Uma esquizocrônicapara Samuel
Beckett Na forma do caos
Nuvens radioativas, pacotes econômicos:
nunca fomos tão felizes! Terroristas líbios, uma colagem de Vicente Kutka,
qualquer ponto do sensível, ah: resgates, punks no metrô, copos de vinho tinto,
um blues de Bessie Smith, sauna japa na Liberdade, trocar lençóis na sexta,
Anjelica Huston de chapéu negro, aquele olhar chiquérrimo sobre o mundo, táxis,
táxis, alguém no JB referindo-se aos "esfuzian- tes-anos-80" (?),
cortes na seleção, leves paranóias, mas eu sei onde estou metido, gangues
juvenis, a frase de Beckett dando voltas na cabeça: nenhuma dor, quase nenhuma
dor—isso é que é maravilhoso, velhinhos tocando Olhos negros no Brahma,
cartão-postal de Paris na cabeceira, tons dourados, folhas mortas, como te amei
e não disse, Giovanni guilhotinado por amor, imperceptivelmente chegar à próxima
face depois desta, talvez desprezível, graves paranóias, o relógio da Paulista
marcando trágico, lento & inexorável o começo do fim de domingo, sinto
falta de você, hi-fi com Fanta: astral Bukowski, geladas fotos sensuais de
Pedro Fedrizzi, alguém me chamando de "tiete-bem-pensante" (?), mas
não pensem que não sei onde estou metido, pessoas cirandando em torno de um
poste, madrugada de sábado no Bexiga, engarrafamentos de trânsito, pressa
dentro dos táxis, dragão tatuado no braço, muito busto, muita coxa, Hélio que
vai para a Europa, yuppies na Oscar Freire, Bruna Lombardi, Diadorim,
homem-mulher, feijoada no Supremo, nenhuma importância, só porque sei onde
estou metido, outra vítima de aids, parem de me testar: sou legal, cara,
pizzarias entupidas de criancinhas, táxis, táxis, atriz argentina joga-se pela
janela, e se eu dissesse de repente e sem pudor eu-te-amo? Patrícia em prantos
ao telefone, de pura transgressão beber litros de água mineral em pleno Madame
Satã, quem me seduz? Olhar com medo, olhar com perdão, olhar com interesse,
olhar com náusea e paixão, e de jeito nenhum compreender nada de onde se está
desgraçadamente metido, telefones que não param de tocar, Rê
Bordosa minha amada à beira do suicídio, não esquecer de comprar gilete G-II,
que falta faz Ana C., meu Deus do céu, palavras lindas na letra M do Aurelião,
repetir fascinado me- tâmero, metasterno, metereoscópio, paranóias
desenfreadas, tudo o que você quiser, e táxis, táxis, monóxido de carbono,
amigos solicitando estranhíssimas cumplicidades, copos e copos de vinho tinto,
ninguém dizendo meu-amor, suspeitas, censura interna outra vez, palavrão não
pode, esse filme que já vi e por isso mesmo sei onde estou metido, uma carta
que não chega nunca, nossa, como estou me lixando, vela branca pro anjo da
guarda, bate outra, sal de frutas, pó de guaraná, candidatura de Gabeira,
sen-si-bi-li-da-de-ex-ces-si-va não, meu caro: honestidade, epidemias, vírus,
pestes, dengues, devia vender mais caro minh'alminha inestimável, Toninho ameaçado
pelos skinheads, nenhuma solidariedade, azia na certa amanhã de manhã,
saudade, saudade inútil o tempo todo de qualquer coisa indefinida, de alguém
desconhecido, investigar preço de secretária eletrônica, ter certeza de que em
algum ponto do caminho se perdeu e ponto, e pronto, acabou, e para sempre,
querido e não tocado jamais, mobilizado pela raiva, por favor me leva daqui
para que eu me esqueça de onde sei que estou metido, corrompido até o último
hímen, já temos um passado, meu amor, me convida pra jantar na tua casa, bota
Billie Holiday baixinho, depois me dá um beijo na boca, bem molhado,
irrecusável, um sonho com Hilda Hilst, o texto, o texto, traí meu destino,
companheira, empurrado pela desordem, sobrevivendo ao naufrágio, agarrado
mísero e adjetivoso a meu pedaço de madeira flutuante, e agora chega, chega,
let it be, let it be, baby, que la vie, em rose ou em black no duro — é sempre
uma brasa, mora: o caos é a forma.
