mui magra, q essa mania de não comer car­ne, não q eu tenha nada contra, pêro mira: yo comi car­ne más de cinquenta anos y aqui estoy guapa.
Sally encarava dura a violência carnívora da madreci­ta emputecida, mas preferia always não ser agressiva, mas dizer o q pensava realmente com maiúsculas (era tão pre­tensioso pensar q pudesse um day dizer realmente tudo q pensava com maiúsculas) — enfim, Sally calava. Só q nos últimos tempos, vinha observando sem tomar nenhuma decisão about that, mas nos últimos tiempos vinha calan­do demás.
One day Sally enlouqueceu y sem querer falou para her brother-sister q era apenas una sombra y the brother-sister of Sally foi correndo contar todo para la madrecita y una hermosa mañana when Sally was posta em repouso entre sus almohadas indianas ouvindo justamente "Here comes the sun" (little darling), inequívoco sinal de su baja voltagem moral necessitada de brilhos ou something up cuando la madre adentro abruptamente en su habitación y con la fala mazia mazia y una tisana de bergamoteira q Sally até curtiu because tinha lido q bergamoteira bajava a pressão botava down-down y cuando estava in the better of the party traduzindo para la madrecita la segunda parte da letra de "Eleanor Rigby" eis senão q dois homens (zarrões) puseram la puerta abajo enfiaram Sally numa T-shirt de fuerza y carregaram-na para una clínica psiquiátrica es decir para un hospício já que Sally não trabalhava y portanto não descontava inps além disso era maior de idade y su madre una pobre viúva ai ai coitada de mim ai de mim ai de mim no hospício após una terapiazita rápida à base de eletrochoques neozine artani & insulina,
Sally finalmente retornou aos braços da sociedade q a ge­rara inteiramente recuperada y hoy es un elemento útil à coletividade trabajando oito horas por dia no bnh don­de já conseguiu financiamento para una quitinete y pro­vendo satisfatoriamente segundo relatório da assistente social las modestas necessidades de su perra madrecita.

THE END
(exit)

INTERMEZZO

§ 1. Sally não declarou to her brother-sister ser ape­nas una sombra.
§ 2. La madrecita no se adentro en su habitación.
§ 3. Sally não degustou a tisana de bergamoteira (on­de havia sido colocado forte soporífero).
§ 4. Nem tampouco todo o resto, inclusive hospí­cio, bnh, quitinete etc. etc. Mas é preciso então q se diga qual foi


A VERDADEIRA ESTÓRIA DE SALLY CAN DANCE
(AND THE KIDS)
HISTÓRIA

Obs. a) Se você achar q é invenção, assinale com um x o primeiro . Se você achar q é real, assinale com um x o segundo .
Obs. b) Assinalar este ou aquele não modificará coisa nenhuma no desenrolar dos phatos, mas achamos q, em se tratando esta de uma obra aberta e essencialmente co­municativa, o leitor deveria participar nem q seja modes­tamente de sua confecção. Then, let's go there:


KATHYVS APRIL ENTERPRISES PRESENTS:
THE TRUTH ABOUT SALLY CAN DANCE {and The Kids)

with:
Sally Can Dance
The Kids: Mike Pocket-Knife
Joe Golden-Vain
Peter Syringe
Bill Puzzled-Mind
and:
La madrecita
The brother-sister
Dois homens (zarrões)
Juliana de Oloxá
Valdomiro Jorge
Uma jaguatirica
Don Juan (copyright Carlos Castañeda)
Trapezista Gilda (copyright Jane Araújo)

special guest star:
Selma Jaguarassu

music by:
Lou Reed
Bob Dylan
Beatles
Ney Matogrosso
Rolling Stones and
Rádio Continental

our thankfulnesses to:
Jornalista Jaime Gargioni
Martin Scorsese
Esquina maldita (Alaska, Marius, Copa-70,
Universitário)
12ª. Delegacia de Polícia
Samantha Jones
Fugitiva Maria da Graça Medeiros
Frota de táxis Mahatma Gandhi
Psicanalista R. D. Laing
Cia. Jornalística Caldas Júnior
Editoras Vozes e do Brasil S/A
(q nos forneceram preciosíssimos elementos)



BEGIN THE BEGINNER

No princípio era o verbo. Isto é: Sally falava muito. Isso no princípio. Después veio aquele negócio da madrecita empezando a hablar machucado y Sally, q no fundo sempre foi apenas una lovely teenager, seguindo os conselhos de sua amiga Gilda, adestrava-se em equilibrismos a ponto de, antes de optar definitivamente pelo silêncio y portanto tornar-se una sombra, conseguir manter duas discussões simultâneas com la madrecita y the brother-sister, sustentando pontos de vista absolutamente contraditórios, sem q nenhum de los dos percebesse. Acabavam todos gritando muy alto y quebrando a primeira coisa quebrável q estivesse à mão, hasta el vecino de abajo reclamar, first, logo após, por ordem: o da esquerda, o da direita y el de arriba, q não reclamou porque o apartamento de Sally and the family, sem ser de cobertura — q la madrecita (como já foi dito) no tenía recursos —, ficava no último andar. Veio o síndico, porteiro, polícia, y foi então q Sally, sem pensar nisso, um dia, lendo A política da experiência, de R. D. Laing, encontrou este trecho: A sanidade parece repousar amplamente, hoje, na capacidade para adaptar-se ao mundo exterior — o mundo interpessoal e o reino das coletividades humanas. Como esse mundo exterior humano está quase completamente separado do interior, toda percepção pessoal já apresenta graves riscos. Mas desde que a sociedade, sem saber, encontra-se esfaimada pelo que há de interior, as exigências para se evocar a sua presença de maneira "segura'', de modo que não seja preciso ser levada a sério, etc. são tremendas, e a ambivalência igualmente intensa. Não admira que seja tão grande o número de artistas que naufragaram nesses rochedos nos últimos 150 anos — Hölderlin, John Clare, Rimbaud, Van Gogh, Nietzsche, Antonin Artaud. Os que sobreviveram possuem qualidades excepcionais — capacidade para o segredo, o disfarce, a astúcia.
Nesse momento, presa de estranha emoção, opressa sob o sentimento de algo q desconhecia, qual asa negra acariciando suas espáduas juvenis, Sally cerrou abruptamente o volume finamente encadernado em percaline. Nervosamente, suas mãos buscaram um cigarro à cabeceira. Com dedos trêmulos, acendeu, tragou (sugere-se aqui uma tomada bem lenta: a atriz deve passar inteiramente para o público a sua ansiedade, através de gestos como, por exemplo, roer as unhas ao mesmo tempo em q fuma, mordendo os lábios e piscando inúmeras vezes). Releu, atónita: capacidade para o segredo? o disfarce? a astúcia? Com um felino impulso, pôs-se em pé e esgueirou-se sorrateira hasta la habitación de sua perra madrecita y experimentou la peruca verde (q te quiero idem). I can get no satisfaction, resmungou, descalçando os tênis para envergar as sandálias douradas de altíssimas plataformas y o longo de cetim púrpura. Lixou cuidadosamente, poliu y pintou as uñas, colocando um pouco de purpurina antes (Se você quiser um esmalte diferente, jogue dentro do vidrinho purpurina e duas bolinhas de ferro — para misturarem bem. Agite antes de usar.
From "Dicas que facilitam a vida", Capricho nº. 381, 18 de junho de 1975, p. 73) e olhou-se no espelho.


FLASH-BACK {Sally meets The Kids)


Sally vem caminhando por uma avenida deserta. Está amanhecendo. Não há automóveis, nem ninguém mais, exceto Sally. Ela vem devagar, jeans arremangados até os joelhos, cabelo em rabo-de-cavalo, camisa xadrez, descalça, um tamanco em cada mão. Detém-se para observar melhor algo dentro de uma lata de lixo. Nesse momento, por trás da mesma lata de lixo, aparece a cara de um cachorro buldogue. Sally recua. O buldogue encara-a fixamente. Sally não faz nenhum movimento brusco. Seus olhos se esgazeiam, seus lábios fremem nos cantos. O buldogue continua saindo de trás da lata de lixo. Depois do pescoço, seu corpo vai-se estreitando e ganhando escamas, até revelar-se uma serpente inquieta, com a cauda terminando em ferrão. Sally recua ainda mais. O buldogue retira a máscara. É Mike Pocket-Knife, signo Scorpio, líder dos Kids, q gosta de usar fantasias quando a barra pesa. — S. i. m. p. — ele saúda (Sociedade Itinerante Meio Pirada, ou abreviatura de "Simpathy for the Devil", segundo os arquivos da Underground Press).
— S. i. m. p. — responde Sally. E deixa cair o tamanco esquerdo. Com estrondo. Acaba de conhecer The Kids.


TERCIOPELO DE MI VIDA

Peruca verde, longo de cetim púrpura, unhas cintilantes, sandálias douradas de altíssimas plataformas, Sally miro at herself in the glass. Passou lentamente las manos pelos quadris, o vestido realçando um pouco o busto quase inexistente. Agora, pensou excitada, agora sim deveriam entrar os dois homens (zarrões). Depois lembrou q essa história dos homens (zarrões) tinha sido deixada pra lá. Then mudou de assunto y walked to su habitación. Empty hogar. The brother-sister of Sally ainda não chegara do IPV (Instituto Pré-Vestibular), onde fazia cursinho para economês, embora suas aptidões fossem mais para a área humanística, q ele(a) rejeitava violentamente por recear ser tachado(a) de homossexual (bicha ou sapatão) pelo Corner's Club, entidade da qual era sócio(a) benemérito(a). La madrecita tinha ido levar sete velas negras, sete charutos, sete cocadas, uma garrafa de pinga (Três Fazendas), uma folha de papel celofane e um cordeiro para mãe Juliana de Oloxá, deus dos lagos (Obatalá, o Céu, uniu-se a Odudua, a Terra, e dessa união nasceram Aganju e lemanjá, respectivamente Fogo e Água. lemanjá desposou seu irmão Aganju, de quem teve um filho, Orungan. Apaixonou-se este por sua mãe lemanjá, nascendo então os seguintes filhos, todos divindades: Dada, deus dos vegetais; Xangô, deus do trovão; Ogun, deus do ferro e da guerra; Olokun, deus do mar; Oloxá, deus dos lagos; Oyá, deusa do rio Níger; Oxun, deusa do rio Oxun e mãe da cantora Clara Nunes; Obá, deusa do rio Obá; Orixá Okô, deus dos caçadores; Oké, deus dos montes; Ajê Xaluga, deus da riqueza; Xapanan (Shankpanna), deus da varíola; Orun, o Sol; Oxu, a Lua — from Almanaque do Correio do Povo 1975, p. 137). Ainda sobre esse assunto diga-se, sob pena de não revelar toda a áspera verdade: a) Sally vezenquando admirava em silêncio as rivelinianas coxas of her brother-sister, depois crispava a mão direita sobre a testa e exclamava: — Ai de mim! Não somos deuses!; b) mais informações sobre a mitologia ioruba tinham-lhe sido fornecidas por su mejor friendship, Selma Jaguarassu. Y acá, infelizmente para a disponibilidade de tempo do(a) caro(a) leitor(a), mas perfeitamente de acordo com nossa intenção de esclarecer definitivamente toda a verdade about Sally (and The Kids), devemos fazer um parágrafo para a

INTRODUÇÃO A SELMA (Flash-back nº. 2)

