Para Gilberto Gawronski

Escrito em 1969, é completamente inédito. O título veio de uma música americana chata que, na época não parava de tocar no rádio. Sofreu vagamente alguma influência do realismo-mágico latino_americano, misturado à linguagem “descontraída” deJ. D. Salinger — e talvez justamente por essa mistura e certa gratuidade geral nunca quis publicá-lo. Ao encontrá-lo perdido numa pasta em uma única versão datilografada e toda rasurada à mão, nem me lembrava de tê-lo escrito um dia.


É verdade, sim, que recebi o diário dela. Não é natural que nesses casos a polícia sempre mande os pertences da vítima para o parente mais próximo? Sim, eu tenho vinte e cinco anos e sou, quer dizer, era filho dela. Único filho. O que não sei é se é certo ficarem chamando ela de vítima, e também nem sei se posso chamar de pertences aquelas tralhas da sacola de plástico. E que é muito pouca coisa — apenas o diário, um regador e uma tesoura. Acho que ela estava com uns sessenta anos, mas isso não tem importância nem acrescenta nada, afinal ter sessenta anos não justifica que se tenha como pertences um diário, um regador e uma tesoura. Andar sempre vestida de azul também não justifica nada, e ela andava, quero dizer, ela andava sempre vestida de azul, vocês compreendem? Detesto ficar repetindo essas coisas, mas acontece que eu não sei pensar antes de falar, como a maioria das pessoas, então eu vou falando e só penso depois e às vezes eu só me dou conta que falei alguma coisa que não devia depois de já ter falado, compreendem?
Como, não interessa? Se sou eu que estou falando só posso falar do jeito que eu falo, e quando eu estou falando o que não interessa tem que interessar porque só depois de falar o que não interessa é que posso falar o que interessa. Assim mesmo, quando me dou conta já estou só no que interessa e que, como eu já disse, às vezes não interessa para mim, mas para os outros sim. Estou sempre tomando na bunda com essa mania, que nem é mania, mas um jeito de ser, o quê? Tá bom, respondo, podem perguntar. Sou despachante, sim. Pego papéis, carteiras de identidade, títulos de eleitor, certificados, fotografias 3 x 4, a maioria agora é 5 x 7, os senhores sabem, essas coisas, e encaminho passaportes, erregês, essas coisas. Têm dias que eu fico muito cansado de fila, guichê, carimbo, protocolo, têm dias que chega numa hora que parece que os pés não cabem dentro das meias e dos sapatos e que meus braços estão engordando dentro do paletó, as pernas dentro das calças, das cuecas, o tronco dentro da camiseta, porque eu ando sempre de cueca e camiseta e meias, mesmo no verão, mas troco todo dia. De camisa e gravata eu também ando, e tem horas também que o meu pescoço parece que fica maior que a camisa e que tudo que cobre meu corpo, meu corpo fica maior do que tudo que cobre ele, os senhores entendem?
Aí nessas horas eu pego e sento numa praça, desabotôo tudo, tiro os sapatos, as meias e fico ali sentado, um tempo. As coisas que acontecem numa praça — não precisa nem a gente prestar atenção nelas, elas só vão acontecendo em volta, não importa que ninguém se importe. Uma vez me ofereceram erva, os senhores sabem o que é, não? Pois é, eu não quis, nem sei por que, tem um amigo meu que diz que tudo é bom como experiência, mas tem umas experiências que eu não quero mesmo ter porque acho que tudo vai ficar muito difícil e eu não vou conseguir mais ficar dentro de mim mesmo. Se eu não conseguir mais ficar dentro de mim mesmo eu vou ficar muito sozinho, porque não estou acostumado a ficar fora de mim mesmo, isso eu não sei se os senhores compreendem, porque nem eu compreendo direito. Tem uma história que talvez explique melhor essa coisa de ficar dentro, ficar fora. Outro dia numa dessas praças já era quase noite e não havia mais ninguém, um cara pediu para me chupar o pau. Ele pediu dum jeito muito educado e tudo, era um cara bem vestido, de barba, com um turbante colorido na cabeça, parecia um indiano. Bom, eu pensei, se ele quer tanto chupar o meu pau eu vou mesmo deixar, porque isso não me tira pedaço nenhum e eu posso continuar dentro de mim mesmo sem nem prestar muita atenção no que ele está fazendo. Eu não ia foder com ele nem nada, ia só deixar ele chupar meu pau, e isso de chupar pau nem precisa que você se mexa, os senhores entendem é só deixar o cara fazer e pronto, é só ficar quieto e o cara faz tudo. Por mim a gente tinha feito ali mesmo, mas ele preferiu o banheiro da praça, acho que porque o turbante chamava muita atenção. Tinha uma mancha amarela nos azulejos da parede e eu fiquei olhando, olhando, até que a mancha amarela deixou de ser uma mancha amarela e começou a parecer uma escada que tinha na minha casa, uma escada toda de madeira, cheia daqueles bichinhos, como é mesmo o nome? ah, cupim, isso, uma escada de madeira cheia de cupim que tinha numa casa que era a minha quando eu era criança. Lembro que eu descia pelo corrimão, escorregando, os buracos da madeira e as felpas raspavam nos fundilhos das calças e os fundilhos sempre puíam, puíam até furar, aí a minha mãe cerzia e todas as minhas calças tinham os fundilhos cerzidos porque por mais que a minha mãe reclamasse eu nunca deixava de descer escorregando pelo corrimão. Ela reclamava sem ficar brava, dizia que era coisa de criança, me pegava no colo e não deixava meu pai me bater. Era sempre assim naquela casa com a escada, o meu pai querendo bater em mim e a minha mãe não deixando. Eu não gostava dele, mas não era só porque ele queria bater em mim, é que ele também batia na minha mãe e fazia outras coisas que não achava certas, mesmo quando não sabia direito o que eram.
