Para Lucienne Samôr

Eu tava atormentando as formigas com uma varinha embaixo da goiabeira quando a Malu veio me dizer que o Bituca ia fugir com o circo. Eu fingi que não acreditei. Disse que o Bituca só falava aquilo pra incomodar ela, que ela vivia andando atrás dele que nem carrapato e ele não via um jeito de se ver livre. E menti que o Bituca tinha me dito que se ela contasse aquilo pra qualquer pessoa ele ficava de mal com ela pra toda a vida. O Bituca era meu amigo, eu sabia tudo o que ele pensava e fazia. A Malu saiu correndo meio chorando, e de repente me deu cansaço de estar ali, a tarde toda, atormentando aquelas formigas tontas com a varinha. Eu tinha que falar com o Bituca.
A tarde tava muito quente, eu acho que era janeiro, e eu fui caminhando pela sombra até a casa dele. Só que quase não tinha sombra, era pouco depois do meio-dia e o chão tava tão quente que eu precisava caminhar me equilibrando no garrão. Quando cheguei na casa do Bituca a mãe dele me disse que ele não tava. Eu perguntei se ela não sabia onde ele andava e ela disse que não, mas se eu encontrasse com ele era para dizer pra ele ir já para casa tomar banho e que se a calça nova tivesse esbragalada ele ia levar uma tunda de laço. Eu disse que tava bem, e fui saindo, quando eu já tava quase no portão me deu vontade de perguntar se ela sabia que ele ia fugir com o Grande Circo Robatini, cheguei a ficar de boca aberta, daí eu pensei bem depressa e achei que não devia perguntar aquilo, seria como se eu traísse o Bituca. E ele era meu amigo. Aí eu disse que era sede, que o sol tava muito quente, e a dona Laurita foi muito boazinha, falou que ia buscar um copo de água gelada. Eu tava mesmo com muita sede, mas quando ela voltou com o copo eu já tinha corrido até a esquina. É que eu não aguentaria não dizer nada enquanto ela ficava ali, encostada na porta, me olhando de dentro daquele vestido de florzinha azul. Eu sabia que a dona Laurita não ia gostar de saber que o filho dela ia fugir, mas ela tava sendo tão boazinha comigo que eu até ficava com vontade de ser bom também. Só que se eu fosse bonzinho com ela eu estaria traindo o Bituca, e essas coisas todas faziam uma baita bagunça na minha cabeça, então eu saí correndo pra ir até o circo. Fazia tanto calor que eu tive vontade de dizer Kimota!, me transformar no Jack Marvel Jr. e ir voando até lá. Eu sabia que não adiantava, mas disse assim mesmo — Kimota! Shazam! —, não aconteceu nada e eu tive que ir caminhando naquele baita sol.
Eles tavam desmontando tudo quando cheguei lá, eles iam embora aquela noite. Tinha uma porção de cordas e caixotes e ferros e umas coisas que eu não me lembro. Uns homens sem camisa já tinham baixado a lona e bem no meio tinha ficado um círculo sem capim, tava cheio de garrafa, ponta de cigarro, papel de chocolate, pacotinho de pipoca vazio, um monte de porcaria. Tinha cheiro de bosta de cavalo e só fazia sombra do outro lado das carrocinhas onde moravam os borlantins. Aquele solaço tava me doendo na cabeça e aquele cheiro de bosta quente e suor de cavalo, catinga de macaco, de leão e de gente grande me dava vontade de vomitar. Tinha uma porção de homens mexendo naqueles troços todos e uns piás espiando e fui me chegando sem coragem de perguntar pelo Bituca. Aí de repente eu vi ele na sombra duma carrocinha, ao lado da palmeira, conversando com Rúbia, a trapezista. O Bituca já era grande, mas a tal de Rúbia tava dando sorvete na boca dele, que nem um bebezinho. Eu cheguei e disse sem respirar:
— Bituca, a tua mãe disse pra tu ir já pra casa tomar banho e que se tu esbragalar a calça nova ela te dá uma tunda de laço.