Sally met Selma no primeiro FICNA (Festival de Cinema Nacional de Altamira). Quando abriu as janelas de sua suite, um pouco aborrecida com a voracidade dos mosquitos, q não a deixara repousar más q três míseras horas, o calor viscoso da selva grudando o tule da camisola contra el cuerpo, viu primeiro a jaguatirica de estimação do boy afastando-se da piscina com água azul importada de Amaralina (era-lhe permitido — à jaguatirica — desfrutar de um banho antes do despertar dos hóspedes) y, logo a seguir, sem tener tiempo para pensar, on the grass: uma esplêndida mulata de enormes cabelos desgrenhados enfeitados por uma selvagem flor vermelha. Era Selma, soube ao primeiro olhar. Selma olhou para ela. "Devo estar medonha' ', pensou Sally sorrindo com a boca fechada para ocultar o aparelho nos dentes. Tão logo a viu, com gestos bruscos, Selma jogou longe a parte superior do maiô tigrado, colocou-se subitamente em pé, apanhou o primeiro cipó y desapareceu na selva com um rugido estarrecedor.
Sally desceu as stairs, tomo de la parte superior do maiô y comprimiu-a ardentemente contra o ventre. Selma, Selma Jaguarassu, the queen of the jungle, estava here/now, em carne (farta) y ossos (poucos), tinha visto com sus próprios ojos, pensou ajeitando os óculos de lentes um y meio no esquerdo y três y un cuarto no direito. A la noche, cuando tentava dormir, después de ter assistido à pré-estréia de Quem muito dá um dia se escracha, ainda intrigada com a lúcida colocação sócio-político-existencial, se bem que um tanto niilista, do jovem diretor Valdomiro Jorge, com quem tomara gin-fizz no grill-room do Altamira's Palace Hotel até as três da matina, tentando provar-lhe exatamente o contrário da proposição da controvertida obra, ou seja: que seria perfeitamente posible dar ainda muitíssimo mais (caso houvesse demanda) sem chegar contudo never a escrachar-se, hipótese contra a qual o rebelde Valdomiro Jorge, na ânsia kierkegaardiana de organizar o Kaos, não poderia jamais concordar, caso contrário precisaria abdicar de todas as suas concepções cinematógrafo-sócio-político-existenciais — enfim: tentava dormir, por la noche, cuando um rumor violento fez com que soerguesse o busto no leito. As narinas frementes, ali estava a voluptuosa Selma Jaguarassu:
SELMA (com um rugido agreste): Vim buscar a parte superior do meu maio tigrado.
SALLY (desabotoando lentamente a camisola de tule): Está em meu corpo. (Sussurrando) lt's in my body. (Gemendo) Está en mi cuerpo.
SELMA (rosnando e cingindo a cintura da donzela num feroz amplexo): S. i. m. p.!
Obs.: (Nesta altura, para evitar — embora inevitáveis — futuros problemas com a conhecida firma distribuidora dos afamados Cintos de Castidade Mental S.S., a câmera pode (deve) desviar-se dos corpos suados para el reloj de cabeceira e fixá-lo durante o tempo necessário. A trilha sonora deve manter, em contraponto, suspiros y gemidos very hots com o tique-taque cibernético del reloj — se possível, digital, y se possível, ainda, sugere-se que desperte com a interpretação de Ney Matogrosso para "Trepa no coqueiro", finalizando então a tomada).
Después desse curioso phato, tornaram-se amigas inseparáveis, univitelinas, embora por vezes tivessem alguns choques ideológicos. Profundamente latina, sometimes Selma criticava acerbamente o vocabulário y los maneirismos anglo-saxões de Sally, citando como argumento as seguintes palavras de Ruy Barbosa: Uma raça cujo espírito não defende o seu solo e o seu idioma entrega a alma ao estrangeiro, antes de ser por ele absorvida, y llegando mismo a lamentá-la como vítima-símbolo da violação de nossa cultura y do escapismo da juventude; ao passo que Sally, embora admirasse a Selma más q a su própio ego, obtemperava ser essa atitude, a essa altura do campeonato, inteiramente utópica & reacionaria, citando Mick Jagger (it 's only rock and roll, but I like it) y chamando-a de vestal de um deus morto, festiva, careta y otros adjetivos menos publicáveis. Como não eram dogmáticas, concluíam q, embora estivessem no mesmo barco, as maneiras de remar podiam perfeitamente ser diferentes. Além do q, acrescentavam em coro, acariciando os mútuos seios, o barco estava inapelavelmente furado. Y todo bien. Or not. Separaram-se con los ojos marejados de lágrimas amargas: Selma ofereceu sua casinha palafita às margens do Maicuru, margem esquerda do Amazonas, y Sally su departamento na av. João Pessoa, Porto Alegre, 90 000.


DECISÃO FATAL

Ahora, in front of the glass, peruca verde etc. etc, Sally pensava justamente em Selma. Não tinha mais nobody-nadie a quem recorrer. Localizou o Comando Geográfico em su mind, discou o código da América do Sul e, rapidamente, traçou o roteiro. Do Maicuru poderia, fácil e clandestinamente, atingir o Suriname; do Suriname alcançaria Trinidad, passando por Tobago, Granada, St. Vin-cent, Barbados, Martinica, Dominica, Guadalupe, Antigua y Barbuda, hasta Puerto Rico, República Dominicana, Haiti, Cuba — Cuba não ("este passaporte não é válido para Cuba", lembrou), melhor desviar pelas Bahamas, hasta Nassau y la Florida, onde poderia vender algum artesanato aos veranista y llegar finalmente a El Paso, onde Don a esperaria com uma cesta de flores de peyote ainda frescas, como de costume.
Selma naturalmente não a acompanharia, fiel a su luxuriante y úmido amazonic dream. Sally não se atrevia a partir sozinha. Roeu algumas unhas antes de a luz fazer-se em su cabeza y recordar-se — of course! — dos Kids. Como pudera olvidá-los? Ligou imediatamente para o IAPI, pediu para falar com Mike Pocket-Knife. Ele atendeu prontamente, dizendo q estava à espera (havia uma insólita relação telepática entre os dois). Ela perguntou se seu passaporte mais o dos outros Kids estavam em ordem. Ele disse q não, mas podia conseguir alguns no mercado negro em questão de quarenta minutos. Ela perguntou se estariam a fim de acompanhá-la numa pequena trip. Expôs-lhe o tra(pro)jeto. Sem manifestar nenhum entusiasmo, ele disse secamente q sim. Providenciaria os papéis para todos, daria uma revisada nas motos, compraria um novo blusão de coiro y la aguardaria dentro de dos horas na saída da freeway próxima à Rodoviária. Sally desligou. Conhecia-o sobejamente bem para saber q não blefava.

EPILOGUS

Os dados estavam lançados. Arrancou nervosamente a peruca verde, verteu solvente nas unhas, espatifou o longo de cetim púrpura y as sandálias-douradas-de-altíssimas-plataformas, tomou da mochila no guarda-roupa y jogou inside: 1 par de jeans boca justa outro boca larga (não sabia como estava a moda no Caribe); 1 pandeiro com fitas; l foto de Mercedes Sosa (presente para Selma); l seringa nova (presente para Mike); 1 pôster de Mick Jagger; l fita magnética com o último LP de Rita Lee; 1 recorte de uma entrevista com Denise Bandeira; l túnica indiana; 1 vidrinho de patchuli, pela metade; 1 exemplar de Be Here Now; 1 par de tênis e 1 bustier de lamê prateado q comprara no verão passado em Buenos Aires. Rodou por alguns segundos pelo quarto, antes de atinar com o sleeping-bag y a barraca Priscilla detrás de la puerta. Después, foi até o banheiro, apanhou o batom ciclamen e riscou fuerte no espelho: Sally doesn't live here anymore. Cheirou duas ou três carreiras e, antes de sair, ainda teve tempo de jogar contra os ladrilhos a velha seringa manchada de sangre. No elevador, cruzou com la madrecita.
— lt's ali right, man — disse batendo a porta. — I'm only bleeding.
— Já te disse mais de mil vezes que não entendo inglês, Maria Suely — resmungou la madre.

THE END (exit)


CONSIDERAÇÕES FINAIS

§ 1. About Selma: sabe-se q atualmente percorre a bacia amazônica colhendo grandes aplausos da crítica especializada, sob o pseudônimo de Jacira, a Fera Equatorial, engajada como trapezista no Gran Circus Life Circus Est, de propriedade da trapezista Gilda, com quem, comenta-se, mantém conturbado envolvimento sáphico.
§ 2. About the brother-sister: foi aprovado(a) em décimo quarto lugar no vestibular para o Curso Superior de Economês da UNISINOS. Tanto ele(a) como la madrecita concordam q assim foi mejor para todos.
§ 3- About Sally (and The Kids): recentemente foram vistos fazendo auto-stop on the road between Tucson y Dallas. Mike Pocket-Knife usava uma fantasia de Besta do Apocalipse, com o número 666 aplicado sobre o sexo volumoso; Pete Syringe trazia o braço direito na tipóia e Sally usava um penteado mula-manca, sapatos salto-agulha e saia godê-ponche. Nada mais se soube.

MORAIS OPTATIVAS

(Assinale com um x a sua preferida ou acrescente na linha pontilhada a sua sugestão)
D Bevette piú latte.
D La dicha es una arma caliente.
D Quem não dormiu no sleeping-bag, nem sequer sonhou.
D Brazilian are, before anything, a strong people.
D Je suis comme je suis.
D The dream is really over.
D Não é nada disso.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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| Por Lara | 10.6.07 | 14:50.


