Esse blog está concorrendo ao prêmio 5 ESTRELAS, promovido pela ELZA e ÓBVIO, indicado por ELE (sempre doce, sempre doce...) e a gente tem que publicar as regras e tals pra validar (eu acho), então lá vai:


prêmio blog 5 estrelas

1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogs ativos há mais de um mês [os outros esperem por outra ideia brilhante que alguém irá ter].

2. Cada blogger deverá referenciar cinco nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogger só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor desejar], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail: elzinhalinda@gmail.com. No e-mail, além da sua escolha, deverão indicar o link para o post onde postaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 27/08/2007.
4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:
- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);
- Os votos no blog Nada pra mim.

5. Cada blog que for indicado ou indicar, deve conter de onde veio a origem do concurso, ou seja deverão manter um link para este blog afim de que outras pessoas possam conhecer a idealizadora da idéia.

No dia 31.8.2007 serão anunciados os vencedores.



AND THE OSCAR GOES TO:

CAFEÍNA
MÍNIMOS ÓBVIOS
CALEIDOSCÓPICA
UH, BABY!!!
JERICO

Marcadores:

| Por ludelfuego | 15.8.07 | 21:23.


Ele escreve bem, é culto, é cult, inteligente, tem classe, charme, é LINDO, como vocês podem constatar nessa foto ai de cima, e nossa, como ele tem bom gosto. E Ele me deu o melhor presente de todos os tempos, talvez ele não tenha noção disso, mas foi o melhor presente sim. Ele me deu O template novo pra esse BLOG, um blog que fiz com muito carinho, por pura ideologia (disponibilizar todos os textos do Caio, de graça, na Net). Eu não sei agradecer presentes, porque não sei ganhar presentes, fico bem sem jeito pois, por incrível que pareça, eu tenho uma porção de timidez muito maior do que possa parecer.
De qualquer forma, OBRIGADA QUERIDO, você não sabe como me fez feliz.
Ah! e que
VOCÊ seja sempre doce..., as usual

Marcadores:

| Por ludelfuego | 1.7.07 | 18:35.

"Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair"

da Revista Bravo! fev 2006

Marcadores:

| Por Lara | 20.6.07 | 23:58.


por Caio Fernando Abreu
O Estado de São Paulo, 23/4/87

O lançamento do Nau confirma aquela sensação de que há, mesmo, algo novo no ar.

Para quem conhece os discos dos grupos Fellini, Violeta de Outono, Patife band, ou espera as gravações do Luni, de Os Mulheres Negras, ou das cantoras como Ná Ozetti, Suzana Salles, Caludia Wonder, Laura Finocchiaro - o lançamento do Nau (CBS) deixa bem claro que alguma coisa está acontecendo na música paulistana. Uma coisa nova e vigorosa, sintonizada ao mesmo tempo com o pop internacional e brasileiro - nesse caminho capaz de ligar The Smiths a Rita Lee, Cazuza e Talking Heads. Saídos dos porões do underground da cidade, recém eles começaram a chegar às gravadoras. Por parte destas, prudentemente, é claro. Por parte deles, de peito aberto.
Peito aberto porque trazem uma nova estética. Pouco importa que essa estética seja ou não comercial - importa mais jogar para fora a voz dessa geração feita jovem no meio da nuvem de Chernobyl e do vírus da Aids. Pouco importa ainda se essa estética (pós-tudo?) for cansada. O disco do nau é lindo - e transpira cansaço. seja através das letras ("Nos perdemos entre contos/ poeira de máquinas/ multidões se atropelando/ num mundo sem espaço" - em Novos Pesadelos; ou "A vida passa num piscar de olhos/ a vida pára num sinal escuro/ e eu queria ter as soluções" - em Balada) ou das guitarras de Zique, do contrabaixo de Beto Birger e a bateria de Mauro Sanchez. Não um cansaço apático, mas cheio de lucidez e ansiedade criativa: "Eu quero beber/ tirar minha roupa mostrar tudo/ tudo vir a saber" em O Que Eu Quero é Você.
Do meio do som limpo, preciso, sensual (remetendo às vezes tanto aos bons solos de guitarra dos anos 60 quanto àquele som aparentemente monótono dos Smiths) - emerge a voz gemida de Vange Leonel. E no pós-tudo dessa estética marcada pelo neo-existencialismo dark, vale imitar com bom humor a voz de Vandreléia ( em Bom Sonho) ou dilacerar a garganta feito a louca musa Janis Joplin. Apoiada no feeling do blues, nesse repertório que passeia pelo funk, pelo heavy-metal, ou pela valsa, incorporando todas as influências, Vange pode cuspir palavras como uma roqueira ou sussurrar macio feito uma Maísa renascida meio punk. Talvez ela seja a melhor intérprete dessa nova geração - e para concordar com isso basta ouvir o longo lamento de Nada.
Talvez esse primeiro trabalho do Nau se ressinta um pouco da repetição. Não é aquele tipo de disco que você vira e revira na vitrola. Angustia. Há sempre um clima imposto, geralmente dramático (como na linda Linha Esticada, de Laura Finocchiaro e Cilmara Bedaque) e nem sempre suportável. Mas o vigor e a sinceridade explosiva de Zique, Beto, Mauro e principalmente de Vange Leonel tornam o nau obrigatório. No mínimo, para quem quiser confirmar aquela desconfiança de que tem, mesmo, algo acontecendo.

Marcadores:

| Por Lara | 2.6.07 | 14:23.

Marisa Monte que se cuide - ou até que nem, porque a própria Marisa foi ver e adorou a temporada da gauchinha Adriana Calcanhoto no Mistura Fina, ali em Ipanema, no Rio. Críticos rebuscaram seus mais coruscantes clichês, platéias aplaudiram à exaustão, gentes deram com a cara na porta (a lotação estava sempre esgotada) e nem sempre Maria Lúcia Dahl, madrinha da Adriana no lançamento carioca, conseguiu lugar para todos. Com seus 21 aninhos, sem lembrar Gal, Marina, EIis, Cida ou Olívia, Adriana solta seus agudos de cristal em jóias de Roberto CarIos, Nei Lisboa, Rita Lee, Cazuza (Milagres: "mas que tempo mais vagabundo é esse! que escolheram pra gente viver?") e em composição dela própria (por exemplo, Mortaes). Agora ela volta a São Paulo para uma temporada no Aeroanta e no L'Onorabile SoCietà. Os mais atentos devem lembrar da moça, com seus verdes olhos, platinados cabelos e cotê demi-punk, em shows outros pelo Off Madame Satã e Centro Cultural São Paulo. Mas agora é pra valer. Adriana, eu juro, é a maior revelação da MPB (hein?) nesta virada brusca para os 90. (Caio Fernando Abreu)
In Revista A-Z (abril/89)

Marcadores:

| Por Lara | 29.5.07 | 21:00.

Publicado na revista A-Z em maio de 89.

As cenas abaixo narradas foram testemunhadas pelo jornalista e escritor Caio Fernando Abreu, no dia 6 de abril de 1989, na rua Haddock Lobo, exatamente em frente ao edifício Canopus, n: 959.

20h - Quinta-feira normal. Vou chegando em casa, começo a subir a Haddock Lobo, da Alameda Franca até a Itú. Na porta de meu prédio, um movimento estranho. Um fio de sangue desce a ladeira. Acompanho, chego mais perto e vejo: na sarjeta, o cadáver de um homem semicoberto por folhas de jornal. Um carro de polícia, gente parada. Pergunto ao porteiro o que foi. Com ar de desprezo, ele conta: "Um ladrão. A polícia deu uns tiros". Que horror, eu digo. Ou só penso. O porteiro: "Um bandido a mais, um a menos, que diferença faz, seu Caio?"

20h10m - Subindo pelo elevador, vou pensando pois é, que diferença faz? Entro no apartamento. Meu amigo Luciano conta, viu tudo de sua janela. As seis da tarde dois homens desceram a rua correndo, provavelmente depois de um assalto. A polícia desceu atrás, atirando. Um dos homens entrou num táxi parado, encostou o revólver na cabeça do moto¬rista e conseguiu fugir. O outro levou os tiros nas costas. Ficou lá, de bruços, estendido no chão. Foi às seis horas. Agora são mais de oito.

20h30m - Tento trabalhar, não consigo. Tento comer, não desce. Tento ver TV, não entendo o que vejo. Tento ouvir Mozart, soa falso. Ligo para alguém, não atende. Espio pela janela - moro no segundo andar. O morto continua lá. Colocaram uma dessas sinalizações de madeira no meio da rua, para desviar os carros. As senhoras chiques dos edifícios vizinhos entram em casa de saia mais justa do que de costume. Desviam os olhos, a morte é feia. E não tem griffe.

21h – Percebo que acabei de ler cinco vezes a mesma frase de Saí Negro, de Julia Kristeva, sem entender uma palavra. Espio pela janela. O cara continua lá. Mortíssimo, por fora do jornal dois pés de tênis. Carros páram, buzinam, rádios ligados muito alto. Há uma espécie de festa em volta do morto. Lembro de João Bosco, lembra? "Tá lá o corpo estendido no chão/em vez de vela uma foto de um gol". Nem isso, não há nada em volta dele. Curiosos, risinhos.

22h - Continuo pirando. Me bato pela casa falando alto porra, mas esse cara deve ter uma mãe, e uma mulher, um filho, uma tia, um vizinho que seja. Ninguém sabe da morte dele. E nem uma vela ilumina sua morte pobre. Lembro de Elis cantando Onze Fitas, de Fátima Guedes: "Por engano, desgosto ou cortesia/tava lá morto e posto o desregrado". Me sinto sujo.