Quanto a
vocês, salve-se quem puder. Porque quanto a mim, querida, querido, queridos—eu?
Ah: eu juro por todos os santos que sei muitíssimo bem onde estou metido.
O Estado de S. Paulo, 6/5/1986
Marcadores: A vida gritando nos cantos
Eliete chegou no meio do speed.
No terceiro dia da paixão, virei tiete
Estou apaixonado.
Não se
preocupem, não é por uma pessoa. Ou é, sim, por uma pessoa.
Mas só
indiretamente. Estou apaixonado pelo trabalho dela, pela voz, pelo clima, pela
delicadeza e pela Arte (assim mesmo, com maiúscula) dela. Deixo de mistério,
entrego: Eliete Negreiros e seu último — segundo, ao que sei — LP, da
Copacabana.
E isso que
ando difícil, ando torturado. Não tenho tempo, corro o dia todo, acho tudo e
todos barulhentos, exaustivos. Movido por esse horrível sentimento de urgência
paulistana que não me deixa olhar nada lentamente, sentir devagar. Sufocado,
ando apressado. Nos segundos roubados desse estrangulador ganhar-a-vida, me
alimento de jóias raras: João Gilberto, sempre, um pouco de Sade, Billie,
Bassie, Nana Caymmi, Nara Leão, Schumann. Tudo o mais me parece atordoante.
Ando em busca do silêncio que a cidade não dá. Da paz que a cidade não dá. Da
suavidade zen que esta cidade não dá, nunca deu nem dará nunca. A ninguém.
Foi no meio do
speed que chegou Eliete. Eu nunca tinha prestado atenção nela. Mal nos
conhecemos, mais através de um lindo amigo em comum—Milton Hatoum, o Manaus.
Mas tenho preconceitos. É feio, sei, mas tenho. Daí pensava: ai meu Deus, mais
esta Arriguete, com aquelas letras concretistoides geladas &
modernésimas... Nunca tive paciência para ouvir Eliete antes. Embora, nas
poucas vezes em que nos cruzamos, ficasse agradecido e contagiado pela paz
dela.
Comecei pela
versão de La vie en rose. Deu um clack! na cabeça, não sei explicar. Fui
arriscando outras faixas, uma por uma, medo de estar enganado. Não estava.
Primeiro veio uma letra lindíssima de Zé Miguel Wisnik, com música de Carlos
Rennó: Domingo longo (ah, conheço tantos); veio um samba de Elton Medeiros e Eduardo Gudin, falando
"às vezes se guarda o melhor caminho/ se oculta o desejo pra não
sofrer".
Uns blues
doloridos de Itamar Assumpção. O sax de Roberto Sion. No meio da pressa, como
eu ia dizendo, a voz mansa, afinadíssima, de Eliete dizendo sossega, sossega,
meu amigo, tudo é coisa de gente, tem um bonito in aparente por trás, tenta
ver.
No terceiro
dia da paixão, virei tiete e liguei pra ela. Queria dizer obrigado, menina,
quando você canta, a vida para de girar tão rápido e até parece bonita. Ela foi
paciente com minha invasão. Desliguei agradecido, espantado com minha própria
ousadia. Agradecer é difícil. E a gente precisa aprender, a gente precisa.
Aprender a não ser só.
Eliete,
new-bossa. Para que vocês compreendam: o primeiro LP que comprei na vida foi de
Sylvinha Telles. Tinha doze anos. Aos trinta e sete, só João Gilberto me
sereniza. Ou Astrud. Há um mês, só tiro para lavar uma camiseta escrita
"Bossa-Nova", que o Pardal, lá da lojinha do mesmo nome, me deu.
"Ah, bossa-nova, new-bossa, olha eu aqui sem viver" — chora minha
rainha Rita Lee. A vida então se adoça. Gosto de mel, de flor, de azul. Não de
avenida Paulista nem de Madame Satã. Preciso manter a ilusão de que tudo pode
ser doce. Preciso acreditar que a vida pode ser como a voz de Eliete. E que em
alguma esquina, um dia — por que não? — encontrarei um amor bonito esperando
por mim.