Para Lucienne Samôr

Eu tava atormentando as formigas com uma varinha embaixo da goiabeira quando a Malu veio me dizer que o Bituca ia fugir com o circo. Eu fingi que não acreditei. Disse que o Bituca só falava aquilo pra incomodar ela, que ela vivia andando atrás dele que nem carrapato e ele não via um jeito de se ver livre. E menti que o Bituca tinha me dito que se ela contasse aquilo pra qualquer pessoa ele ficava de mal com ela pra toda a vida. O Bituca era meu amigo, eu sabia tudo o que ele pensava e fazia. A Malu saiu correndo meio chorando, e de repente me deu cansaço de estar ali, a tarde toda, atormentando aquelas formigas tontas com a varinha. Eu tinha que falar com o Bituca.
A tarde tava muito quente, eu acho que era janeiro, e eu fui caminhando pela sombra até a casa dele. Só que quase não tinha sombra, era pouco depois do meio-dia e o chão tava tão quente que eu precisava caminhar me equilibrando no garrão. Quando cheguei na casa do Bituca a mãe dele me disse que ele não tava. Eu perguntei se ela não sabia onde ele andava e ela disse que não, mas se eu encontrasse com ele era para dizer pra ele ir já para casa tomar banho e que se a calça nova tivesse esbragalada ele ia levar uma tunda de laço. Eu disse que tava bem, e fui saindo, quando eu já tava quase no portão me deu vontade de perguntar se ela sabia que ele ia fugir com o Grande Circo Robatini, cheguei a ficar de boca aberta, daí eu pensei bem depressa e achei que não devia perguntar aquilo, seria como se eu traísse o Bituca. E ele era meu amigo. Aí eu disse que era sede, que o sol tava muito quente, e a dona Laurita foi muito boazinha, falou que ia buscar um copo de água gelada. Eu tava mesmo com muita sede, mas quando ela voltou com o copo eu já tinha corrido até a esquina. É que eu não aguentaria não dizer nada enquanto ela ficava ali, encostada na porta, me olhando de dentro daquele vestido de florzinha azul. Eu sabia que a dona Laurita não ia gostar de saber que o filho dela ia fugir, mas ela tava sendo tão boazinha comigo que eu até ficava com vontade de ser bom também. Só que se eu fosse bonzinho com ela eu estaria traindo o Bituca, e essas coisas todas faziam uma baita bagunça na minha cabeça, então eu saí correndo pra ir até o circo. Fazia tanto calor que eu tive vontade de dizer Kimota!, me transformar no Jack Marvel Jr. e ir voando até lá. Eu sabia que não adiantava, mas disse assim mesmo — Kimota! Shazam! —, não aconteceu nada e eu tive que ir caminhando naquele baita sol.
Eles tavam desmontando tudo quando cheguei lá, eles iam embora aquela noite. Tinha uma porção de cordas e caixotes e ferros e umas coisas que eu não me lembro. Uns homens sem camisa já tinham baixado a lona e bem no meio tinha ficado um círculo sem capim, tava cheio de garrafa, ponta de cigarro, papel de chocolate, pacotinho de pipoca vazio, um monte de porcaria. Tinha cheiro de bosta de cavalo e só fazia sombra do outro lado das carrocinhas onde moravam os borlantins. Aquele solaço tava me doendo na cabeça e aquele cheiro de bosta quente e suor de cavalo, catinga de macaco, de leão e de gente grande me dava vontade de vomitar. Tinha uma porção de homens mexendo naqueles troços todos e uns piás espiando e fui me chegando sem coragem de perguntar pelo Bituca. Aí de repente eu vi ele na sombra duma carrocinha, ao lado da palmeira, conversando com Rúbia, a trapezista. O Bituca já era grande, mas a tal de Rúbia tava dando sorvete na boca dele, que nem um bebezinho. Eu cheguei e disse sem respirar:
— Bituca, a tua mãe disse pra tu ir já pra casa tomar banho e que se tu esbragalar a calça nova ela te dá uma tunda de laço.
Acho que ele não ficou muito contente de me ver, porque me olhou daquele jeito enviesado que ele só olhava quando não tava gostando de alguma coisa, vezenquando ficava até meio vesgo. Aí a Rúbia foi e perguntou se eu não queria um pedacinho de sorvete e falou que eu não devia andar descalço e sem chapéu naquela mormaceira. Eu olhei bem pra ela e disse que não, que muito obrigado, que não carecia. Foi difícil olhar bem pra ela porque ela era muito bonita, toda loirosa e perfumada, e eu ficava sempre pensando como ela conseguia fazer aquele rebuceteio com as mãos quando estava lá em cima, antes de se jogar no ar, com o maio de lantejoulas brilhantes. As mãos dela eram muito brancas e tinham umas unhonas vermelhas, as mais compridas que eu já tinha visto. Ela falou que eu era muito educado, e foi amassando o copinho de sorvete com aquelas unhonas vermelhas, e fez um barulhinho assim: crrráááác! — e nessa hora eu senti ainda mais sede e mais calor e fiquei com um ódio da Malu ter me dito aquele troço, e até pareceu que tava bom lá, na sombra, embaixo da goiabeira, mexendo com as formigas. Aí a Rúbia pegou uma Cinelândia com a Ava Gardner na capa e começou a folhear, fazendo aquele rebuceteio com as mãos antes de virar cada página. Ela era ainda mais bonita que a Ava, mesmo sem o furinho no queixo. Eu fiquei por ali, estralando as juntas dos dedos como o Bituca tinha me ensinado, e a Rúbia foi e pegou um maço de Hudson com ponta do bolso e deu um pro Bituca, pegou outro e me ofereceu, eu disse que não, obrigado, e ela perguntou se eu tinha fogo, e eu disse que não, e quase ia dizendo obrigado de novo quando o Bituca falou que ia buscar uma coisa e já voltava e me pegou com força pelo braço e foi me puxando pra perto da jaula do leão.
— Bituca — eu disse —, a Malu me contou que tu vai fugir com o circo.
Ele disse que ia mesmo e pediu o fogo pra um homem sem camisa que vinha passando. Eu nunca tinha visto o Bituca fumar antes. Vinha uma catinga forte da jaula do leão e eu ainda tava sentindo aquele perfume forte que a Rúbia usava, a catinga era nojenta, o perfume até que era gostoso, mas os dois juntos mais a fumaça do cigarro que o Bituca jogava na minha cara tavam me enjoando ainda mais o estômago.
— Bituca, a dona Laurita vai sentir a tua falta.
— Que me importa — ele falou, e jogou mais fumaça na minha cara. — Agora vou ser borlantim e ninguém tem nada com a minha vida.
— Não joga fumaça na minha cara — eu pedi. — Eu também vou sentir a tua falta.
— Por que tu não vem junto?
— Tu tá falando sério?
— Claro que tô.
Eu não sei se era aquele monte de cheiros misturados na minha barriga ou o convite do Bituca — mas naquela hora eu cheguei a ter uma tonturinha e quase me encostei na jaula catinguenta.
— Eu não posso.
— Como não pode? Tu não é diferente de mim. A gente tem a mesma idade, tá na mesma aula. Como é que eu posso e tu não? Tu tem medo?
— Eu não tenho medo de nada. Mas eu não posso.
— Pode sim. Eu falo com a Rúbia, ela deixa tu ir no carrinho dela. Já falei com ela. Vamos nós três.
— Nós três quem?
— Eu, a Rúbia e o Saul. Naquele carrinho rosa lá.
Eu olhei pro lado do carrinho. A Rúbia tinha acendido o Hudson e tava de prosa com um sujeito musculoso, de barriga cabeluda e cabeça raspada, meio parecido com o Lothar, encostado na palmeira. Ela usava um short vermelho bem curtinho, que nem o da Nyoka, a Rainha das Selvas, e de longe parecia ainda mais bonita que na parte onde a mocinha morre, em O céu uniu dois corações, que a dona Laurita chorou e disse que ela podia ser uma desfrutável e andar retocando com todo o regimento, mas que era tão boa atriz quanto a Loretta Young. E a dona Laurita entendia de artistas. A Rúbia se abanava com a Cinelândia e apontava pra nós, eu e o Bituca.
— Me dá o cigarro — pedi.
Dei uma tragada forte e fiquei olhando pro Bituca, soltando fumaça pelas ventas. A calça nova dele tava toda esbragalada e xexelenta. Puxa, ele era meu amigo e eu acreditava nele. O Bituca era bacana, nunca tinha me dito uma mentira. Eu tive vontade de ficar ali com ele, de ir embora no carrinho rosa, com Rúbia, Bituca e o domador parecido com o Lothar. Mas a tragada que dei no cigarro terminou de me esculhambar o estômago. Eu disse pra ele que tinha de ir embora. Ele segurou de novo no meu braço.
— Mas tu jura que não vai contar nada pra ninguém?
Eu pensei na dona Laurita, com aquele vestido de florzinha azul, depois pensei na Malu, com a perna fina e o carpim sempre escorregando, e pensei também em mim mesmo, atormentando as formigas. Eu só fazia essas besteiras — cravava espinho de bergamoteira no bumbum delas, matava passarinho com bodoque, jogava sal em les ma, fazia círculo de fogo em volta de escorpião e lacraia — quando o Bituca não tava comigo. Quando a gente andava junto ele inventava teatrinho de caixa de sapato, subia em árvore, fugia pra brincar no rio, me emprestava gibi, me dava figurinha do ídolos da tela e tudo. Eu ia sentir uma baita falta dele. Mas eu disse que não, eu disse depressa que não, porque a minha barriga tava toda remexida e eu não queria vomitar ali mesmo, na frente de todos os borlantins, da Nyoka e do Lothar, lá na sombra da palmeira, olhando pra gente, eles iam me achar nojento. Ele me fez jurar que não ia contar nada pra ninguém e eu jurei três vezes, por esta luz que me alumia. Daí ele me estendeu a mão e falou que quando o Grande Circo Robatini voltasse de novo à cidade eu fosse falar com ele, que me arrumava entrada de graça e eu ia poder sentar lá na frente, nas cadeiras acolchoadas e não nos poleiros onde a gente sempre ficava com a dona Laurita e a Malu. Quando ele falou isso tive certeza de que o Bituca era mesmo meu amigo e tive vontade de abraçar ele, mas precisei sair correndo pra não vomitar ali mesmo, na frente do domador com a cabeça raspada e da Rúbia com aquela Cinelândia e aquele Hudson nas mãos de unhonas vermelhas.
Só fui vomitar lá adiante, quase no portão da minha casa, embaixo das unhas-de-gato. Aí quando eu entrei na cozinha a minha mãe viu que eu tava muito branco e perguntou o que eu tinha. Eu disse que não era nada, mas ela viu que a minha camisa tava toda respingada de vômito e a minha boca fedendo que nem a jaula do leão. E quando eu pensava nisso mais me dava vontade de vomitar, e eu vomitei, me lembrando do perfume da Rúbia, da cabeça do Lothar, do Hudson com ponta, do cheiro de bosta quente de cavalo. A mãe me botou na cama, chamou o médico e o meu pai e ficaram os três fazendo uma porção de perguntas. Mas eu não traí o Bituca. Menti que tinha comido pitanga verde e ficado no sol quente, eles podiam me matar que eu não ia dizer nada nunca. Não consegui dormir direito, e no dia seguinte eles não me deixaram sair da cama e eu fiquei o dia inteiro lendo gibi, tomando guaraná com bolachinha champanhe e pensando num jeito de perguntar pelo Bituca sem que eles desconfiassem. Mas de tardezinha bateram na porta do quarto e o Bituca entrou com uma porção de gibis embaixo do braço.
— Me disseram que tu tava doente e eu trouxe isso daí pra tu ler — ele disse, jogando os gibis em cima da cama.
— Ué, tu não ia fugir com o circo?
Ele não respondeu, perguntou se podia beber um pouco de guaraná e comer bolachinha champanhe. Eu disse que podia, vi que ele não queria falar e não insisti, fiquei fingindo que tava muito interessado nos gibis que ele tinha trazido, mas eu já tinha lido quase todos, menos um Mandrake e um Durango Kid, que eu nem gostava muito, só correria e tiroteio. Aí de repente ele disse furioso:
— Aquela vaca!
— Quem? A Malu? Ela falou alguma coisa?
— A Malu não falou nada. Vaca é a Rúbia, que ficou o tempo todo dizendo que ia me levar junto, passando a mão na minha cabeça, me dando cigarro e sorvete, falando que ia me ensinar a pular do trapézio, a andar com um pé só naqueles cavalinhos. Depois, na hora agá, tirou o corpo fora, falou que o Saul não queria que eu fosse, que eu era menor.
— Menor do que ele?
— Não, bocó. Menor de idade. — Tirou um Hudson do bolso e acendeu com raiva.
— Cuidado — eu avisei. — Se a minha mãe entrar de repente não vai gostar de te ver fumando.
— Que me importa — ele falou. E ficou fumando e tomando guaraná. — Agora é muito tarde. Eu já tô viciado pra sempre. E tô desiludido da vida, posso fumar quanto quiser.
Ele parecia muito triste, dum jeito que eu nunca tinha visto. O tempo todo me olhava com aquele olho enviesado, meio vesgo. Eu deixei ele ir bebendo o guaraná e comer mais da metade do pacote de bolachinha. Depois mostrei pra ele o almanaque novo do Superman que o meu pai tinha trazido, perguntei se ele já tinha lido e ele falou que não gostava do Superman. Eu falei que no dia seguinte, quando eu melhorasse, a gente podia ir tomar banho no Uruguai. Ele disse que achava que amanhã ia chover. Eu disse que não fazia mal, que se chovesse mesmo, e não tava com jeito, a gente podia chamar a Malu e brincar de teatro no porão a tarde inteira, ela sabia A ré misteriosa de cor e salteado. Ele disse que já tava cheio de teatro, que tinha rato no porão, que a Malu era uma chata de perna fina, que A ré misteriosa era muito besta. Eu suspirei e disse que tinha conseguido a June Allyson, a Debbie Reynolds e a Fada Santoro pro álbum de ídolos da tela dele. Ele disse que não tava mais colecionando figurinha e daí a gente ficou calado uma porção de tempo. Era quase de noitezinha, e a essa hora a radiola do circo começava a tocar Recuerdos de Ypacaray, que era sempre a primeira música e vezenquando a Rúbia cantava no Big Show de domingo. Mas agora o circo tinha ido embora e o silêncio era muito grande. Ele devia estar pensando o mesmo que eu, porque de repente apagou o cigarro, jogou a ponta pela janela, acendeu outro e ficou abanando a fumaça com o almanaque do Superman. Eu pensei que se ele não gostava mais mesmo daqueles brinquedos todos eu ia ter que passar o resto da minha vida atormentando formigas embaixo da goiabeira. E quase fiquei doente de novo, só de pensar. O Bituca era bacana, era meu amigo — e eu precisava consolar ele de qualquer jeito. Então eu disse:
— Não fica assim, Bituca. O Robatini não é o único circo do mundo. Ano que vem chega outro e daí tu foge com ele. Pode ser até que dessa vez eu tome coragem e vá junto contigo.
— O ano que vem — ele resmungou, olhando enviesado e soltando a maldita fumaça do maldito Hudson bem na minha cara —, o ano que vem. Falta muito pro ano que vem. Eu devia era ter fugido com o Robatini mesmo. Mas agora é muito tarde.
— Mas vem outro — eu insisti. — E aí eu vou junto contigo.
— Não. É muito tarde. E não é só o circo. Aquela vaca da Rúbia. Mulher nefasta, me apunhalando cobardemente pelas espáduas (ele vezenquando falava que nem nas peças — acho que era influência da Rúbia e do Saul). Tu é muito jovem pra entender minha desdita.
Ele tomou o último gole de guaraná. Depois apagou e jogou o outro Hudson pela janela e disse que ia dar uma volta. Antes que ele fosse embora eu ainda tentei dizer mais alguma coisa. Acho que ia falar na Rúbia. Mas ele me olhou torto e antes de bater a porta repetiu que era muito tarde, que agora era tarde demais. Eu abri o almanaque do Superman, tentei ler mas não consegui. Naquela tarde eu tava achando a Mirian Lane, o Perry White e o Jimmy Olsen bestas demais por não descobrirem nunca que o Clark Kent é o Super-Homem.
In Pedras de Calcutá

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| Por Lara | 2.6.07 | 22:51.

"Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais."
Clarice Lispector, A Legião Estrangeira

Toco de leve num joelho e lembro: eu estava na esquina da rua X quando vi os carros se aproximarem. Mas não sabia qual sua função exata; todas as vezes que perguntara sobre isso, observei que as pessoas evitavam responder. Percebia apenas que sentiam medo. Supunha que em determinados círculos pudessem explicar-me para que serviam aqueles
enormes carros vermelhos, chamados carros-recolhedores, mas chegara havia pouco do interior e ainda não tivera acesso a nenhum círculo, exceto o da pensão onde morava, composto exclusivamente de velhos, viúvas e solteironas. Minha reação mais natural foi, portanto, sentir medo como eles. Como todos. Encolhi-me na entrada de um edifício onde, devido às sombras da noite e da iluminação escassa, julgava que eles não poderiam me ver. À parte o medo, achei bonito o carro. Quando o vi surgindo no começo da rua, varando a névoa, todo vermelho e luminoso, não pude deixar de pensar que se tratava de uma das coisas mais belas que já havia visto. Quase não havia ruído: a sua chegada era anunciada pela iluminação excessiva — além de dois grandes faróis dianteiros, havia uma série de luzes fortíssimas na parte superior e posterior do carro. Eu não podia ver os condutores, as portas não se abriam nunca e o brilho das luzes não permitia ver seus rostos. Adivinhei, porém, que usavam os uniformes do comando-geral. E encolhi-me ainda mais, indeciso entre o medo, o fascínio e a curiosidade. De onde estava, podia vê-los aproximar-se lentamente, os faróis giravam devassando os antos escuros da rua, e surpreendi-me ao perceber que ela não estava deserta como eu supunha. Em cada canto revelado pelos faróis havia um grupo de pessoas, silenciosas e sem movimentos. Todas elas usavam as roupas brancas dos descontentes. As luzes batiam em seus rostos tornando-as sobrenaturais, apenas o rosto pálido e a veste branca recortados contra a escuridão. Eram belas, tão belas quanto o carro-recolhedor.
Uma guinada súbita faz com que o joelho onde estou apoiado se esquive num movimento brusco. Os solavancos não permitem que eu o encontre novamente. Estendo as mãos para o vazio à minha frente e procuro — até encontrar dois ombros sobre os quais me debruço. Os ombros não se movem. Não se escuta nenhum som: alguma coisa foi feita para que o silêncio se estabelecesse assim absoluto aqui dentro. Também não há janelas nem luzes. Da esquina onde estava, olhei as pessoas brancas subitamente desnudadas. O carro parou e um feixe mais intenso de luz projetou-se sobre elas. No momento em que essa luz incidiu sobre seus corpos, pareceram paralisadas. Em seguida duas comportas abriram-se nos lados do carro expelindo uma espécie de vento que sugava as pessoas.
Observei que elas não lutavam nem gritavam, embora suas bocas se abrissem e seus braços ensaiassem alguns movimentos descontrolados. Flutuavam por um instante no ar gelado da noite, perdidas naquela estranha dança, agarradas umas às outras, até penetrarem pelas comportas escancaradas como bocas. As comportas fechavam-se e o carro voltava a andar, parando mais adiante, quando os faróis tornavam a repetir os mesmos movimentos. Da minha esquina, julguei compreender uma porção de coisas. Quase todas as coisas: as lágrimas de minha mãe quando decidi vir embora para a capital e os olhos assustados das pessoas que eu inquiria sobre os carros-recolhedores. Compreendi mais, e tão subitamente que se tornou impossível transformá-lo em palavras: apenas as imagens atravessavam meu cérebro como flechas superpostas, confundidas. E eu não sabia distinguir o fim de uma descoberta do começo de outra, tão interligadas estavam todas. Deixei de sentir medo e saí de meu esconderijo. No mesmo instante, o farol-mestre analisou meu corpo. Eu vestia roupas comuns, calças e camisa escuras, não brancas. Percebendo isso, o farol imediatamente se voltou para outro lado. Lentamente, abandonei a esquina. Um ar gelado bateu no meu rosto. Dei alguns passos tontos, olhei para cima e vi o edifício de vidro estendido em direção ao céu. À minha frente desdobrava-se a rua que havia pouco eu julgara deserta. Não entendia bem por quê, mas tive certeza de que tinha-me tornado, também, um descontente. Meu corpo oscila tocando outros corpos. Nenhum se esquiva.
Todos me sustentam como se me apertassem a mão. Na noite seguinte, vesti-me de branco como eles e parei na mesma esquina da rua X. À mesma hora tornei a ver a luminosidade crescendo aos poucos até expandir-se por toda a rua. Saí de meu lugar escondido e parei sob o poste. Como na noite anterior, um facho de luz nasceu do carro-recolhedor projetando-se sobre mim. Investigou-me devagar, enquanto eu apertava os olhos, ofuscado pelo brilho. Pouco depois, vi as comportas abrirem-se: o mesmo vento de ontem envolveu aos poucos meu corpo. Senti-me flutuando no ar, gritei, mas nenhum som saiu de minha boca. Tentei segurar-me no poste, mas o vento cada vez mais forte me obrigava a abrir os dedos e, cada vez mais, a flutuar.
Então penetrei pela comporta aberta. Quando meu corpo transpôs as aberturas de metal, houve ainda algum tempo em que flutuei no escuro, sugado pelo vento que diminuía lentamente. Até que meus pés tocaram alguma coisa macia, que mais tarde percebi ser um outro corpo. Acomodei-me ao lado dele, toquei-o com os dedos, de leve. Era uma jovem, creio, a julgar pelos cabelos compridos e a pele muito lisa, sem indícios de barba.
Tentei falar, perguntar quem era, para onde estavam nos levando — mas, embora abrisse a boca e sentisse a garganta vibrando para dar passagem à voz, nenhum som se ouviu. Pelos movimentos de seus ombros, percebi que ela chorava. Abracei-a, então, e permanecemos juntos até que as comportas tornaram a se abrir e novos corpos caíram sobre nós. Eram muitos. Várias vezes o carro-recolhedor parou, e de cada vez novos e novos corpos entravam. Já não conseguíamos mais nos movimentar. Perdi-me da jovem, tentei estabelecer ligação com uma outra pessoa ao meu lado, mas os freqüentes solavancos nos afastam uns dos outros, nos emaranham como fios de uma teia soprada pelo vento. Mal posso distinguir a mim mesmo dos outros. Faz muito tempo que estamos aqui: meus membros dormentes se confundem com os membros dos demais. Como se fôssemos um único organismo, composto de inúmeros braços, pernas e cabeças, harmonizados por um pensamento comum.
Agora o carro pára. Minhas unhas raspam o metal do fundo. Dentro do silêncio, um silêncio maior se faz. Alguém passa a mão no meu rosto, como se quisesse despedir-se. As comportas se abrem dando passagem a uma luz acinzentada. Vejo os rostos pálidos dos meus companheiros. Parecem crianças. Não: parecem seres de um outro mundo, um mundo futuro. Ou um mundo que não foi possível. Eles temem. Eu também temo. Abaixo de nós vejo o poço cheio de lanças pontiagudas onde se entrelaçam serpentes. Do poço até as comportas, uma rampa inclinada. Um vento começa a sugar-nos para o poço. Tento segurar-me no chão do carro, minhas unhas se estraçalham contra a aspereza do metal, meus dedos estão ensangüentados, meu corpo exausto. Outras carnes roçam a minha, bocas, seios, braços, olhos. Guardo nos dedos um punhado de cabelos que não são meus. Não resisto mais. Ao passar, alguém se agarra em mim, carregando-me junto. Vamos abraçados, nossas costas roçando doloridamente pela superfície escorregadia da rampa. Por cima de nós, um céu cinzento. Lá embaixo, as cobras e as lanças. Venenosas, agudas. Abraço com força o meu camarada e fecho os olhos como se gritasse. Como se pudesse gritar.
In Pedras de Calcutá

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| Por ludelfuego | 24.5.07 | 23:27.

ao som de "Simpathy for the Devil''

Em Garopaba o céu azul é muito forte. Não troveja quando o Cristo é colocado na cruz.
Emanuel Medeiros Vieira, "Garopaba meu amor”

Foram os primeiros a chegar. Durante a noite, o vento sacudindo a lona da barraca, podiam ouvir os gritos dos outros, as estacas de metal violando a terra. O chão amanheceu juncado de latas de cerveja copos de plástico papéis amassados pontas de cigarro seringas mnchadas de sangue latas de conserva ampolas vazias vidros de óleo de bronzear bagas bolsas de couro fotonovelas tamancos ortopédicos. Pela manhã sentaram sobre a rocha mais alta, cruzaram as pernas, respiraram sete vezes, profundamente, e pediram nada para o mar batendo na areia.
— Conta.
— Não sei.
(Tapa no ouvido direito.)
— Conta.
— Não sei.
(Tapa no ouvido esquerdo.)
— Conta.
— Não sei.
(Soco no estômago.)
Os homens estavam parados no topo da colina. O mais baixo tirou do bolso alguma coisa metálica, o sol arrancou um reflexo cego.
Quando começaram a descer, percebeu que era um revólver. Soube então que procuravam por ele. E não se moveu. Mais tarde não entenderia se masoquismo ou lentidão de reflexos, ou ainda uma obscura crença no inevitável das coisas, conjunções astrais, fatalidade. Por enquanto não.
Estava ali no meio das barracas desarmadas e os homens vinham descendo a colina em direção a ele. Havia o mar atrás, algumas rochas. E baías e matas cheias de gatos selvagens e clareiras com raízes arrancando da terra escuras substâncias para transmutá-las através do tronco em flores vermelhas, escancaradas feito feridas sangrentas na extremidade dos glhos.
Talvez não houvesse mais tarde agora, pensou ali parado enquanto os homens continuavam descendo a colina em direção a ele e o silêncio dos outros à sua volta gritava que estava perdido.

O vento sacode tanto a barraca que poderia arrancá-la do chão, soprá-la sobre a baía e nos levar pelos ares além das ruínas de Atlântida, continente perdido de Mu, ilha da Madeira, costas da África, ultrapassar o Marrocos, Tunísia, Pérsia, Turquia... (Mar, o mundo é tão vasto, você consegue imaginar o Afeganistão? de manhã cedo acordar epensar olhando o
teto: estas tábuas deste teto deste quarto foram retiradas duma árvore plantada aqui, nunca pensei que um dia dormiria embaixo dos pedaços de uma árvore afeganistanesa. Até o Nepal, Mar, o vento nos levaria para depositar-nos na praça mais central de Katmandu.)

— Se eu seguir em frente, seu veado, você pode descansar. Se eu dobrar à direita, seu filho da puta, você pode começar a rezar. Pra onde você acha que eu vou, seu maconheiro de merda?
— Pra onde o senhor quiser. Eu não sei. Não me importa mais.
Em volta há ruídos de pandeiros com fitas coloridas, assobios de flautas, violas e tambores. O vinho corre, os cigarros passam de mão em mão. Nos olhamos dentro dos olhos esverdeados de mar, nos achamos ciganos, suspiramos fundo e damos graças por este ano que se vai e nos encontra vivos e livres e belos e ainda (não sabemos como) fora das grades
de um presídio ou de um hospício. Por quanto tempo? Não há mais ruídos de pandeiros, nem fitas coloridas esvoaçam ao vento, nem sopros de flautas se perdem em direção à costa invisível da África. Não corre mais o vinho por nossas bocas secas, nossos dedos de unhas roídas até a carne seguram o medo enquanto os homens revistam as barracas. Nos misturamos confusos, sem nos olhar nos olhos. Evitamos nos encarar — por que sentimos vergonha ou piedade ou uma compreensão sangrenta do que somos e do que tudo é? —, mas, quando os olhos de um esbarram nos olhos do outro, são de criança assustada esses olhos. Cão batido, rabo entre as pernas.
Mastigamos em silêncio as chicotadas sobre nossas costas. E os corações de vidro pintado estalam ainda mais alto que as ondas quebrando contra as pedras.
— Conta.
— Não sei.
(Bofetada na face esquerda.)
— Conta.
— Não sei.
(Bofetada na face direita.)
— Conta.
— Não sei. (Pontapé nas costas.)
Mar veio correndo pelo calçamento antigo na frente da igreja, os braços estendidos em direção a ele. Os morros, os barracos dos pescadores, a casa onde dormiu dom Pedro, o calçamento na frente da igreja. Recusava-se a pisar nos paralelepípedos, os pés nus acomodavam-se melhor ao redondo quente das pedras antigas, absorvendo vibrações perdidas, rodas de carruagem, barra rendada das saias de sinhás-moças, solas cascudas dos
pés dos escravos. Mar veio correndo sobre as carruagens, as sinhás-moças, os pés cascudos e pretos. Nos chocaremos agora, no próximo segundo, nossos rostos afundados nos ombros um do outro não dirão nada, e não será preciso: neste próximo abraço deste próximo segundo para onde corro também, os braços abertos, nestas pedras de um tempo morto e mais limpo.
Aqui, agora. Quando os olhos de um localizaram os olhos (metal azul) do outro, a mão do homem fechou-se sobre seu ombro — e tudo estava perdido outra vez.

Pouca-vergonha, o dente de ouro e o cabo do revólver cintilando à luz do sol, tenho pena de você. Pouca-vergonha é fome, é doença, é miséria, é a sujeira deste lugar, pouca-vergonha é falta de liberdade e a estupidez de vocês. Pena tenho eu de você, que precisa se sujeitar a esse emprego imundo: eu sou um ser humano decente e você é um verme. Revoltadinha a bicha. Veja como se defende bem. Isso, esconde o saco com cuidado. Se você se descuidar, boneca, faço uma omelete das suas bolas. Se me entregar direitinho o serviço, você está livre agora mesmo. Entregar o quê? Entregar quem? Os nomes, quero os nomes. Confessa. O anel pesado marca a testa, como um sinete. Cabelos compridos emaranhados entre as
mãos dos homens. A cadeira quase quebra com a bofetada. Quem sabe uns choquezinhos pra avivar a memória?

