<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308</id><updated>2009-12-08T22:13:04.234-02:00</updated><title type='text'>Caio Fernando Abreu</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default?orderby=updated'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25&amp;orderby=updated'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>208</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4380767608628178040</id><published>2007-08-25T13:43:00.001-03:00</published><updated>2008-08-26T16:18:44.003-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estranhos Estrangeiros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>PELA NOITE</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Ao som de “Years of solitude” de&lt;br /&gt;Astor Piazzolla e Gerry Muiligan&lt;br /&gt;Novela&lt;br /&gt;Carlos Pereira de Oliveira&lt;br /&gt;(Cao) &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;"Mas também, às vezes, a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?), penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir; é a noite do sem-proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a oscuras: eu estou lá, sentado simples e calmamente no negro interior do amor. "&lt;br /&gt;Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Como esta música - disse, aumentando o volume do som enquanto caminhava pela sala abrindo os grandes vidros da janela para deixar o gemido do sax contaminar ainda mais o ar sujo das ruas, da noite, da cidade.&lt;br /&gt;- Exatamente como esta música.&lt;br /&gt;O vento de julho despenteou um pouco os cabelos dele. De costas para o outro, rosto voltado para o escuro, braços abertos. Como se dançasse. E foi dizendo, a cara erguida para o céu coberto de fuligem molhada pelas gotas da garoa fria:&lt;br /&gt;- Percebe como ela se contrai? Feito uma pessoa que tivesse levado um soco inesperado. Bem na boca do estômago, assim. Voltou de repente e deu um salto para dentro da sala, a cara violenta, o punho fechado, estendido em direção à barriga do outro. Que se desequilibrou um pouco sobre o sofá, descruzando as pernas, os pés bem plantados no chão, o cálice de vinho numa das mãos, a outra parada tensa no ar, pronto para defender-se. Mas ele recuou sem tocá-lo, sorriu de lado e foi andando, novamente de costas, em direção à janela.&lt;br /&gt;- Depois se estende outra vez. Lentissimamente, está Ouvindo? É agora, daqui a pouco, quando entra o acordeom. Acordeom não. Bandoneón, é assim que eles dizem lá. Presta atenção. Você percebeu. O sax é o soco.&lt;br /&gt;Dobrou o próprio punho e fez um movimento brusco no ar, como se esmurrasse a si mesmo. Com força, no ventre. Curvou o corpo inteiro, a cara torcida num simulacro de dor sem fôlego. Depois começou a distender devagar a coluna. De onde estava, no canto oposto da sala, o outro tinha a impressão de que ele alongava uma por uma as vértebras, até atingir a altura do pescoço que se erguia, ao abrir os braços feito uma criança com sono espreguiçando-se, pela manhã. Então voltou o rosto e continuou:&lt;br /&gt;Quando entra o bandoneón tudo se abre. - Estendeu o braço à frente, parecia querer segurar algo no ar. - Percebeu? Por alguns momentos, apenas alguns momentos, é como se houvesse assim uma espécie de esperança, de possibilidade de esperança. Seja o que for, você está quase alcançando. O teu braço está tão estendido que essa parte que junta com o corpo parece que vai rasgar. E as pontas dos dedos podem sentir assim quase como. Um formigamento, uma dormência. A vibração dessa coisa que está lá, por enquanto ainda longe deles, prestes a ser tocada.&lt;br /&gt;Ele alongou ainda mais o braço. O tronco acompanhava, num esforço tão grande e lento que precisou tirar uma das pernas do chão. Estendeu-a no ar, equilibrando-se a princípio precário sobre a outra, depois mais e mais seguro, enquanto o braço estendido, o tronco alongado e a perna suspensa formavam uma linha quase perfeitamente horizontal. O rosto agora tinha uma expressão de prazer. Ou de expectativa de prazer. À beira da alegria, o rosto. O que quer que estivesse no limite dos dedos, pensou o outro, estava para ser tocado no próximo segundo. E não conseguiu evitar certa tensão ao olhar fixo, meio hipnotizado, os cinco dedos excessivamente entreabertos. Tanto que - de onde estava, podia ver - os ossos nas costas da mão dele se faziam mais salientes.Nascendo do pulso, um feixe de cinco ossos finos, nervosos. Sem querer desejou que, fosse o que fosse, ali, guardado no ar, à espera do toque, entre as paredes brancas, os dedos encontrassem logo o objeto. Que se fechassem definitivos sobre ele numa espécie de posse, para alívio dos dois.&lt;br /&gt;Sentia como um calor, mas quando levou a mão ao rosto não havia suor. Pensou então que, naquele décimo nono andar, de algum outro edifício, outra janela, e eram tantas, devia ser esquisito ver aquela silhueta de homem longo e musculoso estendida assim no ar. Mas a música continuava, sax e bandoneón, uma cópula dolorida, interminável, entrelaçada como a dos cães nos becos, insuportável. Tivesse um lenço enxugaria a testa. Mas não havia suor.&lt;br /&gt;Foi então que num dos acordes bruscos o homem de longo corpo estendido musculoso voltou-se subitamente para ele, cinco dedos abertos em sua direção. Quase sorriu, julgando entender. Sem premeditar, num impulso esboçou um movimento de levantar-se do sofá. Antes de fazer o gesto já se via também erguendo-se, um filme em câmara lenta. Talvez três vezes, repetindo os mesmos fotogramas - gesto incompleto, gesto incompleto e gesto incompleto - até completá-lo: a própria mão aberta estendida em direção à mão aberta estendida do outro. Mas a mão do outro voltou a encolher-se. Tão fortemente fechada que ele viu as juntas das falanges esbranquiçadas pelo esforço, e enveredou rápida cortando o ar, navalha em direção ao próprio estômago, fazendo o corpo contrair-se de dor e o rosto, o rosto devagar abaixado deixando desaparecer aos poucos uma imagem que se sobre- põe à outra, por um segundo ainda misturada à anterior, aquela expressão de gozo próximo, para permitir que aflorasse outra, traço a traço, sobrancelhas unidas em vértice, comissuras amargas da boca, voltadas para baixo, uma outra face mais escura que além da dor seca, injusta, espantada, tinha agora um novo elemento. Qualquer coisa como uma quebra? Qualquer coisa como a decepção da alegria entrevista nítida, pouco antes, bem ali, guardada no ar, a milímetros da extremidade dos dedos, ele vira. E isso doía ainda mais que a outra dor, assim humano, carente, incompleto. Então ele, que agora era o outro, interrompeu por um momento aquela dança torcida para dizer:&lt;br /&gt;- E volta o sax. Quando volta o sax, volta o soco. Mas não um soco duro, você me entende? Um soco manso. Como se a tua barriga fosse uma almofada macia. Como se o próprio punho que bate estivesse meio acolchoado. Tudo macio. Não há ruído. Só uma coisa fofa. Uma dor lenta, vaga. Uma dor que começa a ser dor só aos poucos, não de repente, porque é aos poucos que você começa a perceber que ela existe, a dor.&lt;br /&gt;Antes de a música terminar, ele desligou o som e sentou no tapete em frente do outro.&lt;br /&gt;- Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-la tocado. Você podia tê-la apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então pára e pergunta alguma coisa assim: mas de quem foi o erro?&lt;br /&gt;O outro fez um movimento como se fosse falar, mas ele o deteve.&lt;br /&gt;- Sei, sei. Você vai perguntar: mas houve um erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende?&lt;br /&gt;No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha demonstrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou, então. Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outro. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.&lt;br /&gt;O outro tinha se debruçado no sofá até ficar quase deitado. E ouvia, atenção dividida entre as palavras dele e algum gole de vinho. Ele sorriu. Tinha um jeito de sorrir de lado, como se quisesse esconder alguma falha nos dentes, embora não tivesse nenhuma, via-se quando ria inteiro, o que era raro. Ele sorriu, então um dos cantos da boca ergueu-se fazendo subir também uma das sobrancelhas, enquanto o olho quase fechava, embora brilhasse mais intenso assim, por entre as pálpebras meio inchadas, quase invisível. Tinha um pouco de criança quando sorria desse jeito. E de demônio. Demônio astuto, pensou.&lt;br /&gt;- O erro? Eu dizia, pois é, o erro. Eu penso, se o erro não foi de dentro, mas de fora? Se o erro não foi seu, mas da coisa? Se foi ela quem não soube estar pronta? Que não captou, que não conseguiu captar essa hora exata, perfeita, de estar pronta. Porque assim como o movimento de apanhar deve ser perfeito, deve ser perfeita também a falta de movimento, a aparente falta de movimento do que se deixa apanhar. Você me entende? Eu penso também, e se houve alguma interferência no. No em-volta-dos-dois, no ar. No astral, eu penso também. Uma coisa de Deus, do invisível, do mistério, que embora pareça errada ao não te deixar apanhar o prometido, no entanto está absolutamente certa. Porque é assim que é. Naturalmente. As coisas sempre prestes a serem apanhadas. E você eternamente prestes a apanhá-las. Como uma sina. Sempre prestes.&lt;br /&gt;Ele acendeu um cigarro. Acompanhou distraído com os olhos a fumaça fluindo em direção à janela aberta. Como se fosse parar de falar. Depois sorriu outra vez. De lado, de novo. E prosseguiu:&lt;br /&gt;- Como se algo que estivesse perfeito. Eu insisto no perfeito, era assim: pouco antes da perfeição se cumprir. Perfeito, preparado para acontecer e, de repente, não acontecesse. Não acontece. E logo depois, quando você ainda nem entendeu direito o que aconteceu, ou o que não aconteceu, ou por que deveria ter ou não ter acontecido, vem alguém de repente e te dá um soco no estômago. E a mão que daqui a pouco você tinha certeza que ia estar cheia, pronto!, está vazia de novo.&lt;br /&gt;Ele estendeu a própria mão no ar. Olhou os dedos, o cigarro pela metade. Repetiu, dramático:&lt;br /&gt;- Entendeu? É bem simples. E medonho, porque não pára nunca de acontecer. A mão que daqui a pouco ia estar cheia, pronto!, está vazia de novo.&lt;br /&gt;Levantou-se de um salto. Curvou o tronco numa reverência exagerada, enquanto olhava para a frente, para os lados, para cima, para as galerias repletas, agradecendo aplausos estrepitosos, bravôs! incendiados, sozinho no palco vazio, cheio apenas da presença dele mesmo, além da cenografia e das rosas, talvez dezenas de corbeilles de rosas, provavelmente vermelhas. Ao mesmo tempo em que o outro dizia devagar, como se tateasse as palavras, sentindo-se meio idiota:&lt;br /&gt;- Você podia ter sido bailarino.&lt;br /&gt;A resposta veio seca:&lt;br /&gt;- Agora é muito tarde.&lt;br /&gt;- Ou ator, também podia. Você tem uma incrível capacidade de.&lt;br /&gt;- Sei, ator. Mas sempre posso falar do trabalho dos outros. O que é sempre um consolo. Ou não.&lt;br /&gt;Certa melancolia, quem sabe, no fundo da voz rouca pelo excesso de cigarros, o outro localizou. Mas limitou-se a balançar em silêncio a cabeça - cristal, o momento, na transição para outro -, enquanto ele caminhava até a estante de livros em passos tão milimetricamente marcados que era como se tivesse ensaiado tudo aquilo antes. O que viria depois também.&lt;br /&gt;- Escuta disse, apoiado na estante -, eu tive uma idéia. Já faz dias, desde que a gente se encontrou. Agora que você falou nisso. O outro fez uma cara de nisso-o-quê, mas ele não parou: - Nisso de ser bailarino, ou ator. Ou sei lá, qualquer coisa. Não gosto quando a gente fica falando assim no que não foi, no que poderia ter sido. God! Não aos sábados, principalmente à noite. Não hoje, por favor, hoje não dá, eu tenho. Eu tenho uma sensação meio de amargura, de fracasso. Você me entende? Como se tivesse a obrigação de ter sido, ou tentado ser, outra pessoa.&lt;br /&gt;Mas-se-você-é-um-cara-tão-bem-sucedido, quase disse o outro. Mas continuava sentindo-se meio idiota, sentado ali feito um touro pastando no charco, e preferiu continuar calado. Um pouco como se estivessem ensaiando um texto que ainda não tinha decorado: esquecia as deixas certas e, bobamente, olhava um cálice cheio de vinho até a metade. Mas ele voltava da estante, improvisava rapidamente sobre a falha do outro, três livros na mão. Sentou-se no braço da poltrona, mostrou as capas:&lt;br /&gt;- Conhece estes livros?&lt;br /&gt;Os títulos em espanhol, leu devagar: Los premios, de Julio Cortázar, Cronica de una muerte anunciada, de García Márquez, e Conversación en la catedral, de Mario Vargas Llosa. Tocou de leve nas capas. Certo carinho distante, intenso como quem toca um álbum de fotografias quase antigas, as cores vivas já começando a ser invadidas pelo amarelo do tempo nos papéis. Sorriu, meio fatigado:&lt;br /&gt;- Conheço, claro.&lt;br /&gt;- Conhece e gosta? Ou conhece e não gosta? Ou conhece e não acha nada? Vamos lá, tipo múltipla escolha. Ou então assinale com um x o último quadrinho. Aquele que diz outros. Na linha pontilhada, especifique o que quer dizer com outros, certo?&lt;br /&gt;Mas o que tem a ver, meu Deus, o que tem a ver, cruzou a cabeça. Umas invenções que ele não seguia. Do charco, afundado, Touro, precisou erguer um pouco a cabeça para ver melhor o rosto dele a seu lado, no braço do sofá, de baixo para cima, curvado sobre seu ombro. A barba crescida, dois dias. Alguns fios brancos no cabelo. Baixou os olhos, para ver o esgarçado no joelho dos jeans quase brancos.&lt;br /&gt;- Primeiro quadrinho - disse. E desenhou no ar um grande x.&lt;br /&gt;- Conhece e gosta?&lt;br /&gt;- Gosto. Muito.&lt;br /&gt;- E atenção, atenção, meus senhores: qual você gostou? - Deitou a cabeça no encosto do sofá. Além do rosto muito próximo, podia ver também o teto pintado de branco. Algumas rachaduras tênues entre aquelas pomposas e falsas decorações em gesso, típicas dos apartamentos antigos, grandes e baratos no centro da cidade. Os olhos dos dois se encontraram, inesperados. Desviou os seus para o teto, enquanto pensava, sem pensar propriamente que era tão raro, enquanto lembrava de um navio saindo do porto de Buenos Aires, e sem querer lembrou também do gemido do bandoneón no som agora desligado, tão raro e rápido, as águas do rio da Prata, cruzavam-se sempre, inevitável, na rua, ao acaso, com qualquer pessoa, logo se desviavam como se tivessem medo, e ainda de uma ruazinha qualquer num subúrbio de Lima, mas não conhecia o Peru, tão ariscos, feito os bichos que ele tinha falado, como era mesmo? Machupicchu, sempre teve vontade, devia ser lindo, insuportavelmente esotérico, você tem que estender a mão com cuidado dentro do silêncio, dentro do eterno, seria isso?, como se naquele breve encontro, raspão, fagulha, anzol, um farol que pisca daqui, outro que pisca de lá, fortes vibrações, respondendo ou não, houvesse um código indecifrável, ameaçador, e mais poderoso que tudo então, varrendo todo o resto, a imagem do rapaz vestido de branco, encurralado na tarde contra a porta antiga de madeira escura, talvez carvalho, mogno, as punhaladas, depois, muito fundas, seriam sete?, manchando o linho branco, feito as rosas de sangue espalhadas no palco vazio, então os aplausos, cortinas fechadas, camarins, bastidores. Piscou. E tornou a olhar para ele.&lt;br /&gt;- A Morte - disse. - Gosto mais da Morte anunciada. Lembrei agora. Incrível, tão claro. Como se fosse uma fotografia, Santiago Nasar parado na porta. E todos, menos ele, sabendo que vai morrer.&lt;br /&gt;Ele deu um salto tão brusco que o braço do outro tremeu um pouco fazendo o cálice de vinho respingar algumas gotas sobre o veludo branco da calça, na altura da coxa. Como Santiago, o sangue do Santiago Nasar manchando o linho, pensou à toa.&lt;br /&gt;- Santiago, então?&lt;br /&gt;- Santiago, claro.&lt;br /&gt;Parado na sua frente, solene, engraçado, o outro estendeu o braço com o pequeno livro na mão. Feito uma espada, para tocá-lo litúrgico no ombro direito. Como se sagrasse rei a um cavaleiro.&lt;br /&gt;Você vai se chamar Santiago. Tens que jurar fidelidade eterna a esse nome. Eu te batizo, Santiago, no meio da noite fria de julho. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;Mas ele não ouviu. Colocou os livros sobre a capa do disco, que não conseguira ver direito, sem parar de falar:&lt;br /&gt;- Pérsio, de agora em diante eu vou me chamar Pérsio. Sempre quis me chamar Pérsio. Lembra do Pérsio, aquele maluco dos Premios? O que olhava as estrelas no tombadilho, é assim que se diz? Tombadilho ou convés? Aquela coisa aberta dos navios. Ou popa, onde é a tal popa? Proa e popa, os navios têm tanta coisa. Comportas, escotilhas. Acho que era astrólogo, o Pérsio. Ou astrônomo, não sei, ou só pirado mesmo. Seja o que for, vou ter que falar de estrelas. O Pérsio entendia horrores de estrelas. - Caminhou até a janela aberta e olhou o céu. Um luminoso de Coca-Cola brilhou ao longe, vermelho, branco: “Beba”. - Só que não se vêem nunca as estrelas nesta maldita cidade, senão começaria a falar já. Tudo bem, falo depois. Na seqüência, quem sabe pinta? Afinal, vai ser uma longa noite. E é só uma criança, a noite ainda é uma criança. Você se chama Santiago, eu me chamo Pérsio. Santiago e Pérsio vão virar a noite nesta noite de inverno. Entendeu, Santiago?&lt;br /&gt;- Não - o outro disse, sorrindo talvez de pura implicância. - Acho que não.&lt;br /&gt;Ele voltou-se da janela. Abriu os braços, bateu forte as palmas das mãos contra as coxas, teatralmente desanimado:&lt;br /&gt;- Como não, cara? Não tem o que entender. Tudo muito simples: a partir de agora você se chama Santiago e eu me chamo Pérsio. Certo, Santiago? Que que foi, não gosta do nome? É um nome fantástico, cara. Além do Nasar, que você gosta, tem o outro Santiago, o da Catedral, aquele jornalista com mania de pobre, filho de pai político e veado; é uma dupla homenagem. Como a Simone Clarice do Rubem Fonseca, naquela história, como era o nome, “Corações solitários”, era isso? Sem falar em Santiago do Chile, que Deus salve e guarde. Allende. Aff, uma tripla homenagem. - Vinha caminhando em direção ao sofá. Que tripla que nada: quádrupla, God!, que palavrinha, quá-dru-pla. Tem ainda Santiago de Compostela, lembra da Via Láctea? Na Espanha, acho que na Espanha, será Galícia? - Parou bem na frente dele, sem sapatos, as meias berrantes listradas de azul, amarelo, uma bandeira sueca, quase tocando as pontas dos seus tênis muito brancos. - Mais ainda, muito, muito mais. Tem Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, terra de macho, chê, quase fronteira com a Argentina, já ouviu falar? Pois tem, quer ver no mapa? Tive um amigo de lá, o Ruy, onde andará o Ruy Krebs? - Deu um salto no ar, arregalando os olhos. - Impossível que você não goste desse nome, rapaz. É uma quín-tu-pla homenagem. E mais, tem mais, nossa, sêxtupla: aquele Santiago pescador do Hemingway. Se procurar tem mais ainda. Santiagos não faltam.&lt;br /&gt;Engraçada, aquela animação falsa. Ou meio louca. Esta-pa-fúr-dia, soletrou. Bebeu um gole de vinho. E sorriu sem jeito:&lt;br /&gt;- Não, o nome eu gosto. Isso eu entendi. Tudo bem, o que não.&lt;br /&gt;- Pérsio.&lt;br /&gt;- Hein?&lt;br /&gt;- Diga assim, dois-pontos-nova-linha-travessão: “Não, o nome eu gosto. Isso eu entendi. Tudo bem, Pérsio, o que não”.&lt;br /&gt;Os olhos dos dois tornaram a se cruzar. Tão raro. Nas ruas, nos ônibus, nos elevadores. Você me reconhece? E por me reconhecer, tem medo? A peste de que nos acusam. E assustado. Baixou-os, baixavam quase sempre os olhos para os pés, as listras, azul, amarelo, sobre o bordô do tapete. O outro veio se curvando para ele, um dos joelhos apoiados no chão, num melodramático simulacro de súplica. Começou a rir:&lt;br /&gt;- Que loucura.&lt;br /&gt;- Diga, diga. Por favor, diga.&lt;br /&gt;Tá bom, eu digo. - Repetiu, tentando conter o riso. Afetado, escandindo bem as sílabas, num espanhol hesitante: No, el nombre me gusta. Esto yo he compreendido. Todo bien...&lt;br /&gt;Recomeçou a rir. Tão violentamente que colocou o cálice no tapete, ao lado do joelho do outro.&lt;br /&gt;- Ah, diga. Diga, vamos: um, dois e.&lt;br /&gt;- Tá bom, Pér... Pérsio.&lt;br /&gt;Que foi que você disse, Santiago?&lt;br /&gt;- Pérsio. Eu disse: “Tá bom, PÉRSIO”.&lt;br /&gt;O outro bateu palmas, rindo. Um gato no sol do meio- dia, rolando pelo tapete da sala enorme. As mãos cruzadas seguravam os joelhos bem na altura do esgarçado dos jeans, quase furados.&lt;br /&gt;- Pérsio, você me chamou de Pérsio! - Esfregou as mãos. - Estamos apenas começando, e vamos muito bem. Já viu que nome lindo, cara? E não tem homenagem nenhuma. Ninguém se chama Pérsio.&lt;br /&gt;Sacudiu a cabeça, fazendo que não, ainda rindo. Sentado no chão, as pernas cruzadas feito um iogue, o outro olhava para algum ponto da parede acima da cabeça dele.&lt;br /&gt;- Só mesmo a própria Pérsia. Tapetes, gatos, aiatolás, Sorayas e que tais. Que nem se chama mais Pérsia, mas Irã, não é? Tenho uma amiga que quando falam no Irã ou no Nordeste, leva a mão ao coração, revira os olhos e diz assim: “Ai, meus Deus, o Irã! Ai, meu Deus, o Nordeste!”. Depois grita, puta: “Mas não tenho culpa se estou bebendo champanhe, porra!”.&lt;br /&gt;- Olha, Pérsio, o que não entendi foi...&lt;br /&gt;- Fala, Santiago.&lt;br /&gt;- Foi o que isso tinha a ver com o que eu falei antes.&lt;br /&gt;- Antes?&lt;br /&gt;- É, o negócio de ser bailarino. E aquilo que você falou depois, de.&lt;br /&gt;Parecia sério, embalando-se sobre os joelhos cruzados, numa imitação de surto catatônico. Para a frente, para trás. Os olhos fixos num ponto remoto da parede, bem acima da cabeça dele.&lt;br /&gt;- Sei, sei. Qualquer coisa que ficar falando no que a gente podia ter sido não é bom. Dá uma sensação de...&lt;br /&gt;- ...fracasso...&lt;br /&gt;- Justamente. Em cima. De fracasso, amargura, frustração. Tipo Walter Hugo Khoury, nem pensar. Aí resolvi que nesta noite de inverno em que vamos virar a noite de sábado pelo avesso da noite de julho, ninguém vai falar no que podia ter sido e não foi. Simplesmente porque você não se chama João nem Paulo, assim como eu não me chamo Carlos nem Pedro. Você se chama Santiago, eu me chamo Pérsio. Além de evitar amarguras, é superpolitizado, você não vê? Adequadíssimo, perfeito. Mais do que, sei lá, Jean-Paul ou Vittorio ou Steeve ou Wolfgang. Com um nome desses você pode virar a noite impunemente. Do champanhe à cachaça, dos Jardins ao Jeca, do 0ff à Terra de Marlboro. Sem culpa alguma, rapaz. Dois latino-americanos virando a noite pelo avesso da noite na noite da maior cidade da América do Sul. Cantarolou, desafinado: - Vi-ve-mos-na-me-ihor-ci-da-de-dAmé-ri-ca-do-Sui-dA-mé-ri-ca-do-Sul-ba-hy-ha-by-há-quan-to-tem-po? - Olhou direto para ele quando disse: - Há quanto tempo, não? Desde o ginásio. Desde Os Verdes Anos na província. Ah, The Green Years... Quem diria que... - Ergueu-se, manso, mão estendida para ele. – Como é que é, Santiago? Topas o nome que nos dei?&lt;br /&gt;Tocou a mão estendida. Morna, boa. Como o rosto, um rosto que se eliminasse certos fios brancos nas têmporas, quase invisíveis, pouco mais que reflexos prateados quando a luz batia, e aquele vinco fundo no canto direito da boca, ah, essa mania de sorrir de lado, pensou com uma espécie de arrepio, gelo na nuca, a janela continuava aberta, mas não era frio, só um certo incerto frio, vinha junto com outra coisa de muito longe, uma coisa clara mas meio perdida, e tinha um gramado inclinado, estranhamente inclinado, sol quase posto, cheiro de terra, queixo apoiado numa bola de futebol, uma bola de couro número cinco, tão raras, só no Natal, não eram assim como essas de hoje, quadriculadas de preto, um talo de grama entre os dentes, seria o mesmo, menos as espinhas de lá, menos o azulado da barba de dois dias daqui, gosto ácido açucarado na superfície da língua, a voz que então subia e descia, montanha-russa derrapando súbita entre graves e agudos incontroláveis, em mutação, super- postos a tarde, o céu, a grama, superpostas as mãos de pêlos macios, apertando-se cordiais - sim, te reconheço tanto, tanto tempo, tanta coisa.&lt;br /&gt;- E daí, Santiago? - ele repetiu. Visto assim, de baixo para cima, os olhos pareciam brilhar. Baços, claros. Talvez um pouco molhados. - Como é que é, você topa?&lt;br /&gt;Ele apertou com força a mão do outro. Confirmou:&lt;br /&gt;- Topo. Eu topo, sim. Claro que eu topo, Pérsio. E percebeu que ele estremecia um pouco. Como se visse um pouco além de tudo aquilo? Soltou seus dedos quase bruscamente para esfregar as palmas das mãos nos braços nus. Está com frio? Por que não veste uma coisa mais quente?&lt;br /&gt;Em silêncio, Pérsio parecia olhar agora não mais acima de sua cabeça nem direto nos seus olhos. Mas através dele, para uma região tão insondável que já não era ele a quem olhava, e sim.&lt;br /&gt;- Quer que eu feche a janela?&lt;br /&gt;Sem esperar resposta, levantou-se sacudindo as pernas meio dormentes pelo vinho, pela umidade da chuva, pelo frio de julho, pelo tempo que ficara ali sentado, pelas histórias loucas do outro. Teve que desviar-se dele, cheiro de maconha e cigarro e suor limpo e lençóis mornos, para caminhar até a janela. No escuro viu lá embaixo as cintilações dos faróis dos carros, anúncios luminosos, Minister, Melitta, Coca-Cola, fume, beba, compre, morra, suspensos no ar, flutuantes, naves espaciais, janelas iluminadas nos outros edifícios, luzes às vezes vermelho-quente, íntimas como as das boates, vago erotismo nas silhuetas mal desenhadas nos interiores alheios, beijavam- se talvez, acariciavam seios coxas dedos mergulhados em pêlos umedecidos, atrás de cortinas gemiam baixinho entre plantas desidratadas, gemidos roucos de tenso prazer urbano, dezenas de metros abaixo as poças d’água no asfalto espelhavam o brilho artificial do neon. Pulsante, a noite de sábado refletida às avessas no meio da rua. Um grande mar escuro, alto-mar sem ondas sobre o qual tivessem Deus, o capitão de um transatlântico, o piloto de um helicóptero - salpicado na superfície das águas gotas de tinta fosforescente. Fechou com cuidado os vidros. Junto com o ruído metálico dos dois puxadores de metal, penetrando um por dentro do outro, escutou o tilintar agudo do telefone.&lt;br /&gt;A mão suspensa sobre a mesinha de tampo de vidro, em frente do sofá, Pérsio esperou que tocasse três vezes. Piscou irônico antes de atender:&lt;br /&gt;- Lições Urbanas de Estratégia Telefônica, principalmente à noite e durante os fins de semana. Claro que tudo&lt;br /&gt;isso se você não tiver uma secretária eletrônica, o que infelizmente é o caso. Capítulo um: nunca atenda antes de deixar tocar pelo menos três vezes, para não demonstrar ansiedade. Que ninguém possa supor jamais que você vive plantado ao lado de um maldito telefone. Principalmente à noite e durante os fins de semana, claro. - Atendeu, entediado. - Alô? Eu. - Equilibrou o fone no ombro esquerdo, contra o queixo, procurou com a mão livre o maço de cigarros na mesa. Acendeu um. Tragou.&lt;br /&gt;- Tudo em cima, e você?&lt;br /&gt;Parecia subitamente cansado, os cabelos claros muitos curtos, uma das pernas estendidas sobre o encosto do sofá, forçando para a frente, como numa barra, o pé em ponta numa aula de dança, na camiseta sem manga era David Bowie a figura, via agora, a barba por fazer. Distraídos, os olhos erravam à toa pelos quatro cantos. Na parede atrás do sofá Santiago viu então, pela primeira vez, a grande reprodução colorida e vertical de um quadro onde um homem beijava uma mulher. Podiam-se distinguir apenas os cabelos dele, muito pretos e crespos, com uma nesga do rosto moreno afundando na pele branca da mulher. Dela, via os olhos fechados numa expressão menos de prazer que de paz, pequeninas estrelas brancas e azuis emaranhadas no cabelo. E aquela chuva de ouro ao fundo, derramada também pelos longos mantos amarelos que vestiam, pisando flores miudinhas. Tão claro, tudo, mancha ofuscante de sol no meio da parede da sala branca.&lt;br /&gt;- Hoje não - seca, a voz de Pérsio. Ou delicadamente irritada, evasiva. - Tenho um compromisso, posso não. É, um amigo. Muito tempo. Liga outra hora. Amanhã, depois. Se vê, a gente se vê. Tchau, Outro. - Bateu o telefone, tragou fundo, soltando a fumaça pelas narinas. A cabeça erguida, acompanhou o olhar de Santiago até o quadro. - É O beijo, de Klimt. Trouxe de Paris, faz tempo. Tem muito por aí, só que esta é uma reprodução au-tên-ti-ca.&lt;br /&gt;Até que ponto uma reprodução pode ser autêntica? Ah, eis aqui uma contradição intrínseca. Sabia que atrás dele mora uma lagartixa? Uma lagartixa chique, atrás de uma reprodução francesa. Chiquíssima. Ainda se fosse um primitivo. Mas não, um clássico nouveau. Nouveau ou decô, qual a diferença? Não sei como foi parar lá, já viu uma lagartixa morando num décimo nono andar? Quer ver? - Sacudiu de leve um dos cantos do quadro. Kay Kendall - chamou. - Kay Kendall, meu bem, onde está você?&lt;br /&gt;De um dos cantos superiores do quadro surgiu uma pequena lagartixa de longa cauda nervosa. Vacilou por um segundo na parede, indecisa em sentir-se ameaçada, depois subiu veloz em direção ao teto e desapareceu entre rebuscados arabescos de gesso. Santiago imaginou a pele gelada, viscosa. Cauda cortada retorcendo-se como se tivesse vida própria. Nasceria outra, depois, bífida. Desviou os olhos:&lt;br /&gt;- Não gosto de lagartixas.&lt;br /&gt;- Mas a Kay é inteiramente inofensiva. E tão ecológica. Deixo ela aí, à vontade. Dizem que dá sorte. Tem gente que chama de salamandra. Me disseram que são os duendes do fogo, as salamandras. Não é lindo salamandra? E eu sempre penso na Teiniaguá, lembra da Teiniaguá? A princesa moura encantada em forma de salamandra, uma pedra preciosa no lugar da cabeça. Depois penso também que a Kay Kendall pode muito bem ser uma princesa encantada. Fazendo companhia a um príncipe encantado também, por que não? - Apagou com força o cigarro. Esfregou a palma da mão na barba crescida.- Tenho um amigo que diz: “Ultimamente tenho me deitado com príncipes e acordado com sapos...”&lt;br /&gt;Santiago baixou os olhos.&lt;br /&gt;- Você parece cansado.&lt;br /&gt;- Cansado, eu? Imagina, sou inesgotável. Uma verdadeira Fonte Alternativa de Energia. Passei a tarde inteira deitado queimando fumo, vendo televisão, cheirando umas, batendo punheta. Tenho fantasias cada vez mais singelas &amp;amp; eficientes. Esse frio, essa umidade, essa chuva, essa.&lt;br /&gt;- Se você não quiser sair, não se preocupe.&lt;br /&gt;- Que que é isso, menino? Já não te disse que vamos virar a noite? Não me ouviu descartar agora há pouco mais uma suculenta FF?* (*) FF: Foda Fixa - Imitou, a voz melosa:-Oi-tudo-bem-e-aí-tô-ligando-pra-saber-se-você-va-fazer-alguma-coisa-hoje-à-noite. Como se a gente tivesse obrigação de fazer alguma coisa toda noite. Só porque é sábado. Essa obsessão urbanóide de aliviar a neurose a qualquer preço nos fins de semana, pode? Tenho vontade de dizer nada, não vou fazer absolutamente nada. Só talvez, mais tarde, se estiver de saco muito cheio, tentar o suicídio com uma dose excessiva de barbitúricos, uma navalha, um bom bujão de gás ou algo assim. Se você quiser me salvar, esteja a gosto, coração. God! Um dia acabo mesmo dizendo, porra. Acendeu outro cigarro. - Cansado nada. Só um pouco. Histérico, acho que estou meio histérico, não estou? Você deve estar me achando completamente louco. Cabeça a mil, garoto. Aí começo a falar e não paro mais. - Ergueu lentamente os ombros, depois soltou-os, com um gemido. - Olha, vou tomar uma boa chuveirada, fazer uma bela barba. Aí te mostro a minha outra face, que você ainda não viu. Uma face limpa, barbeada, saudável, equilibrada, gentil, simpática, madura &amp;amp; razoável. Cheirando a sabonete Phebo, creme de barbear Bozzano, pinho silvestre e carradas de santas intenções. Então a gente sai. Você está com fome?&lt;br /&gt;- Um pouco - disse Santiago. - Nada de grave.&lt;br /&gt;- Nunca, nada de grave. Nada-de-grave é ótimo. Fica aí, eu volto já. - Antes de entrar, ainda ergueu os olhos para o alto da parede, chamando em voz baixa:&lt;br /&gt;- Kay Kendall, onde está você? Pode voltar, gatinha. Não ouviu o moço? Nada de grave no pedaço.&lt;br /&gt;Vinda de dentro, Santiago ouviu a voz dele, batendo portas, fica à vontade, sabe mexer no som? põe um som aí, tem jazz, porradas de jazz, que tal uma boa e velha Billie pra dar o clima noturno? tem um rock também, uns berros de Nina Hagen? ligando a televisão no quarto, a música familiar, irritante e estridente do Jornal nacional derramou-se pelo corredor para invadir a sala, umas revistas malucas aqui no quarto, gosta de sacanagem forte? muito fist-fucking, cada posição, menino, nem de conto, Kama-Sutra é Imitação de Cristo, perde, fica à vontade, quer ver? ai, meu Deus, o Irã, o Nordeste, odeio ficar bem informado, se quiser mais vinho vai até a cozinha, te serve, tem branco também, branco e tinto, rosé não é vinho, tem queijo em cima da mesa, a casa é sua, olha, se estiver a fim de queimar uma coisa tá na latinha, na cabeceira, tem umas revistas antigas de cinema, um sarro, a tia Clara eu bato depois, quer dar uma conferida nas baixarias de hoje do nosso querido planetinha ou prefere ouvir Mozart?&lt;br /&gt;Santiago gritou que não, que não queria, que tudo bem, que não se preocupasse. A musiquinha diminuiu, desapareceu num dique seco. Depois uma gaveta fechada, um ruído de porta, a água caindo do chuveiro, a voz agora em falsete imitando Ângela Maria num bolero qualquer. Através da água uma voz gemida, desafinada, cortante.&lt;br /&gt;Sozinho, rodou por alguns momentos desorientado na sala subitamente esvaziada. Olhou em volta, o sofá, o quadro, a mesinha, a estante despencando de livros e discos, o tapete bordô, algumas almofadas. Remexeu nos discos sem vontade, Caetano, Gal, Duke Ellington, Armstrong, Stan Getz, Thelonious Monk, Marina, acariciou a capa de um Erik Satie, Silvia Telles, continuou mexendo, João Gilberto, Ray Charles, Dinah Washington, Elis, várias&lt;br /&gt;Elis, Dulce Veiga, Nina Simone, Ângela Rô-Rô, obras completas, um velho Mutantes, um Sérgio Sampaio, fui internado ontem, lembrou, um Brahms. Deteve-se na capa conhecida, azul-desbotado, rosto branco, olhos fechados como uma máscara mortuária. Colocou-o no prato, sobre o outro, o do bandoneón, Piazzolla e Gerry Mulligan, conferiu, apertou o botão. No exato momento em que a música começou a brotar das caixas, olhou para a parede atrás do sofá e viu a lagartixa descendo rápida de um orifício no gesso.&lt;br /&gt;- Kay Kendall - chamou baixinho -, nada de grave, gatinha. - E cantarolou lento, junto com a voz rouca de Billie Holiday: - I’m a fool to want you, I’m a fool to hold you.&lt;br /&gt;Inesperadamente pacífico, ou com o gosto de outra paz antiga, o blues trazia uma vontade de deitar-se no chão ao comprido, sobre almofadas, para olhar detidamente o teto, suas tênues rachaduras, rios num mapa, as cintilações dos anúncios luminosos através das vidraças fechadas, alguma coisa dura nos ombros se soltava, talvez acenderia um cigarro, se fumasse apagaria as luzes, bebendo lento o vinho. Apanhou o cálice quase vazio junto ao sofá, e penetrou pelo corredor de paredes também brancas, tão estreito e alto que sentiu uma espécie de vertigem. O longo canal do útero à vagina, deve ser fome, pensou, e entrou na cozinha aberta, iluminada no final do corredor. Do banheiro, a voz de Pérsio chegava agora misturada à de Billie, em meio a gritos e ruídos, água, corpo, sabonete. Pegou a garrafa, encheu o copo enquanto cortava uma lasca de queijo. A cozinha de azulejos limpos, a cesta de maçãs vermelhas. Foi quando voltava, sem planejar, vontade apenas de chegar novamente à sala para estender-se sobre as almofadas, descalçando os tênis, talvez porque a porta estivesse também aberta, a luz do abajur acesa como um convite, ou por algum tipo de esquisita vibração, custou a achar o nome, mas repetiu, uma esquisita vibração de intimidade, por curiosidade pura, limpa, sem inscrição nenhuma, diria, se lhe pedissem explicações mais tarde, mas ninguém pediria, ninguém saberia, por razões ainda mais simples, se houvesse razões, porque simplesmente, finalmente, naturalmente a porta estava aberta e ele parado ali, na entrada do quarto de Pérsio, por uma coincidência de tempo, de geografia, de cir-cuns-tân-ci-a, justificou. Instante rápido: ele ali parado e a voz rouca de Billie repetindo qualquer coisa melancólica como it ‘s a pleasure to be sad. Instante em que ele poderia perfeitamente ter continuado a caminhar em direção a.&lt;br /&gt;Quando deu por si estava dentro do quarto.&lt;br /&gt;Era grande, alto, branco. Como a sala. Não havia muito para ver, nem muita coisa. Nada excepcional capaz de atraí-lo assim, hipnótico, para dentro. Mas como um ímã, magnetizado, parou à beira da cama desarrumada e olhou em volta. A escrivaninha cheia de livros, laudas de jornal, programas de teatro, revistas, xícara vazia, garrafa térmica amarela, par de óculos de armação pesada. Contra um fundo lilás, pôster com uma fotografia em sépia de Sarah Bernhardt, entre a escrivaninha e as cortinas fechadas, espessas, até o chão. O armário embutido de portas azul-marinho levemente entreabertas deixando ver qualquer coisa verde-brilhante, talvez um blusão de náilon. E a cama, então. Lençóis brancos, travesseiros amassados, o cobertor listrado de verde e vermelho, meio dobrado, um cinzeiro cheio de pontas equilibrado entre as dobras. Ao lado a mesinha-de-cabeceira, o relógio digital marcando dois mil e trinta, vinte horas e trinta minutos, corrigiu, maço de cigarros amassado, Hollywood, leu, o abajur aceso, uma caneta de tampa mordiscada, bloco de papel, a caixinha de metal cheia de fumo, a espátula verde-translúcido, marinha, algas, ilhas, o corpo nu de uma mulher de selos empinados, braços erguidos acima da cabeça, segurando uma lupa redonda, marcava a página aberta de um livro com algumas frases sublinhadas. Curvou-se para ler, de repente, assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dançarás! - disse o anjo. - Dançarás com teus sapatos vermelhos, até estares pálida e fria, até tua pele enrugar-se como a de um cadáver. Dançarás deporta em porta, e onde morem crianças soberbas, vaidosas, baterás à porta, para que te ouçam e tenham pavor de ti! Dançarás, dançarás sempre...&lt;br /&gt;- Misericórdia! - implorou Karen.&lt;br /&gt;Mas não ouviu o que o anjo respondeu, pois os sapatos já a levavam, através do portão, aos campos, cruzando caminhos e atalhos, fazendo-a dançar continuamente, sem interrupção.&lt;br /&gt;Fechou o livro. E viu a capa branca: contos de Andersen. A princesinha deitada sobre dezenas de colchões, o grão de ervilha sob o último, lembrou, princesa encantada, Kay Kendall, acordar com sapos, Teiniaguá. Teve um pequeno tremor, como se fizesse algo proibido e pudessem surpreendê-lo assim, vampiro de intimidades, Bebeu um gole de vinho. Talvez na noite anterior, ou à tarde, nu entre os lençóis, janelas fechadas, o ruído distante dos automóveis, na rua, coados pelas cortinas cerradas. O cheiro áspero das pontas de cigarros amassadas no cinzeiro. Desviou os olhos, desviava muito os olhos, calor no rosto, sentia sempre calor no rosto, para as duas pilhas de revistas em cima da televisão desligada, aos pés da cama.&lt;br /&gt;Só ao se aproximar viu o desenho: um homem jovem inteiramente nu, a não ser pelos tênis e as meias, deitado de bruços na grama, olhos fechados, boca entreaberta, passivo, deliciado, possuído pelo leão entre suas coxas, a língua do animal penetrando fundo numa das orelhas. Animals love maneaters, leu, uma sensação de proibido. Na memória, um professor bateu com estrondo um livro no tampo de sua mesa, porque esta i-mo-ra-li-da-de, Carlos Zéfiro, Suzana Flag, Adelaide Carraro. Virou as páginas furtivo, outro homem deitado de costas, a camiseta erguida roçando os mamilos rijos cercados de pêlos dourados, coxas abertas entre almofadas marroquinas, densos interiores, a glande redonda, rosada, um figo aberto na extremidade mais polpuda, meio invisível, perdido entre sombras, pentelhos, músculos, tudo num tom avermelhado de febre, igual ao do interior das janelas nos Outros edifícios, atrás dos quais alguém insinuava lentamente as pontas hábeis dos dedos por entre botões desabotoados da camisa de outro, outra quem sabe, a leve carícia, e o negro em pé, de costas, apoiado na poltrona de couro, bunda voltada para ele, a bunda dura, negra, musculosa, uma bunda de homem com um pequeno triângulo de pêlos negros encaracolados antes da divisão macia das nádegas por onde se penetraria aos poucos, primeiro o dedo umedecido descobrindo caminhos, depois talvez a língua móvel, ágil, despertando o prazer em convulsões miudinhas, gemidos abafados, as pernas abertas, a voz de Billie vinda da sala embalava os dois rapazes nus, misturados em meio aos lençóis de cetim, o rosto erguido para a câmera de um, em direção à luz, o rosto do outro mergulhado nos cabelos do peito, como o quadro na sala, os músculos tocando-se tensos, luz azulada sobre os dois, estrelas emaranhadas nas peles, nas carnes matas cerradas, pântanos de estranho perfume, o grande pau em ereção, a glande de curvas suaves, ponta de foguete enristado em direção à luz, talvez Saturno, um lento blues ao fundo, imaginou, roupas jogadas em desordem pelo chão, misturadas, como os corpos, calças brancas de um, camiseta vermelha de outro, cálice de vinho virado sobre o tapete bordô, um cinzeiro cheio, alguma cinza no chão, dessas que se apanham com o indicador molhado para depositar novamente no cinzeiro, o vinho misturado à cor do tapete, tinto sobre tinto, poça onde se refletiriam não os edifícios, mas esquisitas luzes íntimas, chama de isqueiro, brilho de olho, de ouro, reflexo de neon nos dentes, ânsias, tesões, sensualidades, par de tênis e meias brancas jogados ao acaso, brilhando no escuro fosforescentes, cristal do cálice, ruído de zíper, peles nuas, cheiro espesso de suor limpo, almíscar, quando o suor mal começa a vencer os perfumes, diluindo colônias, sucos, cruas secreções com seu odor de carne livre de roupas, os números do relógio digital vermelhos destacados no escuro, e o lento blues, um choque de dentes, unha rasgando as costas, uma mão meticulosa acompanhando devagar o desenho preciso dos pêlos no ventre, um gemido baixinho, a carne do pescoço levemente ferida pelos dentes, roxo indisfarçável na manhã seguinte, óculos escuros, mas antes, bem antes, o peso quente de outro corpo, os cheiros guardados secretos sob as axilas, no vértice do queixo, curva da virilha, onde termina a pele lisa e começam os pentelhos, a um passo do poço fundo da orelha onde a língua se perde para descobrir gostos longínquos, desconhecidos, os dedos dos pés separados, intimidades, fronteiras, acariciando o outro pé, o pé do outro, dois membros duros, luta de espadas, calor, quarenta graus, pressão pulsante na barriga um segundo antes. Tocou o próprio pau endurecido contra a calça. E ouviu a voz rouca de Pérsio, do meio da água, num grito, no banheiro:&lt;br /&gt;- Vira o disco. Esse é ótimo.&lt;br /&gt;Apanhou rápido uma das revistas da pilha ao lado e saiu do quarto. Na sala excessivamente clara, um pouco tonto, entre dois goles de vinho, folheou à toa as páginas amareladas, como não tivesse ouvido, como não tivesse culpa, estendido nas almofadas, rindo sozinho, divertido demais, enquanto enumerava os nomes, as fotos, Donna Reed, Yvonne de Cano, Dorothy Malone, Rhonda Fieming, Mamie van Doren, Arlene Dahl, e então, de entre as páginas caiu sobre o tapete o cartão-postal. Antes de virá-lo para ler viu um céu todo manchado de roxo e laranja, um laranja mais claro em cima, adensando-se em nuvens de um lilás cada vez mais pesado, até desabarem no horizonte realçando o contorno dos edifícios com luzes esparsas, a torre Eiffel ao fundo. Paris La Nuit, leu. Virou o cartão, a tinta preta, a letra firme:&lt;br /&gt;Paris, 5 de abril&lt;br /&gt;Já começou a esquentar, eu penso em você. A cidade está linda. O inverno guardado nos ossos vai indo embora aos poucos. Como um degelo, por dentro. Me dá notícias. Se encontrar um daqueles telefones, ligo qualquer noite. Você vem mesmo em julho? Sinto saudade, ando meio só. Um beijo, cem beijos, teu J.&lt;br /&gt;Fechou a revista, o cartão dentro. E ficou olhando na capa os olhos profundos de Lana Turner. Levantou-se para virar o disco. Aproveitou que estava em pé para entreabrir as duas folhas de vidro da janela. Um vento quase gelado bateu em sua testa. Ao recuar, viu o próprio rosto misturado às luzes da cidade, corado como o de um garoto surpreendido em meio a um ato obsceno. Caminhou até a mesa, acendeu um cigarro. Teve medo de sentir náuseas. Fazia tanto tempo. Mas a fumaça subiu pelas narinas apaziguante, alcançando o cérebro, agradável. Gosto meio áspero misturado ao espesso do vinho sobre a língua, reconfortante como um chá, uma mão no ombro, uma palavra de carinho, um blues, uma punheta. Santiago suspirou, atento a alguma coisa crispada nos ombros soltando-se, desaparecendo.&lt;br /&gt;Então o telefone tocou outra vez, e duas vezes, enquanto ele esperava que Pérsio gritasse qualquer coisa como atende aí, ou deixa tocar. Atendeu.&lt;br /&gt;- Ele está tomando banho - disse. - Quem quer falar?&lt;br /&gt;- É o Paulinho. Diga a ele que é o Paulinho.&lt;br /&gt;Chamou Pérsio, o fone nas mãos, meio confuso. O outro emergiu do corredor enrolado numa toalha branca, cabelos molhados, cara coberta de espuma, um pincel de barba na mão.&lt;br /&gt;- Paulinho? - cumprimentou. - Olha, eu estou no meio de um banho. Você pode ligar depois? Daqui a pouco, sei lá. Dez minutos, quinze. Me dá um tempo, estou todo ensaboado.&lt;br /&gt;Bonito, Santiago pensou, era um homem bonito de ver, bem desenhado, de ficar olhando para ele, Pérsio, pincel de barba numa das mãos, telefone na outra. E olhou devagar e detalhado o peito nu sem barriga, a espuma branca do rosto escorrendo num fio entre os mamilos, em direção aos pêlos espessos em volta do umbigo.&lt;br /&gt;- Tchau então. Até já. - Pérsio desligou. Para ver Santiago estranhamente ruborizado no meio da sala, copo de vinho numa das mãos, cigarro na outra, muito moço, vagamente familiar. Como um vizinho que mal se vê, um colega de trabalho em outro andar, vestido de branco e cinza, sólido, ao mesmo tempo frágil jeito nas mãos, parado ali a olhar para ele, Sorriu mecânico, sem vontade, sem nada para dizer, que praticamente não o conhecia, e no entanto era por ele, de certa forma era para ele que tomava banho, afugentando os fantasmas do sábado à tarde. Teve uma espécie de frio. Ou medo, desconforto. Premonição, pode ser.&lt;br /&gt;- Está gostando da Billie?&lt;br /&gt;- Perfeito, é realmente perfeito para um sábado à noite.&lt;br /&gt;Pérsio entrou pelo corredor, fechou a porta e examinou o rosto no espelho embaçado do banheiro. Tão embaçado que precisou limpá-lo devagar com uma toalha. Feito nuvem, a camada fina de vapor dissolveu-se para revelar olhos muito claros, pupilas um pouco dilatadas. Estou com olheiras, pensou. Largou o pincel na pia, bateu leve com os dois indicadores sob os olhos, depois nas faces, cada vez mais forte, até ficarem coradas como as de Santiago parado na sala, jeito frágil nas mãos.&lt;br /&gt;O banheiro nublado pelo vapor do chuveiro morno. Como a sauna onde mal divisava as formas do outro, diluídos naquela neblina, chegando muito perto, subindo os olhos pelo peito largo coberto de crespos pêlos negros reluzentes de suor, depois o pescoço forte, taurino, nascendo reto dos maxilares, uma massa escura de cabelos pretos empastados e os olhos pretos também olhando atentos, vindos de longe, de muito longe, tanto que não conseguiria precisar quando, nem onde, nem quanto, em que lugar, em que tempo, de que jeito, com que intenção escondida. Identificou-se aos poucos, hesitante tateava aqui, ali, na sombra. Para não errar, tateava. Não errava, que eram eles mesmos, embora de muitas formas talvez já não fossem iguais - os anos, a distância, a cidade, os caminhos. Pérsio suspirou paciente, deixando os olhos vararem pelos outros homens nus dispostos feito estátuas nos bancos de azulejos, entre o vapor um músculo mais nítido, relance, coxa, braço, bunda, reconhecendo também, mas há quanto tempo, o que é que você faz aqui. Logo depois, sentindo-se um pouco idiota, o que é que um cara podia fazer num lugar daqueles senão procurar outro homem? Mas resguardaram ambos um clima talvez de antiga intimidade, mesmo que para isso precisassem renunciar tacitamente a todas as outras possibilidades expostas, machos na caça, vagamente nítidas na névoa. Que não seria o caso, porque era sábado - como hoje, só que antes -, porque praticamente mal se conheciam, e o que um pudesse pensar do outro pouco ou nada importava, tantas esquinas na cidade, caminhos diversos, descruzados, por delicadeza, por atenção gratuita, involuntária, natural, jogada um sobre o outro. Pérsio, Santiago - sem nome, pagãos.&lt;br /&gt;E de repente estavam sentados juntos à beira da piscina de jatos quentes, bebendo cerveja civilizados, lembrando coisas sem tocar no assunto, você também, procuras, como se fosse inteiramente por acaso, veja só, um lugar como outro qualquer, cruzamento de duas avenidas centrais, no fim da tarde elevador repleto ou sala de espera de um cinema, sessão anônima de domingo. De repente viu-se convidando sem planejar, por que você não aparece em casa uma noite dessas, fim de semana, a gente podia sair, jantar, dar uma olhada na noite. E de repente apressado, estava no vestiário, estendia um cartão, um número, um nome. Era bonito o outro que ainda não era Santiago, se espiasse com cuidado por baixo dos cabelos pretos molhados, emaranhados, se desbastasse traço a traço aquele ar solícito e espantado até quem sabe algum atrevimento, coisas assim, promessas, mas não ousava. Sairia então pela noite levando uma sensação esquisita, quase nova, dentro do peito, essa armadilha de que não gostava, o passado abrindo súbito seu baú mofado para trazer de volta fantasmas esquecidos, que não era, como supunha, um desconhecido na grande cidade, embora dando a partida no carro, arrancando brusco, ligando o rádio numa FM qualquer para ouvir Guilherme Arantes, o som ligado bem alto, ou qualquer um deles, cada vez que o mundo diz: não, não importava, pudesse imaginar que na próxima volta da próxima esquina e outra mais e ainda mais uma, ninguém o reconheceria.&lt;br /&gt;Ninguém o reconheceria assim, a cara coberta de espuma dentro do banheiro embaçado, teve certeza, músculos mais soltos depois da ducha morna. Vinha de longe a cara do outro, com suas sobrancelhas espessas unidas sobre o nariz curto, vinha de coisas e tempos que gostaria de deixar talvez completamente para trás, tão distantes e empoeirados que não conseguiria ver-lhes direito as faces, mesmo depois de afastar meticuloso a poeira acumulada durante anos e anos de quedas e vôos.&lt;br /&gt;Vertical, a gilete cortou a face. Um fio fino de sangue espalhou-se no branco da espuma, tinta vermelha em mata-borrão. Caralho, resmungou. E ouviu da sala que Santiago substituía Billie Holiday por um velho James Taylor. Subitamente então, tentando estancar o sangue, pensou que era muito tarde. Entre os dois, não haveria volta?&lt;br /&gt;Qualquer coisa que ainda não compreendia, que não era exatamente essa. Nem assim. De alguma maneira só restava a ele, Santiago, dar prosseguimento aquilo que começara talvez antes do sábado anterior, tortuosamente, à revelia deles, numa tarde qualquer havia muitos anos - ah, The Green Years, repetiu, era como num filme, sessão da madrugada -, num gramado, como uma sina, estranhamente inclinado, numa cidade do interior em que teriam sido os únicos, mesmo sem dizer, mesmo que eles próprios não soubessem ainda o que já sabiam sem sequer saber o nome, criava uma espécie de pacto mudo, sinuosa cumplicidade prosseguindo agora - fatalidades? E, no entanto, o sangue estancava junto com a letra da velha canção, you just call out my name, tudo era tão bonito e tão antigo, and you know wherever I am, gostava dele assim, meio pesado, I’ll come running to see you again, vacilando entre as emoções, winter spring summer or fall, gostava como se gosta de si mesmo, all you have to do is call, ou o que ficou de si, and I’ll be there, no passado, you ‘ve got a friend, cantou junto: um pedaço que se imagina para sempre perdido. Até que um dia, como nas histórias inventadas, como se quisesse abraçá-lo para confirmar-se, como se pudesse abraçar-se para confirmá-lo. Do meio da neblina emergia o rosto do outro, desculpa, não leva a mal, mas você não é? Era, ou tinha sido, ou poderia voltar a ser, e isso teria quem sabe um gosto bom de mel, se pudesse estancar definitivamente o sangue, merda, se soubesse dividir a noite, se quisesse, como dizer, como dizer?, a questão era sempre como e não o que, sim, espelhar-se? sim, re-per-cu-tir-se, sim, qualquer coisa dessas, refletida, por isso mais amena, mais suportável, menos maldita, compartilhada, cúmplice. E queria, pelo menos agora, queria limpo, queria instintivo, bicho que busca proteção, enquanto não era determinado um Pérsio furiosamente independente numa cidade para sempre sem estrelas, rechaçando convites telefônicos, mas apenas um homem sozinho raspando apático a espuma de um dos lados da cara, enquanto na torneira aberta deixava escorrer do barbeador os tufos de pêlos negros diluídos no branco da espuma, desaparecendo no ralo da pia.&lt;br /&gt;- Santiago - chamou, abrindo a porta. - Você pode me alcançar. - Mas não havia nada que o outro pudesse alcançar. No entanto, já estava ali, que bastava chamá-lo, na porta do banheiro, o vapor embaçando os óculos, o cálice de vinho. Pérsio virou a colônia na palma da mão, depois bebeu do copo do outro. Um gole grande, sem pedir licença. Esfregou as faces. Sorriu constrangido. - Nada, não é nada. Eu esqueci que.&lt;br /&gt;Santiago não parecia pedir nem esperar explicação alguma. Então ele atravessou o corredor, desviando-se um pouco do corpo largo do outro que atrapalhava a passagem - que atrapalhava a passagem, repetiu -, entrou no quarto, jogou a toalha molhada em cima da cama, entre os lençóis, o cinzeiro cheio, abriu a porta do guarda-roupa e pediu:&lt;br /&gt;- Você me alcança o cigarro que ficou na sala?&lt;br /&gt;Completamente nu, olhou o guarda-roupa. Como um desânimo, vontade de dizer rápido qualquer coisa como olha, você me desculpa, mas estou mesmo muito cansado, fica para outro dia, para outra noite, outro tempo, outra vida. Depois que o outro partisse, sem ao menos abrir a janela para que o ar circulasse um pouco no interior viciado de fumaça, sono e solidão, sem esvaziar o cinzeiro nem arrumar a cama, apagar a luz, ligar a televisão, névoa colorida, intermitente, mergulhar entre lençóis ainda quentes, cheiro de corpo e porra seca guardado nas dobras, mergulhar de cabeça na penumbra colorida, no escuro amarfanhado de dentro, e nunca mais outra vez. Olhou a caixinha aberta na mesa-de-cabeceira, fecharia mais um, talvez bebesse também um copo de vinho, ou dois, ou três, havia ainda alguns comprimidos cor-de-rosa no armário do banheiro, Elis, lembrou, uísque, Dietil, Dienpax, altos, baixos, morrer de amor não dado. Depois a noite avançaria flácida, lenta como se o tempo tivesse cessado, os membros gordurosos da noite e sua molhada boca negra sem dentes envolvendo seus membros num abraço pegajoso, puta gorda, porca irresistível, que teria quem sabe vontade de chorar mais tarde, ou telefonar para alguém a quem pudesse queixar-se longamente choroso, drogado, pedinte, saciado de punhetas secas até dormir sem sentir, sem parar de falar, sem desligar o telefone. Mais fácil, mais confortável deixar a dormência conhecida começar devagarinho a escalar as pernas, pelos dedos dos pés, como sempre começava, subindo pelas coxas para atingir a cabeça que rodaria ainda alguns momentos, perdida entre imagens içadas do inconsciente, tontos anzóis, súbitas vozes, contornos difusos dos objetos, presenças ausentes, antes de afundar confusa, dolorida, no travesseiro onde identificaria, um segundo antes de cair no poço, o cheiro de seus próprios cabelos, xampu de babosa, guardado desde a tarde ou a noite anterior, não voltaria.&lt;br /&gt;Demasiado, demasiado esforço. Imaginou a cidade lá fora, com gentes falando sempre alto demais, sem parar, entrando e saindo de lugares, bebendo, comendo coisas, pagando contas, dançando alucinadas, querendo ser felizes antes da segunda-feira: urgente. Apertou o rosto contra o travesseiro. Mas Santiago o tocava de leve no ombro com o maço de cigarros:&lt;br /&gt;- Está se sentindo mal? Já disse que se você não quiser sair.