De Lilith, a primeira mulher de Adão, nascida da lama e não de uma costela, até a assanhada Maria Padilha dos ritos afro-brasileiros, as deusas sempre existiram. Poderosíssimas, podem chamar-se Afrodite, Oxum, Ishtar ou lansã. E serem também terríveis, como Kali, que preside a destruição na índia, ou a grega Nêmesis. sempre pronta a punir os arrogantes.
E por falar em deusas, suponho que seja inevitável, na cabeça de todo mundo imediatamente surgir em flash-back a imagem da deletéria Rosana' arfando "como-uma-deusa-você-me-mantém". Cruzes. Além do gosto duvidoso, aqui - ou melhor, ali, porque quanto a mim quero distância - há um engano básico. Fundamental. Ou atávico, já que falamos de ancestralidades. Seguinte: em realmente o sendo, deusas jamais seriam mantidas. Elas têm poderes, são livres.
Mas por essa cançãozinha - insignificante e já envelhecida - é possível perceber o quanto o conceito de deusa foi deturpado no rolar da História. Claro, concordo que Marilyn Monroe foi uma deusa - deixou uma lenda, um mito. Mas Marilyn foi uma deusa-humana, destruída por sua porção divina, que a porção humana não teve barra para segurar. E quem teria? Certo, você pode chamar Maria Callas de deusa, ou Greta Garbo, Marlene Dietrich ou Jean Harlow. Você pode, muito brasileira e justamente, localizar a porção deusa de Maria Bethânia. Porque ela, como essas outras, conquistou o,direito de ser absoluta no que faz. Há até mesmo pequenas deusas à espera de que o tempo e os fados confirmem ou não a sua anunciada divindade. Veja só: Nastassia Kinski, Isabelle Adjani, e até mesmo Marisa Monte, quem viu sabe.
Mas deusas - ou Deusas mesmo, com o D assim em maiúscula - são outra história. Pouco chegada à erudição, mas muito às mitologias, selecionei para vocês algumas das que mais me dizem à piriquita.
Como hoje estou muito didática - escrevo esta matéria com o Sol em Virgem, será por isso? -, vamos em forma de tópicos. Rápidos, mas I hope não demasiado rasteiros. Então:
LlLITH - Segundo a Cabala, a primeira mulher de Adão, Eva que me perdoe. Eva, como é do conhecimento geral, foi feita de uma costela. Já Lilith foi forjada com sangue, saliva e lama. Tinha, portanto, um bom pé – digamos - na cozinha. E mais, era atrevidíssima. Quando Adão, muito timidamente (compreensível: era a primeira vez) pediu a ela que deitasse sob ele, a diaba simplesmente se recusou. Alegou que, como ele, era também feita do pó, portanto sua igual. Jeová ficou uma fera, não bastasse já toda aquela baixaria que tinha rolado com os anjos rebeldes, liderados por Lúcifer. Mas Lilith sentou pé. Foi embora para muito longe, deixou Adão literalmente na mão - até que surgisse a Eva, e dedicou-se a atacar sexualmente apenas os homens que lhe interessavam. Só que Lilith era barra-pesada, nada de carinhos e beijinhos. Vejam só esta descrição de seus arroubos feita pela escritora Sonia Coutinho, no romance Atire em Sofia: "Cubro o corpo dos homens com meu corpo quente e dizem que meu abraço é tão furioso que sufoca. Minhas vítimas têm o maior orgasmo de suas vidas, mas depois desfalecem e entram em crise de melancolia. Um dos meus privilégios é causar a loucura". Lilith é tão deusa que, expurgada do catolicismo oficial, foi ser underground noutras paragens. Na mitologia grega, aparece como Hécate. Na Astrologia esotérica, com seu próprio nome ou Lua Negra, aparece no ponto que revela a libido mais profunda. E até no candomblé a tirana ganhou um sincretismo.
MARIA PADILHA - A Padilha é um Exu feminino, a chamada Pomba Gira. Não, não: Exu não é exatamente um diabo, portanto a Padilha também não é uma diaba. Mas pode ser. Ou quase. Exu, como o Hermes dos gregos ou o Mercúrio dos romanos, na verdade é um go-between, um leva-e-traz, aquele que estabelece o contato entre o humano e o divino. Sem ele, portanto, nada feito. A Padilha, também chamada de Legbá, parece-se a uma cigana: cabelos muito pretos e compridos, rosa vermelha, roupas rendadas vermelhas e pretas. Adora beber, fumar,- e pensa em sexo sem parar. Quem viu a novela Carmen, da TV Manchete, deve lembrar a Maria Padilha que a Lucélia Santos trazia de frente. É preciso cuidado ao lidar com ela, porque tanto faz o bem quanto o mal. Quem quiser arriscar, mas não digam que não avisei, saiba que seus alimentos sagrados são o bode, o galo, a farofa e o dendê, seu dia, a segunda-feira e sua saudação, em jeje-nagô é "Laroiê!"
ISHTAR - Guerreira e amorosa, mas - digamos - bem mais chique que Maria Padilha, é esta deusa dos babilônios. Tão chique que usa um cinto de estrelas, mas tão decidida que sem a menor cerimônia tira o cinto para descer ao mundo das trevas e assumir seu côté heavy. Deusa do amanhecer e do fim de tarde, quando a luz do dia ainda não se definiu, Ishtar desafia o porteiro dos infernos e é capaz de entrar lá dentro ou, pelo menos, provocar uma rebelião dos mortos, se ela for impedida. Ishtar, curiosamente, deu um pulo lá da Babilônia e, vejam como este mundo é pequeno, foi dar na Africa, onde guarda muitas semelhanças com outra poderosa.
IANSÃ - Rainha dos raios, senhora das tempestades, Iansã ou Oyá é a única das deusas do candomblé que tem poder sobre os Eguns, ou espíritos dos mortos. Os Eguns ou Egunguos correm a obedecer cada ordem dada por ela