Just as every cop is a criminal And all tbe sinners
saints As heads are tails just call me Lúcifer Cause I'm in need of
some restraint So if you meet me have some courtesy Have some
simpathy and some taste Use all your well-learned politesse Or I’ll lay
your soul to waste

Mar, ainda não te falei de ontem. Talvez não haja mais tempo.
Não sei se sairei vivo. Ontem lavamos na fonte os cabelos um do outro.
Depositamos a vela acesa sobre o muro. Pedir o quê, agora, Mar? Se para sempre teremos medo. Da dor física, tapa na cara, fio no nervo exposto do dente. Meu corpo vai ficar marcado pelo roxo das pancadas, não pelo roxo dos teus dentes em minha carne.
— Repete comigo: eu sou um veado imundo.
— Não.
(Tapa no ouvido direito.)
— Repete comigo: eu sou um maconheiro sujo.
— Não.
(Tapa no ouvido esquerdo.)
— Repete comigo: eu sou um filho da puta.
— Não.
(Soco no estômago.)
Luiz delira com malária no quarto. Minerva decepa com gestosprecisos a cabeça e a cauda dos peixes. Os gatos rondam. Jair está no mar pescando. Ou na putaria, ela diz. O sono dentro dos barcos, a bóia dura machucando a anca {não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos,
ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que tudo está bem, os hematomas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem). Os montes verdes do Siriú do outro lado da baía. Estar outra vez tão perto das pessoas que não ser si-mesmo e sim o ser dos outros, sal do mar roendo as pedras, espinhos cravados na carne macia do tornozelo. Curvo-me para o punhado de algas
verdes na palma de tua mão. E respiro.
Paredes caiadas de um branco sujo. O chão de cimento com restos de vômito, merda e mijo. O homem caminha para o fio com a bandeira do Brasil dependurada. Não quero entender. Isso deveria ser apenas uma metáfora, não essa bandeira real, verde-amarela que o homem joga para um canto ao mesmo tempo que seus dedos desencapam com cuidado o fio.
Depois caminha suavemente para mim, olhos postos nos meus, um sorriso doce no canto da boca de dentes podres. Da parede, um general me olha imperturbável.
Sleeping-bags, tênis e jeans estendidos sobre a grama. Os livros: Huxley, Graciliano, Castañeda, Artaud, Rubem Fonseca, Galeano, Lucienne Samôr. O morro de bananeiras e samambaias gigantescas. À noite os gatos selvagens saem do mato e vêm procurar restos de peixe na praia. Tua mão roçou de leve meu ombro quando os microfones anunciaram Marly, a mulher dos cabelos de aço e sua demonstração de força capilar. A Roda da Fortuna gira muito depressa: quando estamos em cima os demônios se soltam e afiam suas garras para nos esperar embaixo. A platéia aplaude e espera mais uma acrobacia. (Gilda arremessa no ar a outra barra presa pelo arame.) Os dentes arreganhados do horror depois de cada alegria. Colhemos cogumelos pelos montes e sabemos que o mundo não vale a nossa lucidez.
Depois da grande guerra nuclear, um vento soprando as cinzas radioativas sobre os escombros de Sodoma e Gomorra e a voz de Mick Jagger esvoaçando pelos desertos.

Pleased to meet you
Hope you guess my name
Is the nature of my game (2)
But what’s puzzlin' you
Is the nature of my game

Clama por Deus, pelo demônio. As luzes do mar são barcos pescando, não discos voadores. Com Deus me deito com Deus me levanto com a graça de Deus e do Espírito Santo se a morte me perseguir os anjos hão de me proteger, amém. Invoca seus mortos. Os que o câncer levou, os que os ferros retorcidos dos automóveis dilaceraram, os que as lâminas
cortaram, os que o excesso de barbitúricos adormeceu para sempre, os que cerraram com força nós em torno de suas gargantas em banheiros fechados dos boqueirões & praças de Munique. E vai entendendo por que os ladrões roubam e por que os assassinos matam e por que alguns empunham armas e mais além vai entendendo também as bombas e também o caos a guerra a loucura e a morte.
Cruza a pequena ponte de madeira até a praia. A igreja. A casa onde dormira dom Pedro. A colina. Não há mais ninguém no topo da colina. O vento espalha o lixo deixado pelas barracas. Tenta respirar. As costelas doem. Meu pai, precisava te dizer tanto. E não direi nada. Melhor que morras acreditando na justiça e na lei suja dos homens. Mar adentro: dias
mais tarde encontrariam suas órbitas de olhos comidos pelos peixes transbordando algas e corais. (Sentimos coisas incontroláveis, Mar: amor narcótico, amor veneno matando para sempre células nervosas, amor vizinho da loucura, maldito amor de mis entrañas: viva la muerte.) Os olhos secos. Não encontraria Mar. Não choraria. Vai entendendo cada vez mais.
Chega bem perto agora. É um ser de espuma nos cantos da boca. Olhos em brasa. Quase toca os cascos rachados. Eu estou satisfeito por encontrar você, sussurra. Enterra os dedos na areia. As unhas cheias de ódio.

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| Por ludelfuego | 21.5.07 | 21:31.

Para Ivo Bender

Não, não tem a menor importância, sacode a cabeça e ajeita os gerânios no vaso com movimentos rápidos, longe de mim essa idéia, apenas você sabe como Ruth é nervosa, e depois de tudo o que passou realmente não é de admirar. Apanha algumas pétalas caídas sobre a madeira e tritura-as entre os dedos sem parar de falar, espera qualquer coisa como um sumo grosso entre as unhas, esperma quente de homem: as pétalas partem-se secas em poeira, gotejam lentamente sobre o assoalho encerado na manhã anterior. Manhã ainda, os cristais retinem sob os raios de sol, mas você sabe, a ideia foi dela, Ruth casar-se com esse armênio gerânio Ascânio é nome de motorista de caminhão, se eu usasse longas saias varreria o chão com a espessa barra bordada, tão original sempre, Ruth, disse-lhe uma vez
que parecia uma égua no cio, talvez estivesse enganada, talvez tenha estado sempre enganada, mas aquela pele morena cheirando a sal, os olhos meio verdes de tanta luz, e o cheiro, não sei se você chegou alguma vez a reparar no cheiro dela. Era verdadeiramente obsceno, Roberto dizia sempre, tão sensível, Roberto, às vezes chegava a refugiar-se no banheiro quando Ruth assava feito um bazar oriental, e vomitava, chegava a vomitar, não que tivesse nojo; não sei se você alguma vez chegou a reparar nisso, também não era nojo, Roberto tinha uma incapacidade total para adaptar-se a coisas assim animais, como Ruth, portanto não me surpreendeu o rompimento, a fuga com Ariel, era realmente inevitável, é verdade que sofri um pouco, sobretudo depois que a surpreendi com o armênio no sofá da sala, e isso conto apenas para você. Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. E fumo, então, fico horas fumando sem pensar absolutamente nada: disseram-me uma vez que os discos voadores costumam aparecer ao crepúsculo, mas nunca consegui ver um, me pergunto se eles só se mostram para quem de certa forma está preparado, os tais escolhidos, e confesso que fico um pouco ofendida ao supor que não seja uma das escolhidas, você me entende? Claro, é preciso julgar a si próprio com o máximo de rigidez, mas não sei se você concorda, as coisas por natureza já são tão duras para mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais. Ruth havia desabotoado as calças do armênio e
estava debruçada sobre ele, não me peça detalhes, naturalmente não chego aos extremos de delicadeza de Roberto, se você insistisse em saber eu não vomitaria, mas me custa contar, apenas isso, me dilacera, é uma questão de respeito próprio, você não acha? Mamãe também ficava furiosa na hora do jantar, não dizia nada, claro, com a educação que teve mamãe jamais-jamais desceria a ponto de fazer qualquer comentário agressivo sobre aquela
situação profundamente desagradável, mas retirava-se para seu quarto e Roberto e eu íamos colocar lenços embebidos em água-de-colônia sobre suas têmporas enquanto o armênio comia na mesa da sala, a camisa sempre esabotoada, as gotas de suor pingando dos pêlos sobre o arroz, a salada, a carne, como um sal, um sol. Pobre mamãe: sentava-se na sua poltrona favorita e cruzava as pernas muito digna, uma vez a surpreendi esfregando as pernas até deitar a cabeça no espaldar da poltrona, os olhos fechados, suspirando. Ficara muito solitária depois da morte de papai, Roberto e eu compreendíamos perfeitamente essas coisas, embora não falássemos sobre elas, e nada fazíamos, apenas Ruth ironizava, não ironizava propriamente, você a conhece bem, mas fazia aquelas caras, aquelas bocas, dizia aquelas frasezinhas, depois saía a correr de conversível com o armênio. Afasta os cabelos da testa ampla com ambas as mãos e fixa os olhos na porta, vazios, medrosos, uma princesa no deserto, exilada de sua tribo, depois traça riscos nervosos nos braços da poltrona, descabelada, uma mulher das cavernas: escuta ávida o rumor da máquina decepando a grama além das janelas. Foi Roberto, coitado, quem precisou tomar conta de todos os negócios depois da morte de papai. Ruth? Não. Antes do armênio houve o grego Dmitri,
entregador de gelo, antes do grego um colega de escola, Helmut, filho de alemães, eu também não entendo bem, sempre essa mania de estrangeiros, deve ser uma forma de escapismo, Roberto ficava ofendido com isso e a chamava de judia, chamava muitas vezes de judia, até que a palavra perdesse o sentido e nem mais ele se sentisse ofendendo-a nem mais ela se sentisse ofendida, mesmo porque ela não era judia, nenhum de nós, você sabe, mamãe sempre teve uma preocupação incrível com isso, chegou a pagar um advogado para rever toda a nossa árvore genealógica. Não dou importância a essas coisas, mas havia brões, uma dama de companhia de Isabel, a Redentora, Ruth dizia também que uma escrava nagô, qualquer coisa assim, ela era meio negra, meio puta, com aquele cheiro, aquela mania
de se esfregar em todos os homens, tão deprimente, até em Ariel, coitadinho, tão indefeso com aquele olho desbotado, o melhor amigo de Roberto, foi ele quem teceu aquele xale azul-marinho que mamãe gostava tanto, um talento, um doce, Ariel, o armênio, um dia, tenho até vergonha de contar, você me perdoe, coisas assim tão íntimas, mas você é praticamente da família, não tem importância, acho, meu Deus. Mostra, o gesto largo, e entre dois suspiros, a mão no seio, alguma coisa se passou comigo desde aquela vez, não fui mais capaz de acreditar nos homens, uma vez provei da boca de Ruth, você talvez não creia, mas tinha mesmo gosto de sal, passei devagar a língua no meio de seus beiços, ela acordou e ficou me olhando, só depois de muito tempo é que fui perceber que ela estava ali acordada, me olhando, e eu não senti nada, veja a complexidade da alma humana, como dizia Roberto, nesse tempo eu andava assim observando as minhas sensações, Roberto tinha me aconselhado, então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida, era
horrível, eu sentia o cheiro do armênio o dia todo, pela casa inteira, um cheiro grosso de macho, um cheiro quase de animal, na minha pele, no meu quarto, nos meus lençóis, nos meus cabelos, na minha alma, na boca de Ruth. Roberto trazia sempre incenso junto com os cigarros, havia uns de sândalo, outros de benjoim, almíscar, alfazema, rosamusgosadaíndia, mas nada atenuava o cheiro do armênio na cozinha, nas panelas, no banheiro, nas paredes, nas mãos de Ariel, nos seios de Ruth: Ruth despia-se na minha frente e mostrava as manchas roxas dos dentes e das unhas do armênio, mamãe encontrava os pêlos do peito do armênio boiando na sopa, aquele olho verdeazulado, em todos os cantos, na fumaça dos cigarros: Roberto e eu ficávamos de olhos inchados e não conseguíamos mais rir nem inventar historinhas como antes: em todas as visões estavam Ruth e o armênio, a nudez morena, suarenta, de Ruth, e o armênio entre os sacos de arroz e açúcar no armazém de papai. Mas longe, muito longe de mim essa idéia de matá-los, embora já não tivéssemos paz dentro desta casa e mesmo no campo, para onde fugíamos nos fins de semana, Roberto e Ariel rolavam no meio da grama enquanto eu fumava olhando para os dois e sabendo do
terrível que era Roberto procurar com náusea o corpo áspero do armênio no corpo branco de Ariel que procurava o cheiro do armênio no cheiro de pinho do peito de Roberto. Mamãe não resistiu muito tempo, ai, fico esperando a volta de umas tardes sem pirâmides, sem triângulos, sem cabalas, de umas noites sem signos nem pentagramas, de uns crepúsculos sem discos voadores, e vou procurando pelas manhãs de cortinas ao vento apenas coisas como cortinas ao vento e o dia caminhando ao encontro de si mesmo no outro lado do mundo, mas já não encontro paz desde que mamãe morreu e após o enterro Roberto e Ariel fugiram para o Oriente, deixando-me sozinha com os dois, tenho medo do ranger de meus dentes e desta solidão nas entranhas, não sei por que lhe digo tudo isto, por favor, fique mais um pouco, desdobra-se agora e parece quase verdadeira embalando seus fantasmas parada no meio da sala, não sei sequer seu nome, e pouco importa, fico à espera de que abram a porta do quarto: no sétimo dia de siroco a casa estará cheia de gerânios e dessas flores morenas e esguias como beduínos, com cheiro de deserto, deixarei preparadas as facas, os sacrários, Ariel mandou-me amuletos do Nepal, tomaremos chá, embalarei
Ruth nos meus braços e depois terei muito cuidado ao depositá-la entre os sacos de açúcar para libertar a mão direita, estendê-la em direção ao armênio e tocá-lo tão fundo que por um instante ele se dissolva e fique oscilando ao vento exatamente como estes gerânios — você está vendo?

