DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
Também conheço esse jogo। Agora pões a trunfa marroquina de espelhinhos, miçangas, bordados e cordões. Como uma coroa, sobre a cabeça. Acendes incenso, velas, jogas sal marinho nos quatro cantos, a água sobre toalha branca. Te benzes. E reviras os olhinhos, dispondo Fatídicos Arcanos. Traças sinais cabalísticos no ar e dizes coisas, Sacerdotisa de Nada, lançando profecias como quem lança milho às galinhas. A cabeça sempre um pouco baixa, para disfarçar a arrogância de ter sido A Grande Escolhida. Porca, porca, porca. Cumpres com humildade tua Amarga Sina De Ser Assim Abnegadamente Superior. E te melas toda no visgo das estrelas, te encharcas de visões equivocadas. Depois procuras o ponto de fogo entre as coxas, e só então suspiras, aliviada de tanta santidade. Ainda continuas? Pára, te ordeno. Não tens esse direito. Há mais. Onde? Tenho todos os direitos, só não suporto nenhum. Como discipliná-los, agora? Pensei que se conseguisse estaria livre. Pensei que se denunciasse a perdição deles me livraria da minha. Agora também me perdi. Destinos, anúncios luminosos. Faz um esforço, vamos. Apunhala, grita, arremata. Xangô te guia, machado em riste.

XI. VIRGINIA
Desde o início soube. Na verdade desde ontem, desde antes. Mas me limitei a observá-los, enquanto me aplicava nos cálculos para que não se emaranhassem os destinos nem se equivocassem os ângulos entre os planetas, as cúspides, os luminares. Embora nem sempre me ouvissem, falava assim mesmo. Dizia de Netuno embaçado, tornando ainda mais sangrenta a fúria de Marte, do movimento maléfico de Mercúrio, unido à Lua para obscurecer a luz do Sol, do brilho mais forte de Vênus em sua Casa, trazendo à tona as funduras de Saturno. Sobre todos, pairava Urano, a estimular o presságio da estranha abundância provocada por Júpiter, enquanto mais longe, por trás da consciência, como o jorro de lava dos vulcões, Plutão faria explodir o pus de todas as feridas. Dependeria de nosso exercício de alquimia saber transmutar o gosto nojento desse visgo amarelo em outro sabor mais limpo.
Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.
Não lhes disse isso. Não era preciso. Não porque mais uma vez não entenderiam, mas sim porque depois de desfeita a desordem instaurada por Júlio, até que se inaugurasse nova ordem, menos precária que esta, alguém precisaria ir em frente. Me limitei a chamar Arthur, apanhar seu martelo, entregar minha luneta a Raul e arrancar as tábuas pregadas sobre as janelas da cozinha. Com a ajuda de Isis e Linda, escancará-las para que entrasse o ar noturno e a luz da lua cheia. Chamei também Marcelo à porta de seu quarto, que me abraçou com ardor, umas ardências das quais talvez precisarei até minha partida no próximo verão. Por isso tomei-o pela mão, trouxe-o comigo, me agradam suas sobrancelhas espessas, unidas graves sobre o nariz, seu olho de quem não teme matar e sempre planta. Estendeu-me um tomate maduro mordido, que mordi também, passando-o depois aos outros. Ë o primeiro, ele disse. Um por um, nós o provamos, parados à frente do quarto de Anaís. Sem querer, antes de bater, pensei obscuramente qualquer coisa assim:
porque me antecede, ela sabe mais. Repito, ainda não é claro: porque ela me antecede, talvez saiba mais; se me amparar no passado verei mais claro o futuro. Bati três vezes.
Entre a confusão de panos roxos, cristais, fumaça de incenso, quadros, sininhos, tecidos orientais pendurados do teto sobre a cama, livros, frascos, papéis escritos, Anaís sorria muito calma. Estendeu para mim as duas mãos em concha, cheias de comprimidos brancos, depois jogou-os ao chão. Júlio quis começar a dizer alguma coisa longa demais, e um tanto confusa, mas com um sinal ela fez entender que não era preciso. Depois apanhou as folhas de papel sobre a cama, sentou-se na janela aberta — esteve aberta o tempo todo, disse, ordenando as folhas — e perguntou se queríamos entrar para ouvir. Marcelo tentou abraçá-la. Ela afastou-o com um gesto delicado, querendo dizer que não, que agora não, que desse jeito não, que assim não, que não mais, quem sabe nunca. Servindo-se de um desses licores açucarados que costuma fazer, tão roxo que acho que era o de violetas, Anaís começou a ler.

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| Por ludelfuego | 5.4.08 | 14:11.

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