Estou me sentindo o próprio Robocop. Pois não é que ganhei um microcomputador de presente? E desafiando o narrador alter-ego de Onde andará Dulce Veiga?, que com certa arrogância ao mesmo tempo complexada e enfrentativa declara-se pré-informático, resolvi encarar a fera. Afinal, sou um homem anos 90, embora sempre tenha sido artesanal, do tempo da caneta Parker melando dedos e papéis, manchas indeléveis nas camisas brancas do uniforme. Mais tarde, a esferográfica viria revolucionar minha vida (ao contrário de Nélida Pinõn, que orgulha-se de jamais ter empunhado uma Bic), passei por máquinas comuns, elétricas, eletrônicas, pelo PC tipo fusca de Pedrinho Tornaghi, traduzindo o Tao Te King — e tudo sem renunciar jamais ao sagrado ato da escrita manual, cada letra desenhada, pensada, sofrida. Agora tudo mudou.
Pois Robocop, eu ia dizendo, baixou de frente no meu terreiro particular, por artes de duas das fadas que graças a Deus sempre tenho por perto: Vânia Toledo e Regina Valladares. Certa tarde de agosto, hospitalizado e lamuriento, me queixando da dificuldade e dor para escrever deitado, as duas tiveram a idéia: organizar uma “vaquinha” entre amigos para me dar um computador de presente. Fiquei na minha, encabulado e expectante. Bom, as duas moveram céus e terras, dólares e cruzados, faxes e secretárias eletrônicas, agendas e seduções — até que outra tarde, esta de setembro, já em Porto Alegre, recebi um telefonema de Celsinho Curi. Estava na cidade e trouxera este AST (a semelhança com AZT será mera coincidência, suponho, ou haverá micros positivos?) 486SX/33, mais uma impressora Canon BJ-200, siglas e números misteriosíssimos até hoje. Medo: adiei a instalação, viajei, voltei, fugi, neguei. Até que relaxei et voilà, eis-me aqui tatibitateando nas teclas.
São agora quatro da tarde, entrei e saí de vários labirintos, cometi desastres tipo apertar uma maligna tecla Delete, que vertiginosa e frenética apaga tudo, fumei um maço inteiro, quase joguei a coisa pela janela, como Jane Fonda fazendo Lillian HelIman em Julia — mas hei de vencer! Agora mesmo aconteceu um ruído modernérrimo avisando que o documento está salvo. 0k, baby, vamos em frente. Ou íamos: apertei um Backspace em vez do Enter e aconteceram barbaridades inconfessáveis. E de onde saiu essa janela doida que se meteu no meio do texto?
A verdade é que sinto assim como uma saia-justa pairando no ar aqui em volta, quando penso se não será o computador uma espécie de traição à tradição, compreende? Marcel Proust nunca teve um. E García Márquez, ao publicar se não me engano O amor no tempo do cólera, foi acusado de ter “esfriado” seu estilo após a máquina. Lembro ainda do espanto tupiniquim quando Ana Miranda declarou publicamente que havia escrito Boca do inferno num micro, acrescentando modestamente que era um bastante chinfrim. Bem, imagino, que depois do sucesso (merecido) de sua obra, tenha adquirido um poderosíssimo. Quanto a este, todos afirmam ser uma maravilha contemporânea, garantem até que disponho de um modem com fax, pode? Logo eu, eternamente Laika... Anyway, a dúvida bizarra persiste: até que ponto o método de executar a escrita modifica a “alma” da escrita? Cartas para a redação.
Enfim, agradeço a Vânia, Regina, Celso e a todos os outros bem-intencionados anjos que colaboraram para que minha porção Robocop finalmente viesse à tona. Não sei o nome de todos, mas agradeço a chave para este admirável mundo novo cheio de pixeis e bits. Sem conseguir, confesso, evitar uma súbita suspeita paranóica: será que querem mesmo me enlouquecer?
E agora Help, apertei um Exit! Manhê, cadê o mouse que tava aqui?

O Estado de S. Paulo, 13/11/1994

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