23h - Tomo banho. Não relaxo, nem me sinto mais limpo. Pelo menos uma vela, uma só. Não consigo me controlar. Desço com um pacote de velas na mão. Uma maçada em volta do corpo, fazendo piadinhas. Tento acender a vela, o vento sopra, apaga. Torno a acender, torna a apagar. Um cara pergunta: "Era seu parente?" De certa forma, não digo. O policial me pede para subir, tô criando confusão. Deixo o pacote aos pés do defunto. Vale a intenção. Vale? Tô pirando.

24h - Já pirei. Dou um salto da cama, abro a janela, começo a gritar: "Assassinos! Isso é crime! Urubus! Gentalha!. A polícia olha para cima. Bato a janela com força. A polícia chama pelo porteiro interno, querem me levar por desacato à autoridade. Luciano segura, desdobra, convence.

01h - O corpo continua lá. Param mais dois carros. Desce um fotógrafo, arrancam os jornais de cima do corpo, rasgam a roupa dele. Jovem, não deve (devia) ter 30 anos. Já está rígido. Fotografam em vários ân¬gulos, completamente nu. Desamparado. Mais carros páram. Festa nos Jardins: "Onze tiros fizeram a avaria/ e o morto já tava conformado".

02h - Pára um camburão, tiram de dentro uma caixa comprida de plástico. Enfiam o homem lá dentro. Da janela, espio. Dentro do camburão há pelo menos mais três caixas. Cheias. De caras mortos, como ele. Quem eram?

02h30m - Um policial recolhe os jornais, a mortalha. Outro, com uma mangueira, limpa com jatos d’água as marcas de sangue. Não fica nenhum sinal.

Nos dois ou três dias seguintes, compro todos os jornais da cidade. Não sai nenhuma notícia. Continuo a ouvir Elis: "Essa história contada assim por cima/a verdade não rima, a verdade não rima ". Pois é, a verdade. O quê?

(Caio F.)

Marcadores:

| Por ludelfuego | 17.2.07 | 12:34.

De Lilith, a primeira mulher de Adão, nascida da lama e não de uma costela, até a assanhada Maria Padilha dos ritos afro-brasileiros, as deusas sempre existiram. Poderosíssimas, podem chamar-se Afrodite, Oxum, Ishtar ou lansã. E serem também terríveis, como Kali, que preside a destruição na índia, ou a grega Nêmesis. sempre pronta a punir os arrogantes.
E por falar em deusas, suponho que seja inevitável, na cabeça de todo mundo imediatamente surgir em flash-back a imagem da deletéria Rosana' arfando "como-uma-deusa-você-me-mantém". Cruzes. Além do gosto duvidoso, aqui - ou melhor, ali, porque quanto a mim quero distância - há um engano básico. Fundamental. Ou atávico, já que falamos de ancestralidades. Seguinte: em realmente o sendo, deusas jamais seriam mantidas. Elas têm poderes, são livres.
Mas por essa cançãozinha - insignificante e já envelhecida - é possível perceber o quanto o conceito de deusa foi deturpado no rolar da História. Claro, concordo que Marilyn Monroe foi uma deusa - deixou uma lenda, um mito. Mas Marilyn foi uma deusa-humana, destruída por sua porção divina, que a porção humana não teve barra para segurar. E quem teria? Certo, você pode chamar Maria Callas de deusa, ou Greta Garbo, Marlene Dietrich ou Jean Harlow. Você pode, muito brasileira e justamente, localizar a porção deusa de Maria Bethânia. Porque ela, como essas outras, conquistou o,direito de ser absoluta no que faz. Há até mesmo pequenas deusas à espera de que o tempo e os fados confirmem ou não a sua anunciada divindade. Veja só: Nastassia Kinski, Isabelle Adjani, e até mesmo Marisa Monte, quem viu sabe.
Mas deusas - ou Deusas mesmo, com o D assim em maiúscula - são outra história. Pouco chegada à erudição, mas muito às mitologias, selecionei para vocês algumas das que mais me dizem à piriquita.
Como hoje estou muito didática - escrevo esta matéria com o Sol em Virgem, será por isso? -, vamos em forma de tópicos. Rápidos, mas I hope não demasiado rasteiros. Então:
LlLITH - Segundo a Cabala, a primeira mulher de Adão, Eva que me perdoe. Eva, como é do conhecimento geral, foi feita de uma costela. Já Lilith foi forjada com sangue, saliva e lama. Tinha, portanto, um bom pé – digamos - na cozinha. E mais, era atrevidíssima. Quando Adão, muito timidamente (compreensível: era a primeira vez) pediu a ela que deitasse sob ele, a diaba simplesmente se recusou. Alegou que, como ele, era também feita do pó, portanto sua igual. Jeová ficou uma fera, não bastasse já toda aquela baixaria que tinha rolado com os anjos rebeldes, liderados por Lúcifer. Mas Lilith sentou pé. Foi embora para muito longe, deixou Adão literalmente na mão - até que surgisse a Eva, e dedicou-se a atacar sexualmente apenas os homens que lhe interessavam. Só que Lilith era barra-pesada, nada de carinhos e beijinhos. Vejam só esta descrição de seus arroubos feita pela escritora Sonia Coutinho, no romance Atire em Sofia: "Cubro o corpo dos homens com meu corpo quente e dizem que meu abraço é tão furioso que sufoca. Minhas vítimas têm o maior orgasmo de suas vidas, mas depois desfalecem e entram em crise de melancolia. Um dos meus privilégios é causar a loucura". Lilith é tão deusa que, expurgada do catolicismo oficial, foi ser underground noutras paragens. Na mitologia grega, aparece como Hécate. Na Astrologia esotérica, com seu próprio nome ou Lua Negra, aparece no ponto que revela a libido mais profunda. E até no candomblé a tirana ganhou um sincretismo.
MARIA PADILHA - A Padilha é um Exu feminino, a chamada Pomba Gira. Não, não: Exu não é exatamente um diabo, portanto a Padilha também não é uma diaba. Mas pode ser. Ou quase. Exu, como o Hermes dos gregos ou o Mercúrio dos romanos, na verdade é um go-between, um leva-e-traz, aquele que estabelece o contato entre o humano e o divino. Sem ele, portanto, nada feito. A Padilha, também chamada de Legbá, parece-se a uma cigana: cabelos muito pretos e compridos, rosa vermelha, roupas rendadas vermelhas e pretas. Adora beber, fumar,- e pensa em sexo sem parar. Quem viu a novela Carmen, da TV Manchete, deve lembrar a Maria Padilha que a Lucélia Santos trazia de frente. É preciso cuidado ao lidar com ela, porque tanto faz o bem quanto o mal. Quem quiser arriscar, mas não digam que não avisei, saiba que seus alimentos sagrados são o bode, o galo, a farofa e o dendê, seu dia, a segunda-feira e sua saudação, em jeje-nagô é "Laroiê!"
ISHTAR - Guerreira e amorosa, mas - digamos - bem mais chique que Maria Padilha, é esta deusa dos babilônios. Tão chique que usa um cinto de estrelas, mas tão decidida que sem a menor cerimônia tira o cinto para descer ao mundo das trevas e assumir seu côté heavy. Deusa do amanhecer e do fim de tarde, quando a luz do dia ainda não se definiu, Ishtar desafia o porteiro dos infernos e é capaz de entrar lá dentro ou, pelo menos, provocar uma rebelião dos mortos, se ela for impedida. Ishtar, curiosamente, deu um pulo lá da Babilônia e, vejam como este mundo é pequeno, foi dar na Africa, onde guarda muitas semelhanças com outra poderosa.
IANSÃ - Rainha dos raios, senhora das tempestades, Iansã ou Oyá é a única das deusas do candomblé que tem poder sobre os Eguns, ou espíritos dos mortos. Os Eguns ou Egunguos correm a obedecer cada ordem dada por ela
com sua espada. Iansã, dizem, no começo não era uma mulher, mas um búfalo. Só que de vez em quando tirava a pele e os chifres para transformar-se numa lindíssima mulher. Foi assim que seduziu Ogum, o único a saber de seu segredo, e com ele teve nove filhos. Mas Ogum tinha outras mulheres e um dia, chegado numa birita, encheu a cara e contou às outras mulheres o segredo de Iansã. Furiosa, ela transformou-se em búfalo, matou as outras a chifradas e deu o fora. Em seguida casou com Xangô, mas essa já é outra história que conto logo. Hoje em dia, para chamar Iansã, batem-se dois chifres, um contra o outro. Mas cuidado: ela pode descer numa boa, ou furiosa. Seu dia é a quarta-feira, sua cor, o vermelho vivo e sua saudação, "Eparrei!".
OXUM - Falar em Iansã e não falar em Oxum seria um desrespeito. As duas não são muito amigas, e isso tem vários porquês. Primeiro Xangô, muito mulherengo, era casado de papel passado com Iansã, mas como esta vivia pelas matas brigando, meio sapata (sapatas em geral têm uma Iansã de frente}, ele trouxe para casa também Obá e Oxum. Obá, meio tonta, era ótima para serviços caseiros. Já Oxum, lindíssima e toda sexy, era boa mesmo para o sexo. Rainha das águas doces, Oxum é a senhora do amor e do dinheiro. Preguiçosa, lânguida, adora pentear os cabelos olhar-se num espelho - mas sempre acha que está engordando ou envelhecendo, e se sente só, e então chora. Filhos de Oxum se apaixonam e choram muito. Mas Oxum não é nada boba não: espertíssima, era a única mulher admitida na assembléia dos orixás masculinos. E com muito jeito, conseguiu que Há revelasse só para ela o segredo da adivinhação do futuro pelos búzios. Oxum é a rainha dos sábados, veste-se toda de amarelo e atende pela saudação "Oraieie ô!".
AFRODITE - A Vênus para os romanos, tem tudo a ver com a Oxum do candomblé. Também ela presidia, na Grécia, os rituais amorosos. Afrodite nasceu de uma maneira estranhíssima: o deus Urano tinha a péssima mania de devorar os próprios filhos. Até que um dia encontrou macho pela frente: seu filho Cronos (ou Saturno) simplesmente castrou-o e jogou os, digamos, documentos do pai ao mar. Do encontro dos testículos e do esperma de Urano com a espuma do mar, toda catita, nasceu Vênus, aquela mesma que Botticelli pintou dentro de uma concha. A querida Vênus, como Oxum, também vaidosa, ciumenta e vingativa. Mas - que se há de fazer? - completamente irresistível.
PALAS-ATENA - Ou Minerva, para os gregos. Essa é o oposto total de Afrodite. Palas tinha o maior desprezo pelas picuínhas amorosas. Ao contrário das outras deusas, que viviam chorando potes pelos cantos, enredadas em paixões impossíveis ou complicadíssimas com humanos ou semideuses, ela era uma intelectual. Basta lembrar que nasceu em um dia em que Zeus estava com uma dor de cabeça tão forte que chamou seu filho Vulcano, o ferreiro, para arrebentar-lhe a cabeça com um martelo. Vulcano cumpriu a ordem e, de dentro da cabeça de Zeus, de escudo em punho e armadura, saiu Palas-Atena. Palas portanto não tem pai. Era a deusa da sabedoria e da estratégia da guerra - não da guerra em si, mas das tramas por trás - e tinha um detalhe: manteve-se sempre irredutivelmente virgem. A Arlete Salles fazendo a Carmosina em Tieta - repararam? tem uma Palas-Atena de frente.
IEMANJÁ - No candomblé, Palas-Atena ao contrário dt; Afrodite, que é uma perfeita Oxum, ou de Artemis, deusa caçadora que é uma versão feminina de Oxóssi - teve certa dificuldade para encontrar sincretismo. Acontece que, da Grécia para a África, - talvez pelo
calor? - as piriquitas divinas se acenderam muito, todas ficaram muito eróticas. Mas Iemanjá, como Palas-Atena, foi quem mais manteve a compostura. Rainha das águas do mar, Iemanjá é calmíssima, justa, equilibrada, e não se sabe de outro marido que tenha tido além de Obatalá, com quem teve muitos filhos. E a imagem da grande mãe, como Cibele - deusa frígia - ou Géa - deusa grega da terra. Iemanjá é cultuada no sábado, adora azul, mas também pode ser chegada num rosa bem pink, não resiste à pipoca e é saudada com "Odô iá!".
Tantas, não? E eu aqui pirada, vendo o espaço chegar ao fim e querendo ainda falar pra vocês de Inanana, uma deusa suméria da fertilidade, assassinada pela irmã e depois ressuscitada. Também não vai sobrar espaço para Atagártis, esta uma síria - fenícia, grande deusa da fertilidade e - veja só, como Janaína, uma das versões jovens de Iemanjá - também representada com uma cauda de peixe.
E como esquecer Valquíria, da mitologia teutônica, uma deusa guerreira tipo Iansã, filha de Votã, o deus da tempestade? A Valquíria era tão poderosa que criou até uma espécie de fã-clube, as Valquírias, suas frasqueiras que acompanham as batalhas e carregam a alma dos heróis mortos para o Valhala, a morada dos deuses germânicos. Sem falar em Perséfone, coitadinha, que foi seqüestrada por Hades, deus dos infernos na Grécia, violentada e obrigada a morar para sempre no inferno. E já que voltamos à Grécia, impossível terminar sem falar em Moira, a deusa do destino, a quem ninguém engana - tão soberba que é capaz até de determinar a extensão do poder dos próprios deuses. Soberba e tirana também era Kali, deusa indiana, e tão sanguinária que é retratada com um colar de crânios humanos e olhos vermelhos de sangue.
Terríveis essas meninas, não? Mas tudo isso fica, quem sabe, para um "As Deusas - Parte lI". Me ocorreu agora, como refletia alguém no Esta Valsa é Minha, de Zelda Fitzgerald (outra que tinha um pé na divindade): "Essas garotas acham que podem fazer tudo e permanecer impunes". Não podiam, nem mesmo sendo deusas. Porque aí, queridos, é que entra Nêmesiso Esta às vezes é uma deusa, mas às vezes também apenas uma força cósmica impessoal. Ela é quem pune pela arrogância e orgulho diante dos deuses. E tem um detalhe: sua punição sempre é perfeitamente adequada à natureza do crime. Que saia, hein?.