&lt;br /&gt;Pérsio ergueu-se rápido, acendeu um cigarro. Recomeçou, elétrico, a mexer no guarda-roupa:&lt;br /&gt;- Branco? Branco é bom, brilha na luz negra, afasta as más vibrações. Só que as más vibrações desta cidade, God! Nem todo o sal grosso, nem toda a arruda do mundo dariam jeito. Mas não, você também está de branco. Tipo par de vasos, é péssimo. - Embolou a calça branca, jogou-a sobre a cama. Encostado à porta aberta, uma velha Cinelândia nas mãos, Santiago olhava para ele sem dizer nada. - Amarelo, então. Porque hoje é sábado, porque hoje é dia de Oxum. - Saudou, a mão direita com o indicador mais alto erguida para o teto: - Ora ye ye ô! Mas estou meio abatido, não estou? God!, umas olheiras até o queixo. Quem sabe vermelho. Realça, joga pra cima. - Enfiou a blusa larga, depois começou a enfiar os mesmos jeans quase brancos de tão velhos. - Sem muita produção, melhor: Um Certo Ar Esportivo de Saudável Juventude um Tanto Gasta. E sem cuecas: liberdade para os países baixos! Você ainda usa cuecas?&lt;br /&gt;Que bastaria talvez estender a mão. Acariciar primeiro, colando o corpo. Mas não era assim.&lt;br /&gt;- Uso - disse Santiago. E estendeu a revista para colocá-la em cima da televisão.&lt;br /&gt;Foi quando Pérsio recuou para poder ver-se de corpo inteiro no espelho que esbarrou na mão dele e a revista caiu no chão. O cartão-postal escorregou de dentro. Pérsio curvou-se para apanhá-lo. Leu, em voz alta:&lt;br /&gt;- Paris La Nuite. - Estalou os lábios. - Um beijo, cem beijos.&lt;br /&gt;- Eu li sem querer - explicou Santiago. - Caiu de dentro.&lt;br /&gt;- Tudo bem, não tem importância. Quer saber quem é J? - Releu o cartão, rapidamente. - Tem alguma referência ao sexo do remetente? Não, não tem. Então eu poderia dizer que se chama. Digamos, Janice? Ou Juçara, tão tropical, Ou Jennifer, melhor Jeanne, já que veio da França. E ninguém poderia provar jamais absolutamente nada. - Apanhou o cinzeiro no meio dos lençóis, bateu o cigarro com força, depois colocou-o sobre o cartão, em cima da pilha de revistas, sobre o busto de Lana Turner. - Mas não vou mentir: é homem mesmo. Tenho cara de receber cartões amorosos de mulheres? J, teu J. Não é misterioso? O que te parece? Poderia ser Jorge ou José, na linha trivial com fritas. Se você prefere um sabor estrangeiro, bem, Juan, Jean, John. Qualquer coisa assim, que tal? Tanto faz. Um cara aí, que importa? Que importam os cartões ou todas as cartas de amor do mundo? Se eu ia mesmo em julho. Bem, você vê, julho está nas portas e eu não fui. Você está me vendo aqui onde estou? Tanto quanto estou me vendo ali no espelho? Pois é, eu não estou em Paris.&lt;br /&gt;Santiago ia dizer qualquer coisa quando o telefone começou a tocar novamente. Fez um movimento para atender, mas Pérsio o deteve.&lt;br /&gt;- Deixa tocar. Deve ser o Paulinho de novo. God!, as pessoas não têm nem QI nem complexo de rejeição nem componentes paranóides suficientes para desconfiarem que quando você diz me liga daqui a dez minutos quase sempre significa não liga mais, não quero falar com você.&lt;br /&gt;Escutaram o telefone tocar, contando as chamadas até oito. Quando cessaram, Pérsio riu:&lt;br /&gt;- Bem, agora está mais do que claro. Se eu realmente estava no banho não poderia me vestir e sair em dez minutos. Eles contam no relógio. Exatinho, minuto por minuto. Ou fumam dois cigarros, um cigarro dura uns cinco minutos. E se eu pedi que telefonasse é porque esperaria. E se não esperei é porque. Pelo menos é assim que uma mente normal funciona. Ou deveria funcionar. - Deu uma última tragada no cigarro, esmagou a ponta no cinzeiro, em cima do cartão. Olhou para Santiago, irônico. - O que você achou deste número?&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Ora, esse do Telefone que Toca Insistentemente. Você deve estar impressionado, não está? Tantas so-li-ci-ta-çõ-es. O jovem crítico de teatro tão disputado.&lt;br /&gt;Santiago riu sem vontade.&lt;br /&gt;- É que pedi a um amigo meu que telefonasse de quinze em quinze minutos. Para impressionar você. - Começou a calçar os tênis. - Tudo estudadíssimo, cara. Para você não supor que nunca acontece nada na minha vida. Esta é a primeira vez que você vem aqui, preciso passar uma imagem ultra-dinâmica, hiper-jovem &amp;amp; super-movimentada. Para que você pense nossa, mas ele é um verdadeiro vendaval de atividade &amp;amp; sedução. Dez mil encontros, dez mil pessoas querendo vê-lo. Ansiosamente. Homens, homens, homens, reparou quantos homens? Até o do cartão-postal, special guest star a distância. Você acha que deixei a revista bem em cima da pilha por mero acaso?&lt;br /&gt;Santiago encolheu os ombros:&lt;br /&gt;- Se você quer que eu acredite nisso, está bem. Eu acredito. Na minha cabeça a sua imagem está se tornando a cada minuto mais. - Ia dizer sedutora, mas interrompeu-se, inibido. Quis dizer atraente, mas também não conseguiu. Não conseguia acompanhar aquele ritmo acelerado, sarcástico, teatral. E se tentava, voltava então aquele nó crispado nos ombros. Porque não era preciso, embora. Não se trata de um duelo, pensou. E foi isso que finalmente disse, olhando direto nos olhos de Pérsio: - Não quero pensar nada de você. Não se trata de um duelo.&lt;br /&gt;Ele tinha terminado de se vestir. A blusa vermelha, os jeans muito gastos, os tênis um pouco sujos. Passava a mão pelos cabelos quase raspados, para eriçá-los ainda mais.&lt;br /&gt;- Eu sei - suspirou. E mais sereno: - Também acho que não. É que. Não sei, estou mesmo meio histérico, não estou? - Aproximou-se para tocá-lo, a ponta do dedo no ombro. Cheirava a sabonete, loção de barba, Eau Sauvage. - Tudo bem, está tudo bem. Agora vamos organizar a saída, onde fica a saída? Você desliga o som na sala enquanto eu faço uma produção rápida, por aqui, então a gente sai, certo?&lt;br /&gt;Tão próximo que Santiago hesitou. E se? Mas quando deu por si batiam-se os dois estonteados numa onda nervosa de movimento, apagavam luzes, fechavam portas e janelas, esvaziavam cinzeiros. As luzes da cidade brilhavam através da cortina da sala, viu antes de saírem.&lt;br /&gt;De repente estavam com os casacos nas mãos, parados em frente à porta que Pérsio fechava dentro de um corredor que a luz amarela no teto fazia parecer ainda mais alto, cinza e frio. Apertaram o botão do elevador. O topo da cabeça encostado no pequeno orifício da porta, Pérsio podia sentir o vento lambendo seus cabelos ainda molhados. Quando o elevador parou e a porta abriu, à luz amarelada do teto que se misturava àquela outra mais dura, vinda de dentro das outras paredes revestidas de fórmica, um tanto azulada, o rosto de Pérsio, segurando a porta aberta para que ele entrasse, parecia extremamente fatigado. O vermelho-vivo da blusa realçava ainda mais os círculos roxos das olheiras em torno dos olhos claros, quase verdes. Seriam verdes, quase certo, em dias de muito sol. Dias de luz tão clara que precisaria escondê-los atrás de óculos escuros. Ou perto do mar, gostaria certamente de mar, No sétimo dia de bronzeado, quando o dourado da pele se torna mais brilhante, os dentes e os olhos brilhariam feito facas no escuro. Um dia, ele também. A barba recém-feita, em vez de aliviar o peso das sombras nos ângulos do rosto, ao contrário, sublinhava ainda mais a palidez que os pêlos escuros tinham disfarçado pouco antes. Como a luz clara do dia, quase insuportável, embora noturno.&lt;br /&gt;No fundo do elevador, uma mulher muito maquiada sorriu para eles dentro de um vestido lilás cintilante e justo, o talho na saia deixando à mostra uma nesga grossa de coxa sob o casaco de peles. Pérsio cumprimentou, sério. Depois começou a vestir seu enorme casaco verde-musgo, como o de um aviador, cheio de bolsos, presilhas, cordões, distintivos costurados, pendurados, caseados e fechos. Atrapalhou-se, e como um afogado, como num conto de Cortázar, Santiago lembrou, começou a fazer gestos desordenados com os braços compridos, enfiando um pelo avesso e deixando o capuz escorregar para dentro, uma corcunda. Babou um pouco, olhando para os dois, vesgo.&lt;br /&gt;Santiago tentou ajudá-lo, envergonhado, enquanto a mulher continuava a sorrir com a boca cuidadosamente pintada de vermelho denso quase negro. Sobrancelhas muito finas, sombra azul nas pálpebras pesadas.&lt;br /&gt;- Porra, que aflição - Pérsio gemeu. Detesto estas trolhas. Parece que nunca mais vou achar a saída. Meio uterino, um barato meio uterino. O longo canal entre o útero e a boceta.&lt;br /&gt;Santiago riu. A mulher contemplava-os tolerante, remota, duas crianças, monstrinhos atrevidos, fascinantes. Quando o elevador parou outra vez, Pérsio segurou a porta para que ela saísse.&lt;br /&gt;- Ladies first - curvou a cabeça. - Ou você é daquelas feministas radicalésimas que acham que boa educação é machismo desprezível?&lt;br /&gt;A mulher agradeceu em voz baixa, rouca. Piscou brejeira. Depois desviou-se deliberadamente do tapete estreito para sair batendo os saltos altíssimos contra os ladrilhos do corredor. Pérsio contou no ouvido de Santiago:&lt;br /&gt;- Chama-se Lavínia. É uma traficante de morfina que mora na cobertura. Detesta o sol, reparou na pele branca? Só sai depois que o sol se põe. Lá na porta está esperando o amante Douglas, numa Mercedes dourada. Ela detesta a cor, já pediu mil vezes a ele que mande pintá-la de preto. Douglas veio do interior, é primeiranista de medicina, podre de rico, filho de fazendeiros. Ele tem o pau pequeno, mas ela gosta de chupá-lo, embora quase sempre durma no meio. Ele está apaixonado, mas ainda não sabe direito com quem está envolvido. Lavínia ainda não revelou nada a ele sobre o terrível vício que a devora, nem sobre seu trágico passado. Pode ser que ela tenha estado em Auschwitz, como Sophia. Ela tem medo de ser deportada para a Romênia, de onde veio após a Segunda Guerra. Até que um dia Douglas, que ela chama ardente e suavemente de “meu Douggie”, resolve convidá-la para jantar no Rodeio com seu pai, aquele fazendeiro riquíssimo. E ao&lt;br /&gt;entrar no restaurante, restorrân, ela diz, com seu exótico e sensual sotaque, de longe, da porta, sem ser vista pelos dois, atrás de uma coluna Lavínia percebe que o Riquíssimo Fazendeiro é nada mais nada menos que justamente o Homem de Pau Enorme que a desgraçou quando muito jovem, no cais do porto de Santos.&lt;br /&gt;Cumprimentou o porteiro, parou à porta do edifício, abriu os braços para a noite úmida:&lt;br /&gt;- Que fará a desventurada Lavínia? Enfurnar-se-á, repare na mesóclise, sorrateiramente no banheiro, aplicando-se, quem sabe, com uma dose mortal? Sentar-se-á normalmente à mesa, fumando seu Camel, enquanto o Riquíssimo Fazendeiro empalidece mortalmente, repare nos advérbios, sem que o ingênuo Douggie perceba qualquer, repare na gíria, transação escusa? Sucumbirá Lavínia a uma incontrolável onda de lascívia, repare na aliteração, e, sub-repticiamente, sob a toalha, tocará no latejante pau enorme do Riquíssimo Fazendeiro? Beberá, trêmula, as narinas frementes, uma dose dupla de vodca, repare no merchandising, Wyborowa? Ou sairá em desabalada carreira do restorrân, esbarrando em Telmo Martino, que a tudo assistiu, quebrando um salto e telefonando em prantos de um orelhão para explicar que sente muito, mas, devido aos gravíssimos acontecimentos, não poderá comparecer ao encontro? Voltará à sua luxuosa cobertura para tentar o suicídio ingerindo uma dose excessiva de barbitúricos? Ou ligará o videocassete para assistir, uma vez mais, a Tio Wiggily in Connecticut, encharcando-se de gim junto com Susan Hayward?&lt;br /&gt;Rindo, Santiago atravessou a calçada para abrir a porta do carro. Pérsio enterrou o capuz até os olhos. Sentou-se ao lado dele, ligou o rádio. A voz de Roberto Carlos encheu o carro. Ele desligou:&lt;br /&gt;- Assim não dá, que pobreza. A controvertida Lavínia, a lasciva, merecia pelo menos uma Marlene Dietrich.&lt;br /&gt;Uma Edith Piaf, um Non, je ne regrette rien - cantarolou baixinho, rascando os erres.&lt;br /&gt;Santiago espiou a mulher sozinha à beira da calçada, fazendo sinais inúteis para táxis que não paravam. Uma das mãos comprimia a gola do casaco de peles contra o pescoço, a coxa branca escapando do rasgão lilás-cintilante do vestido.&lt;br /&gt;- Vestem-se como putas para ir a festas - comentou Pérsio. - É a moda, que se há de fazer? E fumam baseados infindos, cheiram carreiras bem servidas, dançam punk rock, copiam modelinhos new wave, topam qualquer cantada. Trepam em pé, coito anal, coito oral, sexo grupal, masturbação sem culpa. Tão liberais, você não acha? Sou do tempo em que cabaço era documento.&lt;br /&gt;- Aonde você quer ir? - Santiago perguntou lento, coadjuvante conformado.&lt;br /&gt;Pérsio tornou a ligar o rádio. Gal Costa cantava um frevo nervoso do Carnaval passado.&lt;br /&gt;- Não suporto mais a Paraguaia - disse.&lt;br /&gt;- Quem?&lt;br /&gt;- Essa linha Paraguaia Tropical da Gal.&lt;br /&gt;Santiago passou um feltro no pára-brisa.&lt;br /&gt;- Sei, mas onde você quer ir?&lt;br /&gt;- Qualquer lugar, por mim. Você faz questão de algum?&lt;br /&gt;- Qualquer coisa.&lt;br /&gt;- Então vai em frente. Daqui a umas seis quadras tem uma pizzaria absolutamente normal. Não há a menor possibilidade de encontrar nenhum ator, atriz, diretor, cenógrafo, figurinista, produtor, divulgador, autor ou iluminador em cartaz ou em vias de. - Puxou os dois fios do capuz, amarrou-os sob o queixo, num laço. - Não suporto assédios profissionais em horas de lazer. Ou tentativa de lazer. Hoje estou inteiramente incógnito. Não quero cruzar com nenhuma das passadas, presentes ou futuras estrelas de nossa cultura.&lt;br /&gt;Santiago ligou a chave. Enquanto o motor esquentava, no meio do ruído teve tanta certeza de que o outro ia novamente começar a falar sem parar que chegou a curvar-se para ele, para ouvir melhor. Mas Pérsio sacudiu a cabeça e nada, Pérsio disse que não tinha dito nada e, o carro subindo pela Consolação, abriu a janela deixando a cabeça pender para trás, apoiada no banco. Um vento molhado entrou pela janela. Ele soltou os cordões sob o queixo, acendeu um cigarro. Sem mover a cabeça, procurou outra estação de rádio, a voz estridente de Gal perdendo-se entre outras, agudas, roucas, ruído de estática, um baixo elétrico desvairado, um samba de braços-erguidos-e-todo-mundo-agora, até deter-se no piano lento.&lt;br /&gt;- A sonata número 4, de Beethoven - sussurrou.&lt;br /&gt;- Moonhight. Só que não tem lua.&lt;br /&gt;Atrás, além do perfil dele, recortados contra a janela aberta, encobrindo por vezes as luzes que passavam, Santiago pôde ver primeiro a silhueta irregular dos edifícios, algum ponto de ônibus com pessoas encolhidas, amontoadas embaixo das marquises batidas pela garoa fina, um outdoor com dentes resplandecentes, outro com coxas morenas, volume saliente, cuecas qualquer coisa, bares abertos, algumas putas, um travesti de saia de couro, botas brancas, depois o início dos muros altos e brancos do cemitério, a massa sombria dos ciprestes - seriam mesmo ciprestes?, ou pinheiros?, ou abetos, repetiu, abetos, e sem querer pensou numa mangueira cercada de samambaias -, desviando os olhos para baixo, para o asfalto, aquelas poças de água colorida pelo neon, longo lago vertical ascendente, subindo através da rua, como se o carro fosse um barco navegando pela avenida, para cima, contra a correnteza, Aguirre.&lt;br /&gt;Pérsio estava quieto agora, o rosto meio voltado para a janela. De vez em quando a brasa do cigarro brilhava mais nítida. Depois de um som miúdo como um pequeno suspiro, descia pelo ar a brasa tão lenta quanto o piano, no mesmo ritmo, para juntar-se à outra mão esquecida sobre as coxas. Outra vez assim, olhando para ele Santiago pensou que era bom de olhar, e não conseguiria ainda dizer de outro jeito, mesmo que parecesse absurdo. Bom, que bom de olhar, um quadro, o detalhe caprichoso de algum objeto antigo, o parque atrás das vidraças, Mesmo quando em movimento, qualquer coisa quieta no fundo. Restava, permanecia. Qualquer coisa que se movimentava ou, de dentro, contemplava os movimentos tolerantes, não crítica, apenas remota, feito Lavínia no elevador, duas crianças, olhando para eles sob pálpebras azuis. Ou de novo como se seus olhos, os olhos escuros de Santiago, um pouco pesados nos cantos, cílios densos, fossem câmeras cinematográficas com lentes capazes de aproximar ou afastar as imagens em zoom tornando às vezes mais definido o primeiro plano, agora a brasa que tornava a subir para empastar em cores foscas, misturadas, indefinidas, as formas do fundo cortadas por alguma súbita cintilação, lâmina, externa, ou liquefazer então os dedos esmaecendo o formato, a brasa que descia, mão suspensa encontrando mão pousada, vagos, obscuros, ressaltando vibrantes, dinâmicos, mastigava adjetivos como quindins, algum reflexo do semáforo no meio-fio da sarjeta transbordante da água suja dos bueiros, esgotos. Tossiu, menos por vontade que por confusão, para afastar um pouco aquela - era feito uma vertigem?, era feito uma tontura, teria sido o vinho, lentes meio embaçadas dos óculos, fome, chuva no pára-brisa, piano lentíssimo, nota por nota, cada dedo do pianista depositado em infinito cuidado sobre cada uma das teclas, a brasa despencava devagar em direção ao solo para deter-se na altura da outra mão, porque era sábado, tinham programado sair, ou todas essas coisas juntas, afinal, porque ele também estava bastante cansado de semanas e histórias e trabalhos e pessoas e.&lt;br /&gt;Parecia dormir, Pérsio. A boca entreaberta. O lábio inferior mais polpudo, onde se poderia passar num carinha a ponta do dedo médio.&lt;br /&gt;Morderia sem força, gato brincando. Estacionou devagar, para não acordá-lo. Mas era tão cedo, tudo, a noite, uma criança, virando a cabeça para trás, para os lados. Façamos de conta no meio da chuva que te enxuguei os cabelos, te levei para a cama, te aqueci com abraços, tirei tua roupa devagar, cantei para te adormecer até a manhã seguinte. Ficou olhando as grades baixas cortando a avenida em duas, enquanto os toques nas teclas do piano tornavam-se mais e mais acelerados no allegro, câmera que se aproxima, brasa acesa na penumbra, respiração regular. Ergueu as vidraças, as gotas mais fortes esmagadas. Do lado de Pérsio, salpicavam o casaco, o rosto, os cabelos. Santiago olhou para ele. Que o olhava também, atento, do outro lado, desperto, um palmo. Mas nenhum se moveu até Santiago dizer:&lt;br /&gt;- Acho que é aqui. Vamos lá?&lt;br /&gt;Saltaram poças, os dois pela calçada. A pequena marquise metálica de pessoas misturadas, algumas crianças, Herodes, rosnou Pérsio, o sábio mais injustamente incompreendido de toda a história ocidental, depois o calor no rosto, os grandes fornos abertos, um cheiro inesperado de cânfora ou alecrim queimado perdido no ar, mas não tinham nada em comum os dois, a nota disfarçada na mão do garçom, sorriso cúmplice, rapidinho, não temos tempo, tantas cores misturadas, saídos de um filme preto-e- branco para a rua repleta de cores, em plena tarde de sol, janeiro, verões, piscinas azuis de cloro, pouco depois a mesinha no canto, a toalha xadrez verde e branco. Escolheram indecisos, veio o vinho, tinto como o outro, e um cálice de conhaque dourado para afastar a gripe, limpar a voz, Pérsio justificou, que precisava de pretextos, álibis, culpas, punições, e passaram o cálice de um para o outro, aquecendo a base mais larga entre as duas mãos. Estava mais corado agora, Santiago observou. E depositou os óculos ao lado do maço de cigarros.&lt;br /&gt;- Bem, agora conte-me coisas - Pérsio pediu.&lt;br /&gt;Santiago olhou por cima da cabeça dele, O quadro com faunos e bacantes nuas esmagando cachos de uvas sob os pés dentro do barril de madeira.&lt;br /&gt;- Que coisas?&lt;br /&gt;- Coisas, ora, coisas. Excitantes, escabrosas, melancólicas, excêntricas, depressivas, estimulantes, atrevidas, mesquinhas, loucas, maravilhosas.&lt;br /&gt;- Mas não há nada para contar.&lt;br /&gt;- Então inventa, inventa rápido. Falei a noite inteira. Agora entrei em alfa. Aproveita, senão recomeço. É a sua vez.&lt;br /&gt;- Eu gosto de ouvir.&lt;br /&gt;- Claro que você gosta. Eu sou interessantíssimo, não é mesmo, gente? Mas pelo amor de Deus, pare de fazer o ouvinte omisso &amp;amp; respeitoso, senão vou morrer de sono antes que venha a pizza. Faz mal morrer de sono com o estômago vazio, sabia?&lt;br /&gt;Santiago corou:&lt;br /&gt;Mas contar o quê?&lt;br /&gt;- Qualquer coisa, já disse. Senão eu piro. Conte depressa, senão eles vão começar a olhar.&lt;br /&gt;- Olhar?&lt;br /&gt;- Todo mundo. As mammas, as possessivas gordas, as criancinhas odiosas, os maridos subjugados, as nonnas de saco cheio.&lt;br /&gt;Santiago olhou em volta. Localizou três mocinhas feias na mesa ao lado e, mais além, um casal entediado, ela gorda, tranças presas no alto da cabeça, ele de terno azul-marinho, provavelmente o mesmo que usava para trabalhar, bigodinho fino, antes da mesa grande, cheia de criancinhas barulhentas. Caras cansadas, sem mistério. Eram só dois rapazes não muito jovens numa noite de sábado. Nada especial. Comuns, urbanos, talvez bonitos.&lt;br /&gt;- Ninguém está olhando.&lt;br /&gt;- Ainda não, mas vão começar já, se você não falar alguma coisa. Em silêncio profundo, God!, deep silence, não é bonito?, só casal em fase de separação. Aquela linha Tédio, Rancor &amp;amp; Acusações Recíprocas. Conheces?, perguntaram. De sobra, responderam. Ou namorados, começo de namoro, inteiramente apaixonados, nem treparam ainda, meio bestas, babando de tesão contida. Você sabe, aquela coisa de olho no olho. Um gole, um cigarro. Muitos cigarros, o cinzeiro. Talvez até terminarem os cigarros e terem que dividir um. Suprema perversão, lamber a saliva do outro. Um roçar de mãos ocasional, completamente ocasional, ao bater o cigarro, de repente. Assim.&lt;br /&gt;Pérsio bateu o cigarro no cinzeiro. Deixou a ponta de um dedo roçar fugidia nos pêlos macios das costas da mão de Santiago. Santiago abriu os dedos. O indicador suspenso no ar, Pérsio não se mexeu.&lt;br /&gt;- Vamos, diga alguma coisa. Quer que rasteje a teus pés? Senão eles vão pensar que somos um casal em fase de separação. Ou um par de namorados babões. Onde está seu superego? O que é que você quer que eles pensem de nós, de mim, aqui a teus pés? E em qualquer das hipóteses as mammas cutucarão seus maridos ruins de cama repetindo baixinho, escandalizadas, guarda, amore, questi belli ragazzi, Dio mio, veados. Santa Madona, como é que se diz veados em italiano? - Acentuou a palavra, como gostava de fazer. As mocinhas se voltaram, curiosas. - Já começaram a olhar, viu? Você quer que pensem isso de você, hein? Que nós somos veados, bichas, baitolas, putos, maricões, xibungos, jaciras, frescos, peras, homossexuais, invertidos? Hein, cara? - Bateu forte no joelho sob a mesa. - Então, como disse Michelangelo dando a martelada, parla, cazzo!&lt;br /&gt;Santiago estava vermelho:&lt;br /&gt;- Eu não sei bem por que estou aqui. Ainda não consegui entender bem por que é que eu estou aqui com você.&lt;br /&gt;- Porque a gente se encontrou sábado passado na sauna. E eu convidei, eu disse apareça um sábado desses.&lt;br /&gt;Qualquer coisa assim, e você apareceu. Você ligou hoje à tarde, aceitando sensibilizado. - Pérsio sacudiu o cálice de conhaque, depois entornou-o rápido, erguendo o pescoço para vê-lo melhor. - Então eu fiquei meio surpreso de você ligar e.&lt;br /&gt;- Você ficou surpreso?&lt;br /&gt;- Fiquei. Quer saber? Eu quase não saio mais. Eu quase não vejo ninguém. Devo pedir aos violinos que comecem a tocar ao fundo?&lt;br /&gt;- Eu também não.&lt;br /&gt;- Também não o quê?&lt;br /&gt;- Quase não vejo ninguém, quase não saio mais. Dou aquelas aulas, volto para casa. Aí fico lendo ou vou ao cinema. Vou ao cinema quase todo dia. Ou vejo uns dois filmes na televisão, cada noite. Já ando vendo as coisas, as coisas todas, o tempo inteiro como. Como se meus olhos fossem lentes. Dessas de cinema, um dose, pá, vejo mais perto. Um zoom, pá, vou afastando.&lt;br /&gt;- Ou aproximando.&lt;br /&gt;- Ou aproximando, claro. Mas também fiquei surpreso de eu mesmo ter telefonado.&lt;br /&gt;- E agora você não entende como está aqui.&lt;br /&gt;- Eu não entendo?&lt;br /&gt;- Você disse.&lt;br /&gt;- Eu disse? Não sei bem. As coisas foram indo. Quase não conheço você. - Hesitou. E acrescentou: - Pérsio.&lt;br /&gt;- Faz muito tempo.&lt;br /&gt;- Muito, faz muito tempo.&lt;br /&gt;- E de repente eu ia dizer não, não posso, não quero, não devo, estou doente, descobri que estou com AIDS, tenho um compromisso, tentei pular da janela. Quando vi tinha dito te espero às oito, não foi? E de repente eram só sete e meia quando a campainha tocou e eu não pensei que fosse você. Oh, Deus, tudo tão típico. Eu queria ter tomado um banho antes e feito a barba, uns cheiros, uns charmes, essas coisas. Eu queria dar uma boa. Sei lá, troço mais babaca, impressão. Eu queria que você gostasse de mim. Eu estava superchapado, supercheirado. Torto, eu estava torto. Detonado. Ainda estou um pouco, comecei a aterrissar só depois do banho. Eu ia espiar pelo olho mágico e não ia abrir, a não ser que fosse assim um. Um James Caan, um Nuno Leal Maia, paizão. Mas de repente já tinha aberto a porta e você disse oi, e eu devia estar um horror, uma cara de Christiane F. antes da desintoxicação, eu disse oi com aquele olho vermelho, o nariz meio pingando, aquele bafo de maconha. A pele, a pele, você reparou como estou pálido? Então você entrou e perguntou como é que eu estava, daí eu botei correndo aquela música, eu tinha que me mexer rápido, e disse.&lt;br /&gt;- Como esta música.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Como esta música, você disse. Exatamente como esta música.&lt;br /&gt;Pérsio parou de falar. Bebeu mais um gole de conhaque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi. Bem assim. Flash-back na mosca, cara. Entra “Years of solitude” na trilha. Só uma vinheta, anos. Anos de solidão. Falar em flash-back, sabe que às vezes tenho vontade de voltar para lá?&lt;br /&gt;- Você? Não acredito.&lt;br /&gt;- Acredite, tenho. Uma vontade louca, às vezes, de voltar para o Passo da Guanxuma. Besteira? Pode ser, mas me dá um cansaço daqui. Um nojo, às vezes me dá. Esse cinismo lento invadindo. Principalmente quando chove, e chove sempre. Você não tem?&lt;br /&gt;O quê?&lt;br /&gt;- Vontade de voltar.&lt;br /&gt;- Agora é muito tarde.&lt;br /&gt;- Já pensou, eu lá? Não ia ter nada a ver, menino. God!, como ia ser medonho. Não ia mesmo ter nada a ver.&lt;br /&gt;- Chamou o garçom, pediu outro conhaque. - Você dá uns tapas? Então tudo bem. Não quero segurar a culpa sozinho.&lt;br /&gt;Preciso de cúmplices. - Pegou os óculos de Santiago, ficou revirando entre os dedos. - Naquele tempo, já não tinha. Imagina agora. Descaralhei tanto, esses anos. Vamos entrar na linha traumas, algo a opor?&lt;br /&gt;- Vai em frente.&lt;br /&gt;- Acho prudente avisar. Mas é sempre danger.&lt;br /&gt;- Não tem importância.&lt;br /&gt;- Oh, como você é compreensivo. - Tocou com o vidro dos óculos na mão de Santiago. - Sabe que quando eu saía na rua as meninas gritavam biiiiiiiiiicha! Não, não era bicha! Nem veado. Acho que era maricas, qualquer coisa assim.&lt;br /&gt;- Fresco - Santiago disse. – Era fresco que se dizia.&lt;br /&gt;- Isso. Fresco, elas gritavam. Todas gritavam juntas. Ai, ai, elas gritavam. Bem alto, elas queriam ferir. Elas queriam sangue. E eu nem era, porra, eu nem sabia de nada. Eu não entendia nada. Eu era superinocente, nunca tinha trepado. Só fui trepar aqui, já tinha quase vinte anos. E cheio de problemas, beijava de boca fechada. - Sorriu, contornando os aros dos óculos com as pontas das unhas roídas.&lt;br /&gt;- Vou perguntar uma besteira: foi bom?&lt;br /&gt;- Bom? Foi uma bosta, cara. Mas não vem ao caso, tudo superado. Ah, tão Maduro &amp;amp; Equilibrado. Cinco anos de terapia, sob controle. Mas era difícil lá. Aquelas garotas todas gritando de manhã bem cedo, quando eu ia para o colégio. Todos os dias. Ao meio-dia, quando voltava. Todos, todos os dias. God!, que inferno. Semana após semana, ano após ano. Eu já não tinha coragem de sair de casa. Ficava chorando pelos cantos, bem tanso, me perguntando apavorado meu Deus, meu Deus, será que sou mesmo isso que elas gritam que eu sou? - Enfiou o dedo no fundo do copo vazio e lambeu. Depois passou nas gengivas. - Só tinha um na cidade, lembra?&lt;br /&gt;- Lembro, o seu Benjamim, o barbeiro. Ele se matou, sabia?&lt;br /&gt;- Claro, não é? E fez muito bem. Sábia decisão. Só podia mesmo era cortar os pulsos.&lt;br /&gt;- Ele se enforcou. Bem no meio da praça. Num domingo de Páscoa. Na figueira. O padre encontrou na hora de abrir a porta da igreja, antes da missa.&lt;br /&gt;- Perfeito, perfeito. A Anônima Tragédia Provinciana. E dá no mesmo. Aquelas garotas eram umas assassinas. - Olhou em volta, as pessoas, uma a uma. - Como eles, todos uns assassinos. Eles não perdoam, eles não aceitam. Eles não perdoam nunca, sabia? Eles não vão sacar que não se trata sequer de perdão. Se um deles discutir com você, esse vai ser sempre o último insulto que te jogarão na cara. O mais ofensivo, na opinião deles. Você não vai passar nunca de um veado escroto. Uma a-ber-ra-ção. Com todos os Masters &amp;amp; Johnsons do planeta. Que lamentável, meu amigo.&lt;br /&gt;Santiago esfregou as mãos. Desviou os olhos.&lt;br /&gt;- Tinha outro, também - tentou. - Como era o nome dele? Ary, era o Ary do Instituto de Beleza.&lt;br /&gt;- Mania que veado tem de mexer no cabelo dos outros.&lt;br /&gt;Santiago riu:&lt;br /&gt;- Não tem graça.&lt;br /&gt;- Eu sei, era triste?&lt;br /&gt;- Triste, você disse triste? Era medonho, cara. Era duma solidão horrenda, era dum desespero pânico. Era duma. Duma agressão, de um desprezo, de uma crueldade. Você não lembra?&lt;br /&gt;- Eu já tinha ido embora.&lt;br /&gt;- Eu não tinha nenhum amigo. Só Peter Pan.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;Pérsio passou o indicador, de leve, sob o roxo dos olhos.&lt;br /&gt;- Ao fundo, entra agora um slide de Pollyana. Eu já tinha visto o filme, depois comprei o livro. A versão de Monteiro Lobato. Depois ganhei a tradução, era lindo.&lt;br /&gt;Não tinha um álbum, um álbum de figurinhas? Eu fiquei absolutamente apaixonado pelo Peter Pan. Quando eu ia dormir, de noite, queria que aquelas garotas nojentas todas morressem enquanto eu voava sobre a cabeça delas. Para a Terra do Nunca, Peter Pan vinha me buscar toda noite, nós íamos voando para a Terra do Nunca. God!, introjetei completamente a Wendy, aquela putinha. Eu não queria crescer. Eu tinha nojo de crescer. Gente adulta me dava vontade de vomitar. - O garçom trouxe o conhaque. Ele bebeu até quase a metade, de um gole só. Estendeu o cálice para Santiago. - Mas eu não pensava em sacanagem nenhuma. Só queria ficar perto dele. No máximo, deitar abraçado com ele. Na mesma cama. Nem um beijo, nada. Só um abraço, bem apertado. Ridículo, ridículo. Eu era meio retardado, acho. Até uns dezoito anos não sabia nem o que era punheta, pode?&lt;br /&gt;As mocinhas se agitaram na mesa ao lado. Riram baixinho. Pérsio olhou para elas. Acendeu outro cigarro. Tragou, bem fundo. E repetiu alto:&lt;br /&gt;- Pu-nhe-ta. Eu não sabia o que era. Aquelas monstras. Devem estar todas gordas, balofas, megeras medonhas, cheias de varizes, frígidas, com mil crias ranhetas na barra da saia, malcomidas. Os maridos arrotando e peidando repolho, barrigudos de cerveja, meio broxas, trepando pelos cantos com as empregadas. Como cachorros. - Levantou a mão. E bateu o cigarro no ar. A cinza caiu. - Não me venha dizer que perdoar-é-divino. Desejo o pior para eles todos. A lepra, o câncer na pele. Merda, continuo histérico. Eu não devia sentir tanto ódio. Mas nunca, porra, nunca ninguém. Ai, que lamentável orgia de autocomiseração. Mas não consigo esquecer. Sei que não é nem um pouco espiritual. - E de repente, o olho brilhando: - Você tinha uma namorada, não tinha?&lt;br /&gt;Santiago corou outra vez:&lt;br /&gt;- Tinha, era a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Espera aí, não diz. Eu vou lembrar, claro que eu vou lembrar. Era uma das mais monstras de todas. Tinha uns peitos enormes, uma franjona na testa. Era um nome ridículo, como era mesmo? Janete? Não, Salete? Sei, sei: Rejane, pelo amor de Deus, cara, era a Rejane Magalhães, filha do doutor Antoninho.&lt;br /&gt;Santiago começou a rir.&lt;br /&gt;- Eram duas irmãs, não eram? Regina e Rejane. A Regina usava óculos, tinha bigode e uma saia jeans. Era a única saia jeans de toda a cidade. Estudava por aqui, só voltava lá nas férias. E levava sempre uma amiga. Umas amigas desmilingüidas, de cabelo liso, óculos e rabo-de-cavalo. Diziam que era paraíba, macho-fêmea, meio comunista. Minha mãe garantia que não. Minha mãe era meio gay, botava a mão no fogo por todas as bichas e sapatões incompreendidos da cidade. Claro, com o filho que tinha. Jurava que a Regina tinha era muita personalidade. Uma personalidade muito forte. Você, como ex-futuro-cunhado, deve saber toda a verdade sobre Regina Magalhães. Era lésbica?&lt;br /&gt;- Era. Uma vez encontrei ela no Ferro’s Bar. De moto e blusão de couro.&lt;br /&gt;Pérsio riu tão alto que a família inteira da outra mesa voltou-se para os dois:&lt;br /&gt;- Mentira, jura? Calçando quanto?&lt;br /&gt;- Uns cinqüenta em cada pé. Bico largo.&lt;br /&gt;Pérsio batia na mesa, rindo:&lt;br /&gt;- Você é louco, cara. Você é completamente pirado. Como é que você namorou a Rejane Magalhães, com aqueles ubres de Jayne Mansfield? Elas moravam na esquina de baixo. Quando subiam de tardezinha para o centro, depois do banho, meu pai olhava e dizia mas não é possível, gente, esta filha do Antoninho andou comendo estoura-peito.&lt;br /&gt;- Eu fui noivo dela.&lt;br /&gt;Pérsio riu tanto que quase caiu da cadeira, engasgado com a fumaça do cigarro. Bebeu um gole de vinho. Quando esfregava os olhos vermelhos o garçom colocou a pizza na mesa. Santiago cortou um pedaço. Assoprou, antes de provar.&lt;br /&gt;- Não era cânfora. Nem alecrim.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- O cheiro. Um cheiro que senti quando entramos, era manjericão.&lt;br /&gt;- Erva de Oxum. - Pérsio ergueu a mão para o teto, saudando outra vez: - Ora ye ye ô, minha mãe! Segura essas, com a bênção de Oxalá e Ogum de guarda. Então me conta mais. Você devia ser completamente mongolóide, bicho. Meu Deus, ficar noivo da Rejane.&lt;br /&gt;- De aliança, sofá e tudo - Santiago confirmou. - Anos a fio. Seis anos. Ela já estava com o enxoval pronto. Aí eu vim para São Paulo fazer a faculdade e.&lt;br /&gt;- Conheceu um cara.&lt;br /&gt;- Como é que você sabe?&lt;br /&gt;- Clássico, é clássico, rapaz. Mas não se constranja. Em princípio, tipo rapaz encontra moça. Mas logo depois, para infelicidade dela, encontra também rapaz. E gosta muito mais, lógico. Vai em frente.&lt;br /&gt;Santiago vacilou, remexendo na pizza com o garfo. Mordeu um tomate. Mesmo sem óculos, as bacantes nuas, muito nítido, os sátiros com coroas de folhas de videira nos cabelos encaracolados. As mocinhas atentas na mesa ao lado. Mastigou devagar, as duas mãos cuidadosamente postas sobre a toalha, mal tocando o pano, uma ao lado da outra. Pérsio o espiava, olhos divertidos, meio ternos talvez, um pouco avermelhados.&lt;br /&gt;- Pois é. Um cara, na faculdade. Roberto, era o Roberto. Beto, as pessoas todas chamavam ele de Beto. Eu andava sempre com um livro embaixo do braço, acho que eu queria que as pessoas vissem a capa do livro. Que pensassem coisas, que eu lia, sei lá. Eu ficava sozinho no Centro Acadêmico lendo o tal livro. Não era sempre o mesmo, mas era escolhido, para que vissem. Demorava uma semana com o mesmo livro, depois trocava. Eu lia devagar naquela época. Um dia ele chegou de repente e perguntou que livro era.&lt;br /&gt;- Fantástico - disse Pérsio. - Estudadíssimo você, hein? Com essa carinha sonsa. E que livro era, afinal?&lt;br /&gt;- Era Clarice Lispector, nesse dia era Perto do coração selvagem. Eu acho que fiquei olhando para ele uma porção de tempo antes de conseguir dizer o nome do livro. Era uma ousadia ler Clarice naquele tempo, ninguém entendia direito, diziam que era difícil. Eu também achava, mas gostava. Eu gostava dela. Tinha um jeito de ver por trás, por dentro, que eu achava que também tinha. Que só eu tinha. Eu fiquei olhando para o Beto. Era bonito, eu já tinha visto ele e tinha pensado, que bonito. Nossa, que bonito. Ele tinha uma camisa xadrez. De madras, não era assim que se dizia? Lembro até hoje. Xadrez meio assim desbotado, muito vago, vermelho, verde. Madras, engraçado, não é o nome de uma cidade da Índia? Aí ele sentou e começou a falar em Kafka e em Sartre e em Camus. Em Simone não, ele achava Simone uma farsa. Depois perguntou se eu tinha lido um livro chamado Poeira.&lt;br /&gt;- Dusty answer. - Pérsio sorriu. - Rosamond Lehman.&lt;br /&gt;Santiago sorriu também.&lt;br /&gt;- Isso, isso. Judith, Roddy.&lt;br /&gt;- O rio, a escola.&lt;br /&gt;- E Jennifer. Que eu tinha que ler. Que se eu gostava de Clarice tinha que ler Poeira. Que ele ia me emprestar, fazia questão. Aí ele me trouxe, no dia seguinte. No dia seguinte não, que era sábado. Nem no domingo. Na segunda, ele trouxe na segunda. Todo o fim de semana eu pensei nisso, achei que ele ia esquecer. Mas ele não esqueceu. Eu esperei ele fumando numa mesa do fundo. No recreio das dez, que era maior, eu não fumava, mas Minister, eu tinha comprado um maço de Minister. Era um livro de capa dura, meio amarelado. Aí a gente começou a se emprestar livros, a ir ao cinema juntos, de tarde. Glauber, Godard, Truffaut, aquelas coisas. Ele gostava de Françoise Dorléac, eu adorava Rita Tushingham. Depois uns concertos, de noite. Mozart, o Beto tinha paixão por Mozart. Principalmente um concerto de piano em si bemol. No teatro, umas vezes. Eu nunca tinha ido ao teatro. Foi uma noite, era Um gosto de mel, sabe Um gosto de mel?&lt;br /&gt;- Sei. Aquela história da garota grávida que vai morar com uma bicha boa. Tinha uma música, não tinha? “A taste of honey” - Pérsio cantarolou, batendo com a faca no cálice. - Ta-ram-tam. Taram-taram-taram.&lt;br /&gt;- Depois fomos num bar e começamos a beber. Ele escrevia poemas. Tinha um, como era? Ele me mostrou naquela noite. Lembro, lembrei. Ele disse inteiro, o começo era assim: Navego pelo teu silêncio, amigo, esse estranho labirinto cheio de portas falsas e desejos de mármore redondo.&lt;br /&gt;- Mármore redondo?&lt;br /&gt;- É. O que tem?&lt;br /&gt;- Nada, esquisito. Fiquei pensando. Redondo como as bundas de Rodin. E aí o poema era para você.&lt;br /&gt;- Claro que era. Nós só tínhamos vinte anos.&lt;br /&gt;- Não se justifique.&lt;br /&gt;- Não estou me justificando, era bonito. Nós bebemos muito, Cuba, a gente bebia cuba. Era uma ousadia tremenda dele mostrar aquele poema justo depois daquela peça. A gente saiu junto, já estavam fechando o bar, e na praça. A gente estava completamente bêbado, na praça a gente se abraçou com força. Com muita força. Durante muito tempo. Eu me lembro que ele tremia. Acho que eu tremia também. E me beijou, depois, na boca. Ou eu beijei ele, não me lembro. Ou nos beijamos juntos, ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;- Vocês foram para a cama?&lt;br /&gt;- Na mesma noite. Eu morava num hotel pequeno, ninguém via.&lt;br /&gt;- Foi legal?&lt;br /&gt;- Foi... foi complicado. Foi complicadíssimo. Eu não sabia trepar. Nem ele. A gente ficava só do pescoço para cima. Como se o corpo nem existisse. Pau, essas coisas. Mas foi bonito. Não tinha importância que não desse muito certo. - Repetiu: - Nós só tínhamos vinte anos.&lt;br /&gt;Santiago cruzou os talheres, empurrou o prato.&lt;br /&gt;- E aí?&lt;br /&gt;- Aí o quê?&lt;br /&gt;- Aí, depois. O que aconteceu na seqüência?&lt;br /&gt;Santiago acendeu um cigarro.&lt;br /&gt;- Nós vivemos juntos quase dez anos. Quer dizer, eu viajei, ele viajou. Quando um voltava, a gente continuava. Separava, às vezes. Poucas vezes, transava outras pessoas. Mas voltava sempre.&lt;br /&gt;- Dez anos? God!, longas paixões, hein? SEIS anos com a Rejane Magalhães, DEZ anos com o Beto. Como é que você pode? Porra, eu nunca consegui ficar mais do que um mês transando a mesma pessoa. Sempre me dá uma... Uma coisa, já conheço aquele corpo, aquele cheiro, aquele gosto. Aí vou à luta.&lt;br /&gt;Santiago soltou a fumaça pelas narinas e ficou vendo-a embaçar-se sobre a cabeça de Pérsio. Como uma auréola, apagando os contornos dos sátiros, das bacantes. Os cachos de uvas escorregavam meio desmanchados pelas bordas do barril. Roxo sobre o verde, misturavam-se à grama alta cheia de flores amarelas. Madras, mudras, gesto parado.&lt;br /&gt;- Muito tempo, não?&lt;br /&gt;- Para caralho, cara. E depois? Dez anos, deixa ver. Se vocês começaram a transar quando você tinha uns vinte. Dez anos, quantos você tem agora?&lt;br /&gt;Santiago bebeu mais um gole de conhaque. E disse:&lt;br /&gt;- Trinta e três. Faz quatro anos que o Beto morreu.&lt;br /&gt;O rapaz olhava de longe fazia algum tempo, Santiago tinha visto. Com o canto do olho, enquanto contava, percebeu que ele procurava chamar a atenção de Pérsio. Movimentava-se sem parar, falando muito alto. Mas Pérsio estava mergulhado nas palavras dele, um menino antigo ouvindo uma história de fadas, bruxas, príncipes. Chegara a esquecer a ponta do cigarro aceso entre os dedos, boca entreaberta, olhos arregalados, mais próximos do verde assim, a luz batendo direto na íris clara. Quis alertá-lo, as estrelas de nossa cultura, lembrou. O rapaz veio se aproximando por trás, macio, felino, até tocá-lo no ombro. Pérsio assustou-se e queimou os dedos num sobressalto.&lt;br /&gt;- Merda - resmungou, esmagando a ponta no cinzeiro. E voltou-se para o rapaz sorridente, um excesso de dentes grandes enfileirados sobre a gola alta, cabelos curtos, um topete anos 50, as mãos enfiadas nos bolsos das calças largas cheias de bolsos, um enorme chaveiro pendurado, tilintando enquanto ele se curvava.&lt;br /&gt;- Oi - cumprimentou. - Lembra de mim?&lt;br /&gt;- Oi. - Pérsio lambeu os dedos queimados. Estendeu a mão. - Lembro, claro que lembro. Como vai? Você não é do elenco do Édipo?&lt;br /&gt;- Antígona - o rapaz corrigiu. - Do coro, sou o Carlinhos do coro.&lt;br /&gt;- Claro, claro. O coro, lembro sim. Não foi você quem levou as fotos e o release no jornal? E como vai o espetáculo, Carlinhos do Coro?&lt;br /&gt;- Meio mal, sabe como é. - Enfiava as mãos até o fundo dos enormes bolsos, balançando-se para a frente e para trás. - Hoje nem teve. Meia dúzia de pessoas. Puta crise, não é?&lt;br /&gt;- Putíssima - concordou Pérsio. E repetiu, olhando para as três mocinhas: - Putésima, de pleno acordo. Eu não sei onde vamos parar com. Para teatro então, nem se fala. Artes em geral.&lt;br /&gt;A deixa exata. Santiago tornou a tragar demorado o cigarro, o conhaque, o vinho, a miopia, olhando em volta.&lt;br /&gt;Mas não acontecia nada. As três mocinhas disputavam um último pedaço de pizza (de aliche, reconheceu), na mesa grande uma das crianças dormia afundada nos seios fartos da mãe, enquanto alguém cantava melancólico la festa è appena com inciata e già èfinita, o vento lá fora, a moça gorda de tranças e o moço de bigodinho tinham ido embora, uns japoneses frenéticos tinham tomado conta da mesa, falando uma língua cheia de miúdos faniquitos. Quase sem respirar, Carlinhos investiu:&lt;br /&gt;- Pois é daí então a gente precisa de força sabe como é cooperativa e tal gente nova todo mundo pôs alguma grana em cima tá super-ruço você sabe daí que se você pudesse dar uma força lá no jornal sabe como é sempre ajuda a divulgação é fundamental só depende da boa vontade de alguns uma questão de acreditar e dar força.&lt;br /&gt;Pérsio colocou os óculos de Santiago. Cruzou os braços, balançando a cabeça com ar profissional:&lt;br /&gt;- Tá. Vou ver o que posso fazer. Não depende só de mim. Tem os caras mais em cima, você sabe, que mandam mais. Você tem um diretor, eu tenho um editor. Eles é que decidem.&lt;br /&gt;- A gente agradece. - Carlinhos curvou a cabeça. Fez um ar tardiamente polido de não-quero-interromper-nada-entre-vocês, apertou a mão de Santiago, levemente cúmplice, e foi saindo entre as mesas.&lt;br /&gt;Pérsio tirou os óculos, cruzou os talheres, empurrou o prato. Parecia deprimido. Pegou outro cigarro, acendeu na ponta que Santiago começava a apagar.&lt;br /&gt;- Saco. Sempre aparece um. Na próxima vez que eu falar que este lugar é normal, você me cospe na cara, combinado?&lt;br /&gt;- Ou chamo a Rejane - Santiago brincou.&lt;br /&gt;- Maravilha. Chama a Rejane e manda ela gritar da porta, bem alto, para todo mundo ouvir: freeeeeeeesco! - Tornou a lamber os dedos queimados. - Bosta, bosta de profissão. Sabe o que eu fiz ontem à noite? Gastei três laudas demolindo im-pi-e-do-sa-mente a tal Antígona. Principalmente o coro. Que parece sofrer de descontrole motor, com tantas acrobacias físicas. Que não decorava o texto. Que devia voltar a fazer teatro infantil daquele bem debilóide, cheio de oncinhas. Que Antígona, quem diria, acabou na Mooca. E eu que até gostava de teatro. Estou pegando bode para sempre, vejo um palco e quero sair batendo em todo mundo. O coro tem pelo menos vinte pessoas. São vinte inimigos, já pensou? Haja santo forte capaz de segurar. Você não acha o fim ficar dando palpite no trabalho dos outros assim, sem saber direito da viagem dos caras?&lt;br /&gt;- Eu corrijo provas.&lt;br /&gt;- Dez anos. Classe teatral. Aquelas monstras todas gritando na rua. Pede a conta, enchi o saco disso aqui. Coitado do menino, deve morar em Pirituba. Tem que comer depressa porque volta de metrô. Tem metrô em Pirituba? E mora num conjunto habitacional do BNH, com a irmã costureira e a mãe entrevadinha. Dorme na parte de cima de um beliche. Na cama de baixo dorme o irmão que trabalha na polícia de choque. E amanhã vai sair no jornal que ele é uma besta. Assinado por mim.&lt;br /&gt;Santiago disse que ele estava exagerando, que fazia parte, que não era tão grave assim, Mas ele não parou. Santiago chamou o garçom.&lt;br /&gt;- Dez anos. God! E você deu o cu nesses dez anos?&lt;br /&gt;- Hein?&lt;br /&gt;Pérsio batia com a faca no copo, os olhos injetados.&lt;br /&gt;- O cu, não é isso? No final das contas tudo se reduz a isso. Se eu fizesse assim com os dedos o Carlinhos caía nos meus pés e me dava o cu em público. Ou me comia o cu. Podia até ser gostoso. Daquele tamanho, deve ter um baita pau. O Carlinhos, o Paulinho, o Luisinho, todos os inhos com seus enormes chaveiros. Queria bater neles todos. Cu, cu, cu - repetiu. As mocinhas levantavam da outra mesa, olhando sempre. - Aquelas monstras, porra, eu só tinha uns treze anos. Fiquei com um nojo. Entre dois homens, amor é igual a sexo que é igual a cu que é igual a merda. Sabe que não agüento merda? Eu vejo um cara e gosto e tal e me aproximo e rola umas, sempre rola umas, porque eu canto bem, eu sei cantar, veja que vaidade, e daí eu penso Deus, daqui a pouco a gente vai pra cama e chupa daqui, chupa dali, baba, roça, morde, e no fim inevitável tem o cu e a merda no meio. Você acaba sempre dando a bunda ou comendo a bunda do outro. Se você dá, ainda não é nada. Tem a dor, a puta dor. Caralho dói para caralho. Tem uns jeitos, uns cuspes, uns cremes. Mas é nojento pensar que o pau do outro vai sair dali cheio da sua merda. Mesmo nos casos mais dignos, você consegue imaginar Verlaine comendo Rimbaud? E se você come o outro, tem a merda do cara grudada no teu pau. Mesmo no escuro, você sente. É impossível não sentir. Por mais limpos que vocês estejam fica aquele cheiro, aquele cheiro de merda solto no ar. Às vezes vou no escuro até o banheiro e lavo o pau de olhos fechados, ensabôo bem com a torneira aberta para pensar que aquela meleca toda é do sabonete, não da merda. Mas fedor de merda é sempre mais forte. Mais forte que tudo. Objetivo, subjetivo. Tem amor que resista? Agora me diz. - Bateu com os óculos na mesa. Tão forte que Santiago teve medo de que as lentes quebrassem. Mas não quebraram.&lt;br /&gt;- Por mais flores e risos e beijos e carinho e, droga, compreensão mútua e ma-tu-ri-da-de. Por mais apaixonado, por mais legal. Para mim, nunca. Fica um cheiro de merda por tudo. Mesmo que você não veja. Que você não sinta. No escuro, fica. No dia seguinte, mexendo nos lençóis, sem querer você vai acabar descobrindo uma manchinha fedorenta: merda, merda pura. Não me venham com liberações, normalidades, porque não tem nada demais, é uma opção como qualquer outra, não sei que lá. Quem resolve o meu bode com cheiro de merda? Amor entre homens tem sempre cheiro de merda. Por isso, eu não agüento. Um mês, dois. Você mascara, disfarça, põe uma vaselina aqui, um sabonete ali. Mas o cheiro da merda continua grudado na tua pele. Eu não consigo aceitar que amor seja sinônimo de cu, de cheiro de merda. Aí eu falava isso para o analista e ele repetia sempre mas, afinal, o que há de tão nojento com a merda? Pode? Como o que há de tão nojento? É nojentíssimo, porra. Ter cu é insuportável, é degradante você se resumir a um tubo que engole e desengole coisas. Eu não vou aceitar nunca que o ser humano tenha cu e cague. Você conseguiria imaginar Virginia Woolf cagando? Eu só estou falando nisso agora porque a gente parou de comer. Se falasse antes, ninguém conseguiria comer nada.&lt;br /&gt;O garçom trouxe a conta, cafés. Pérsio riscou a toalha com a faca várias vezes, horizontalmente. Depois na vertical, grades.&lt;br /&gt;- Ontem à noite sublinhei umas frases numa história de Andersen. A moça dos sapatinhos vermelhos. A maldição, quando o anjo diz.&lt;br /&gt;- Dançarás, dançarás para sempre, não é isso?&lt;br /&gt;- Como é que você sabe?&lt;br /&gt;- Eu vi no seu quarto. Estava aberto.&lt;br /&gt;- Pois parece assim. Uma maldição. Para sempre. Só acaba quando amputam os pés da moça. Quando você perde um pedaço. Quando você se anula. Quando você renuncia e nunca mais trepa. Em nome da higiene, em nome da... Eu não consigo. Jean Genet me cuspiria na cara. Daí você me diz, então pára, se é tão... Tão traumatizante, tão violento, pára. Ou batalha uma mulher. Sublima. Ou muda a tua sexualidade. Eu não gosto de mulher. Até já transei, mas não sinto nada, tudo liso. Então eu tento, eu ficou uma semana, quinze dias sem foder. Então sinto falta. Aí vou na esquina e cato o primeiro que passar. Quanto custa, vamos lá, qualquer um. Paraíba, michê, crioulo, não tem problema. É rápido. Toalhas, torneiras, camisinha e tal. A grana, papéis definidos, eu-sou-bicha-você-é-macho, nenhum envolvimento. Já me roubaram, qualquer dia me matam. Isso não me importa. Mas é isso que falavam, amor? Essa sua história, eu não conheço. Eu só tive vislumbres, parecia prometido, preparado, e nunca aconteceu. Eu nunca consegui, eu nunca fui capaz, deve ser culpa minha. Ah, que banal. Até que ponto as circunstâncias não me favorecem, ou eu é que não favoreço as circunstâncias?&lt;br /&gt;Santiago voltou a colocar os óculos. Estendeu a mão para a conta.&lt;br /&gt;- Quanto foi?&lt;br /&gt;- Deixa, eu tenho.&lt;br /&gt;- A gente racha, então.&lt;br /&gt;Santiago colocou duas notas no pratinho de plástico. Pérsio remexeu nos bolsos de casaco verde. Guardou as duas notas, assinou um cheque. E tocou com a ponta do dedo no pulso de Santiago.&lt;br /&gt;- Me diz.&lt;br /&gt;- Hein?&lt;br /&gt;- A merda, o cheiro, o nojo. E o amor, o amor, cara. O que eu faço com isso?&lt;br /&gt;- Você esquece, sei lá. Não tem tanta importância assim. E se for mais forte?&lt;br /&gt;- A merda?&lt;br /&gt;- Claro que não. O amor.&lt;br /&gt;- Amor não existe. É uma invenção capitalista.&lt;br /&gt;- Isso é só uma frase.&lt;br /&gt;- Eu não sei, pode ser.&lt;br /&gt;- Mas se. Tudo bem. Suponhamos que os dois caras gostem muito um do outro.&lt;br /&gt;- O que já é difícil.&lt;br /&gt;- Pode ser, mas... Suponhamos. Eu já vivi isso. E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.&lt;br /&gt;Pérsio vestia o casaco, cigarro apertado nos lábios.&lt;br /&gt;- Muito edificante - disse. E contraiu os olhos para evitar a fumaça. - Mas quem sabe, quem sabe? Então você conclui que, portanto, eu não entendo picas de amor.&lt;br /&gt;- Não disse isso.&lt;br /&gt;- Mas pode ser. O meu problema é um problema juvenil, de adolescente enrustido. Ou de burguesinho que fez a primeira comunhão e vai se sentir eternamente culpado com a possibilidade do prazer. Tudo muito cristão.&lt;br /&gt;- Revirou os olhos. - Ai, tormentos, cilícios. De repente devo ter parado no Peter Pan. A carne é insuportável, uma espécie de macrobiótica da sexualidade. Só platonismos. Ou sacanagem braba, Dama do lotação perde.&lt;br /&gt;Ia dizer qualquer outra coisa. Mas de repente estendeu os braços sobre a mesa e segurou nos ombros de Santiago. Apertou forte. O bafo morno dos restos de pizza flutuando no óleo, cinzeiro cheio, copos vazios, pratos amontoados entre os dois, pedaços de lingüiça, caroços de azeitona, queijo derretido, lascas engorduradas de presunto. Santiago quase não entendeu o que ele disse, palavras brotando confusas de entre os dentes que apertavam o cigarro.&lt;br /&gt;- Sabe que eu gosto de você? Eu gosto muito de você, garoto.&lt;br /&gt;Um bicho arisco, Santiago lembrou. Você precisa estender a mão com cuidado senão ele foge, era isso? Entre os brilhos falsos, insinuado, um pedaço de estopa. Porque eu também sinto medo, e haverá a morte um dia. A vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa. De repente sentiu-se sufocado enquanto saíam por entre as mesas barulhentas. Uma sufocação semelhante à daquelas manhãs de fim de semana em que, involuntário, acordava cedo demais apesar do esforço para permanecer na cama até mais tarde, para que o dia parecesse mais curto e não precisasse bater-se tanto pelo apartamento vazio, sem vontade de fazer coisa alguma a não ser olhar pelas janelas. Espiava então pela janela o movimento das ruas, os verdes lá fora, com vontade de sentar-se num banco de praça, comendo maçãs ao sol. Não saberia por que justamente maçãs, mas sem dúvida maçãs, maçãs vermelhas daquelas argentinas, embrulhadas em papel fininho quase roxo.&lt;br /&gt;Não havia nenhuma praça próxima. Quase nunca havia sequer sol. Nem verdes, lá fora. Ainda que houvesse, que pudesse talvez comprar maçãs na venda da esquina e procurar uma praça, em algum lugar devia haver uma, sentado ali na poltrona alta de couro que, só percebera tempos depois, arrastara para junto da janela exatamente com esse fim, olhar lá fora, permanecia parado, atravessando as manhãs sem sequer fumar ou falar sozinho. Cortava unhas, às vezes. Das mãos, dos pés, detendo-se para pensar que - seria bom. E vinha depois também, insinuada aos poucos no meio da manhã, uma vontade de que alguém telefonasse, tocasse a campainha, chamasse lá embaixo, a princípio vaga, mas cada vez mais nítida, até chegar quase a ferir, feito uma dor, agulha, brasa. Nada acontecia. Aquela como uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa Campainha e telefone mudos, a manhã a transformar-se em tarde, emergia venenosa a sufocação, vontade de fugir, de não ser quem era nem ter vivido nenhuma das coisas que vivera. Todo um passado, essa coisa que chamam de passado, desembocava ali naquele momento, em pleno centro das manhãs esbranquiçadas de silêncio.&lt;br /&gt;Na chuva mais forte da rua, Pérsio tornou a enfiar o capuz verde.&lt;br /&gt;- Vamos em frente?&lt;br /&gt;Santiago hesitava, mãos nos bolsos, óculos embaçados. Pérsio mostrou a ponta acesa do cigarro.&lt;br /&gt;- Que é isso, companheiro? Vacilando? Vamos lá. Olha, vou jogar esta ponta na calçada. Se a brasa fizer tsssss! ao apagar, nós vamos.&lt;br /&gt;Jogou a ponta numa poça d’água aos pés de Santiago. Quase puderam ouvir o chiado forte da brasa apagando.&lt;br /&gt;- Está vendo? São os deuses que ordenam, a noite continua. Você está sem casaco, me dá a chave, eu corro na frente, abro e você entra.&lt;br /&gt;Santiago estendeu as chaves. Pérsio correu pelo meio da chuva, pulando poças. Acontecia às vezes também, sentado na poltrona de couro junto à janela, observando a curva do sol pelos edifícios em frente iluminar aos poucos o parapeito, escorregar para dentro da sala, alongar-se por suas pernas, aquecendo as mãos paradas, distender- se palmo a palmo pelo tapete até encontrar uma ponta da parede oposta. Certas manhãs, ou quando as manhãs já tinham virado tarde, levantava-se por um momento para sair a recolher as plantas do apartamento, colocando-se atrás da poltrona, dentro da mancha de sol. Ficava ele também junto com as plantas na luz, existindo silencioso e imóvel no centro do dia. Mas acontecia quase sempre de o sol não aparecer, de a manhã acinzentar-se aos poucos, sem que fosse necessário apanhar as plantas. Algumas gotas de chuva começavam a bater nos vidros. Chovia muito, os papéis amoleciam, as paredes mofavam. A alma, se havia uma, curvava os ombros. Ele baixava os vidros, ficava vendo as gotas formando desenhos vadios. Duas, três, que encontravam uma outra para descer mais rápidas, pequenos rios verticais, pára-brisa do carro. Em vez de maçãs tinha vontade então de qualquer coisa como um chá, como se fosse velho, como se tivesse sobrado à margem dos movimentos que levam pelo tempo afora.