(NOVA HISTÓRIA EMBAÇADA)

“Como Billie Holiday
I’m alone in the desolate dark”
(Ricardo Redisch: Quem Se Debate É Afo-gado)

PERDEU-SE dele logo após encontrá-lo, numa véspera de São João. Não sabia que ia perdê-lo, não sabia sequer que iria encontrá-lo. Não sabia também da véspera - junho, São João. Mas foi assim que aconteceu. Não estava um pouco bêbado, nem tinha fumado ou cheirado absolutamente nada - o que talvez justificasse, tantas negações, encontrá-lo assim, de repente e também perdido entre a Pantera Loura Disposta a Tudo Por um Status Mais Elevado, a Lésbica Publicamente Assumida e o Patriarca Meio Sórdido Fugido Das Páginas De Satyricon. Perdidos, perderam-se, perdeu-se - e foi pelos viadutos que se perdeu. Um livro nas mãos, debatendo-se para não ser afogado, indeciso entre voltar e seguir em frente, porque havia fogueiras pela noite, embora ainda não soubesse delas. Consultando efemérides mais tarde, descobriria que a Lua, às vésperas do minguante, transitava por Peixes - o que explicaria, mas só em parte, nubladas espiritualidades, presságios ilusórios, embaçamentos. Ilusão, Netuno.
Era quarta-feira, usava uma guia de Xangô, vermelha e branca. A mesma que tempos depois arrebentaria num estalo inesperado, ao tirar a última peça de roupa para deitar-se ao lado de um outro qualquer. Sem medo da morte, porque esta quase história pertence àquele tempo em que amor não matava. Sabia do clima de bolero desse Um Outro Qualquer, mas foi assim que foi. Nu, apoiado no cotovelo, o Outro Qualquer esperou sem entender, citando Marx e falando em baixo- espiritismo, até que ele juntasse uma a uma as contas vermelhas e brancas espalhadas pelo chão para colocá-las sobre a mesa, repetindo um dia eu jogo no mar, na água corrente da chuva. Estavam no meio do campo, a lenha da fogueira crepitando como num romance inglês já tinha queimado toda e precisavam esquentar os corpos com línguas e dedos para fingir que matavam a sede, o frio e o engano.
O indicador de unha suja de tinta de máquina de escrever percorre os trinta dias do mês de junho no Almanaque do Pensamento, procurando assim: 20, Sábado - Ciríaco, Florentina; 21, Domingo - Luiz Gonzaga, Márcia; 22, Segunda - Tomás, Joana; 23, Terça - José, Agripina; 24, Quarta - São João Batista, Faustino. Pelo viaduto, lembrou do assalto, um ano atrás, navalha sevilhana - clac, a grana, cara. Talvez por isso ele agora se interrompe para ir até o banheiro, onde olha a cara no espelho sem ver precisamente nada, fora os dois vincos cada vez mais fundos ao lado da boca, marcas de Ogum, então lava devagar as mãos com sabonete alma-de-flores, passa água de alfazema, respira, esperando que o telefone toque para salvá-lo pelo menos momentaneamente desse momento que não decifra nem adjetiva. O telefone não toca e, sem garantias, ele continua a lembrar. Tão perigoso, mesmo passado.
Um halo luminoso, mentiria se dissesse agora qualquer coisa do tipo, a tentação é forte: havia como um halo luminoso sobre o viaduto onde, perdido, caminhava sem poder escolher o lugar para onde ia. Porque os viadutos, você sabe, conduzem a um só lugar, independente de você querer ou não ir para lá. Faz algum tempo, não lembrava de halos nem de luzes. Lembra realmente só que voltou atrás, em busca de um café, um bar, um cigarro, talvez um conhaque para ajudar a compreender o que acontecia. Mas nada acontecia. Só restava tomar um táxi, dar o endereço, um livro nas mãos, comentar o tempo, a crise, espiar putas, michês, travestis pelas esquinas, vontade bandida que mal se esboça, depois a avenida reta, com luminoso de coca-cola, melita e galaxy, dobrar à esquerda, dobrar à direita, always in front of: reclamar, pagar, descer.
(Anotaria mais tarde, na mesma noite, antes de dormir, talvez enganado, e totalmente óbvio: a vida é dinâmica.)
Foi então que viu a fogueira de véspera de São João. Ao lado da fogueira, dois rapazes acendiam um enorme balão vermelho e branco. De Xangô, reconheceu. No carrinho de pipocas, o homem do realejo tocava uma musiquinha de caixinha de música. Mas não havia papagaio nem macaco com caneco na mão nem periquito tirando sortes - encontrarás-teu-amor-numa-tarde-de-domingo-do-signo-de-Libra. Deve ter piscado, porque além de dinâmica, folclórica e levemente frenética, naquele momento a vida lhe pareceu também excessivamente colorida, com tanta gente se mexendo e dizendo coisas como que bom que você pintou o astral tá ótimo bebe alguma coisa, cara. Beijou a Psicanalista Conflituada Com o elitismo da própria profissão, mas só apertou a mão, sem mais envolvimentos, do estudante de Pós-Graduação indeciso em assumir sua evidente homossexualidade, trocou duas ou três palavras, bastante amáveis, com o escritor que conseguiu mais sucesso na Itália que no Brasil. Depois ficou por ali, aceitando tudo que passasse nas bandejas opíparas - pinhões, quentões, curaus, pamonhas. Tudo de junino que você puder imaginar, haja.
Agora ele esvazia lento o cinzeiro no cestinho indígena, enquanto observa a expressão da mulher frente ao cálice de absinto na reprodução ordinária de Degas, e pensa que pensa ou deveria pensar ou é como se pensasse qualquer coisa assim: porque é desse jeito mesmo que as pessoas se comportam quando não decifram nos olhos do outro nenhuma promessa ou convite. Melhor: como nada no olho ou no gesto ou no campo vibratório dele denunciasse/revelasse que estava à procura de alguém para dividir a cama nas próximas horas da noite quase fria, portanto propícia a esses lances, era automaticamente deixado em paz. Pior: de lado. Deixado de lado, junto à fogueira, um livro que leria depois, para encontrar versos como uma conversa que esquenta até os ossos sem dizer precisamente nada,* não agora, enquanto ele era pouco mais que uma câmera registrando silenciosa, impessoal, todos aqueles urbanos excessos juninos.

