OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre aspanelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.

VIII. MARTHA
Deixei que Pedro o abraçasse. Deixei que Linda corresse até a sala para repetir o mesmo disco. Deixei que tsis abrisse novamente o armário, à procura de outra caixa de bombons. Deixei que Júlio gritasse palavrões, chutando coisas, a caminhar de um lado para outro, como se estivesse aflito para dizer algo que não podia ser dito. Deixo que se batam e se espalhem pela casa todos os dias, feito porcos. Mas antes que acordem e depois que dormem, sou eu quem dispõe outra vez os objetos em seus lugares certos. Coloco nos cestos, nas estantes, os livros e revistas que Pedro costuma esquecer nos cantos. Verticalmente, decepo os caules das rosas que Linda traz do jardim, de tardezinha troco a água dos vasos para que durem mais. Com a flanela elimino a poeira da luneta de Virgínia, para que não se embacem os astros, os destinos. Nunca agradecem. E nada espero. Pouco me importavam os cães lá fora, pouco me importavam o terror e a loucura soltos. Não seriam eles a impor a desordem dentro desta casa que também é minha.
Soube que não enlouqueceria quando comecei a varrer os cacos de louça espalhados pelo chão. Mesmo um pouco antes, quando vesti o avental bordado com morangos. Quando joguei no lixo os cacos coloridos das xícaras que eu mesma comprara na cidade e, sem saber por que, guardei no bolso um pedaço verde-escuro. E também ao jogar o pano bordado de Marília dentro do balde, com sabão em pó e algumas gotas de vinagre, para lavar as manchas do sangue de Isis. Recolhi as garrafas vazias de vinho, lavei os cálices, fechei as portas dos armários. Quando não restava nada mais para fazer, comecei a esfregar o chão. Depois arrumaria a sala, bateria os tapetes, as almofadas, trocaria os lençóis nos quartos, esvaziaria o cesto de roupas sujas no banheiro, lavaria as paredes dos corredores, endireitando cuidadosa os quadros tortos, bateria os tapetes, escovaria os sofás, as cortinas. Sabia que ao chegar ao fim da última tarefa a primeira estaria desfeita, e poderia então recomeçar até chegar à segunda, quando a penúltima também estaria desfeita, e novamente refazer e refazer sem parar, sem cansaços. Não me importo nem sinto medo. Sei como disciplinar as coisas, e mesmo que o caos seja inevitável, pelo menos será filtrado pela nitidez de cada coisa em seu lugar exato.
Sim, saberia. Mas depois de lavar o chão, fiquei muito cansada de mim, de todos, de ser tudo a cada dia sempre assim. Eu me aproximei da janela e, apoiada na vassoura, olhei para fora. Era impossível olhar para fora da janela pregada por Arthur, mas olhei como se pudesse ver o pátio calçado com pedras irregulares, a parreira com restos de uvas excessivamente doces, maduras demais, depois a horta com os pés altos de milho, mais além os vales, o rio limpo, as montanhas atrás das quais devia estar nascendo uma lua cheia. Apoiada na vassoura, fui primeiro uma bruxa fatigada de seus próprios feitiços ineficientes e, um momento depois, ainda menos. Apenas uma mulher severa, marcada, sozinha, tentando inutilmente dar ordem numa casa cheia de loucos. Quis ir embora, viver minha própria vida, por mais mediana ou mesquinha que pudesse vir a ser, sem cor. Como li em algum livro, talvez de péssimo gosto na sua verdade afetada e amarga, a solidão seria uma coroa de rosas, não de espinhos, sobre a minha cabeça. Eu não esperava nada além de uma vida limpa como as águas do rio lá fora. Foi quem sabe quase longe o disco de Linda, com seu piano desesperado. Foi talvez o choro convulso de Ricardo, foi Pedro debruçado sobre ele. Nunca mais, eu pensei que alguém viria. Nunca outra vez a mão de alguém na minha pele cheia de células mortas. Mas a meu lado, tangível, no limite da mão Marília soltava meus cabelos, desabotoava um por um os botões de meu vestido empoeirado. Suave, na minha testa vincada, sua mão dissolvia as rugas, apagava aos poucos, descendo mais, esses sulcos fundos que tenho observado todos os dias lavrarem os cantos de minha boca. Quis dizer que precisava arrumar a sala, trocar os lençóis nos quartos, bater as almofadas. Mas ela colocou a mão sobre a minha boca, pedindo silêncio. Sem saber, então soube que ela não se importaria com o cheiro de pó nas minhas roupas. Como se a janela estivesse realmente aberta e pudéssemos ver, como antes, as plantas prateadas sob a luz da lua, joguei a cabeça para trás permitindo que ela lambesse devagar meus seios há tanto tempo esquecidos. E abracei-a com força, no momento exato em que a vassoura caiu ao chão, deixando minhas mãos inteiramente livres para acariciá-la também.

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| Por ludelfuego | 5.4.08 | 13:58.

4 Responses to “DODECAEDRO OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ”

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