Acho que ele não ficou muito contente de me ver, porque me olhou daquele jeito enviesado que ele só olhava quando não tava gostando de alguma coisa, vezenquando ficava até meio vesgo. Aí a Rúbia foi e perguntou se eu não queria um pedacinho de sorvete e falou que eu não devia andar descalço e sem chapéu naquela mormaceira. Eu olhei bem pra ela e disse que não, que muito obrigado, que não carecia. Foi difícil olhar bem pra ela porque ela era muito bonita, toda loirosa e perfumada, e eu ficava sempre pensando como ela conseguia fazer aquele rebuceteio com as mãos quando estava lá em cima, antes de se jogar no ar, com o maio de lantejoulas brilhantes. As mãos dela eram muito brancas e tinham umas unhonas vermelhas, as mais compridas que eu já tinha visto. Ela falou que eu era muito educado, e foi amassando o copinho de sorvete com aquelas unhonas vermelhas, e fez um barulhinho assim: crrráááác! — e nessa hora eu senti ainda mais sede e mais calor e fiquei com um ódio da Malu ter me dito aquele troço, e até pareceu que tava bom lá, na sombra, embaixo da goiabeira, mexendo com as formigas. Aí a Rúbia pegou uma Cinelândia com a Ava Gardner na capa e começou a folhear, fazendo aquele rebuceteio com as mãos antes de virar cada página. Ela era ainda mais bonita que a Ava, mesmo sem o furinho no queixo. Eu fiquei por ali, estralando as juntas dos dedos como o Bituca tinha me ensinado, e a Rúbia foi e pegou um maço de Hudson com ponta do bolso e deu um pro Bituca, pegou outro e me ofereceu, eu disse que não, obrigado, e ela perguntou se eu tinha fogo, e eu disse que não, e quase ia dizendo obrigado de novo quando o Bituca falou que ia buscar uma coisa e já voltava e me pegou com força pelo braço e foi me puxando pra perto da jaula do leão.
— Bituca — eu disse —, a Malu me contou que tu vai fugir com o circo.
Ele disse que ia mesmo e pediu o fogo pra um homem sem camisa que vinha passando. Eu nunca tinha visto o Bituca fumar antes. Vinha uma catinga forte da jaula do leão e eu ainda tava sentindo aquele perfume forte que a Rúbia usava, a catinga era nojenta, o perfume até que era gostoso, mas os dois juntos mais a fumaça do cigarro que o Bituca jogava na minha cara tavam me enjoando ainda mais o estômago.
— Bituca, a dona Laurita vai sentir a tua falta.
— Que me importa — ele falou, e jogou mais fumaça na minha cara. — Agora vou ser borlantim e ninguém tem nada com a minha vida.
— Não joga fumaça na minha cara — eu pedi. — Eu também vou sentir a tua falta.
— Por que tu não vem junto?
— Tu tá falando sério?
— Claro que tô.
Eu não sei se era aquele monte de cheiros misturados na minha barriga ou o convite do Bituca — mas naquela hora eu cheguei a ter uma tonturinha e quase me encostei na jaula catinguenta.
— Eu não posso.
— Como não pode? Tu não é diferente de mim. A gente tem a mesma idade, tá na mesma aula. Como é que eu posso e tu não? Tu tem medo?
— Eu não tenho medo de nada. Mas eu não posso.
— Pode sim. Eu falo com a Rúbia, ela deixa tu ir no carrinho dela. Já falei com ela. Vamos nós três.
— Nós três quem?
— Eu, a Rúbia e o Saul. Naquele carrinho rosa lá.
Eu olhei pro lado do carrinho. A Rúbia tinha acendido o Hudson e tava de prosa com um sujeito musculoso, de barriga cabeluda e cabeça raspada, meio parecido com o Lothar, encostado na palmeira. Ela usava um short vermelho bem curtinho, que nem o da Nyoka, a Rainha das Selvas, e de longe parecia ainda mais bonita que na parte onde a mocinha morre, em O céu uniu dois corações, que a dona Laurita chorou e disse que ela podia ser uma desfrutável e andar retocando com todo o regimento, mas que era tão boa atriz quanto a Loretta Young. E a dona Laurita entendia de artistas. A Rúbia se abanava com a Cinelândia e apontava pra nós, eu e o Bituca.
— Me dá o cigarro — pedi.
Dei uma tragada forte e fiquei olhando pro Bituca, soltando fumaça pelas ventas. A calça nova dele tava toda esbragalada e xexelenta. Puxa, ele era meu amigo e eu acreditava nele. O Bituca era bacana, nunca tinha me dito uma mentira. Eu tive vontade de ficar ali com ele, de ir embora no carrinho rosa, com Rúbia, Bituca e o domador parecido com o Lothar. Mas a tragada que dei no cigarro terminou de me esculhambar o estômago. Eu disse pra ele que tinha de ir embora. Ele segurou de novo no meu braço.