Que coisas? Bom, uma noite eu desci bem devagar pela escada porque estava com sede e ia até a cozinha quando vi no tapete da sala meu pai e minha tia fazendo uma coisa que eu nunca tinha visto antes. Sentei no degrau e fiquei olhando, eles estavam sem roupa, ele era grande e peludo, com uma coisa dura no meio das pernas e a minha tia dava uns gemidos que parecia que estavam machucando ela, e eu não entendia porque ela ria e virava a cabeça para os lados se parecia sentir tanta dor. Numa dessas vezes que ela virou a cabeça, ela me viu sentado no degrau. Eu saí correndo e me tranquei no quarto por dentro mas não adiantou porque eu sempre sonhava que o meu pai estava me obrigando a chupar aquela coisa dura. Mas nunca nenhum deles falou daquilo comigo, e daí passou um tempo e um dia eu me olhei no espelho e vi que tinha ficado grande e peludo e com aquela coisa dura no meio das pernas, igual meu pai. Foi aí que eu saí de casa e arrumei esse trabalho de despachante e fui morar noutro lugar, porque ela no ia mais gostar de mim se visse que eu tinha ficado parecido com o meu pai, eu podia até querer começar a bater nela também.
Eu já disse que ela andava sempre vestida de azul, não é? Pois é, ela andava sim, e eu achava até bonito ela andar assim, ela dizia que era porque gostava de céu sem nuvens em dia bem claro. O meu pai?
Ah, logo depois que eu fui embora, ele foi embora também, junto com aquela tia. Não, não sei pra onde, nem quero saber e tenho raiva de quem. Mas naquele tempo que eu morava lá não tinha esse regador nem a tesoura, nem o diário. No jardim só tinha rosas, e as rosas tinham morrido todas com uma geada brava de julho e aí ela deu o regador e a tesoura porque não serviam mais pra nada.
Namorada? Não, não tenho não. Tinha umas mulheres que moravam todas juntas numa casa perto da minha, da outra casa sem escada, para onde eu mudei depois que descobri que tinha ficado grande e peludo. Às vezes elas vinham me visitar e queriam fazer aquilo que meu pai fazia com minha tia no tapete. Quer dizer, elas queriam fazer na cama, tinha uma que queria fazer em pé na pia da cozinha, quem queria sempre fazer no tapete era eu. Elas só achavam esquisito e riam, elas riam muito e eu fazia com uma, duas, três, às vezes eu fazia até com as quatro, elas eram quatro. Eu era muito forte naquele tempo, só me sentia fraco quando lembrava que a geada de julho tinha matado todas as rosas no jardim de minha mãe, me enfraquecia tanto lembrar que minha mãe não tinha mais rosas para cuidar, e se ainda tivesse quem sabe de vez em quando ela se vestiria de vermelho, só para combinar, não é?
Aí aquele cara que estava me chupando o pau no banheiro da praça me perguntou por que é que eu estava olhando tanto a mancha amarela, eu falei das rosas e ele perguntou “mas eram rosas amarelas?” e eu disse “não, não, eram vermelhas, ela só gosta de rosas vermelhas”. Então ele disse que tinha gostado muito de mim e que ia ajudar minha mãe, coitada, o dia inteiro vestida de azul, sozinha naquela casa, sem rosa nenhuma pra cuidar. Eu fiquei tão forte de novo que deixei ele me chupar outra vez ali no banheiro da praça, ele gostou mais ainda e os olhos dele brilhavam como os de gato no escuro, tinha as mãos muito finas e os movimentos leves como se estivesse embaralhando cartas, não sei se os senhores compreendem, e tinha também aquele turbante colorido na cabeça e uma barba fina, dentes muito brancos, mais brancos ainda contra aquela pele cor de azeitona e uma tatuagem no pulso em forma de cobra, assim dando a volta no pulso e mordendo a própria cauda. Eu disse que tinha horror de cobra e ele riu com aqueles dentes que pareciam ainda mais brancos naquela pele quase esverdeada e disse “mas não precisa ter medo, não é uma cobra de verdade”.
Foi nesse momento que eu comecei a achar que ele era um sujeito muito inteligente, pois se a cobra não era de verdade eu não precisava ter medo dela, e se eu não precisava ter medo dela também não precisava ter medo dele, certo? Falei isso pra ele e aí ele tirou do bolso de dentro do casaco uma muda de roseira muito pequena e disse assim “toma, leva de presente para a tua mãe”. Isso foi na segunda-feira passada, eu saí dali e levei imediatamente para a minha mãe, depois fui para a minha outra casa e não voltei mais lá.
O que eu quero dizer, mas acho que os senhores não compreendem mesmo, é que não tenho culpa nenhuma. A única coisa que fiz foi dar aquela muda de presente para a minha mãe, como ele disse, porque achei que ela ficaria feliz, e ficou, e eu também fiquei quando vi que ela ficou. Ele parecia um sujeito decente, bem vestido, educado, parecia estrangeiro, talvez indiano com aquele turbante colorido. Como é que eu podia saber que aquelas rosas eram carnívoras?

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| Por ludelfuego | 29.7.07 | 20:11.

1 Responses to “RED ROSES FOR A BLUE LADY”

  1. # Blogger Júlia

    baby, esse texto é uma referência ao livro do Camus né?
    O Estrangeiro.  

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