T. O'Connor, 35, é a mais deusa de todas

Marcadores:

| Por ludelfuego | 4.2.07 | 14:20.

Tinha secado: esse era talvez o ponto. Não a palavra exata, que já não tinha essas pretensões, mas a mais próxima. Sabia pouco a respeito de árvores, ou sabia de um jeito não-científico, desses de tocar, cheirar e ver, mas imaginava que o processo interno de ressecamento começasse bem antes da morte aparecer no verde brilhante das folhas, na polpa dos frutos ou na casca do tronco. Não era evidente nem externo ou explícito o que padecia. E padecia? perguntava-se detalhando os traços com as pontas dos dedos, nada que revelasse na umidade da boca ou num contorno de nariz — uma dor? Não era assim. Gostaria de voltar atrás, com sentimentos curtos e claros feito frases sem orações intercaladas, iluminar aos poucos, um mineiro, uma lanterna, o poço fundo, uma linguagem? A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se
com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre. As luvas brancas, as longas pinças esterilizadas com que tocava sem tocar o todo, o tudo e o si. Um vício que lhe vinha quem sabe da mania de ouvir música erudita, mesmo enquanto apenas vivia, antes os fones nos ouvidos que os gritos na vizinhança. E por mais que afetasse um ar de quem lentamente cruza as pernas em público, puxando com cuidado as calças para que não amarrotassem, saberia sempre de sua própria farsa. Tão consciente- mente falsa que sua inverdade era o que de mais real havia, e isso nem sequer era apenas um jogo de palavras.

A grande mentira que ele era, era verdade. Ou: a mentira nele nunca fora fraude, mas essência. Seu segredo mais fundo e mais raso, daí quem sabe a surpresa branca de quando ouvira um quase-amigo dizer que não passava de uma personagem. Prometera-se sentimentos sem intercalados, mas sentia agora uma necessidade de explicar ao ninguém que superlotava sua constante platéia, com ele sempre fora assim: quase-amigos, nada de intimidades. Mas voltando atrás no ir adiante: uma surpresa quê. Não, não uma surpresa quê. Uma não-surpresa surpreendida, pois como e porque se fizera visível e dizível naquele momento o que nem sequer alguma vez escondera? Perdia-se, não eram teias. Nem labirintos. Fazia questão de esclarecer que sua maneira torcida não se tratava de estilo, mas uma profunda dificuldade de expressão. Por esse lado, quem sabe? As emoções e os pensamentos e as sensações e as memórias e tudo isso enfim que se contorce no mais de-dentro de uma pessoa — tinham ângulos? Havia lados mais como direi? Fragmentava-se: era os pedaços descosturados de uma colcha de retalhos. Pedia atenção aqui, por favor, mais por gestos, entonações ou simplesmente clima, e regirava: era os retalhos, um por um, não a colcha, ele. Desde o xadrez vermelho ao cetim roxo sem estampa, e assim por diante, todos. Quase parava de aborrecer-se então, como quem troca súbito uma peça para violino e cravo por um atabaque de candomblé. O leve tédio suspenso como poeira espanada logo voltava a desabar. O bocejo era a compreensão mais amarga que conseguia de si mesmo. E posto isso, cabia a seguir qualquer atitude desesperada como casar, tentar o suicídio, fazer psicoterapia ou um concurso para o Banco do Brasil.

Localizava-se, mais fácil assim, dando nome às coisas. Um entusiasmo tênue como o gosto de uma alface. Isso, estar, ser. Uma vontade de interromper- se aqui, paladar estragado pelo excesso de cigarros tentando inutilmente dar um nome ao gosto que fugia entre os dentes. Em algum quarto, há muito não sabia de línguas no seu corpo, ou tão sabidas tinham se tornado que. Vacilava entre a certeza quase absoluta de estar alcançando qualquer coisa próxima de uma sabedoria inabalável, alta como um minarete, gelada como um iceberg — melhor assim: uma montanha de compreensão sem dor de todas as coisas. Ou, talvez o ponto, nem icebergs, nem minaretes — mas árvore. Inventava com os olhos no ar vazio à sua frente um verde copado de sumarentos frutos, como se diria num outro tempo, se é que alguma vez se disse, dizia sim, dizia agora, desavergonhado e frio. Verde copado de sumarentos frutos. Folhagem de seda lustrosa. Tronco pétreo ancestral. O seco invisível como verme instalado no de-dentro. Impressentível, sob a casca, caminhando lento, questão de tempo, apenas, e semente contendo o galho crispado, mão de bruxa, roendo. Tinha dois olhos duros. Dois olhos grandes de quem vê muito, e não acha nada. Tinha secado, era certamente esse o ponto. Nunca a palavra exata, esclarecera de início. Já não tinha mais essas pretensões.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 21.1.07 | 22:28.