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| Por ludelfuego | | 21:24.

Como uma personagem de Tânia Faillace: os restos da escassa dignidade do dia apodreciam entre o cheiro de pastéis, os encontrões e os ônibus da praça XV. Não era uma personagem de ninguém, embora às vezes, mais por comodismo ou para não sentir-se desamparado como obra de autor anônimo, quisesse achar que sim. Mas à tardinha as dores doíam e o suor cheirava mal embaixo dos braços. À tardinha não tinha a quem recorrer e
precisava controlar a vontade de dizer para qualquer alguém, olha, venci mais um. Quando a irritação não era muita, conseguia olhar para os lados pensando que dentro das corridas, dos gritos e dos cheiros havia como olhos que não precisavam se olhar para que uma silenciosa voz coletiva repetisse, olha, venci mais um; e, quando além da não-irritação havia também um pouco de bom humor, conseguia até mesmo sorrir e falar qualquer coisa sobre o tempo com alguém da fila. Mas havia os dias molhados, quando as pessoas com capas e guarda-chuvas andavam por baixo das marquises espetando os olhos ou deixando ao desabrigo os sem capa nem guarda-chuva, como ele; mas havia aquelas pessoas que nos ônibus superlotados não sentavam imediatamente no lugar deixado vago, até que duas ou três paradas depois, tão discretamente quanto podia, ignorando grávidas, velhinhos e aleijados, ele se atrevesse a conquistar o banco (lavava muitas vezes as mãos depois de chegar em casa, canos viscosos — estafilococos, miasmas, meningites), embora soubesse que tudo ou nada disso tinha importância; mas havia as latas transbordantes de lixo e os cães sarnentos e os pivetes pedindo um-cruzeirinho-pra-minha-mãe-entrevada, mãos crispadas nas bolsas. O dia se reduzindo à sua exiguidade de ônibus tomados e máquinas batendo telefones cafezinhos pequenas paranóias visitas demoradas ao banheiro para que o tempo passasse mais depressa e o deixasse livre para. Para subir rápido a rua da Praia, atravessar a Borges, descer a galeria Chaves e plantar-se ali, entre o cheiro dos pastéis, gasolina, e o ardido-suor-dos-trabalhadores-do-Brasil, tentava inutilmente dar uma outra orientação ao cansaço despolitizado e à dor seca nas costas, alguém compreenderia? E para que tudo não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço? Às vezes também o domador que coloca a cabeça dentro da boca escancarada do leão, às vezes o equilibrista do arame suspenso no abismo, a bailarina sobre o pônei, e também o engolidor de espadas, e mais a mulher serrada ao meio — e ainda, o quê? Inesperadamente, ela chegou por trás e afundou os dedos no seu cabelo, coçando-lhe a cabeça como fazia antigamente. Ele voltou-se e afundou os dedos no seu cabelo, coçando-lhe a cabeça como fazia antigamente. Depois os dois se abraçaram e se deram beijos nas duas faces e como duas pessoas que não se vêem há muito tempo atropelaram perguntas como: por onde é que tu anda, criatura, ou exclamações como: mas tu não mudou nada, ou reticências tão demoradas que as filas chegavam a deter-se um pouco, as pessoas reclamando e uma hesitação entre mergulhar nas gentes entre um beijo e um me telefona qualquer dia e
ficar ali e convidar para qualquer coisa, mas um medo que doesse remexer naquilo, e tão mais fácil simplesmente escapar que chegou a dar dois passos. Ou três. Mas de repente estavam sentados no Chalé com dois chopes um em frente ao outro, e ela dizia que as nuvens pareciam o saiote de uma bailarina de Degas e tinha um céu laranja atrás dos edifícios e uma estrela muito brilhante que ela apontou dizendo que era Vênus e riu quando
ele mexeu com ela e disse que podia nascer uma verruga na ponta de seu dedo, e teriam ficado nesse clima por mais tempo se de repente ela não perguntasse se ele não se lembrava de um determinado bar e ele disse que sim e ela risse continuando, sabe que a garçonete nos conhecia tanto que outro dia me perguntou ué, tu não ia casar com aquele moço, e ela dissera que não, que eram apenas amigos. Então ele pediu outro chope e com um ar dramático disse que só se casaria com ela se ela tivesse um bom dote, duas vacas leiteiras, por exemplo, mas ela respondeu rindo que vacas leiteiras não tinha não, mas se servia uma coleção completa de Gênios da Pintura, e ele perguntou se tinha Bosch e Klimt, e ela disse claro, dois fascículos inteiros, e ele disse ah, vou considerar a sua proposta, e ela disse mas não pense que vou me jogar nessa empreitada (ele achou engraçado, mas foi assim mesmo
que ela disse, acentuando tanto a palavra que ele percebeu que o jeito dela falar não tinha mudado nada, sempre ironizando um pouco o próprio vocabulário e carregando de intenções o que a ela mesma parecia meio ridículo), assim no mais, ela continuou, só caso contigo se tu também tiver um dote ponderável. Ele acendeu um cigarro e ela outro e ele viu que ela havia mudado para Continental com filtro e que antigamente era Minister, Minister, gola role preta, olheiras e festivais de filmes nouvelle vague no Rex ou no Ópera, e ela odiava Godard, só gostava do trecho onde Pierrot le fou sentava numa pedra e Ana Karina vinha caminhando pela praia gritando que se há de fazer, não há nada a fazer, rien à faire e assim por diante, até chegar em primeiro plano, e então ele lembrou e disse que tinha as obras completas de Sartre, Simone e Camus, e ela fez hmmmmmm, é uma boa oferta, e se ela lembrava que tinha sido posta para fora da aula de introdução à metafísica depois de dizer que estava mergulhada na fissura ôntica, o nome científico da fossa, e ela lembrava sim. E logo em seguida ele quis falar duma passeata em que tinha apanhado dentro da catedral, e já fazia tanto tempo, todos gritando o-povo-organizado-derruba-a-ditadura-mais-pão-menos-canhão, braços dados, mas não chegou a dizer nada porque ela estava contando que fizera vinte e oito anos semana passada e que tinha ficado completamente louca o dia inteiro, ainda por cima um domingo, e que sentira vontade de escrever um conto que começasse assim, aos vinte e oito anos ela enlouqueceu completamente e de súbito abriu a
janela do quarto e pôs-se a dançar nua sobre o telhado gritando muito alto que precisava de espaço, e pediu também um segundo chope enquanto ele achava que era-um-bom-começo-se-ela-soubesse-desenvolver-bem-a-trama, mas ela apagou o cigarro e resmungou que trama, cara, eu não sei desenvolver bosta nenhuma, tenho preguiça de imaginar o que vem depois, uma clínica, por exemplo, e se ele achava possível que um conto fosse só aquilo, uma frase, e ele quis dizer ué, por que não, Mário de Andrade, por exemplo, mas começou a soprar um vento frio e ela falou que tinha também um casaco de peles imensurável comprado na Suécia e um vidrinho de patchuli pela metade, ele disse ah, então era esse o cheiro, e ela explicou que era um pouco audacioso usar porque quando boto um pouquinho os magrinhos todos na rua vêm perguntar como é que é, tá na mão, magra, tá nas ideia, bicho, eu digo, e riram um pouco até ele dizer que tinha também um pôster de Marilyn Monroe tão amarelado mas tão bonito que um amigo o fizera jurar que deixaria para ele no testamento, então não podia dispor completamente, e sem saber por que lembrou duma charge e falou, mas não se usa mais dizer assim, é antediluviano, diz cartum, nego, senão
tu passa por desatualizado, e ele riu e continuou, um cartum, então, onde tinha um palhaço ajoelhado no confessionário aos prantos enquanto o padre atrás da parede de madeira furadinha morria de rir. Foi então que ela perguntou se ele ainda continuava com a análise e ele fez que sim com a cabeça, quase dois anos, mas falando em palhaço lembrou a história do circo e quis saber o que ela achava, ela disse que se sentia mais como um peludo, e ele achou engraçadíssimo porque fazia uns dez anos que não escutava aquela palavra, chegou a ouvir bem nítido na memória um coro de vozes gritando tá-na-hora-peludo, lonas furadas, daqueles que montam e desmontam o barracão e carregam as garrafas de madeira dos malabaristas e as jaulas das feras e apanham no ar a sombrinha que a bailarina do pônei
joga longe antes de equilibrar-se num pé só, e ele pediu outro chope e foi ao banheiro mijar e quando voltou ela estava com um gato no colo sentada numa mesa de dentro, porque lá fora tinha esfriado muito e começava a chover, e ele pensou que se fosse cinema agora poderia haver um flash-back que mostrasse os dois na chuva recitando Clarice Lispector, para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho
que te doer, meu Deus, tu decorou até hoje, e o teu cabelo tá caindo, ela falou quando ele se abaixou para apanhar o maço de cigarros e acendeu um, já tem como uma tonsura, e ele suspirou sem dizer nada até ela emendar que ficava até legal, dava um ar meio místico, mas ele cortou talvez um pouco bruscamente dizendo pode ser, mas atualmente ando mais pra Freud do que pra Buda ou pra são Francisco de Assis, pois é, nada de sair por aí dando a roupa aos pobres, mas eu tenho também um Atlas celeste e ela acrescentou que no verão sabia reconhecer Orion e Escorpião, e que Escorpião levantava quando Orion já estava deitando na linha do horizonte, e que, segundo o mito, Escorpião estava sempre querendo picar o calcanhar do guerreiro, e ele contou que uma vez havia feito um círculo de fogo em
torno dum escorpião, mas ele não tinha se suicidado, o sacana, ficou esperando até o fogo apagar e ele achatá-lo com o pé, e que tinha se passado muito tempo, mas por que falar de escorpiões agora, os dois acenderam cigarros, e ela falou que era inverossímil pensar que a distância, quer dizer, o tempo que a separava dos dezoito anos era exatamente o mesmo que a separava dos trinta e oito, e tenho também uma luneta, só que quebrada, ele cortou novamente, ah eu estava me esquecendo do disco da Silvinha Telles que também tenho, ela sorriu, como é mesmo o nome? aquele assim todos acham que eu falo demais, e que ando bebendo demais, cantarolou, a voz grave, e outro flash-back, uma madrugada qualquer, cuba-libre e Maysa, que eu não largo o cigarro, tá todo riscado, então não interessa, ele afetou um ar de desprezo, logo a melhor faixa, e ela falou tu viu que horror fizeram na pracinha da ponta do Gasômetro, e mais um flash-back, os dois sem dinheiro para assistir ao Arqui-Samba no Cine Cacique e Nara Leão dizendo é a parte que te cabe neste latifúndio, deitados na grama e o barulho do rio limpo, naquele tempo, corta, outro dia fui lá e tinha uma coisa chocante, uma porção de gente morando dentro duns canos, e eu me senti tão mal olhando aquilo e de repente me pareceu que, ela olhou bem para ele, mas os
dois baixaram a cabeça quase ao mesmo tempo e, começando a despedaçar a caixa de fósforos, ele disse que era incrível assistir como as ruas iam se modificando e de repente uma casa que existia aqui de repente não ocupava mais lugar no espaço, mas apenas na memória, e assim uma porção de coisas, ela completou, e que era como ir perdendo uma memória objetiva e não encontrar fora de si nenhum referencial mais e que. Aí ela olhou o
relógio e falou que precisava mesmo ir andando antes que a chuva apertasse e as ruas ficassem alagadas, não sei se tomo um táxi ou uma gôndola, e ele chegou a abrir a boca para dizer qualquer coisa e ela perguntou o que foi, perfeitamente calma, a bolsa de couro a tiracolo e nenhuma pintura, como sempre, a fissura ôntica? e ele disse que não era nada, só ia tomar outro chope enquanto os ônibus esvaziavam um pouco mais. Então, por trás, inesperadamente, ela afundou os dedos no seu cabelo, coçando-lhe a cabeça como fazia antigamente, depois saiu depressa enquanto ele acendia outro cigarro e continuava a despedaçar a caixa de fósforos pensando coisas como: ou então o mágico que tira coelhos da cartola, ou ainda o motociclista do Globo da Morte, ou quem sabe estava nos bastidores ou na platéia ao invés de no picadeiro, como se fosse apenas um leitor e não uma personagem nem de Tânia Faillace nem de ninguém.