— Mas tu jura que não vai contar nada pra ninguém?
Eu pensei na dona Laurita, com aquele vestido de florzinha azul, depois pensei na Malu, com a perna fina e o carpim sempre escorregando, e pensei também em mim mesmo, atormentando as formigas. Eu só fazia essas besteiras — cravava espinho de bergamoteira no bumbum delas, matava passarinho com bodoque, jogava sal em les ma, fazia círculo de fogo em volta de escorpião e lacraia — quando o Bituca não tava comigo. Quando a gente andava junto ele inventava teatrinho de caixa de sapato, subia em árvore, fugia pra brincar no rio, me emprestava gibi, me dava figurinha do ídolos da tela e tudo. Eu ia sentir uma baita falta dele. Mas eu disse que não, eu disse depressa que não, porque a minha barriga tava toda remexida e eu não queria vomitar ali mesmo, na frente de todos os borlantins, da Nyoka e do Lothar, lá na sombra da palmeira, olhando pra gente, eles iam me achar nojento. Ele me fez jurar que não ia contar nada pra ninguém e eu jurei três vezes, por esta luz que me alumia. Daí ele me estendeu a mão e falou que quando o Grande Circo Robatini voltasse de novo à cidade eu fosse falar com ele, que me arrumava entrada de graça e eu ia poder sentar lá na frente, nas cadeiras acolchoadas e não nos poleiros onde a gente sempre ficava com a dona Laurita e a Malu. Quando ele falou isso tive certeza de que o Bituca era mesmo meu amigo e tive vontade de abraçar ele, mas precisei sair correndo pra não vomitar ali mesmo, na frente do domador com a cabeça raspada e da Rúbia com aquela Cinelândia e aquele Hudson nas mãos de unhonas vermelhas.
Só fui vomitar lá adiante, quase no portão da minha casa, embaixo das unhas-de-gato. Aí quando eu entrei na cozinha a minha mãe viu que eu tava muito branco e perguntou o que eu tinha. Eu disse que não era nada, mas ela viu que a minha camisa tava toda respingada de vômito e a minha boca fedendo que nem a jaula do leão. E quando eu pensava nisso mais me dava vontade de vomitar, e eu vomitei, me lembrando do perfume da Rúbia, da cabeça do Lothar, do Hudson com ponta, do cheiro de bosta quente de cavalo. A mãe me botou na cama, chamou o médico e o meu pai e ficaram os três fazendo uma porção de perguntas. Mas eu não traí o Bituca. Menti que tinha comido pitanga verde e ficado no sol quente, eles podiam me matar que eu não ia dizer nada nunca. Não consegui dormir direito, e no dia seguinte eles não me deixaram sair da cama e eu fiquei o dia inteiro lendo gibi, tomando guaraná com bolachinha champanhe e pensando num jeito de perguntar pelo Bituca sem que eles desconfiassem. Mas de tardezinha bateram na porta do quarto e o Bituca entrou com uma porção de gibis embaixo do braço.
— Me disseram que tu tava doente e eu trouxe isso daí pra tu ler — ele disse, jogando os gibis em cima da cama.
— Ué, tu não ia fugir com o circo?
Ele não respondeu, perguntou se podia beber um pouco de guaraná e comer bolachinha champanhe. Eu disse que podia, vi que ele não queria falar e não insisti, fiquei fingindo que tava muito interessado nos gibis que ele tinha trazido, mas eu já tinha lido quase todos, menos um Mandrake e um Durango Kid, que eu nem gostava muito, só correria e tiroteio. Aí de repente ele disse furioso:
— Aquela vaca!
— Quem? A Malu? Ela falou alguma coisa?
— A Malu não falou nada. Vaca é a Rúbia, que ficou o tempo todo dizendo que ia me levar junto, passando a mão na minha cabeça, me dando cigarro e sorvete, falando que ia me ensinar a pular do trapézio, a andar com um pé só naqueles cavalinhos. Depois, na hora agá, tirou o corpo fora, falou que o Saul não queria que eu fosse, que eu era menor.
