DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
Bem sei que gostarias. Mas não te colocarão na cruz, querido. Quanta vaidade, quanto palavreado tolo, quanta culpa idiota. Tanta Piedosa Afetação Messiânica. Desde o começo, sempre foi mentira. E todos sabiam. Pelo menos, enfrenta. Como aquela, mentindo naturalidades com tamanha perfeição que até consegue dizer: sou simples. E diz a verdade quando mente. Não me venhas com Densas Complexidades Psicológicas. Artimanhas, embustezinhos corriqueiros. Portas falsas, coração. Tudo isso me nauseia como a décima dose de um licor de anis. Oxum boceja, uma pluma amarela cai de seu leque. A culpa não existe. A mentira não existe. Falas com arcanjos enquanto cagas. Depois lavas as mãos, lês amenidades pelos jornais. Tudo não passa de um emaranhado de vísceras. Levarás para o túmulo tanta delicadeza, tamanha pudicícia. Os vermes engordarão de tanto açúcar-cande. O que não impedirá o fedor deflutuar como uma aura às avessas sobre a tua cova. Depois, talvez, quem sabe, por que não o Túnel de Luz Ofuscante? Não decifras nada, esfinge de plástico. Até quando insistirás nessa valsa grotesca, nos cristais de palha?

X. JÚLIO
Que não sou apenas um, tentei dizer depois de olhar nos olhos de um por um de cada um dos outros. Éramos nove. Além de mim, Marília abraçada a Martha, ambas observando os cigarros que eu acendia sem parar, como se dissessem que precisávamos economizar, Pedro muito próximo de Ricardo, Isis com a mão ensangüentada, Linda dançando ainda, Virgínia de repente muito alta olhava para mim como se visse de longe, de cima, Raul caminhando de um lado para outro, a repetir que tinha provocado tudo. Olhei-os primeiro um a um, já disse, no fundo dos olhos de várias cores e formas. E repeti, para que entendessem, se possível perdoassem, porque senti medo de Anaís e Marcelo trancados nos quartos, de Arthur fechado no banheiro, alguma coisa que eu e não Raul deflagrara se tornava mais grave do que poderia ter sido. Eu precisava então revelar, repeti, que não era apenas um, que fora o eu de mim que eu mesmo tentava manter calado, imóvel, quem dissera aquilo, pois para torná-lo assim quieto, inofensivo, precisava me movimentar, incessantemente dizendo fazendo coisas sem muita importância para me atordoar, para estonteá-los. Sou dois, repeti, e foi esse um que vocês não conhecem direito, nem eu, quem disse que haviam soltado os cães. Depois que esse eu-ele disse foi que começou a acontecer tudo isso que me assusta agora, como um final sangrento onde só o amor de alguns que o caos fez vir à tona e a solidão ainda maior de outros, pelo contraste do encontro alheio, como eu-eu, eu-ele, como meus dois eus, parecem revelar qualquer coisa como um novo caminho para o qual talvez nem todos os meus eus nem os de vocês estarão preparados.
Acendi outro cigarro. Linda parou de dançar, embora a música prosseguisse na sala. Isis guardou um bombom no ar, a caminho da boca aberta. Raul e Virgínia me olharam imóveis, cada um num canto. Ao mesmo tempo, Martha e Marília, Ricardo e Pedro, foram desfazendo lentos seus abraços para me olharem também. A dor e o desespero tinham ido embora das teclas do piano. Tentei ser mais claro: ele mentiu, eu disse — eu menti, se quiserem—, e mais lento, assim:
ninguém soltou os cachorros loucos. Se alguém quiser saber por que, direi novamente: não fui eu quem mentiu, mas uma parte de mim, e se quiserem perguntar também a essa parte de mim que desconheço quase tanto quanto vocês, se eu conseguisse localizá-la para trazê-la com cuidado à tona, sem que ameace tomar o controle de tudo, talvez ela dissesse: porque o verão está no fim, porque na verdade não nos conhecemos, porque nada do que acontecia aqui, rituais, levezas mentirosas, até que minha mentira nos ameaçasse aconteceria realmente se minha mentira não fosse verdade e nada tivéssemos a defender além da verdade inteira de um próximo momento mais verdadeiro que aquele. Mesmo medonho. Baixei a cabeça quando sem pretender fui forçado a dizer assim, cínico talvez, mas absolutamente passível de perdão, embora não necessitasse dele, porque de alguma forma havia feito exatamente o que me fora destinado fazer, ainda que para isso um eu desconhecido precisasse tomar o comando de mim e disse então, olhando nos olhos de um por um dos outros oito: foi por Amor que menti.
Afastando-se de Ricardo, Pedro aproximou-se devagar, me tocou sem ódio no ombro para dizer: és meu oposto, mas se por amor confundes e libertas o caos de tudo e de todos, por amor eu tento tocar mais fundo, procurando um vôo que não conseguiria jamais num amor menor. Eu não queria seu perdão. Eu talvez fosse embora no momento seguinte, porque não havia cães nem terror nem paixão nem encontros nem nada além da mentira que o outro eu de mim inventara.
Eu nada disse a Pedro. Apenas observei Virgínia caminhar até a porta do banheiro para explicar tudo a Arthur, e pouco depois, o martelo nas mãos, voltar à cozinha, entregar sua luneta a Raul antes de começar o trabalho, então despregar lentamente as tábuas das janelas. As batidas do martelo misturavam-se aos sons do piano. Ajudada por Linda e Isis, escancarou de repente as duas janelas. Era possível ver a lua cheia subindo no céu, cor de laranja denso atrás dos montes, vento fresco como se viesse do mar, embora estivéssemos no centro de todas as terras, entrando pelas janelas abertas para fazer esvoaçar nossos cabelos, arrepiar os pêlos de nossos braços, esfriar nossas faces. Acho que sorri quando, acompanhada pelos outros, Virgínia enveredou pelo corredor, detendo-se à porta de Marcelo para tomá-lo pela mão, sem dizer nada. Pararam todos à frente do quarto de Anaís. Pensei que não me queriam com eles, mas Pedro me tomou pela mão e eu me deixei levar.

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| Por ludelfuego | 5.4.08 | 14:09.

3 Responses to “DODECAEDRO DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ”

  1. # Anonymous Renata

    Eu estava atrás desse conto a muito tempo e não encontrava!
    Obrigada por me proporcionar esse encontro.
    Beijos  

  2. # Blogger Shijun Lin
  3. # Blogger xjd7410@gmail.com
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