com sua espada. Iansã, dizem, no começo não era uma mulher, mas um búfalo. Só que de vez em quando tirava a pele e os chifres para transformar-se numa lindíssima mulher. Foi assim que seduziu Ogum, o único a saber de seu segredo, e com ele teve nove filhos. Mas Ogum tinha outras mulheres e um dia, chegado numa birita, encheu a cara e contou às outras mulheres o segredo de Iansã. Furiosa, ela transformou-se em búfalo, matou as outras a chifradas e deu o fora. Em seguida casou com Xangô, mas essa já é outra história que conto logo. Hoje em dia, para chamar Iansã, batem-se dois chifres, um contra o outro. Mas cuidado: ela pode descer numa boa, ou furiosa. Seu dia é a quarta-feira, sua cor, o vermelho vivo e sua saudação, "Eparrei!".
OXUM - Falar em Iansã e não falar em Oxum seria um desrespeito. As duas não são muito amigas, e isso tem vários porquês. Primeiro Xangô, muito mulherengo, era casado de papel passado com Iansã, mas como esta vivia pelas matas brigando, meio sapata (sapatas em geral têm uma Iansã de frente}, ele trouxe para casa também Obá e Oxum. Obá, meio tonta, era ótima para serviços caseiros. Já Oxum, lindíssima e toda sexy, era boa mesmo para o sexo. Rainha das águas doces, Oxum é a senhora do amor e do dinheiro. Preguiçosa, lânguida, adora pentear os cabelos olhar-se num espelho - mas sempre acha que está engordando ou envelhecendo, e se sente só, e então chora. Filhos de Oxum se apaixonam e choram muito. Mas Oxum não é nada boba não: espertíssima, era a única mulher admitida na assembléia dos orixás masculinos. E com muito jeito, conseguiu que Há revelasse só para ela o segredo da adivinhação do futuro pelos búzios. Oxum é a rainha dos sábados, veste-se toda de amarelo e atende pela saudação "Oraieie ô!".
AFRODITE - A Vênus para os romanos, tem tudo a ver com a Oxum do candomblé. Também ela presidia, na Grécia, os rituais amorosos. Afrodite nasceu de uma maneira estranhíssima: o deus Urano tinha a péssima mania de devorar os próprios filhos. Até que um dia encontrou macho pela frente: seu filho Cronos (ou Saturno) simplesmente castrou-o e jogou os, digamos, documentos do pai ao mar. Do encontro dos testículos e do esperma de Urano com a espuma do mar, toda catita, nasceu Vênus, aquela mesma que Botticelli pintou dentro de uma concha. A querida Vênus, como Oxum, também vaidosa, ciumenta e vingativa. Mas - que se há de fazer? - completamente irresistível.
PALAS-ATENA - Ou Minerva, para os gregos. Essa é o oposto total de Afrodite. Palas tinha o maior desprezo pelas picuínhas amorosas. Ao contrário das outras deusas, que viviam chorando potes pelos cantos, enredadas em paixões impossíveis ou complicadíssimas com humanos ou semideuses, ela era uma intelectual. Basta lembrar que nasceu em um dia em que Zeus estava com uma dor de cabeça tão forte que chamou seu filho Vulcano, o ferreiro, para arrebentar-lhe a cabeça com um martelo. Vulcano cumpriu a ordem e, de dentro da cabeça de Zeus, de escudo em punho e armadura, saiu Palas-Atena. Palas portanto não tem pai. Era a deusa da sabedoria e da estratégia da guerra - não da guerra em si, mas das tramas por trás - e tinha um detalhe: manteve-se sempre irredutivelmente virgem. A Arlete Salles fazendo a Carmosina em Tieta - repararam? tem uma Palas-Atena de frente.
IEMANJÁ - No candomblé, Palas-Atena ao contrário dt; Afrodite, que é uma perfeita Oxum, ou de Artemis, deusa caçadora que é uma versão feminina de Oxóssi - teve certa dificuldade para encontrar sincretismo. Acontece que, da Grécia para a África, - talvez pelo
calor? - as piriquitas divinas se acenderam muito, todas ficaram muito eróticas. Mas Iemanjá, como Palas-Atena, foi quem mais manteve a compostura. Rainha das águas do mar, Iemanjá é calmíssima, justa, equilibrada, e não se sabe de outro marido que tenha tido além de Obatalá, com quem teve muitos filhos. E a imagem da grande mãe, como Cibele - deusa frígia - ou Géa - deusa grega da terra. Iemanjá é cultuada no sábado, adora azul, mas também pode ser chegada num rosa bem pink, não resiste à pipoca e é saudada com "Odô iá!".
Tantas, não? E eu aqui pirada, vendo o espaço chegar ao fim e querendo ainda falar pra vocês de Inanana, uma deusa suméria da fertilidade, assassinada pela irmã e depois ressuscitada. Também não vai sobrar espaço para Atagártis, esta uma síria - fenícia, grande deusa da fertilidade e - veja só, como Janaína, uma das versões jovens de Iemanjá - também representada com uma cauda de peixe.
E como esquecer Valquíria, da mitologia teutônica, uma deusa guerreira tipo Iansã, filha de Votã, o deus da tempestade? A Valquíria era tão poderosa que criou até uma espécie de fã-clube, as Valquírias, suas frasqueiras que acompanham as batalhas e carregam a alma dos heróis mortos para o Valhala, a morada dos deuses germânicos. Sem falar em Perséfone, coitadinha, que foi seqüestrada por Hades, deus dos infernos na Grécia, violentada e obrigada a morar para sempre no inferno. E já que voltamos à Grécia, impossível terminar sem falar em Moira, a deusa do destino, a quem ninguém engana - tão soberba que é capaz até de determinar a extensão do poder dos próprios deuses. Soberba e tirana também era Kali, deusa indiana, e tão sanguinária que é retratada com um colar de crânios humanos e olhos vermelhos de sangue.
Terríveis essas meninas, não? Mas tudo isso fica, quem sabe, para um "As Deusas - Parte lI". Me ocorreu agora, como refletia alguém no Esta Valsa é Minha, de Zelda Fitzgerald (outra que tinha um pé na divindade): "Essas garotas acham que podem fazer tudo e permanecer impunes". Não podiam, nem mesmo sendo deusas. Porque aí, queridos, é que entra Nêmesiso Esta às vezes é uma deusa, mas às vezes também apenas uma força cósmica impessoal. Ela é quem pune pela arrogância e orgulho diante dos deuses. E tem um detalhe: sua punição sempre é perfeitamente adequada à natureza do crime. Que saia, hein?.