— Menor do que ele?
— Não, bocó. Menor de idade. — Tirou um Hudson do bolso e acendeu com raiva.
— Cuidado — eu avisei. — Se a minha mãe entrar de repente não vai gostar de te ver fumando.
— Que me importa — ele falou. E ficou fumando e tomando guaraná. — Agora é muito tarde. Eu já tô viciado pra sempre. E tô desiludido da vida, posso fumar quanto quiser.
Ele parecia muito triste, dum jeito que eu nunca tinha visto. O tempo todo me olhava com aquele olho enviesado, meio vesgo. Eu deixei ele ir bebendo o guaraná e comer mais da metade do pacote de bolachinha. Depois mostrei pra ele o almanaque novo do Superman que o meu pai tinha trazido, perguntei se ele já tinha lido e ele falou que não gostava do Superman. Eu falei que no dia seguinte, quando eu melhorasse, a gente podia ir tomar banho no Uruguai. Ele disse que achava que amanhã ia chover. Eu disse que não fazia mal, que se chovesse mesmo, e não tava com jeito, a gente podia chamar a Malu e brincar de teatro no porão a tarde inteira, ela sabia A ré misteriosa de cor e salteado. Ele disse que já tava cheio de teatro, que tinha rato no porão, que a Malu era uma chata de perna fina, que A ré misteriosa era muito besta. Eu suspirei e disse que tinha conseguido a June Allyson, a Debbie Reynolds e a Fada Santoro pro álbum de ídolos da tela dele. Ele disse que não tava mais colecionando figurinha e daí a gente ficou calado uma porção de tempo. Era quase de noitezinha, e a essa hora a radiola do circo começava a tocar Recuerdos de Ypacaray, que era sempre a primeira música e vezenquando a Rúbia cantava no Big Show de domingo. Mas agora o circo tinha ido embora e o silêncio era muito grande. Ele devia estar pensando o mesmo que eu, porque de repente apagou o cigarro, jogou a ponta pela janela, acendeu outro e ficou abanando a fumaça com o almanaque do Superman. Eu pensei que se ele não gostava mais mesmo daqueles brinquedos todos eu ia ter que passar o resto da minha vida atormentando formigas embaixo da goiabeira. E quase fiquei doente de novo, só de pensar. O Bituca era bacana, era meu amigo — e eu precisava consolar ele de qualquer jeito. Então eu disse:
— Não fica assim, Bituca. O Robatini não é o único circo do mundo. Ano que vem chega outro e daí tu foge com ele. Pode ser até que dessa vez eu tome coragem e vá junto contigo.
— O ano que vem — ele resmungou, olhando enviesado e soltando a maldita fumaça do maldito Hudson bem na minha cara —, o ano que vem. Falta muito pro ano que vem. Eu devia era ter fugido com o Robatini mesmo. Mas agora é muito tarde.
— Mas vem outro — eu insisti. — E aí eu vou junto contigo.
— Não. É muito tarde. E não é só o circo. Aquela vaca da Rúbia. Mulher nefasta, me apunhalando cobardemente pelas espáduas (ele vezenquando falava que nem nas peças — acho que era influência da Rúbia e do Saul). Tu é muito jovem pra entender minha desdita.
Ele tomou o último gole de guaraná. Depois apagou e jogou o outro Hudson pela janela e disse que ia dar uma volta. Antes que ele fosse embora eu ainda tentei dizer mais alguma coisa. Acho que ia falar na Rúbia. Mas ele me olhou torto e antes de bater a porta repetiu que era muito tarde, que agora era tarde demais. Eu abri o almanaque do Superman, tentei ler mas não consegui. Naquela tarde eu tava achando a Mirian Lane, o Perry White e o Jimmy Olsen bestas demais por não descobrirem nunca que o Clark Kent é o Super-Homem.
In Pedras de Calcutá

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| Por Lara | 2.6.07 | 22:51.

2 Responses to “RECUERDOS DE YPACARAY”

  1. # Anonymous ediney

    gosteido conto porque me joquei nele, me fiz mergulho  

  2. # Blogger Aline Theodoro.

    Gosto muito desse conto. Pedras de Calcutá é um livro muito bom, eu o tenho :)  

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