Eliete chegou no meio do speed. No terceiro dia da paixão, virei tiete

Estou apaixonado.
Não se preocupem, não é por uma pessoa. Ou é, sim, por uma pessoa.
Mas só indiretamente. Estou apaixonado pelo trabalho dela, pela voz, pelo clima, pela delicadeza e pela Arte (assim mesmo, com maiúscula) dela. Deixo de mistério, entrego: Eliete Negreiros e seu último — segundo, ao que sei — LP, da Copacabana.
E isso que ando difícil, ando torturado. Não tenho tempo, cor­ro o dia todo, acho tudo e todos barulhentos, exaustivos. Movido por esse horrível sentimento de urgência paulistana que não me deixa olhar nada lentamente, sentir devagar. Sufocado, ando apressado. Nos segundos roubados desse estrangulador ganhar-a-vida, me alimento de jóias raras: João Gilberto, sempre, um pouco de Sade, Billie, Bassie, Nana Caymmi, Nara Leão, Schumann. Tudo o mais me parece atordoante. Ando em busca do silêncio que a cidade não dá. Da paz que a cidade não dá. Da suavidade zen que esta cidade não dá, nunca deu nem dará nunca. A ninguém.
Foi no meio do speed que chegou Eliete. Eu nunca tinha pres­tado atenção nela. Mal nos conhecemos, mais através de um lindo amigo em comum—Milton Hatoum, o Manaus. Mas tenho precon­ceitos. É feio, sei, mas tenho. Daí pensava: ai meu Deus, mais esta Arriguete, com aquelas letras concretistoides geladas & modernésimas... Nunca tive paciência para ouvir Eliete antes. Embora, nas poucas vezes em que nos cruzamos, ficasse agradecido e contagiado pela paz dela.
Comecei pela versão de La vie en rose. Deu um clack! na ca­beça, não sei explicar. Fui arriscando outras faixas, uma por uma, medo de estar enganado. Não estava. Primeiro veio uma letra lindíssima de Zé Miguel Wisnik, com música de Carlos Rennó: Domingo longo (ah, conheço tantos); veio um samba de Elton Medeiros e Eduardo Gudin, falando "às vezes se guarda o melhor caminho/ se oculta o desejo pra não sofrer".
Uns blues doloridos de Itamar Assumpção. O sax de Roberto Sion. No meio da pressa, como eu ia dizendo, a voz mansa, afinadíssima, de Eliete dizendo sossega, sossega, meu amigo, tudo é coisa de gente, tem um bonito in aparente por trás, tenta ver.
No terceiro dia da paixão, virei tiete e liguei pra ela. Queria dizer obrigado, menina, quando você canta, a vida para de girar tão rápido e até parece bonita. Ela foi paciente com minha inva­são. Desliguei agradecido, espantado com minha própria ousadia. Agradecer é difícil. E a gente precisa aprender, a gente precisa. Aprender a não ser só.
Eliete, new-bossa. Para que vocês compreendam: o primeiro LP que comprei na vida foi de Sylvinha Telles. Tinha doze anos. Aos trinta e sete, só João Gilberto me sereniza. Ou Astrud. Há um mês, só tiro para lavar uma camiseta escrita "Bossa-Nova", que o Pardal, lá da lojinha do mesmo nome, me deu. "Ah, bossa-nova, new-bossa, olha eu aqui sem viver" — chora minha rainha Rita Lee. A vida então se adoça. Gosto de mel, de flor, de azul. Não de avenida Paulista nem de Madame Satã. Preciso manter a ilusão de que tudo pode ser doce. Preciso acreditar que a vida pode ser como a voz de Eliete. E que em alguma esquina, um dia — por que não? — encontrarei um amor bonito esperando por mim.
Quando saio, agora, fico impaciente. Quero voltar pra casa, colocar logo o disco para que o mundo todo se reorganize em do­çura. Gostar de ouvir Eliete é cuidar de um certo jeito de olhar o mundo. Por trás do susto, perdão de olhos molhados, pegar na mão devagarinho e repetir de verdade, do fundo, sem o menor pudor, sem ânsia alguma:
—Gosto de você. Você existir me ajuda a viver.
Depois, acreditar que tudo vai dar certo. E deixar — como ela canta—que o amor dê o que falar.

O Estado de S. Paulo, 29/4/1986


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| Por Caio Fernando Abreu | 19.1.14 | 21:13.

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