T. O'Connor, 35, é a mais deusa de todas

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| Por ludelfuego | 4.2.07 | 14:20.

8 Responses to “AS DEUSAS”

  1. # Anonymous Raimundo Neto

    Lindo... tenho esse texto em algum lugar em casa.
    E gostei do novo layout; ficou mais limpo. Já tinha pensado em comentar sobre aquele layout anterios mas não quis me meter... rs!

    SEMPRE estou aqui!  

  2. # Anonymous Helen..

    ôpa,blog tá diferente..
    ^^  

  3. # Anonymous Fernando Ladeia

    Às vezes as correntes da web nos levam a bons sites e blogs; esse foi uma surpresa. O assunto Deuses e Deusas é um bem próximo a mim, e digo: Athena (o Palas foi um amiguinho que ela matou acidentalmente, e pra sempre se lembrar do seu erro e honrar o amigo, colocou o nome dele à frente do seu próprio. É ou não é a representação perfeita da Justiça e Retidão, essa Deusa?) é uma das Deidades que mais admiro. Ela é guerreira, sim, mas da guerra justa; da estratégia que liberta da opressão. Um detalhe: ela é a única, dentre todos os outros Olímpicos, a quem Zeus permite usar suas armas sem sua prévia autorização. Poderosa, não? Parabéns pelo blog, vou passar a visitá-lo :)  

  4. # Blogger Giul

    Nossa, surpreendi-me. Quando uma amiga me passou o blog exatamente neste post, pensei: "Que saco! Mais um falando de Deusas e Deidades". Mas a forma com que se fala, neste texto, é realmente encantadora. Encontrei muito do que falo em brimncadeiras sobre as Deusas nesse texto. Realmente muito bom. ;D  

  5. # Anonymous Anônimo

    queria saber quais as referencias dessa cronica, tem como?  

  6. # Anonymous Anônimo

    Baseado em que você escreveu isso? achei extremamente ignorante e desrespeitoso  

  7. # Blogger dorothy

    O texto é muito bem escrito, pena que há um desconhecimento sobre a orixá Obá, não se reduz a uma dona de casa nunca, é a primeira orixá ayabá a vencer a guerra entre os orixás, guerreira rainha de Elekô, ensinou a todas as ayabás a arte da guerra, por isso é importante não pegar apenas um trecho das lendas transformá-las em verdade única, fora isso, parabéns pela criatividade.  

  8. # Blogger chenlina
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