Quando saio,
agora, fico impaciente. Quero voltar pra casa, colocar logo o disco para que o
mundo todo se reorganize em doçura. Gostar de ouvir Eliete é cuidar de um
certo jeito de olhar o mundo. Por trás do susto, perdão de olhos molhados,
pegar na mão devagarinho e repetir de verdade, do fundo, sem o menor pudor, sem
ânsia alguma:
—Gosto de
você. Você existir me ajuda a viver.
Depois,
acreditar que tudo vai dar certo. E deixar — como ela canta—que o amor dê o que
falar.
O Estado de S. Paulo, 29/4/1986
Marcadores: A vida gritando nos cantos
Imagine-se cercado de estrelas.
Ali do lado, ao alcance da mão
É fácil enlouquecer durante a
semana de cinema brasileiro, em Gramado. Sem falar no choque cultural com a
cidade europeizada, sem nordestinos nem mendigos; sem falar na estranha neblina
que desce de repente do pico das serras, a qualquer hora do dia, para ir embora
sem o menor aviso; sem falar no ar tão limpo e na luz tão clara que chegam a
doer nos pulmões e nos olhos acostumados ao cinza urbano. Mesmo sem considerar
isso tudo ajudando no processo de loucura— há as estrelas.
E estrelas,
você sabe, não são de carne e osso. Pelo menos no meu coração de guri criado no
meio dos campos da fronteira com a Argentina, vendo estrelas só no céu — o céu
do Rio Grande é o mais belo do Brasil, sem bairrismos — e nas revistas. As
estrelas das revistas mais intocáveis até do que as do céu, que numa
determinada época do verão costumavam desabar aos montes em direção ao
horizonte. Fazíamos pedidos. As outras, as da terra, não víamos nunca. No
máximo, Vicente Celestino e—Jesus, como sou antigo!—Procópio Ferreira. Fiquei
não só extasiado, mas, para usar o adjetivo exato, estarrecido também.
Agora,
imagine-se você cercado de estrelas durante uma semana inteira. Ali do lado,
ao alcance da mão. É pirante. Você sai do quarto e dá de cara com a moça do
quarto ao lado. E a moça do quarto ao lado é nada menos que Nicole Puzzi. Você
pega o elevador e uma lourinha simpática faz um comentário rápido sobre o
tempo: é Débora Bloch. Aí você vai tomar um café, e o gatão ao lado pede o
açúcar: é Nuno Leal Maia. No corredor, meio estonteado, você esbarra sem querer
em Marieta Severo. Enquanto pede mil desculpas, alguém esbarra em você: é
Arnaldo Jabor. Você resolve ir ao banheiro molhar os pulsos — e quem está
fazendo xixi ali do lado, como se fosse a coisa mais normal do mundo? Chico
Buarque de Hollanda. Você pensa, meu Deus, preciso sair urgente deste hotel,
dar uma volta na rua, ver gente comum, banal, mortal, normal.
Até conseguir
chegar à rua, você já tropeçou em Cláudio Marzo, Bruna Lombardi, Fernanda
Torres, Riccelli, Roberto Bonfim, Miriam Rios e — socorro, assim também é
demais! — Tom Jobim. De cabeça baixa, para não ver mais ninguém, porque chega!
você corre para o bar mais fuleiro da esquina. Um bar onde estrelas não
entrariam. Mineral com gás, por piedade. O cara ao lado, um de bonezinho, acha
a idéia boa e pede uma também. Você olha para a cara ao lado. Embaixo do
bonezinho está Ney Latorraca. Você desiste da água, sai a mil pra rua. E
choca-se com uma senhora alta, elegantési- ma: Ilka Soares. Logo a tia Ilka, de
quem eu colecionava fotos recortadas de O Cruzeiro, Vida Doméstica e
Cinelândia?
Não, eu não
agüento. Não fui feito para essas alturas. Uma vez em que Caetano me sorriu na
praia, baixei os olhos e passei batido com o ar mais remoto que consegui armar
na cara. Tenho medo-pânico de estrelas. Do céu, da terra. Elas devem permanecer
no espaço, nas telas, nos palcos. Não andar se misturando por aí, nos bares,
nos balcões, nos elevadores, nos banheiros — feito fossem seres comuns.