&lt;br /&gt;Não se movia para fazê-lo, esse movimento, Alguém que não chegava espiaria na porta perguntando em voz baixa se. Estremeceu. Pérsio buzinava, a porta aberta do carro. Correu, a gola do casaco levantada.&lt;br /&gt;- Posso dirigir um pouco? - Pérsio pediu.&lt;br /&gt;- Claro. Tudo bem.&lt;br /&gt;Pérsio deu a partida. Depois repetiu, o carro passando por baixo do viaduto da Rebouças:&lt;br /&gt;- Veni de sancta sede, Adonai: timor qui omnia ad voluntatem nostram coarctabit.&lt;br /&gt;- O que foi que você disse?&lt;br /&gt;- Um feitiço, cara. Aprendi num livro de magia, seduções e tal. Estou te ensinando um encantamento da pesada. Seguinte: se na seqüência você ficar a fim de um cara, olha bem fixo para ele e repete mentalmente. Bem concentrado, sete vezes. É tiro e queda. Repete junto comigo até decorar. Vamos: Veni de.&lt;br /&gt;Santiago suspirou:&lt;br /&gt;- Mas não vou ficar a fim de ninguém.&lt;br /&gt;- Como é que você tem tanta certeza? Vamos, eia, sus, avante, companheiro! E se de repente, no meio da noite, um garoto lindíssimo avançar para você e perguntar como nos velhos bons tempos que livro você está lendo? Não, livro não. Livro em bar de veado não dá muito certo. Veado só lê Vogue e Interview. Livro parece a Theresa Dunn em Looking for Mr. Goodbar, só pinta baixo- astral. Mas pode perguntar que bebida, isso, o que é que você está tomando, garotão? E você diz um supernovo drinque chamado Perto do Coração Selvagem. Que tal?&lt;br /&gt;- Não brinca com isso, porra.&lt;br /&gt;Pérsio tirou uma das mãos do volante, colocou-a sobre o joelho dele. Apertou leve. Teve vontade de tocá-lo. Mas continuava parado na janela, espiando o sol, a rua, as gotas sem se mover. Antes que descruzasse os braços, Pérsio já tinha retirado a mão.&lt;br /&gt;- Desculpa. Não tive intenção de.&lt;br /&gt;- Não tem importância.&lt;br /&gt;- Como não tem importância? Foi grossura minha.&lt;br /&gt;Desciam pela rua molhada. Santiago viu o relógio da Faria Lima marcando, a intervalos, zero hora, trinta minutos, doze graus, depois zero hora, trinta e um minutos, doze graus.&lt;br /&gt;- Você sente falta, não é? Você sente muita falta dele?&lt;br /&gt;Zero hora, trinta e dois minutos, doze graus, zero hora, trinta e três minutos, doze graus, zero hora, trinta e.&lt;br /&gt;- Sinto, às vezes. Sinto muita falta.&lt;br /&gt;- Como foi que ele morreu?&lt;br /&gt;Acendeu um cigarro. Estendeu o maço para Santiago, que aceitou sem pensar. A chama do isqueiro brilhou por um segundo, iluminando de relance o rosto deles. Ligou o rádio. A voz aguda e clara de Cida Moreyra brincou irônica entre os dois, repetindo: Ah, deixe-me, rapaz, lhe dizer que em mim tudo tanto faz. Pérsio riu.&lt;br /&gt;- Nem de encomenda, não? Cantarolou junto, um pedacinho. E tornou a tocá-lo no joelho. É difícil, não é?&lt;br /&gt;- Não gosto de falar nisso.&lt;br /&gt;- Tá bom, desculpa outra vez. É que estou achando você triste. Falar de repente ajuda. Sabe no que eu estava pensando há pouco? Santiago não disse nada mas ele continuou, a voz soando falsa, estridente demais, alegre demais. - Em Lavínia, a lasciva. God! Como estará a ardente Lavínia nos braços de seu amado Douggie?&lt;br /&gt;- Foi um acidente - cortou Santiago, brusco. - Ele morreu num acidente de carro. Nada, não teve nada demais. Nenhuma tragédia. De repente, um negócio besta. Eu estava em casa, eu estava achando estranho que ele estivesse demorando tanto. A gente sempre sabia onde o outro estava, não tinha nenhum jogo de angústia. A gente cuidava um do outro, não havia dor. Aí tocou o telefone e uma voz desconhecida perguntou se era ali que o Beto morava. Era, eu disse, é aqui. E pronto, já tinha acontecido. Morreu na hora. Não doeu, não deve ter doído, não houve tempo. - Jogou fora o cigarro. - Mas tudo bem, esquece. Já passou.&lt;br /&gt;Pérsio olhava para ele, atento:&lt;br /&gt;- Como esquece? Você deve ter sofrido muito.&lt;br /&gt;- Claro, é normal, não é? As coisas dele ali, todos os dias, sem ele. A cama vazia. Uma falta, eu sentia uma falta. - Sorriu para si mesmo. - Dor, dor, dor. Lembrei duns versos do Ferreira Gullar, o Beto gostava do Ferreira Gullar. Uns versos assim:&lt;br /&gt;Será maior a tua dor&lt;br /&gt;que a daquele gato que viste&lt;br /&gt;a espinha quebrada a pau&lt;br /&gt;arrastando-se a berrar pela sarjeta&lt;br /&gt;sem ao menos poder morrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pérsio sorriu de volta.&lt;br /&gt;- Pois lembrei de outros. Do Ferreira Gullar, também. Há Ferreira Gullar para todas as ocasiões, eu sempre gostei. Presta atenção neste. - E recitou, devagar:&lt;br /&gt;Amigos morrem,&lt;br /&gt;as ruas morrem,&lt;br /&gt;as casas morrem.&lt;br /&gt;Os homens se amparam em retratos.&lt;br /&gt;Ou no coração dos outros homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Versos, versos, versos. Acho que somos a última geração que sabe versos.&lt;br /&gt;- E por que não, versos? Versos, livros, filmes, músicas, quadros. Qualquer coisa, desde que seja bonita. É bom poder tocar um instrumento, é bom cantar, Quando eu lavava pratos em Paris pedia sempre para um amigo, o J, lembra do J do cartão-postal? O J era o João, que ficou. até hoje. O João foi a única pessoa que. Eu pedia para ele me escrever as letras de Roberto Carlos, prendia o papel na prateleira em frente e ficava cantando o dia inteiro. Roberto, Erasmo, Leno e Lilian, Ronnie Von, Mar- tinha, ele sabia toda a Jovem Guarda de cor. “Ternura”, lembra de “Ternura”? Era a que eu mais gostava. - E cantou, imitando a voz de Vanderléia: - Uma fez você falou...&lt;br /&gt;Santiago riu:&lt;br /&gt;- Eu sei, mas dá. Às vezes dá uma distância. Eu penso coisas banais, eu sinto coisas banais. Mas tão nítidas. Quando estou dando aula, quando digo a eles para copiarem ou fazerem qualquer coisa em silêncio, fico olhando aquela porção de cabeças baixas e pensando que tem um abismo entre a gente. Um abismo de tempo, de história. Que as coisas andaram muito rápidas. Que eles não têm tempo. Que tudo acabou. E eu sinto pena, então. Como os velhos, os bem velhos, devem ter pena dos moços. Que a gente tem a cabeça cheia de versos e filmes e livros e histórias e memórias que para eles já não têm nada a ver. Peças de museu, nossas emoções. Todas as emoções.&lt;br /&gt;- Pior para eles.&lt;br /&gt;- Ou para nós, que estamos ficando velhos?&lt;br /&gt;Pérsio fez uma mudança rápida:&lt;br /&gt;- Velhos? Imagina, eu não. Por favor, me exclua desse seu grilo. Estou na flor da idade. Na força da juventude. Mal comecei, mal comecei a me desembaraçar de toda a culpa. Quero mais, quero o que ainda não veio.&lt;br /&gt;- Mas tantas memórias. A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. Uma rua, por exemplo. Há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei: eu já morei ali com o Beto. E a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você. Chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada.&lt;br /&gt;- As ruas morrem - repetiu Pérsio. - As casas morrem.&lt;br /&gt;- Eu sei, eu sei. Mas você não sente medo?&lt;br /&gt;- Sinto, sinto. Claro que sinto. Tenho milhões de medos. Alguns até mais graves. Medo de ficar só, medo de não encontrar, medo de AIDS. Medo de que tudo esteja no fim, de que não exista mais tempo para nada. E da grande peste. Mas hoje não, agora não. Agora só tenho vontade de galinhar um pouco. Portanto nós vamos estacionar este batmóvel, se os orixás ajudarem. Depois vamos descer e tomar uns bons drinques ali no Deer’s, conhece o Deer’s?&lt;br /&gt;Santiago disse que não, que não conhecia e que. Mas Pérsio tinha acabado de estacionar, empurrando um pouco o carro da frente, e descia abrindo a porta para que ele descesse. A chuva fria bateu forte na cara. Pérsio tirou o casaco, colocou-o sobre a cabeça dos dois, como uma capa de chuva. Enfiou o braço no dele, e correram então protegidos pelo meio da chuva até a porta iluminada com o guarda vestido de amarelo. Penetraram de repente numa penumbra bordô borbulhante, cheia de gente. A moça da caixa estendeu dois cartões. Pérsio tirou o casaco da cabeça dos dois e começou a puxá-lo pela manga em direção ao bar, metendo-se pelo meio das pessoas sem pedir licença.&lt;br /&gt;- Vou tomar vinho - disse. - É bom não misturar. O que você quer?&lt;br /&gt;Santiago não conseguiu ouvir direito com o barulho. Música muito alta, e vozes, e corpos, e acima de tudo uma espécie de excitação coletiva. Como um ruído atordoando, estonteando. Pérsio repetiu aos gritos:&lt;br /&gt;- Vinho, pede vinho também.&lt;br /&gt;Deixou que ele apanhasse os dois copos e continuasse andando por entre as paredes forradas de veludo - interior de uma fruta, ameixa madura demais - até encontrarem uma mesa vazia no canto, ao lado da coluna coberta de pequenos espelhos.&lt;br /&gt;- São todos muito nervosos, muito tensos. Não conseguem ficar parados um segundo. God!, que galinhagem.&lt;br /&gt;- Bateu na perna de Santiago. - Não esqueça, hein? Qualquer modelo mais forte, é só fixar o cara na nuca, de preferência na nuca. Ou então entre os olhos, bem no terceiro olho, mas aí é muita bandeira, e se ele se permitiu chegar a esse ponto também não precisa mais feitiço algum.&lt;br /&gt;E repita: Veni de sancta sede, Adonai. Dá o maior resultado, cara. Uma vez deu certo comigo mesmo, aqui onde me vês, neste mesmo lugar. Eu tinha ficado a noite inteira sentado no bar, meio de bode, com um cara do lado. Um cara fantástico, algo assim entre o David de Michelangelo e James Bond em início de carreira, mas não me dava a mínima. Eu puxei o banquinho para trás dele um pouco e volta e meia olhava a nuca do moção. Era um moção do tamanho daquela porta, coxas arqueológicas, e repetia, veni, veni, veni. Lá pelas quatro da matina, quando o bar estava quase vazio e eu inteiramente de porre, ele olhou para mim e perguntou você quer dormir comigo? Eu disse não, obrigado. Só estou testando uma arma secreta.&lt;br /&gt;Santiago bebeu um gole de vinho. Pérsio olhou em volta:&lt;br /&gt;- Então, ninguém te agrada?&lt;br /&gt;- Não - Santiago disse.&lt;br /&gt;- Vamos dar notas, tipo Márcia de Windsor, que Deus a tenha. Aquele ali, de blusão de couro, não te piace? É muito dangerizante. Vestido assim, dou nota oito. Com direito a segunda época. God!, que rabo. E o parrudinho de jeans? Em geral os baixinhos parrudinhos são uma grande revelação na hora do let’s dance. Eu dou sete, queridos telespectadoreS. Nossa, como estou generoso hoje. Deve ser carência generalizada. Mas olhando bem, a média geral não passa de cinco. Com muito boa vontade.&lt;br /&gt;- Parecem todos iguais.&lt;br /&gt;- E são. Tipo andróides, em série. Vestem as mesmas roupas, usam o mesmo cabelo, dizem as mesmas coisas, vêem os mesmos filmes, ouvem as mesmas músicas. Não existe um tal cultura gay? E se acham todos muito originais, muito exclusivos. Odeio guetos.&lt;br /&gt;- Odeio a palavra gay.&lt;br /&gt;- Mas ela existe, rapaz. E não é só uma palavra. É mais grave, um comportamento, um feeling. A sacralização da bobagem. E são todos exatamente assim. Felizes, descontraídos, sem problemas. Leves, levíssimos. Soltos, sem culpas nem traumas. Todos muito bem vestidinhos com os modelinhos que trouxeram de Nova York, todos adoram Nova York. Todos muito bem-amados. Musculosinhos, liberadinhos, burrinhos. Umas gracinhas. - Olho para Santiago. - Você não vai ficar deprimido agora vai?&lt;br /&gt;Eu estou deprimido, Santiago quis dizer. Mas preferiu permanecer em silêncio, bebendo devagar o vinho. Começava a ficar tonto, E poderia rir, tão fácil, só não tinha vontade. Um garçom colocou um pratinho cheio de pipocas ao lado. Mordiscou algumas, entediado.&lt;br /&gt;- Não tenho nada a ver com isso.&lt;br /&gt;- Sei, sei. Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Mas finja que tem. Não olhe para eles como se quisesse assassiná-los. No fundo é tudo a mesma coisa. E tanto faz. Vamos, sorria.&lt;br /&gt;Pérsio segurou o queixo dele entre o indicador e o polegar, como se faz com os bebês, obrigando-o a voltar- se. Santiago foi se virando lento, sem vontade, a pressão forte no queixo, até olhá-lo bem dentro dos olhos. Uns olhos claros brilhantes, inquietos, irônicos, o vinco de lado, no canto da boca. Na coluna de espelhos quebrados viu refletidos os rostos dos dois. Vários rostos espatifados, divididos em ângulos, em pedaços. Um rapaz de cabelos curtos eriçados, segurando o queixo de um outro mais moreno, de óculos, sobrancelhas densas, cacos também. Tirou os óculos, colocou-os no bolso. E sorriu à toa. Pérsio acariciou de leve seu queixo, rascando a barba forte.&lt;br /&gt;- Isso, assim, bom. Bom menino. Não precisa esgazear os olhos, apavorado como se visse abantesmas. Aqui está tudo em casa, não tem aquelas mammas repressoras. Nem garotas monstras vaiando em coro. Esse trauma é pessoal, mas todo homossexual sul-americano tem no subconsciente um grupo de garotas monstras vaiando enfurecidas, Está tudo bem, tudo zen. - Soltou os dedos, desviou os olhos, acendeu um cigarro. - Só quero que você se sinta bem, meu bem.&lt;br /&gt;Como um vazio no queixo, de repente. O calor que já não estava ali.&lt;br /&gt;- Mas eu estou bem. Não se preocupe.&lt;br /&gt;- Bem mesmo?&lt;br /&gt;- Ótimo. Maravilhoso. Opíparo.&lt;br /&gt;- Não precisa ser agressivo. Deixe as doenças mais graves para mim. E se segure por aí, entre a moçada. Vou até o banheiro pegar mais vinho para nós, dar uma olhada rápida no açougue. - Parou ao lado da coluna, piscou. - Olha, se você quiser namorar alguém não faça cerimônia. E não esqueça do encantamento.&lt;br /&gt;Um desamparo súbito desabando. Aquela poeira fina chovendo dos telhados cheios de cupins. Um automóvel em alta velocidade na hora da descida brusca, vácuo no estômago. Pérsio mergulhou na penumbra bordô fervilhante. Marina cantava quem é esse rapaz que quando chega?, a voz rouca fazia as pessoas relaxarem, por um segundo abandonando as poses. Um copo longo, acariciou com os dedos um copo esguio, corpo entre borbulhas. O líquido da cor das paredes, pouco mais escuro, tão espesso que poderia tocá-lo. Cruzou os braços, jogou a cabeça para trás olhando os outros. Mas quase não conseguia ver ninguém assim sem óculos. O copo de vinho, a coluna de espelhos, depois a grande massa móvel, colorida, cabeças destacadas, agitadas, um único corpo de muitas cabeças nervosas. A Quimera, lembrou, o monstro grego. E repetiu sem pausa, mexendo nas pipocas: quimeras quimeras quimeras. Era Belerofonte? Ou Teseu, ou Perseu. Perseu, Pérsio. Desejou que ele estivesse logo de volta, para dizer coisas sem sentido, para se mexer, para ferir e ferir-se, para sorrir de lado, esfregar as mãos, fazendo estalar as juntas dos dedos, uma saudade prévia, para ficar perto e fazê-lo rir de susto, de prazer, de. Apertando um pouco os olhos, no meio da massa de cabeças irrequietas viu destacar-se uma vagamente conhecida, cada vez mais próxima. Só quando chegou na beira da mesa é que Santiago conseguiu reconhecê-lo. Era Carlinhos.&lt;br /&gt;- Desculpe, não nos encontramos há pouco?&lt;br /&gt;- Não lembro - Santiago mentiu.&lt;br /&gt;- Você não estava na pizzaria?&lt;br /&gt;Viu Pérsio aproximar-se por trás, de repente. Quis avisá-lo, mas era muito tarde, Carlinhos já o tinha visto.&lt;br /&gt;- Oi de novo - disse Carlinhos. - Eu estava justamente perguntando por você.&lt;br /&gt;Pérsio colocou mais dois copos de vinho sobre a mesa. Sentou-se ao lado de Santiago e passou o braço sobre os ombros dele, no encosto da cadeira. Apertou-o, suave.&lt;br /&gt;- Pois aqui me tens, infante. Pedi e ser-vos-á dado, não falou o Senhor?&lt;br /&gt;- Não quero interromper nada. - Carlinhos estendeu a mão para os copos. - Posso dar um gole?&lt;br /&gt;- Esteja a gosto, a casa é sua. - Pérsio estendeu o maço de cigarros. - Não quer aproveitar o ensejo e fumar um, também?&lt;br /&gt;- Obrigado. - Carlinhos pegou um e ficou esperando, o cigarro no ar, que alguém acendesse. Mas Pérsio brincava com o isqueiro olhando para ele como se estivesse distraído. O rapaz cutucou alguém que passava. - Fogo - pediu. E de novo, malicioso: - Como eu disse, não quero interromper mesmo nada. Desculpa eu parecer indiscreto, longe de mim, mas vocês são caso?&lt;br /&gt;Pérsio batia o isqueiro na mesa, ritmadamente. Cinco vezes, Santiago contou, bem destacadas.&lt;br /&gt;- O que é que você acha?&lt;br /&gt;- Ah, não sei. Olhando assim, bem. Difícil dizer. Sei lá, às vezes parece, às vezes não. Tenho amigos que... Mas de cara dá pra sentir que vocês têm assim uma, como dizer... Uma ligação muito forte. - Olhou para Santiago, que já tinha bebido quase metade do vinho. - Aliás, meu bem, me dá licença de dizer. De muito bom gosto os dois, umas gracinhas, uns gatinhos. Sabia que vocês são lindos? - Bebeu outro gole de vinho. E debruçou-se na mesa. - Ah, deixa de onda, qual é? Conta logo, vai. Vocês são mesmo caso?&lt;br /&gt;- Somos - disse Pérsio. Apertou mais o ombro de Santiago. - O nome dele é Beto. Vivemos juntos há quase dez anos.&lt;br /&gt;- Aff Maria, dez anos? Que loucura, gente.&lt;br /&gt;- Eu disse DEZ anos. E é bom você ir se mandando porque além de detestar veado, ele morre de ciúmes. Por qualquer coisinha, fica completamente louco. Sai virando mesa, quebra tudo e parte a cara de quem pinta pela frente.&lt;br /&gt;Carlinhos empalideceu, pediu desculpas, licença e sumiu. Pérsio bateu na mesa.&lt;br /&gt;- Não disse? Veado é foda. No restaurante chegou cheio de salamaleques, porque com licença, porque não sei o quê? No gueto perdeu logo o respeito, já veio invadindo, pedindo bebida, pedindo cigarro, querendo saber se é caso. Pelo amor de Deus, caso, mais um pouco e ia falar em entendido. Que nojo. Só porque é veado também acha que está tudo em casa. Se eu não chegasse a tempo provavelmente ia te passar uma cantada. Viu só do que te livrei, garoto?&lt;br /&gt;Santiago afastou com força o braço dele das costas da cadeira:&lt;br /&gt;- Por que foi que você disse aquilo?&lt;br /&gt;- Aquilo o quê? Que a gente era caso? God!, que palavra asquerosa. Sei lá, pra ele desgrudar, sair de cima. Você ficou chateado?&lt;br /&gt;- Não é disso que estou falando.&lt;br /&gt;- Você está falando do quê, então? Por que eu disse o quê, rapaz?&lt;br /&gt;- Que o meu nome era Beto. Você disse que o meu nome era Beto.&lt;br /&gt;Pérsio parecia surpreso.&lt;br /&gt;- Beto, eu disse Beto? Que você se chama Beto?&lt;br /&gt;Santiago batia com a palma da mão no tampo de fórmica da mesa:&lt;br /&gt;- Disse, você disse: O nome dele é Beto. Vivemos juntos há quase dez anos.&lt;br /&gt;Pérsio arregalou os olhos:&lt;br /&gt;- Mas eu não disse isso.&lt;br /&gt;- Disse, você disse. Quer chamar o garoto aqui para confirmar? Você disse Beto, o nome dele é Beto. - Colocou a mão no ombro dele. Mas não chegou a tocá-lo. A mão ficou pairando trêmula no ar, pouco acima da blusa vermelha. - Olha, cara, de repente você está brincando com coisas muito sérias para mim. Você não tem esse direito. Primeiro foi o cu, se eu dava o cu para ele. Quer saber, quer mesmo saber? Pois eu dava, sim. Ele dava também. Sem culpa, com prazer. Sem doença. A gente se amava, será que você é capaz de entender isso? Será que você consegue esquecer por um segundo a sua monumental frustração para entender que outras pessoas podem ter tido relações mais dignas que as suas? Depois foi no carro, aquela história de alguém perguntar que livro eu estava lendo. E agora você acabou de me chamar pelo nome dele. Você não pode fazer isso. Uma pessoa não é só um amontoado de frasezinhas supostamente brilhantes. Você não sabe o esforço enorme que estou fazendo para.&lt;br /&gt;- A mão no ombro baixou, apertou forte. Pérsio olhava para ele como se não compreendesse sequer a língua que falava. A voz de Santiago era apertada e rouca. - Ah, você e seus truques. Você e suas palavras impensadas. Você e suas brincadeiras espirituosas. Você e seus traumas, seus ódios, seus nojos. Eu não tenho nada a ver com isso. Estou cansado dos seus números, da sua inconseqüência, da sua neurose, da sua. - Levantou-se e empurrou a cadeira. - Eu vou embora, eu já devia ter ido embora há muito tempo. Não tenho mais paciência nem cabeça para esse tipo de coisa miúda. Quer saber do que mais? Boa noite, meu amigo.&lt;br /&gt;Pérsio ficou sentado com o copo de vinho enquanto Santiago colocava os óculos, apertava sua mão e desaparecia no meio dos outros. Mas eu não, pensou. E bebeu outro gole. Tão rápido que o vinho derramou na mesa. Passou o dedo, puxou um fio longo, vermelho, para baixo, depois lambeu. A música parecia bater nas paredes forradas de veludo, câmara de eco, para depois voltar mais alta, mais barulhenta, cheia de metais, nosso louco amor, repercutindo dentro da cabeça. Apertou o copo com as duas mãos. Escuta, eu não pretendi, eu gosto de você. Em volta olhavam disfarçado, riam baixinho. Foi quando terminava de acender mais um cigarro que sem pensar apanhou o casaco, pegou os dois cartões, levantou-se, correu para a porta. Alguém tentou segurá-lo pelo braço, há quanto tempo, nossa você por aqui, precisamos. Libertou- se brusco, quase num soco, afastando faces e corpos com os cotovelos. Jogou os cartões na caixa, pagou sem esperar o troco e saiu para a chuva.&lt;br /&gt;Surpreendeu-o no momento em que abria a porta do carro. A roupa branca parecia brilhar no meio da noite.&lt;br /&gt;- Santiago - chamou.&lt;br /&gt;- Não me chame assim. Não é esse o meu nome.&lt;br /&gt;Segurou-o pelos ombros, forçando-o a encará-lo.&lt;br /&gt;- Olha, eu não quis. Eu juro que. Eu não me lembro.&lt;br /&gt;- Beto - Santiago repetiu. - Beto, Beto, Beto. Você disse que eu me chamava Beto. Você não tem o direito.&lt;br /&gt;Pérsio sacudiu-o, muito leve. Depois com mais força, olhando-o nos olhos. Se conseguisse enxergar os olhos dele, atrás das lentes respingadas de chuva.&lt;br /&gt;- Pára com isso. Já ouviu falar em, em... - Hesitou, e disse: - Em lapso, lapso freudiano, que idiota, eu. Deve ter sido isso. Uma coisa assim. Eu não quis dizer. Conscientemente, eu não quis dizer, me entende. Acredite, eu gosto de você. Não vamos estragar a noite, não vamos estragar o nosso... Conhecimento, a nossa amizade. Não vamos, por favor, não vamos. Não quero que você pense. A gente bebeu demais, só isso. Por favor, não quero que você pense.&lt;br /&gt;Santiago tinha uma das mãos na porta aberta do carro, a outra caída ao longo do corpo. Olhava para ele sem dizer nada, a chuva escorrendo pelos cabelos, ombros tensos. Atrás dele, Pérsio via agora, atrás e além dele a grande avenida cheia de carros em movimento, anúncios luminosos, a cidade encharcada, alagada, nunca mais pararia de chover. Charco e brilho, pensou sem querer. À sua frente, muito próximo, o rosto erguido de Santiago com um orgulho infantil, a chuva molhava os óculos por trás dos quais o olhar brilhava sobre os maxilares cerrados, enrijecidos com raiva, desprezo, mágoa, confusão e todas essas coisas assim vermelhas, coisas que não havia antes, que não suportava agora porque não era assim, porque não devia ser desse jeito farpado, porque não era preciso. Porque iria embora quase certamente no próximo minuto, e nunca mais se veriam, porque estava só, embaixo da chuva interminável, o Sul alagado, a segurá-lo pelos ombros como se pudesse prendê-lo, e se ele fosse embora naquele momento, daquela forma dura, se ele fizesse um movimento para entrar no carro, dando a partida, parado na calçada, não queria o drama, por favor, poupe-me as cenas, tornaria a entrar no bar, tinha certeza, para encher a cara copo a copo, determinado, seria insistente, desagradável, pegajoso, cantaria qualquer um, treparia até a manhã seguinte, talvez dormisse no meio, de porre, de tédio, não importava, para despertar cheio de náusea e cansaço e ressaca, o ruído incessante da chuva, uma requintada tortura e dor no meio da tarde de outro domingo sujo. Quase gritou, apavorado:&lt;br /&gt;- Alguma coisa em. Alguma coisa em mim que eu não entendo. Eu devo ter inveja, eu não te disse que eu nunca consegui? Eu não entendo de amor, de algum jeito complicado. Dentro de mim, vê se me entende. Isso nunca aconteceu antes, eu não queria ferir você. Te ferir, eu não podia ferir. Seria a última coisa que. Eu não devia, eu não pensei.&lt;br /&gt;Santiago soltou os ombros, baixou a cabeça. A chuva escorreu pelo rosto:&lt;br /&gt;- Está bem, está tudo bem. Mas eu vou embora.&lt;br /&gt;- Você não vai embora.&lt;br /&gt;- Eu estou cansado.&lt;br /&gt;- Você não pode ir embora.&lt;br /&gt;- Eu estou triste.&lt;br /&gt;As unhas roídas, Pérsio tocou-o no rosto. Ele virou brusco a cabeça. Pérsio avançou mais os dedos, puxando-o para si até que estivessem tão próximos que o ar entre a boca dos dois formava uma pequena esfera de fumaça, cheirando a conhaque, a vinho, a cigarro, a medo.&lt;br /&gt;- Não, você não vai embora. Pelo amor de Deus, você quer me ver fazer uma cena passional em plena frente do Deer’s? Sabia que esta é conhecida como a Esquina do Ridículo? Daqui a pouco começa a juntar gente. O Carlinhos viu tudo. Você acha que a viborazinha não ficou cuidando? E a minha reputação pro-fis-si-o-nal, onde fica? God!, deve ter ido correndo chamar o coro inteiro do tal Édipo.&lt;br /&gt;- Antígona - Santiago corrigiu.&lt;br /&gt;- Tanto faz, que importa? Édipo, Antígona, Ifigênia, Hipólito, Prometeu, Electra, Agamêmnon, Clitemnestra, Orestes. Toda a tragédia grega. Não transforme um lapso freudiano primário numa super-tragédia urbano-contemporânea, menino. Eu gosto de você. Eu estou meio bêbado. Eu estou ficando completamente torto. Me dá uma chance. - Abraçou-o. Afundou o rosto na gola molhada do paletó de veludo branco. E parecia verdadeiro, pequenino e desamparado, repetindo: - Eu gosto de você, eu gosto tanto de você, garoto. Me dá outra chance. Me deixa guiar a nossa noite.&lt;br /&gt;Santiago podia sentir o rosto dele ao lado do seu, pouco abaixo, apoiado no peito. Ergueu devagar o casaco que Pérsio trazia nas costas, colocou-o sobre a cabeça molhada dos dois abafando os ruídos. Como embaixo de uma barraca, acampados num lugar deserto longe de tudo, talvez montanha, perto de uma vertente de água, e então começasse a cair aquela chuva louca lá fora. Dentro de uma redoma de cristal, protegidos da rua, da cidade, dos Outros. Dos artifícios, jogos, tortuosidades, pensou, a respiração morna junto ao pescoço. Abraçou-o também, que vinha de muito longe, que mal se conheciam, um bicho arisco, abraçou-o com muita força, como se quisesse entrar dentro dele para poder compreendê-lo mais, e melhor, inteiramente sozinhos no meio da chuva, assim mais poderosos, na esquina do ridículo, por dentro da noite. Foi apertando aos poucos, o corpo inteiro contra o corpo do outro. Pérsio beijou-o leve, lábios molhados, com cuidado e vagar, onde a barba terminava e começava a pele lisa – La peau douce, lembrou. Ao longe a porta do bar abriu e tornou a fechar, deixando fugir para a calçada um rugido de guitarra elétrica que o fez estremecer com frio e medo e saudade e uma bola, um novelo escuro parecido com solidão e nunca mais. O casaco escorregou, caiu na calçada, ruído fofo. Afastou-se para olhá-lo outra vez nos olhos, que não se esgotavam. Eram olhos de criança muito claros e limpos, um pouco vermelhos, assustados, sem maldade. Sorriram um para o outro. E tudo estava certo outra vez, e tudo tinha um gosto bom.&lt;br /&gt;- Está bem - disse. - Eu não vou embora. Você pode comandar a nossa noite.&lt;br /&gt;Entregou-lhe a chave do carro. Entrou, deslizando pelo banco, puxando-o para dentro, pela mão de unhas roídas. Pérsio apanhou o casaco molhado. E manteve a mão dele apertada, até soltá-la lentamente para dar a partida.&lt;br /&gt;- Você está muito molhado. Vai pegar uma gripe. Precisamos de mais um conhaque. Você quer ir até a Terra de Marlboro?&lt;br /&gt;- Onde?&lt;br /&gt;Ele riu. Canto de boca, fio suspenso, cordel puxado: o vinco.&lt;br /&gt;- Terra de Marlboro, onde os homens se encontram. Ou se perdem às vezes, dá no mesmo.&lt;br /&gt;Santiago enxugava os óculos na ponta da camisa.&lt;br /&gt;- Você quer?&lt;br /&gt;- Para dizer a verdade, não queria ir a lugar nenhum mais. Quero ir embora.&lt;br /&gt;- Mas nós podemos ir.&lt;br /&gt;- Não é isso. Não para casa. Nem para Paris, Londres, Roma, Nova York. Nem para Pasárgada, Xanadu ou Eldorado. Para mais longe. Jacarta, Togo, Bali, Surabaya, Zaire, Java, o mar de Java. Qualquer lugar onde a gente pudesse viver uma coisa mais inteira. Não nesta cidade, não neste país. - Cantarolou: - Surabaya, Johnny, não me deixe assim, Surabaya, Johnny, estou tão infeliz. - Repetiu, como uma música: - Jacarta, Togo, Bali, Surabaya, Zaire, Java.&lt;br /&gt;Mas deslizavam outra vez pelas mesmas ruas molhadas no caminho de volta, entre edifícios com algumas janelas iluminadas, recortes de cartolina, velhos filmes na televisão, Jane Wyman, Cornel Wilde, pessoas entrando, saindo de lugares barulhentos, semáforos colorindo as poças onde navegavam. Santiago quis dizer outra vez que preferia ir embora. Mas as manhãs paradas, temeu, como uma toca, seu lugar conhecido onde tomaria um chá bem quente, leite morno com mel e canela antes de afundar entre lençóis, talvez dormir, se conseguisse deter o galope na cabeça cruzada de memórias e presságios. Não pelas palavras, não pelo encontro, não pela noite. Talvez apenas para certificar-se de que em algum ponto da cidade existia um espaço onde não seria forçado a movimentar-se, onde não houvesse nenhuma conversa, nenhuma solicitação de fora, nenhuma possibilidade de prazer ou dor, nenhuma expectativa. Somente um silêncio de homem sozinho naquelas manhãs sem praças nem maçãs, olhando a luz do dia do lado de fora da janela.&lt;br /&gt;- Gostaria que fosse de manhã - disse.&lt;br /&gt;Pérsio não respondeu. Fumava quieto atravessando sinais fechados, desertos, virando esquinas. Alguma coisa partida agora. A xícara, uma xícara antiga de porcelana chinesa que você ganhou de alguém especial, de um modo especial, num dia especial, ou comprou em certa tarde de extravagâncias, recriminando-se mais tarde ao fazer contas debruçado sobre o talão de cheques, ao mesmo tempo em que acompanha com fascínio, talvez algum horror e infinito cuidado, os desenhos delicados, aquele ideograma indecifrável, quem sabe Pi, como no I-Ching que jogara à tarde, Santiago foi desenhando no vidro embaçado água sobre terra, repetiu, seis na segunda linha, o-movimento-para-com-união-e-afeto-procede-do-intenor-da-mente. De repente, num canto de sala, sobre um objeto, você esbarraria sem querer, e cacos numa explosão aguda, os cacos da xícara que nem chegou a durar um dia, depois você tentaria colar paciente, embora sabendo que sempre restarão pequenos vincos, gretas, quase invisíveis, mas indisfarçáveis na sua trama, as linhas finas entre os cacos colados um por um, para sempre. Uma almofada de seda clara onde num movimento bruto você derramaria vinho tinto.&lt;br /&gt;A mancha, o caco, o silêncio soando falso.&lt;br /&gt;Pérsio ligou o rádio, volume muito alto. Mas era um som alucinado de metais, manchas, cacos no espaço entre os dois. Das janelas abertas, nos carros próximos, quando paravam nos sinais, brotavam músicas semelhantes. Donna Summer, pensou, Terra de Marlboro. E dentro dos carros próximos havia quase sempre um casal sem crianças, ou duas moças, ou dois rapazes, ou mais raramente três ou quatro pessoas que fumavam, se olhavam, diziam coisas. Quando o carro novamente avançou pela Faria Lima e ele pôde ver o relógio brilhando no escuro, no alto, duas horas e quarenta e três minutos, onze graus, dentro do carro ao lado, duas horas e quarenta e quatro minutos, onze graus, um homem de cabelos grisalhos, sem música, sozinho, olhou para ele como se não o visse. Que ficaria assim um dia, dirigindo à toa, à noite, pelas ruas, cheio de memórias fatigadas sem presságio algum, ausências ocas, lembranças áridas, porque não faria nada com elas a não ser senti-las ácido, não seria necessário o rádio ligado nem direção alguma, não iria para lugar nenhum, negou, negou de novo, nunca haveria ninguém ao seu lado. Falaria consigo mesmo em voz baixa coisas sem importância, talvez cantasse repetindo nomes de outros tempos, de pessoas, cidades, livros, cruzaria de ponta a ponta a cidade que não teria fim, atravessando túneis, viadutos, por baixo, por cima da terra, que tinha medo da morte cega em seu encalço e das perdas e das marcas deixadas pelas perdas e mais além, das perdas tão completas que nem sequer deixavam marcas e do que não conseguiria lembrar, sentia pena dos cacos entre as mãos, tão pulverizados que mesmo que os apertasse com força não conseguiria arrancar nem uma gota de sangue.&lt;br /&gt;- Você está cheio de memórias - Pérsio disse.&lt;br /&gt;As gotas de chuva começavam a apagar o ideograma no vidro.&lt;br /&gt;- Eu sei. Às vezes acho que não vou esquecer. Mas está passando. Vai passar, vai passar. - Deslizou o dedo pelo desenho quase apagado. - Eu é que devia pedir desculpas a você. Não tinha o direito de dizer aquelas coisas todas.&lt;br /&gt;Pérsio sacudiu os ombros.&lt;br /&gt;- Não tem importância. Já passou.&lt;br /&gt;Atravessaram a avenida Paulista, alcançaram a descida ampla em direção às luzes da cidade, os muros altos do cemitério, as sombras emaranhadas das árvores - ciprestes, abetos, abetos, e as urzes, os cardos -, o grande anjo de braço erguido, mármore frio segurando a espada reluzente de chuva, a igreja recortada contra o céu, nenhuma estrela, uma vontade de benzer-se pedindo proteção, afasta de mim, Deus, mas Deus tinha morrido em Auschwitz, talvez no Vietnã, fazia tempo. Enveredaram pelas ruas estreitas repletas de gente parada pelas esquinas, sob as marquises, nos bares, buracos iluminados. Pérsio estacionou com dificuldade, depois de voltas lentas pelos quarteirões. Na calçada, lado a lado em silêncio, procuraram as marquises junto aos edifícios para abrigar-se. Um na frente do outro, encolhidos, até que Pérsio alcançou-o, tirando o casaco para protegê-lo novamente. Mas já não se olhavam, mesmo quando à beira da porta pegou-o pelo braço empurrando-o por entre as pessoas, para mergulharem na penumbra de uma onda riscada de cores, pesada de fumaça, vozes, perfumes e música muito alta, ansiosa, elétrica como a do carro. Furar lentamente a barreira dos corpos de muitos homens, uma cerimônia selvagem, a massa de pessoas dançando sem parar na pista do centro, imaginou um adolescente branco e nu, amarrado num altar no centro da pista, o anjo empunhava a espada, prestes a ser sacrificado. Cálices de sangue, tambores, atabaques, percussões.&lt;br /&gt;No balcão, Pérsio estendeu os tickets por cima da cabeça de alguém e pediu dois conhaques. Apresentou-o a um rapaz grande, de camiseta muito justa realçando os músculos esticados sob a pele tensa, mas não conseguiu ouvir o nome nem outra coisa qualquer sendo dita, apenas sorriu, apertou a mão enorme. Suspensa do teto, sobre a pista uma esfera de pedaços de vidro girava jorrando fachos de luz em todas as direções. Às vezes soava um apito agudo, sirene, buzina, então a luz começava a tremer azulada e os movimentos das pessoas tremiam também, partidos como se no ato de voltar a cabeça para o lado não houvesse transição alguma: o rosto subitamente de perfil, curvado sobre o ombro, depois outra vez de frente, ou o contrário. Como o rapaz grande curvando a cabeça para ele, depois de costas, interposto entre Pérsio e ele.&lt;br /&gt;A roupa branca cintilava, feita de prata e luz.&lt;br /&gt;Fechou os olhos. Por um momento um ninho de serpentes coloridas e riscos de neon agitou-se no fundo das pálpebras, entrelaçadas. Santiago apanhou o copo que Pérsio estendia sobre o ombro do outro e de repente, quando um dos fachos de luz incidiu direto sobre as garrafas dispostas na prateleira de vidro atrás do balcão, entre o ombro largo do outro e os reflexos de luz, percebeu que ele o olhava outra vez direto nos olhos. Que não se esgotavam, os olhos inesgotáveis. Mas não sorria. Não sorria nem fazia movimento algum com o rosto ou o corpo além de erguer o copo quase acima da própria cabeça, para depois estendê-lo entre o ombro largo do outro e o reflexo de luz batendo no vidro, tocando de leve no copo dele sem dizer nada, num brinde sem tilintar nem palavras, ou dizendo alguma coisa que se perdia no meio das vozes, da luz que tornava a apagar, palavras partidas como os movimentos, cacos, lascas.&lt;br /&gt;Disse que ia ao banheiro, e voltou-se para penetrar entre os homens. Mas deteve-se na porta aberta, o homem de pernas abertas, braços cruzados, contra os azulejos do fundo, a mão pousada na braguilha dos jeans, entre o cheiro de mijo vindo de dentro, desodorante sanitário e alguém que o empurrava, pedindo passagem. Voltou até o bar, durante horas voltou até o bar desorientado, procurando o rosto conhecido do outro sem encontrá-lo. Viu uma blusa vermelha ao longe, dobrando a curva das escadas, em direção ao andar de cima, feito balcões suspensos de onde se podia acompanhar a dança dos outros, o sacrifício, anjo, espada, ritual, embaixo, no meio da pista, estava tonto, sob a esfera de vidro que girava e girava e girava. Pensou em chamá-lo, mas não ouviria. Não queria ouvir mais, e quis ir embora, mas estava perdido, as chaves do carro, a noite suja. lima das n1ns segurando bem alto o copo cheio foi subindo pelos degraus olhando as caras desconhecidas uma por uma, uns cabelos crespos, um bigode negro, uns olhos escancarados. Pérsio não estava lá. Estou bêbado, disse em voz baixa. Descobriu a mesa no canto, pediu licença ao homem solitário ao lado e sentou-se debruçado no balcão, olhando para baixo. Guardou os óculos no bolso para que se emaranhassem melhor os corpos, as formas, as cores, os gestos. Com os olhos fechados, depois, as serpentes coloridas voltavam a se revolver inquietas.&lt;br /&gt;Não conseguiria lembrar ao certo. Talvez fosse verão, porque usavam roupas leves, calções largos, camisetas. Estava entardecendo, não fazia frio. Por alguma razão, tinham ficado os dois para trás, ele e aquele outro garoto esquisito, silencioso, esguio como um daqueles egípcios das gravuras no livro de história. Ele tinha uma bola de futebol embaixo de um dos braços. Caminhavam sobre um campo inclinado, tão inclinado que antes do topo, onde estavam, não conseguiriam ver o que viria depois. Havia outros, que já tinham ultrapassado aquele ponto. Ele queria chegar até aquele ponto onde estavam os outros, embora já o conhecesse, a tudo o que existia do outro lado, e só iria porque os outros tinham ido, como um dever que se cumpre. Mas havia também aquele garoto caminhando lento pouco mais atrás, descobrindo devagar entre os talos de grama coisas que ele não via. Foi ficando quase junto com ele, para trás também. Se desse mais alguns passos alcançaria o topo, então olhou para trás e o garoto tinha começado a rodar de braços abertos para depois cair estendido de costas no chão. Ao invés de avançar, começou a voltar em direção a ele, e percebeu que mastigava um talo de grama, e perguntou então qualquer coisa como se estava cansado ou tonto ou algo assim. Mas o outro disse que não, que só estava olhando o céu, que quando rodava daquele jeito o céu rodava junto, e quando finalmente caía de costas sobre a grama, o céu e a terra de repente se misturavam e na cabeça, disse, parecia que uma coisa de dentro ia para longe, para cima, para fora. Perguntou se ele não queria experimentar também, que era divertido. Ele achou estranho, no começo ele achou bastante estranho, o outro era um garoto estranho que fazia coisas estranhas, mas não havia ninguém em volta vendo, então jogou a bola na grama e rodou ele também de braços abertos cada vez mais rápido tanto e tanto que não conseguiu perceber o momento exato em que deixava de estar em pé e começava a tombar. O céu e a terra se misturavam enquanto ele já não era completamente ele mesmo, mas uma coisa que girava junto misturada também, deitado ali ao lado do outro na terra, enquanto a cabeça parecia flutuar um pouco acima do corpo. A tontura passava aos poucos feito um começo de porre, mas isso só saberia mais tarde, muitas vezes, quando você respira fundo ou sacode a cabeça, por enquanto não, porque era pouco mais que uma criança, o outro também, e não sabiam. Por enquanto sabia só que aquilo era estranho, estranho estar deitado na grama, o queixo apoiado na bola de futebol, descobrindo vidas miúdas entre os talos, mascava um, gosto adocicado entre os dentes. O rosto do outro muito perto com seus olhos claros que não eram egípcios, eram olhos de gato fixos, redondos, entre o verde, amarelo, e dizia então que não era igual aos outros, os que estavam do outro lado, que um dia iria embora para outra cidade, uma cidade grande, uma cidade imensa, para outras cidades de outros países, e viveria coisas tão inteiramente diferentes de todas aquelas vividas ali que nenhum de todos aqueles seria mais capaz de compreendê-lo, nunca mais. E que quando rodava assim, tudo se misturando, era como se sentisse naquela tarde o que sentiria no tempo futuro, quando todas as pessoas que tivesse conhecido e todos os lugares por onde teria andado e todas as coisas que teria vivido se misturassem dentro dele. E perguntou se ele não queria também partir um dia.&lt;br /&gt;Afundou o queixo na bola de futebol e disse talvez, não conseguiria lembrar direito, talvez primeiro que não, que nunca tinha pensado nisso, depois que sim ou que gostaria, um pouco depois, ou que guardaria isso na cabeça para pensar mais tarde, quando chegasse em casa. Então o garoto esquisito como um egípcio levantou-se de um salto para recomeçar a rodar e a rodar de novo, o rosto erguido para o céu quase transparente de fim de tarde, até cair novamente no chão. Mas desta vez desequilibrou- se um pouco antes de tombar, rolando por cima dele. Que não se desviou, apenas levantou-se e rodou também e rodou de novo e rodou bastante até cair também um pouco por cima do outro, do esquisito. Então, ou antes ou depois, não lembraria, era tanto tempo e tanta história e muita estrada, o outro garoto perguntou se duas pessoas juntas não poderiam rodar assim para sempre juntas e quando os Outros olhassem com raiva porque rodavam assim, eles os veriam de um Outro jeito, daquele lugar para onde teria ido a cabeça, um pouco de cima, de longe, de fora, porque não seriam como eles, veriam juntos, os outros não os compreenderiam nunca, porque estavam misturados com o céu e a terra, talvez não os perdoassem. E tornaram a rodar mais vezes, o sol se pondo e talvez algum vento deixavam a grama liberar um perfume forte de coisa verde viva, e rodaram outra vez caindo um por cima do outro, rindo a cada choque, porque eram leves, os corpos se tocavam sem se machucar. E de repente rolavam juntos um sobre o outro para baixo no campo inclinado, na direção oposta das pessoas que tinham passado para o outro lado e quem sabe esperavam por eles. Porque era o que se esperava das outras pessoas, que passassem também para o outro lado, aqueles mesmos que diriam, se soubessem, para não se deterem assim no meio do caminho a procurar inutilidades na grama, no céu, no vento. Então rolaram e rolaram outra vez e tornaram a rolar, às vezes subindo com esforço pelo campo inclinado, os corpos se tocando mais, para depois baixarem mais velozmente, misturados um no outro. Tinham começado a suar, sujos de terra e muito vermelhos, e riam alto às gargalhadas rolando pelo campo afora. Não lembraria agora, não lembraria aqui nem naquele dia ou outro qualquer, pudesse avançar ou voltar, e não voltaria, não saberia precisar qual deles parou primeiro para olhar bem de perto o rosto do outro. Não saberia ainda se teriam sabido que eram rostos muitos moços, rostos que apenas tinham começado a deixar de ser crianças, imprecisos, traços não definidos, e alguns pêlos por nascer, outros formando sombras nas faces, espinhas, indecisões que desapareciam mais tarde ou se confirmariam em outros traços mais duros, mais suaves, mais pesados ou leves, não sabiam o que aconteceria, nem das marcas reservadas pelo tempo enorme como um tapete estendido na sua frente. Não saberia dizer qual das bocas avançou antes de outra para que se encontrassem vencendo o espaço molhadas, se misturando. Rolaram outra vez assim calados tontos suados ofegantes sem medo algum, porque eram leves e não tinham culpa, quase crianças, até que de longe cortando o momento longo do outro lado, do lado para onde todos os outros iam sempre e para onde eles deveriam ir também, se fossem como os outros, mas não iriam nunca mais, que era muito tarde, se não tivessem se detido por ali, no campo inclinado brincando tonturas, trazida pelo vento veio uma voz chamando por seus nomes três, quatro vezes, uma navalha interposta afiada entre dois objetos colados, rasgando o inseparável.&lt;br /&gt;O contato morno na perna direita tinha subido desde o joelho, avançando pela coxa até deter-se móvel, circular, em sua braguilha. O ruído da voz, o silêncio do campo, o deslizar o zíper da calça sendo abaixado e dedos penetrando feito cobras quentes, um ninho contorcido de cobras lentas, afastando os panos, os pêlos, procurando. Bebeu mais um gole de conhaque e sem sentir, num gesto mecânico, tornou a colocar os óculos para ver as pessoas dançando lá embaixo. Os dedos no ritmo da música, cada vez mais acelerados, um calor que não sabia se vinha da bebida ou da proximidade do corpo do homem a seu lado, cada vez mais perto, embora olhasse para a frente, para baixo, os dedos alcançando a cabeça redonda de seu pau duro, depois um braço passado em torno de seus ombros quase timidamente, como se tivesse medo de ser afastado, pedindo desculpas, uns olhos de cão, viu sem olhar. Santiago abriu mais as pernas, deitou o corpo para trás na cadeira, lentamente cedendo, os dedos do homem se fechavam, moviam-se ritmados, para cima, para baixo. Foi quando começava a apoiar a nuca no encosto da cadeira que seus olhos descobriram inesperados os olhos de Pérsio dançando sozinho no meio das pessoas lá embaixo, voltados para ele, um jato de luz iluminando primeiro o rosto de um, depois o rosto do outro. Pérsio ergueu o copo sorrindo para ele.&lt;br /&gt;- Desculpe - disse levantando-se.&lt;br /&gt;O homem limitou-se a sacudir os ombros. Não importava, havia tantos. Tornou a descer, puxando o zíper, afastando corpos. Braços abertos, Pérsio o esperava no fim da escada. Mas Santiago pegou-o pelo braço estendido e começou a puxá-lo entre as pessoas, no caminho de volta em direção à saída. Uma folhagem densa, quase intransponível, em torno de um pântano, os outros homens, os rostos, os corpos, os muitos cheiros dos outros homens que afastava brusco com a mão feito cortasse cipós, plantas daninhas, até a porta onde pagou rápido procurando ar. Depois os bares, calçadas cobertas de cores e desejos, carros parados no meio da rua, motos, algumas frases, certos olhares, convites, palavras partidas, rapazes de braços cruzados, mãos entre as coxas, encostados na parede, travestis, policiais tolerantes entre o cheiro de porra e maconha - e como uma febre, no interior da folhagem densa, uma febre coletiva enchendo o ar de tremores, ardências delírios, malárias, dentes rangentes, promessas, convites, rostos distorcidos pelas luzes artificiais, as luzes cruas do mercúrio revelavam marcas fundas, da noite. Pararam perto do carro. A chuva tinha diminuído, pouco mais que uma garoa fria.&lt;br /&gt;- Mas o que deu em você, cara?&lt;br /&gt;- Quero ir embora. Você quer ficar?&lt;br /&gt;Pérsio sacudiu a cabeça:&lt;br /&gt;- Sozinho não. Não tem graça. - Estendeu-lhe a chave que tirou do bolso. - Pensei que eu é quem ia comandar a nossa noite. Ainda é cedo. Não são sem quatro. Podemos ainda dar um pulo no Triângulo das Bermudas.&lt;br /&gt;- Eu te dou uma carona.&lt;br /&gt;- Não precisa, é perto. Posso ir sozinho. Assim talvez consiga alguma companhia mais bem-humorada.&lt;br /&gt;Santiago sorriu, imitando a voz do outro. Rouca, arrastada, irônica:&lt;br /&gt;- God! Você não quer me ver fazendo uma cena passional em plena Terra de Marlboro, quer? E a minha reputação pro-fis-si-o-nal, onde fica? - Tocou-o de leve, os cabelos molhados de suor. - Vamos logo, senão daqui a pouco chega um bando de garotas monstras. Ou o que é pior, seu amigo Carlinhos e todo o coro do Édipo.&lt;br /&gt;- Antígona - Pérsio corrigiu. E entrou no carro, tentando rir. - Ok., você venceu. Zero a zero, está empatada a peleja. Dura peleja, duríssimo embate, caros ouvintes.&lt;br /&gt;Olhou para a frente enquanto Santiago limpava o vidro. O casarão antigo recém-pintado. As molduras das janelas cuidadosamente coloridas de azul-marinho brilhante, ressaltadas contra o branco do fundo, as vidraças lavradas com guirlandas de flores miudinhas. Era quando via casas assim, pensou, que sentia vontade de voltar para o Passo da Guanxuma. Quis dizer qualquer coisa sobre isso, vidraças assim. Mas já tinha dito fazia tempo, as casas morrem, e Santiago parecia não ouvir nem ver nada, uma sombra escurecendo o rosto onde Pérsio descobriu pela primeira vez a nítida beleza dos traços bem desenhados. Só que, repetiu devagar para dentro, não se conserta uma pessoa como se conserta uma casa. E de repente lembrou de alguém que não lembraria se ele o lembrasse um dia, porque talvez tivesse se perdido, sem permitir, repetindo, os olhos pretos, não se diz conserta quando se trata de uma coisa bonita, a gente diz re-cons-ti-tui, aprenda, e ele tinha respondido com palavras meio vazias, superficialmente brilhantes, convidativas, então vamos re-consti-tu-ir a nossa relação?, o outro dissera eu sabia que você ia dizer isso, e ele rápido mas claro, foi por isso mesmo que você disse, das dores cinzentas de tudo o que tinha se perdido essa era exatamente a que mais doía, porque não tinha sido capaz, e dependia dele? Ah, gemeu sem ninguém ouvir, ah, amor, ai, amores, e contaria todas as faltas de nobreza, sem nenhum esforço viria à tona mais claro depois do banho, um dia, e ficariam horas a fio sentados no sol quase insuportável de Saquarema, os pés descalços de um tocando os pés descalços do outro, mas já não poderia dizer que tinha sido tanto e quis lamentar-se, quis beber mais para chorar baixinho repetindo eu não mereço eu não mereço não me deram chance alguma a culpa não foi minha sempre a mesma solidão eu devia estar acostumado eu só queria e era tão simples, muitas vezes. Esta sangrava ainda, você compreende? Ele estava meio bêbado, não daquela vez, desta. Quando estava meio bêbado assim emergia, vinha à tona, mas não estava limpo, todo melado de emoções informuláveis, saudades impossíveis, tinha vontade de pedir que ficassem com ele, que o colocassem no colo, na cama, que lhe dessem chá ou leite quente e repetissem que tudo ia ficar bem, que amanhã haveria sol, e não teria ressaca nem precisaria trabalhar e todas as dívidas estariam saldadas e receberia todas as cartas, todos os telefonemas que esperava inutilmente havai meses, havia anos, uma vida inteira esperando o que não vinha.&lt;br /&gt;Teve vontade de pedir a Santiago que ficasse com ele, mas a rua girava junto com o movimento do carro, a rua era dinâmica, aquela pedra suspensa sobre o mar, eu não vou esquecer, como as casas que envelheciam e ruíam, como as pessoas que chegavam e partiam para se perderem umas das outras entre viagens inconciliáveis, linhas paralelas, o infinito não existia, coisas sem importância, o que era um casarão antigo de repente tinha se tornado uma avenida, um estacionamento, e o que tinha sido uma presença morna se perdia à toa pelas ruas da cidade, pelas estradas que levavam a outras cidades distantes, a outros países, às vezes inatingíveis, pelos telefones que não voltavam a chamar, sem nenhuma explicação, porque era assim que as coisas eram, era assim que o que chamavam de vida, essa tontura que sentia agora evoluía em direção ao nada sobre uma esteira de perdas que não aceitava, de sonhos que não aconteciam, desejos espatifados, espelhos, pedras, cacos, fios dispersos no tear de um tapete incompreensível que as mãos vazias um dia talvez não se atrevessem mais a tecer.&lt;br /&gt;O coração batia tão forte que por um segundo teve medo de que Santiago ouvisse. Então pensou em ligar o rádio outra vez bem alto, bem inadequado. Ou começar a falar sem parar, exagerando carências, até convencê-lo a pelo menos tomarem um café na esquina da São João, depois o flipperama, as colunas do cinema, a banca de jornal, os cartazes gigantescos dos cinemas, depois. Acendeu um cigarro, encostou a cabeça no vidro.&lt;br /&gt;- Queria que fosse de manhã - Santiago repetiu.&lt;br /&gt;- Então viria uma luz cinzenta, uma horrível luz cinza-clara. Cada vez mais clara. Então as pessoas se olhariam disfarçadas, para perceberem que estavam com olheiras fundas, a pele gasta, cansada, velha. Durante alguns momentos ficaria um silêncio pesado, você tentaria dizer alguma coisa, e perceberia que a sua voz está meio rouca porque você já fumou e já bebeu e já falou demais. Na melhor das hipóteses alguém proporia mais uma carreira gentilmente, mais uma carreira, caros sobreviventes do naufrágio do sentido? - Tragou fundo, soprou a fumaça em direção ao pára-brisa. - Não diria que foi uma noite especialmente brilhante não?&lt;br /&gt;- As noites não são brilhantes. As manhãs sim. Por isso eu queria.&lt;br /&gt;- Mas as manhãs são péssimas. Eu nunca vejo as manhãs. Eu sinto um humor nazista de manhã. - Pérsio fez um risco no vidro. Depois outro, cortando o primeiro, com um grande X. - Talvez seja esse o problema. Uma vida sem manhãs. Estranho é que não escolhi. Não consigo precisar o momento em que escolhi. Nem isso, nem qualquer outra coisa, nem nada. Foram me arrastando. Não houve aquele momento em que você pode decidir se vai em frente, se volta atrás, se vira à esquerda ou à direita. Se houve, eu não lembro. Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer, O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer.&lt;br /&gt;- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.&lt;br /&gt;- A coisa ou a pessoa?&lt;br /&gt;- As duas.&lt;br /&gt;Santiago tinha estacionado o carro em frente ao edifício. E respirava lento, feito um iogue. Isso era só o que Pérsio podia perceber olhando para ele, a cabeça apoiada no vidro. Os ombros do outro subiam e desciam como se tivesse corrido. Quando expulsava o ar, saía junto um pequeno jato de fumaça que batia contra o vidro.&lt;br /&gt;No meio do silêncio, Pérsio teve a impressão de ouvir o coração de Santiago batendo batendo batendo tão forte quanto o dele, enquanto convidava:&lt;br /&gt;- Você não quer descer um pouco? Você não quer tomar uma saideira?&lt;br /&gt;- Já bebi demais.&lt;br /&gt;Um relâmpago clareou o céu para os lados do Martinelli. Pagu, lembrou. Muito além.&lt;br /&gt;- Não beberemos, então. Um chá, talvez? Quem sabe um café, um baseado? Vou te revelar um segredo, no fundo de uma caixinha secreta tenho ainda uma poeira dum papel dangerizante. Esquentando bem, batendo com cuidado, dá umas três carreiras para cada um.&lt;br /&gt;Que subiriam juntos outra vez pelo elevador, acenderiam luzes, aqueceria a pedra de ágata ou o pequeno espelho, a gilete, a nota, colocaria um disco, talvez o mesmo, ou Ravel, gostava de Ravel nessas horas, o Bolero, tornaria a dançar, a dizer coisas como quando você estende a mão e pensa que vai tocá-lo, pronto: ele já não está mais ali. Falariam de coisas como essas novamente, ou de outras, se houvesse, e haveria, porque precisava desesperadamente falar e falar sem parar, para que não começasse a doer aquele ponto por dentro, à espera de que algo - ou alguém, seria alguém? - vindo de fora o tocasse para começar a acontecer, e aconteceria brilhante, iluminando ao redor, para que não latejasse tanto, chaga, ferida aberta, escondida feito úlcera, até que o cinza-claro do dia atravessasse cortinas e embora fosse domingo já não haveria tempo para mais nada porque teria amanhecido e quando amanhece, pensou, as pessoas fazem coisas prosaicas, caseiras, uma ilusão de ordem, feito escovar dentes, cabelos, bater travesseiros, ou no reverso alucinam-se falando e falando a um ponto de exaustão em que, no dia seguinte, como num lapso etílico, as grandes descobertas, as palavras incendiadas, as fantásticas sacações não passariam de manchas foscas quase apagadas.