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| Por ludelfuego | | 21:17.

Viu primeiro a medalha, corrente dourada confundida entre os pêlos do peito, camisa laranja janela desvendando a selva onde se perderia, viu depois, antes de descer os olhos pela linha vertical dos pequenos botões brilhantes, ultrapassar o cinturão de couro para deter-se no volume realçado pela calça branca muito justa esticada contra coxas que imaginou espessas como o peito (denso matagal úmido) para onde novamente subia os olhos (rijos mamilos atrás do pano), o móvel pomo-de-adão, o azulado da barba e miúdos olhos vivos (verdes?) sob grossas sobrancelhas negras unidas sobre um brusco nariz, e então um brilho de dentes, riso/convite, por trás dos beiços vermelhos. Três passos, mediu, entupido de álcool, fumo, decibéis e corpos, tem fogo, pode me dizer as horas, qualquer coisa assim, mas o mulatinho cortou o impulso, saiote pregueado, camiseta do flamengo, a bola de futebol numa das mãos, a outra na cintura, deslocando cheiros, gim, suor, esmegma, lux, patchuli, inesperada barreira entre o alvo e a mira. No centro da pista, sobre o praticável azulado pela luz do spot, a voz dublada da cantora como se saísse da própria e delicada garganta da bichinha, gogó saliente mal disfarçado pela fita de veludo, procurou novamente o brilho de dentes, seca cintilação da alça do pivô no canino esquerdo, cabeças despenteadas, bundas aperfeiçoadas pelas calças justas quase sempre brancas, aparecer na luz negra, né, meu bem, agudos cotovelos contra seu ventre faminto repleto de uísque e cerveja e gases: sob o spot, o travesti: nós-gostamos-de-você: todo mundo agora: nós-gostamos-de-você: olhar fundo nos olhos de qualquer macho, brejeira a boca no abrir/fechar mastigando promessas insondáveis, insinuar de delícias, fechadura revelando nudez: nós-gostamos-de-você. Uma tontura crescendo como ou junto com qualquer coisa como um nojo, quase tombar, não houvesse o anteparo de corpos, bebi demais, um arroto, lábios venenosos junto a seu ouvido, queridinha, não vai entrar numa de fazer porquinho aqui em cima da boneca vai, banheiro ao fundo, primeira à direita, como de costume. A pista novamente cheia, esbarrou sem querer na bichinha esfogueteada, colhendo glórias frenesi de aplausos, você esteve ótima, meu bem, maior barato, batida sincrônica de percussão guitarras yeah yeah e de repente seu nariz quase dentro do espesso matagal (aspirar o cheiro, senti-lo enrijecer o meio das pernas oscilantes) e outra vez, rítus, convite, contração nervosa, alça metálica: oi, quanta animação: pessoal fica endiabrado no sábado: como? endiabrado, sábado, ah: escuta, no banheiro e já volto: OK espero aqui.
Inundado de mijo, a loura travestida masturbando o negro alto de âncora dourada no blazer, presságio de viagem, recompôs meticuloso enquanto a náusea rolava garganta abaixo para cair fundo no estômago, âncora dourada, a bainha das calças mergulhada no mijo cobrindo o sujo dos mosaicos, olhou desamparado o cano subindo da privada à caixa, os dedos das mãos de unhas esmaltadas e um anel desses de diploma aumentando o descascado da parede verde gosma, verde visgo, a palma úmida da mão enterrada na gosma verde viva da parede. E novamente a secura, esfarelou a tinta e como um tropel contraiu a garganta para depois expandi-la num jato espesso de pequenos amargos fragmentos cavalos derramados dos lábios, e outra vez, partículas entre os dentes, e outra mais, espuma, lâmina, âncora dourada, e outra ainda. Soluçou seco, o lenço chupando o molhado frio da testa, e novamente a âncora dourada do blazer, dedos hábeis, passou mal, meu bem, delimitada fronteira com o turbilhão, mergulhou nas vagas em braçadas hesitantes até a coluna onde antes de localizar a cintilância da (calça e arribar exausto náufrago julgou ver duas sombras se afastando em cochichos disfarçados e como uma suspeita, mas o cheiro de mata, lavanda e suor, trópico ardido, cebola crua, o fio dourado são Jorge ou são Cristóvão é o do menino nas costas? enredar-se em cipós, a língua atenta à possibilidade de visitar regiões imponderáveis, afundar em poças lamacentas até quase afogar-se em gozo de unhas farpadas, a espessura cálida palpitante brasa sob o céu estrelado da boca, arfou agora
já: vamos sair?
Ultrapassaram os táxis estacionados, a malícia contida dos motoristas e uma quase madrugada querendo brotar por trás da cartolina dos edifícios, as duas filas de coqueiros onde lixou as palmas das mãos, e depois a rua verde-vermelho e depois o parque e depois a grama molhada verde sobrenatural do mercúrio (umidade através das solas dos sapatos), acender dois cigarros, estender a mão jogando fora o fósforo para colher devagar o rijo fruto, aqui não, nego, muito claro (a voz mais rouca), esgar no canto da boca fumaça alça metálica, conheço um lugarzinho especial, recanto chinês. Avançaram pelo escuro cada vez mais denso até o pequeno templo, missa, ritual, liturgia secreta, ariscas silhuetas entre as folhagens, irmãos de maldição tão solitários que mesmo nos iguais há sempre um inimigo, contraponto de grilos, gemidos e suspiros leves como folhas pisadas numa dança, dentro não, muita bandeira, aqui no canto. Ajoelhar-se entre as pernas abertas, o ruído do fecho, narinas escancaradas para o cheiro acre das virilhas, mijo seco, talco, sebo, esperma dormido, salivas alheias, tremor dos dedos trazendo à tona finalmente o fruto, palma da mão feito bandeja expondo o banquete à sede que a língua ávida procura saciar como um cão inábil e dedos que devassam vorazes saliências reentrâncias bruscos músculos cabelos até os mamilos onde se detêm, carícia e ódio, e de repente as silhuetas destacadas da massa de folhagens e de repente o cerco e de repente o golpe, suspeita confirmada. Mas antes de a pedra fechada na mão baixar com força contra seu queixo espatifando os dentes e o rosto afundar as folhas apodrecidas sobre a poça de lama da chuva da tarde, âncora dourada, teve tempo de ver, presságio de viagem, e antes de o sangue gotejar sobre a blusa branca, um pouco antes ainda de os estilhaços de imagens e vozes e faces cruzarem seu cérebro em todas as direções, cometa espatifado, chuva sangrenta de estrelas, teve tempo de pensar, ridiculamente, e sabia que era assim, que só queria, como uma dor ainda mais aguda, e tanto que chegou a gemer, pelo que estava pensando, não pelo punho fechado muitas
vezes contra a barriga, só queria, desesperadamente, um pouco de. Ou: qualquer coisa assim.

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| Por ludelfuego | | 21:09.

E tudo é proibido. Então, falamos.
Carlos Drummond de Andrade, "Certas palavras”

Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar.
As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: "Ou você aprende ou morre".
Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.

Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.

Na terceira noite, o navio afundou.

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| Por ludelfuego | | 21:04.

Para Juarez Fonseca

Eu sou o menino que abriu a porta das feras no dia em que todas as
famílias visitam o zôo.

Gilberto Gil, "Zooilógico”

Honti nóisfumoz no sológico. Foi um bunito paçeio. Eu goztei muntu du sológico. Nóis demo aminduim pru elephanti. Mais du qui eu maiz goztei foi da sebra qui é alistadinha qui nem u pijama du meu vô Noé.
Apenas não sabiam exatamente por que tinham ido parar no jardim zoológico. Pois se tinham existido os campos, um pouco antes, a encosta cheia de vacas olhando para eles com grandes olhos castanhos, o lago lá embaixo, a superfície do lago com suas manchas móveis, azuis e verdes, os quero-queros que não os deixavam aproximar-se demasiado, com vôos rasantes sobre suas cabeças nuas. Como em Os pássaros, alguém lembrou sem muito propósito, porque os quero-queros de maneira alguma pareciam ameaçadores. Nada ameaçava ninguém naquela encosta, um deles disse que gostaria de ficar para sempre ali, entre o cheiro de terra, bosta de vaca, capim, esmagando ervinhas com o corpo, o verde novinho de outubro rebentando em brotos macios. Sim, sim, sim — a encosta, o campo,o lago, os cheiros, um pouco antes. Poderiam ter permanecido lá o tempo que quisessem, mas agora estavam numa fila de carros e precisavam pagar e pagaram e o cobrador não tinha perguntado se eram estudantes e estudante tinha desconto mas agora o cobrador já tinha preenchido um talão e alguém quis reclamar mas outro disse que não, coitado do moço, devia preencher mais de mil talões por dia e tudo continuava bem embora estivessem chegando de campos inteiramente gratuitos, sem talões, sem cobrador, coitado, com aquela calça Lee tão esfarrapadinha, sem filas de carros, sem. O automóvel movia-se lento, os seis pesando dentro. O automóvel movia-se entre dezenas de outros automóveis. O automóvel movia-se quase imóvel. Tanto que eles eram obrigados a ver, a não ser que fechassem os olhos. Mas fazia calor, fechar os olhos trazia uma cegueira úmida, heia de felpas. Eram forçados a abri-los para ver. E o que viam. Alguém tentou brincar dizendo que o estampado da zebra era extremamente artístico, vejam só, uma precursora da op-art, e todos riram, os olhos parados da zebra, meio nervosamente, o camelo era um momento pouco inspirado de Deus, havia uma amiga deles parecida com o camelo, os cascos rachados, e depois as corças, não sabiam bem se corças ou cervos ou veados ou mesmo gazelas, mas corças era tão bonito que repetiam encantados, as corças! as corças!, e um lhama, você já foi ao Peru?, e búfalos, e mais carros, a poeira da estrada, as pessoas oferecendo Coca-Cola, amendoim, pipoca para os javalis, o elefante introduzia a tromba no tanque de água vazio e jogava terra seca sobre a casca grossa, o elefante não tinha presas, o elefante quase cego e surdo, como todos os elefantes, mas aquele especialmente cego, especialmente surdo, sem um cemitério onde pudesse morrer discreto, recolhido, obrigado a morrer sordidamente na presença das mocinhas de pantalonas e colantes e jóias de plástico que riam jogando coisas secas para o elefante sedento. Rodaram estonteados por alguns minutos, depois a moça conseguiu estacionar o carro e desceram rápidos, como se não suportassem ficar juntos por mais um segundo sequer, então procuraram procuraram. Cimento, arame farpado: uma cerca alta cortou seus passos. Voltaram-se para o outro lado, mas as pessoas, as pessoas em mesas de madeira cortando nacos de carne sangrenta com facas afiadas, podiam sentir a carne fibrosa espirrando sangue quando os dentes se fechavam em torno dela, o cheiro de carne queimada que o vento espalhava entre os pinheiros, o vôo rasante dos quero-queros, latas vazias, pontas de cigarro, papéis engordurados, crianças nuas, senhoras gordas balançando-se em redes, adolescentes mastigando olhos castanhos de vaca torrados na brasa, homens sem camisa, os músculos do peito movendo-se atrás dos pêlos no gesto de cortar galhos para suas fogueiras, garrafas de cerveja, sacolas de plástico & arrotos sobre a grama. Deram volta, os seis, à esquerda havia um campo quase como aquele de antes, onde não tinham ousado ficar porque era liberdade demais? e não suportariam? mais um campo de vacas e quero-queros? E outra cerca. Uma placa proibindo a entrada. desorganizaram-se e de repente um não sabia mais onde estava o outro, levaram alguns segundos para localizar-se outra vez, os olhos de cada um lendo no rosto do outro o que ainda não tinham decifrado no próprio olho, contaram-se: cinco. O rapaz com a pedrinha da Mauritânia no pescoço tinha desaparecido (era uma pedrinha estampada, diziam que na Mauritânia havia rochas e rochas inteiras assim, estampadas, coloridas — mas eles nunca tinham estado lá, da Mauritânia, além de lendas, só conheciam a pedrinha que o rapaz desaparecido trazia). Um outro enveredou às cegas por um caminho de gravatás e lá no fundo descobriu, com alívio, no fundo do caminho estava o desaparecido, de pernas cruzadas, como se meditasse. Aproximou-se devagar, controlando o estalo dos gravetos sob a sola dos tênis, pensou em cobrir-lhe os olhos com as mãos em concha, como quando eram crianças, nunca tinham sido crianças juntos, mas não tinha importância, aproximou-se devagar e viu o movimento dos ombros do outro, que se ergueu brusco, chorando, as faces congestionadas. No mesmo momento abraçaram-se e o rapaz que não estava perdido, sem que fosse nem um pouco necessário, atropelou perguntas como o-que-foi-que-calma-te-aconteceu-respira-fundo-calma-por-que-você-calma-está-chorando-assim-calma-está-calma-tudo-calma-bem. Depois desabraçaram-se, afastaram-se, a pedrinha da Mauritânia, ele viu, e um pouco acima a boca do rapaz que chorava perguntou:
— O que fizeram de nós?
Tentou apontar as cercas, talvez as jaulas, o lixo cobrindo a grama. Mas não conseguiu. Apenas soluçava e repetia:
— Eu tenho ódio. Eu tenho muito ódio.
E rapidamente os outros quatro estavam também ali com eles. O rapaz sentou-se chorando num tronco coberto de musgo, as unhas rasgavam o musgo verde-escuro enterrando-se na madeira, os dentes cerrados, os pés afundados entre os espinhos dos gravatás. Existiam cercas, souberam de repente, ou não de repente, mais uma vez, e quietamente souberam como nunca tinham sabido antes, os seis: existiam cercas, concreto, arame farpado, existiam cercas segregando animais e verde.
— As cercas — ele disse. —Já não somos humanos. Que não suportaria ver de novo, mas era preciso que se movessem, como se o lugar tivesse ficado impregnado do ódio que o rapaz descarregara e se fechasse, cheio de arestas, sobre suas cabeças confusamente lúcidas. Aos tropeções rastejaram até um pequeno gramado onde permaneceram cegos, surdos, mudos, de mãos vazias, sem coragem de olhar-se nos olhos, as pessoas em volta hesitando entre jogar-lhes pipocas ou procurar animais mais interessantes. Caminharam lentos, as cabeças baixas, uma escassa manada, por uma escada de madeira até o bosque de eucaliptos e foram entrando sem olhar para trás. No meio da clareira as folhas secas estalaram sob seus pés. Sem saber, tiveram certeza e deixaram que os troncos das árvores e o chão aos poucos sustentassem o cansaço das costas de cada um. Passou-se algum tempo — como se o que acontecesse aqui, agora, fosse uma história qualquer contada por qualquer um deles e não o que acontecia ali, então. Algum tempo de mãos cruzadas na nuca e olhos postos na copa dos eucaliptos, passou-se. Depois apareceu uma borboleta negra, laranja e azul esvoaçando sem rumo e alguém disse que elas viviam apenas vinte e quatro horas, que não precisavam trabalhar nem montar um lar, o lar eram as flores onde iam pousando descuidadas, depositando seus ovos, e os filhos que se virassem sozinhos. Mas antes alguém lembrou, ou ninguém, talvez todos tenham pensado sem dizer, antes foram crisálida, larva lenta, feia, cascuda, escura, fechada sobre si mesma, elaborando em silêncio e desbeleza as asas de mais tarde. Suspiraram e riram e fizeram coisas como observar uma fileira de formigas tirando pacientes mínimos montículos do interior da terra para depositá-los longe, de maneira a não atrapalhá-las em suas entradas e saídas, e um outro disse que o estalo na ponta do chicote era a barreira do som sendo quebrada, e todos riram outra vez, o verde vibrante de uma mosca varejeira, jóia viva parada no ar. Então estavam outra vez dentro do automóvel e vinham voltando por entre as fábricas. O ar cheirava mal, a fuligem das chaminés depositava-se nas dobras da roupa, um dia, disseram, um dia talvez consigam acarpetar toda a terra de asfalto. Mas restarão os mares, um outro quis reclamar, veemente, mas lembrou-se de que os mares seriam grandes extensões de lodo e lixo. E no meio da estrada um rapaz espancava um cavalo, o chicote inúmeras vezes quebrando a barreira do som sobre as ancas do animal. Filho da puta, gritaram com as sobras do ódio, vai chicotear tua mãe, mas o rapaz botou a mão no pau escancarando as pernas os dentes afiados, carnívoros, depois as pontes, o sangue dos caminhões e o muro separando a cidade do rio como a parede de um túnel fechando-se sobre eles nos últimos andares dos edifícios — como se escorregassem pela garganta de um enorme animal metálico, como se caíssem sem fundo nem volta, sugados por um estômago que os digeriria faminto, massa visguenta, em direção às inúmeras voltas de um intestino de concreto para defecá-los numa vala podre. A sinaleira mandou que seguissem em frente. Eles seguiram. Alguém acendeu um cigarro. Outro rebuscou um biscoito no fundo do pacote. A moça ligou o rádio. A moça esperava um bebé. O rádio tocou um blues. Os blues costumam ser lentos, doloridos. Aquele também. Eles acompanharam o lento e o dolorido com os dedos tamborilando nos vidros sujos.