Preciso — como o Molina, de O beijo da mulher-aranha — ter certeza de que as
estrelas são todas como a Leni Lamaison, de Sônia Braga, fumando com gestos
largos, cobertas por metros de tule negro, longe do insensato mundo.
Caso
contrário, digo ao povo que piro. Não vou admitir de jeito nenhum que as
estrelas tenham um cotidiano assim pobrinho que nem o nosso. Como meu irmão
Felipe, quando tinha uns dez anos, que me perguntou:
— Caio, a Brigitte Bardot também
faz cocô? Até hoje, eu juro que não.
O Estado de S. Paulo, 15/4/1986
Marcadores: A vida gritando nos cantos
Qualquer semelhança com a
realidade não é mera coincidência
Se a Nara Leão, naquele velho
disco, também achava — por que não poderia eu também achá-lo? E se o Nirlando
Beirão, tão chique, tem um vizinho yuppie — por que não posso ter coisa
semelhante em minha vida de retinas fatigadas? E confessá-lo de público —
atente na expressão —, assim: meus amigos são um barato. Um baratão. Nos dois
sentidos: o do insólito e o do inseto.
Meu amigo
Pedro, por exemplo, é um barato no sentido mais tradicional da expressão. Ou
não? Fico um pouco confuso, e pensando bem talvez ele seja mesmo uma curtição.
O passatempo preferido dele é, nos fins de semana, fazer tremendas vivências
em Mauá. Fazer vivência vem a ser o quê? Ora, cara, tá por fora: qualquer coisa
pode ser uma vivência: um chá, um baseado, uma caminhada. Importante é que
seja em grupo. E que você vá fundo, entendeu? Com direito a nirvanas e
iluminações.
Meu amigo
Pedro é superfeliz. Detesta quem tem problemas: ele diz que é baixo-astral. Ele
está sempre numa ótima. Detalhe: mora num apartamento de andar inteiro de
frente para a praia, no Rio. Com os pais, claro — embora tenha trinta anos. Mas
tudo bem: para gozar de inteira liberdade, ele pode usar uma coberturazinha
absolutamente simples. Outro passatempo dele, embora adore pedir carona, é
dirigir o Monza zerinho de manhã. Daqueles que você aperta botões e acontecem
coisas tipo fontes luminosas, faróis de laser, show de mulatas etc. Mas ele,
meu amigo Pedro, é singelo e franciscano: anda sempre de camisetinha zurrapa e
sandália havaiana. Tem certeza de que, um dia, vamos todos viver em paz — na
Era de Aquário. Confirmou isso no último verão, passado na Bahia, com uma pá de
gente de cabeça feita.
Já minha amiga
Kate, um pouco mais moça, despreza meu amigo Pedro. Comenta: "Ele acha que
Woodstock foi ontem. E ainda nem desarrumou a mochila". Ele comenta sobre
ela: "Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". A verdade é
que não conheço ninguém mais moderno (ou pós, nos dois sentidos: o do depois e
o das carreiras) que minha amiga Kate. Coberta de negro, cabelo raspado de um
lado, vezenquando uma peruca rosa de náilon. Naturalmente é performática. E
faz cursos sen-sa-cio-nais: o último foi de vídeo-performance — um arraso.
Minha amiga Kate acha tudo meio antigo, mas concede ir ao Satã, ao Rose
Bom-Bom, dá umas bandas pelo Ritz e não pisa nem morta no Pirandello. Acha que
tudo é uma questão de pique-e-pá-e-crã, sabe como? Fico numas que só...
Meu amigo
Betinho é radicalmente o oposto. Faz a linha subir-com-esforço-na-vida. Quanto
mais esforço, melhor. Tem visões futuristas com videocassetes, IBMs elétricas,
secretárias eletrônicas louras de olhos azuis, guarda-roupas completos para as
quatro estações comprados na Mr. Kitsch. Embora, no fundo, goste mesmo é de
Calvin Klein. Ou — em momentos de profunda verdade interior — de um sólido
Pierre Cardin. Naturalmente, ele veio de baixo. Muito baixo. Tem um problema
sério: quando bebe, tem paixão por ouvir Alcione. E por tudo isso, se você for
a um restaurante com meu amigo Betinho, pode estar certo de que a conta jamais
será dividida em partes iguais. Em alto e bom som, ele sempre dirá: "Mas
eu não tomei cafezinho!"