&lt;br /&gt;Que não, de um Outro jeito, que não esse. Quis abraçá-lo de novo no meio da chuva, à beira do ridículo, na esquina. Mas as mãos de Santiago permaneciam cerradas em torno do volante. Ele respirava, o coração batia forte.&lt;br /&gt;- Não - disse. - Melhor eu ir.&lt;br /&gt;Pérsio abriu a porta.&lt;br /&gt;- Você é que sabe. - Riu, de lado. No canto da boca, o vinco, marca funda, um talho. - Então o que digo? Me liga, está bem? Ou nos vemos. Ou pinta aí. O que você prefere? Quem sabe como foi moda em Ipanema há uns dois verões, tchau, su-ces-so, hein? Ou.&lt;br /&gt;- Não precisa dizer nada. - Santiago estendeu a mão, segurou na mão dele. Acariciou a parte interna do pulso com a ponta do dedo. - Eu penso devagar. Não sei dizer coisas. Estou cansado. Preciso ficar só. A gente se vê. Até.&lt;br /&gt;Pérsio desceu.&lt;br /&gt;- A gente se vê é perfeito.&lt;br /&gt;Jogou a ponta do cigarro numa poça d’água, foi andando para o edifício. Não se voltou quando ouviu o carro dar a partida. Atravessou o cheiro de éter da portaria, porteiro adormecido, tapete vermelho. No fundo do corredor, no espelho, a cara cansada que ele desviou abrindo a porta do elevador, Uma peça, pensou, uma peça teatral inteira passada no interior de um elevador enguiçado entre dois andares. Primeiro aqueles olhares paranóicos entre as pessoas, bem demorados, uns cinco ou dez minutos só de olhares e climas de elevador subindo ou baixando, pouco importa. Depois um dique, luzes apagadas, tudo parado. Nenhum grito. O elevador parou, ele desceu. Mas haveria um problema de espaço, um elevador é pouco maior que uma escrivaninha, uma banheira, imagine um palco apenas com aquele espaço iluminado, caberiam uns quatro, cinco atores. E não poderiam se movimentar. Só palavras soltas, movimentos presos, esboçados, entalados. Sem marcações.&lt;br /&gt;Besteira, besteira, besteira, repetiu enfiando a chave na porta, fáceis realismos. Acendeu a luz, a sala grande demais, branca demais. Parado na porta, um impulso breve de voltar, tornar a descer pelo elevador, atravessar outra vez o tapete vermelho, sair para as ruas, não era longe, quatro, cinco quadras, um café na esquina, outra bebida talvez, uma cerveja, rebater todas, qualquer um, o primeiro, ao acaso, uni-duni-tê, como é seu nome, o que você faz, chupa-dá-come?, quanto você cobra, só da cintura para baixo, paraplegia às avessas, nada de beijos, lambeções, macho, sei, sei, examinar o volume apertado pelas calças justas como quem compra carne, talvez apalpar, mas quem garante que é de primeira?, depois esconder a carteira, a chave, o creme, a camisinha, a porra, a grana, pausa, banho, banho longo, trocar lençóis, Neocid nos pentelhos.&lt;br /&gt;Fazia tempo, não tinha vontade. Atento apenas à coisa, ao ponto palpitante, pronto por dentro, redondo. Era redondo?, perguntaram. Era perfeito, responderam. To silencioso e remoto que quase não existia, ali à espera. Um toque, uma palavra mágica, um beijo no sapo, desencantaria. Redondo, aberto, perfeito. Pêssego maduro, os vermes rondavam, apodreceria logo se ninguém... Jogou o casaco sobre o sofá e chamou baixinho, sacudindo o quadro:&lt;br /&gt;- Kay Kendall, onde está você, meu amor? Apareça: o prisioneiro da cela ao lado voltou da condicional. Está péssimo lá fora, meu bem.&lt;br /&gt;Mas não aconteceu nada.&lt;br /&gt;Mas não aconteceu nada, caminhando à toa pela sala enquanto recolocava os livros nas estantes. Pérsio, Santiago, lembrou, depois guardou os discos na capa um por um. Então apago a luz da sala, vou até o banheiro, examino a cara com desgosto e pena, principalmente pena, muita pena, descubro alguma marca nova, mijo, lavo o rosto, vou até a cozinha, uma maçã, talvez coma uma maçã, ponho um pouco de leite a ferver, uma colher de mel, um pouco de canela, isso, como a maçã enquanto o leite ferve, parabéns, muito saudável, jovem, apago a luz, entro no quarto, cubro a xícara de leite quente com o cinzeiro para não esfriar, tiro a roupa, ligo a televisão, procurando um filme com Audrey Hepburn, que saudade de Audrey Hepburn, sacudo os lençóis, desligo a televisão, Audrey nenhuma, peruas platinadas, dúzias delas, então deito, bebo devagar o leite pensando em escrever para minha mãe, em mudar de vida, de emprego, de cidade, de país, que vontade, querida mamãe, de ser feliz, de ter um grande amor bem limpinho, bem clarinho, um amor de manhã bem cedo, não diga nada a ninguém, não é preciso, mas cá-entre-nós-que-ninguém-nos-ouça, não vem dando muito certo, tenho tentado, juro, beijos no pai, que ele não saiba que estou ficando velho, não conte a tia Flora que perdi as ilusões, que já nem lembro mais, e encho o saco disso e apago a luz e durmo e sonho. Sonho um sonho muito vivo, colorido, sonho por exemplo que estou no meio de um gramado, de manhã bem cedo, um ar tão limpo que os pulmões chegam a doer um pouco quando você respira, há flores amarelas no meio do gramado verde, e brilham, eu respiro e respiro mais fundo e sei que bem perto dali existe uma cachoeira, minha flor das montanhas, posso ouvir o ruído das águas caindo, caminho em direção à cachoeira pelo meio do mato, tiro toda a roupa, não, não, eu estou nu, o sonho todo, desde o começo, eu sempre estive nu, então fico embaixo da cachoeira muito tempo, encostado numa pedra, deixo aquele jato de água fria limpa clara bater bem no alto da cabeça, o lótus em mil pétalas abertas abrindo, passa uma borboleta azul, bons presságios: eu penso, eu acredito, a água gelada continua batendo na cabeça, escorre pelo corpo todo, e vou entrando, o sonho é meu, numa espécie de êxtase, satori, nirvana, eu acredito, eu sigo acreditando, outra vez eu acredito, embaixo da cachoeira, eu não paro um segundo de acreditar porque tudo é vivo vibra brilha, meu corpo não se separa da água nem da pedra nem do céu que vejo entre as folhas.&lt;br /&gt;Filho da puta, disse sozinho, eu nem falei de estrelas, Pérsio falaria o tempo todo de estrelas pulsares quasares anãs brancas buracos negros, apontaria constelações, se fosse possível ver constelações neste céu de merda, mostraria o céu, didático: ali um pouco acima de Scorpius, está vendo?, bem ali fica Lupus, e logo acima a grande constelação da Hydra, entre Lupus e Hydra está Centaurus, de onde eu pensei que tinha vindo um dia, você consegue ver?, traçaria com o dedo, acompanharia o desenho, aquela bem grande, aquela estrela imensa, tem vida lá na Alfa de Centaurus, se você puxar uma linha quase horizontal, levemente oblíqua, só levemente, para cima, encontrará também Canopus, teria sido lá?, e não importava, ouça, não é lindo Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca, a água escorreria pelo corpo inteiro, cabeça, peito, pinto, pés, mas se fosse de manhã bem cedo não poderia apontar estrelas.&lt;br /&gt;Acendeu Outro cigarro. Caminhou para a janela como se fosse olhar para fora. Mas não queria olhar para fora. Queria talvez olhar para dentro, dentro-e-fora, misturados, o céu sujo da cidade pregado na alma, se havia alma. Mas se era um sonho, repetiu, num sonho pode. Num sonho pode tudo. A água escorria da cachoeira no dia claro enquanto as constelações brilhavam sobre a cabeça entregue.&lt;br /&gt;Filho da puta, filho da puta, filho da puta.&lt;br /&gt;- Sentado no chão, as mãos nos pés. E todo aquele papo, todos aqueles toques, todos aqueles traumas, todos aqueles climas, todas aquelas cenas, tudo aquilo na noite feito um movimento vindo de fora para despertar o vivo de dentro, o vivo quieto, à espera apenas daquele justo toque exato - mas de quem foi o erro, o que é um erro? Teve vontade de rolar pelo tapete, cena dramática, altamente realista, em gemidos dilacerados, síndrome de abstinência, sabor mexicano, delirium tremens, fassbinderiano bater nas paredes, chorando em soluços arquejartes, em gemidos desmesurados, depois correr ao banheiro para vomitar vomitar vomitar sem vírgulas nem pausas: vomitar. Mas não sentia náusea alguma, nem ânsias melodramáticas, filmáveis, aplaudíveis, premiáveis, patrocináveis. Só uma coisa seca na garganta. Poeira, dusty answer. Lera em algum lugar que as glândulas lacrimais começam a secar com o passar do tempo, seria isso?, cada vez você chora menos, já não conseguia, lágrimas, venenos expulsos pelo organismo, quem chora menos vive menos, não chorarei então, que estava farto, que tinha acostumado ao prego, que tinha petrificado, estátua de sal, de plástico, descalçou os tênis, dançarás descalço, para sempre pela Terra de Marlboro e pela Terra do Nunca, até que te amputem esses pezinhos e, de muletas, te tiveres tornado outra vez Puro &amp;amp; Piedoso, Iluminado por uma Divina Chama Interior, que eram anos, nem horas, nem dias, nem meses, mas anos, não apenas um, dezenas, anos e anos de solidão, eu quero a alegria, rosnou, quero porque quero o princípio do prazer, não tornaria a ouvir o sax desesperado, o seco, porque não suportaria, sim, suportaria, suportarás, as pessoas suportam tudo, as pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo, o verso justo, a música perfeita, o filme exato, punhaladas revirando um talho quase fechado, cada palavra, cada acorde, cada cena, até a dor esgotar-se autofágica, consumida em si mesma, transformada em outra coisa que não saberia dizer qual era, porque não chegara lá ou sim, que chegar lá não passava disso, aqui passando a mão no rosto, nos cabelos, alguns brancos poucos, bejo, como estás viejo, cuspiu o verso de Vallejo, o que morrera em Paris com aguaceiro, onde João lavava pratos, a carta da mãe, mas a mãe estava morta, autopiedade nojenta, quase não havia mais tempo, embora pudesse ainda repetir there will be time, there will be time ou acaso não fui cúmplice dos meus? desses vindos da noite ou stars open among the lilies, tanta literatura andando pelo apartamento vazio, a vida, fosse o que fosse era agora, a vida era já, a vida era aqui, e o aqui e o já e o agora não passavam de uma vontade de chorar sem lágrimas, de vomitar sem náusea, de trepar sem sexo, tantos versos, tantos planos ficados para trás, só os dias rodando sem parar, o de ontem gerando o de amanhã, trazendo sempre o mesmo gosto de café e cigarros, tocou o peito, que talvez já tivesse começado a apodrecer, a coisa secreta, o ponto escondido, sem ninguém tocá-la, mais um tempo e sentiria o fedor, os outros sentiriam o fedor de longe, quando o encontrassem sozinho pelas esquinas da noite, procurando a pedra de toque, o aleph, sephirot, em algum encontro que, se chegasse, chegaria tarde demais porque o verde novo começara a ceder à decomposição.&lt;br /&gt;Não existe volta para quem escolheu o esquerdo.&lt;br /&gt;Tirou a roupa aos poucos. Completamente nu, começou a girar de braços abertos no meio da sala. Remoto, então, como se viesse do apartamento ao lado ou de baixo, de cima - talvez o de Lavínia, a lasciva, lembrou querendo rir, mas não conseguiu -, o som da campainha cortou o movimento. Uma voz que chega de longe. Navalha, alfanje, cimitarra. A cabeça ainda girava no meio da tontura quando entreabriu a porta para ver Santiago parado no corredor, mãos nos bolsos.&lt;br /&gt;- Resolveu aceitar aquele chá, Santiago?&lt;br /&gt;- Eu não me chamo Santiago - ele disse.&lt;br /&gt;Não afastou o corpo para que o outro entrasse, Mas ele entrou. Fechou a porta às suas costas. Estendeu as duas mãos. Tocou-o nos ombros. De frente.&lt;br /&gt;- Eu também não me chamo Pérsio. Portanto não nos conhecemos. O que é que você quer?&lt;br /&gt;Ele sorriu. Estendeu as mãos, tocou-o também. Vontade de pedir silêncio. Porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo:&lt;br /&gt;- Quero ficar com você.&lt;br /&gt;Provaram um do outro no colo da manhã.&lt;br /&gt;E viram que isso era bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;São Paulo (Jardim América), 1980&lt;br /&gt;Rio de Janeiro (Santa Teresa), 1983 &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4380767608628178040?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4380767608628178040/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4380767608628178040&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4380767608628178040'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4380767608628178040'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2007/08/pela-noite.html' title='PELA NOITE'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5580647248235955759</id><published>2008-08-26T15:12:00.000-03:00</published><updated>2008-08-26T15:16:50.814-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>MARINHEIRO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Para&lt;br /&gt;Rubens Rodrigues Tôrres Filho e o Marinheiro real, onde quer que navegue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola... Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir o dia... Ele brilha como ouro, numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se cobrem... Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?&lt;br /&gt;Fernando Pessoa: O marinheiro&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;1&lt;br /&gt;Me veio numa tarde de sábado. Não de agosto, como os antigos, embora comigo mesmo costumasse repetir que os agostos haviam invadido setembro, avançado sobre outubro até descobrir o novembro que ia em meio. Me veio numa tarde de sábado, em novembro. Em comum com os agostos de antes, a chuva. E bateu à porta, essa mesma que pintei inteira de amarelo para dar uma ilusão de luz às sombras desta casa. Tenho que ser preciso, tenho que refazer, e para isso preciso contar o que fazia antes.&lt;br /&gt;Eu pintava os vidros das janelas com arabescos coloridos das tintas que saio às vezes para comprar. A casa é um pequeno sobrado com poucas vidraças, numa ruazinha toda feita de sobrados pequenos apertados entre outros sobrados pequenos, portanto, não há muitas vidraças, já que os dois lados estão inteiramente comprimidos entre duas outras casas. As vidraças da frente, na parte de baixo apenas uma janela e uma porta, dessas com um retângulo vertical de vidro, para que se possa ver o rosto de quem chega, antes de abri-la, estavam completamente pintadas. São formas quase sempre abstratas, uns círculos, uns triângulos, só de vez em quando intercaladas por outras mais precisas, um olho aberto, um peixe, uma estrela, em tons principalmente de roxo e amarelo.&lt;br /&gt;Gosto de permanecer ali na sala em raros dias iluminados, sobretudo ao cair da tarde, quando os últimos raios de sol varam os vidros para espalhar cores sobre os objetos. São muitos objetos, tantos que freqüentemente penso que daqui a algum tempo será difícil movimentar-me aqui dentro, no espaço que se reduz, quase todos feitos por mim mesmo. Como já disse, pouco saio, uma certa renda sobre alguns imóveis deixados por meus pais me permite passar aqui dias inteiros, fazendo coisas com as mãos. Descobri faz algum tempo que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas. Ocupo-as então, fazendo coisas que depois disponho pelos cantos.&lt;br /&gt;Há longas tiras de pano colorido ou papel crepom penduradas do teto, pelas portas pendem cortinas, longos fios de contas ou sementes enfiadas em cordões que balançam emitindo sons nas poucas vezes em que abro as janelas para que entre o vento, restos de manequins, braços e pernas e troncos e cabeças que costumo recolher nas latas de lixo quando saio a caminhar, nas horas em que não há mais ninguém nas ruas, e cacos de louça, garrafas cheias de água de muitas cores, pedaços de caixotes que também pinto para que não pareçam demasiado crus, e ainda recortes de figuras ou velhas fotografias que vou colando pelas paredes, montes de palha, fitas, flores secas, sobretudo rosas, sobretudo vermelhas, cujas pétalas depois de mortas ganham uma tonalidade de sangue coagulado. Isso me pacifica.&lt;br /&gt;Naquela tarde, porque chovia e não havia luz suficiente para que eu pudesse permanecer na sala, vendo as cores dos vidros desdobradas em outras sobre os objetos, tinha caminhado pela casa toda procurando algo para fazer. Cheguei a pensar em pintar as vidraças na porta do andar inferior, a que dá para o pátio interno, mas só depois de preparadas as tintas, as águas, os pincéis, percebi que não gostaria de permanecer ali sentado, vendo as poucas plantas incharem com a água da chuva, o caminho de pedras que leva até o tanque cobrindo-se de folhas caídas.&lt;br /&gt;Foi então que subi para o quarto da frente, no andar superior, decidido a pintar os vidros que dão para a rua. Ë uma dessas janelas em forma de guilhotina, dividida em duas partes, cada uma delas com dois vidros retangulares, separados por uma tira estreita de madeira. Fiquei indeciso entre qual das quatro partes pintar primeiro, e acho que começava a escolher o segundo vidro, a contar de baixo para cima, pois é justamente o que dá para a casa em frente, e mais de uma vez surpreendi os vizinhos olhando aqui para dentro, as luzes apagadas, esperando descobrir qualquer coisa na minha vida que eles não compreendem.&lt;br /&gt;Não sei quem são os vizinhos. Vejo alguns rapazes, algumas moças, mas tantos e sempre tão diferentes — na verdade não sei se diferentes ou os mesmos, apenas não presto muita atenção neles cada vez que os vejo, porque não me interessam. Como supunha que eu também não interessaria a eles. As cidades grandes como esta têm dessas coisas — você não precisa simular interesse algum pelas pessoas em volta, elas não exigem mais que um bom-dia, boa-tarde, boa-noite, às vezes nem isso, silêncio nas horas em que se costuma fazer silêncio, ruído nas horas em que usualmente se faz ruído. Não faço ruídos nem mesmo nessas horas: eliminei máquinas, televisões, rádios, embora goste de música. Mas quando quero ouvi-la, canto para mim mesmo quase sem voz um som irregular, cheio de altos e baixos, que vem do fundo da garganta, sem palavras. Talvez seja essa ausência de ruídos que os interessa, os vizinhos, ou quem sabe os intriga a muralha de vidros coloridos interposta entre o de-dentro de minha casa e o de-fora dela, não sei. Rindo um pouco comigo mesmo, porque a pintura do segundo vidro na janela do quarto dificultaria ainda mais a observação da minha vida, eu me preparava para começar o trabalho quando alguma coisa no segundo quarto me chamou.&lt;br /&gt;Não sei mais há quanto tempo mantenho vazio o segundo quarto. Desde que se foi, não o que chegou na tarde de sábado, mas um outro que viveu ali faz algum tempo. Também não sei quando. Para isso teria que saber também a minha própria idade, mas não posso sabê-la desde que rasguei todos os documentos e começaram esses estranhos buracos na memória, ocultando lembranças importantes para deixar emergir outras ao acaso, como cenas isoladas, sem importância alguma, mas de extraordinária nitidez. Uma delas, que me enche de pânico cada vez que volta, sem que eu tenha controle algum sobre o seu aparecer ou desaparecer, é a imagem de uma mão humana segurando fortemente o ponto central entre duas asas brancas, tão brancas e grandes que imagino pertencerem a um cisne, uma garça ou outra dessas aves de pernas compridas que vivem nos banhados. As grandes asas brancas sem mancha alguma debatem-se com fúria e impotência enquanto essa mão as prende firmemente. Não chego a ver inteiramente os dedos, mergulhados nas penas. Vejo somente as falanges, depois as costas de uma mão grande, morena, forte, cheia de veias azuis estufadas de sangue pelo esforço. Talvez seja uma mão masculina, pois as bordas externas estão cobertas por uma vaga penugem escura, mas sempre penso que poderia também pertencer a uma dessas mulheres rudes do campo, não sei. Quase consigo ouvir os gritos da ave. Quando a lembrança é mais demorada, algumas penas voam em todas as direções. Tão nítidas que, se eu abrisse os olhos, imagino que poderia vê-las, as penas caindo pelos cantos, sobre meu corpo, sobre os objetos. Mas nunca abro.&lt;br /&gt;De alguma forma essa cena costumava retornar com mais freqüência quando me olhava ao espelho, e foi talvez um pouco por isso que resolvi eliminá-los de casa. Sem querer vejo às vezes minha própria imagem refletida em alguma das vidraças ou no fundo de um copo, mas desvio logo os olhos. Mesmo assim posso perceber uma sombra difusa, parece cinza e longa. De certa forma, então, o que poderia dizer de mais exato se quisesse descrever a mim mesmo, seria algo assim: sou cinza e longo. Ou: é cinza e longo o que de mim obliquamente se reflete em certos vidros.&lt;br /&gt;Mas falava no segundo quarto. Tentando agora recompor tudo que se passou antes da chegada dele naquele sábado de novembro, me ocorre que talvez tenha sido um rumor leve como o debater de asas que me levou até lá. Abandonei as tintas e caminhei em direção à porta. Desde que se foi, o outro, nunca mais consegui ultrapassar esse limite. Da porta que não ultrapasso posso ver as rachaduras nas quatro paredes, o piso riscado, a janela de vidraças sem pintura voltada para o pátio. Quase sempre vou me curvando lentamente para o chão enquanto tento virar do avesso um desses buracos na memória. E procuro, então, em vez do escuro, trazer de volta certa claridade e dentro dela a face, o jeito, quem sabe mesmo a voz ou o cheiro que o outro teve quando ocupou o segundo quarto e de certa forma também um determinado espaço nisso que, talvez impreciso, costumo chamar de a minha vida. Nunca consigo. Quando toco depois no meu próprio rosto e, no limite dos dedos, percebo sulcos fundos ou bruscas protuberâncias na superfície da pele, pergunto se não teriam nascido ou pelo menos começado a afundar depois daquela partida. Parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas- separações, as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim o rosto dos que ficam. E do buraco negro da memória que ocupa agora o espaço anteriormente ocupado por essa pessoa — sim, era uma pessoa que não lembro —, em vez de faces, jeitos, vozes, nomes, cheiros, formas, chegam-me somente emoções con fusa ou palavras como estas — doloroso, amargo, irreparável.&lt;br /&gt;Eu estava então ali parado na porta aberta do quarto vazio, cheio de rachaduras nas paredes, piso riscado, vidros nus, já a me curvar em direção ao assoalho para tentar lembrar quando de repente tive certeza de que esse outro me abandonara no que eu poderia chamar de: a metade de minha vida. Portanto a idade que tenho agora, ou que tinha naquele sábado, deveria ser exatamente o dobro a idade contada a partir daquela perda. E de alguma forma, por ser justamente naquele sábado de chuva, em novembro, na tarde, essa perda — ou partida, ou ausência, ou separação, ou como queiram chamá-la — atingia seu justo dobro. Alguma coisa tinha sido inteiramente paga, como um ciclo se fecha, um trânsito ou uma lunação acabam, dando origem a outra que será completa até o seu reinício. Eu poderia pensar que a partir de então conseguiria entrar naquele quarto, vedar as rachaduras das paredes, pintar meticulosamente os vidros, enchê-lo de trapos e papéis e palha e cascas e flores secas, como as outras peças da casa, acabando com o seu deserto. Me ocorre, essa é outra coisa que poderia dizer de mim mesmo, quisesse ser preciso — além de cinza e longo —, tenho um quarto vazio por dentro. Pensando nisso, poderia quem sabe me sentir mais inteiro, como se à medida que fosse me apropriando de cada peça da casa, uma por uma, como quem finca uma bandeira em território novo, me tornasse também dono de novos territórios de mim mesmo. Mas não sei se saberia o que fazer com essa inteireza, possivelmente não me sentiria mais feliz com isso. Então para quê? fui pensando ali parado, sem querer admitir que por trás desses pensamentos escorria um outro, uma cobra silenciosa entre juncos de beira de rio, em mais uma das imagens que a memória costuma devolver inesperada. Sobre a grama verde-claro, úmida, entre juncos na beira do rio, desliza uma cobra que quase não consigo ver, tão misturada está a cor de sua pele à cor da grama e dos juncos. Não vejo também sua cabeça, nem a cauda. Somente a metade escorregadia, lentíssima, amassando suave a grama, contornando viscosa as hastes esguias dos juncos.&lt;br /&gt;Enquanto meu corpo se curvava em direção ao piso, temi que voltassem as asas, a cobra. Mas chovia tanto que o ruído dos pingos abafaria por completo não só aquele quieto rastejar como também o debater violento das asas brancas. No entanto, o que vinha à tona, mais sinuoso que o movimento da cobra, mais branco que as asas, era um pensamento tão disparatado que eu não tinha coragem de dar-lhe forma.&lt;br /&gt;Eu não queria mais ter esperanças, essa coisa gentil. Isso que chamo de minha vida, ou o que restava dela, e não deveria ser muito porque o passeio dos dedos pelo rosto revela sulcos cada vez mais fundos, estava creio que deliberadamente reduzido àquele subir e descer escadas, mexer nas tintas, recortar papéis, pintar vidraças, enfiar contas, caminhar às vezes pelas ruas esvaziadas de gentes tarde da noite. Eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre tanto quanto pode ser para sempre o que por estar vivo tem um coração que bate mas, imprevisto e fatal, um dia deixará de bater. Por não querer mais depositar esperanças em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria, estava certo, além dessas imagens assustadoras da memória, curvei-me até o chão, uma das mãos na cabeça, como se segurasse o ponto de encontro entre duas asas, a outra procurando o assoalho, como se mergulhasse numa touceira espessa de juncos, até encontrar a grama molhada de beira de rio, tocando a pele fria daquela cobra.&lt;br /&gt;Foi principalmente para não gritar — acabo sempre fazendo coisas para não gritar, como contar esta história —, já que o grito faria ruído e o ruído abalaria os vizinhos, esses mesmos que entram e saem, e com isso, se soubessem de mim que sou cinza e longo, e possivelmente sabem, pois deve ser justamente essa a silhueta que vêem através das vidraças, que tenho um quarto vazio, isso não descobririam, desde que jamais entrarão em minha casa, saberiam também que dou gritos em horas inesperadas. Para que ninguém soubesse mais nada de mim, deixei que ganhasse forma e viesse lentamente à tona aquele pensamento. Que não era exatamente um pensamento, mas algo mais fundo, como uma anunciação, um pressentimento. Alguma coisa muito dentro de mim dizia algo informe, sem palavras, que poderia talvez ser expresso como — o outro voltará.&lt;br /&gt;Paro um pouco, agora. Fiquei exausto tentando dizer sem conseguir. Não sei se me estendo demasiado assim, mas é desse jeito que tudo surge, com enorme esforço para brotar, e brotando turvo, emaranhado, confuso. Contar é desemaranhar aos poucos, como quem retira um feto de entre vísceras e placentas, lavando-o depois do sangue, das secreções, para que se torne preciso, definido, inconfundível como uma pequena pessoa. O que conto agora é uma pequena pessoa, tentando nascer.&lt;br /&gt;Talvez num novo outro, o outro antigo voltará. Foi assim que me veio — cobra, ave — na tarde de novembro. Mas em vez dessas imagens ou de outras, que também vêm às vezes, o que chegou junto com as palavras claras como se ditadas por alguém visível, tangível, solto dentro de casa, foi um cheiro a princípio sem nome. Um cheiro grosso, nem bom nem mau, um cheiro vivo de coisa em constante movimento, um cheiro vivo de coisa grande viva cheia de miúdas infinidades de outras coisas também vivas dentro dela. Custei a reconhecê-lo, há muito tempo não o vejo, e é mais difícil talvez identificar um cheiro ou um gosto de algo distante do que uma imagem. Não havia imagem. Era como o vento. Ardia na pele, feito tivesse sal. Tinha sal, esse vento que não era vento.&lt;br /&gt;Era um cheiro de mar, reconheci por fim.&lt;br /&gt;Talvez num novo outro, o outro antigo voltará. Junto com as palavras claras vinha um cheiro vivo de mar. Parado ali no chão, eu sentia que dentro de mim alguma coisa nova estava nascendo. Ou pressagiava o que viria também de fora e seria completo, pois são completas as coisas quando acontecem depois de anunciadas por dentro, criando um estado capaz de receber o que virá de fora. Como um telegrama, um telefonema, um aviso qualquer previamente anunciando a chegada, para que se possa arrumar a casa, tirar a poeira dos cantos, preparar a cama, trocar lençóis, limpar pratos, poltronas, recebendo o hóspede ao mesmo tempo desejado e inevitável.&lt;br /&gt;Começava a anoitecer quando levantei do chão e voltei ao meu quarto. Em cima da cama estavam as tintas com que começaria a pintar os vidros. O cheiro de mar era tão intenso que pensei em abrir a janela para que o ar circulasse melhor, afastando-o dali. Com aquele cheiro suspenso, a casa parecia uma ilha, um navio seminaufragado, um farol. Foi quando levei as mãos à parte de baixo da guilhotina para erguê-la, que eu o vi dobrando a esquina para aproximar-se da casa. Continuava chovendo sem parar, a luz do crepúsculo por trás das gotas de chuva tornava ainda mais vagos os contornos dos objetos. Mesmo assim tive certeza.&lt;br /&gt;As mãos nos bolsos, vestido de branco, o marinheiro dobrava lentamente a esquina da rua, como se não se importasse com a chuva.&lt;br /&gt;Na casa em frente havia música e movimento. Por um momento então quis me enganar imaginando que ele bateria naquela porta, não na minha. Porque eu não conhecia nenhum marinheiro, porque eu não recebia visitas, porque há muito tempo havia afastado disso que chamo a minha vida toda e qualquer pessoa que pudesse bater à porta numa tarde de sábado assim inesperada, porque nesta cidade sequer existe mar, porque afinal o resto do caminho não só estava traçado como era inabalável. Entre aqueles trapos, aquelas contas, aquelas cores, sem nunca ver de perto um outro rosto humano, a não ser numa cruzada ocasional tarde da noite, pelas ruas, com algum desconhecido sem importância, sem encarar de frente sequer meu próprio rosto, a tal ponto me desgostavam o humano de mim e dos outros, próximos ou distantes, e de todos. Dentro do marinheiro que vinha pela chuva havia uma coisa humana ameaçadora, estrelada, dobrando a esquina, ignorando as luzes, a música, os movimentos da casa em frente para atravessar a rua e, detendo-se sob minha janela, bater à porta.&lt;br /&gt;O cheiro de mar tornou-se mais forte quando ouvi as primeiras batidas. Contraí os olhos feridos pelo ar subitamente mais salgado. Com as duas mãos espalmadas contra o vidro, eu estava suspenso entre algo que começava a fechar-se e algo que terminava de abrir-se. As batidas continuavam. Eu precisava fazer alguma coisa, talvez descer as escadas, abrir a porta, deixar que entrasse. Ao fazer qualquer uma dessas coisas teria de aceitar que algo se fechara, e abrir a porta para que o marinheiro entrasse seria também permitir que esse outro algo terminasse de abrir-se, me levando para um caminho imprevisto.&lt;br /&gt;Como eu demorava a atender, lá embaixo ele recuou um pouco e olhou para cima. Então me viu. Ele viu meu rosto, esse mesmo que já não sei a forma. Eu vi seu rosto que não identifiquei, molhado pela chuva, esperando uma resposta.&lt;br /&gt;Tive medo que as asas ou a cobra pudessem me impedir de começar a descer as escadas. Mas nada aconteceu. Em vez dessas, uma nova visão me tomou no primeiro degrau. De um espaço aberto como o convés de um navio eu podia ver na linha do horizonte, atrás de outro navio seminaufragado entre rochas de coral vermelho, uma ilha pedregosa com uma baía de areias tão claras que brilhavam na luz do sol. Havia sol também, descobri enquanto avançava, não só porque as areias brilhavam mas porque brilhava também a água do mar, cheia de cintilações como diamantes miúdos na crista das ondas quebrando na praia da ilha. Mais além da praia percebi sobre uma elevação um farol apagado, porque era dia, erguendo-se quase desafiador contra o céu, continuei a ver, inteiramente azul, sem nenhuma nuvem. O ar tão limpo que pisquei, retinas machucadas pelo excesso de luz.&lt;br /&gt;Quando tornei a abrir os olhos, tinha acabado de descer a escada e olhava uma silhueta esbranquiçada atrás dos roxos-amarelos pintados no pequeno retângulo vertical de vidro da porta de entrada. Pensei em abri-lo, para entender o rosto que vinha antes de permitir sua entrada. Não consegui. Quase cego pelo verde do mar, pelo cristal branco da areia, pelo azul do céu que acabara de ver, pela transparência do ar, estendi a mão, dei a volta na chave e abri a porta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.&lt;br /&gt;Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.&lt;br /&gt;À minha frente, porta entreaberta, gotas da chuva caindo sobre sua roupa branca como se eu tivesse acendido uma vela com o pavio voltado para baixo, o marinheiro me olhava.&lt;br /&gt;— O quê? — perguntei. Só compreendo agora, talvez não pudesse aceitar o convite. Perguntei como quando você diz acho que vai chover ou está frio hoje, ou me dá um cigarro, qualquer outra coisa assim sem importância, pressupondo que eu e ele nos movimentaríamos ainda segundo os ritmos mecânicos, na dança urbana dos passos ensaiados de além dos vidros pintados de roxo-amarelo. Mas ele repetiu claro:&lt;br /&gt;— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.&lt;br /&gt;— De onde você veio? — perguntei ainda, a mão na porta me separando dele.&lt;br /&gt;— Vim da tua visão anterior — ele afastou as tiras coloridas que pendiam da porta. Gentilmente, mas seguro, afastou também meu braço, não como se pedisse licença para entrar num lugar que não lhe pertencia, mas ocupando o espaço que lhe era destinado. E repetiu: — Venho de tua visão imediatamente anterior a esta de agora, embora eu não seja uma visão.&lt;br /&gt;— Quando eu descia as escadas?&lt;br /&gt;Fechei a porta às suas costas.&lt;br /&gt;— Quando você descia as escadas. Daquele navio atracado na baía. Aquela de areias brancas ofuscantes, a praia daquela baía, naquela ilha. Você não viu que daquela praia partia uma estrada, subindo pelas rochas até o farol?&lt;br /&gt;Perguntei se não queria sentar.&lt;br /&gt;— Estou muito molhado — disse, afastando um monte de palha para ajeitar-se entre algumas almofadas. Tinha pernas longas, sapatos cobertos de uma lama escura onde havia alguns talos de grama grudados, vi quando estendeu os pés, eu parado no espaço à sua frente.&lt;br /&gt;— Você andou na grama?&lt;br /&gt;— Andei. Logo após a areia branca da baía, havia uma grama alta. E mais adiante, um rio.&lt;br /&gt;— E você viu então uma cobra deslizando entre juncos, na beira do rio?&lt;br /&gt;— Sim, uma cobra verde. Dessas que não fazem mal a ninguém.&lt;br /&gt;— Você a matou?&lt;br /&gt;— Não mato o que não ameaça. Nem o que vive. Eu apenas passei.&lt;br /&gt;— E a ave? Viu também a ave?&lt;br /&gt;— Estava no meio do caminho. Me limitei a afas tá-la.&lt;br /&gt;— Segurando naquele ponto exato onde as asas encontram uma com a outra?&lt;br /&gt;— E onde mais? — puxou o cachimbo do bolso, com a mão direita. Bateu-o três vezes, boca para baixo, contra a palma da mão esquerda. — Apanhei muita chuva. Tem alguma bebida forte?&lt;br /&gt;— Os marinheiros costumavam beber rum — eu disse, enquanto ele levantava a mão espalmada em frente ao meu rosto. Era uma mão grande, morena, forte, cheia de veias azuis salientes pelo esforço, as bordas externas cobertas por uma vaga penugem escura.&lt;br /&gt;— Isso é lenda — de um pacote de fumo tirado do outro bolso ele enchia lentamente o cachimbo. Teve uma espécie de sorriso. Um brilho de ouro no fundo de sua boca, eu vi. — Bebo qualquer coisa. Desde que seja forte.&lt;br /&gt;Entrei pelo pequeno corredor para ir à cozinha apanhar a garrafa de conhaque. Havia como uma vertigem na minha cabeça, mas meus gestos eram precisos. Atravessei o corredor, a segunda sala, alcan1 cei a cozinha, onde tirei de um armário a garrafa e F dois cálices. Eram cálices perfeitos, desses levemente ovalados, a boca mais estreita que a base bojuda. Tenho uma bandeja azul, não é uma bandeja especial, mas é bonita, de vidro azul, e brilha, sobre a qual dispus a garrafa com os dois cálices. Em certos dias de luz como aquele sábado não era, costumo colocar a bandeja azul ao sol, quando há, para que sua cor reflita os raios amarelos. Mudam de cor, dançam, circulam pela casa toda, pelo pátio, rebrilham, os raios. Com a bandeja nas mãos, voltando à sala, queria dizer a ele que estava atravessando a casa com o melhor que tinha nas mãos: uma bandeja de vidro azul, uma garrafa de conhaque e dois cálices perfeitos.&lt;br /&gt;Cruzava de volta a segunda sala, depois o corredor, quando me chegou uma nova visão. Ela não voltou, depois que ele se foi. Portanto o que tive daquela visão foi apenas o que houve naquele momento.&lt;br /&gt;Atrás de uma janela de vidraças divididas em vários pedaços miúdos estava o rosto de uma moça. Ela tinha uma das mãos, talvez a esquerda, aberta e apertada contra a vidraça. O outro braço suponho que estivesse caído ao longo do corpo, porque de onde estava não conseguia vê-lo. Uma franja espessa cobria sua testa, e entre o cabelo cortado na nuca e o rosto lavado eu podia ver um brinco cintilando. Um único brinco longo talvez com uma pérola ou um diamante suspensos na extremidade de um fio de ouro, e de alguma forma o sol ou outro tipo de luz, não das estrelas, porque não seria suficiente, embora bonito, devia bater contra a vidraça, pois a ponta do brinco, a pérola, ou a esmeralda, ou o diamante, ou o rubi, cintilavam, estrela mínima de sete pontas. Prefiro pensar agora que era um rubi, tinha brilho vermelho como de um Cristo flagelado que vi certa vez num museu, faz muitos anos. Chorava, o Cristo. Essa lágrima de sangue era um rubi. Do lado direito da boca da moça, um leve vinco, como esses de quem apenas tem vontade de sorrir ou por alguma razão precisa esconder uma espécie de divertida amargura. Mas no canto esquerdo, havia apenas dureza. Ou vazio. Ou nada disso, não importa.&lt;br /&gt;Fui me libertando aos poucos da visão. Como quem atravessa uma cortina de contas penduradas, dessas que se enovelam no corpo, com movimentos brandos, de ombros, cintura, pescoço, aos poucos os fios se desembaraçando dos membros. Um dos olhos dela sorria cúmplice. O outro criticava, cínico. Quando depositei a bandeja azul aos pés dele — tinha descalçado os sapatos, sustentava o calcanhar de um dos pés sobre os dedos do outro, as mãos cruzadas atrás da nuca —, perguntou servindo-se:&lt;br /&gt;— Quem era ela?&lt;br /&gt;— Ela quem?&lt;br /&gt;— A moça na janela.&lt;br /&gt;Eu me acomodei nas almofadas à sua frente. Minhas pernas ficaram estendidas ao lado das dele. Devagar enchi nossos cálices. Não tínhamos pressa. Estava anoitecendo. Chovia. Era sábado, era novembro. Atrás de qualquer palavra que disséssemos havia outras mais tranqüilas, porque tínhamos conseguido atravessar quase mais um ano inteiro — eu, ele, todos —, e tinha sido duro, mesmo que nem eu nem ele nem ninguém depois de um tempo fôssemos capazes de distingui-lo especialmente dos anteriores, tão iguais a esse que passava. Mas estávamos ali, como dois sobreviventes — para usar a linguagem que ele provavelmente teria, se falássemos disso — de um naufrágio. Ou para usar a minha própria linguagem, essa de gente que vive amontoada entre outras gentes, mesmo quando se retira, porque a vida incha lá fora, invadindo as janelas fechadas, sobreviventes de uma série descolorida de fracassos iguais e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas. Eu podia falar lento, deixando o que dizia escorregar da garganta para a língua, da língua em movimento contra o céu da boca para os lábios, que com o ar soprado entre os dentes formaria palavras um pouco ao acaso, sem muita importância, dizendo coisas como:&lt;br /&gt;— A moça. A moça na janela.&lt;br /&gt;— Sim, a moça na janela — bebeu mais um gole, me olhou atento.&lt;br /&gt;— Eu a tive um dia — fui dizendo sem dificuldade, exatamente como previra. De algo profundo como o estômago ou os intestinos subia pelo peito, atravessava longos canais escuros, atingia a língua, debruçava-se sonoro, quem sabe incompreensível, para o outro. Era assim, conversar, fui redescobrindo enquanto contava:&lt;br /&gt;— Não sei se era ela. Uma moça pálida. Tinha algumas sardas nos ombros. Essas manchas castanhas, às vezes avermelhadas. Ela as tinha, nos ombros. Sei porque via sempre seus ombros nus. — Toquei no pé dele, as meias brancas molhadas de chuva. — Eu a tocava assim, nos pés. E apertava. Ela sempre me sorria. Gostava de pintar a boca de vermelho forte. Você consegue imaginá-la? Muito branca, aquelas sardas nos ombros, a boca pintada de vermelho forte. Gostava de vestir-se de preto, também. Embora eu costumasse dizer que não era bom, absorvia vibrações, todas as vibrações, as energias. Boas, más, todas. Então a boca pintada de vermelho forte vivo ressaltava ainda mais. Qualquer coisa vermelho vivo, a boca, entre o preto do vestido e o branco da pele.&lt;br /&gt;Ele tornou a encher o cálice.&lt;br /&gt;— Você gostava dela?&lt;br /&gt;— O que é coisa, gostar?&lt;br /&gt;—Você sabe.&lt;br /&gt;— Acho que sim. Embora não parecesse. Tanto, tanto tempo.&lt;br /&gt;Bebi mais. Que não tinha importância. Gostar, o passado, a moça, os pés. Eu não podia ter memórias. Acho que disse isso em voz alta. Ou não era preciso, porque ele falou:&lt;br /&gt;— Por que não ter memórias?&lt;br /&gt;Os buracos negros, eu quis dizer. Mas fiquei quieto, desejando apenas ter um disco qualquer de cítara tocando para que nesse momento pudéssemos interromper a conversa para prestar atenção num acorde qualquer entre duas cordas, mais um silêncio que um som. Sempre podíamos ouvir a chuva, seu bater compassado na vidraça. Ou acompanhar com os olhos as gotas escorrendo atrás do roxo e do amarelo. De pontos diferentes, às vezes duas gotas deslizavam juntas para encontrarem-se em outro ponto, formando uma terceira gota maior. Mas talvez ele achasse tedioso esse tipo de diversão.&lt;br /&gt;— Ter memórias — repeti.&lt;br /&gt;Mas não era aquela moça, nem aquela a tarde, que tudo que foi de mim perdeu-se no inatingível centro obscuro desses buracos. Começava a ficar tonto com a bebida. Quis dizer a ele que a cidade não tinha mar, que eu apenas pretendia pintar a segunda vidraça de baixo para cima, para que os vizinhos não conseguissem espiar a minha vida. Quando pensei nisso tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma agitada roda colorida. Subia e baixava — eu, a Roda da Fortuna — nos braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um arcanjo dourado, em susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a ele que me havia afastado assim para que a Roda rodasse distante de mim, sem me envolver em seus volteios vertiginosos.&lt;br /&gt;— Vim de longe — ele disse. — Eu vim de fora de ti.&lt;br /&gt;Quis dizer-lhe ainda que longe estava eu, embora na rua de casas lado a lado, apertadas umas contra as outras feito pessoas com frio, mas por algum motivo precisei levantar. De repente fiquei no meio da sala, o cálice cheio numa das mãos, a outra solta no ar, esboçando um gesto que não era capaz de fechar.&lt;br /&gt;Ouça, tentei.&lt;br /&gt;E não sabia como continuar. Passa-me agora pela cabeça que os vizinhos poderiam reclamar das luzes nas janelas escancaradas, da energia excessiva saindo pelas janelas escancaradas. Bêbada, confusa, farpada. Mas não consigo me deter. Embora não conheça o ponto onde devo chegar, é para lá que me dirijo cego, aos trancos. Pouco importa o que poderia me afastar desta tentativa quem sabe inútil de recuperá-lo, ou o que trouxe consigo desde que veio e se foi. Perdi meu equilíbrio quando veio, e mentia meu equilíbrio antes que viesse.&lt;br /&gt;Olhava para mim, ali estendido sobre almofadas. Um vinco, eu via atentamente, um vinco partindo seu lábio inferior, quase emendado com outro que subia da extremidade do queixo até a borda do lábio inferior, onde o vinco anterior unia os dois num só, duas gotas de chuva se encontrando. Acho que o aceitei inteiramente nesse momento, ao perceber os contornos do rosto que me olhava com estranheza, como pedindo explicações ou tentando explicar a mim mesmo para mim, que não me via.&lt;br /&gt;— Você tem grades nos olhos — disse. Acendeu o cachimbo. Um perfume adocicado misturou-se ao cheiro de mar. — Elas estão quase sempre abertas. Não são suficientemente estreitas para prender alguém ou alguma coisa. Houve um dia em que você deixou alguém fugir por entre as grades.&lt;br /&gt;Voltei a sentar. Lembrei do segundo quarto no andar de cima. Cruzei as pernas na frente dele. Queria vê-lo melhor, embora já o tivesse visto. Um marinheiro, confirmei sem compreender. Tirara os sapatos, o chapéu, vestia-se de branco, estava deitado nas almofadas à minha frente. Então transformou-se. Sei que é brusco dizer assim, mas foi exatamente assim. Gostaria de ter certeza de que realmente o vira deitar alguma coisa como um pó ou comprimidos na minha bebida, tisanas, antes de transformar-se. Mas não seria verdadeiro.&lt;br /&gt;Eu estava um pouco tonto. As luzes da rua tinham começado a acender. Anoitecia. O roxo-amarelo dos vidros ganhou um brilho artificial quando me levantei para acender a vela no castiçal de cerâmica. Tenho horror a essas luzes que desvendam os poros abertos das pessoas, revelando sujeiras escondidas, mesmo que há muito tempo não as veja. Protegi a chama entre as palmas das mãos, mas quando me voltei para perguntar-lhe qualquer coisa como o que ou onde ou quando ou quem — ele era um grande gato cinzento me olhando com olhos verdes sobre a almofada cor de vinho. Espreguiçou-se lento, curvando as costas enquanto alongava à frente a pequena pata de unhas distendidas para depois cravá-las superficialmente, com tédio, com distraído gozo, na carne da almofada. Quando tornei a me abaixar, debruçando-me sobre ele, roçou o dorso quente contra as costas frias da minha mão. Apertei as frontes e os olhos com a outra mão. Ao retirá-la, o marinheiro me olhava.&lt;br /&gt;— Tive outra visão — eu disse.&lt;br /&gt;— Não foi uma visão. Sou muitos. — Sorriu. — Onde é o banheiro?&lt;br /&gt;Acompanhei-o escada acima. Pelo corrimão, podia ver: aquela mão saindo de sob a manga branca era a mesma que segurava as asas da ave no ponto onde se uniam. Escurecia. Quis avisá-lo de que passaríamos pelo quarto vazio, e me debati, asas seguras no limite da entrada, tentando dizer-lhe que tinha sido ali. Então olhei para dentro e vi um anjo de grandes asas brancas e pés descalços sobre o piso riscado.&lt;br /&gt;— Me olhas com olhos tristes — eu disse.&lt;br /&gt;— Porque já me fui e nada do que poderias fazer agora eu conseguiria fazer novamente, então sinto pena — disse o anjo fechando as asas sobre o rosto magro.&lt;br /&gt;Pairava sobre brasas incandescentes espalhadas pelo piso do quarto. Para não pisá-las com seus pés brancos precisava agitar as asas com algum esforço, mantendo-se em levitação, acima do fogo. Ele batia as asas suspenso sobre as brasas, um pouco ridículo. Tive vontade de rir, mas como uma ventania súbita tivesse invadido a casa, eu disse que tinha velas e mostrei a porta do banheiro.&lt;br /&gt;Conhecia aqueles ventos. Armavam-se de repente além do contorno dos edifícios que eu via da janela do segundo quarto, depois desabavam paredes adentro, soprando por todos os cantos os fiapos dos montes de palha, as contas, as tiras coloridas. Dentro do banheiro havia uma moça de ombros nus cobertos de sardas, olhos pintados de preto, boca muito vermelha, seios expostos como duas pêras maduras, as pontas levemente avermelhadas de onde sobressaía o bico mais escuro que devia prendê-los à árvore. Quis tocá-los. Cheguei a estender a mão. Foi quando vi a cauda úmida de peixe emergindo da banheira para elevar-se, verde brilhante escamoso contra os azulejos brancos. Ela sorria para mim, sereia, me convidando, Ulisses. Como uma visão, mas eu sabia que não era nenhuma das imagens libertadas do buraco negro da memória. Quando tentei tocar seus seios claros, respingados de sardas, senti o vento das asas batendo do anjo preso no segundo quarto a me comprimir contra a parede de corredor estreito, e logo depois o interior sedoso de uma capa negra com dois caninos agudos de vampiro dentro de lábios descorados abertos num meio sorriso, aproximando-se lento das veias da minha garganta. Quis senti-lo assim, macio assassino penetrante agudo suculento afundar os caninos na minha carne. Cheguei a inclinar de leve a cabeça sobre o ombro, oferecendo o pescoço para que me tivesse mais fácil.&lt;br /&gt;O vinho está quase no fim. A manhã vem vindo, não sei se conseguirei continuar contando. Naquele momento meu sangue escorreria para dar-lhe vida, essa mesma que não sei para onde levo, entre tantas quinas. Sinto frio, me debruço. O hálito gelado dele se aproxima das minhas veias, mas basta que eu suspire para que se transforme num cãozinho miúdo, inofensivo, descendo os degraus em direção à sala. Afago-o com as pontas distraídas dos dedos, manchas pretas sobre o dorso branco. Reconheço, estou em desequilíbrio, estou me distanciando cada vez mais. Faço este esforço até quem sabe alcançar um ponto tão remoto que não saberei jamais encontrar o caminho de volta, se existe um, e penso que não.&lt;br /&gt;Ao pé da escada ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem o peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas. Quero perder-me nele, como o que nunca terei, mas quando fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejam, eu, ele, uma coisa única, minhas mãos apertam o caule estreito e áspero de uma palmeira. Um vento qualquer faz com que seus galhos balancem. Quando balançam então é como se eu visse o céu, planetas, cometas, constelações, objetos não-identificados, essa palmeira nua estendida contra um céu cheio de estrelas, lunar crescente às tuas costas, quero dizer, Aldebarã logo abaixo, Vega à esquerda, Arcturus acima, basta estender a mão. Resta no ar o sal perdido de uma distante maresia, no limite dos dedos, e em cada uma das extremidades uma estrela de sete pontas iluminadas, dez rubis incendiados como a lágrima na face do Cristo que perdi no dia em que a luz cessou.&lt;br /&gt;Na base da escada, no centro da sala. Anoiteceu. Encosto o topo de minha cabeça de ralos cabelos contra o tronco seco da palmeira. Depois choro. Quase sem som. Como nas canções de miúdos arquejos, um estremecimento que faz o peito vibrar, elevando-se até os ombros. Sobe pela garganta, atinge os lábios, alcança a testa comprimida contra a palmeira como se quisesse ferir ou perfurar a si mesma. Ergo meus braços. Mesmo na ponta dos pés não consigo alcançar as palmas altas que balançam ao ritmo do vento vindo talvez de outras terras, mas certamente do mar presente nesse ar salgado que me faz contrair os olhos como antes, quando descia as escadas para abrir a porta.&lt;br /&gt;Eu estava parado no patamar da escada quando ele me disse:&lt;br /&gt;— Tenho sete formas. Navegue.&lt;br /&gt;Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade.&lt;br /&gt;Pedi que ficasse, como não ficou o outro. Mas não o suportaria, acrescentei a seguir. Sorriu. Como se nada do que eu pudesse dizer fosse capaz de modificar sua partida. Ainda chove, tentei dizer. Não importa, será melhor assim, repetia sua mão estendida. Passou-a devagar na minha face. Eu era uma coisa pequena, rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face. Ele tocou. Calçou os sapatos, apanhou o chapéu. Eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto — a segunda cama, a segunda vida — talvez para sempre. Eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida, oferecendo. Estendi a mão. Ele não podia acei tá-la&lt;br /&gt;Eu não devia estendê-la.&lt;br /&gt;— O navio demora pouco no porto — disse antes de partir. — Um marinheiro desce, olha a terra, às vezes deposita algo, e logo torna a partir.&lt;br /&gt;Seus olhos tinham a r do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, durante todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar. Conquistara esse verde móvel, inquieto, esse vagar. Tocou de leve minha mão estendida. E se foi. Ainda chovia. Fechei a porta às suas costas. Por entre os roxos e amarelos da pequena vidraça vertical, podia perceber a silhueta de alguém se afastando. Dentro de uma noite de sábado, não de agosto. Era novembro. Bebi outro gole de conhaque. Fui escorregando para o fundo, no meio das almofadas. Amanhecia. Na casa em frente, os ruídos tinham silenciado. Seria um longo domingo. Não estava triste, mesmo assim recomecei a chorar enquanto ouvia outra vez o aviso guardado para sempre na memória das paredes:&lt;br /&gt;— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Faz hoje sete dias que se foi. Acabei de contar os sete traços de tinta preta que fui fazendo, um por um, cada noite depois de sua partida, exatamente naquela vidraça que eu tinha pensado em começar a pintar quando chegou, no meio da chuva. Completei o sétimo há pouco. São seis traços irregulares, quase ideogramas chineses, e um bem definido — um risco reto, seco, sem hesitações nem adornos, o último. Atrás dos sete traços posso ver a rua deserta e, do outro lado, a casa onde sem parar entram, saem pessoas. Pela porta aberta, quando terminei o sétimo risco imaginei ver uma noiva subindo as escadas, com outras moças se aglomerando embaixo, como se ela fosse jogar o buquê. Ouvi uns risos de criança, tinir de copos, champanhes. Bons augúrios, pensei. Mas não prestei muita atenção, nem me alegrei. Não tenho certeza do que imagino ter visto. Preferi olhar para além da casa, para além da rua.&lt;br /&gt;O sol acabou de se pôr. Nestes sete dias, a chuva foi parando aos poucos. Ficou apenas o cinza. Há muitas nuvens no céu, sobre os edifícios. São essas nuvens que estão agora muito coloridas, azuis profundos invadindo o roxo para transformar-se em laranja, em dourado na altura do que deve ser o horizonte.&lt;br /&gt;Os raios suspensos sobre a cidade. Se descesse ao andar inferior poderia talvez ver como antes esses raios soltos de luz varando os roxos, os amarelos pintados nos vidros da porta de entrada para misturar as cores sobre os objetos. Poucas vezes desci, depois que se foi.&lt;br /&gt;Na verdade, não sei ao certo como atravessei os primeiros destes últimos sete dias. Talvez tenha dormido ou me movimentado dentro de alguma daquelas visões do buraco negro, porque lembro de uma espécie de névoa rompida de vez em quando por algum ruído, alguma forma. Talvez não tenham sido visões, mas sonhos, se realmente dormi. De qualquer forma, não eram exatamente iguais às visões de antes da vinda dele, nada de cobras ou aves ou partes isoladas de corpos, como mãos ou rostos. Havia pessoas inteiras dentro dessa névoa, mesmo que eu não conseguisse vê-las, ainda que não possuíssem corpos. Uma dessas pessoas atravessava a meu lado um longo corredor, um corredor inteiro recoberto de mosaicos bizantinos, em cima, embaixo, dos lados, cada um com um desenho diferente. Nesses mosaicos quem sabe houvesse cobras, juncos, asas, grama, até mesmo marinheiros, porque o corredor se estendia feito dentro da própria memória, com todos os detalhes de cada uma das inúmeras lembranças. Seria possível permanecer durante muito tempo olhando detidamente cada um deles. Mas da extremidade vedada onde eu estava, com essa pessoa a meu lado, conseguia ver a extremidade aberta do outro lado, onde estava a luz.&lt;br /&gt;Havia urgência em chegar à luz. Havia uma urgência no ar que não era exatamente minha nem da pessoa que estava comigo, mas qualquer outra coisa assim, difícil dizer, um imperativo moral ou ético chegar do outro lado, do lado de lá, do lado da luz. Eu não me movia, embora localizasse no ar, entre as figuras dos mosaicos coloridos, esse impulso de me dirigir para lá. A outra pessoa também não se movia. Eu tinha perfeita consciência dela a meu lado. Não voltava a cabeça para vê-la. Estava perfeitamente consciente da presença dela a meu lado, e sabia que ela estava também perfeitamente consciente não só da minha presença a seu lado mas também da necessidade de atravessarmos o corredor em direção à luz. Talvez ficássemos ali parados para sempre, se eu não começasse a prestar atenção nos desenhos. Até o momento em que comecei a me curvar para observar um deles mais atentamente porque havia um poço, um poço desenhado no mosaico, um poço de pedras com uma data remota inscrita provavelmente com um prego sobre uma das pedras, e quase tenho certeza do ano, 1919— tinha consciência somente de uma série de formas e cores à minha volta, como se estivesse dentro de um caleidoscópio imóvel.