FLASH-BACK:
 Escreviam nomes em pedacinhos de papel umedecido, que colavam nas bordas da bacia de ágata. Então um barquinho de papel acabava por aportar lentamente num dos nomes: Naira, Roselene, Juçara, Ilone, Dulcinha, Valéria, Marília, Vera. Naquele tempo, já sabia? Paulo Antonio tinha uma sobrancelha fora de linha, invadindo a testa em direção ao cabelo. Nelson falava chiado, sardas, bunda arrebitada. Pingaria vinte e um pingos de vela acesa na água da bacia, até formar-se uma letra, a inicial: M, de Marcos ou Maria; C, de Clara ou Celso; R, de Ricardo ou Regina. Pularia a fogueira num pé só, pisasse nas brasas mijaria na cama. Meia- noite em ponto, debruçaria n poço, uma vela acesa na mão, para ver o futuro. Caixão de defunto: morte certa. Vestido de noiva: casamento breve. Uma rosa: amor novinho. À meia- noite, olhou. Não viu nada. Só o fundo escuro do poço com reflexos vadios, estrelas, fogueiras, o pulo de alguns sapos, tchuáááááá, círculos concêntricos, cheiro de limo. Era assim, o futuro. Depois estradas, bandeiras, prisões, exílios, porradas, viadutos, portas fechadas, revelações, divãs, pântanos, arco-íris. Tantos, muitas - e ninguém. A arraia pariu sete filhinhos com ferrõezinhos aguçados prontos para ferrar na hora que o anzol a arrancou do fundo do rio Uruguai para
(*) Ricardo Redisch: quem se ddebate é afogado.
jogá-la no fundo da chalana. Manchar os panos em degradée de laranja, então prendê-lo nas oito madeirinhas claras, com pregos miúdos e linha amarela. Do Flipperama ao lado do Jeca à esquina da Praça da República: mil possibilidades, todas furtivas. Agora, talvez mortais. Jogarei seis vezes as moedas do I Ching para encontrar Fogo sobre Fogo, o Esplendor. Tudo confirmará. Mas nada acontecerá. Ah: conheço essas rimas em á. E depois delas, passaram-se anos. Aqueles, em que se perderam, sem terem chegado a se encontrar.
Apertou o livro entre dedos subitamente frios, depois colocou-o no colo para ajoelhar-se e estender as mãos em direção ao fogo. Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias. Você indo embora. Eu indeciso entre beber um pouco mais ou procurar uma beata em plena devastação ou lavar copos bater sofás guardar discos mastigar algum verso adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar partir morrer dormir sonhar quem sabe. Você indo embora. Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca: mais frustração que ressaca, desgosto generalizado que aspirina alguma cura. Tocaria, o telefone? Você indo embora, fotograma repetido. Na montagem, intercalar. Você indo embora você indo embora.
Crepitava, a lenha cre-pi-ta-va como num romance inglês. Um halo luminoso. Na fogueira, quem sabe dentro dela, memórias manchadas de adrenalina, que tudo vinha num excesso de cafés e agostos. Já que não tentaria o suicídio pela quinta vez - nem sequer con-se-cu-ti-va, enumerou -, já que fora dispensado após tantos anos de análise, já que a crise permanente parecia ser a forma mais estável de sobreviver, já que ninguém lembrara de assassiná-lo nem pedi-lo em casamento, já que podia olhar em volta e em menos de um minuto escolher alguém para conversar dizendo coisas como você anda sumido(a), e aí, conta mais, diga lá, toma outra - em nome disso, prosseguia, embora sem saco.