De jeans e camiseta, cabelo preso, aos gritos de "pega, mata e come!", Bethânia já foi musa da esquerda, tempos do show Opinião. Graças ao acaso – se acaso existe e não, destino - que trouxe a menina Berré de Santo Amaro da Purificação, Bahia, para os palcos do centro do país. Peruca canecalon, coberta de colares e pulseiras, gestos largos, recitando Fernando Pessoa e Clarice Lispector – Bethânia foi musa. A voz muito grave, sussurrando versos sensuais, embalou os amores dos casais pelos motéis, rivalizando na vendas de discos com o rei Roberto Carlos. Prendeu, soltou os cabelos, calçou, tirou os sapatos, largou as gravadoras comerciais, no auge do sucesso, trajetória inversa, tornou-se independente: conquistou o direito de gravar o que gosta, num repertório coerente e fiel à musica brasileira.
Foram muitas Bethânias nesses mais de 20 anos. Ou era um só? O escritor Júlio Cortázar, fã confesso (não fosse um iniciado em magia), afirmava que Bethânia e Caetano são uma única pessoa: yin/yang, homem/mulher, Oxóssi/Iansã. Foi muito in, ficou inteiramente out – até ultrapassar as divisões maniqueístas dos manipuladores da opinião pública para ocupar esse lugar muito especial só reservados ao mitos. Bethânia, deusa guerreira, de espada em punho e voz rouca, inconfundível, procurando sempre versos que falem às emoções dos apaixonados. Gosta-se dela como se cai em estado de paixão: além de qualquer razão.
E bela. Bela de um jeito que não é comum ser bela, cantora como não é comum ser cantora – nesse desregramento de padrões estéticos, Bethânia funde a aspereza de onde começa o Nordeste com o requinte dos blues de uma Billie Holiday. Cantora diurna das terras crestadas pelo sol, mas também noturna, dos lençóis de cetim úmidos de suor e amor, transita numa carreira de impecável coerência com sua própria criatura: dividida em mel e espada. Padroeira dos apaixonados, também divididos entre o mel e a espada cortante da vingança. Dessa extensa legião, Maria Bethânia é a voz mais fiel.



Elis Regina por Caio Fernando Abreu

Para sempre a estrela Elis...
1962, palco do Cine Castelo, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Final do programa de auditório Maurício Sobrinho, da Rádio Gaúcha. As luzes se acendem sobre a grande atração daquela manhã: a estrelinha Elis Regina. Baixinha, meio desajeitada, ela vacila num repertório de versões um pouco na linha de Celi Campelo, com algumas tímidas incursões pela música brasileira. Mas a voz-clara, forte, afinadíssima empolga a platéia. Todos comentam:'Essa menina precisa sair daqui'.
E ela saiu. Meio no braço, como era seu jeito. Saiu para gravar um primeiro disco, VIVA A BROTOLÂNDIA, ainda com resquícios do modelo 'jovem' americanizado. Saiu para passar trabalho no Beco das Garrafas, para agitar os braços ao som de Arrastão, nos festivais da vida, para comandar O Fino Da Bossa, para brigar com todo mundo, ficar mal-falada e bem-amada, para casar, descasar, ter filhos, abrir a boca e falar sem medo, assumir seus falsos brilhantes e aperfeiçoar ainda mais aquela voz-clara, forte, afinadíssima. Como se fosse um instrumento musical, não apenas uma garganta humana deitando e rolando debochada em qua-qua-ra-qua-quás ou gemendo baixinho, atrás da porta. No riso na dor, furacão Elis levantou vôo daquele cineminha de bairro e foi sobrevoar o país com os braços girando sem parar. "Elis-cóptero", como a chamava Rita Lee.
E vinte anos depois daquela manhã de domingo, com as ruas de São Paulo apinhadas do povo que acompanhou seu enterro cantando os versos de O BêBado e a Equilibrista, nesta outra manhã recente em que Elis partia - alguns no meio daquela multidão espantada e comovida comentavam, como naquela manhã antiga, que essa menina - ah, essa mulher - precisava sair daqui. Deste planeta que , tão freqüentemente, parece não comportar a sensibilidade. Mas a multidão inteira que cantava e chorava, nesta outra manhã, sabia inteira que Elis Regina, tinha virado para sempre uma estrela, como ela queria. Não uma estrela qualquer, mas a mais luminosa de toda a música popular brasileira. E nas manhãs, nas tardes e nas noites dos muitos anos seguintes, quando sua voz brotasse do regente dos rádios ou dos velhos discos, esses todos saberiam que Elis vive. Para sempre.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 20.1.07 | 16:39.