&lt;br /&gt;Fui dobrando lentamente o corpo em direção ao poço. Sabia que poderia penetrar nele ou naquele tempo ou naquela memória que ele representava, poderia penetrar em qualquer uma das milhares de outras figuras do corredor. E da mesma forma como sabia que devia caminhar em direção à luz, sabia também que não podia me permitir mergulhar nos mosaicos, porque desse mergulho emergiria de volta para o mesmo corredor, e após outro mergulho tornaria a ser devolvido àquele corredor, sala infinit de espelhos, assim para sempre, para sempre estaria perdido entre representações de coisas que se tinham perdido no tempo, e por perder-se no tempo tinham perdido junto a sua própria existência. Não eram reais, aquelas cenas gravadas nos mosaicos. Eu não podia permitir a mim mesmo continuar me perdendo no que deixara de ser. Sabia de tudo isso enquanto me curvava em direção ao poço, mas não conseguia recuar, hipnotizado. Foi então que a outra pessoa me tocou no ombro. Alguma coisa no toque dela me dizia exatamente o mesmo que eu acabara de pensar, me arrancava da beira do mergulho. De alguma forma, instaurava entre nós o compromisso — solene, severo — de chegar à luz na extremidade do corredor.&lt;br /&gt;Nós começamos a caminhar. Primeiro com certa pressa, depois mais lentamente. Se caminhássemos depressa as formas e as cores nos mosaicos se enovelariam umas nas outras, provocando uma espécie de tontura viscosa, colorida. Alguém de fora dali girava nas mãos o imenso caleidoscópio dentro do qual estávamos presos, fazendo a copa de uma árvore esfiapar-se em várias pontas, e de cada uma dessas pontas nascerem imagens díspares feito uma maçã meio mordida, uma peça de dominó ou xadrez, um bibelô antigo em forma de bailarina, saltando sobre um abismo ao lado do qual estavam duas crianças guardadas por um anjo negro e nu. Para que as formas não se misturassem assim, evitando a náusea, a surpresa, a confusão, começamos a caminhar mais devagar, um passo após o outro. Não sei quanto tempo durou. Penso agora que talvez exatamente os cinco primeios dias destes sete últimos, porque quando tento lembrar de tudo que se passou desde então qualquer imagem que volta parece ter feito parte dos mosaicos daquele corredor. Mesmo quando eu subia ou descia escadas para ir à cozinha comer ou beber alguma coisa, não sei se eu mesmo não estaria sendo apenas mais uma daquelas figuras.&lt;br /&gt;Nem saberei.&lt;br /&gt;Mas houve um momento em que alcançamos a Luz. Digo assim — a Luz — porque não havia nada nela. Era uma luz clara sem cor nem objetos, absolutamente limpa se comparada à infinidade de formas de onde estávamos vindo. Havia espaço ali. Um largo espaço com uma luz clara. Acho que senti medo, tive vontade de voltar atrás, sabia como me movimentar facilmente entre as figuras dos mosaicos, diminuindo, aumentando o passo para que as imagens não se misturassem, mergulhando numa ou noutra que me remeteria a outros tempos para depois me devolver ao corredor, assim por diante, tanto quanto eu quisesse, o tempo todo que me restava nisso que costumo chamar de a minha vida. Esbocei um movimento para voltar atrás, mas a outra pessoa novamente me tocou no braço antes de desaparecer junto com o corredor. Eu fiquei só.&lt;br /&gt;Agora eu não vinha nem ia para parte alguma. Estava parado no centro da grande luz clara e limpa sem poder voltar atrás. Isso era tudo. Eu precisava me movimentar dentro dela. Era com esse movimento dentro dela que alcançaria outras figuras, talvez as dos mosaicos, que não seriam figuras pois não teriam acontecido num tempo passado, mas coisas reais que estariam acontecendo agora, num tempo presente. Não mais como se estivesse dentro de um caleidoscópio, e sim como se possuísse o grande poder de construí-lo eu mesmo, escolhendo cada conta, cada pedacinho de vidro ou papel que colocaria ali dentro. Ou nem isso. Como se não mais existissem caleidoscópios.&lt;br /&gt;Como se eu fosse ao mesmo tempo diretor, ator, autor e platéia de um espetáculo que ainda não começara a acontecer. Como se não fosse um espetáculo, porque nada estava previsto e não houvera ensaio algum, como se eu jamais pudesse ter certeza se alguém decorara a sua própria fala ou estava se apropriando da fala de outro ou inventando alguma para não permanecer parado e mudo. Embora não fosse um espetáculo, não podia parar, e a essa fala de outro que era de outro alguém, ou invenção, eu precisaria responder imediatamente, não podia parar, ainda que parasse não pararia, mesmo que meu papel fosse o de um cego ou mudo ou paralítico, de alguma maneira teria que reagir ao que aconteceria à minha volta. E o que aconteceria à minha volta aconteceria de qualquer jeito. A minha não-participação seria ainda uma forma de participar, permitindo que tudo acontecesse sem interferir.&lt;br /&gt;Antes de dar um passo, eu estava exausto daquele jogo tão absurdo que qualquer nova regra podia ser inventada na hora. Não sabia se saberia jogá-lo. Nem se queria.&lt;br /&gt;Aldebarã, Vega, Arcturus — repeti. Então olhei para cima e vi uma nuvem. Foi a primeira coisa que vi dentro da luz clara. Nesse momento soube que haveria outras, à medida que avançasse ou simplesmente permanecesse ali. A nuvem aos poucos ganhou cor, um tom de rosa, acho. Depois moveu-se, como nos dias de vento. Acompanhando a nuvem com o olhar, na direção do vento fui encontrando gradualmente, fotografia revelada cada vez mais nítida, na linha do horizonte uma ilha pedregosa com uma baía redonda de areias tão claras que brilhavam na luz do sol. Era do sol a luz que banhava a ilha, a praia, descobri, e mais além, sobre uma elevação, um farol apagado, porque era dia. Aquele farol se acenderia todas as noites, jorrando luz no espaço. Meus olhos já não tinham grades. Comecei a caminhar em direção ao que via, dentro da grande luz além do corredor.&lt;br /&gt;Iniciaria pelo andar inferior, decidi quando acabei de pintar o quinto risco negro que assinalava o princípio do quinto dia. Foi essa a única ordem imposta no que faria. Depois disso andei muito tempo pela casa recolhendo as tiras de pano e papel penduradas, as cortinas, os fios enfiados de contas, tapetes, restos de manequins, cacos de louças, caixotes, fotografias, almofadas, montes de palha, pétalas secas de flores, ampulhetas, os livros todos, copos, móveis, um por um — tudo. Atravessava a segunda sala para depositá-los no pequeno pátio, à medida que agia a casa começava a parecer cvasta&amp;amp;a ÔT 112728 tormenta, depois foi ficando mais limpa, inteiramente limpa, enquanto aumentava a montanha de objetos no pátio. Sabia que me restavam três dias inteiros. Se não houvesse concluído o trabalho ao fim deles permaneceria parado na grande luz, à mercê do que aconteceria em volta. Era tempo suficiente, embora fossem muitos objetos.&lt;br /&gt;Gastei o primeiro dos últimos três dias esvaziando o andar inferior. Gastei o segundo esvaziando meu próprio quarto, mais cheio de objetos que qualquer outro. Acrescentei à montanha de detritos no pátio também as roupas todas que tinha, todos os papéis, o baú com as cartas que costumava receber, antes, talismãs, caixas, fetiches. Na metade do terceiro e último dia — hoje — esvaziei o banheiro. Mantive apenas esta roupa branca que uso, um tubo de tinta negra e um pincel para fazer o sétimo traço na vidraça.&lt;br /&gt;Acabo de fazê-lo, há pouco. A casa inteira está deserta. A casa inteira agora é igual ao segundo quarto. Despi-la assim nestes sete dias acabou por revelar as rachaduras das paredes, as manchas, as falhas do reboco, o piso riscado. É uma casa verdadeira agora, e muito velha. Uma casa que não teria conserto, tão irremediáveis e obscenas são sua velhice e nudez. Arranquei seus disfarces um a um, como se arrancasse os mosaicos daquele corredor. Na montanha do pátio não há só móveis, lençóis, papéis, há também poços, maçãs meio mordidas, peças de xadrez, unicórnios, anjos da guarda, caleidoscópios, vampiros, centauros, cristais, baralhos, mandalas. Posso entrar sem medo no segundo quarto. Ele tornou-se como o resto da Casa, ou o resto da sa tor’zou-’e como ele, você ambos tornaram-se o que sempre foram, assim sem disfarces, e nada tenho a temer de paredes vazias. Me pergunto se alguém os amaria assim, tão nus. Não sei responder. Posso não sentir nada vendo a perna alongada de uma bailarina emergindo da confusão de trapos, o rosto pintado de um manequim sobre os restos do fogão, o gelo transformado em água escorrendo pelo quadro onde, forçando os olhos, consigo divisar a mão erguida de um homem empunhando uma espada, em luta com uma espécie de demônio de asas.&lt;br /&gt;O movimento na casa da frente começou a diminuir. Estou parado no topo da escada com o galão de gasolina numa das mãos, a caixa de fósforos na outra. Conto os degraus, ao descer. Dezenove, o Sol. Na sala, os vidros pintados ainda defendem a casa do olhar dos outros, se alguém se interessasse em olhá-la. Tão vazia que já não oferece nada à curiosidade de ninguém. E tão completamente real, penso sem querer, atravessando a primeira sala para penetrar na outra, depois na cozinha. Quase todo o pátio está tomado pela montanha de detritos. Acabou de anoitecer. As nuvens se foram. O céu está completamente limpo. Há algumas estrelas sobre a minha cabeça.&lt;br /&gt;Quem sabe Aldebarã, Vega, Arcturus.&lt;br /&gt;Com cuidado, com carinho, vou derramando gasolina sobre todos os objetos. Agora já não há dor nenhuma em lembranças de emoções como partidas, quartos vazios, separações. Não tenho mais emoção alguma. Sou só um corpo dotado de movimentos que vai derramando meticuloso a gasolina sobre os objetos. Tudo isso leva muito tempo. Não há nenhum centímetro dessa estranha montanha que não esteja impregnado até o fundo. Depois sento no chão, olho. Poderia chorar, ou pensar qualquer coisa funda, viva, forte. Não choro. Nem penso nada. Sou só um corpo sentado no chão de um pátio dentro de uma cidade qualquer, olhando para uma montanha de objetos encharcados de gasolina. Fico tempo assim, eu.&lt;br /&gt;Às vezes uma estrela cadente cruza o céu em direção ao horizonte. Poderia fazer pedidos, mas nada tenho a pedir. Sentado no chão, permaneço ouvindo os barulhos da noite de sábado além dos muros. Espero paciente que se dissolvam aos poucos, que a cidade reste quieta enquanto as estrelas mudam de lugar sobre minha cabeça. Minha mente está tão alerta que é como se pairasse acima da dormência que se infiltra nos membros. Sei que eles reagirão ao primeiro comando. Quando tudo está finalmente quieto e uma pálida luz esverdeada começa a anunciar o amanhecer, faço contas lentas para verificar se a constelação do Escorpião começa a se erguer no Oriente. Então levanto, estendo pernas e braços lentamente numa dança para desentorpecer os músculos. Só depois de sentir o sangue renovado fluindo quente nas veias, risco um fósforo e trago a chama até bem perto dos olhos. As pupilas se contraem, antes de jogá-la sobre o monte de detritos. Não chego a ver o fogo. Atravesso correndo as portas abertas do interior da casa. Alcanço a rua.&lt;br /&gt;No fim da rua, olho para trás e vejo as chamas subindo nos fundos daquela que eu chamava de a minha casa. Os cálculos estavam corretos, confirmo, quando volto a cabeça para o Ocidente e vejo as Plêiades e a constelação de Orion prestes a desaparecer. O céu está cada vez mais claro. Alguns pássaros começam a cantar. Tenho vontade de cantar também. Um canto feito de palavras, não como o antigo.&lt;br /&gt;Daqui a pouco vai amanhecer. Há um vago cheiro de mar solto nas ruas.&lt;br /&gt;Hesito um pouco na esquina. Antes de me pôr a caminho, abro devagar e completamente os braços para depois fechá-los arredondados, tocando suavemente as pontas dos dedos de uma das mãos nas pontas dos dedos da outra. Como se faz para abraçar uma pessoa. Mas não há nada entre meus braços além do ar da manhã. Suspiro, sorrio, desfaço o abraço.&lt;br /&gt;Então, com as mãos vazias, finalmente começo a navegar&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5580647248235955759?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5580647248235955759/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5580647248235955759&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5580647248235955759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5580647248235955759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/08/marinheiro.html' title='MARINHEIRO'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1223825897524751167</id><published>2008-04-05T15:48:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T15:52:40.109-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>MORANGOS MOFADOS</title><content type='html'>&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Para José Márcio Penido&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Let me take you down &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;‘cause I’m going to strawberryfields&lt;br /&gt;nothíng is real, and nothing to get hung about&lt;br /&gt;strawberryfieldsforever&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Lennon &amp;amp; McCartney: “Strawberry fields forever&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prelúdio&lt;br /&gt;No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo — e queria? Enumerava frases como é-assimqile-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas lTttsafinalque.importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto dernorangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de algama gaveta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allegro Agitato&lt;br /&gt;Pois o senhor está em excelente forma, a voz elegante do médico, têniporas grisalhas como um coadjuvante de filme americano, vestido d0 bege, tom sur tom dos sapatos polidos à gravata frouxa, na medida justa entre o desalinho e a descontração. Não há nada errado com o seu coração nem com o seu corpo, muito menos com o seu cérebro. Caro senhor. Acendeu outro cigarro, desses que você fuma o dobro para evitara metade do veneno, mas não é no cérebro que acho que tenho o câncor, doutor, é na alma, e isso não aparece em check-up algum.&lt;br /&gt;Mal do nosso tempo, sei, pensou, sei, agora vai desandar a tecer considerações sócio-político-psicanalíticas sobre O Espantoso Aumento da Hipocondria Motivada Pela Paranóia dos Grande Centros Usbanos, cara bem barbeada, boca de próteses perfeitas, uma puta certa Vt disse que os médicos são os maiores tarados (talvez pela intimidade colstante com a carne humana, considerou), e este? Rápido, analisou: no máximo chupar uma boceta, praticar-sexo-oral, como diria depois, escovando meticuloso suas próteses perfeitas, naturalmente que se o senhor pudesse diminuir o cigarro sempre é bom, muito leite, fervido, é claro, para evitar os cloriformes, ar puro, um pouco de exercício, cooper, quem sabe, mais pensando no futuro do que em termos imediatos, claro. Mas se o futuro, doutor, é um inevitável finalmente alguém apertou o botão e o cogumelo metálico arrancando nossas peles vivas, bateu com cuidado o cigarro no cinzeiro, um cinzeiro de metal, odiava objetos de metal, e tudo no consultório era metal cromado, fórmica, acrílico, anti-séptico, im-po-lu-to, assim o próprio médico, não ousando além do bege. Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas, peras pálidas, macilentas maçãs verdes. Nenhuma melancia escancarada, nenhuma pitanga madura, nenhuma manga molhada, nenhum morango sangrento. Um morango mofado — e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca?&lt;br /&gt;Azia, má digestão, sorriso complacente de dentes no mínimo trinta por cento autênticos (e o que fazer, afinal? dançar um tango argentino, ou seria cantar? cantarolou calado assim “quiero emborrachar mi corazón para olvidar um toco amor que más que amor fue una traición’ tinha versos à espreita, adequados a qualquer situação, essa uma vantagem secreta sobre os outros, mas tão secreta que era também uma desvantagem, entende? nem eu, versos emboscados da nossa mais fina lira, tangos argentinos e rocks dilacerantes, com ênfase nos solos de guitarra). Um tranqüilizante levinho levinho aí umas cinco miligramas, que o senhor tome três por dia, ao acordar, após o almoço, ao deitar-se, olhos vidrados, mente quieta, coração tranqüilo, sístole, pausa, diástole, pausa, sístole, pausa, diástole, sem vãs taquicardias, freio químico nas emoções. Assim passaria a movimentar-se lépido entre malinhas 007, paletós cardin, etiquetas fiorucci, suavemente drogado, demônios suficientemente adormecidos para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, passear sentimentos, passear sentimentos desesperados de cabeça para baixo, proibido emoções cálidas, angústias fúteis, fantasias mórbidas e memórias inúteis, um nirvana da bayer e se é bayer. Suspirou, suspirava muito ultimamente, apanhou a receita, assinou um cheque com fundos, naturalmente, e saiu antes de ouvir um delicado porque, afinal, o senhor ainda é tão jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adagio sostenuto&lt;br /&gt;Quando acordou, o sol já não batia no terraço, o que trocado em miúdos significavá algo assim como mais-de-duas-da-tarde. Tinha tomado três comprimidos, um pela manhã, outro pelo almoço, outro antes de dormir, só que juntos — e o gosto persistia na boca. Strawberry, pensou, e quis então como antigamente ouvir outra vez os Beaties, mas ainda na cama teve preguiça de dar dois passos até o toca-discos, e onde andariam agora, perdidos entre tantas simones e donnas summers, tanto mas tanto tempo, nem gostava mais de maconha. Acariciou o pau murcho, com vontade longe, querendo mandar parar aquele silêncio horrível de apartamento de homem solteiro, a empregada não viria, ele não tinha colocado gasolina no carro, nem descontado cheque, nem batalhado uma trepadinha de fim de semana, nem tomado nenhuma dessas pré-lúdicas providências-de-sexta-feira-após-o-almoço, e precisava. Precisava inventar um dia inteiro ou dois, porque amanhã é domingo e segunda—feira ninguém sabe o quê.&lt;br /&gt;Acendeu um cigarro, assim em jejum lembrando úlceras, enfisemas, cirroses, camadas fibrosas recobrindo o fígado, mas o fígado continuaria existindo sob as tais fibras ou seria substituído por? Ninguém saberia explicar, cuecas sintéticas dessas que dão pruridos &amp;amp; impotência jogadas sobre o tapete, uma grana, imitação perfeita de persa. O telefone então tocou, como costuma às vezes tocar nessas horas, salvando a página em branco após a vírgula, ele estendeu a mão, tinha dedos até bonitos ele, juntas nodosas revelando angústia &amp;amp; sensibilidade, como diria Alice, mas Alice foi embora faz tempo, a cadela que eu até comia direitinho, estimulando o clitóris comme ilfaut, não é assim que se diz que se faz que se. O telefone tocou uma vez mais, e como se diz nesses casos, mais uma e mais outra e outra mais, enquanto com uma das mãos ele ligava o rádio libertando uma onda desgrenhada de violinos, Wagner, supôs, que tinha sua cultura, sua leitura, valquírias, nazismos, dachaus, judeus, e com a outra acariciava o pau começando a vibrar estimulado talvez pelos violinos, judeus, davis.&lt;br /&gt;O telefone parou, o telefone não fazia nenhum som especial ao parar, mas deveria arfar, gemer quando entrasse fundo, duro e quente, judeuzinho de merda, deve estar metido naquele kibutz no meio da areia plantando trigo, não, trigo acho que não, é muito seco, azeitonas quem sabe, milho talvez, a cabeça quente do pau vibrava na palma da mão, foi no que deu ficar trocando livrinho de Camus por Anna Seghers, pervitin por pambenil, tesão se resolve é na cama, não emprestando livro nem apresentando droga, anote, aprenda, mas agora è troppo tarde, tudo já passou e minha vida não passa de um ontem não resolvido, bom isso. E idiota. E inútil.&lt;br /&gt;Levantou de repente. Foi então que veio a náusea, só o tempo de caminhar até o banheiro e vomitar aos roncos e arquejos, onde estão todos vocês, caralho, onde as comunidades rurais, os nirvanas sem pedágio, o ácido em todas as caixas-d’água de todas as cidades, o azul dos azulejos começando a brilhar, maya, samsara, que às vezes voltava. De súbito lisérgico no meio de uma frase tonta, de um gesto pouco, de um ato porco como esse de vomitar agora as quinze miligramas leves leves. Alice abria as coxas onde a penugem se adensava em pêlos ruivos, depois gemia gostoso, calor molhado lá dentro. Neurônios arrebentados, tem um certo número sobrando, depois vão morrendo, não se recompõem nunca mais, quantos me restarão, meu deus e a mão de pêlos escuros de Davi acariciando as minhas veias até incharem, quase obscenas, latejando azul-claro sob a pele. Sabe, cara, quando te aplico assim com a agulha lá no fundo, às vezes chego a pensar que. Noites sem dormir e a luz do dia esverdeando as caras pálidas e as peles secas desidratadas e as vozes roucas de tanto falar e fumar e falar e fumar. Vomitou mais. Nojo, saudade. Sou um publicitário bem-sucedido, macio, rodando nas nuvens, o Carvalho me disse que rodando-nas-nuvens é do caralho, que achado, cara, você é um poeta, enquanto olho pra ele e não digo nada como eu mesmo já rodei nas nuvens um dia, agora tou aqui, atolado nesta bosta colorida, fodida &amp;amp; bem paga. Strawberryfields: no meio do vômito podia distinguir aqui e ali alguns pedaços de morangos boiando, esverdeados pelo mofo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andante ostinato&lt;br /&gt;Nem ontem nem amanhã, só existe agora, repetia Jack Nicholson antes de ser morto a pauladas, enquanto ele espiava Davi jogado no fundo do poço tão profundo que precisaria de uma escada para descer até lá, evitando os escombros da cidadezinha que era ao mesmo tempo Kõln após a guerra e o Passo da Guanxuma, com aquele lago no centro de onde sem parar partiam ou chegavam barcos, nunca saberia, e não importa, Alice corria entre os ciprestes do cemitério sem túmulos enquanto ele gritava Alice, Alice, minha filha, quando é que você vai se convencer que não está mais do outro lado do espelho, até encontrar Billie Holiday em pé na escada entre paredes demolidas, aqueles degraus subindo para o nada, com Billie no topo decepada, solta no espaço de escombros repetindo e repetindo “you’ve changed, baby oh baby, you’ve cbangedso much’ estendeu a mão para socorrer John Lennon mas quando abriu a boca sangrenta, feito um vento preso numa caixa fugiu aquele horrível cheiro de morangos guardados há muito tempo, como um vento vindo do mar, um mar anterior, um mar quase infinito onde nenhuma gota é passado, nenhuma gota é futuro, tudo presente imóvel e em ação contínua, o cheiro de maresia era o mesmo do hálito da pantera biônica de cabelos dourados. Ah tantos anos de análise freudiana kleiniana junguiana reichiana rankiana rogeriana gestáltica. E mofo de morangos.&lt;br /&gt;Gritaria. Mas acordou com o plim-plim eletrônico antes sequer de abrir a boca. O vento fresco da madrugada embalava as cortinas brancas feito velas de um barco encalhado, uma nau com todas as velas pandas, não adianta chorar, Alice, já falei que é loucura, pára de bater essas malditas carreiras, teu nariz vai acabar furando, melhor ser monja budista em Vitória do Espírito Santo ou carmelita descalça em Calcutá ou a mais puta das puras na putaqueapariu, não me olhe assim do fundo do poço, não me encham o saco com esse plim-plim hipnótico, eu fico aqui, meu bem, entre escombros.&lt;br /&gt;Desligou a televisão, saiu para o terraço de plantas empoeiradas, devia cuidar melhor delas, não fosse essa presença viva dentro de mim corroendo carcomendo a célula pirada na alma fermentando o gosto nojento na língua. O cheiro daquele único jasmim espalhado sobre os sete viadutos da avenida mais central. Bastava um leve impulso, debruçou-se no parapeito, entrevado, morto da cintura para baixo, da cintura para cima, da cintura para fora, da cintura para dentro — que diferença faz? Oficializar o já acontecido: perdi um pedaço, tem tempo. E nem morri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minueto e rondó&lt;br /&gt;Amanhecia. Não havia ninguém na rua.&lt;br /&gt;Não, foi assim: debruçado no terraço, ele olhou primeiro para cima — e viu que o azul do céu quase preto aqui e ali se fazia cinza cada vez mais claro em direção ao horizonte, se houvesse horizonte, em todo caso atrás dos últimos edifícios que eram, digamos, um sucedâneo de horizontes. E amanhecia, concluiu então. Debruçado no terraço, ele olhou segundo para baixo — e viu que na longa rua não havia rumores nem carros nem pessoas, sóos sete viadutos também desertos. Não havia ninguém na rua, concluiu ainda.&lt;br /&gt;Debruçado no terraço, amanhecia.&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, em seguida, um de-dentro pensou: e se alguém realmente e finalmente apertou o botão? e se aquele cinza-claro no sucedâneo de horizonte for o clarão metálico? e se eu estava dormindo quando tudo aconteceu? e se fiquei sozinho na cidade, no país, no continente, no planeta? Sabia que não. E um outro de-dentro pensava também, se sobrepujando mais claro, quase organizado, não totalmente porque para dizer a verdade não era um pensamento nem uma emoção, mas algo assim como o cinza-claro brotando natural por sobre o horizonte, se houvesse horizonte, ou como o vento fresco batendo nas cortinas, ou ainda como se uma onda nascesse daquele imóvel mar ativo, ali onde começa a luz, onde começa o vento, onde começa a onda, desse lugar qualquer que eu não sei, nem você, nem ele sabia agora: brotou qualquer coisa como — não quero ser piegas, mas talvez não tenha outro jeito — uma luz, um vento, uma onda. Exatamente. Uma onda calma ou arquejante, um vento minuano ou siroco, uma luz mortiça ou luminosa, repito que brotou, repetiu incrédulo.&lt;br /&gt;Ele teve certeza. Ou claras suspeitas. Que talvez não houvesse lesões, no sentido de perder, mas acúmulos no sentido de somar? Sim sim. Transmutações e não perdas irreparáveis, alices-davis que o tempo levara, mas substituições oportunas, como se fossem mágicas, tão a seu tempo viriam, alices-davis que um tempo novo traria? Não era uma sensação química. Ele não tinha a boca seca nem as pupilas dilatadas. Estava exatamente como era, sem aditivos.&lt;br /&gt;Vou-me embora, pensou: a estrada é longa.&lt;br /&gt;Tocou então o próprio corpo. Uma glória interior, foi assim que batizou solene, infinitamente delicado, quando ela brotou. Arpejo, foi o que lhe ocorreu, ridículo complacente, cor-nu-có-pia soletrou, quero um instante assim barroco, desejou. Mas vestido de amarelo como estava, visto de costas contra o céu, supondo que uma câmera cinematográfica colocada aqui na porta desta sala o enquadrasse agora pareceria quase bizantino, ouro sobre azul, magreza mística, que tinha sua cultura, sua leitura. E culpa alguma. Gótico, gemeu torcido, unindo as duas mãos no sexo, no ventre, no peito, no rosto e elevando-as acima da cabeça.&lt;br /&gt;O sol estava nascendo.&lt;br /&gt;Poderia talvez ser internado no próximo minuto, mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. O gosto mofado de morangos tinha desaparecido. Como uma dor de cabeça, de repente. Tinha cinco anos mais que trinta. Estava na metade, supondo que setenta fosse sua conta. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar, num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés, para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros, as mãos postas sobre o sexo.&lt;br /&gt;Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.&lt;br /&gt;Achava que sim.&lt;br /&gt;Que sim.&lt;br /&gt;Sim. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1223825897524751167?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1223825897524751167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1223825897524751167&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1223825897524751167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1223825897524751167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/morangos-mofados.html' title='MORANGOS MOFADOS'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6737625626368709049</id><published>2008-04-05T15:46:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T15:48:01.484-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;(Velha história colorida)&lt;br /&gt;Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Luiz ou CesarEsposito)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião,Júpiter saindo deAquário ou a Lua fora de curso.&lt;br /&gt;Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia- noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele antro (eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) — renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.&lt;br /&gt;Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo — e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:&lt;br /&gt;Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.&lt;br /&gt;Ernest Becker, A negação a morte.&lt;br /&gt;Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, de-lí-ci-as-o-cul-tas, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.&lt;br /&gt;O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, ho-je, falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo e1e-quem-estava-onde?Urano o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado bem assim, ela disse a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer processos esquizóides, os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.&lt;br /&gt;Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:&lt;br /&gt;Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.&lt;br /&gt;André Barbault, Astrologie&lt;br /&gt;Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes lembrou que boulevard era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:&lt;br /&gt;L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire&lt;br /&gt;à une expression supérieure et originale de sapersonalité.&lt;br /&gt;Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, lucide, por exemplo, e originale, era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.&lt;br /&gt;O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.&lt;br /&gt;Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.&lt;br /&gt;Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6737625626368709049?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6737625626368709049/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6737625626368709049&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6737625626368709049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6737625626368709049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/o-dia-em-que-urano-entrou-em-escorpio.html' title='O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6449295143472828379</id><published>2008-04-05T14:34:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T15:30:50.495-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Não consegui. Do grande esforço através dos doze meses, doze signos, doze faces, só guardo essa certeza. Que tonta travessia. Tudo bem, descansa. Faz parte não conseguir. Como Sísifo, se queres mitologias. Queres ainda? Por favor, estou farto. Brilhos baratos, as jóias eram todas falsas. Está certo, mas não quiseram te fazer mal. O mal não existe reverso do bem. Tanto faz, só peço que me deixem. Vou ficar encostado na árvore até amanhecer. Olhos abertos, feito uma vela acesa. Se ela insistir, direi que não tenho piedade alguma. Que não compreendo, não aceito nem perdôo mais a loucura. Se ele vier, pedirei que fique. Serei bom para ele. Mentira, não pedirei nem direi nada a ninguém. É indivisível, aprendi. Talvez consiga dormir. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo, poucos pensamentos todos pequenos. Sei que foi inútil quando os vejo obstinados recomeçar e recomeçar sempre. Uma serpente que morde a própria cauda, um círculo infinito de enganos, Maya. Talvez não, perdeste a fé? Não te castiga assim, está tudo em paz. Nunca houve cães. É como uma cantiga de ninar nas cinzas do fim do mundo. Um barbitú rico, se preferires. Entorpece, melancólico, te leva para longe. Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar&lt;/em&gt; &lt;em&gt;a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa, eu canto para te enganar. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;XII. ANAIS&lt;br /&gt;Sabia que em breve estariam aqui. Estou um pouco tonta, creio que misturei álcool demais neste licor. Mas com a janela aberta sempre posso colocar a cabeça para fora, em busca de ar. Meus pés doem, embora sejam o mais belo de meu corpo. Porque sei bem que, de mim, quando o sol novamente encontrar meu sol, talvez no próximo verão, quem sabe daqui a setenta verões, também estarei partindo: completa. Foi a última coisa que ouvi, parecia a voz de Virgínia. De certa forma, também a minha. Depois disso, mais nada. Foi então que soube que logo estariam aqui. Comecei a me preparar, acendendo o incenso de sândalo, arrumando sobre a cama as almofadas lilases, apagando a luz do canto, acendendo a da cabeceira, mais íntima, sob o lenço abissínio, para que me encontrem em paz e sintam-se perfeitamente à vontade nesta nuvem roxa suspensa que habito e que chamo às vezes, irônica, de “meu mundo’&lt;br /&gt;Mais tarde explicarei, mas preciso dizer agora que soube de tudo no momento em que acompanhei os passos de Marcelo até a cozinha, até vê-lo debruçado sobre Raul. Foi então que corri. Alguma coisa me doeu, mas não o que começava a acontecer, nem os pés. Eu pré-sentia tudo o que viria. Parada na porta, espiando os dois, as imagens se sobrepunham sem controle na minha cabeça. Precisei então correr para o quarto, fechar a porta, abrir completamente as folhas da janela. Podia ver ainda uns restos de roxo nascidos do vermelho mais forte do horizonte para transformar-se no azul profundo da noite. Sim, eu estaria quieta em minha nuvem numa tarde de fevereiro, talvez um pouco tonta — eu estive, corrigi, porque já tinha passado, embora não tivesse vindo — eu estaria absolutamente quieta, quem sabe ouvindo música, qualquer coisa sobre o difícil de sair às ruas onde sem parar correm automóveis e emoções se misturam enquanto pessoas mordem umas às outras, às dentadas, procurando matar a fome com pedaços, sem deixar nada em troca do membro decepado. Então invadirias subitossuave a minha porta e me falarias de coisas tão caras a mim, feitas de frágeis, falsos encantamentos, como aquele botão de rosa branca que te dei faz algum tempo, e depois se abriu espantosamente, feito uma estrela, assim durou, semanas à tua cabeceira, como se eu te iluminasse, falarias por muito tempo ainda, provando ávido meus licores, a mergulhar falsamente sábio nessas magias onde sabes que tento me equilibrar, lembrarias uns toques oblíquos de antes, certos olhares a anunciar esse momento, velhos agostos em que te afastei de mim porque te supunha menor, não me enganava, até mais tarde, tão naturalmente que nem eu nem tu saberíamos dizer de quem partiu o início do gesto, a mão de um tocaria redondaleve a pele do rosto do outro para que começasse a acontecer tudo aquilo de beijos e suores e salivas e gritos de prazer, misturados num sonho não sei se meu o teu/meu corpo que já não sabia até onde era meu ou teu, sentindo sempre, desde antes do início do gesto, do toque, que não haveria depois, até este duro engano de hoje, e na manhã seguinte tonta, saciada do esplendor, meio morta, consumada no que julgara impossível, atravessaria o dia meio cega para descobrir vagamente que, além das mentiras, terias deixado em mim a semente de uma história complicada, esta, que arrastei durante doze longos meses, até que todos brotem, até enfim te concluir primário, tosco, terrês, nunca capaz de compreender que além desta nítida dor cravada que por muitas vezes beirou a morte, porque te queria como se quer, vadia, humanamente, a solução de Deus no Outro, deixavas também um encontro que não aconteceu, que talvez nada esclareça, porque tudo é de vidro, porque brotou da confusão apaixonada que despertasse em mim, que te julguei esclarecendo a vida, peça final de um quebra-cabeça, peça inicial de outro, de um excesso de líquidos e desejos para sempre incompletos, mas que ficará, ainda que ninguém a entenda, esses ramos, esses castelos, como não ficaste, porque eras só mensagem de algo que ainda não sei, isso sei agora, o que não saberei, passageiro como o passo de um bailarino em seu curto vôo, porque minha fantasia ultrapassa tua dança e a miúda sede do teu corpo não passa de veículo mecânico, alheio, involuntário do divino ou demoníaco que suponha verbalizar.&lt;br /&gt;Quando voltar setembro, tudo estará acabado, pronto para refazer-se. Comecei a escrever sem saber&lt;br /&gt;o que dizia, e não parei. Não morri nem enlouqueci. O que invento me ultrapassa sempre. E tem asas.&lt;br /&gt;Agora também.&lt;br /&gt;Ouvi as batidas na minha porta. Eu contava os pequenos comprimidos sobre as folhas escritas, querendo morrer outra vez, quando ouvi as três batidas na porta. Antes de abrir já os tinha visto, os onze, lado a lado, me olhando. Eu estava cansada. Mas sorri para eles. Juntei os comprimidos brancos entre as mãos que estendi para Virgínia, joguei-os ao chão. Júlio começou a tentar explicar qualquer coisa que eu já sabia. Pego as folhas sobre a cama, convido-os para entrar. Mordo o último pedaço do tomate maduro que Marcelo me estende. Sento na janela aberta. Sopra um vento fresco do lado do rio. Sirvo para mim mesma uma dose de licor de violetas. Brindo a ninguém, a coisa alguma. A lua está cheia. Ordeno disciplinada as folhas. O verão acabou. E começo a ler para eles o que escrevi durante o tempo em que se batiam pela casa. Começa assim:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6449295143472828379?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6449295143472828379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6449295143472828379&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6449295143472828379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6449295143472828379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-dcimo-segundo-fragmento-da.html' title='DODECAEDRO DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4611776540997200862</id><published>2008-04-05T15:21:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T15:24:23.768-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>O DESTINO DESFOLHOU</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Em memória de&lt;br /&gt;Tânia Beatriz Pacheco Pinto.&lt;br /&gt;E para&lt;br /&gt;Fanny Abramovich,&lt;br /&gt;que me fez lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:&lt;br /&gt;onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:&lt;br /&gt;em que direção se vai?”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;(Adélia Prado: O Coração Disparado)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VÊNUS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HÁ seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema - um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.&lt;br /&gt;Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se - não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.&lt;br /&gt;Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe - sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde-musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:&lt;br /&gt;- Beatriz.&lt;br /&gt;A mãe riu, jogou para trás os cabelos - uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão - e disse assim:&lt;br /&gt;- Credo, aquela estrelete?&lt;br /&gt;Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão numa das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azul-marinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.&lt;br /&gt;Estrelete estrelete estrelete estrelete - repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora em que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela D’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra cena acontecia num dos festivais de fim de ano do Grupo Escolar, no Cine Cruzeiro do Sul.&lt;br /&gt;Ele estava na platéia, porque não sabia cantar nem dançar nem declamar, nem nada que os outros pudessem sentar e aplaudir - como ele sentava e aplaudia agora. Então Beatriz entrava no palco com um vestido branco repolhudo, sentava numa cadeira e a professora-apresentadora colocava um acordeom nos braços dela. Embora alta demais para a idade, Beatriz quase desaparecia no palco do cinema, atrás daquele enorme acordeom. Dava só para ver o rosto pálido, sério, a franja lisa acima do instrumento, as pernas compridas abaixo, tão finas que os carpins de renda desabavam sobre os sapatos de verniz preto e presilha. As duas mãos de unhas roídas, nas teclas.&lt;br /&gt;Então, acontecia. Na memória, anos depois, tinha a impressão de que havia um silêncio pouco antes dela começar. Um silêncio precedendo o brilho. Talvez não, só fantasias.&lt;br /&gt;De repente, logo após esse silêncio incerto, os dedos de unhas roídas de Beatriz começavam a mover-se sobre as teclas. Do acordeom e da voz dela, uma voz fina de vidro, agulha, espinho, brotava aos poucos uma valsinha chamada O Destino Desfolhou. O-nosso-amor-traduzia-felicidade-e-afeição, ele lembraria, suprema-glória-que-um-dia-tive-ao-alcance-da-mão. O coração bateu mais forte. Como quando soltara o balão, de tardezinha, atrás do taquaral. E alguma coisa brilhou no ar entre vermelho e roxo do entardecer, no meio das paredes descascadas do Cine Cruzeiro do Sul. Era tudo: cenas.&lt;br /&gt;Depois dessa, havia outras.&lt;br /&gt;Cenas mais comuns, com ele sentado quase sempre atrás ou ao lado dela, na primeira, segunda, terceira, quarta e quinta séries primárias. Colava de Beatriz, em Aritmética. Ela colava dele, em Linguagem. Tiravam notas boas. Mas em Comportamento, todo mês ganhavam o mínimo, porque não paravam de conversar. Todas as manhãs, menos sábado e domingo.&lt;br /&gt;Sábado não tinha Beatriz. Mas domingo, vezenquando, na missa das dez, novamente ela aparecia, ao lado da mãe. Dona Lucy não usava saias de veludo nem tinha cabelos dourados: era viúva, vestia preto, cabelos presos num coque, rosário na mão. Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A SEPARAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo. E quando começaram o ginásio houve: A Separação. Ele foi para o colégio Estadual, ela para o colégio das Freiras. Depois das férias grandes, pelas manhãs, num fim de verão, não havia mais Beatriz.&lt;br /&gt;Aos domingos, sim, tinha Beatriz na matinê das quatro. Sem dona Lucy. Havia agora Betinha, Aureluce, Tanara e outras amigas barulhentas em volta, uma fila inteira delas no Cine Cruzeiro do Sul. Com blusinhas de banlon e risadinhas, pipocas e barulho de papel de bala amassado justo na hora em que Johnny Weissmuller ia cair nas mãos dos pigmeus canibais. Areias movediças, caçadores de cabeça, dardos fatais. Odiava todas as gurias: gasguitas gasguitas. Menos ela. Quando retardava ou apressava o passo para cruzá-la na saída, ruborizava um pouco, dizia ó-h! cumprimentando - e apressava o passo de novo, para afastar-se logo e levá-la por dentro, perdoando tudo.&lt;br /&gt;Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Beatriz crescia principalmente para cima. Pescoço cada vez mais longo, rabo-de-cavalo preto liso escorrido batendo nas costas, abaixo dos ombros. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro. Descoordenava os movimentos, descontrolava a voz. Umas espinhas, uns pêlos apareciam em lugares imprevistos. Sentia-se pesado, lerdo, desconfortável como se não coubesse dentro do próprio corpo, suspenso entre ter perdido um jeito antigo de comandá-lo e ainda não ter encontrado o jeito novo. Que devia haver um.&lt;br /&gt;Nessa época, começaram os boatos. A filha da Lucy, diziam, mas mudavam logo de assunto quando ele se aproximava. Que horror, ainda conseguia ouvir, que tragédia. Primeiro o marido, agora a filha. Coitadinha, nem quinze anos. Aprendeu a maneira de ouvir sem ser visto. Na sombra, atrás da porta.&lt;br /&gt;Até surpreender, um dia, a palavra nova: leucemia. No dicionário, encontrou. Mas não conseguiu entender direito. Glóbulos, era bonito, redondo. Parecia pétala, sânscrito, dádiva: gló-bu-los. Brancos, excesso. Mata? perguntou no colégio. Disseram que sim. Em pouco tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A URGÊNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então baixou a pressa.&lt;br /&gt;Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais. Procurou Betinha, bilhete pronto, escrito com Parker em folha de arquivo. Quero falar contigo amanhã sem falta, na praça, depois da aula.&lt;br /&gt;- Tu sabes? - perguntou Betinha, olho no olho.&lt;br /&gt;Ele disse que sim.&lt;br /&gt;De tardezinha, veio a resposta: Beatriz concordava. Amanhã na praça, sem falta.&lt;br /&gt;- Mas tu sabes mesmo? - Betinha perguntou novamente.&lt;br /&gt;Outra vez, disse que sim. Perguntou se era verdade. Betinha sacudiu a cabeça, que era. Antes de ir embora, ainda falou:&lt;br /&gt;- Olha bem para o pescoço dela. Tem uns caroços aqui, assim, inchados. Aquilo é a doença.&lt;br /&gt;Ele olhou bem, quase meio-dia da manhã seguinte, sentados num banco do centro da praça. Enquanto pedia, trêmulo de amor:&lt;br /&gt;- Beatriz, quero namorar contigo.&lt;br /&gt;Ela apertou contra o peito um livro de História do Brasil:&lt;br /&gt;- Tu é muito criança - disse.&lt;br /&gt;Quase não conseguia olhar para ela. Olhava o chão de pastilhas coloridas no centro da praça. Formavam círculos, quadrados, estrelas grandes e pequenas. Menores ainda, estreletes.&lt;br /&gt;- Mas se eu sou criança - foi dizendo devagar, convincente -, se eu sou criança tu também é, porque só tens doze anos.&lt;br /&gt;- Treze - ela corrigiu. E ergueu o rosto para o sol no meio do céu. Os gânglios inchados quase desapareciam assim. Gân-gli-os, repetiu mentalmente, essa palavra que quase não conhecia.&lt;br /&gt;Espantado, percebeu que Beatriz usava batom. Batom clarinho, mal se notava. Parecia tão divertida e distante que aquela coisa densa, meio suja, dentro dele começou a se contorcer feito quisesse sair para fora. Cobra armando o bote, vômito armado na garganta. Ainda tentava controlá-la, quando insistiu:&lt;br /&gt;- Eu gosto de ti, Beatriz. Eu gosto muito de ti. Eu gosto tanto de ti.&lt;br /&gt;- Pois eu não - ela abaixou os olhos, procurando os dele. Quando encontrou, falou quase sorrindo, como quem dá uma coisa doce, não como quem enfia uma faca afiada: - Gosto só como amigo.&lt;br /&gt;- Como amigo, não me interessa - gemeu.&lt;br /&gt;Devia ser março, porque o sol era tão quente que fazia gotas de suor escorrerem entre as espinhas da cara dele até o lábio superior, onde aquele pêlos escuros começavam a se adensar. Sua cara de macho em preparação devia estar nojenta como a de um bicho. Mais tarde, bem mais tarde, se lhe perguntassem, mas ninguém saberia, poderia explicar que não tinha tido culpa. Foi aquela coisa suja de dentro que subiu descontrolada garganta acima, para atravessar a língua e os dentes até arredondar-se de repente na pergunta cruel que jogou no ar morno de meio-dia (e Sol na X, era o destino):&lt;br /&gt;- Beatriz, tu sabe que vai morrer?&lt;br /&gt;Ela levantou. Nem pálida, nem lágrimas nos olhos. Remota, fatídica. Ele levantou também. Só então percebeu que, além do batom, ela usava sapatos de saltinho que a faziam quase dois palmos mais alta que ele. Por trás dela, podia ver a torre da igreja. Talvez uma ou duas palmeiras. A caixa d’água ao longe, muito alta. O sino começou a bater. Beatriz virou as costas e saiu caminhando, pescoço erguido, o livro de História apertado contra os seios tão empinados que, num último golpe, percebeu: além do batom e dos saltinhos, Beatriz também usava sutiã.&lt;br /&gt;Beatriz era uma mulher. E ia morrer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A PARTIDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta, quis dizer, parado no meio da praça.&lt;br /&gt;Mas agora, tantos anos depois, não saberia se teve mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca. Não disse nada. Pisando lenta, olhando o sol, Beatriz foi embora para sempre dos doze anos de vida dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AH, DINDI...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou, depois disso, mais um pouco. Um, dois anos em que, além de para dentro, ele começou a crescer igual aos outros: em todas as direções. Aqueles pêlos finos engrossaram sobre o lábio superior, outros surgiram, escureceram curvas, reentrâncias. As espinhas desapareceram, a voz definiu-se. Aquela coisa densa de dentro transformou-se numa espécie de leite espesso que descobriu o jeito de puxar para fora, com movimentos da mão e estremecimentos do corpo. Na cama ao lado, Toninho repetia:&lt;br /&gt;- Vai criar cabelo na palma da mão. Vai ficar tuberculoso desse jeito. Se quiser, um dia me fala, te levo na zona. Ou vai sozinho, chega na Morocha e diz que é meu irmão, ela já sabe.&lt;br /&gt;Foram esses os anos em que Beatriz foi embora. Para a capital, para se tratar, diziam.&lt;br /&gt;Isso depois de uma fase em que ela trocou aquele batom rosa clarinho por outro vermelho, muito forte, aqueles saltos baixos por outros altíssimos, e decotes fundos, costas de fora, saias curtas, pernas cruzadas no clube, risadas estridentes na rua, cigarros e rosas de ruge nas faces cada vez mais brancas. De mão em mão, Beatriz passou. Pelas mãos de Cacá, que na aula de Educação Física abaixava o calção para mostrar o pau, o maior do colégio, quem quisesse ver. Ou pegar, alguns pegavam. Pelas mãos de Mauro, que tinha cabelo no peito e encestava bola no basquete como ninguém. E Luizão e Pancho e Caramujo e Bira e tantos outros que nem lembrava direito o nome, a cara, divulgando pelas esquinas, pela sinuca, pela praça ou matinê: ela faz de tudo, só chegar e meter a mão, dá pra qualquer um - uma percanha.&lt;br /&gt;Com ele, quase nada aconteceu, além de uma tentativa desastrada de namorar Betinha, depois que Beatriz se foi. Mas só perguntava por ela, até que um dia Betinha encheu, foi namorar Luizão, que tinha uma lambreta. Quase nada além daquele corpo crescendo em direções imprevistas, de um B gótico desenhado em segredo e carinho nas folhas finais dos cadernos, principalmente os de Geografia, quando tentava decorar as capitais - Suíça, capital Berna; Polônia, capital Varsóvia; Honduras, capital Te-gu-ci-gal-pa - e a cada nome estranho repetia e repetia, morto de saudade: para lá, então, para lá, Beatriz, quem sabe - vamos?&lt;br /&gt;Aprendeu a dirigir o Simca Chambord branco forrado de vermelho do pai. Mas Passo da Guanxuma acabava logo: só restavam quatro estradas de terra vermelha poeirenta batida, perdidas até o horizonte. Precisou professor particular de Matemática. Ficou para segunda época em Latim, não conseguia passar da primeira declinação, terra, terrae, terram. Escreveu sonetos de pé quebrado, sem parar ouviu Silvinha Telles num compacto cantando ah-Dindi-se-soubesses-o-bemque-eu-te-quero-o-mundo-seria-Dindi-lindo-Dindi...&lt;br /&gt;Até aquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sempre verão quando alguma coisa acontecia. Talvez porque no verão as pessoas tiravam cadeiras para fora de casa e, pelas calçadas, olhando estrelas, falavam de tudo que não costumavam falar durante o dia. Ele tinha aprendido o jeito de se confundir com as sombras, sem que o notassem. Tinha-se tornado uma sombra à espreita do que nunca era dito claramente, à beira do momento em que não haveria mais nenhum segredo a descobrir e a vida, então, se tornasse crua e visível, por tê-la tocado ele mesmo, não por ouvir dizer.&lt;br /&gt;Frase após frase, ficou ouvindo:&lt;br /&gt;- E a filha da Lucy, tu já soube?&lt;br /&gt;- Quem, a Beatriz?&lt;br /&gt;- E a Lucy tinha outra filha, criatura?&lt;br /&gt;Perguntei por perguntar. Que aconteceu?&lt;br /&gt;- Pois diz que morreu, em Porto Alegre.&lt;br /&gt;- Mas não me conta, criatura. Quando?&lt;br /&gt;- Ontem, tresantontem. Não sei direito. Vão enterrar lá mesmo.&lt;br /&gt;- Que barbaridade Tão novinha.&lt;br /&gt;- Pois é. Mas uma perdida. Não tinha nem dezesseis anos.&lt;br /&gt;- Um guria bonitinha. Meio espevitada, mas jeitosinha.&lt;br /&gt;- Diz que morreu grávida.&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, não me conta.&lt;br /&gt;- Que sabia que ia morrer. Aí deu um desgosto, emputeceu de repente.&lt;br /&gt;- Mas quem era o pai?&lt;br /&gt;- Deus é que sabe. Só aqui no Paço, retoçou com todos. O Cacá da Zulma, o Luizão da Lia, o Eira do Otaviano. Fora os de lá, que ninguém sabe.&lt;br /&gt;- Que coisa de louco.&lt;br /&gt;- Diz que a cabeça rachou toda antes de morrer.&lt;br /&gt;- Como, rachou?&lt;br /&gt;- Pois rachou, ué. Que nem porongo no sol. A tal da doença.&lt;br /&gt;- Mas a pobre da Lucy. Primeiro o marido, depois a filha.&lt;br /&gt;- Cada vivente com a sua sina.&lt;br /&gt;- A pobre da Beatriz.&lt;br /&gt;- Que Deus a tenha.&lt;br /&gt;- Escuta, teu filho não tinha um rabicho por ela?&lt;br /&gt;- Tinha? (Tanto tempo hoje, a garrafa de vinho quase vazia e a voz travada de Marjanne Faithfull cantando As Tears Goes By, tantas dores novas, e tão inesperadas, tivesse visto de lá, naquele tempo, com aqueles olhos que nunca mais teria.) Tinha tido mesmo - tão grosseiro, como se diz? - um rabicho por Beatriz? Não sabia responder direito.&lt;br /&gt;Deve ter olhado para cima e visto a estrela vermelha (seria Marte?) que naquele verão costumava brilhar justamente sobre a casa da Morocha. Teve um impulso, coice no peito, suor na testa. Mas esperou que o assunto mudasse, virando página após página de O Cruzeiro, jogado no sofá-cama da sala. David Nasser, disco voador, Márcia e Maristela, candangos, Odete Lara, coisas assim. Só depois de ter remanchado horas pela casa - outra vez então aquela coisa grossa, aquela coisa porca, aquela coisa furiosa dando voltas dentro dele - resolveu emergir devagarinho das sombras para a luz do poste sobre as pessoas sentadas na calçada.&lt;br /&gt;E visto assim, à luz do poste, dos cigarros, vaga-lumes e estrelas, camisa aberta ao peito, as duas mãos enfiadas fundo nos bolsos, parecia tão seguro e decidido que ninguém teria coragem de negar absolutamente nada quando pediu:&lt;br /&gt;- Pai, me empresta o auto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu a partida e enveredou pelos barrancos em direção à casa da Morocha. Alto do chão.&lt;br /&gt;- El hermano de Tonico? - ela perguntou, oferecendo a cuja de mate novo, dente de ouro na frente. - Entonces, eres tu? Bién que él me tenha hablado, muy guapo.&lt;br /&gt;Os anéis cintilaram quando ela abriu a porta para que ele penetrasse no interior enfumaçado. Já estavam lá, ou chegariam depois, não lembrava, o Caramujo, o Pancho, o Bira e talvez um ou outro daqueles bagaceiras todos que tinham tocado em Beatriz. Não falou com ninguém. Sentou sozinho numa mesa, pediu um maço de Hudson com ponta, uma cerveja. Antes que pedisse a segunda, uma loira meio velha, olhos verdes e falha num dente, pediu licença para sentar com ele. Usava saia justa de veludo de cor viva, de que nunca mais conseguiu lembrar a cor exata, embora tivesse certeza de que não era verde-musgo nem azul-marinho.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quando Toninho aos berros finalmente conseguiu acordá-lo, lembrava apenas de ter pedido para ouvir O Destino Desfolhou, depois de uma vomitada espetacular bem no meio da sala. Mais que tudo, das pernas escancaradas de uma loira meio velha numa cama de lençóis com cheiro estranho. O resto, névoa opaca, gosto de palha na boca.&lt;br /&gt;Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo.&lt;br /&gt;Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4611776540997200862?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4611776540997200862/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4611776540997200862&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4611776540997200862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4611776540997200862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/o-destino-desfolhou.html' title='O DESTINO DESFOLHOU'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1985697733643956859</id><published>2008-04-05T14:11:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T14:14:33.750-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Também conheço esse jogo। Agora pões a trunfa marroquina de espelhinhos, miçangas, bordados e cordões. Como uma coroa, sobre a cabeça. Acendes incenso, velas, jogas sal marinho nos quatro cantos, a água sobre toalha branca. Te benzes. E reviras os olhinhos, dispondo Fatídicos Arcanos. Traças sinais cabalísticos no ar e dizes coisas, Sacerdotisa de Nada, lançando profecias como quem lança milho às galinhas. A cabeça sempre um pouco baixa, para disfarçar a arrogância de ter sido A Grande Escolhida. Porca, porca, porca. Cumpres com humildade tua Amarga Sina De Ser Assim Abnegadamente Superior. E te melas toda no visgo das estrelas, te encharcas de visões equivocadas. Depois procuras o ponto de fogo entre as coxas, e só então suspiras, aliviada de tanta santidade. Ainda continuas? Pára, te ordeno. Não tens esse direito. Há mais. Onde? Tenho todos os direitos, só não suporto nenhum. Como discipliná-los, agora? Pensei que se conseguisse estaria livre. Pensei que se denunciasse a perdição deles me livraria da minha. Agora também me perdi. Destinos, anúncios luminosos. Faz um esforço, vamos. Apunhala, grita, arremata. Xangô te guia, machado em riste. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;XI. VIRGINIA&lt;br /&gt;Desde o início soube. Na verdade desde ontem, desde antes. Mas me limitei a observá-los, enquanto me aplicava nos cálculos para que não se emaranhassem os destinos nem se equivocassem os ângulos entre os planetas, as cúspides, os luminares. Embora nem sempre me ouvissem, falava assim mesmo. Dizia de Netuno embaçado, tornando ainda mais sangrenta a fúria de Marte, do movimento maléfico de Mercúrio, unido à Lua para obscurecer a luz do Sol, do brilho mais forte de Vênus em sua Casa, trazendo à tona as funduras de Saturno. Sobre todos, pairava Urano, a estimular o presságio da estranha abundância provocada por Júpiter, enquanto mais longe, por trás da consciência, como o jorro de lava dos vulcões, Plutão faria explodir o pus de todas as feridas. Dependeria de nosso exercício de alquimia saber transmutar o gosto nojento desse visgo amarelo em outro sabor mais limpo.&lt;br /&gt;Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.&lt;br /&gt;Não lhes disse isso. Não era preciso. Não porque mais uma vez não entenderiam, mas sim porque depois de desfeita a desordem instaurada por Júlio, até que se inaugurasse nova ordem, menos precária que esta, alguém precisaria ir em frente. Me limitei a chamar Arthur, apanhar seu martelo, entregar minha luneta a Raul e arrancar as tábuas pregadas sobre as janelas da cozinha. Com a ajuda de Isis e Linda, escancará-las para que entrasse o ar noturno e a luz da lua cheia. Chamei também Marcelo à porta de seu quarto, que me abraçou com ardor, umas ardências das quais talvez precisarei até minha partida no próximo verão. Por isso tomei-o pela mão, trouxe-o comigo, me agradam suas sobrancelhas espessas, unidas graves sobre o nariz, seu olho de quem não teme matar e sempre planta. Estendeu-me um tomate maduro mordido, que mordi também, passando-o depois aos outros. Ë o primeiro, ele disse. Um por um, nós o provamos, parados à frente do quarto de Anaís. Sem querer, antes de bater, pensei obscuramente qualquer coisa assim:&lt;br /&gt;porque me antecede, ela sabe mais. Repito, ainda não é claro: porque ela me antecede, talvez saiba mais; se me amparar no passado verei mais claro o futuro. Bati três vezes.&lt;br /&gt;Entre a confusão de panos roxos, cristais, fumaça de incenso, quadros, sininhos, tecidos orientais pendurados do teto sobre a cama, livros, frascos, papéis escritos, Anaís sorria muito calma. Estendeu para mim as duas mãos em concha, cheias de comprimidos brancos, depois jogou-os ao chão. Júlio quis começar a dizer alguma coisa longa demais, e um tanto confusa, mas com um sinal ela fez entender que não era preciso. Depois apanhou as folhas de papel sobre a cama, sentou-se na janela aberta — esteve aberta o tempo todo, disse, ordenando as folhas — e perguntou se queríamos entrar para ouvir. Marcelo tentou abraçá-la. Ela afastou-o com um gesto delicado, querendo dizer que não, que agora não, que desse jeito não, que assim não, que não mais, quem sabe nunca. Servindo-se de um desses licores açucarados que costuma fazer, tão roxo que acho que era o de violetas, Anaís começou a ler. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1985697733643956859?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1985697733643956859/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1985697733643956859&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1985697733643956859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1985697733643956859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-dcimo-primeiro-fragmento-da.html' title='DODECAEDRO DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-8139679856245786182</id><published>2008-04-05T14:09:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T14:10:48.863-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Bem sei que gostarias. Mas não te colocarão na cruz, querido. Quanta vaidade, quanto palavreado tolo, quanta culpa idiota. Tanta Piedosa Afetação Messiânica. Desde o começo, sempre foi mentira. E todos sabiam. Pelo menos, enfrenta. Como aquela, mentindo naturalidades com tamanha perfeição que até consegue dizer: sou simples. E diz a verdade quando mente. Não me venhas com Densas Complexidades Psicológicas. Artimanhas, embustezinhos corriqueiros. Portas falsas, coração. Tudo isso me nauseia como a décima dose de um licor de anis. Oxum boceja, uma pluma amarela cai de seu leque. A culpa não existe. A mentira não existe. Falas com arcanjos enquanto cagas. Depois lavas as mãos, lês amenidades pelos jornais. Tudo não passa de um emaranhado de vísceras. Levarás para o túmulo tanta delicadeza, tamanha pudicícia. Os vermes engordarão de tanto açúcar-cande. O que não impedirá o fedor deflutuar como uma aura às avessas sobre a tua cova. Depois, talvez, quem sabe, por que não o Túnel de Luz Ofuscante? Não decifras nada, esfinge de plástico. Até quando insistirás nessa valsa grotesca, nos cristais de palha?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;X. JÚLIO&lt;br /&gt;Que não sou apenas um, tentei dizer depois de olhar nos olhos de um por um de cada um dos outros. Éramos nove. Além de mim, Marília abraçada a Martha, ambas observando os cigarros que eu acendia sem parar, como se dissessem que precisávamos economizar, Pedro muito próximo de Ricardo, Isis com a mão ensangüentada, Linda dançando ainda, Virgínia de repente muito alta olhava para mim como se visse de longe, de cima, Raul caminhando de um lado para outro, a repetir que tinha provocado tudo. Olhei-os primeiro um a um, já disse, no fundo dos olhos de várias cores e formas. E repeti, para que entendessem, se possível perdoassem, porque senti medo de Anaís e Marcelo trancados nos quartos, de Arthur fechado no banheiro, alguma coisa que eu e não Raul deflagrara se tornava mais grave do que poderia ter sido. Eu precisava então revelar, repeti, que não era apenas um, que fora o eu de mim que eu mesmo tentava manter calado, imóvel, quem dissera aquilo, pois para torná-lo assim quieto, inofensivo, precisava me movimentar, incessantemente dizendo fazendo coisas sem muita importância para me atordoar, para estonteá-los. Sou dois, repeti, e foi esse um que vocês não conhecem direito, nem eu, quem disse que haviam soltado os cães. Depois que esse eu-ele disse foi que começou a acontecer tudo isso que me assusta agora, como um final sangrento onde só o amor de alguns que o caos fez vir à tona e a solidão ainda maior de outros, pelo contraste do encontro alheio, como eu-eu, eu-ele, como meus dois eus, parecem revelar qualquer coisa como um novo caminho para o qual talvez nem todos os meus eus nem os de vocês estarão preparados.&lt;br /&gt;Acendi outro cigarro. Linda parou de dançar, embora a música prosseguisse na sala. Isis guardou um bombom no ar, a caminho da boca aberta. Raul e Virgínia me olharam imóveis, cada um num canto. Ao mesmo tempo, Martha e Marília, Ricardo e Pedro, foram desfazendo lentos seus abraços para me olharem também. A dor e o desespero tinham ido embora das teclas do piano. Tentei ser mais claro: ele mentiu, eu disse — eu menti, se quiserem—, e mais lento, assim:&lt;br /&gt;ninguém soltou os cachorros loucos. Se alguém quiser saber por que, direi novamente: não fui eu quem mentiu, mas uma parte de mim, e se quiserem perguntar também a essa parte de mim que desconheço quase tanto quanto vocês, se eu conseguisse localizá-la para trazê-la com cuidado à tona, sem que ameace tomar o controle de tudo, talvez ela dissesse: porque o verão está no fim, porque na verdade não nos conhecemos, porque nada do que acontecia aqui, rituais, levezas mentirosas, até que minha mentira nos ameaçasse aconteceria realmente se minha mentira não fosse verdade e nada tivéssemos a defender além da verdade inteira de um próximo momento mais verdadeiro que aquele. Mesmo medonho. Baixei a cabeça quando sem pretender fui forçado a dizer assim, cínico talvez, mas absolutamente passível de perdão, embora não necessitasse dele, porque de alguma forma havia feito exatamente o que me fora destinado fazer, ainda que para isso um eu desconhecido precisasse tomar o comando de mim e disse então, olhando nos olhos de um por um dos outros oito: foi por Amor que menti.&lt;br /&gt;Afastando-se de Ricardo, Pedro aproximou-se devagar, me tocou sem ódio no ombro para dizer: és meu oposto, mas se por amor confundes e libertas o caos de tudo e de todos, por amor eu tento tocar mais fundo, procurando um vôo que não conseguiria jamais num amor menor. Eu não queria seu perdão. Eu talvez fosse embora no momento seguinte, porque não havia cães nem terror nem paixão nem encontros nem nada além da mentira que o outro eu de mim inventara.&lt;br /&gt;Eu nada disse a Pedro. Apenas observei Virgínia caminhar até a porta do banheiro para explicar tudo a Arthur, e pouco depois, o martelo nas mãos, voltar à cozinha, entregar sua luneta a Raul antes de começar o trabalho, então despregar lentamente as tábuas das janelas. As batidas do martelo misturavam-se aos sons do piano. Ajudada por Linda e Isis, escancarou de repente as duas janelas. Era possível ver a lua cheia subindo no céu, cor de laranja denso atrás dos montes, vento fresco como se viesse do mar, embora estivéssemos no centro de todas as terras, entrando pelas janelas abertas para fazer esvoaçar nossos cabelos, arrepiar os pêlos de nossos braços, esfriar nossas faces. Acho que sorri quando, acompanhada pelos outros, Virgínia enveredou pelo corredor, detendo-se à porta de Marcelo para tomá-lo pela mão, sem dizer nada. Pararam todos à frente do quarto de Anaís. Pensei que não me queriam com eles, mas Pedro me tomou pela mão e eu me deixei levar. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-8139679856245786182?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/8139679856245786182/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=8139679856245786182&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8139679856245786182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8139679856245786182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-dcimo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5258266631812075605</id><published>2008-04-05T14:03:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T14:09:17.423-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO NONO FRAGMENTO DA DÈCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;NONO FRAGMENTO DA DÈCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O gosto é bom, eu te dizia. E não impede a asa, a seta disparada em direção a Hydrus, Eridanus. Mas primeiro prova da terra. Depois, voa. Não aprendeste com Ícaro? Só não queiras tocar o Carro de Apoio. Ah quanta Ânsia Sufocante de Pureza. Quanta Mentira Adocicada. Lixo gritarei na tua cara, pura merda. Merda fedida de quem bebeu demais na noite anterior. Conheces bem a cor escura, o cheiro estranho de álcool. Não me venhas com Espiritualidades Transcendentais. Tenho mais nojo de tuas flores amarelas que de teu cu. Tua alma me importa menos que o cheiro de teu suor. Espera — também-não-é-tudo-assim-escuridão-e-morte, já dizia HH. Pára de te debater, não vais agüentar. A mulher dos comprimidosjá te olhou desconfiada. A garganta dói, provei o que não devia. A cabeça me pesa, pensei o impermitido. Tens que te movimentar no meio desses brilha recos. Tens que desmenti-los um por um. A cada dia assassinar o pai, estuprar a mãe. Pára de sonhar coloridices. Tenho asco de tuas fitas coloridas, teus perfumes. Foi assim que vocês todos morreram antes do tempo. Foi assim que eu não morri. Embora oco, estou no alto da torre, na Curva das Tormentas, as janelas abertas para que entrem todos os demônios. Os anjos também.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;IX. PEDRO&lt;br /&gt;Bebi as lágrimas de Ricardo como se a sede fosse minha, não dele. Precisava que aceitasse e permitisse meu impulso de amor para não permanecer assim, perdido entre os outros. Precisava de seu riso como Martha precisou da limpeza dos ladrilhos, até parar sozinha em frente às tábuas pregadas da janela. Você tem medo de que o sol não venha mais, eu disse, mas ele não respondeu, enquanto Manha aproximava-se devagar de Martha e eu rebuscava em vão na minha memória — tantos livros — tantas palavras gastas — uma frase, um verso qualquer capaz de fazê-lo erguer a cabeça e olhar direto para mim, me iluminando com seu olho claro. Nós estávamos todos em silêncio, o som do piano vindo da sala era muito suave agora, meu coração batia dentro do corpo debruçado sobre Ricardo, as duas mãos postas em seus ombros, as cabeças unidas. Ao afundar o rosto no seu cabelo, como um relâmpago foi que lembrei, e repeti veloz antes que se perdesse para sempre:&lt;br /&gt;Círio, candil,&lt;br /&gt;farol y luciérnaga.&lt;br /&gt;La constelación&lt;br /&gt;de la saeta.&lt;br /&gt;Ventanitas de oro&lt;br /&gt;tiemblan,&lt;br /&gt;y en la aurora se mecen cruces superpuestas. Círio, candil,&lt;br /&gt;farol y luciérnaga.3&lt;br /&gt;Sou a constelação da seta, repeti, e de repente ganhei quatro patas de cavalo plantadas sólidas sobre a terra, tronco ereto, entre as mãos humanas um arco distendido pronto a disparar a seta em direção ao céu. Senti os ombros dele se soltarem aos poucos, à medida que erguia a cabeça para me olhar. Colocou os braços em volta da minha cintura. Eu me curvei, para poder abraçá-lo inteiro.&lt;br /&gt;No mesmo momento que os acordes do piano começaram a se repetir frenéticos, sem medo algum nossas bocas abertas se procuraram. Houve nas línguas um gosto remoto das pitangas que colhíamos no caminho para o rio, depois o fresco abraço das águas envolvendo nossos membros, as gotas das lágrimas que eu bebia uma por uma ganhando lentas o mesmo gosto claro das pedras mergulhadas na sombra, poças de sol entre as quais brotava vez que outra uma descuidada flor amarela onde pousavam borboletas, essas de asas azuis transparentes, debruadas de ouro, então emergiríamos da água doce abençoados por ninfas e devas pisando descalços na terra quente de sol para subir a encosta cheia de espinhos até a cerca de arame farpado separando o abismo do caminho cercado de hibiscos que conduzia à casa de portas e janelas todos os dias escancaradas, porque era para sempre verão, em torno da qual nunca houvera nem haveria cães furiosos, latidos transformados nesse gosto vermelho de pitangas, salivas misturadas, quase negras de tão maduras. Quis dizer a ele que voltariam as manhãs, ainda mais claras agora que estávamos juntos, voltariam sim as claridades, o calor das tardes sobre a terra coberta de verde e também os crepúsculos de nuvens roxas e rosadas colorindo o cume dos montes, e mais tarde as noites embaladas por flautas, cetins, brisas com cheiro de mato varando as frestas das vidraças, se não para sempre, acho que disse, por muito tempo, por tanto tempo, tão longo, tão fundo, que será como para sempre, Ricardo, como se finalmente disparasse minha seta incendiada em direção às estrelas, trazendo-te junto comigo, porque brilharemos ambos de fogo, mais que o teu sol, a caminho dos meus inúmeros satélites girando no infinito.&lt;br /&gt;Desprendeu-se aos poucos, sem dizer nada. Voltou a cabeça para Raul, repetiu que havia provocado tudo. Mas se nada houve, me ouvi dizendo sem pretender, portanto nada foi provocado. E parecia tudo em paz, Martha e Marília abraçadas, junto à janela. Ricardo voltou-se outra vez para mim, como se sentisse ao mesmo tempo espanto e tranqüilidade pelo que eu dizia. Isis mastigou um bombom, distraída. Linda girou numa pirueta rápida, como antigamente. Os cães estavam quietos. Virgínia desembaçava lenta sua luneta na barra da saia, na cozinha limpa. Mas Júlio, Júlio olhava um por um nos olhos de cada um de nós, até começar a dizer qualquer coisa que não deveria ser dita nunca. Porque a nova ordem imposta após a desordem estabelecida poderia outra vez transformar-se em uma outra desordem que, desta vez, não sei nem sabíamos se conseguiríamos transformá-la em ordem novamente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5258266631812075605?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5258266631812075605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5258266631812075605&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5258266631812075605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5258266631812075605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-nono-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO NONO FRAGMENTO DA DÈCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1496851199191612715</id><published>2008-04-05T13:58:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:59:56.197-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre aspanelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;VIII. MARTHA&lt;br /&gt;Deixei que Pedro o abraçasse. Deixei que Linda corresse até a sala para repetir o mesmo disco. Deixei que tsis abrisse novamente o armário, à procura de outra caixa de bombons. Deixei que Júlio gritasse palavrões, chutando coisas, a caminhar de um lado para outro, como se estivesse aflito para dizer algo que não podia ser dito. Deixo que se batam e se espalhem pela casa todos os dias, feito porcos. Mas antes que acordem e depois que dormem, sou eu quem dispõe outra vez os objetos em seus lugares certos. Coloco nos cestos, nas estantes, os livros e revistas que Pedro costuma esquecer nos cantos. Verticalmente, decepo os caules das rosas que Linda traz do jardim, de tardezinha troco a água dos vasos para que durem mais. Com a flanela elimino a poeira da luneta de Virgínia, para que não se embacem os astros, os destinos. Nunca agradecem. E nada espero. Pouco me importavam os cães lá fora, pouco me importavam o terror e a loucura soltos. Não seriam eles a impor a desordem dentro desta casa que também é minha.&lt;br /&gt;Soube que não enlouqueceria quando comecei a varrer os cacos de louça espalhados pelo chão. Mesmo um pouco antes, quando vesti o avental bordado com morangos. Quando joguei no lixo os cacos coloridos das xícaras que eu mesma comprara na cidade e, sem saber por que, guardei no bolso um pedaço verde-escuro. E também ao jogar o pano bordado de Marília dentro do balde, com sabão em pó e algumas gotas de vinagre, para lavar as manchas do sangue de Isis. Recolhi as garrafas vazias de vinho, lavei os cálices, fechei as portas dos armários. Quando não restava nada mais para fazer, comecei a esfregar o chão. Depois arrumaria a sala, bateria os tapetes, as almofadas, trocaria os lençóis nos quartos, esvaziaria o cesto de roupas sujas no banheiro, lavaria as paredes dos corredores, endireitando cuidadosa os quadros tortos, bateria os tapetes, escovaria os sofás, as cortinas. Sabia que ao chegar ao fim da última tarefa a primeira estaria desfeita, e poderia então recomeçar até chegar à segunda, quando a penúltima também estaria desfeita, e novamente refazer e refazer sem parar, sem cansaços. Não me importo nem sinto medo. Sei como disciplinar as coisas, e mesmo que o caos seja inevitável, pelo menos será filtrado pela nitidez de cada coisa em seu lugar exato.&lt;br /&gt;Sim, saberia. Mas depois de lavar o chão, fiquei muito cansada de mim, de todos, de ser tudo a cada dia sempre assim. Eu me aproximei da janela e, apoiada na vassoura, olhei para fora. Era impossível olhar para fora da janela pregada por Arthur, mas olhei como se pudesse ver o pátio calçado com pedras irregulares, a parreira com restos de uvas excessivamente doces, maduras demais, depois a horta com os pés altos de milho, mais além os vales, o rio limpo, as montanhas atrás das quais devia estar nascendo uma lua cheia. Apoiada na vassoura, fui primeiro uma bruxa fatigada de seus próprios feitiços ineficientes e, um momento depois, ainda menos. Apenas uma mulher severa, marcada, sozinha, tentando inutilmente dar ordem numa casa cheia de loucos. Quis ir embora, viver minha própria vida, por mais mediana ou mesquinha que pudesse vir a ser, sem cor. Como li em algum livro, talvez de péssimo gosto na sua verdade afetada e amarga, a solidão seria uma coroa de rosas, não de espinhos, sobre a minha cabeça. Eu não esperava nada além de uma vida limpa como as águas do rio lá fora. Foi quem sabe quase longe o disco de Linda, com seu piano desesperado. Foi talvez o choro convulso de Ricardo, foi Pedro debruçado sobre ele. Nunca mais, eu pensei que alguém viria. Nunca outra vez a mão de alguém na minha pele cheia de células mortas. Mas a meu lado, tangível, no limite da mão Marília soltava meus cabelos, desabotoava um por um os botões de meu vestido empoeirado. Suave, na minha testa vincada, sua mão dissolvia as rugas, apagava aos poucos, descendo mais, esses sulcos fundos que tenho observado todos os dias lavrarem os cantos de minha boca. Quis dizer que precisava arrumar a sala, trocar os lençóis nos quartos, bater as almofadas. Mas ela colocou a mão sobre a minha boca, pedindo silêncio. Sem saber, então soube que ela não se importaria com o cheiro de pó nas minhas roupas. Como se a janela estivesse realmente aberta e pudéssemos ver, como antes, as plantas prateadas sob a luz da lua, joguei a cabeça para trás permitindo que ela lambesse devagar meus seios há tanto tempo esquecidos. E abracei-a com força, no momento exato em que a vassoura caiu ao chão, deixando minhas mãos inteiramente livres para acariciá-la também.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1496851199191612715?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1496851199191612715/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1496851199191612715&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1496851199191612715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1496851199191612715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-oitavo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2494360136300640467</id><published>2008-04-05T13:52:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:54:37.007-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;strong&gt;SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;A pedra morna de sol sob as minhas costas। Os garis limpam os restos da feira। Encosto a cabeça no tronco da árvore. Fecho os olhos, ofuscado pelo excesso de luz Dificil conciliar a manhã de fora com a treva de dentro. Respirar é uma oração que nada pede, Obá humilde. Continua, já ultrapassaste o meio, não tens mais o que temer. Repara, agora é como o centro escuro da noite. O próximo movimento só pode ser em direção à luz. Ele brilhava, ele era claro, ele era frito de sol. Todos queriam não estar ali. Não se deve, não se pode querer estar em outro lugar além do que se está. Eles desejam coisas que não existem. Eles não conhecem a paixão, nem tu. A tudo isso eu chamo tontura, não prazer. Evita a vertigem. Resseca, desbasta, o limite é a nudez do osso. Além dele, se avançares, há somente poeira. Mas cuidado, exigem-se os dentes fortes que Nanã perdeu. Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real. Como te atreves a supor que carregas O Facho de Luz? Sei bem quanto brilha, mas te digo que serias incapaz de vencer as Iansãs do vento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;VII. RUIVO&lt;br /&gt;Não sei se tive medo — dos cães, da noite, dos corpos — ou se apenas queria que me vissem. De alguma forma, pensava confuso que jogando luz sobre a cozinha outra vez nos olharíamos nos olhos. Parecia importante saber se a mão no meu cabelo pertencia a Pedro ou a Virgínia, se a boca contra a minha era de Júlio ou Martha e assim, pensei, também os outros. Para que soubéssemos, acho, da exata medida e intenção de cada toque em cada membro, foi que acendi a luz. Como um filme que de repente pára, todos me olharam imobilizados no que faziam. Eu era o centro móvel do que começaria a acontecer no próximo momento. Marília olhou como se procurasse censura nos meus olhos. Mas eu queria festa, não dor. Caminhei para o armário, apanhei três garrafas de vinho tinto, coloquei-as sobre a mesa. Pedro abriu-as, enquanto Martha dispunha os cálices. O disco parou. Em silêncio, eu à cabeceira da mesa, brindamos a qualquer coisa que ainda não viera. À nossa sobrevivência, quem sabe.&lt;br /&gt;Mas embora o vinho, a festa tinha acabado. E não nos olhávamos nos olhos, apesar da luz. Os cães já não uivavam. Não havia mais a dança de Linda nem a canção de Isis. O silêncio tornou-se tão denso que cada movimento precisava ser feito devagar, como se o ar pesasse à nossa volta, dificultando os gestos. Quis pensar então na minha vida antiga, mesmo uma nem muito remota, que fosse pelo menos até pouco antes do pôr-do-sol quando, ao voltar para casa, do caminho cercado de hibiscos que liga o portão de entrada à varanda, enxerguei Virgínia ajustando a luneta para observar Vênus. Não consegui lembrar mais nada. Eu não tinha passado. Acho que pensei que não tivesse talvez também futuro. Como no centro de um palco, na cabeceira da mesa, a luz batendo direto no meu rosto, o braço esquerdo caído ao longo do corpo, o direito segurando um cálice de vinho. Alonguei lentamente a coluna. Então olhei-os.&lt;br /&gt;Éramos nove eremitas. Na cabeceira oposta da mesa, Raul olhava como se me tivesse transferido em segredo, em silêncio, o cetro de algum poder que eu sequer adivinhava o valor. Eu preparei o chá, ele disse, você preparou o vinho: um outro e novo movimento se inicia agora. Desejei que alguém colocasse outro disco na sala, que os cães recomeçassem a uivar, que caísse de repente uma dessas tempestades violentas de verão. Nada acontecia. A tática solenidade disposta entre nós começou a pesar tanto que, como um professor ou um psicanalista, tive o impulso de olhar o relógio para dizer qualquer coisa como bem, por hoje é só. Eu não conseguia dizer nada. Desviei meus olhos dos de Raul para fixá-los num quadro pouco acima da cabeça dele: a Santa Ceia desbotada de onde Tiago Menor parecia olhar direto nos meus olhos. Outra vez me voltou à memória o caminho de hibiscos. Tirei do bolso o quadrado de papel vegetal. Ergui-o como uma hóstia, as duas mãos unidas, até que a luz batesse justamente sobre ele. Através do papel, os grãos miúdos brilhavam feito pequenos sóis.&lt;br /&gt;Uma corrente de energia percorreu os outros. Júlio apressou-se a trazer o espelho. Pedro tirou da cintura o punhal marroquino. Marília acendeu a vela. Depositei na mesa o copo de vinho. Com a mão direita, abri devagar o papel sobre a palma da mão esquerda. Antes que alguém pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, soprei fortemente o pó. Flutuou por instantes no ar, depois espalhou-se sobre os móveis, pelos cantos, pelas quinas. Dissipar a névoa, sim, talvez fosse esse o meu sentido. Mas se era realmente assim, não compreendia por que, como a noite então, uma grande tristeza, neblina, começou a descer sobre mim. Eu não tinha passado algum antes do caminho de hibiscos, os cães recomeçaram a uivar, eu só queria iluminá-los, a cozinha estava muito suja, não havia futuro. Minha vida me doía fundo sangrada sem saída. Tudo que eu precisava era o sol quente da manhã seguinte que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as mãos e comecei a chorar&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2494360136300640467?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2494360136300640467/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2494360136300640467&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2494360136300640467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2494360136300640467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-stimo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6415782129260089582</id><published>2008-04-05T13:48:00.002-03:00</published><updated>2008-04-05T13:50:27.039-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ele sabia dançar. Era bonito dançando. Mandavam sempre que repetíssemos, talvez para que os outros aprendessem a beleza. Ou mais cruéis: para que ele mesmo percebesse como eu já não conseguia dissimular o desejo de tocá-lo. Um dia, toquei. Mas sem cuidado. Como numa pirueta errada. Sem sentir, você calcula mal alguma coisa no passo e, em vez do vôo, vem a queda. O ridículo é que só no chão você percebe que caiu. Então é tarde demais. Mas havia um esboço de prazer quando nos tocávamos, na dança. E o próprio prazer, aquela noite. Gritos de gozo, mordidas, pêlos melados da porra do outro. Disse a ele que conhecia o gosto. Quando me permitem descer a colina, as pessoas olham com suspeita minha cabeça raspada: as cicatrizes expostas denunciam que estive lá. Não há como escondê-las, as marcas de Obaluaê. Por ter estado lá, quem sabe, um Quase Encontro merece punição? Me explica, que às vezes tenho medo. Deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;VI. LINDA &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como um gatinho estendido ao sol, as pernas cruzadas, curvei para dentro os ombros, abrindo lentamente os braços। O movimento brotava das omoplatas para descer pelos ombros, atingindo primeiro os antebraços, depois os cotovelos, até chegar aos pulsos, e então escorregar pelas mãos, avançar sobre um por um dos dez dedos, saindo pelas pontas, jatos de luz. Das minhas unhas jorravam raios iluminados pelas paredes da cozinha, orientados pela canção de Isis. Refletidos nas paredes, voltavam a iluminar o rosto dos outros, fachos de luz que eu conduzia para destacar as pálpebras fechadas de Marília, os cabelos de Ricardo, os olhos de Virgínia, azul, dourado. Junto com meus movimentos, a voz de Isis silenciava os cães e o terror solto em volta da casa, à procura de qualquer coisa como uma gota de sol caída no centro da cozinha suja. Meus movimentos e a voz dela limpavam o lixo da cozinha. E eu os queria assim, todos concentrados unicamente em arrancar beleza do espinho cravado naquele momento escuro que começara a se instalar dentro da casa.&lt;br /&gt;Como bailarina de circo, uma das pernas equilibrada no fio do arame, a outra alongada no ar, as mãos inesperadamente donas do poder de iluminar as coisas, as pessoas. Não sei precisar o momento em que o fio tremeu, abalando meu corpo inteiro, e o poder fugiu. De repente precisei me movimentar mais rápido, para não cair no espaço vazio sem rede, me arrebentando sobre os cacos coloridos espalhados no chão. Os gestos brotavam agora de todos os membros, já não era um gatinho novo ao sol damanhã, mas um animal ferido contraindo-se entre a dor das feridas e a tentativa de manter um equilíbrio qualquer ou captar um sopro capaz de evitar o desabamento da morte, da loucura e do ódio sobre cada uma das nossas cabeças. Isis parou de cantar, imune a meu poder que retornava, embora eu já não soubesse se com ele mobilizava luz ou treva. Mas dominava ainda outros, que acompanhavam minha fúria batendo palmas violentamente. Suada, contorcida, eu não consegui parar. Enquanto Isis procurava alguma coisa pelos armários, um a um eles levantaram-se para dançar comigo.&lt;br /&gt;Júlio apagou a luz. No escuro, não nos importávamos de pisar nos cacos, procurando pelo espaço os membros suados dos outros. Uma língua molhada, quem sabe a de Martha, entrou pela minha boca, ao mesmo tempo em que eu sentia os pêlos molhados de um peito de homem, talvez o de Pedro, colado às minhas costas. Eram da bacia que os movimentos surgiam, subindo pelo ventre, eriçando os bicos de meus peitos para alcançar o pescoço que eu jogava para trás, afastando da testa os cabelos suados. Preciso de um peso de homem sobre meu corpo, preciso de um membro duro de homem para umedecer em minhas entranhas esse vazio áspero que me faz sempre dançar e dançar, como possuída por alguma força estranha que reage sem cessar à imobilidade da morte. E no entanto, toda a ferocidade que eu provocava sem querer continuava sendo beleza e equilíbrio, porque talvez nada mais nos restasse naquela casa cercada por cachorros loucos senão amar uns aos outros. Mesmo como animais. Da selvageria, então, em vez da doçura, arrancaríamos nossa gota dourada de sol. Deitada na mesa, coxas escancaradas, puxei Pedro sobre mim. Como uma balança desequilibrada que pende de repente para um dos lados, Ricardo acendeu a luz. Vi primeiro Ísis, os enormes seios nus derramados sobre uma caixa vazia de bombons, a mão estendida para mim. O coração de Pedro batia forte contra o meu. Voltei a ouvir os sons do piano no disco que eu colocara na sala e não sei por que, olhando o chão repleto de cacos de louça coloridos, pedaços sujos de chocolate, gotas de sangue, peças suadas de roupa, percebi que a noite tinha descido completamente. Um cão uivou longe. Entre os bicos dos meus seios e os pêlos do peito de Pedro, uni cuidadosamente as pontas dos dez dedos, uma das mãos contra a outra. Como se circundasse uma delicada esfera de cristal. Como se procurasse, de alguma forma intensa e inútil, recuperar certa espécie de equilíbrio ou beleza para sempre perdidos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6415782129260089582?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6415782129260089582/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6415782129260089582&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6415782129260089582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6415782129260089582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-sexto-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3063723167454831823</id><published>2008-04-05T13:42:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T13:45:21.173-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Tanto sangue dentro do meu derramado coração, era assim? Talvez fosse, mas não se trata disso. Lamúria insuportável, o corpo, esse que se arrasta com suas carências. Não precisa pressa, calma lá. A porteira está fechada para quem quiser passar, era isso? Já te disse que não responderei. Quero saber, e depois? Passaram-se meses, ele voltou. Foi longo. Doía. Continua doendo. Ainda não acabou. Passa, passará. Às vezes ficávamos deitados na minha cama enquanto eu tentava decifrar o seu destino. Marte, Ossanha gostava das folhas, das pedras. De peixes também. Ele me ensinou que as pedras eram vivas. Desde então eu as mantenho imersas em copos cheios d’água, para que cresçam. São muitas. Agora espero outro. Que como ele, não será mais do que Uma Nova Metáfora do Encontro. Por enquanto espio as pombas nas cumeeiras. Quando não há música, canto. Quando paro de cantar, como maçãs. Os talos estão jogados pelo quarto, entre os lençóis. Apodrecem como meus sentimentos, jogados na via-láctea. Esfrego a lâmpada, mas o gênio se foi. Talvez me bata outra vez contra as grades da janela até me levarem para a mesa de choques.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;V. ISIS&lt;br /&gt;Fiquei olhando os bombons caídos no chão, misturados aos cacos coloridos. Martha e Marília repetiam tanto que precisávamos economizar que me curvei para apanhá-los. Júlio esbarrou em mim, cravei um dos cacos na palma da mão esquerda. Quando consegui arrancá-lo percebi que era de um azul muito claro, cor do céu nas tardes de verão. Lambi o sangue que não estancava, manchando os bombons, os outros cacos. Ia enxugar o sangue na barra da saia quando vi o pano branco no chão, mas só depois de tê-lo enrolado nos dedos é que Marília gritou e percebi que era o seu bordado. Aquele inacabado, dos ramos de trigo, dos quatro cantos. Tarde demais, pensei. E sem querer pensei junto que, com as manchas de sangue, o trigo pareceria ter brotado num campo de papoulas. Lembrei em seguida das papoulas que Linda e eu costumávamos comprar no final da primavera. Desejei que hoje fosse outra vez como uma manhã de novembro, verão novo no ar, para que pudéssemos colocá-las, sobretudo as vermelhas, as papoulas por todos os cantos da casa, em vasos brancos.&lt;br /&gt;Tive vontade de chorar quando pensei que o verão estava quase no fim, tive pena de mim mesma assim gorda, inícios de março, os cachorros loucos em volta da casa, jogada ali no chão da cozinha entre bombons esmagados, tábuas, pregos, cacos coloridos, sangue, Marcelo e Anais trancados nos quartos. Arthur no banheiro, Marília muito pálida à minha frente, braços cruzados sobre o peito, olhos fixos no pano que o sangue de minha mão encharcava cada vez mais. Ai o trigo, as papoulas, o bordado.&lt;br /&gt;Para não chorar, por ter pensado na noite de março descendo clara sobre os telhados, pelos bombons esmagados, principalmente por meu medo, acho, para calar a fome de açúcar no fundo da garganta, foi que comecei a cantar. Devia estar patética e porca e triste jogada no chão, mas como se aprovasse que eu ainda não começara a fazer, Linda sorriu quando abri a boca. Sem que eu escolhesse, a canção&lt;br /&gt;foi nascendo summertime2 sim eu repeti summertime and the living is easy. A voz a princípio fraca, desafinada, perseguindo uma melodia que escorregava entre os acordes repetidos do piano vindos da sala, mas aos poucos mais forte, nítida, para meu próprio espantofish are jumping and the cotton is high sufocando todos os outros sons. Pouco a pouco Marília, Raul, Júlio, Linda, Ricardo, Pedro, Martha, Virgínia sentaram-se à minha volta enquanto a noite descia, e quem sabe para tranqüilizá-los eu repetia e repetia one of these mornings e Marília fechou os olhos 1 will gonna rise up singing e Raul sorriu you’re gonna spread e Júlio apagou o cigarro your wings e Ricardo distendeu os músculos do rosto and you’ll take to the sky e Pedro fechou o livro but tili that morning e Martha tirou os óculos there’s nothing can harm you e Virgínia olhou para cima como se visse o céu with your mammy and daddy standing by e Linda então abriu devagarinho os braços começando a dançar enquanto todos batiam palmas ritmadamente e eu retomava a primeira parte da letra e todos cantávamos juntos tão alto e claro summertime summertime summertime tão completamente confiantes na manhã de sol próxima que não havia mais cães soltos nem xícaras quebradas ou bombons esmagados pelo chão.&lt;br /&gt;Minha voz era maior que eu e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anais e Arthur viessem se reunir a nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi-se transformando numa espécie de fúria que fazia os outros baterem palmas cada vez mais rapidamente até que, dissociados, havia quatro planos, distintos, sonoros, dentro da cozinha, Os uivos dos cães, o piano na sala, os movimentos de Linda e minha canção cada vez mais esfarrapada. Comecei a cantar mais baixo. Até calar. E voltou a fome de açúcar. O sangue escorria da palma da mão. Levantei com dificuldade para procurar nos armários fechados outra caixa de bombons. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3063723167454831823?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3063723167454831823/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3063723167454831823&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3063723167454831823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3063723167454831823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-quinto-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4927666211946214059</id><published>2008-04-05T13:36:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T13:41:13.357-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO QUARTO FRAGMENTO DA  DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;QUARTO FRAGMENTO DA DECIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Me perdoa, não sei se conseguirei. Disse a ela, é necessário o escuro porque dele brota a luz. Como uma larva no interior visguento da crisálida, sem supor que a borboleta será seu próximo momento. Tão bíblico, ai, tão edificante. Toma cuidado, senão daqui apouco escreverás que viste uma pombinha branca cruzando mansamente os céus, talvez uses até o plural (não te atreverias a dizer “firmamento’ não?), e era sexta-feira, dirias. Faz parte o que vi, mas esquece. Tudo. Tenho vontade de trazê-la para cá, do morro em Santa Teresa. Ela não suportaria, não suporta estardesperta e ter emoções. O ar é muito puro, chega a doer nos pulmões, eu disse quando ele espatifou as doze xícaras. Nenhum de nós poderia voltar atrás. Nem avançar ou parar de contar. Eu era o décimo terceiro. E estava mudo. Tudo isso começou faz tanto tempo. Obliqüidade, transparências. Reflexos sinuosos, ninguém compreenderia. Não estás sofrendo. Estás ausente da dor, tudo é branco. A escolha foi tua. Tem um preço: este.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV. ARTHUR&lt;br /&gt;Gosto do cheiro do corpo dela. Ao entardecer, quando se banha, deixando a pele libertar aquele perfume como o da terra molhada após as primeiras gotas de chuva. Gosto de seu rosto sem pintura alguma, do ar severo, das marcas sob os olhos, os cabelos escuros, partidos ao meio em bandós, presos na nuca por uma fita áspera, juta, sarja. Se mais tarde alguém me perguntasse por que, só poderia responder que quero Marília — soube disso pela primeira vez no momento exato em que a vi levantar-se da mesa com o bordado nas mãos. Como se a pata de um desses cães que andam lá fora se abatesse sobre a minha cabeça e entre a dor, a tontura e quem sabe também algum medo, localizasse um fogo me incendiando por dentro. Sem soltar as tábuas, o martelo e os pregos, segui atrás dela pelo corredor, desviando-me do movimento que Linda fez com os braços para tentar me impedir. Não, ninguém perguntaria nada. Batem-se todos pela casa fechada, mais loucos que os cães lá fora. Sei ainda que somente eu — cabeça, princípio — mantenho qualquer coisa como uma lucidez, poderosa o suficiente para que nenhum deles se atreva a cobrar o que fiz.&lt;br /&gt;Uma bofetada em pleno rosto vê-la ali sentada, à beira daquela ridícula Pietá, a cabeça de Raul prestes a desabar em seu colo. Não decidi nada. Como se não fosse eu, ouvi o ruído das tábuas caindo nos ladrilhos, um momento depois de já ter feito o gesto. Sem largar o martelo, torci o braço de Marília até erguê-la do chão. O pano bordado escorregou sobre o rosto de Raul, como um desses lenços que cobrem a face dos cadáveres. Quase morto assim, face encoberta: matá-lo seria apenas consumar o que já estava feito. Com o braço livre, Marília interrompeu meu impulso no instante de baixar o martelo com força sobre os ossos dele. As unhas curtas, cheias de terra, cravadas no meu braço, um pedido nos olhos escuros. Eu disse que sim, que o pouparia se ela fugisse comigo. Pela clarabóia no teto do banheiro, se empilharmos alguns móveis poderemos abri-la para alcançar o telhado, de lá saltar para um dos galhos da figueira ao lado da casa e então, como macacos, através das árvores, chegar até o rio, passando para o outro lado. Os cães hidrófobos não se atreverão a cruzar aquela água.&lt;br /&gt;Pedi todas essas coisas, cercando-a em volta da mesa. Percebi que tentava proteger alguma coisa com o corpo. Agora consigo dar certa ordem a tudo que ia acontecendo. Lembro da grande mesa de madeira e do vestido preto de Manilha encobrindo algo sobre a mesa.&lt;br /&gt;Não quero fugir, ela disse. Não daqui, não com você. Foi quando tentou alcançar a porta que liga a cozinha ao corredor e o corredor à sala que vi o bule branco cercado por doze xícaras coloridas. De repente soube que o martelo permanecera entre meus dedos exatamente para esse próximo gesto. Muito tempo antes, ele já estava pronto. Creio que foi nesse momento que Manilha fugiu.&lt;br /&gt;Os cães uivavam, cada vez mais próximos. Espatifei primeiro o bule, depois, uma a uma as xícaras coloridas. Lembro dos cacos roxos de uma delas e de como, por alguma razão obscura, absurda, tentei proteger de meus próprios golpes a xícara vermelha. Mas meu gesto não respondia à minha vontade. Guardei apenas um dos cacos, que trouxe comigo para o banheiro. Os outros começaram a correr para a cozinha. Ao passar, esbarrei no corpo redondo de Isis. Martha falou alguma coisa que não entendi. Acho que escutei Raul repetir chorando que agora nada mais podia ser feito, que estávamos perdidos. Talvez estejam, eles. Não eu. Quando meu coração parar de bater tão forte, colocarei a cadeira sobre a privada, forçarei a clarabóia com o martelo para alcançar o telhado, a figueira, o rio, o outro lado. Talvez tenha o cuidado maligno de abrir por dentro a porta do banheiro, antes de fugir. Não seria impossível, nem muito difícil, que um dos cães alcançasse o telhado. Ele gostaria de atravessar o corredor rangendo os dentes, a espuma negra na boca, para encontrá-los como se nada tivesse acontecido, reunidos feito um patético simulacro de famiia na sala de jantar. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4927666211946214059?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4927666211946214059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4927666211946214059&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4927666211946214059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4927666211946214059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-quarto-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO QUARTO FRAGMENTO DA  DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5611721543640093420</id><published>2008-04-05T13:31:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:33:51.962-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO TERCEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;TERCEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Naquele tempo a escada ainda não era amarela. Ela me ajudava. Quando as contrações se tornavam insuportáveis, eu descia pela escada que ainda não era amarela para repetir o disco. Isso me acalmava, molhar plantas, abrir livros ao acaso. Foi numa dessas vezes que encontrei os versos falando da maldição. Só então entendi que aquele era o momento exato do abandono dos Deuses. Quando Medéia perde os poderes por amor a Jasão, Exu se ausenta. Mas tudo isso é necessário? Tudo isso o quê? As explicações, as memórias, os mitos. Não sei, não sei, não consigo de outro jeito. Continuo esperando certa nitidez vinda de fora. Por enquanto, nesta outra cidade, ouço e vejo apenas o vento misturando terras, pólens, papéis, sementes, miasmas, folhas e histórias. Sopra mais forte na minha esquina sobre o abismo. Curva das Tormentas, eu a chamei. A enfermeira disse que por isso estão todos hoje mais agitados. Recuso a injeção para esquecer. Quero voar com o vento para o centro da Curva das Tormentas. Me ajuda, pai, meu pai&lt;br /&gt;— meu pai Ogum, senhor das estradas.&lt;br /&gt;III. MARILIA&lt;br /&gt;Eu a vi atravessar rápido o corredor. Parecia chorar. Nunca sabemos ao certo quando Anaís chora realmente ou se está apenas um pouco embriagada por seus licores açucarados, pelas drogas que costuma comprar nos dias em que vai à cidade, quase sempre às sextas. Logo depois ouvi os passos pesados de Marcelo saindo da cozinha para bater com força a porta do quarto. Não tive tempo de compreender. De repente havia um excesso de ruídos no ar, aquele disco de piano de que Linda tanto gosta, muito alto, um grito estridente de Ísis, os uivos dos cães, Ricardo parado no meio da sala dizendo que precisávamos fazer alguma coisa, Arthur trancando todas as portas enquanto Júlio caminhava de um lado para outro, fumando sem parar. Na mesa, Pedro, Virgínia, Martha e eu. Martha parecia concentrada fazendo contas na calculadora, anotando números no pequeno bloco, detendo-se às vezes para levantar os óculos redondos que freqüentemente escorregam por seu nariz comprido. Virgínia terminava um mapa, traçando riscos retos, azuis ou vermelhos, com quadrados ou triângulos, entre os planetas. Pedro lia. Espiei por cima de seu ombro no momento em que sublinhava uns versos assim: Aí, da terra trevosa e do Tártaro nevoento e do mar infecundo e do céu constelado, de todos, estão contíguos às fontes e confins, torturantes e bolorentos, odeiam-nos os deuses. Eu olhava minhas unhas sujas de terra, sem conseguir estender as mãos para apanhar aquele bordado com ramos de trigo nos quatro cantos, que prometi a Raul terminar hoje.&lt;br /&gt;Hesíodo: Teogonia.&lt;br /&gt;Estendia as mãos mas, antes de apanhar o pano, via a terra das unhas, então lembrava de Raul, da promessa feita. Acho que de repente fiquei espantada por estar exatamente aqui, entre todas essas pessoas, e devo ter me perguntado vagamente por que tudo em minha vida teria me conduzido para este momento, esta mesa, esses cães uivando lá fora. Não estava preocupada. Tudo que precisávamos era economizar o que restava de comida, cigarros, papel, todas essas coisas. Mas Isis, comendo bombons sem parar enquanto Júlio fumava e Martha escrevia, parecia não compreender que ignorávamos até quando os cães permaneceriam soltos. Da sensação de estranheza e também de irritação que me veio de todos eles, emergiu lenta a figura de Raul. Sabia que preparava o chá das ervas que eu colhera pela manhã, quando Marcelo foi até a cozinha contar a ele. Mas agora, depois de todos os ruídos silenciados, somente o som do piano vibrando no ar, entrecortado pelos uivos dos cães, era como se não nos importássemos com ele. Vou ver Raul, eu disse, e me afastei da mesa com o bordado inacabado nas mãos. No corredor ouvi gemidos vindos do quarto de Anaís, e qualquer coisa como um resfolegar de bicho no quarto de Marcelo. Mas não sabia se não seriam talvez os uivos dos cães, os acordes do piano ou os passos de Júlio.&lt;br /&gt;Raul estava deitado no chão da cozinha. Ele sempre me lembrava um lago. Quieto feito um lago, o branco da roupa destacado contra os ladrilhos escuros. Olhava para o teto, como se não houvesse teto. Apontou o bule branco com as doze xícaras coloridas em volta, pedindo que não deixasse ninguém quebrá-las. Todos correm perigo, disse. Para tranqüilizá-lo, sentei a seu lado. Tremíamos. Pensei em colocar a cabeça dele no meu colo, tomar suas mãos, cantar, fazer carinhos. Mas só consegui ficar muito próxima. De alguma forma, eu queria dizer que tudo aquilo importava pouco. Se soubéssemos controlar a nós mesmos, ao nosso terror, e poupar o gasto exagerado de tudo que tínhamos armazenado, nada aconteceria. Amanhã, depois, dentro de uma semana, um mês, os cães morreriam e poderíamos novamente abrir a casa, sair para o sol. Lera um dia em algum lugar que a raiva corrói aos poucos o cérebro deles. Não resistem muito. Queria dizer a Raul que pensasse no tempo que fatalmente passaria, como sempre passa.&lt;br /&gt;O que hoje é drama, sempre, amanhã estará quieto na memória. A casa, ele disse, a casa. Em seguida: o que vai ser de nós? Está tudo bem, tentei dizer, tudo bem. Mas com um martelo na mão Arthur segurou meu braço, forçando-me a levantar. Com tanta violência que o pano bordado caiu sobre o rosto de Raul.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5611721543640093420?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5611721543640093420/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5611721543640093420&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5611721543640093420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5611721543640093420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-terceiro-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO TERCEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2059701637303296125</id><published>2008-04-05T13:14:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:16:04.364-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Talvez não consiga. Ela acaba de chamar outra vez, pedindo que eu vá. Ela ainda não aprendeu a ser sozinha uma pessoa. Estou esperando por ele, eu disse. Eu não o conheço. Estou contando a história deles, como te disse naquela tarde, quando me convidaste para ir ao cinema. Preciso ter cuidado com seu nascimento, expliquei. Como uma pequena cadela prenhe, são fetos delicados estes. Mas só sabias dançar, pouco entendes dessas histórias inventadas. Requintadas, talvez banais. Espera, está ficando ainda mais obscuro. Tenta de outro jeito. Cronológico, quem&lt;br /&gt;sabe? Pode ser, pode ser. Tento: a casa, o rio, o piano, está bem assim? Porque eles queriam nascer, eu voltei na manhã seguinte para a Grande Cidade Vazia. O cimento das avenidas da Grande Cidade Vazia cheio somente de serpentinas, restos de confete, preservativos esporrados, trapos de cetim, flores de plástico, garrafas quebradas, máscaras partidas, pontas de cigarro, latas de cerveja. Fomos avançando pelo meio do lixo da alegria. Era de manhã. Fie me deixou na porta. Então comecei.&lt;br /&gt;II. MARCELO&lt;br /&gt;Achei de me masturbar. Não lavo as mãos para começar escrever. O esperma vai manchando a folha, misturado às gotas de suor que escorrem dos pêlos de ir peito. Queria saber ficar tranqüilo como Linda, que se limitou a sorrir dos cães, aumentando o volume o som para erguer uma das pernas no ar, lentameii , trazendo o braço direito estendido até a frente do tronco. Queria poder espatifar copos no chão da co)zinha, feito Arthur. Quem sabe apenas levantar uni a das sobrancelhas, feito Martha, pedindo irônica a ele que pelo menos evite quebrar também portas e janelas, para que os cães não entrem na casa. Nada me vem pela harmonia, pela violência ou pela razão. Com o sexo é que sinto.&lt;br /&gt;Decidi que me masturbaria no momento em que Júlio entrou correndo para avisar que alguém havia soltado os cães. Poderia ter procurado Anaís, que sempre deixa de lado suas cartas, seus búzios, pedras e dragões para me abrir as pernas. Um pouco distraída, às vezes meio bêbada, como se não fosse eu, como se pouco importasse, tira sem pressa minha roupa, passa as mãos nas minhas costas, fecha os olhos, às vezes lambe meu pau, escancara as coxas para que eu a penetre com vontade cada vez maior de machucá-la, de fazê-la torcer-se e gritar de dor no meio do prazer. Nunca grita. Apenas suspira, não sei se gozo ou desgosto, quando ejaculo e volta a fumar, a beber, a preparar feitiços, a cantar canções vadias. Talvez por tudo isso, também porque sabia de Anaís atrás de mim, tenha corrido à cozinha para contar a Raul.&lt;br /&gt;Sentado num banco, quase no escuro, ele estava debruçado sobre a mesa como se escolhesse feijões. Parecia rezar, a mão direita pousada sobre uma dessas esquisitas xícaras coloridas que Martlia comprou na cidade. Antes de acender a luz, por cima de seu ombro, por baixo da camisa desabotoada, eu podia ver um pedaço da carne tão branca que quase brilhava na penumbra. Quis então encostar nele, para que não gritasse, para que sentisse como uma proteção o calor do meu corpo colado às suas costas. Depois, enquanto deixasse a cabeça tombar para trás, apoiando-se contra minha barriga, eu faria com que minha mão invadisse o pano fino para beliscar-lhe o mamilo até que gemesse baixinho, repetindo meu nome. E só mais tarde, talvez, contaria dos cães, quando já estivéssemos inteiramente nus, enrolados um no outro sobre os ladrilhos frios. Tudo estava preparado. O que aconteceria já estava desenhado no ar da cozinha, bastava que eu fizesse o primeiro gesto, acompanhando o esboço de um desenho pronto. Foi quando uma voz que me pareceu a de Isis gritou ao longe e, sem planejar, meu dedo apertou o botão da luz. Coloquei a mão no ombro dele. Apertei forte. E repeti exatamente o que Júlio me dissera há pouco: soltaram os cachorros loucos.&lt;br /&gt;Não queria assustá-lo. Mas Raul ergueu-se brusco, derrubando o banco, olhando para mim como se não acreditasse. Com aquela luz dura derramada sobre a cara dele, eu via suas pupilas crescendo para invadir o azul desbotado da íris. Talvez porque meus olhos estivessem acostumados à sombra, como num desses truques de parque de diversões onde mulheres se transformam pouco a pouco em feras, de repente vi nossos doze rostos, um a um, sobrepondo-se ao rosto dele, inclusive o meu. Quando seus ossos um tanto arredondados ganharam os contornos vagos do rosto de Anaís, estendi a mão e puxei-o para mim. Tinha cheiro de ervas verdes. O cheiro de ervas verdes do corpo de Raul misturou-se ao cheiro de suor do meu próprio corpo. Eu tinha estado o dia inteiro na horta, sem camisa, embaixo do sol. Eu trazia no bolso o primeiro tomate maduro. Com uma das mãos, forcei meu amigo a ficar de frente para mim, muito próximo. Com a outra, tirei de bolso o tomate maduro. Ele me olhava sem compreender. Ouvi um dos cães uivando, perto do poço, pensei, e antes que o uivo terminasse e outro cão começasse então a uivar, entre talvez o primeiro e o segundo uivos mordi muitas vezes a boca dele, interrompendo-me apenas para repetir que estávamos perdidos.