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| Por ludelfuego | | 20:28.

A marquesa tomou seu chá às cinco horas. Depois, como de hábito, colocou a xícara sobre a mesa e ficou olhando pela janela. Pela janela a marquesa não via muita coisa: o cimento do viaduto invadindo o bloco de edifícios no lado oposto da rua cobria quase toda a visão. Restavam pequenas frestas entre as paredes de cimento, cinco ou dez centímetros de rio, mas tão longe que era impossível sentir seu cheiro, o cheiro podre do rio.
Por cima a marquesa via o céu, um céu quase sempre rosado de sujeira, algumas estrelas à noite, poucas, vesgas; por baixo a rua, os carros que passavam, mas era desinteressante ver carros passando e pessoas tão pequenas que a marquesa não podia desvendar seus rostos, atribuir-lhes passados, desgraças e futuros, como antigamente. A marquesa gostava de pessoas? Achava que sim, quando estava sozinha achava ardentemente que sim, mesmo aquelas do bloco de edifícios na calçada oposta, que espiavam a sua vida por entre as frestas das persianas, como se ela andasse sempre nua. A marquesa também espiava a vida das pessoas do outro lado, mas espiava sem curiosidade de ver, um que outro rapaz saindo do banho, cabeça molhada, um homem beijando uma mulher, nunca ninguém se masturbando ou fazendo amor ou injetando algo na veia ou tentando o suicídio com navalha. Então a marquesa olhava desinteressada, procurava um resto de chá no fundo do bule ou se perdia em pequenas ações, como acender outro cigarro ou escovar cem vezes os cabelos ou lixar cuidadosamente as unhas. Depois, ou mesmo durante, mas nunca antes: a
marquesa pensava na espuma dos rios.
Imaginava-a roxa. No máximo verde. Ou roxa e verde ao mesmo tempo. (Roxos tinham sido os panos cobrindo estátuas na Semana Santa; verde era o podre avançando nos cadáveres.) Roxa, verde, a espuma crescia sobre os rios, depois o vento soprava montoando-a em grandes blocos que levava pelas ruas. A espuma chocava-se contra portas fechadas, depositava-se sobre vidraças, a madeira e o cimento, corroía-os lentamente. A espuma avançava enquanto as pessoas buscavam o fundo de suas próprias casas, até ficarem encurraladas contra a última parede. Então a espuma tocava macia suas peles, aos poucos roía em roxo e verde a carne, os músculos, os próprios ossos. E nada restava daquelas pessoas. Nem mesmo poeira que o vento soprasse.
Quando chegava nesse ponto, os músculos das espáduas da marquesa se enrijeciam — e pensava então no seu passeio pelas ruas, sábado à tarde, que seu repertório não era muito. Mas pensar no passeio levava-a à Cidade Baixa, e, na esquina de uma das ruas da Cidade Baixa, à farmácia. E na farmácia (a marquesa caminhava devagar na rua. Havia poucos automóveis. Aos sábados era fácil atravessar as ruas sem olhar muito para os lados nem sentir dor nos ouvidos. A marquesa caminhava descuidada. Às vezes chegava a comprar flores e até mesmo uma maçã, a mais vermelha que conseguisse encontrar. E ia assim, as flores apertadas junto ao peito, esfregando a maçã contra o vestido, lentamente, porque alguém lhe dissera que as maçãs — não somente as maçãs, mas também as goiabas, as pêras e os pêssegos, mas deixara de comprar pêssegos desde que soubera do veneno por trás da casca veludosa — mas enfim, embora, as maçãs, as frutas: alguém dissera que só gostavam de ser comidas assim, num ritual. A marquesa caminhava. Prepararia o ritual ao chegar em casa, colocando as flores no vaso de louça, acendendo velas e dizendo sorridente à maçã: "Um dia meu corpo servirá de adubo para muitas macieiras crescerem". A marquesa. Tão distraída vinha que não chegava a perceber quando começava a acontecer a cena da farmácia. Assim: quando tomava consciência de si e do que a cercava, já estava dentro do que acontecia. E o que acontecia, dentro da farmácia)... era um homem com uma arma na mão e um crioulo forte, vestido de branco. Percebia mais o crioulo como uma mancha escura dentro de outra mancha, clara. Rapidamente: aquelas manchas escura e clara que eram o crioulo recuavam, móveis, enquanto o homem apontava a arma e disparava. O crioulo caía primeiro para trás, contra uma prateleira de remédios, depois ele e os remédios caíam juntos sobre o balcão e de algum lugar entre aquelas manchas nascia uma outra, vermelha, que escorria em direção aos pés da marquesa enquanto muita gente corria e a empurrava e gritava muito alto e segurava o homem com a arma que tornava a disparar e uma coisa quente passava zunindo junto a seus cabelos. Perdia-se depois entre o barulho das motocicletas, a poeira seca das ruas e as vibrações coloridas dos televisores atrás das persianas abaixadas. Um tempo depois, não sabia quanto, de mãos vazias, a marquesa estava novamente em casa.
A marquesa suspirava, esmagada pelo difícil de pensar em si mesma sem maçã nem flores, e tornava a olhar pela janela e ratos. (Eram ratos na rua, no ônibus, na praça, ratos trocadores correndo de toca em toca com seus objetos presos entre os dentes arreganhados. A marquesa lembrava: alguém dissera, talvez aquele mesmo do ritual, que outro alguém colocara alguns casais de ratos a se reproduzirem num determinado espaço. Depois de algum tempo os ratos tornavam-se agressivos, entredevoravam-se, enlouqueciam, comiam os próprios filhos, mantinham relações homossexuais, alguém dissera, os ratos. E os sagüis.) Era uma vez dois sagüis presos numa gaiola. Até que um dia um começou a roer a cauda do outro. Então o dono dos sagüis retirou da gaiola o de cauda semi-devorada e no dia seguinte o sagüi antropófago tinha começado a devorar a própria cauda. Não sabia como terminava a história, talvez acabasse aí mesmo com reticências. Mas a marquesa não conseguia segurar o pensamento, e em breve tinha dentro da sala uma gaiola com os ossos de um sagüi devorado por si mesmo. Talvez restassem os olhos, arriscava, fosforescência, dentes saciados, um pequeno estômago repleto de si mesmo.
A marquesa fascinava-se de horror e ia até a quitinete encher o bule para fazer mais chá. Mas a água sempre acabava nas torneiras e ela precisava sair à rua para buscar água mineral, chegava a colocar a chave no bolso e os dedos no trinco da porta. Quando os dedos se fechavam em torno do trinco para iniciar o movimento de baixá-lo, a marquesa pensava rapidamente, e por ordem: 1) na espuma; 2) na farmácia; 3) nos ratos; 4) nos sagüis. E recuava, a marquesa ia recuando contra a janela de vidro. Poderia imaginar também bolhas ou ratos escorregando por baixo da porta, mas preferia sentar na cadeira junto à janela e comprimir o rosto contra o vidro, olhando para além da grade. Mas fora, fora só havia caixas e caixas de cimento, latas transbordantes de lixo, automóveis zunindo, espuma sobre os rios, tiros nas farmácias, sagüis entredevorados. Bebericava com nojo dois dedos de água. açucarada e fria no fundo da xícara. A xícara bonita, com alguns pastores e florezinhas azuis — admirava sem emoção, indicador e polegar segurando firmes a asa, dedo mínimo suspenso no ar. "Se eu fosse uma personagem de romance antigo", pensava, "agora jogaria a xícara, ou melhor, a taça ao chão." O autor certamente saberia tirar algum efeito: a) dos cacos espalhados pelo assoalho, talvez um último raio de sol brincando
na coroa de flores da pastora; b) ou então faria com que ela olhasse fixamente para um quadro na parede: em algum lugar, numa praia deserta e distante, uma onda batia forte contra um rochedo, espalhando espuma em todas as direções; c) ou faria com que o marquês, devia haver um marquês qualquer naquela ou nesta história, entrasse de repente para possuí-la sobre tapetes persas, jogando as inúmeras saias sobre a baixela de prata; d) ou que enchesse sôfrega a seringa, procurando a veia, enquanto um rock tocasse na vitrola; e) ou apenas gritasse muito alto, durante muito tempo, até ficar rouca e muda, sem ninguém ouvir. Qualquer coisa, a marquesa pediu, encolhendo-se contra a última parede da gaiola, qualquer coisa aqui, agora — antes do ponto final.

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| Por ludelfuego | | 20:19.