Reza não muito antiga lenda que homossexuais masculinos de qualquer idade ou nação – além de bofe, bicha, tia ou denominação similar – dividem-se em quatro grupos distintos. Seriam na verdade, sempre segundo a lenda, quatro irmãos que atendem por nomes femininos. A saber, e essa ordem arbitrária não implica cronologia nem preferência: Jacira, Telma, Irma e Irene.
Para começo de conversa, vamos à mais popular delas: a Jacira. Suficientemente conhecida, seja pelo personagem Jaci (que no romance Onde Andará Dulce Veiga?, de minha autoria, em dias de arco-íris recebe uma Oxumaré de frente e transforma-se na devastadora Jacira) ou pelos louváveis esforços do jornalista Eduardo Logullo em divulgá-la através da coluna Joyce Pascowitch, na Folha de São Paulo.
Das quatro irmãs, Jacira é aquela que todo mundo sabe que é homossexual, e ela mesma – que refere-se a si própria, seja qual for seu nome, sempre no feminino – acha ótimo ser. A Jacira usa roupas e cores chamativas, fala alto em público, geralmente anda em grupos de amigos também jaciras como ela, todas exercendo o velho hábito de “fechar”. Como diria Antônio Bivar, é uma pintosa. Uma pintosa assumida, despudorada. Sempre foi bicha, adora ser bicha e, maniqueísta como ela só, continua achando que a humanidade divide-se entre bofes e bichas, categoria esta última na qual se inclui. Com orgulho. Superinformada, embora não leia muito (existem Jaciras nigrinhas,analfabetas), ela sempre sabe – de orelhada – tudo que está em cartaz na cidade. Fofocas que insinuam viperinas dubiedades sobre a sexualidade alheia. Ao entrar em qualquer ambiente, uma Jacira sempre é imediatamente notada. O que satisfaz seu principal objetivo na vida: aparecer.
Bem menos luminosa e sem graça que a Jacira é: a Telma. Seu nome provavelmente originou-se daquela versão que Ney Matogrosso cantava: “Telma eu não sou gay/ o que falam de mim são maldades”, algo assim. Ao contrário da Jacira, a Telma é infelicíssima. Ela bebe. Bebe para esquecer que poderia ser homossexual. O problema é que, exatamente quando bebe, mais exatamente ainda depois do terceiro ou quarto uísque, é que a Telma transforma-se em homo. Embriagada, Telma ataca. E dramaticamente na manhã seguinte não lembra de nada. Aquela Jane Fonda de The Morning After perde. Embora a Telma fique muito erotizada em estado etílico, ela sempre nega que é, e negará até a morte. A única solução para uma Telma empedernida seria a psicanálise (que ela, a mais doente, acha que não precisa) ou parar de beber. O que, por tabela, significaria também parar de trepar. Pobres Telmas – categoria da qual países como o Brasil (vide academias de ginástica, futebol, chopadas com o pessoal da repartição, etc.) está cheio.
Menos trágica, mas ainda mais complexa, é a terceira irmã: a Irma. As Irmas não são exatamente infelizes – pelo menos, não tanto quanto as Telmas --, embora bem menos felizes que as Jaciras – que aparentam ser e realmente são felicíssimas. Irma é aquela que todo mundo jura que é, incluindo a mãe, a irmã e a esposa (Irmas casam muito) – mas ela mesma não sabe que é. Não sabe ou finge que não. A Irma dá quase tanta pinta quanto a Jacira, adora todo o folclore gay, de Carmen Miranda a show de travesti, passando por concurso de miss, Mae West, leopardos, James Dean e Marilyn Monroe. Estranhamente não “faz”. Quando solteira ninguém de sexo algum poderá afirmar – muito menos provar – que já fez sexo com uma Irma. Ou se fez, não prestou muito, pois há quem diga que Irmas costumam ser mal-dotadas, impotentes, dessas assim. Pode ser. A verdade é, quando casadas, as esposas das Irmas raramente apresentam um ar satisfeito. Sexualmente satisfeito.
Irmas costumam ser afáveis – ao contrário das problemáticas Telmas, introvertidas e depressivas. Adoram Jaciras, apesar destas gostarem de chamá-las, sobretudo em público e aos gritos, de “queridaaaaaaaa”. É que toda Jacira sabe – ou supõe – que no fundo toda Irma é tão Jacira quanto ela. Mas como as Telmas, Irmas fogem de definições. E ao contrário das Telmas, muito pecadoras, podem até morrer sem se atreverem a provar os prazeres do – para citar uma Jacira clássica – amor que não ousa dizer seu próprio etc.
Inicialmente limitada a essas três, a lenda recentemente incluiu a existência de uma quarta irmã: a Irene. Tão assumida quanto a Jacira, ao contrário desta, a Irene não dá pinta. Ela é, sabe que é, mas não exibe nem constrange. Pode até usar brinquinho na orelha, dar alguma rabanada menos comedida, ou mesmo – de brincadeira – referir-se a si mesma ou uma amiga no feminino. Mas a Irene é tranqüila. Geralmente analisada, culta. Bom nível social, numa palavra – Irene parece serena em relação à própria sexualidade. Que é diversificada. Podem ter longos casos, morar junto, ou viverem certas idiossincrasias eróticas. Só gostarem de working class, por exemplo, ou de adolescentes, choferes de táxi ou estudantes de Física. Ou de Irenes como elas: são as Irenes lésbicas, bastante comuns e conhecidas, literalmente, como gays. Telmas e Irmas escondem tudo da família, vizinhos e colegas, embora a Irma não tenha nada a esconder. Jaciras não escondem coisa alguma, explicitérrimas. Irenes deixam no ar: se alguém perceber, que perceba. Educação é básico para elas. Serenamente educadas, pois, às vezes até casam. Com mulheres.
Entre as quatro, desgraçadamente as relações são turbulentas. Jaciras, por exemplo, adoram seduzir Telmas. Estas (quando sóbrias, claro) têm medo pânico de Jaciras. Irenes por sua vez, nutrem uma espécie de carinho apiedado pelas desventuradas Telmas – e isso pode até resultar numa ardente noite de paixão entre ambas. Da qual naturalmente a Telma jamais lembrará, embora tenha feito horrores. O grande risco que toda Irene corre é apaixonar-se por uma Telma: comerá o pão que o diabo amassou, até entrar noutra. Com a Irma, de quem Irene também gosta, o risco não é tão grave: Irenes sabem que com Irmas não rola. E pode assim transformar tudo numa aparentemente saudável “amizade viril”: as duas fingindo, para usar a terminologia antiga, que são bofes. Há quem creia. Jaciras não simpatizam muito com Irenes, acham-nas “metidas”. A recíproca também é verdadeira: Irenes acham Jaciras pintosas demais, apesar de divertidas, folclóricas. E inconvenientes. E com a imperdoável mania de roubar namorados alheios. Irenes adoram namorar, pegar na mão, ir ao cinema, comer pizza, fim de semana em Ilhabela, ver TV – tudo isso together. Já Telmas e Irenes, entre si, são hostis. Talvez uma tema o julgamento da outra, vai saber. Irmas, no entanto, podem ceder aos insistentes encantos das Jaciras. Existem mesmo certas Irmas que algumas Jaciras – para ódio das Irenes – juram já ter feito. Jaciras, por sua vez, não raramente invejam Irenes, que sempre aparentam certa prosperidade (ao contrário das Telmas), com um cotêzinho decadente). Irenes mais neuróticas gostariam, de vez em quando, de serem confundidas com Irmas. E Telmas costumam sentir cegos, súbitos impulsos de desvendar suas almas abissais para os ouvidos compreensivos e ombros amigos das Irenes. Na verdade, Telmas, Irenes e Jaciras invejam um pouco aquela impressão (nem sempre verdadeira) de pureza que toda Irma passa. Assim como se estivesse por fora de qualquer grupo de risco.
A propósito, já que abordamos esse desagradável tema: embora aparentem ser as mais perigosas, no que se refere a riscos, e apesar de promíscuas (a promiscuidade esta implícita na jacirice). Jaciras cuidam-se muito. Verdade que com camisinhas nacionais, daquelas que arrebentam na hora H, na primeira golfada.
Irenes sempre carregam na frasqueira sortido estoque de poderosas camisinhas estrangeiras, compradas em suas viagens. Com a idade se tornam um tanto maníacas com higiene, meio obcecadas com safe sex. Certas Irenes não fazem há anos, vivem em permanente estado de nervos.
Já as Irmas como não fazem, ou quando fazem é tão escondido que ninguém sabe dizer como fazem, não se preocupam com isso.
O problema, novamente, são as Telmas. Impulsivas e atormentadas, nunca estão prevenidas. Jamais podem prever quando passarão do quarto uísque ou da décima quinta cerveja, e isso normalmente acontece em horas que as farmácias estão fechadas. Telmas, portanto, não carregam camisinha. Sequer as têm no banheiro, tamanha a negação. Enlouquecidas na cama (uma Telma com tesão vale por cem Jaciras), Telmas fazem coisas que Madonna (ídolo das Jaciras) duvidaria. Essa representa outra secreta tortura mental das Telmas: como às vezes realmente não lembram do que fizeram (por lapso etílico), têm sempre rabo preso e um medonho medo de serem positivas.
Irmas sempre são negativas. Ou aparentam ser. Acontecem surpresas, pois ser Irma não significa necessariamente ser casta. Irenes via de regra lidam bem com um teste positivo: espiritualizam-se, viram vegetarianas, zen-budistas, fazem ioga, procuram o Santo Daime ou Thomas Green Morton. Lêem muito Louise Hay, e até se recusam a tomar AZT. Jaciras muitas vezes negam-se decididamente a fazer O Teste: têm uma certeza irracional de que daria positivo. O que nem sempre é verdade, visto que nada mais forte que santo de Jacira.
Vírus e suas saias-justas sem nesga à parte, na verdade a AIDS não mudou muito o comportamento das quatro. Elas são arquetípicas, atávicas, eternas.
Freud, por exemplo, na opinião geral era irmésima. Já Platão parece ter sido uma boa Irene. Ninguém colocaria em dúvida a jacirice de Oscar Wilde. Rimbaud, por sua vez, dá a impressão de ter começado como Jacira (quando chegou a Paris) para transformar-se – o que é raro – em Telma ( na Abissínia). Já Verlaine, teria sido uma Irma que se ajacirou.
Clássicas ou contemporâneas, nenhuma delas deve ser criticada por isso. À sua maneira, cada uma busca apenas essa coisa – o Amor: a Ancestral Sede Antropológica. O que pode acontecer (vide Rimbaud e Verlaine) são transmutações: Irenes que se ajaciram; Irmas (com tendência etílica) que viram Telmas; Telmas que – bem comidas – se irenizam ou mesmo ajaciram e etc. As mutações são tantas quanto as do I Ching. Há quem diga que essas novas têm até nome, como as Juremas (Jaciras que se tornam Irenes) ou Jandiras (Jaciras exacerbadas tipo Clóvis Bornay). Pode ser. Mas segundo nossos estudos, Jacira que é Jacira nasce Jacira, vive Jacira, morre Jacira. No fundo, achando o tempo todo que Telmas, Irmas e Irenes não passam de Jaciras tão loucas quanto elas. E talvez tenham razão.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 29.11.06 | 18:40.

(Do conto Dodecaedro de Caio Fernando Abreu)
Não consegui. Do grande esforço através dos doze meses, doze signos, doze faces, só guardo essa certeza. Que tonta travessia. Tudo bem, descansa. Faz parte, não conseguir. Como Sísifo, se queres mitologias. Queres ainda? Por favor, estou farto. Brilhos baratos, as jóias eram todas falsas. Está certo, mas não quiseram te fazer mal. O mal não existe reverso do bem. Tanto faz, só peço que me deixem. Vou ficar encostado na árvore até amanhecer. Olhos abertos, feito uma vela acesa. Se ela insistir, direi que não tenho piedade alguma. Que não compreendo, não aceito nem perdôo mais a loucura. Se ele vier, pedirei que fique. Serei bom para ele. Mentira, não pedirei nem direi nada a ninguém. É indivisível, aprendi. Talvez consiga dormir. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo, poucos pensamentos, todos pequenos. Sei que foi inútil quando os vejo obstinados recomeçar e recomeçar sempre. Uma serpente que morde a própria cauda, um círculo infinito de enganos, Maya. Talvez não, perdeste a fé? Não te castiga assim, está tudo em paz. Nunca houve cães. É como uma cantiga de ninar nas cinzas do fim do mundo. Um barbitúrico, se preferires. Entorpece, melancólico, te leva para longe. Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa, eu canto para te enganar.

Ele sabia dançar. Era bonito dançando. Mandavam sempre que repetíssemos, talvez para que os outros aprendessem a beleza. Ou mais cruéis: para que ele mesmo percebesse como eu já não conseguia dissimular o desejo de tocá-lo. Um dia, toquei. Mas sem cuidado. Como numa pirueta errada. Sem sentir, você calcula mal alguma coisa no passo e, em vez de vôo, vem a queda. O ridículo é que só no chão você percebe que caiu. Então é tarde demais. Mas havia um esboço de prazer quando nos tocávamos, na dança. E o próprio prazer, aquela noite. Gritos de gozo, mordidas, pêlos melados da porra do outro. Disse a ele que conhecia o gosto. Quando me permitem descer a colina, as pessoas olham com suspeita minha cabeça raspada: as cicatrizes expostas denunciam que estive lá. Não há como escondê-las, as marcas de Obaluaê. Por ter estado lá, quem sabe, um Quase Encontro merece punição? Me explica, que as vezes tenho medo. Deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo
Então invadirias subitossuave a minha porta e me falarias de coisas tão caras a mim, feitas de frágeis, falsos encantamentos, como aquele botão de rosa branca que te dei faz algum tempo, e depois se abriu espantosamente, feito uma estrela, (...) nem eu nem tu saberíamos dizer de quem partiu o início do gesto, a mão de um tocaria redondaleve a pele do rosto do outro para que começasse a acontecer tudo aquilo de beijos e suores e salivas e gritos de prazer, misturados num sonho não sei se meu o teu/meu corpo que já não sabia até onde era meu ou teu, sentindo sempre, desde antes do início do gesto, de toque, que não haveria depois, e na manhã seguinte tonta, (...) atravessaria o dia meio cega para descobrir vagamente que, além de mentiras, terias deixado em mim a semente de uma história complicada (...) até enfim te concluir primário, tosco, terês, nunca capaz de compreender que além desta nítida dor cravada que por muitas vezes beirou a morte, porque te queria como se quer, vadia, humanamente, deixavas também um encontro que não aconteceu, que talvez nada esclareça, porque tudo é de vidro, porque brotou da confusão apaixonada que despertasse em mim, que te julguei esclarecendo a vida, peça final de um quebra-cabeça, peça inicial de outro, de um excesso de líquidos e desejos para sempre incompletos, mas que ficará, ainda que ninguém a entenda, esses ramos, esses castelos, como não ficaste, porque eras só mensagem de algo que ainda não sei.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 20.11.06 | 17:29.