&lt;br /&gt;Então senti uma presença macia às nossas costas. Me voltei rápido, ainda a tempo de perceber as fitas das sandálias de Anaís afastando-se leves para não serem vistas. Empurrei Raul contra a mesa. Corri para o quarto. Foi tudo sôfrego, urgente. Tentei me concentrar somente em um corpo, um rosto, um sexo, mas os doze sobrepunham-se, inclusive o meu, sem ordem, no ritmo do gesto sem controle. Agora sinto os pêlos melados entre as coxas, na barriga, o leite branco no umbigo. Provo esse meu gosto espesso, adocicado. Depois o misturo — com nojo, com alegria, com fome também — aos grãos maduros do tomate que acabo de morder&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2059701637303296125?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2059701637303296125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2059701637303296125&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2059701637303296125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2059701637303296125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-segundo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4329449602730173892</id><published>2008-04-05T11:57:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T13:09:13.188-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>A MARGARIDA ENLATADA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi de repente. Nesse de repente, ele ia indo pelo meio do aterro quando viu um canteiro de margaridas. Margarida era um negócio comum: ele via sempre margaridas quando ia para sua indústria, todas as manhãs. Margaridas não o comoviam, porque não o comoviam levezas. Mas exatamente de repente, ele mandou o chofer estacionar e ficou um pouco irritado com a confusão de carros às suas costas. O motorista precisou parar um pouco adiante, e ele teve que caminhar um bom pedaço de asfalto para chegar perto do canteiro. Estavam ali, independentes dele ou de qualquer outra pessoa que gostasse ou não delas: aquelas coisas vagamente redondas, de pétalas compridas e brancas agrupadas em torno dum centro amarelo, granuloso. Margaridas. Apanhou uma e colocou-a no bolso do paletó.&lt;br /&gt;Diga-se em seu favor que, até esse momento, não premeditara absolutamente nada. Levou a margarida no bolso, esqueceu dela, subiu pelo elevador, cumprimentou as secretárias, trancou-se em sua sala. Como todos os dias, tentou fazer todas as coisas que todos os dias fazia. Não conseguiu. Tomou café, acendeu dois cigarros, esqueceu um no cinzeiro do lado direito, outro no cinzeiro do lado esquerdo, acendeu um terceiro, despediu três funcionários e passou uma descompostura na secretária. Foi só ao meio-dia que lembrou da margarida, no bolso do paletó. Estava meio informe e desfolhada, mas era ainda uma margarida. Sem saber exatamente por que, ficou pensando em algumas notícias que havia lido dias antes: o índice de suicídios nos países superdesenvolvidos, o asfalto invadindo as áreas verdes, a solidão, a dor, a poluição, a loucura e aquelas coisas sujas, perigosas e coloridas a que chamavam jovens. De repente, a luz. Brotou. Deu um grito:&lt;br /&gt;—É isso!&lt;br /&gt;Chamou imediatamente um dos redatores para bolar um slogan e esqueceu de almoçar e telefonou para suas plantações e mandou que preparassem a terra para novo plantio e ordenou a um de seus braços-direitos que comprasse todos os pacotes de sementes encontráveis no mercado depois achou melhor importá-las dos mais variados tamanhos cores e feitios depois voltou atrás e achou melhor especializar-se justamente na mais banal de todas aquela vagamente redonda de pétalas brancas e miolo granuloso e conseguiu organizar em poucos minutos toda uma equipe altamente especializada e contratou novos funcionários e demitiu outros e precisou tomar uma bolinha para suportar o tempo todo o tempo todo tinha consciência da importância do jogo exaustou afundou noite adentro sem atender aos telefonemas da mulher ao lado da equipe batalhando não podia perder tempo quase à meia-noite tudo estava resolvido e a campanha seria lançada no dia seguinte não podia perder tempo comprou duas ou três gráficas para imprimir os cartazes e mandou as fábricas de latas acelerar sua produção precisava de milhões de unidades dentro de quinze dias prazo máximo porque não podia perder tempo e tudo pronto voltou pelo meio do aterro as margaridas fantasmagóricas reluzindo em branco entre o verde do aterro a cabeça quase estourando de prazer e a sensação nítida clara definida de não ter perdido tempo. Dormiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, acordou mais cedo do que de costume e mandou o chofer rodar pela cidade. Os cartazes. As ruas cheias de cartazes, as pessoas meio espantadas, desceu, misturou-se com o povo, ouviu os comentários, olhou, olhou. Os cartazes. O fundo negro com uma margarida branca, redonda e amarela, destacada, nítida. Na parte inferior, o slogan:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ponha uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorriu. Ninguém entendia direito. Dúvidas. Suposições: um filme underground, uma campanha antitóxicos, um livro de denúncia. Ninguém entendia direito. Mas ele e sua equipe sabiam. Os jornais e revistas das duas semanas seguintes traziam textos, fotos, chamadas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O índice de poluição dos rios é alarmante.&lt;br /&gt;Não entre nessa.&lt;br /&gt;Ponha uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O asfalto ameaça o homem e as flores.&lt;br /&gt;Cuidado.&lt;br /&gt;Use uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alegria não é difícil.&lt;br /&gt;Fique atento no seu canto.&lt;br /&gt;Basta uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jingles. Programas de televisão. Horário nobre. Ibope. Procura desvairada de margaridas pelas praças e jardins. Não eram encontradas. Tinham desaparecido misteriosamente dos parques, lojas de flores, jardins particulares. Todos queriam margaridas. E não havia margaridas. As fossas aumentaram consideravelmente. O índice de alcoolismo subiu. A procura de drogas também. As chamadas continuavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O índice de suicídios no país aumentou em 50%.&lt;br /&gt;Mantenha distância.&lt;br /&gt;Há uma margarida na porta principal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contratos. Compositores. Cibernéticos. Informáticos. Escritores. Artistas plásticos. Comunicadores de massa. Cineastas. Rios de dinheiro corriam pelas folhas de pagamento. Ele sorria. Indo ou vindo pelo meio do aterro, mandava o motorista ligar o rádio e ficava ouvindo notícias sobre o surto de margaridite que assolava o país. Todos continuavam sem entender nada. Mas quinze dias depois: a explosão.&lt;br /&gt;As prateleiras dos supermercados amanheceram repletas do novo produto. As pessoas faziam filas na caixa, nas portas, nas ruas. Compravam, compravam. As aulas foram suspensas. As repartições fecharam. O comércio fechou. Apenas os supermercados funcionavam sem parar. Consumiam. Consumavam. O novo produto:&lt;br /&gt;margaridas cuidadosamente acondicionadas em latas, delicadas latas acrílicas. Margaridas gordas, saudáveis, coradas em sua profunda palidez. Mil utilidades: decoração, alimentação, vestuário, erotismo. Sucesso absoluto. Ele sorria. A barriga aumentava. Indo e vindo pelo aterro, mergulhado em verde, manhã e noite — ele sorria. Sociólogos do mundo inteiro vieram examinar de perto o fenômeno. Líderes feministas. Teóricos marxistas. Porcos chauvinistas. Artistas arrivistas. Milionários em férias. A margarida nacional foi aclamada como a melhor do mundo: mais uma vez a Europa se curvou ante o Brasil.&lt;br /&gt;Em seguida começaram as negociações para exportação: a indústria expandiu-se de maneira incrível. Todos queriam trabalhar com margaridas enlatadas. Ele pontificava. Desquitou-se da mulher para ter casos rumorosos com atrizes em evidência. Conferências. Debates. Entrevistas. Tornou-se uma espécie de guru tropical. Comentava-se em rodinhas esotéricas que seus guias seriam remotos mercadores fenícios. Ele havia tornado feliz o seu país. Ele se sentia bom e útil e declarou uma vez na televisão que se julgava um homem realizado por poder dar amor aos outros. Declarou textualmente que o amor era o seu país. Comentou-se que estaria na sexta ou sétima grandeza. Místicos célebres escreviam ensaios onde o chamavam de mutante, iniciado, profeta da Era de Aquarius. Ele sorria. Indo e vindo. Até que um dia, abrindo uma revista, viu o anúncio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Margarida já era, amizade.&lt;br /&gt;Saca esta transa:&lt;br /&gt;O barato é avenca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito para que tudo desmoronasse. A margarida foi desmoralizada. Tripudiada. Desprestigiada. Não houve grandes problemas. Para ele, pelo menos. Mesmo os empregados, tiveram apenas o trabalho de mudar de firma, passando-se para a concorrente. O quente era a avenca. Ele já havia assegurado o seu futuro — comprara sítios, apartamentos, fazendas, tinha gordos depósitos bancários na Suíça. Arrasou com napalm as plantações deficitárias e precisou liquidar todo o estoque do produto a preços baixíssimos. Como ninguém comprasse, retirou-o de circulação e incinerou-o.&lt;br /&gt;Só depois da incineração total é que lembrou que havia comprado todas as sementes de todas as margaridas. E que margarida era uma flor extinta. Foi no mesmo dia que pegou a mania de caminhar a pé pelo aterro, as mãos cruzadas atrás, rugas na testa. Uma manhã, bem de repente, uma manhã bem cedo, tão de repente quanto aquela outra, divisou um vulto em meio ao verde. O vulto veio se aproximando. Quando chegou bem perto, ele reconheceu sua ex-esposa.&lt;br /&gt;Ele perguntou:&lt;br /&gt;– Procura margaridas?&lt;br /&gt;Ela respondeu:&lt;br /&gt;– Já era.&lt;br /&gt;Ele perguntou:&lt;br /&gt;– Avencas?&lt;br /&gt;Ela respondeu:&lt;br /&gt;– Falou.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4329449602730173892?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4329449602730173892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4329449602730173892&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4329449602730173892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4329449602730173892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/margarida-enlatada.html' title='A MARGARIDA ENLATADA'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3064175660892664384</id><published>2008-04-05T12:56:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:04:25.834-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;(Possível coreografia verbal para In Concert, de Keith Jarrett)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À memória de&lt;br /&gt;Ana Cristina Cesar (Ana C.)&lt;br /&gt;Para :&lt;br /&gt;José Maria Carvalho &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;quando soltaram os cachorros loucos eu estava fazendo chá&lt;br /&gt;de ervas do campo&lt;br /&gt;e de repente o espanto&lt;br /&gt;tremendo a chaleira&lt;br /&gt;e bombeando medo&lt;br /&gt;larguei as ervas e danado&lt;br /&gt;precipitei-me à janela&lt;br /&gt;de onde vi&lt;br /&gt;enormes matilhas&lt;br /&gt;com olhos cheios de negra espuma&lt;br /&gt;a espuma invadia a rua&lt;br /&gt;e abraçava postes, que caíam&lt;br /&gt;cheios de óleo e náusea&lt;br /&gt;engolia as pessoas&lt;br /&gt;que alucinadas&lt;br /&gt;enchiam o ar de berros&lt;br /&gt;depois os cachorros foram embora&lt;br /&gt;eu voltei ao meu chá&lt;br /&gt;e lá fora a solidão&lt;br /&gt;e uma flor quase despercebida&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Henrique do Valle&lt;em&gt;: Uma flor num buraco de calçada&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O tom, o problema é o tom. A tua mão está débil. Parece que não ousas. Espera um pouco, certa paciência. Quem sabe se eu explicasse como me veio, ajudaria? Mas ajudaria a quem, a quê? Não me pergunta ainda, só depois talvez quase saberei. É que o tom, eu te falava do tom. Sei, mas lá o tom, maldição, era exatamente esse. Mas assim... diluído? Assim contido? Espera: havia o rio, depois o mato. Foi entre o rio e o mato que me veio. Da casa chegavam uns acordes obsessivos de piano. E da memória, juntos, me brotaram uns versos falando nos cães. Não éramos doze, aquelas pessoas não me interessavam. Eu não as amaria, elas nunca me amariam, a não ser estonteadamente, por levezas, distrações. Eram outras. Era carnaval, pleno carnaval. Eu precisava voltar, elas queriam nascer, eu não as conhecia. Sabia apenas que estavam cercadas, que eram doze, que havia um rio, um mato, um piano tocando sem parar dentro da casa branca. No início da noite, nofim do verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.RAUL&lt;br /&gt;Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, Verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos. Gostava de misturá-las assim, as ervas, um pouco ao acaso, deixando a água esquentar enquanto as macerava devagar no pote de cerâmica. Tinha começado a anoitecer, mas ninguém lembrara ainda de acender as luzes. Talvez porque ficasse tudo mais calmo, mais bonito, quase perfeito: aquela meia penumbra avermelhada, o som do piano vindo da sala, as vozes caladas, as ervas verdes sobre a madeira da mesa. Agora, horas depois, minhas mãos continuam a guardar o cheiro fresco do capim-cidró que Marília colheu pela manhã, tomando cuidado para que a lâmina afiada das folhas não lhe cortasse os dedos. Se ficar bem atento, conseguirei localizar sob as unhas remotos vestígios do perfume da hortelã, do funcho, misturados ao cheiro ardido da arruda no galhinho colocado atrás da orelha para afugentar maus espíritos. Rindo de exorcismos, galhos, pedras, velas, incensos: os maus espíritos estão soltos, imunes aos axés, e não consigo ficar atento a mais nada além dos passos e dos uivos dos cães rondando a casa. A todo instante lembro de quando ainda estava tudo em aparente paz: as ervas sobre a mesa, a chaleira de ferro no fogo, o bule esmaltado de branco com as doze xícaras de cores diferentes dispostas em volta. Eu acompanhava com a cabeça a música vinda da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as em círculo ao redor do bule. Escolhi a vermelha para Arthur, que dá ordens, prega pregos, corta fios e sem parar faz coisas pela casa. Separei a azul-celeste para Isis, azul no tom exato de sua voz aguda quando canta, cristal retinindo na luz. Determinei que a verde mais clara pertenceria a Júlio, que se enreda em palavras, movimentos, e me parece — pelo menos agora, em plena noite — que o movimento tem exatamente essa cor, sobretudo às três horas das tardes de sol quente. Hesitei um pouco até encontrar minha própria cor, mas acabei escolhendo o branco, não só porque assim me visto sempre, mas também porque é meu oficio fazer coisas brancas, preparar os chás, assar os pães, lavar a louça. Para Ricardo, cujos cabelos claros às vezes brilham, ouro, com uma inspiração separei certeiro a amarela. Não tive dúvidas ao destinar a Martha, que tira a poeira da casa e lava o chão, a xícara verde-escuro. Para Linda, por sua dança de meneios harmoniosos, mansas curvaturas, separei a cor-de-rosa. Quando pensei nas sobrancelhas cerradas de Marcelo, imediatamente tomei a cor de vinho tinto, paixões, intensidades. Pedro, o que nos faz rir quando não está lendo ou caminhando sozinho pelo mato com seus Oxóssis, ficará com a laranja. Por gostar de terra, por nunca usar cores, Manilha ganhou a marrom. Restavam duas: a azul-marinho, cor do céu noturno, seria de Virgínia, para ajudá-la a decifrar as estrelas quando se embaçarem nas quadraturas. A roxa pertenceria a Anaís. São dessa cor os sonhos e premonições que costuma ter, os licores que prepara, o esmalte de suas unhas, os panos que a cercam. Assim: Como um pequeno zodíaco, doze xícaras em volta do bule. Pensei em repetir palavras mágicas para concentrar energia em cada uma delas, mas nenhuma me ocorreu. Abracadabras, shazams. Talvez não fossem necessárias, porque eu estava carregado de amor por nós todos.&lt;br /&gt;Falo banalidades, sei, mas amor é magia, condão, pedra de toque — embora o pressentimento da teia escura se armando sobre nossas cabeças. Seria quem sabe o vermelho vivo do poente, tudo parado, nenhum vento na copa das árvores, a noite chegando do outro lado do mundo, o verão no fim. Sem que eu quisesse, meu pensamento voltava-se insistente para a xícara cor de vinho tinto. As notas do piano enleavam meu corpo em fios sonolentos. Eu deveria rir ou bocejar, suspenso à beira do sono, quando Ísis gritou ao longe, a chaleira ferveu e Marcelo entrou. Ele colocou a mão no meu ombro, apertou forte e disse que tinham soltado os cachorros loucos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3064175660892664384?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3064175660892664384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3064175660892664384&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3064175660892664384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3064175660892664384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-primeiro-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-7465976922653259397</id><published>2008-04-05T11:42:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:44:15.993-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>CAVALO BRANCO NO ESCURO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Lá fora alguém caminha no escuro. Posso ouvir nitidamente seus passos esmagando devagar o cascalho fino do jardim. Como se tomasse cuidado para não me acordar. Como se eu dormisse. Às vezes se detém, ejulgo ouvir sua respiração espessa de animal atravessando as vidraças abaixadas para chocar-se contra as paredes, e depois tombar sobre mim sufocando minha própria respiração. É então que sinto medo. Deixo de sentir o contato gorduroso dos lençóis contra minha pele, e fico todo concentrado nessa coisa: o medo. Não dele, nem de seus passos, nem de que possa de repente espatifar as vidraças para entrar no quarto — também não tenho medo de sua possível violência, de suas prováveis garras. O que me assusta é justamente essa respiração de animal. Essa coisa grossa, azeda, estranhamente flácida e morna, da mesma consistência dos lençóis sujos.&lt;br /&gt;Para evitar esse medo que sufoca o cheiro dos lençóis e de meu próprio corpo, penso no jardim. E quando, por segundos, o cascalho pára de estalar sob seus pés, penso que é porque se aproximou do canteiro de margaridas. E recomponho na memória essas margaridas amontoadas no canteiro de tijolos, com seus talos verdes e rígidos, suas longas pétalas brancas e o miolo amarelo, granuloso, sem nenhum cheiro. Quando o medo é maior, penso nas hortênsias. Eram azuis, as hortênsias. Ficavam distantes da janela, próximas do poço e da parreira, quase no quintal. Eram azuis e sólidas, as hortênsias. Também não tinham cheiro, como as margaridas, nem gosto. Uma vez experimentei mastigar algumas pétalas, e tive a sensação exata de ter entre os dentes algo tão fino e frágil como uma asa de borboleta. Eram azuis e sólidas, e às vezes eu cobria os cabelos com elas, prendendo-as atrás das orelhas para depois olhar-me no espelho grande do corredor e achar-me parecido com uma daquelas gravuras japonesas do livro de História de minha mãe — as gueixas, as hortênsias. Essas eram elas.&lt;br /&gt;Quando o medo é quase absurdo, e principalmente quando o cheiro daquela respiração ameaça tornar-se insuportável, recorro aos jasmins. Só então recorro aos jasmins. Deixo-os por último, quando estou à beira de dar um grito ou fazer algum movimento brusco para libertar-me — mesmo sabendo que estou demasiado enfraquecido para dar gritos ou fazer gestos bruscos. Talvez a impossibilidade de fazer essas coisas é que me obrigue a recorrer aos jasmins. Porque eu sempre soube que eles eram o último recurso, última porta, última chave. Eles, os jasmins: última varanda antes da fronteira que me separa do que não conheço. Vejo-os crescer nas sombras para se abrirem em corolas fartas e pálidas: eu me debruço na janela, eu sou muito jovem, eu acredito, eu sou quase um menino que se debruça na janela e olha para esses jasmins pálidos e frios e entontece aos poucos com o perfume doce e olha para a lua, porque havia uma lua quase sempre cheia naquele tempo, e pergunta em espanto o que vai ser dele, que durezas ou doçuras lhe trará essa coisa que ainda não tocou com suas próprias mãos e que chamam de vida, eles, os outros, os que dormem além da porta sem saberem desse menino e desse espanto e dessa lua e sobretudo desses jasmins gelados no jardim. Esse quase menino que sou eu, esse menino suspeita e sente que quase pode viajar na esteira do perfume dos jasmins que voa por cima do muro de tijolos, ultrapassa a sarjeta para misturar-se à terra vermelha da rua e perder-se nas unhas-de-gato do terreno ao lado e no valo da calçada oposta e na casa branca de madeira sobre a elevação de terra — esse menino não chora e não diz nada. Tem olhos enormes para o que ainda não chegou e talvez não chegue nunca.&lt;br /&gt;Tudo isso é doloroso para mim, porque sei que o jardim não é esse, sei mesmo que talvez nem exista um jardim, sei que os jasmins se perderam, e recorro à casa, e penetro cada um de seus aposentos, e desvendo a casa, e recorro à rua, ao arco branco no fim da rua, e à cidade de ruazinhas estreitas e tortas e vizinhos na janela e estradas de terra batida e poeirenta. Mas sei: sempre sei que tudo isso não está mais do lado de fora: sei que já não bastaria abrir a janela: sei que não bastaria a janela. Como se minhas unhas crescessem e eu as cravasse no meu próprio peito. Digo para mim mesmo que não é preciso assassinar o que já está morto, mas enquanto dura a respiração dele, preciso continuar enterrando as unhas devagar na carne, afastando músculos e veias e ossos, como se escavasse a terra em busca de uma semente. Preciso revirar o punhal com dedos seguros, até conseguir extrair algumas gotas de sangue da carne morta. Não consigo. Sei que não consigo no momento em que a respiração cessa e os passos voltam a esmagar o cascalho.&lt;br /&gt;De vez em quando um movimento mais brusco faz com que brote um ruído de folhagens esmagadas. Imagino-o pisando nas margaridas, rasgando as hortênsias, esmagando os jasmins entre os dentes escuros, nas mãos de dedos curtos e juntas grossas, sob as patas de cascos partidos, o corpo áspero de pêlos espojando-se sobre os verdes que minha mãe esquecia de regar e que cresciam apenas por teimosia. A teimosia e a chuva enredando seus membros sobre o muro, sob a terra. Sei que o sangue já não corre: sei que nenhuma semente veio à tona: sei que de nada adianta espreitar dia após dia o seu crescimento, porque não crescerão: sei que é inútil afastar as pedras e os parasitas, tentando distinguir uma pequenina folha verde. Sei que as chuvas não caem mais como antigamente. Então me encolho entre os lençóis e fico ouvindo o cascalho rangendo sob seus pés.&lt;br /&gt;Quando o ruído cessa e penso que ele se afastou por alguns momentos, fixo os olhos no teto ou na parede e tento distinguir apenas cores e formas. Mas não sei mais se o que vejo é o que vejo ou apenas o que penso ver. Dizem que quando se fica muito tempo sem comer acontecem alucinações, da mesma forma como quando se toma drogas. Não sei se são alucinações causadas pela fome, e já não tomo nenhuma droga desde que resolvi deixar que tudo secasse para que viesse à tona apenas o que quisesse vir, sem que eu o chamasse. Seja como for, eu o via. Não esse, o que caminha no escuro, porque não sei de seu corpo nem de sua face, mas um outro, talvez o mesmo, não sei.&lt;br /&gt;Ele estava na parede. A parede é azul. No começo, foi só o que vi: a parede azul. Depois notei que o azul se movia e aquilo que eu julgava fazer parte da matéria da parede destacava-se e ganhava a forma de um corpo, um corpo vestido de azul. Esse corpo vestido de azul destacou-se da parede e veio sentar-se a meu lado, na beira da cama. Foi quando colocou uma das mãos na minha testa que tive vontade de sorrir para ele. Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém, então era extraordinário que ele conseguisse perturbar assim os cantos de meus lábios, fazendo com que eles se movimentassem duramente, numa tentativa de se abrirem. Mas não sorri. Sabia de meus dentes sujos, sabia da escuridão de minha boca. E não queria assustá-lo, sobretudo isso: não queria assustá-lo porque poderia retirar a mão de minha testa e levantar-se daquele lugar. Há muito tempo ninguém me tocava. Acho que ele sentiu o meu sorriso preso e a minha confusão, porque perguntou devagar alguma coisa, exatamente como se tentasse quebrar um momento de embaraço. Não sei que coisa foi, também não sei o que respondi. Sei que depois de ouvir minha resposta, afastou-se abanando a cabeça e dizendo que não era possível, que não ia dar certo, que ele sabia que não tinha jeito. Abriu os braços e voltou a confundir-se com a parede.&lt;br /&gt;Foi depois disso que começou essa coisa dos passos, a respiração, o medo, as margaridas, as hortênsias, os jasmins. Ou antes, não lembro. Você é bonito, quis dizer a ele. Mas não foi possível. Foi tudo demasiado rápido. Agora já é muito tarde e eu simplesmente me recuso. Quando resolvi fugir daquelas coisas torpes lá de fora não pensei que fosse tão fácil: na verdade foi tudo muito natural, como se um dia isso tivesse mesmo que acontecer, e exatamente dessa forma. Não precisei fazer esforço algum. Só deitar e esperar. A princípio ainda classificava lembranças e memórias, tinha consciência de um antes, um durante, um depois, de um real e um irreal, um tangível e um intangível, um humano e um divino: separava minha memória e meus conhecimentos em partes cuidadosamente distintas. Depois que ele começou a rondar minha janela, ou antes, não sei, tudo se confundiu num só bloco, e fiquei assim: esta massa compacta toda à superfície de si mesma. Não lembro de ninguém assim tão à flor de si mesmo: raiz, caule, folhas e frutos. Talvez seja bonita uma coisa assim, uma pessoa assim. Ou horrível, não sei. Talvez eu esteja sendo gerado, também não sei. Sei que falta pouco. Eu queria que não fosse assim, que não tivesse sido assim. Mas não consegui evitar. A semente recusava-se a vir à tona, eu nem sempre tinha tempo ou vontade de regá-la, e não chovia mais — foi isso o que aconteceu.&lt;br /&gt;Pressinto que vai ser agora. Tenho mesmo certeza de que vai ser agora. Os passos se aproximam. Faço um grande esforço e consigo aprumar um pouco meu corpo sobre a cama. O cascalho estala. Distendo meus braços e pernas, e nesse movimento há como uma dor brotando de um fundo muito escondido. A janela começa a ceder. Fixo a atenção na minha própria cabeça, até deixá-la ereta. Ouço o barulho dos vidros caindo sobre o chão. Todos esses movimentos fazem com que um cheiro desagradável de coisa apodrecida se desprenda dos lençóis e de meu corpo e quando sinto as garras tocando-me devagar nos dedos dos pés já não sei distinguir se esse cheiro que violenta minhas narinas vem dos lençóis ou de meu corpo ou de sua respiração ofegante pesada viscosa grossa repulsiva e morna subindo por minhas pernas até atingir meus joelhos misturada a uma baba viscosa e não sinto nojo apenas uma vaga curiosidade e pergunto a mim mesmo se tudo isso pertencerá mesmo a um animal ou a um homem ou a qualquer outra coisa e passa-me pela cabeça um rápido pensamento assim: não será a trepadeira que caía da janela? e digo que não e digo que sim e é quando sinto uma coisa escura como uma boca abater-se sobre meu sexo que começo a pensar nas margaridas e digo assim agora que a tua linha paralela à minha vai ficar ainda mais distante não vou ter ninguém mais pra me dar uma margarida de repente pra não dizer nada pra me encontrar no fim da rua1 mas tudo isso está morto então volto às hortênsias e vejo as encostas cobertas de borboletas azuis amarelas cor-de-rosa no meio do trigo da serra no sul e quase esqueço de meus dentes sujos para mostrá-los num sorriso mas esse visgo mas essa gosma essa náusea avança por meu peito até quase minha boca e olho para os jasmins abertos sob um céu de lua cheia e vejo um menino espantado numa janela aberta um menino nu e espantado da parede azul ele me sorri e estende os braços como se me esperasse você é tão bonito eu tenho vontade de dizer esse perfume me entontece e sinto que vomito e que sua língua preta suga a matéria espessa de meu vômito mas é muito tarde ouço o galope de um cavalo que pressinto branco varando o escuro em busca da madrugada e vibro inteiro como se tivesse sangue como se a semente brotasse você é tão bonito tenho vontade de dizer mas há um poço tapando a minha boca e então toco o rendilhado de um vôo em direção à casa oposta em direção ao arco branco no fim da rua e não digo nada eu não digo nada eu só quero olhar de olhos abertos para esse azul engastado na parede e pensar como você é bonito mas duas garras atingem meus olhos e enquanto grito de dor e de prazer as minhas órbitas perfuradas libertam estrelas marinhas e medusas e sereias e algas verdes que oscilam lentamente empurradas pelas ondas para a areia branca onde um dia meus pés deixaram lagos tão breves que não houve tempo da lua refletir-se neles.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-7465976922653259397?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/7465976922653259397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=7465976922653259397&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7465976922653259397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7465976922653259397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/cavalo-branco-no-escuro.html' title='CAVALO BRANCO NO ESCURO'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6137214758070093302</id><published>2008-04-05T11:37:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:40:20.419-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>NOÇÕES DE IRENE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Levou algum tempo para abrir a porta, a campainha soando sem resposta até que ele terminasse de ajeitar cuidadosamente as duas poltronas, uma em frente À outra. Depois entreabriu a pequena janelinha e simulou uma espécie de espanto:&lt;br /&gt;– Ah, é você — e abriu a porta para que o outro entrasse. – Você foi pontual — acrescentou, apontando para uma das poltronas. – Sente-se, por favor. Estava com medo que você não viesse.&lt;br /&gt;– Medo?&lt;br /&gt;– É, não exatamente medo. Você compreende, praticamente não me conhecia. Deve ter ficado surpreso com o convite.&lt;br /&gt;O outro sacudiu ligeiramente a cabeça. Parecia mesmo espantado, as mãos um pouco tensas sobre os joelhos dos jeans desbotados. Ele encaminhou-se para a mesinha e mostrou a garrafa de uísque.&lt;br /&gt;– Muito ou pouco gelo?&lt;br /&gt;– Puro, por favor.&lt;br /&gt;Espantou-se também, um pouco. Mas imediatamente conteve-se: era preciso que tudo fosse feito com muito cuidado, e que todas as palavras e movimentos se encaminhassem para um único fim. Enquanto enchia o copo, examinou-o disfarçadamente. Tão jovem, pensou com uma sombra que chamaria amargura, não estivesse tão empenhado em delicadezas. Voltou com os dois copos e, sentando, não soube por onde começar. Hesitava entre falar diretamente ou esperar que um clima de cordialidade — certa cordialidade, pelo menos, concedeu — se estabelecesse enquanto os copos eram esvaziados. Então percebeu que o outro olhava para os discos.&lt;br /&gt;– Gosta de música?&lt;br /&gt;– Muito.&lt;br /&gt;Claro, claro — pensou. — Todos eles gostam de música. Fez um movimento como se fosse levantar.&lt;br /&gt;– Quer ouvir alguma coisa? — Sorriu. – Curtir um som... não é assim que vocês dizem?&lt;br /&gt;O outro também sorriu:&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Bem, acho que não tenho exatamente aquilo que vocês gostam de ouvir. Irene sempre se queixa disso — estremeceu. Mas não havia nenhuma premeditação. O nome dela saíra naturalmente, assim como se não tivesse importância. Caminhou até a vitrola e perguntou: – Rock?&lt;br /&gt;– Bach.&lt;br /&gt;Escolheu rapidamente e voltou a sentar. Surpreso. Porque, afinal, não era como esperava. Talvez tivesse sido demasiado apressado em julgar, catalogar gostos, rotular expressões, como se nenhum deles fosse capaz de alguma individualidade. Afundou na poltrona. Os olhos muito claros do outro. Ou, quem sabe, estava apenas representando, justamente para confundi-lo.&lt;br /&gt;– Não queria que fosse como um jogo.&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Desculpe, não entendi direito o que você disse.&lt;br /&gt;Cruzou as pernas, contrafeito:&lt;br /&gt;– Falei sem pensar, desculpe. Ou melhor, pensei em voz alta. Disse que não queria que fosse como um jogo. — Ouviu a própria voz, um pouco rouca. Estava se comportando como um idiota. Mas subitamente resolveu dizer: – Bem, suponho que sabe por que pedi que viesse aqui.&lt;br /&gt;– Sei. Suponho que sei.&lt;br /&gt;Já havia começado. Não poderia mais voltar atrás:&lt;br /&gt;ele olhou para cima da mesa e viu o porta-retratos voltado para baixo. Estendeu o prato com biscoitos. O outro serviu-se devagar.&lt;br /&gt;– Estes biscoitos têm gosto de flor, não é?&lt;br /&gt;O outro tornou a sorrir, os dentes aparecendo súbitos entre os fios de barba manchados de sol e fumo, os cabelos enormes. Ele levou o copo até a boca e ficou sentindo as pedras de gelo baterem contra os lábios. Arrancou um fio invisível da perna da calça.&lt;br /&gt;– Quero dizer, se você sabe, ou se acha que sabe por que o convidei, bem, creio que não há necessidade de ficarmos... Bem, de ficarmos falando sobre outras coisas. Afinal, somos homens civilizados, não é?&lt;br /&gt;O outro concordou sem falar, contraindo imperceptivelmente as sobrancelhas. Ele julgou perceber ironia no movimento, e por um instante odiou: todo concentrado em odiar profundamente. Falou rápido:&lt;br /&gt;– Sou só um pouco mais velho que vocês. Uns dez anos. — Lembrou da outra vez que o vira, dizendo convicto: todo homem com mais de trinta anos é um canalha. Voltou a odiar um ódio compacto e breve: – Talvez daqui a vinte anos isso seja uma diferença insignificante. Mas por enquanto é terrível, quase um abismo. — Levantou-se brusco, não suportando o olhar muito claro do outro e suas mãos magras sobre os jeans desbotados. Afastou as cortinas e ficou olhando para fora: — O que quero dizer é que...&lt;br /&gt;Deteve-se. No lado oposto da rua a pequena loja de flores fechava suas portas. Era quase noite. Sem sentir, fez uma longa pausa, praticamente esquecido do outro. Depois completou:&lt;br /&gt;– Não me surpreende que ela vá embora.&lt;br /&gt;Olhou-o. E de repente a música começou a ter importância: as notas subiam e baixavam, davam voltas concêntricas sobre um ponto desconhecido, subitamente se espatifavam para voltarem a recompor-se, cheias de pequenos movimentos internos, mas sem perderem a continuidade, escorrendo, fluidas. O outro, na esquina, os dedos formando um V, os dentes entre os fios manchados de barba, os cabelos crespos, enormes: – Grande lance, bicho. — Sentou-se com um suspiro:&lt;br /&gt;– Quero dizer que não pretendo colocar a mínima dificuldade. Entendo perfeitamente tudo. E depois, mesmo que não entendesse, não adiantaria nada. Ela sempre fez o que quis. Mas não com... com agressividade, entende? Quero dizer, ela está sempre tão dentro dela mesma que qualquer coisa que faça não é nem certa nem errada, é simplesmente o que ela podia fazer. — Parou por um momento, talvez estivesse sendo subjetivo demais, quase literário. Não queria parecer ridículo, nem demasiado velho. Mesmo porque não sou velho. Nem ridículo. Tornou a levantar-se.&lt;br /&gt;– Quer mais uísque?&lt;br /&gt;O outro disse que não.&lt;br /&gt;Encheu um copo e trouxe a garrafa para perto da poltrona. De repente perguntou, quase alegre:&lt;br /&gt;– Sabia que Irene é um nome de origem grega?&lt;br /&gt;O outro perguntou: – O quê?&lt;br /&gt;– Quer dizer Mensageira da Paz — continuou, sem dar atenção. – Gozado, não é? Uma vez eu disse isso a ela, ela riu, disse que era besteira. Mas outro dia eu fiquei pensando e achei que tudo foi realmente muito calmo. Mesmo agora, não está sendo difícil. — Ergueu o copo. – Sabe, nunca houve assim... grandes cenas, choros ou desesperos, tentativas de suicídio ou sequer ameaças. Nenhuma dessas coisas. Ela tem horror de tragédia. — Sentou-se, o copo na mão. E repetiu: – Ela tem horror de tragédia. Às vezes, na hora do jantar, a televisão ficava ligada e a gente via umas novelas. Sabe, eu chorava potes com aquelas coisas, separações lancinantes, amores impossíveis. Ela ria o tempo todo e dizia que eu era uma besta. Ou então aqueles concursos de empregada mais desvelada, eu precisava sair da sala para que ela não me chamasse de besta. — A voz dele ficou um pouco mais baixa, quase inaudível. – Mas uma vez eu voltei de repente e surpreendi ela com uma lágrima escorrendo pela face. Desculpou-se e disse que às vezes era mesmo meio cafona. E mais baixo ainda: – Faz tanto tempo.&lt;br /&gt;Estremeceu. Como se, de repente, percebesse que enveredava por um caminho perigoso. Sacudiu os ombros e reaprumou-se na poltrona. Riu alto e meio desafinado, enquanto tornava a encher o copo:&lt;br /&gt;– A gente está falando dela como se estivesse morta. Mas está tão viva, não é?&lt;br /&gt;Levantou-se para virar o disco. Depois voltou-se e perguntou:&lt;br /&gt;– Você leu Cleo e Daniel?&lt;br /&gt;Não prestou atenção na resposta. Apoiou a mão no encosto da cadeira:&lt;br /&gt;– A primeira vez que vi vocês juntos, foi o que lembrei. Cleo e Daniel. Tudo era parecido, até aquela quantidade incrível de bolinhas brancas que você tirava do vidro enquanto ela formava figuras sobre a toalha. Ficava assim tão... tão doce, depois. Ou então falava horas. Às vezes sentava no chão e ficava enrolando aqueles cigarros fininhos, que eu achava com um fedor horrível. Dizia que eu estava por fora, me chamava de careta e ficava horas fazendo uns desenhos malucos.&lt;br /&gt;Interrompeu-se para olhá-lo fixamente:&lt;br /&gt;– Você é pintor, não é? Lembro que ela falou que uma vez você tinha feito uma exposição na praça, e que a polícia chegou e rasgou todos os quadros, menos os dois que ela tinha comprado. — E sem mudar de tom: – Talvez eu seja mesmo um chato. — Dobrou-se sobre a poltrona: – Você acha que eu sou um chato?&lt;br /&gt;Olhou longamente para o outro, para as pernas cruzadas sobre a poltrona, como um iogue. Mas não ouviu a resposta.&lt;br /&gt;– Lembra daquela cena, quando ela está deitada e passa alguém na rua cantando? Lembra aquela cena?&lt;br /&gt;– De Cleo e Daniel?&lt;br /&gt;– Não, não. Um livro não tem cenas, tem trechos. — Olhou para o próprio dedo, parado no ar. – Às vezes eu fico meio didático, não dê importância. — Acrescentou:&lt;br /&gt;– Quem tem cenas é um filme.&lt;br /&gt;– Qual era o filme?&lt;br /&gt;– Filme?&lt;br /&gt;– É, quando ela estava deitada e passava alguém na rua, cantando.&lt;br /&gt;– Ah, você lembra, então? — Sorriu largo. – Sempre soube que você tinha visto aquele filme. Lembra da música?&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– A música. A música que alguém passava cantando. Era assim: lo che non vivo piú di un‘ora senza te... Não lembro o resto. Faz tanto tempo. Acho que foi o primeiro filme que vimos juntos. Ela chorou o tempo inteiro.&lt;br /&gt;Deslizou para a poltrona, tornou a encher o copo e virou-o de uma só vez:&lt;br /&gt;– Talvez eu esteja falando demais: logo, isto não é um diálogo, é um monólogo. — Repetiu: – Às vezes eu fico meio didático. Mas fale alguma coisa, você não disse quase nada. Pode crer que nada me choca. Não que eu espere ouvir somente coisas chocantes de você, não é isso. Mas acho que vocês pensam que me chocam o tempo todo. Vocês não acham mesmo que sou muito velho e muito careta? Afinal, já tenho alguns anos de canalhice.&lt;br /&gt;O outro disse que absolutamente. Então ele disse que achava que aquela música já estava enchendo, mas o outro não disse nada, então ele permaneceu durante muito tempo na mesma posição, acompanhando com a cabeça o som do cravo. Só parou para encher mais uma vez o copo. Subitamente falou em voz muito baixa:&lt;br /&gt;– Sabe, não é verdade que eu entenda tudo.&lt;br /&gt;– Não?&lt;br /&gt;– Não, não é verdade. Não entendo, por exemplo, como é que ela pode trocar a segurança de ficar comigo pela insegurança de ficar com você. Vocês são todos tão... tão... — Interrompeu-se, procurando a palavra. – Tran-sitó-ri-os, é isso. Vocês são muito transitórios, entende? Tão instáveis, hoje aqui, amanhã ali. Eu sei, também já fui assim. Só que chega um ponto que a gente cansa, que não quer mais saber de aventuras ou de procuras, entende? Acho que é isso que vocês não são capazes de compreender, que a gente, um dia, possa não querer mais do que tem. É isso que ela não compreendia. Acho que é por isso que ela foi embora. Talvez as coisas comigo fossem muito chatas, muito arrumadas. Acordar todos os dias à mesma hora para encontrar a mesma cara. É engraçado. Ela dizia sempre que morreria qualquer dia, de susto, de bala ou vício. Acho que citava algum verso de um desses cantores que vocês tanto gostam, desses que morrem por excesso de drogas.&lt;br /&gt;Levantou-se, o passo precário. Deu algumas voltas sem direção, depois tornou a encarar o outro:&lt;br /&gt;– Sabe, acho que ela vai se destruir com você.&lt;br /&gt;Virou mais uma vez o disco. Sabia que estava saindo tudo errado. Não era aquilo o que planejara, detalhado, meticuloso, arrumando as duas poltronas, uma em frente à outra, a mesinha com uísque, o balde de gelo. Talvez até chorasse agora, admitiu. A sala inteira girava quando ele se encaminhou para a janela. Espiou pelas dobras da cortina. Havia anoitecido. A loja de flores estava fechada, as latas de lixo transbordavam cravos, palmas, crisântemos. Deixou-se cair sobre os joelhos e não fez o menor esforço para levantar-se, as costas apoiadas contra a superfície fria da parede. O outro levantou-se e perguntou se não achava que estava bebendo demais. Ele disse que não, que não achava. E perguntou mais uma vez se não era mesmo um chato. O outro fez que não com a cabeça. Que de maneira alguma. Então ele disse que precisavam ainda conversar muitas coisas, com muita calma, com muito tato, como homens civilizados.&lt;br /&gt;– Não é verdade que somos homens civilizados?&lt;br /&gt;O outro disse que sim, disse muitas vezes que sim — e subitamente apertou o ombro dele com aquelas mãos magras e nervosas, como se compreendesse. Vistos de perto, os olhos eram ainda maiores e mais claros, um brilho seco nas pupilas dilatadas. A barba crescida, manchada de sol e fumo. Depois saiu devagar, fechou a porta atrás de si. Então ele encostou a cabeça na parede e ficou ouvindo aquelas notas subindo e baixando, dando voltas concêntricas sobre um pequeno ponto desconhecido, mas sem perderem a continuidade. De certa forma, disse baixinho, de certa forma Irene era assim. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6137214758070093302?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6137214758070093302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6137214758070093302&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6137214758070093302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6137214758070093302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/noes-de-irene.html' title='NOÇÕES DE IRENE'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4797830086232577277</id><published>2008-04-05T11:23:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:34:46.090-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>O AFOGADO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;Para Augusto Rigo&lt;br /&gt;“Sim, nada é mais difícil e delicado, até mesmo sa-grado, quanto o ser humano. Nada pode igualar o poder voraz desses misteriosos elementos que, sem grandeza ou finalidade, nascem entre desconhecidos para acorrentá-los pouco a pouco com elos terríveis”&lt;br /&gt;(Witold Gombrowicz: Bakakai)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Há um morto jogado na praia!&lt;br /&gt;De repente ele interrompeu tudo que fazia para prestar atenção no grito. Despiu o avental enxugando as mãos úmidas de suor, deu dois passos sem direção no meio da sala pesada de mormaço — e só depois de um tempo relativamente longo é que se deu conta de que alguém gritara no meio da praça. Então abriu a janela e ficou olhando o burburinho lento que se armava, as pessoas maldespertas da sesta movimentando-se molemente em direção ao menino que fazia sinais desesperados sob a estátua do general. Palavras soltas chegavam a seus ouvidos, algumas janelas se abriam, os vidros faiscando bruscos para depois chocarem-se contra as paredes caiadas de branco, passos na escada, aqui e ali algum cão espantado, as moscas esvoaçando tontas — e pouco a pouco intensificava-se o movimento em torno do menino de pés descalços, abrigado nas sombras escassas da praça sem árvores. O chão de terra crestada.&lt;br /&gt;Aconteceu alguma coisa, pensou entediado, como se aquilo se repetisse há muito tempo, e como se qualquer curiosidade ou acontecimento fossem antigos e conhecidos, embora inesperados. Como se não houvesse mais nada a surpreender — pensou lentamente que alguma coisa havia acontecido. No mesmo momento ouviu que batiam – há quanto tempo? – à porta do quarto, e uma voz gorda de mulher repetia:&lt;br /&gt;– Doutor, aconteceu alguma coisa na praia.&lt;br /&gt;Abriu a porta e desceu as escadas contando degraus, a mão amparada pelo corrimão de madeira descascada, sem a menor pressa. Porque na realidade — dizia-se, e estava tão acostumado a esse diálogo consigo mesmo que movia os lábios como se falasse, embora sem produzir nenhum som —, porque na realidade jamais acontecera alguma coisa naquele lugar. Alguma estrela cadente durante as noites comprimidas entre o cheiro vagamente apodrecido da maresia e o calor viscoso que vinha das montanhas — e nada mais que isso. As cadeiras dispostas em desordem sobre as calçadas, um sem-número de olhares de repente acompanhando o roteiro daquela chispa brilhante que cessava de existir e, ao mesmo tempo em que morria, permitia-lhes fazerem três pedidos, remotas superstições, velhos mitos: três desejos. Como se fosse possível desejar alguma coisa naquele lugar, suspirou antes de transpor a soleira da porta para ganhar a rua cheia de passos e gritos. Quase cambaleou com o sol pesando súbito no topo da cabeça, precisou apoiar o braço contra os tijolos de uma parede sem reboco e, abrindo lento os olhos, divisou por entre lágrimas ofuscadas o brilho da calça branca do menino. Aproximou-se impaciente, os braços afastando pessoas que se esquivavam respeitosas, chamando-o doutor e dizendo coisas sobre o que o menino dizia:&lt;br /&gt;– Um morto... um morto na praia...&lt;br /&gt;Frente a frente com o menino, tomou-o pelo ombro sentindo a pele queimada em contraste com seus dedos muito brancos — e de repente viu no menino todo um desesperançado crescimento no meio daquelas duas dúzias de casas. Então, com súbita delicadeza, perguntou:&lt;br /&gt;– O que foi que você viu?&lt;br /&gt;O menino encarou-o com olhos verdes ainda capazes de algum espanto:&lt;br /&gt;– Um morto.., lá na praia... jogado na areia...&lt;br /&gt;– Me leve até lá — pediu. E tomou da mão do menino como se fosse capaz de salvá-lo daquelas duas dúzias de casas, algumas caiadas de branco — as mais ricas —, a maioria simplesmente sem reboco, o barro aparecendo endurecido entre os tijolos escuros. As outras pessoas acompanharam-no em silêncio, para vencerem sem pressa a extremidade da praça, as últimas casas, o caminho circundado de pedras que conduzia ao mar, às primeiras dunas e, logo após, a uma baixada onde o menino parou, apontando qualquer coisa na faixa de areia molhada:&lt;br /&gt;– Lá.&lt;br /&gt;Todos os olhares convergiram para a mesma direção. Sem conseguir evitar, novamente o médico pensou nas estrelas cadentes e nas prováveis cismas daquelas cabeças queimadas, quase uniformes em seus olhos esverdeados de sol, suas roupas esfarrapadas, seus gestos precisos e poucos, embora marcados pela lentidão do cansaço — o cansaço dos que esperavam por um acontecimento indefinido, capaz de fazê-los movimentarem-se subitamente com mais vontade, talvez com medo. Precisavam do temor como quem precisa de um sentido. Uma voz rouca cortou o pensamento:&lt;br /&gt;– Como é que você sabe que ele está morto?&lt;br /&gt;– Cheguei perto.&lt;br /&gt;– Muito perto?&lt;br /&gt;– Não. Fiquei com medo. Só sei que não se mexe. Fiquei muito tempo olhando e ele não se mexeu nem uma vez.&lt;br /&gt;Alguns pescadores começaram a descer a encosta, os pés afundados na areia quente, dois ou três meninos os seguiram — mas um gesto do médico os deteve:&lt;br /&gt;– Esperem — disse, e quase num sussurro sinistro, para amedrontá-los: – Pode ser a peste.&lt;br /&gt;A peste. Os mais velhos encolheram-se atemorizados e vivos, lembrando aquele tempo de portas fechadas com trancas, todo dia alguns cadáveres alimentando a terra e ampliando a pequena extensão do cemitério sobre a colina. Rodearam-no, esperando uma decisão. Sem dizer nada, ele e o menino começaram a caminhar em direção ao corpo, enquanto os outros entreolhavam-se indecisos entre segui-los ou permanecer no alto das dunas. Avançou trôpego pela areia, desdobrada à sua frente a sombra de um homem alto e magro, os cabelos esvoaçando ao vento. Mordeu os lábios salgados. A água verde do mar. Algumas gaivotas em círculos estonteados sobre a água verde do mar. Um mergulho súbito: a água partia-se em borbulhas cintilantes, gotas de vidro e luz, soltas no ar.&lt;br /&gt;Aos poucos, os contornos foram ficando mais nítidos: qualquer coisa escura como cabelos destacados sobre a areia, depois a extensão de um tronco de onde saíam dois braços abertos em cruz, duas pernas unidas e molhadas pelo movimento repetido das ondas. Julgou enxergar algumas algas envolvendo o corpo, mas depois de alguns passos percebeu não serem mais que placas de areia, coladas à carne nua e branca. A vastidão despida de uma carne branca ao sol pesado das três horas da tarde. Antes de curvar-se para tocá-lo, voltou-se e viu os homens formando uma massa imóvel no alto das dunas. Apenas o menino olhava-o com olhos enormemente verdes, subitamente sérios, como se esperasse. &lt;em&gt;Esperas uma solução para esses teus olhos que não nasceram assim verdes e que dia a dia se farão mais claros até que não consigas mais olhar o mar sem pensares que de certa forma essa cor te foi dada por ele e até não saberes mais distinguir outra coisa que não seja verde e até que essa claridade deixe um dia de te cegar para que mergulhes no escuro irremediável da morte? &lt;/em&gt;Abanou a cabeça, afastando uma mosca, e curvou-se. Estendeu a mão para tocar muito de leve no corpo, mas antes de completar o gesto percebeu um ruído feito um sopro, uma respiração. O menino esperava. Os homens esperavam. O corpo esperava, de bruços. Rapidamente voltou-o sobre si mesmo e, sem fixar o rosto, colou o ouvido no peito do homem.&lt;br /&gt;– Está vivo — disse, e podia sentir contra a aspereza da barba não-feita as batidas tênues dentro do peito do outro.&lt;br /&gt;O menino começou a fazer sinais agitados para os pescadores, que desceram em bandos sôfregos pelas encostas das dunas. Então o médico ergueu os olhos e viuo rosto do afogado. E o rosto de homem não era ainda um rosto de homem: uma adolescência indefinida, permanente e talvez cruel guardada nas sobrancelhas espessas, escuras, nos maxilares fortes, nariz curto, reto, a boca entreaberta com lábios partidos, ressecados pelo sal, o queixo levemente vincado, os cabelos crespos pesados de areia. A testa queimava. Subitamente o médico apertou-o com força, e enquanto pressentimentos sombrios se desenrolavam no espaço que separava seu peito do peito do afogado, manteve-o junto de si, como a protegê-lo dos homens que continuavam a correr pela praia, aproximando- se. Como a protegê-lo do sol, do mar, do menino que dava voltas em torno deles, exigindo uma participação naquilo que descobrira. Tirou a camisa para cobrir o rosto dele, depois ergueu-o suavemente pelos ombros e ficou esperando que alguém o ajudasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou com cuidado ao lado da cama, para não despertá-lo. Era quase dezembro. Aproximou o lampião e examinou mais detido o rosto agora limpo, mas ainda marcado pela febre. &lt;em&gt;Quem te trouxe dessa quase morte para um lugar que é a própria antecipação da morte tu que pareces para sempre imobilizado nessa postura que não é tua porque não te imagino assim abandonado entre lençóis mas em constante movimento tu que fazes dessa ausência de movimentos de agora a tua enorme e falsa fragilidade?&lt;/em&gt; Estalou os dedos, inquieto. Sentia necessidade de algum terror, mas não se apressava porque sabia que ele viria, breve e denso. Suspendeu os óculos deixando-os em repouso sobre a cabeça, depois pousou-os devagar na mesa. Andou até a janela e ficou a ver os homens e as mulheres largados nas cadeiras, as brasas dos cigarros, pontos vivos na escuridão, alguns curiosos postados sob a janela da pensão, sem ousarem fazer perguntas.&lt;br /&gt;O céu muito escuro: naquela noite, não haveria estrelas cadentes. Passou as mãos pelos braços. Não conseguia aterrorizar-se, e há muito tempo não sentia frio. Fizera seu aprendizado de solidão enquanto as coisas sentidas a cada dia tornavam-se mais e mais semelhantes, para finalmente permanecerem numa massa informe a escorrer monótona por dentro dele, alterando-se apenas em insignificantes cintilações cotidianas. Apenas reagia. Tudo ali estaria para sempre excessivamente silencioso para que se pudesse soltar um grito ou chorar sozinho no escuro, como nos primeiros tempos. E ainda que gritasse: o silêncio seria maior e mais desesperado que qualquer grito, porque todos gritavam e agiam da mesma forma, calada e idêntica. Mesmo o respeito com que o cercavam não chegava a ser exatamente o reconhecimento de uma superioridade: não passava de um frio constatar do ser do outro. Encarar sem emoção a perdição alheia e a própria perdição, porque não havia distinções nem individualidades: eram todos o mesmo grande e triste monstro humano, uma única cabeça, tronco, membros. Numa noite de quase dezembro, a alma deserta. A estátua do general no meio da praça e um desconhecido no quarto. Voltou- se e encontrou dois olhos fixos nas suas mãos. Foi-se aproximando enquanto falava:&lt;br /&gt;– Há dois dias que estavas desacordado.&lt;br /&gt;Esperou algum tempo. Os dois olhos percorriam o quarto, inventariando a pobreza dos móveis poucos e arrebentados, as paredes gretadas, a bacia de louça num canto. As mãos se moviam: dez dedos torcidos sobre o lençol de tecido áspero.&lt;br /&gt;– Quer alguma coisa?&lt;br /&gt;Os lábios ressecados se abriram com dificuldade — a percepção dessa dificuldade fez com que os dedos se crispassem lentamente, aos poucos criando tramas estranhas no tecido grosso do lençol. A cabeça oscilou em direção à mesa, os olhos piscaram algumas vezes, e finalmente qualquer coisa como uma voz entremeada de sal e algas murmurou:&lt;br /&gt;– Água.&lt;br /&gt;Estendeu-lhe o copo e, sem nenhum pensamento na cabeça um pouco dolorida, ficou observando a avidez do outro. Tornou a servi-lo, e mais uma vez, e ainda outra, até que o desconhecido levasse dois dedos à boca, como a pedir silêncio, mas evidenciando uma saciedade que, por sua nitidez, quase assustou o médico. Ele então recuou para trás do lampião, onde sabia-se protegido pela sombra. Isento, e praticamente ausente, sondou-o mais uma vez. Ausente o outro, também — havia uma insólita ausência naquele rosto.&lt;br /&gt;Devia ter uns vinte anos, decidiu. E com o cuidado extremo de quem sabe que começa a penetrar no conhecimento de alguma região muito frágil, permitiu que seu próprio olhar fosse descendo do rosto para o pescoço e o peito coberto de pêlos claros, ensolarados, até onde o lençol permitia a visão. E de repente um impulso que não chegou a compreender exigiu que falasse, como se falando conseguisse evitar uma reação indesejada, talvez dura, do outro. Mas teve uma consciência tão grande da própria necessidade de apenas preencher um momento perigoso que, mal abriu a boca, sentiu-se extremamente falso. Mesmo assim, perguntou com uma espécie de carinho seco:&lt;br /&gt;– Sente-se bem?