Minha amiga
Joana — ex-atriz, ex-cantora, ex-traficante — há anos largou tudo, pegou uns
panos vermelhos, botou um mala no pescoço, com aquele 3X4 de Rajneesh, e foi
embora pra Floripa (leia-se Florianópolis). É conhecida por lá como Bodhira,
que em sânscrito quer dizer flor de não me lembro o quê. Será — haja — ló- tus?
Quando fui visitá-la, fizemos muita meditação caótica juntos. Supervivência, se
pintar, experimente. É um barato.
Enfim, esses
são só alguns. Tem mais, talvez para uma Parte II. Mas, como todo ficcionista,
sempre procuro deixar muito claro que qualquer semelhança com pessoas vivas ou
mortas — bem, você sabe. E eu adoro meus amigos. Simplesmente adoro.
O Estado de S. Paulo, 8/4/1986
Marcadores: A vida gritando nos cantos
Tentei
ignorar, juro. Mas foi completamente impossível. Acontece que moro a duas
quadras do Caesar Park, onde Madonna ficou. Do meu monástico 12a
andar, dias e noites ouvia lá embaixo os gritos daquela involuntária homenagem
póstuma a Fellini. Certa manhã, acordei com um barulho estranhíssimo sob a
janela: helicópteros sobrevoavam a área. E, mesmo tendo que desviar da Augusta
para chegar à Paulista nas minhas peregrinações urbanas, não consegui mais
ignorar. Mesmo decidindo não ir ao show (pruridos ideológicos, tipo eeeu,
colaborar com esse Grosseiro Símbolo da Alienação Capitalista?), acabei indo.
Na última hora, meu amigo Denis Escudero acenou com um irrecusável convite. E
fui.
Safári, claro.
Uma hora de ônibus, duas na fila, mais três até começar. Dúvidas
pleistocênicas, oh Deus, já não tenho idade, devia ficar em casa lendo
Cervantes no original, que juventude idiota, não tenho mesmo vergonha na cara
& etc. Então as luzes apagaram, a bailarina seminua desceu pela corda. E eu
adorei. No dia seguinte, de cama por causa da Madonna, descobri algo
inteiramente insus- peitado — ela é do bem.
Nem ofensiva
nem obscena, Madonna representa tudo aquilo que todos nós gostaríamos de ser e
ter: o prazer sem culpa. Acho que uma figura assim não existiria em tempos e
espaços sem o vírus da aids, que bloqueou a prática sexual e incendiou todas as
formas imaginárias e indiretas da sexualidade. Veja-se, no mundo inteiro, a
maré de revistas, filmes, vídeos pornográficos, sexo por telefone e todas as
formas de, digamos, fazer a coisa da maneira mental, não física — e portanto
sem riscos. Madonna faz no palco tudo aquilo que as pessoas (as saudáveis)
fazem na cabeça. Exemplo — um crioulo fortíssimo, com sotaque baiano, vendendo
cerveja na fila, gritava o que todo mundo sentia: "Minha gente, quero ser
que nem a Madonna para dar mais que chuchu na cerca!"
Infelizmente,
observei outras atitudes, também sintomáticas da era da aids. No palco
(fantasia) pode, no real (vida) não. A drag queen montadésima foi atacada aos
gritos de "bicha! louca! piranha!". Tudo na maior agressividade. Mas,
durante as duas horas da realidade fantástica instaurada pelo show, há
respeito no ar. Ávida suposta de Madonna e seu reflexo coreografado (belamente,
pelo brasileiro Alexandre Magno), mesmo entre berros excitados, é recebida com
encantamento. Madonna é um pouco como aquele transatlântico que atravessa ao
longe a madrugada em Amarcord, de —justamente — Fellini.