A crônica abaixo foi publicada no Caderno 2 em 28 de janeiro de 1987

Jamais esquecerei Lyris Castellani. Mas eu tinha esquecido que jamais esqueceria Lyris Castellani. Só há umas duas semanas, comecei a lembrar outra vez. Deve ter sido provocado por uma crônica de Marcos Rey, perguntando por Elvira Pagã, mas certamente continuou com um encontro casual com Wladir Dupont. Há alguns anos, num jantar, conversando sobre essas deusas misteriosamente desaparecidas - entre mais de dez pessoas (todas versadas nesse ramo da cultura inútil), só o velho e bom Wladir lembrava dela. A minha deusa para sempre preferida: Lyris Castellani.
Não que tivéssemos tocado no assunto, Wladir e eu. Nem uma palavra. Deixei-o na chuva e saí pensando em Lyris - onde andará? onde andará? - assim, numa voragem vertiginosa. Eu precisava saber se havia algo no arquivo do jornal sobre ela: ridículo escrever sobre Lyris sem uma foto. E havia: nem uma linha de texto, mas quatro fotos preciosas - esta escolhida a dedo -, embora nenhuma delas seja daquelas que eu recortava e colecionava, com paixão e estranheza, entre os 12 e os 15 anos. E lá se vão tantos, tantos. De roldão, sem Lyris.
Jamais vou lembrar exatamente da primeira vez que a vi. Mas deve ter sido nas páginas de O Cruzeiro ou Cinelândia. O que Lyris tinha para me enlouquecer tanto? Eu conto, embora doa: tinha olhos verdes profundos-abissais, tinha lábios carnudos de pecado, tinha a cintura fina de vespa e - acima de tudo, antes de nada - Lyris tinha COXAS. Ah, que coxas! Tão grossas e sólidas que merecem este detestável ponto de exclamação que acabo de usar. As coxas de Lyris eram tão monumentais que, aos poucos, consegui iniciar e seduzir meu irmão Gringo e meu primo Beco nos mistérios de Lyris. E Lyris deixou de ser nome próprio para se tornar substantivo, sinônimo de: coxas. Quando a gente espiava um par especial delas, nos comunicávamos em código: "Que Lyris, hein?"

Aos poucos, descobri tudo sobre ela. Lyris era bailarina de O Beco, em São Paulo (e eu lá, nos cafundós da fronteira com a Argentina!), depois foi lançada por Walter Hugo Khoury como atriz séria em A Ilha, ao lado de Eva Wilma e Luigi Picchi, filmado em Bertioga. Andei à cata do filme durante anos. E valeu o encontro: guardo gravada a fogo na memória a imagem de Lyris encostada numa rocha áspera. Com as coxas à mostra. Aquelas coxas. Lembro dela num pequeno papel, em Fronteiras do Inferno, tropical e demoníaca, e de uma cena forte de estupro num filme de cangaço (seria A Morte Comanda o Cangaço?) Em todos eles: olhos verdes fundos como o mar, cintura que se podia fechar numa mão. E coxas. Coxas de coluna grega, coxas morenas de mel e mal, coxas alucinantes onde qualquer um, fácil, poderia perder-se para sempre. Como Ulisses perdeu-se entre as sereias. Como eu me perdi até hoje.

Nunca mais soube dela. Nem Abelardo ou Laurinha Figueiredo souberam informar. Posso imaginá-la casada com um conde austríaco, morando em Viena. Ou numa casinha com quintal, quem sabe em Vila Mariana, entre roseiras. Se quero me doer, penso nela empapuçando-se de gim pelas bocas da vida, com um recorte amarelado de jornal na bolsa, entre vidros de dienpax. Que morta não estará, pois Lyris é imortal. Mas prefiro imaginá-la feliz: as coxas de Lyris eram a garantia mais segura de um futuro daqueles tipo feliz para sempre. Que certamente ela teve.

Mas eu a quero de volta. De alguma forma irracional, como se quer o tempo que se foi. Por favor - como Drummond procurava Luísa Porto, eu procuro Lyris Castellani. Procurem, procurem. Até achar. Só não me digam nada se, porventura, ela teve um destino infeliz. Então prefiro não saber. Melhor guardá-la até o momento de minha morte para sempre assim como a tive, tantas vergonhosas vezes, na minha adolescência. Me escrevam, me telefonem, me dêem notícias de Lyris Castellani. Se por acaso cruzarem com ela na feira, no elevador, no bar da esquina ou no Gallery, digam a Lyris que mando meu mais carinhoso beijo. E que jamais a esquecerei. Domingo último, enlouquecido, casei com ela no altar criado por Mira Haar, em A Trama do Gosto. Casei três vezes. Casaria dez, casaria cem, casaria mil.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 16.11.06 | 13:33.

Teu ego é minha base
Meu ego é teu destino
Meu destino é o teu outro
Teu destino é o meu ego
Teu outro é o meu destino
Tua base é o meu outro
Meu outro é a tua base
- Por tudo simplesmente
Não compreendo por quê: não.

Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que cada vez aumenta ainda mais a minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti.
Como pude cair assim nesse fundo de poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara.

Ex-pedir
Pedidos de socorro
Em todas as direções
Postado à janela
o laço na mão
ex-pirar
por dentro, inútil
medo em branco
examinando possibilidades
as mais diversas
de escape que não há

A natureza se esmera em reunir no corpo dele todos aqueles traços de beleza dispersos irregularmente pelos outros membros da família. Conjugava, assim, os cabelos pretos e lisos do pai aos olhos claros da mãe, o jeito lento de uma tia-avó ao nariz aquilino da rima, mais o corpo bem-feito de um primo aos dentes de uma sobrinha, e por aí afora. Tudo isso de maneira tão ostensiva que, em ocasiões como natal, ano-novo ou páscoa (sobretudo nas fotografias posteriores), ele sobressaía tanto que os outros parentes podiam esquivar-se a um movimento de inveja, cópias imperfeitas de um original impecável.




Não cantes como eu,
Os outros por bebedeira
Não saúdes
A morte em literatura
Boa negra
Voltada para as estrelas
Pés de chumbo
Cravados na lama:
O canhão
E sua escandalosa metafísica


E agora?
Três, quatro anos depois
Cadê você?
Cadê a grande mutação?
Pintaram as rebordosas. Continuaram pintando. Nós continuávamos resistindo mas às vezes penso que viver não deve ser apenas isso, segurar a barra.
Continuamos carregando nossas pequenas maldições – mais orgasmos, insônia, pesadelos, excessos de álcool e cigarros, procura cega, iluminações ilusórias e passageiras, etc. O mundo continua apodrecendo, os amigos vão para a Europa, para a clínica ou para a prisão, viciaram-se nas drogas mais diversas. Em nome de que resistimos? De onde tiramos essa energia, que é meio talvez uma falta de energia por não termos conseguido radicalizar e mudar alguém ou a nós próprios, ou enlouquecer e fugir pro mato. Normalmente resistimos enquanto o coração resseca, os olhos endurecem, as deliberações se frustram.
Desmascaramos a farsa para continuarmos a existir no meio dela. De que nos tem servido essa lucidez senão para chamar barra cada vez mais pesada?
Batalhamos a paz, a divina diferença. Pra termos sede de amor e de beleza.
(estou sem dinheiro no verão, baixa o astral de qualquer um)
Com ou sem nova convivência, somos profundamente infelizes. Nosso saldo é o desencanto. E você, onde andará?

(Dispersos - Caio 3D O Essencial da Década de 1980)

Marcadores:

| Por ludelfuego | 3.11.06 | 10:45.

(26/2/1973)
O conto não foi publicado em livro.

Amor de...