Ai São João, Xangô menino/ na fogueira de São João/quero ser sempre o menino, Xangô/ na fogueira e na razão*  - cantarolou em silêncio. E o balão foi subindo, sem garoa caindo, vermelho e branco, enquanto todos aplaudiam com caras de loucos fatigados da própria loucura iluminada pelas chamas da fogueira. Aplaudiu também, axé! Foi então que a moça ao lado falou que precisava ir embora, dois filmes na tevê com Audrey Hepburn. (Flash-back: Nara Claudina dizia Puber, Carlos Renato corrigia: Ré-p-bãrnnn. Numa tarde tão verde de Aquário, quantos anos antes de enforcar-se no banheiro? Certamente muitos, pois se naquele tempo, naquela tarde, até os vestidos, além de plissados, tinham bolinhas e alcinhas.) Maxilares agudos, Audrey, olhos enormes, constantemente arregalados, uma gazela de pescoço longo, pés muito finos e compridos, delicadamente calçados em sapatinhos Chanel, e tailleur, sempre tailleur bege-clarinho, verde- água, mãos de dedos sem fim, unhas sem pintura. Anastásia, a princesa esquecida. Nas matinês do cinema Imperial.
Belga, afirmou, tenho certeza: era belga. Bélgica, capital Bruxelas, onde fomos presos - e tão louco agora qualquer coisa lembrar outra coisa, cada vez mais, enquanto o tempo avança - por nossos cabelos compridos, nossas roupas coloridas, uma cidade de ternos cinzentos e sapatos pretos bico fino de verniz, sem lugar para a nossa loucura. Tudo faz muito tempo: agora você me manda cartões do interior da Noruega enquanto enfrento cotidianos demônios tropicais com sal grosso, guias, axés, varinhas de incenso, alecrim, arruda, manjericão, rosas de Oxum: ora-yê-yê-ô! Estou certo de que não foi lá, mas na Holanda, que atravessamos a pé entre tulipas tão reluzentes que pareciam sintéticas. E - céus! - talvez o fossem. Havia uma ponte, depois um trem atrasado, também um sol de agosto sobre nossas cabeças. Não haveria espaço para Audrey lá, entre tantas torres, tantas praças, tantas pontes, eu vi. Mas se te torturas tanto a cada manhã, desligando sem sentir o despertador para que não te jogue brusca
 (*) Caetano Veloso e Gilberto Gil: São João, Xangô menino
mente no centro de um mais um dia a ser preenchido unicamente pelo que conseguires inventar, por que não participar então de um curso qualquer de inverno? Algo como “Mandalas Alquímicos e a Arquitetura das Catedrais Góticas”, “Prefixos Sânscritos na Obra de Guimarães Rosa”, ou ainda “Premonições Pós-Modernas no Cinema de J. B. Tanko”. Ah descer a rua Augusta a cento e vinte por hora, altas botas, argola de calipso no convés da caravela, jaqueta de couro negro, madrugadas, temporais nas descargas abertas das motocicletas. Ninguém ouvirá o ruído seco de teus saltos batendo no cimento das calçadas sujas. E nem sequer é Gervaise, a Flor do Lodo, inculta e bela...
Quando a moça levantou para ir embora, ele finalmente tomou coragem, bebeu outro gole de quentão e perguntou:
- Você sabe o que realmente aconteceu quando a rainha da Transilvânia tomou de leve o queixo dela na mão cheia de anéis e disse: “Charming, very charming”?
Modesta, a moça baixou os olhos.
- Foi isso mesmo o que Audrey fez - esclareceu.
E foi embora antes dela: no sex, baby. Caído na esquina, o balão incendiava lento. Amanhã, dois meses atrás ou doze, dependendo do ponto de vista, conferiu: exatamente vinte e cinco, quinta-feira, dia de Oxóssi, Guilherme e Lucia.
Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida - reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sai, não do mel.
Não havia ânforas, não havia néctar. Desilusão ainda mais cruel, embora provisória, no tempo de sal: não havia deusas. Mas depois de cravar fundo na própria superfície escura a ponta da agulha de diamantes, para libertar o Longo Solo Gemido de Sax, enfim, sempre podia ir até a cozinha e, distraído que não choraria sequer uma lágrima pela noite – e que bonita foi aquela noite - em que se encontraram e se perderam para sempre, repetir, e ninguém compreenderia, eu avisei, repetir num suspiro molhado de lembranças em que ninguém dá jeito: ah quantas, mas quantas, muitas, tantas Para saudades daquela moça magra chamada Audrey Hepburn.

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| Por Lara | 27.9.11 | 11:06.

2 Responses to “SAUDADES DE AUDREY HEPBURN”

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