Na saída
(Safári Parte II, o Retorno) Denis observou: "Engraçado, parece que tem
uma espécie de tristeza no ar". E tinha. Pelas ladeiras do Morumbi, a
noite tinha ficado fria, guardas tentavam organizar um trânsito histérico, os
ônibus não vinham, as ruas pareciam sujas, as calçadas destruídas. Fugaz, o
sonho passara. Ninguém era mais Madonna. Nem ela, de volta ao hotel, enjaulada
lá no alto, enquanto cá embaixo o povo só queria receber uma espécie de autorização
— a de que se pode também, mesmo em tempos sombrios e sem graça, ser meio
Madonna na vida.
A moça fez um
enorme bem ao astral do Brasil. Parece que gostou de nós, e a gente precisa
tanto, especialmente o Rio de Janeiro. No meio de dias estranhos, pesados (as
mortes de Fellini, River Phoenix, do maravilhoso Felipe Pinheiro, bombas por
toda a Alemanha, lama grossa em Brasília), Madonna deixou no ar um sopro de
vitalidade. Saúde, alegria, tesão. Com ou sem vírus e crise, Madonna dá vontade
dessa coisa sagrada: viver. Por isso mesmo, Deus a abençoe. E pouco importa se
Ele não existe, porque ela também não existe. Existem símbolos. São eles que
mobilizam e, mesmo quando não bastam, são necessários. Melhor ainda se forem
belos. E, repito, do bem. Do lado certo da luz, compreende?
O Estado de S.Paulo, 14/11/1993
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Para quem tem mais de trinta,
trinta e cinco anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um
mau disco. Eu explico. Ou tento
É que fatalmente eu/tu/ele/nós
vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam
boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela
memória e refletido no tempo presente — agora —, parece sempre melhor. E terá
mesmo sido?
Apenas, quem
sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente,
entre o ruído das buzinas e das descargas abertas nos engarrafamentos de
trânsito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às
seis da tarde para, de repente, olhar a multidão também fatigada e perguntar:
mas que cidade, afinal, é esta? E que vida? A quase amável, paciente fadiga de
contemplar o grande relógio das repartições e escritórios, quase imóvel na sua
lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar,
novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro
de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados — até o
interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros
vivos. E então o acúmulo de contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas
chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país,
outro planeta, outra vida que não esta—uma memória de flores no cabelo e pés
descalços, pouco antes de o ruído do despertador e de o meu/teu/dele/nosso
coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de
nossos sonhos mortos.
Mas eu falava
— tentava—de um disco. De John Lennon.
Ele foi
gravado ao vivo, no Madison Square Garden, em 30 de agosto de 1972. Há quase,
portanto, catorze anos. Você tinha quantos — quinze, vinte, vinte e cinco? E
provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras,
nem países, nem ódio entre as pessoas. Um
mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas, e pouco antes,
durante o depois, os muros das cidades pixados com frases como
"flower-power is dead". E então uma invasão de cabelos muito curtos,
quase raspados, roupas negras, couro justo: a ridicularização de tudo em que
você acreditou durante tanto tempo — e largou faculdade, largou família, caiu
em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: um
mundo novo. O deboche das suas antigas — e perdidas — ilusões. Patrício Bisso
só sobe no palco para cantar qualquer coisa como "bolsa peruana? Sandália
indiana? Hippie! Mata". Eu rio, você ri, ele ri—nós rimos todos juntos. E
temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer
detalhe capaz de nos identificar como sobreviventes daquele tempo. Agora somos
mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade.
Bebemos vodca pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de
incenso. E a bad-trip pinta sem química.
Tudo isso dói
tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon. O tempo corre, a gente vai
descobrindo jeitos de se proteger. Elis? Nem pensar: põe aí a Paula Toller.
Marc (quem lembra?) Bolan? De jeito nenhum, melhor um Boy George, cara. Let's
Roller. It's only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gusto. Mas, por
trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada
vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente
não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de
música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho
tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar
dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco negro do
futuro.
Mas você acaba
aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não
quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E, no meio dos sons que vêm também da rua
e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:
— Mother!
Aumente o
volume. Ou desligue para sempre, você me entende?
O Estado deS. Paulo, 6/4/1986
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