Para o Lico, sem dor

Fica parado à porta e eu nem vejo, estou de costas fazendo coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. Fica parado à porta uma porção de tempo, e eu nem vejo, mas dura pouco. Em seguida algum toque quente como um olhar fixo começa a me queimar a nuca, então abandono o que eu estou fazendo, seja o que for, e não sei bem se me volto lenta ou rapidamente, para surpreendê-lo no momento exato de baixar os olhos e afastar a mão apoiada na parede, como se recém chegasse e não estivesse parado ali uma porção de tempo, olhando. Sei que está azul, ou verde, ou branco, talvez os três juntos, talvez outros ainda, talvez nenhum: mas me volto rápida ou lentamente, e nesse movimento qualquer coisa que tenho entre as mãos cai ao chão, e antes de dizermos qualquer coisa há a necessidade quase milenar de curvar-se para apanhar o objeto caído, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela. E só depois ou durante o tempo em que vêm subindo no ar as mãos douradas segurando essa coisa qualquer é que nos olhamos e começa a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. Mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. E me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido, que ainda é outono e um pajem caminha num parque qualquer, todas as tardes com um livro ou uma folha nas mãos douradas e sozinhas. Mas é azul à minha volta, e embora me doa esse azul entrando pelos sentidos, é ali que quero ficar agora, naquele fundo claro de fogo, com algas de madrepérola aprisionando meus tornozelos, alguns tesouros além, navios piratas, ouros, terras, sereias.

Faço um movimento brusco e venho à tona como se voltasse a mim, e vou saindo lentamente do azul, sento na areia áspera e fico olhando a superfície que volta a ser polida e fria como vidro. Antigo medo, que me encara com olhos que guardam algas de madrepérola no claro fogo do fundo, e que recusa me matar de azul, porque talvez eu não suportasse, e não posso morrer porque é preciso, ainda, sacudir a areia da roupa branca e estender a mão para o livro, cigarro ou estrela que sobe em outras mãos douradas. E sorrir, então, e dizer bom-dia, boa-tarde, talvez boa-noite, e convidar a sentar, como se costuma nessas situações, e explicar sempre que não há muito onde sentar, e espalhar cinzeiros, fechar a porta, escolher rapidamente um disco lento e abandonar a coisa que estivesse fazendo para sentar no canto oposto da cama, talvez cruzar as pernas, acender um cigarro, abrir um livro, olhar uma estrela e falar ouvir durante horas coisas duras e inúteis, e de repente me perceber novamente deslizando para um mar aberto feito boca, convite na esquina, veludo atrás de vidraça, e não ceder porque não seria de esperar que eu cedesse agora, nessas situações, embora me consuma, e penso. Então sorrir e afastar com delicadeza as inúteis durezas até que nos aproximemos das tardes no parque, e era sempre outono. E de repente como girar numa roda louca que jogo de novo eu mesmo neste mesmo parque, com este mesmo livro ou esta mesma folha onde vou desenhando devagar uma estrela enquanto o cigarro queima em fogo claro, e depois ler ou ficar à toa olhando os verdes fumando à espera que um pajem passe de mãos sozinhas que faça encher de encantos as algas de madrepérola me seguram pelos pulsos e eu não resisto e já não importam os parques os pajens as folhas os livros os cigarros as estrelas as guitarras a loucura dos líquidos derramados sobre o tapete que tudo absorve há dezesseis anos: apenas essas algas nos meus pulsos e os tesouros as sereias os reis com suas capas de arminho os atlantes os castelos e parques sem adolescentes sem folhas nem livros em árvores sem esperas e bancos despidos de inscrições parques verdes de paz e uma coisa grita pouco abaixo do meu centro escuro mas eu a trato como o lenhador à serpente entanguida eu a levo para casa preparo fogo e alimento e abro as janelas e portas para voltar correndo às algas de madrepérola que agora se afrouxam e me soltam lentamente para me abandonar outra vez na mesma praia de areia seca olhando esse mar frio que se recusa a me matar de azul e me dói exatamente como se eu fosse um menino pobre a quem se mostrassem um doce da janela de um carro em alta velocidade. Vou escrevendo poemas como Anchieta pelo corrimão branco da escada e abro uma porta escura para a rua cheia de cotovelos, dentes rangendo, hesitações, temores, diplomas e [ilegível]. Depois volto devagar por um caminho que já não consigo decifrar, e me perco em labirintos pela sala vazia, ligodesligo ingridbogarthumphreybergmann e o leite escorre pela minha garganta seca de areia, de água salgada, de ar rarefeito, e tento novamente descobrir tesouros escondidos pelos cantos, como ninhos de Páscoa, e tento reescrever poemas desfeitos pelo vento no corrimão branco, e tudo de repente se fecha em torno de mim como uma bola cheia de espinhos, mas sorrio, contido, e dou as costas para a porta e depois volto a fazer coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o cé pela janela. E não espero que outra vez um toque quente como um olhar fixo me queime a nuca e me voltar para encontrar um valete de paus, de mãos estendidas para esse objeto qualquer caído há pouco, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 27.10.06 | 21:04.

D de derrelição, desamparo, abandono. Ou, em linguagem jurídica, "abandono voluntário de coisa móvel, com a intenção de não mais a ter para si". Por exemplo, o corpo? E por que obscena? Pela voz da autora: "...e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida". No vão da escada de sua casa escura, essa obscena Senhora D nos contempla através dos buracos dos olhos das "máscaras de focinhez e espinhos amarelos" que costuma usar. Para falar "dessa coisa que não existe mas é crua e viva, o Tempo", para cuspir em nosso rosto a pequenez, a perdição humana, para dizer que "ninguém está bem, estamos todos morrendo". Enquanto se dissolvem no aquário peixes pardos recortados em papel.

Poeta, dramaturga, ficcionista, Hilda Hilst é talvez o nome mais controvertido da literatura brasileira contemporânea. Para alguns críticos, como Léo Gilson Ribeiro, trata-se do "maior escritor vivo em língua portuguesa". Para outros, simplesmente ilegível, incompreensível em seu código expressivo pessoalíssimo e deliberadamente cifrado. Pairando acima de todas as negações de sua obra, Hilda avança numa viagem cada vez mais ousada, cada vez mais funda.

A história - se é que há uma história aqui - é simples: após a morte do amante, Hillé, a Senhora D, se recolhe ao vão da escada, "um Nada igual ao teu, repensando misérias, tentando escapar, como tu mesmo, contornando um vazio, relembrando", em direção à própria morte. Numa prosa que se dilata e contrai, às vezes estufada, barroca, repleta de cintilâncias, outras se fazendo navalha, corte seco, a linguagem de Hilda Hilst avança sobre as camisas-de-força da sintaxe para desvendar insuspeitados espaços. O resultado é um texto que, fora de nossa literatura, ao lado de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, só encontraria paralelo em Joyce ou Samuel Beckett. Mais além: é vivo.

Sons, trinados, gritos, urros, rouquidões. Asa. Impossível aventurar-se nestas páginas sem entrega. Inútil municiar-se apenas das armas da razão. Hipnótico, o discurso de Hilda envolve como águas - às vezes lodosas, às vezes claras - e numa vertigem nos arrasta, de susto em susto, cada vez mais para perto daquilo que Joyce chamava de "o selvagem coração da vida". Onde tudo pode acontecer. De uma facada pelas costas a um apaixonado beijo de amor, "jorrando volúpia e ilusão". Traiçoeiras e sensuais, as palavras ofegam e palpitam, como se tivessem carne, sangue, músculos, nervos, ossos. E além disso: uma aura impalpável, uma alma indizível. Uma alma que procura cega, obsessiva, pelo invisível que nos disseram haver um dia: Deus.
Como a Senhora D, sem Deus, no fim do milênio, entre miséria, loucura e lixo atômico, para nós mesmos a vida pode ter sido ou - mais terrível - estar sendo somente "uma angústia escura, um nojo negro". Contra isso, Hilda grita. Como a Senhora D, a obscena, a sapa, a porca, nos vemos ao final também assim, perplexos, nus: "um susto que adquiriu compreensão". Mas sempre se pode gostar de porcos. Gostar de gente, também. Por amar a condição humana, Hilda escreve. Um olho no divino, um outro em Astaroth. Ninguém sairá ileso. Como não se sai, afinal, da própria vida.

(São Paulo, julho de 1982)

Marcadores:

| Por ludelfuego | 19.10.06 | 18:19.

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...



A personagem está sentada numa escrivaninha. A escrivaninha é muito velha, tem madeira lascada, riscada, manchada de muitas tintas. Falta a gaveta de cima. Pelo vão pode-se ver o que há no interior da segunda gaveta: uma garrafa de Pepsi-Cola vazia e um pedaço de sanduíche de queijo ou/e mortadela. Sobre o tampo, um maço de Hollywood pela metade e muito amassado, uma caixa de fósforos e um pires de cafezinho como cinzeiro. A personagem Lê um livro – de onde não consigo ler o título. A personagem usa tênis brancos (foram brancos), calças de brim azul, desbotado e sujo, um suéter amarelo de lã, esgarçado nos cotovelos. A personagem não olha em volta. Em volta, muitos moças & rapazes com pastas, falando alto (pode-se ouvir, nitidamente, a palavra “dialética”), supõe-se que sejam estudantes. Nas paredes vários cartazes. Num deles, pode-se ler claramente “Cultivar as Almas – ciclo de palestras filosóficas”. Em outro “Você na prévia”. E também: “Pela prática da Liberdade”. Por todos esse detalhes, se supõe que o cenário onde está sentada a personagem seja o diretório do centro acadêmico de alguma faculdade (mas de onde estou não consigo ver claramente). Há uma porta grande de vidro, semi aberta. Lá fora, às vezes chove, às vezes faz sol. Secas e molhadas, as pessoas que entram não param nem falam com a personagem. A personagem está vendendo alguma coisa. De onde estou não consigo ter certeza do que se trata. Mas parecem entradas, dessas para o teatro, cinema, música ou coisa assim. Ninguém pára. Todos falam entre si (pode-se ouvir, nitidamente, a expressão “contradição do sistema”), mas ninguém com a personagem. A personagem pára de ler e olha em volta para ver se está sendo observada. Lentamente. Depois introduz rápida o braço no vão da primeira gaveta (disfarçando com o livro) e, no fundo da segunda, apanha o resto do sanduíche (queijo? Mortadela?). Não vê que eu vejo. Então morde.

Marcadores:

| Por ludelfuego | 13.10.06 | 01:35.

Para Jussara

Este vazio de amor todos os dias: a cabeça pesada ao meio-dia, a boca amarga, um cheiro de sono e solidão nos cabelos, uma xícara de café bem forte espantando os arcanos da madrugada, e muitos cigarros, as roupas, o espelho, os colares, as pulseiras. Procuro e não acho. Mas saio para a rua todo de roxo, a barriga de fora.

O sol bate forte na cabeça. O sol bate forte e reflete na calçada e dissolve o corpo em gotas pegajosas escorrendo nojentas e brilhantes pelos braços e pelas pernas por baixo do roxo até cair sobre o asfalto formando pequenas poças que logo se evaporam subindo pelos raios do sol cor de cenoura de fevereiro para novamente descer do alto despertando o suor roxo adormecido no meu corpo.

E na esquina riem. Eu não ligo, mas riem e falam baixinho entre si, homens dispostos na calçada com as camisas abertas entre as verduras da tenda da esquina, os homens de pelos aparecendo pelas aberturas da camisa cochicham entre si e riem. Mas eu piso firme e ergo a cabeça e dentro do meu roxo caminho só-rindo entre as verduras e os cochichos, e ninguém entende: mas silenciam e principiam a rir baixo, apenas para eles, e não têm coragem de dizer nada. Eu passo por seu silêncio irônico e perplexo, a minha bolsa oscila, é como se o sol coroasse minha cabeça e ninguém soubesse ao certo se rir ou calar, de espanto, porque nunca naquela rua passou alguém coroado por um sol roxo de fevereiro.

Depois são os corredores e as escadas e o balcão claro do bar e os grupos de pessoas que não distingo umas das outras, mas vou sorrindo, sou um projétil orientado até certo ponto, depois dele, e é agora o depois dele vou furando o desconhecido, violentando o mistério, vou penetrando no incompreensível, e sorrio para o inesperado, o corpo ereto projetado, e alguém me faz uma saudação oriental na porta de entrada e eu sorrio ainda mais largo: é alguém semelhante a um cão são bernardo, falta apenas o barrilzinho de chocolate, desses abençoados que riem o tempo todo e o tempo todo cantam e dizem coisas e soltam notas musicais por entre os pelos espessos da barba e do cabelo grande.

E entro na sala e sinto que os olhares se debruçam sobre mim e cumprimento alguns e outros e não penso nada: gozo a glória deste momento e sei que brilho mesmo sem saber para onde vou. E tombo sobre a mesa e tento arranjar no rosto um ar compungido, qualquer coisa modesta e bucólica, à beira do perdão, um olhar no horizonte nas janelas do arquivo, para que me amem, para que se condoam, para que não se ofendam com meu sol de hoje.

Mas hoje. Hoje não. É impossível perdoar no meio destas máquinas histéricas e destas pessoas que tão pouco sabem de si destas calças desbotadas do feltro verde do jornal mural das vozes que passam misturando marchas de carnaval john lennon e carlos gardel é impossível sofrer entre os telefones que gritam e o suor que escorre e as laudas numeradas e as pilhas de jornais e livros e a porta que vezenquando abre libertando vanderléias comerciais e meninos de roupas coloridas e ar desvairado.

E hoje não. Que não me doa hoje o existir dos outros, que não me doa hoje pensar nessa coisa puída de todos os dias, que não me comovam os olhos alheios e a infinita pobreza dos gestos com que cada um tenta salvar o outro deste barco furado. Que eu mergulhe no roxo deste vazio de amor de hoje e sempre e suporte o sol das cinco horas posteriores, e posteriores, e posteriores ainda.

escrito em 01º.02.1973

Marcadores:

| Por ludelfuego | 6.10.06 | 10:12.

Feito, febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todo as os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se mais ficaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisas assim.
Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir -, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro de que chamaria - tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las - vaga e precisamente de ; A Grande Falta.
Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilavam o sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gostas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo "avermelhado".
Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizavam-se às vezes no decorrer do cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema, mas em outras vezes, adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.
Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memória nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe par6ametros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo. A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos e pessoas que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, relentando o passo daquele falso corpo. Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo- fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.
Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre aus6encia que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudia cada vez mais fortemente , a cada um deles partindo-se a casca, quebramdo-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.
Como uma espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. (.....), chafurdava em emoções; tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasias distraídos, relia ou escrevi cartas apaixonadas, trasbordantes em rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas(mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era superfície - povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e "castanhos" olhos de pupilas verticais.
Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia - um certo dia, um dia qualquer, um dia banal - deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que se dera-se conta. Mas foi assim.[...]
Foi um dia movimentado aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se , ausentou-se . no intervalo da ausência, distraia-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Partida, ou A Grande , ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.
Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas...

Marcadores:

| Por ludelfuego | 24.9.06 | 12:21.

Sim, que seja este o porto. Aceitá-lo mesmo com seus muros a separá-lo da cidade, ocultando a vista do rio pouco antes da curva do Gasômetro, onde faz muito tempo houve um presídio, quase ninguém lembra. Quase ninguém lembra dos casarões antigos, dizem que de fazendeiros ricos, em alameda com palmeiras no meio da linha reta conduzindo à igreja no final da Getúlio Vargas onde, dizem também, passavam bondes. Ao falar em bondes, lembrar daquela curva inesquecível, o coração aos pulos no alto da João Pessoa, de onde era possível divisar lá embaixo e longe os morros, colinas, coxilhas que, dizem, seriam sete como as de Roma e Rossellini.

Mas sim, que seja este o porto - o de agora e não aquele da memória que quase ninguém lembrava, a não ser os já-não-muito-jovens como eu, como você talvez. Passavam bondes - dizem ainda ou nem dizem mais? - Petrópolis-João Abbott, descer em frente ao cinema Atlas para subir a ladeira do Americano passando pelas escadarias de pedra até o IPA lá no alto - Marodin, Reichmann, os nomes, as cartas, o Tempo e eu sem saber que lembraria debruçado na janela franco-holandesa do Sétimo Céu a contar perdidamente as colinas lá longe e embaixo - Glória, Teresópolis, Santa Tereza. Seriam mesmo sete? Ainda que não, certamente sim, porque na Rua Avaí sem H entre outras alucinações havia a sina deste porto revelado no marco do Paralelo 30 cravado se não me engano justo ali na Redenção ou Medicina, não sei ao certo, nem importa. Os sinais eram muitos, tantos, e o signo: Escorpião. Como Berlim, como Magra Jane, musa do avesso daqueles dias, mas dela quase ninguém lembra ou sim? E de mim, e de nós lá? Tantos baiões, tantas garrafas, tantas viagens, tantos amores, oh Deus, que sereno inferno esse de lembrar o bom de antes quando nem sabíamos que acharíamos bom um dia. E seria? Cuidado, o Tempo mascara o duro.

Mas não, não naquele porto - e sim este de agora, dizer sim a ele e sobre todas as coisas, pois já aprendi e aprendemos que nunca se deve buscar em nada de agora o de antes. O de-agora sempre comporta o de-antes e o de muito antes do que sequer lembraríamos, o de quando nem estávamos ainda aqui e onde então? Que não se chama saudade ou amargura, pois não há melancolia em tudo isso que mal lembram, apenas um espanto grave, o espanto humano de ver a cara do Tempo, e como será afinal essa cara? Eu ainda não sei, nem você, só na hora final quem sabe? Um milionésimo de segundo à beira de nascer partindo para O outro Lado, aquele onde habitam os que já se foram, mas habitarão por lá também os bondes, os bares, as buscas, os beijos? havia beijos naquele porto enquanto navios partiam para alto-mar contornando as ilhas. Alguns voltavam, outros só às vezes, outros jamais, fincados em terras estrangeiras. Augusto há vinte anos na Escandinávia sem perder o sotaque de Uruguaiana, a suspirar por sopas tardias na Tia Dulce depois de algum filme francês no cinema Vogue. Ah Deus, que os humanos vão guardando dentro de si tudo e todos que se perdem o tempo todo sem parar, e pode
doer, pode doer, eu aviso, mas não deve, não, não deve: te digo que é assim que as coisas são e o fugaz delas é a sua eternidade - não no real, mas na memória de quem lembra, e eu nem sequer entendo o que digo na manhã de domingo e chuva mansa sobre o porto minúsculo-maiúsculo de que falo.

Que seja ele, que seja exatamente este o porto. Mesmo para odiá-lo apaixonadamente algumas vezes, querendo partir sem deixar endereço ou telefone, mas por enquanto e com alegria, como uma Molly Bloom gaudéria, saudá-lo reverente em nome de Érico-Quintana-Dyonélio e repetir ardente, pedante, concentrado assim "todo perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims".

Crônica publicada no jornal Zero Hora de Porto Alegre, no dia 8 de outubro de 1994.

Marcadores:

| Por ludelfuego | | 12:10.

De Caio
Para Hilda Hilst

"Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - "Fica comigo." Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim - teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde.
Um grande beijo do teu Caio"

Marcadores:

| Por ludelfuego | 15.9.06 | 10:39.