&lt;br /&gt;O outro acenou afirmativamente. A sombra na parede acenou afirmativamente. O médico tornou a perguntar:&lt;br /&gt;– Quer alguma coisa?&lt;br /&gt;O outro não respondeu. Havia uma dissimulada ferocidade no jeito como cerrava os maxilares, uma contida agressividade nos dedos fortes esmagando o lençol, uma sede além daquela água que bebera: certa vibração que exigia, intimidava e penalizava, abandonada. Entrelaçou os dedos. Queria paz. E deixou a cabeça apoiar-se no encosto da cadeira. Muito tempo depois acordou com batidas na porta. Ainda tonto, abriu-a e deparou com a mulher gorda espiando para dentro:&lt;br /&gt;— Ele acordou faz pouco — explicou, perguntando-se há quanto tempo teria acontecido aquilo que chamava, cuidadoso, de o despertar. – Bebeu muita água, depois dormiu novamente. Está fora de perigo. Não tem nenhum ferimento. A febre também baixou. Talvez amanhã já esteja em condições de levantar — objetivo, acumulava informações no desejo não revelado de ficar a sós com o que incompreendia.&lt;br /&gt;– Mas o senhor não perguntou quem era, de onde vinha, como veio dar na praia? Deus me livre, pode ser algum criminoso, a gente nunca sabe.&lt;br /&gt;– Não, não perguntei nada — disse secamente. E acrescentou: – Ele não está em condições de falar.&lt;br /&gt;A mulher sacudiu os ombros:&lt;br /&gt;– Está bem, mas não me responsabilizo por nada. O senhor é que sabe — deu alguns passos em direção à escada, subitamente voltou-se e encarou-o com ar de dúvida.&lt;br /&gt;– Sabe o que dizem na vila? Que o senhor já conhecia ele, quero dizer, que o senhor cuidou bem demais dele para um desconhecido. Que o senhor não deixou ninguém ver o rosto dele.&lt;br /&gt;Não respondeu. Fez um rápido sinal com a cabeça, como se a despedisse ou concordasse, e fechou a porta. Encostou a cabeça na madeira, e por um momento temeu que o descobrissem. Mas não tenho nada a esconder, espantou-se. Partia-se todo em pedaços incompreensíveis: o terror voltava. A espessa camada: quebrando-se, cascas finas. Acendeu um cigarro e tornou a sentar-se na beira da cama do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As noites passadas na cadeira doíam nas costas. Esticou o corpo, o sol já alto da manhã estendendo um feixe de luz por sobre a mesa e o piso riscado. E imediatamente envolveu-se em ocupações matinais, a bacia de louça num dos cantos, a água fresca nas têmporas devolvendo, lentamente, uma espécie de lucidez. Do canto, olhou para a cama: pela janela aberta, o feixe de luz do sol clareava ainda mais os lençóis. O corpo adormecido, pesado, os cabelos crespos espalhados sobre o travesseiro. A poeira dourada suspensa no ar. Evitou aproximar-se. Caminhou até a porta e, antes de dar duas voltas na chave, virou-se ainda mais uma vez para dentro. E só depois de pensar com desgosto em outro dia repleto de queixas e feridas, o cheiro de álcool, o nojo contido, só depois de lembrar da cara endurecida das mulheres, a pele gretada dos homens — só depois é que ele fechou a porta e desceu as escadas. Comeu o pão em silêncio enquanto a mulher observava-o da porta, o ar vagamente agressivo. Percebia nela o curso tenso das dúvidas, em contraponto com uma curiosidade quase obscena, embora calada. Não havia necessidade de palavras para expressar o que brilhava com suficiente intensidade nos braços cruzados em expectativa. Falou apenas quando ele começou a preparar café, pão e algumas bananas numa bandeja — simulava uma doçura de mulher gorda, pronta a assumir seu ofício de servir:&lt;br /&gt;– O senhor não precisa se preocupar. Pode deixar que eu mesma levo o café dele. Qualquer jeito, tenho mesmo que arrumar as camas e varrer os quartos.&lt;br /&gt;– Não é preciso — disse seco, e mal havia falado arrependeu-se.&lt;br /&gt;Ele pressentia: se não fizesse nenhuma concessão à mulher, se continuasse a negar-lhe qualquer possibilidade de contato com o desconhecido, a cada dia ela se faria mais e mais ávida, tornando-se talvez perigosa. Já se referia ao outro em termos velados, chamando-o de ele, em voz baixa, como nomearia qualquer coisa que não lhe fosse permitido conhecer. Ele era aquele homem lá em cima — toda a distância de outras terras, paisagens feitas não só de mar e montanhas, mas de outros elementos que ela não conseguia sequer supor, a não ser por velhas histórias, tão esgarçadas quanto inverossímeis. Ele era o inverossímil. Ele era a possibilidade negada de ampliar a visão.&lt;br /&gt;O médico pesou o rosto astuto da mulher, os cabelos repartidos ao meio e presos atrás, desnudando uma testa estreita sobre dois olhos miúdos, vivos e verdes: até que ponto ela seria capaz de avançar? Hesitou por momentos em conceder — e portanto quebrar o início de um clima que anunciava insuportável — e negar, e portanto jogar-se numa rede a se fazer cada vez mais sutil: as tramas cresceriam entrelaçadas como folhagens, até que ele não pudesse mais controlá-las? A sala calma e contida. Decidiu:&lt;br /&gt;— Eu mesmo levo.&lt;br /&gt;Subiu as escadas, a bandeja na mão. Depois depositou-a leve na mesinha de pernas tortas, ao lado da cama. Curvou-se para tocar a testa do afogado: era fresca e lisa, sobre a fisionomia repousada. Evitou qualquer pensamento. Tomou da pequena maleta e saiu para a rua.&lt;br /&gt;Fora: o sol começando a pesar, acentuado ainda mais por um vento morno que vinha do norte, as pessoas cumprimentando dissimuladas, sem perguntas, mínimas quebras de suspeita nos gestos. Visitou algumas casas, os doentes escassos, nunca houvera muito a fazer por ali, tratava-os com uma seca cordialidade que, para todos, era a marca de um homem bom, embora incógnito. Não se permitia excentricidades, e por excentricidades abrangia uma série infindável de atitudes, desde dividir a cachaça do entardecer no bar dos pescadores, mostrar a si mesmo ou evidenciar carências. Alguns, talvez, o julgassem orgulhoso. Era. Carregava com alguma dificuldade uma aceitação tão grande e silenciosa, tão absurda no seu quase mutismo e absoluta desnecessidade de comunicá-la ou demonstrá-la, sobretudo tão óbvia, lhe parecia, que parecia também que nenhuma daquelas pessoas seria capaz de compreendê-lo, da mesma forma como não compreenderiam a sua própria e pesada, intransferível, indivisível carga. Passava com sua roupa branca, todos os dias — e não era nem mais nem menos assustador que qualquer outro dos homens, ou qualquer das casas. Ninguém se indagaria em profundidade, e vistos superficialmente eram todos iguais. Apenas aceitavam — ele, como todos —, e aceitar era uma forma de compreender.&lt;br /&gt;Foi no meio da praça que encontrou com o padre. Cumprimentou-o, disposto a passar adiante, quando percebeu um movimento diverso do costumeiro a se fazer num gesto nascendo da batina negra. Ainda assim tentou continuar, mas a voz obrigou-o a deter os passos e olhar fixamente para a calva lustrosa ao sol de quase meio-dia.&lt;br /&gt;– Precisava falar com o senhor.&lt;br /&gt;– Pois não.&lt;br /&gt;– Trata-se... bem, trata-se do homem encontrado na praia.&lt;br /&gt;– Sim?&lt;br /&gt;– Bem, o senhor sabe, o povo está curioso, quer saber quem é o homem, se houve algum naufrágio. Os paroquianos estão todos um pouco... como direi?... bem, o senhor sabe... é perfeitamente natural essa curiosidade... Afinal, a vila é tão pequena, todos sabem ao mesmo tempo de tudo que acontece, ontem mesmo todos ficaram sabendo que o desconhecido está fora de perigo. Eu mesmo...&lt;br /&gt;Atalhou-o, ríspido. Detestava aquela preparação, as justificativas dissimuladas e rodeios tontos para chegar a um único ponto.&lt;br /&gt;– O que é que o senhor quer saber?&lt;br /&gt;O padre pareceu notar as farpas atrás das palavras. Imediatamente empertigou-se, passou o lenço sobre a calva encharcada de suor e respondeu no mesmo tom:&lt;br /&gt;– Quero saber quem é esse homem, de onde veio, o que quer aqui.&lt;br /&gt;– Ele não quer nada aqui. Ele nem sequer sabe que está aqui.&lt;br /&gt;– O que quer dizer com isso?&lt;br /&gt;– Não quero dizer nada. Estou apenas cuidando de um doente.&lt;br /&gt;– Mas pode ser uma criatura de maus costumes, O senhor sabe que a nossa comunidade, graças a Deus e aos meus modestos mas desvelados esforços, a nossa comunidade prima pela decência, pelos bons costumes e a moral elevada.&lt;br /&gt;– Não acredito que um desconhecido seja capaz de abalar a sua decência, os seus bons costumes e a sua moral elevada.&lt;br /&gt;– O senhor não acreditar é uma coisa. Do que ele é capaz ninguém sabe. Falo em nome de Deus — apontou para a estátua do general — e em nome do nosso mais ilustre antepassado. Esse homem pode ser um criminoso.&lt;br /&gt;– Não acredito que seja.&lt;br /&gt;– Mas o senhor tem que me prometer que falará com ele, tão logo seja possível. E que me comunicará de qualquer perigo.&lt;br /&gt;– Não prometo nada.&lt;br /&gt;– Mas ele pode ser um criminoso! Devo zelar pela segurança dos meus paroquianos! O senhor está assumindo uma responsabilidade muito grande.&lt;br /&gt;Com um aceno breve da cabeça, o médico saiu caminhando sob o sol escaldante. O padre ofegava, o rosto avermelhado pela cólera. Nas casas em volta da praça, o médico observou, portas e janelas se abriam para mostrar rostos curiosos. Pequenos grupos se formavam pelas esquinas. Uma tensão ainda mais nítida que o calor sufocante ampliava-se por toda a vila, como uma corrente elétrica. Ainda ouvia a frase do padre: – “Mas ele pode ser um criminoso!” Um criminoso. Criminoso.&lt;br /&gt;Inúmeras suspeitas atravessaram-lhe súbitas a mente: ele mesmo não chegava a compreender por que agia daquela maneira. Sabia apenas, cegamente, que precisava protegê-lo. Ao atravessar a rua mediu bem o passo para que não percebessem alguma alteração. Era preciso ser natural. Surpreendia-se precisando construir uma naturalidade, quando nada seria mais natural do que essa naturalidade — e no entanto precisava aplicadamente construí-la em cada passo, em cada movimento de braço, cada respiração, cada olhar. Uma agulha fina penetrou na têmpora esquerda, lentamente varando carne, músculos, ossos, para comprimir um recôndito ponto. Que doía. Depois de muito tempo. Um ponto doía, inacessível. Quando entrou no quarto, o desconhecido esperava. Estava em pé, ao lado da bacia de louça, a mão esquerda levantada na altura do rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alfa é meu nome — disse.&lt;br /&gt;E ele perguntou:&lt;br /&gt;— Esse é teu nome de guerra?&lt;br /&gt;E ele respondeu:&lt;br /&gt;— Não. Esse é meu nome de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— mas o que chamas de paz se pressinto em ti essa coisa mansa que se faz nos outros e em cada momento que te olho inúmeras coisas escuras escorrem dentro de mim pois se a paz não é uma coisa escura pois senão não continuarei não te farei nenhuma pergunta embora precisasse não para te definir ou para te compreender não preciso saber de onde vens assim como para me definires ou me compreenderes não precisas de nenhum dado concreto mas eu não te defino nem te compreendo apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenida des que construí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata esta letargia porque já não admiro precariedades por que não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto ainda que tudo isso seja um lento processo de morte um enveredar em direção ao mais terrível vejo em ti o meu roteiro de agonia além disso nada sei mas não fujo foram muito poucas as coisas que vivi percebo que não cheguei a existir exatamente mas não sou forte apenas construí de minhas fraquezas essa coisa que talvez chamasses força há muito tempo eu permanecia esquecido de mim mesmo foi preciso que chegasses para eu perceber que somente destruindo se pode construir agora eu quero a destruição que me propões mas não propões nada deixas que eu enverede sozinho é assim sei que não me deixarás sozinho sei que te recusas a te definires em palavras não por que eu me atemorizasse mas por que as palavras não te dizem te mos muito pouco tempo nesse pouco tempo é preciso que todos percebam em ti o que nunca viram e somente no último momento possam ver a tua face essa face terrível que todos suspeitam terrível mas eu reivindico a posse desse terrível porque me sei capaz de suportá-lo não falta muito tempo agradeço por me teres dado a consciência da minha inutilidade mas eu de nada sei nada conheço do que falo mesmo assim estou pronto embora sem compreender inteiramente sim semearemos a fome e a discórdia semearemos o que eles não seriam capazes de viver se não chegasses não me esquivarei vejo a tua mão estendida em direção a mim e estendo a minha própria mão e minha mão e tua mão se tocam e a minha espera e a tua conduz sim preparo-me para o grande mergulho no desconhecido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— antes que tentes aviso já te disse tudo não sou nada além de meu nome meu nome é minha essência mais profunda assim como a tua talvez seja a que vivas no momento talvez nada sejas além destas paredes descascadas destes móveis poucos esta bacia de louça naquele canto mas não te julgo pelo que vejo em ti externamente não julgo a ninguém nem a mim mesmo vim duma coisa que ainda não conheces vim duma coisa enorme da es curidão e de luz mais absolutas que possas imaginar a um só tempo vim duma coisa sem medo mas não sabes que trago em mim o princípio e o fim de todas as coisas sabes por ventura que te farei meu cúmplice e despertarei teu ódio esse ódio calado que consome as vísceras por que de todos és o único que sabes da absoluta inutilida de de todas as coisas e sa bes dessa vontade incon tida de ser maior que todas essas coisas sabes dessa vontade amarga no peito de cada um e esquecida duran te a trivialidade sabes de tudo isso e por saberes é que te escolhi te digo que o acaso não existe e que aconteci no momento exato em que não suportavas mais embora não soubesses da tua exaustão é preciso que as coisas se intercalem exatamente como está sen do feito esses momentos de luz aparentemente banais é preciso essa linearidade para que subterraneamente escorra um fluxo intenso e te digo que subitamente os homens enlouquecerão e perpetrarão o que ja mais seriam capazes de perpetrar te digo dessa loucura tão próxima te digo da proximidade de tua própria destruição e sei que não temes porque eu não te escolheria se não soubesse embora saiba que temerás no momento exato e que mais tarde julgarás que foste fraco mas eu te digo ainda que todas as coisas estão sendo feitas e que não podes fugir delas porque a partir do momento em que alguém é escolhido faz-se necessário assumir essa escolha os temores não serão infundados nem mesmo esses obscuros pressentimen tos que te assaltam é preciso que alguém faça penditar a ordem das coisas por que essa ordem permane cena inabalável se não houvesse a minha chegada pois quem provou do ódio desejará provar coisas cada vez mais intensas e o mais intenso que o ódio só pode ser essa região sombria à qual os homens deram um nome mas esses de nada sabem mesmo tu de nada sabes eu vim dessa região para semear a fome e a discórdia e não preciso te convencer de nada quero apenas que te deixes conduzir toma a minha mão e vê como ela é leve toma da minha mão e pensa nos lugares para onde te levarei nesta noite de quase dezembro e agora prepara-te para o grande mergulho no desconhecido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das duas da tarde uma aglomeração se fez no meio da praça. Era o sétimo dia. Rumores diluídos de vozes humanas misturadas ao barulho do vento norte que varria a vila há vários dias, levando para longe o cheiro dos animais apodrecidos, latas velhas chocavam-se contra paredes, árvores libertavam folhas que ficavam soltas no ar, frutos caíam pesados no chão, janelas batiam com força espatifando vidros. A princípio não chegou a compreender o que se passava: parecia impossível que alguém ou alguma coisa voluntariamente quebrasse o silêncio estabelecido tácito e imutável, perdurando sempre do meio-dia às quatro da tarde. Com esforço, afastou da testa os cabelos empastados de suor e aproximou-se da janela.&lt;br /&gt;Então distinguiu os homens amontoados sob a estátua do general, em torno do padre, cuja batina esvoaçava estranhamente leve com o vento. Tão logo sua presença foi notada, um brusco silêncio se armou: voltaram-se todos para observá-lo, os pescadores com os chapéus nas mãos, as mulheres com os filhos dependurados na cintura, mesmo os cães cessaram os movimentos e, atentos ao que se preparava, olhavam-no imóveis. Sentiu medo. Aquilo que se desenrolava há tempos, tão de leve que não conseguira ainda nomeá-lo, de repente se concretizou, estampado em sua fisionomia. Não o recusou: descobria no mesmo instante que o medo era matéria de sobrevivência, como o eram todas as coisas, mesmo as esperas frustradas e as inúmeras sedes e os espantos e pequenas descobertas que em si nada significam mas que juntas formavam lentamente camadas superpostas e densas demais, sim, as densidades insuspeitadas e as estrelas cadentes e a queda de estrelas e a cadência dos passos todas as manhãs a aspirar a maresia e atravessar a praça e muitas coisas e todas as coisas — e finalmente o estar ali parado na janela olhando fixamente a massa que exigia, não permitindo que alguém se individualizasse ou protegesse um mistério qualquer — pois que era fundamental para a sobrevivência de todos que as vidas fossem identicamente claras — tão claras que o sol pudesse vará-las como varava as janelas constantemente abertas — finalmente comprimir os dedos contra o parapeito empoeirado da janela, enfrentando o que ele próprio construíra, as costas molhadas de suor, os olhos ofuscados pela luz intensa, os pés descalços sobre a madeira — cara a cara com o seu invento.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mas não é verdade que nunca tivesses suspeitado desta tarde e desta fome: não é verdade que por um momento sequer tivesses tentado fugir à tua trágica determinação: não é verdade que alguma vez tivesses sequer pensado numa possibilidade de salvação: sabias desde o começo da consistência ácida do que tecias, e no entanto persistias nela, como quem penetra num beco sem saída, caminhando pela estreita dimensão que sabias desde sempre intransponível: sim, tu sabias deste momento a construir-se desde o começo, e não fizeste nenhuma tentativa de evitá-lo: agora é necessário que enfrentes: embora talvez não soubesses do depois deste momento que se faz agora e portanto não possas estar preparado para o próximo momento: mas deste sabes: tudo se encaminhou para ele, e já não podes fazer mais nada, a não ser enfrentá-lo: tens ainda no peito a chama que te consumia nessas noites paradas de verão: tens ainda o que convencionaste chamar força: tens ainda todas as partículas de tua determinação: tens ainda a tua integridade, embora saibas que ela pode te destruir: pois então toma dessa fibra que a si mesma se construiu em solidão sob teu olhar espantado e impassível: toma dessa fibra feita de algo tão denso quanto o ódio: tomado teu ódio: e agora enfrenta.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Suspirou exausto. Conservou as duas mãos crispadas no parapeito da janela, enquanto o padre se aproximava: sentiu o contato da outra mão em seu ombro, como a ampará-lo. E disse:&lt;br /&gt;– Volta para dentro. Espera. Eles não podem te ver.&lt;br /&gt;Fora do círculo formado pelos pescadores, destacava-se o padre, avançando. Ouviu:&lt;br /&gt;– Queremos que o senhor desça.&lt;br /&gt;E já não era um pedido, já não eram mais aquelas tímidas aproximações cheias de justificativas, não era sequer um convite, nem mesmo uma ordem — mas um fato irreversível.&lt;br /&gt;– Não tenho nada a dizer.&lt;br /&gt;– Não queremos que o senhor diga alguma coisa. Queremos ver o desconhecido. O senhor não nos pode explicar. Queremos que ele nos diga por que depois de sua chegada os pescadores não trouxeram mais peixes, por que o leite coalhou todas as manhãs, por que morreram as crianças nos ventres das mulheres prenhes, por que todas as donzelas perderam a pureza, por que sopra esse vento desde a sua chegada, por que não caíram mais estrelas, por que todas as plantações secaram e os animais morrem de sede pelas ruas, por que esta sede. Esse homem traz a destruição e o demônio dentro de si. O senhor protege esse homem. O senhor é cúmplice da destruição. Um hálito de morte percorre a vila. E o senhor é o culpado disso. Por que não o deixou morrer? Por que não nos deixa ver a face dele? Por que ele não sai às ruas se já está recuperado? Por que o senhor deixou de visitar seus doentes? Por que o senhor está encaminhando estes homens pacíficos para a violência? Queremos saber dos estranhos poderes desse desconhecido.&lt;br /&gt;– Não sei do que o senhor fala. Todas as coisas são as mesmas há muito tempo.&lt;br /&gt;Um murmúrio cresceu na praça. O padre tornou a falar:&lt;br /&gt;– Não queremos usar a força. É melhor que o senhor desça.&lt;br /&gt;Voltou-se para dentro, escrutou-o detidamente, mas sem conseguir perceber nenhum sinal.&lt;br /&gt;– Não tenha medo — disse. – Eu te protegerei.&lt;br /&gt;– Não tenho medo. E não preciso de tua proteção.&lt;br /&gt;– O que há em ti que não compreendo?&lt;br /&gt;– O que há em mim e não compreendes é o mesmo que há em ti, e tampouco compreendes.&lt;br /&gt;Sorriu. Os dentes muito claros. Os olhos azuis. Punhalada de luz.&lt;br /&gt;– Eles são capazes de tudo.&lt;br /&gt;– Eu sei. Também eu sou capaz de tudo.&lt;br /&gt;– Preciso descer. Não quero que morras.&lt;br /&gt;– Também eu não quero que morras. Mas morreremos.&lt;br /&gt;O médico encaminhou-se para a porta. Os ombros curvos. Hesitava entre sair e permanecer no quarto. Então voltou-se e disse:&lt;br /&gt;– Foge pelos fundos enquanto falo com eles — e acrescentou apressadamente, como se precisasse dar forma a uma idéia inesperada antes que ela se desfizesse: – Sim, foge pelos fundos e me espera na praia, no mesmo lugar onde te encontrei, mais tarde irei encontrar contigo, então...&lt;br /&gt;– Então fugiremos?&lt;br /&gt;– Sim, sim. Fugiremos.&lt;br /&gt;– Mas não vês que é impossível?&lt;br /&gt;– Não, não é impossível. Fugiremos para qualquer lugar, não importa onde, não importa qual.&lt;br /&gt;– Havias falado que daqui ninguém foge.&lt;br /&gt;– Não tem importância, não sei mais. Agora vai. Preciso descer.&lt;br /&gt;Desceram juntos a escada, no final separaram-se. O médico abriu a porta e encarou o padre.&lt;br /&gt;– Podem subir — disse. – Ele foi embora. Não há ninguém lá em cima.&lt;br /&gt;Os pescadores entreolharam-se surpresos, subitamente desarmados. Pareceram não saber para onde ir ou o que fazer, até que o padre fez um sinal com a cabeça, encaminhando-se para a porta aberta. O médico recuou, esperando que todos entrassem. De baixo, viu-os subirem rapidamente as escadas, os pés empoeirados marcando os degraus. Depois ouviu o barulho da porta aberta com violência, exclamações de espanto, rumor de móveis despedaçados, gritos. De repente um silêncio e a voz da mulher sobrepujando ruídos, nítida:&lt;br /&gt;– Não é verdade. Ele enganou vocês. O homem está na praia.&lt;br /&gt;Permaneceu estático por um momento, o vento batendo nos cabelos, os olhos voltados para cima. Depois saiu correndo em direção ao mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do alto das dunas, viu-o no mesmo lugar onde o encontrara pela primeira vez. Os cabelos esvoaçavam ao vento: parecia um menino assim, de longe, um menino qualquer construindo castelos na areia. Correu para ele, os braços abertos, seu corpo oscilava precário, para depois enristar-se feito uma seta, as agulhas finas penetrando as têmporas — seu corpo inteiro: uma agulha fina em direção à pequena mancha. Os pés afundavam e queimavam na areia.&lt;br /&gt;– Eles nos descobriram — gritou.&lt;br /&gt;O desconhecido abanou a cabeça. E novamente o médico pensou em que estranhas marcas, sem serem propriamente marcas, pois não deixavam traços, havia naquele rosto queimado e ainda em preparo, na introdução de alguma coisa que não viria a ser.&lt;br /&gt;– É muito tarde.&lt;br /&gt;– Não. Ainda é tempo. Podemos fugir.&lt;br /&gt;Tentou tomar da mão dele, mas o outro se esquivou num movimento perfeitamente definido, embora suave. Ficaram a encarar-se durante um tempo que o médico julgou longo demais, incompreensível demais — como tudo. Não conseguiu compreender exatamente o que se passava: sabia apenas que precisavam fugir. Embora desde o começo tudo estivesse previsto, não conseguira perceber essa obstinada negação que se faria. Insistiu ainda. E outra vez. Até que ouviu vozes sobre as dunas. Não precisou voltar-se para saber que eram os pescadores: o padre, a mulher e o menino à frente, conduzindo a massa que descia rápida, armada de paus e pedras. Gritavam.&lt;br /&gt;– Não quero ir sozinho — disse. – Vem comigo.&lt;br /&gt;– Mas não irás sozinho, embora eu não vá contigo.&lt;br /&gt;Sem saber exatamente o que fazia, começou a correr pela praia, sem saber também para onde. O sol cegava-o. Pequenos vermes se movimentavam na areia úmida, esmagada sob seus pés. Correu durante muito tempo, depois deixou-se cair exausto sobre os próprios joelhos. Então voltou-se e viu-o, no meio da multidão enfurecida, os braços baixavam e abatiam-se sobre sua cabeça repetidas vezes. Podia ver o sangue escorrendo, misturando seu vermelho com a brancura da areia. Mas não havia gritos. Tudo estava muito quieto.&lt;br /&gt;Esperou que todos se afastassem e voltou. Escurecia aos poucos. Quando alcançou o corpo, uma chuva fina começou a cair. O vento tinha cessado. A chuva pouco a pouco adensada: tomou entre as mãos a cabeça destroçada e ficou olhando durante muito tempo para dois olhos azuis escancarados. O sangue ainda escorria. Quente. Quando a noite baixou, arrumou cuidadoso o cadáver lavou as manchas de sangue do rosto, depois foi entrando lentamente no mar. Antes de mergulhar olhou para cima e, embora chovesse, inúmeras estrelas cadentes riscavam o céu de ponta a ponta. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4797830086232577277?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4797830086232577277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4797830086232577277&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4797830086232577277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4797830086232577277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/o-afogado.html' title='O AFOGADO'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1795860808632357369</id><published>2008-04-05T11:20:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:21:32.350-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>SARAU</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estou certo de que se não tivesse ido à cozinha aquela noite não os teria encontrado. Apenas não era possível ficar sem fazer nada enquanto meus pais jogavam cartas na sala. Tinham-me perguntado duas ou três vezes se eu não queria jogar — e duas ou três vezes respondi que não. Talvez houvesse falado secamente, porque eles baixaram a cabeça como se estivessem sendo agredidos e, espantosamente, continuaram a jogar. Digo espantosamente porque era quase inacreditável a lentidão com que movimentavam os braços para depositar cartas sobre a toalha de plástico. As vezes os movimentos se espaçavam a tal ponto que, suspenso, eu esperava o momento em que um deles dissesse não suportar mais. Mas embora os espaços aumentassem, ninguém dizia nada A impressão que eu tinha era de que o jogo ganhava a forma de enormes intervalos de silêncio, cada vez mais vazios, interligados por uma ou outra carta. Desde sempre jogavam assim, ninguém ganhava, ninguém ganharia nunca — dizia-me lentamente enquanto olhava para suas cabeças falsamente absortas. Olhei em volta, mas também ali não acontecia nada. Algumas folhas batiam na vidraça, e nada mais que isso.&lt;br /&gt;Foi então que surpreendi os dois olhando para mim como se esperassem. Mas não havia nada para dar a eles. Rapidamente, então, imaginei uma cimitarra e, sem parar de pensar, dotei-a de uma infinidade de movimentos circulares — como se dançasse. Só que não havia nenhuma mão a sustentá-la. Eles continuavam me olhando enquanto o som do relógio crescia, espalhado quase insuportável por entre as cartas e os espaços vazios. E foi ainda então que houve a necessidade de um gesto meu. Levantei-me e enveredei em direção à cozinha. Debrucei a cabeça sobre a mesa limpa como se chorasse. Apenas como. Não havia porquê, e eu sempre pensava que devia haver uma motivação a orientar qualquer gesto meu. Rocei a face contra a superfície da madeira. Ela me feriu de leve com suas aparas quase imperceptíveis.&lt;br /&gt;Fechei os olhos e julguei descobrir alguma coisa no fundo das pupilas: criavam-se certos movimentos verticais, tão imprecisos quanto bruscos, e apertando mais os olhos eles se alargavam, ganhando alguns toques dourados. Esse era um dos meus divertimentos favoritos nos últimos tempos: acreditava sentir em mim remotas forças reveladas e expressas naquelas sombras que moravam no fundo de meus olhos. Não sabia que espécie de forças, afinal de contas sempre fui um desconhecido para mim mesmo — sabia porém que eram violentas essas forças, diria mesmo fortes forças, não fosse sem sentido. Mas essas forças, ou o que quer que fossem aqueles movimentos escuros e verticais, nunca chegavam além das pálpebras. Foi pensando nisso que abri os olhos e encontrei a cimitarra. Ela avançava para mim com seus movimentos circulares, como se desejasse cortar-me. Como não me surpreendi, ela parou no meio do caminho.&lt;br /&gt;Saí da cozinha e desci velozmente as escadas sem parar na sala. À porta do edifício detive brusco os passos e olhei para trás, a ver se ela me seguia. Não consegui enxergar nada na escuridão: abri a porta e saí para a noite. Sentei num dos bancos do jardim do edifício e fiquei ali, perdido entre as hortênsias meio murchas, até que um contato frio no ombro esquerdo obrigou minha cabeça a voltar-se. Independente de meu comando, ela voltou-se e viu a cimitarra. Não posso negar que seus movimentos eram doces, e não foi por outro motivo que obriguei meus olhos a encararem-na sérios, talvez excessivamente sérios, porque seus movimentos começaram a intensificar-se de tal maneira que fui obrigado a suspirar, exausto.&lt;br /&gt;A verdade é que ela me cansava um pouco com seus movimentos sempre iguais, e principalmente com aqueles vulgares reflexos da lua em sua lâmina polida. Mas não podia negar também que era bela, tão bela quanto pode ser uma cimitarra, apesar de um tanto acadêmica. Bocejei, tentando fechar novamente os olhos para voltar à minha brincadeira. Mas não foi possível descobrir no fundo das pupilas os mesmos objetos imprecisos, contraindo-se vertical e horizontalmente, como numa dança hindu. Agora eram duas cimitarras de lâminas cintilantes que, nítidas, oscilavam por entre as pálpebras. Dentro e fora de meus olhos, a paisagem era a mesma. Resolvi, portanto, abri-los, o que fiz com certo cuidado, temeroso de que um gesto brusco pudesse provocar o desabamento de qualquer coisa que eu não conseguia precisar o que fosse.&lt;br /&gt;Olhei primeiro as hortênsias, depois a luz, depois espalmei a mão sobre o cimento do banco, certifiquei-me de que não havia estrelas, constatei a frieza do cimento, tentei sentir um pouco de frio — mas finalmente fui obrigado a admitir o impossível: a cimitarra havia-se multiplicado em cinco. Essas cinco cimitarras agora estavam paradas à minha volta, poderia mesmo dizer que: expectantes. Não fiz nenhuma pergunta: limitei-me apenas a observá-las com mais cuidado que antes. Mas não havia nada de extraordinário nelas.&lt;br /&gt;Pensei ficar mais tranqüilo com essa descoberta, mas aos poucos fui distinguindo alguns contornos bastante esmaecidos por trás delas. Forcei a vista e, à medida que me empenhava em ver cada vez melhor, mais esmaecidas se faziam as formas. Depois de alguns minutos, desisti. No momento em que julguei ter desistido, as sombras se tornaram mais acentuadas e, sem nenhum esforço de minha parte, transformaram-se em cinco seres desconhecidos. Tinham a mesma aparência — todos baixos, musculosos, de cabeças raspadas, narinas largas e olhos inteiramente verdes, sem pupila, íris ou esclerótica, seu lábios eram grossos e traziam argolas nas orelhas.&lt;br /&gt;“Mas eu nunca os imaginei” — tentei dizer-lhes, ao mesmo tempo em que, sem saber exatamente a razão, achava-os parecidos com uma tapeçaria que vira em algum antiquário no mercado persa da cidade. Ao mesmo tempo em que abri a boca, senti contra os lábios o contato da madeira. Isso era impossível, porque eu estava sentado num banco de cimento. Sem me mover, percebi que meus olhos estavam fechados, e erguendo uma das mãos apalpei a superfície onde estava debruçado. Parecia uma mesa, a mesma da cozinha de nossa casa. Deve ser um sonho — pensei sem originalidade. Vim até a cozinha e dormi. Mas ao abrir olhos verifiquei que, embora realmente estivesse na mesa da cozinha, os seres continuavam presentes.&lt;br /&gt;Não movi um músculo, com a intenção de não fazer absolutamente nada enquanto não fosse usada a violência. Mas lentamente alguma coisa em meu cérebro começou a pulsar. Julguei que fosse uma célula, embora não soubesse ao certo o que seria uma célula. Pulsava do lado esquerdo de minha fronte, exatamente como pulsaria uma veia. Levando as mãos à testa, porém, percebi que a veia continuava imóvel, no mesmo lugar de sempre, e por entre as gotas de suor continuei sentindo o pulsar invisível da coisa, cada vez mais intenso. Já quase dilacerava meu cérebro, me impedindo de pensar, ensurdecedora, absurda — quando tive a sensação que gritava.&lt;br /&gt;Os cinco seres tiveram um quase imperceptível movimento de alegria quando fiz menção de levantar. Havia-se formado entre nós uma espécie de corrente telepática: olhando a extensão inteiramente verde de seus olhos percebi que sorriam e me incitavam a ir adiante no que começara. Tentei dizer que não começara coisa alguma, mas imediatamente senti quase como um soco a extraordinária beleza daqueles cinco seres e suas cimitarras. Enquanto avançava na compreensão do que eles me ditavam, ia descobrindo com mais precisão o sentido de tudo aquilo.&lt;br /&gt;Não hesitei quando um deles me empurrou em direção à porta. Entrando na sala, percebi com surpresa que o ponteiro dos minutos do relógio quase não se movera desde a última vez que eu o olhara. E, no entanto, a minha sensação era de que tinham se passado horas. Curvados sobre a mesa, os meus pais continuavam seu espaçado jogo. Cruzei os braços e me recostei à janela, abrindo-a para que entrasse um pouco de ar&lt;br /&gt;Quando senti que tudo estava preparado, fiz um sinal em direção aos dois velhos e esperei. Os cinco seres deixaram-se cair sobre eles. Dois seguraram meu pai enquanto outros dois seguravam minha mãe e o quinto cortava-os rapidamente com golpes de cimitarra. Cortaram-nos em inúmeros pedaços que caíram espalhados pelo chão, sem sangue nem gritos. Em seguida reuniram-se em torno da carne e banquetearam-se fartamente, sem deixar vestígios. Antes de terminarem, um deles me ofereceu um pedaço das costas de meu pai, mas preferi ir até a geladeira e beber um copo de leite. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1795860808632357369?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1795860808632357369/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1795860808632357369&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1795860808632357369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1795860808632357369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/sarau.html' title='SARAU'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2588510633114748431</id><published>2008-04-05T11:16:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T11:18:04.645-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>NOS POÇOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2588510633114748431?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2588510633114748431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2588510633114748431&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2588510633114748431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2588510633114748431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/poos.html' title='NOS POÇOS'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1944789230243719836</id><published>2008-04-05T11:12:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T11:15:42.037-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>OÁSIS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Para&lt;br /&gt;José Cláudio Abreu,&lt;br /&gt;Luiz Carlos Moura&lt;br /&gt;e o negrinho Jorge&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brincadeira não era difícil: bastava que nos concentrássemos o suficiente para conseguirmos transformar tudo que havia em volta. E treinados como estávamos nas imaginações mais delirantes, era relativamente fácil avistar um deserto na rua comprida e um oásis no arco branco do portão do quartel, lá no fundo. Algumas vezes tentamos iniciar um ou outro guri da nossa idade, mas eles não conseguiam nunca chegar até o fim. Os mais persistentes alcançavam a metade do caminho, mas era mais comum rirem de saída e irem cuidar de outra coisa. Talvez porque, ao contrário de nós três, nunca houvessem visto o quartel por dentro, com seus lagos, cavalos, alamedas calçadas, eucaliptos, cinamomos, soldados.&lt;br /&gt;Acho mesmo que foi naquela tarde em que visitamos o quartel pela primeira vez que a brincadeira nasceu. Absolutamente fascinados, sentimos necessidade de vê-lo mais e mais vezes, principalmente ficamos surpresos por não termos jamais imaginado quantas maravilhas se escondiam atrás daquele portão branco, e tão tangíveis, ali, no fim da rua de nossa casa. Não sei de quem partiu a idéia mas, seja de quem foi, ele foi muito sutil ao propôla, disfarçando a coisa de tal jeito que não suspeitamos tratar-se de apenas um pretexto para visitar mais vezes o quartel. Claro que não confessaríamos claramente nosso fascínio, tão empenhados andávamos em, constantemente, simular um fastio em relação a todas as coisas. Fastio esse que, para nós, era sinônimo de superioridade.&lt;br /&gt;Era preciso bastante sol para brincar — fazíamos questão de ficar empapados de suor e de sentirmos sobre as cabeças aquela massa amarela quase esmagando os miolos. Era preciso também que não houvesse chovido nos dias anteriores, pois por mais hábeis que fôssemos para distorcer pequenos ou grandes detalhes, não o éramos a ponto de aceitar um deserto lamacento. Quando todas essas coisas se combinavam, a proposta partia de qualquer um de nós.&lt;br /&gt;Brincar de oásis era a senha, e imediatamente caíamos no chão, ainda desacordados com o choque produzido pela queda do avião onde viajávamos, depois lentamente abríamos os olhos e tateávamos em volta, no meio da rua, tocando as pedras escaldantes da hora de sesta. Quase sempre Jorge voltava a fechar os olhos, dizendo que preferia morrer ali mesmo do que ficar dias e dias se cansando à toa pelo deserto. E quase sempre eu apontava para o arco no fim da rua, dizendo que se tratava de um oásis, que meu avião já havia caído lá uma vez e que, enfim, tinha experiência de caminhadas no deserto. Em seguida Luiz investigava os bolsos e apresentava algum biscoito velho, acrescentando que tínhamos víveres suficientes para chegar lá. Convencido Jorge, tudo se passava normalmente. Aos poucos nossas posturas iam decaindo:&lt;br /&gt;no fim da primeira quadra, tínhamos os ombros baixos, as pernas moles — na altura do colégio das freiras começávamos a tropeçar e, para não cair, nos segurávamos no muro de tijolos musguentos.&lt;br /&gt;A partir do colégio as casas rareavam, e além de algumas pensões de putas não havia senão campo, cercas de arame farpado e a poeira solta e vermelha do meio da rua. Então, sem nenhum pudor, andávamos nos arrastando enquanto algumas daquelas mulheres espantosamente loiras nos observavam das janelas por baixo das pálpebras azuis e verdes, pintando as unhas e tomando chimarrão embaixo das parreiras carregadas. Tudo se desenvolvia por etapas que eram vencidas sem nenhuma palavra, sem sequer um olhar. Raramente alguém esquecia alguma coisa. Apenas uma vez Jorge não resistiu e, interrompendo por um momento a caminhada, pediu um copo d’água para uma daquelas mulheres. Eu e Luiz nos entreolhamos sem falar, escandalizados com o que julgávamos uma imperdoável traição. Mas a tal ponto nos comunicávamos que, mal voltou, a água ainda pingando do queixo, Jorge justificou-se com um sorriso deslavado:&lt;br /&gt;– Foi uma miragem.&lt;br /&gt;A partir de então as miragens se multiplicaram: vacas que atravessavam a rua, pitangueiras no meio do campo, alguma pedrada num passarinho mais distraído. Chegávamos no portão e ficávamos olhando para dentro, sem coragem de entrar, com medo dos dois soldados de guarda. Lá dentro: o paraíso. Mas era como se tivéssemos entrado: voltávamos novamente eretos, bem-dispostos, com as peças para consertar o avião caído e que, sem a menor explicação, tínhamos encontrado entre duas palmeiras.&lt;br /&gt;Houve um verão de seca tão intensa, sol, poeira, sede e crepúsculos esbraseados, que brincávamos quase todos os dias. Acabamos fazendo amizade com um soldado que ficava de guarda às segundas, quartas e sextas. Aos poucos, então, começamos a suborná-lo, usando os métodos mais sedutores, adestrando-nos em cinismos. Começamos por mostrar a ele figurinhas de álbum, depois levando revistas velhas, biscoitos, rapaduras, pedaços de galinha assada do almoço de domingo, garrafas ‘azias e, finalmente, até mesmo alguma camisa que misteriosamente desaparecia do varal de casa. Mas a vitória só foi consumada quando Dejanira, a empregada, entrou em cena Com muito tato, conseguimos interessar o soldado numa misteriosa mulata que espiava todos os dias a sua passagem para o quartel, de manhã cedinho, escondida atrás da janela da sala. Era uma mulata tímida e lânguida, que fazia versos às escondidas e pensava vagamente em suicídio nas noites de lua cheia. Dejanira parecia um nome muito vulgar para uma criatura de tais qualidades, então tomamos a batizá-la de Dejanira Valéria e, pouco a pouco, fomos acrescentando mais e mais detalhes, até conseguir enredar o soldado a um ponto que ele chegava a nos convidar para entrar no quartel. Antes do avião cair nos esmerávamos em forjar bilhetes cheios de solecismos e compor versos de pé quebrado em folhas de caderno, sensualmente assinados por docemente tua, Dejanira Valéria, numa caligrafia que Luiz caprichadamente enchia de meneios barrocos altamente sedutores. E na hora do banho Dejanira não entendia por que a tratávamos com tanto respeito, chamando-a candidamente de doce Valéria, até que nos enchia de cascudos e palavrões. Mas a confiança do soldado estava ganha: já agora se empenhava em nos agradar, atraindo-nos para dentro do quartel e permitindo que ficássemos horas zanzando pelo pátio calçado, as árvores pintadas de branco até a metade, os cavalos de cheiro forte e crina cortada, apitos, continências, bater de pés e outras senhas absolutamente incompreensíveis e deslumbrantes em seu mistério. Coisas estranhas se passavam ali, e tínhamos certeza de estarmos lentamente ingressando numa espécie de sociedade mágica e secreta.&lt;br /&gt;Foi quando, uma tarde, tudo se passando exatamente como das outras vezes, nos encontramos os três parados à frente de um portão sem guarda. Não conseguimos compreender, mas estávamos tão habituados a entrar e a passar despercebidos que, como das outras vezes, entramos. Havia um movimento incomum lá dentro: carroças se chocavam, armas passavam de um lado para outro, soldados corriam e gritavam palavrões, o chão estava sujo de esterco, os cavalos todos enfileirados. Conseguimos passar mais ou menos incógnitos pelo meio da babilônia, até chegarmos numa sala onde nunca estivéramos antes. Examinamos as paredes vazias, depois descobrimos num canto, sobre uma mesa, um estranho aparelho cheio de fios. Jorge descobriu um microfone e, por algum tempo, ficamos ali parados, sem compreender exatamente o que era aquilo, mas certos de que se tratava de uma peça importantíssima para o funcionamento de toda a organização.&lt;br /&gt;Estávamos tão entretidos na descoberta que não percebemos quando entraram dois soldados com fardas diferentes das dos outros, com penduricalhos coloridos nos ombros. Fui o primeiro a vê-los, mas não foi possível avisar os outros: os soldados já avançavam sobre nós, vermelhos, segurando-nos pelos ombros e nos sacudindo até que Jorge começasse a chorar e a chamar pela mãe. Falavam os dois ao mesmo tempo, aos berros. Depois, com mais alguns trancos, nos jogaram num canto. Um deles, de enorme bigode preto, avançou para nós e, com uma voz que me pareceu completamente hedionda, disse que ficaríamos presos até aprendermos a não nos meter onde não era da nossa conta. Ainda discutiu um pouco com o outro, que parecia estar do nosso lado, pelo menos torcemos para que fosse assim. Mas não adiantou nada: o de bigode enorme disse que era só um susto, e saiu nos empurrando até a prisão.&lt;br /&gt;Era um quartinho ainda menor que o de Dejanira, infinitamente mais sujo e frio, apesar de todo o calor que fazia lá fora, com uma janelinha gradeada na altura do teto. Ficamos ali durante muito tempo, incapazes de dizer qualquer palavra, num temor tão espesso que não era preciso evidenciá-lo através de um grito. Jorge chorava, eu e Luiz nos encolhíamos contra as paredes. Pensamentos terríveis cruzavam a minha cabeça, pelotões, fuzilamentos, enquanto uma dor de barriga se tornava cada vez mais insuportável, até escorregar pelas pernas numa massa visguenta.&lt;br /&gt;Já era noite quando vimos com alívio a porta se abrir para dar passagem ao soldado nosso conhecido. Sem falar nada, fomos levados para casa num jipe militar. Mamãe estava descabelada, as vizinhas todas em volta, as luzes acesas: entramos na sala pela mão do soldado, que falou rapidamente coisas que não conseguimos entender, enquanto todo mundo nos envolvia em beijos e abraços, logo contidos quando perceberam meu estado lastimável. Mamãe disse que a culpada era Dejanira, que não cuidava de nós; papai disse que a culpada era mamãe, que nos entregava a Dejanira; Dejanira disse que os culpados éramos nós, uns demônios capazes de enlouquecer qualquer vivente; mamãe disse que Dejanira era uma china desaforada, e que demônios eram os da laia dela, e que o culpado era papai, que achava que em criança não se bate; Dejanira disse que não ficava mais nem um minuto naquela casa de doidos; papai disse que mamãe não nos dava a mínima; mamãe disse que era uma verdadeira escrava e que os homens só queriam mesmo as mulheres para aquilo; papai disse que não podia dar atenção a seus faniquitos na hora em que o país atravessava uma crise tão grave. E acabaram os três gritando tão alto quanto os dois soldados de farda diferente, com penduricalhos coloridos nos ombros.&lt;br /&gt;Depois do banho assistimos à partida de uma Dejanira nem um pouco Valéria e muito menos lânguida: jogava as roupas na mala e resmungava desaforos em voz baixa. Doía vê-la ir embora, mas as chineladas e a vara de marmelo doeram muito mais. Fomos postos na cama sem jantar. Ficamos muito tempo acordados no escuro, ouvindo o som do rádio que vinha da sala e os passos apressados na rua. Antes de dormir ainda ouvi a voz de Jorge perguntando a Luiz o que era uma revolução, e um pouco mais tarde a voz de Luiz, apagada e hesitante, dizer que achava que revolução era assim como uma guerra pequena. Mais tarde, não sei se sonhei ou se pensei realmente que os aviões não caíam no meio das ruas, e que as ruas não eram desertos, e que portões brancos de quartéis não eram oásis. E que mesmo que portões brancos de quartéis fossem oásis e cinamomos pintados de branco até a metade fossem palmeiras, não se encontraria nunca uma peça de avião no meio de duas palmeiras. E por todas essas coisas, creio, soube que nunca mais voltaríamos a brincar de encontrar oásis no fim das ruas. Embora fosse muito fácil, naquele tempo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1944789230243719836?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1944789230243719836/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1944789230243719836&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1944789230243719836'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1944789230243719836'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/para-jos-cludio-abreu-luiz-carlos-moura.html' title='OÁSIS'/><author><name>Lucila</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>lucila.tania@terra.com.br</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='09339621237842534432'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3825938842775242469</id><published>2007-08-26T15:09:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T11:10:28.500-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>PEQUENO MONSTRO</title><content type='html'>Para Grace Giannoukas e Marcos Breda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NAQUELE verão, quando a Mãe avisou que o primo Alex vinha passar o fim de semana conosco na casa da praia alugada, eu não gostei nem um pouco. Não por causa dele, que eu mal lembrava a cara direito, podia até ser qualquer outro primo, tio, avô. Mais por minha causa mesmo, que tinha começado a crescer para todos os lados, de um jeito assim meio louco. Pernas e braços demais, pêlos nos lugares errados, uma voz que desafinava igual de pato, eu queria me esconder de todos. Só tardezinha saía de casa, na hora que as empregadas domésticas - as dosas, o Pai dizia - estavam voltando da praia. Então caminhava quilômetros na beira do mar, me rolava na areia, vez enquando chorava e repetia: pequeno monstro, pequeno monstro, ninguém te quer. Não suportava ninguém por perto. Uma Mãe insistindo o tempo inteiro pra tu ires à praia na mesma hora que todo mundo normal vai e um Pai que te olha como se tu fosses a criatura mais nojenta do mundo e só pensa em te botar no quartel pra aprender o que é bom - isso já é dose suficiente para um verão. Como se não bastasse a minha desgraça, agora ia ter que dividir meu quarto com o tal de primo Alex. E não queria que ninguém ouvisse minha voz de pato grasnando, visse meus braços compridos demais, minhas pernas de avestruz, meus pêlos todos errados.&lt;br /&gt;Fiz cara feia, a Mãe nem ligou. Falou que ele vinha e pronto, que tinha estudado muito o ano todo, passado no vestibular não sei de que e precisava descansar e tal e tudo e que ela devia aquela obrigação à tia Dulcinha coitada tão só e que além do mais o Alex era um bom rapaz tão esforçado o pobre. Isso eu odiava mais que tudo: aqueles bons rapazes tão esforçados e de óculos sempre saindo com sacolas de lona na hora do almoço para comprar cervejas e coca-colas e cigarros pra todo mundo, ajudando a lavar pratos e jogando aquelas chatíssimas canastras sobre o cobertor verde na ponta da mesa. Empurrei a compota de pêssego argentino, a calda virou na toalha, armei a tromba. Esse era meu jeito de dizer: não careço nem ver a cara dele para ter certeza que é um coió.&lt;br /&gt;Quase dormindo, mais tarde, naquela mesma noite que a Mãe avisou que oprimo Alex vinha, eu tentava lembrar a cara dele e não conseguia. Na verdade, não conseguia lembrar a cara de ninguém desde uns dois anos atrás, desde que eu tinha começado a ficar meio monstro e os parentes se cutucavam quando eu passava, davam risadinhas, falavam coisas baixinho, olhando disfarçado pra mim. Eu tinha horror deles, que achavam que sabiam tudo sobre mim. Sabiam nada, sabiam bosta do meu ódio enorme por um por um de cada um deles, aquelas barrigonas, aqueles peitos suados, pés cheios de calos. Eu nunca ia ser igual a eles - pequeno monstro, seria sempre diferente de todos. Era assim mesmo que ia me comportar com o primo Alex, decidi: pequeno monstro cada vez mais monstro, até ele não agüentar mais um minuto e dar o fora pra sempre. Fiquei olhando com força pro colchão sem lençol da cama ao lado onde ele ia dormir, até encher o colchão com todo o meu ódio, pra ele se sentir mal e ir embora no mesmo dia.&lt;br /&gt;No dia que era o dia que ele vinha - e eu sabia porque a Mãe não falava outra coisa, arrumou lençóis limpos na cama ao lado, mandou eu empilhar os gibis, guardar no guarda- roupa a roupa da guarda da cadeira -, saí de casa um pouco mais cedo e fiquei caminhando séculos na praia. Eu gostava de ir até aquele farol no caminho de Cidreira, onde tinha umas dunas e era bom ficar deitado na areia, olhando o mar sem fim. Vez enquando passava um navio, eu perguntava pra onde vai? pra onde vai? Bem besta mesmo, não pensava o lugar, só perguntava assim: pra onde vai, sem pensar o nome nem nada. Depois pensava também se eu saísse agora reto daqui e entrasse no mar e que nem Jesus Cristo fosse capaz de pisar sobre as águas e fosse andando sempre em frente sem parar - ia dar onde? Achava que na África, na Índia, sei lá. Em algum lugar, ia dar. Longe dali, de Tramandaí. Aí começou a sair do mar uma lua cheia bem redonda, e eu primeiro fiquei tentando ver nela São Jorge e o dragão, depois lembrei que era besteira, coisa de criança, e pensei crateras, desertos, quase via, Mar da Serenidade. Ou era Fertilidade? Fui olhando as coisas, me atrolhando por ali, até que de repente tinha anoitecido total, e eu tinha que voltar pra merda daquela casa com aquele Pai e aquela Mãe. Ainda por cima, fui lembrando no caminho, cada vez mais puto, e por causa disso caminhava mais devagar ainda e ficava cada vez mais noite, agora com aquele tal de primo Alex lá, enfiado no meu quarto.&lt;br /&gt;Passaram uns bagaceiras com violão e uma garrafa de cinzano, abraçados, cantando uma música de parque. Desviei deles, fui enfiando os pés na água morna do mar, de cabeça baixa pra não mexerem comigo. Vez enquando olhava pra trás e só ouvia aquelas vozes bem de bagaceiras mesmo, cada vez mais longe, cantando a noite tá tão escura/ a lua fez feriado/ estou sofrendo a tortura/ de não sentir-te ao meu lado. Bestas, pensei, porque a lua não tinha feito feriado coisa nenhuma, feriado era lua nova, não aquela luona enorme, redonda, amarela, bem ali em cima do mar e da cabeça da gente. Quando eu. já tinha caminhado um pouco em direção ao norte, e os bagaceiras tinham sumido, olhando por cima do ombro direito pensei quem sabe agora, saindo reto aqui eu dou justo ali, no sulzinho da África, cabo das Tormentas. Ou era o da Boa Esperança? Aí de repente despencou uma baita estrela cadente, quase do tamanho da lua, tão grande que cheguei a parar pra ouvir o tchuááááááááááááááá da estrela caindo dentro do mar. Não aconteceu nada, então falei bem alto, imitando aquela vozinha de taquara rachada da dona Irineide, professora de Geografia: bó-li-dos, isso que o populacho chama de estrelas cadentes na verdade são bó-li-dos. Me senti muito culto e tudo, mas meio sem graça, daí lembrei que podia fazer um pedido, ou três, não sei bem, a gente podia. Então peguei e fiz. Que já que o primo Alex tinha mesmo que estar lá naquela merda de casa - e era impossível pedir que não viesse, porque já tinha vindo - que pelo menos ele fosse legal e não me enchesse o saco.&lt;br /&gt;Bem devagarinho, fui me distraindo com essas coisas pelo caminho. Daí me atrasei tanto que, quando cheguei em casa, estava armado um começo de alvoroço. O Pai já estava de chinelo e pijama, me chamou de desgranido e disse que ia me proibir de ir à praia a essa hora de louco e eu respondi que se me proibisse de ir nessa hora eu ia ficar no quarto trancado e não ia em hora nenhuma nunca mais, e a Mãe falou baixo, mas eu escutei, é a idade não liga, não implica com o guri, criatura, e me deu uma janta meio fria com milho duro e eu cheguei a abrir a boca pra falar que não era cavalo quando ela disse que o primo Alex já tinha chegado e estava dormindo, podre da viagem. Nem precisava dizer nada: sentado na ponta da mesa, eu já tinha visto aquela campeira xadrez pendurada numa guarda de cadeira. Mesmo que não pudesse ver nada, farejava um cheiro no ar. Nem bom nem mau, cheiro de gente estranha recém-chegada de viagem. Polvadeira, bodum, sei lá. Quase não consegui comer, de tanto ódio. O Pai foi dormir azedo, falando que no quartel eu ia ver. A Mãe ficou mexendo no rádio, mas só dava descarga no meio dumas rádios castelhanas êle-êrre-uno-êle-êrre-dôs. Nada de Elvis, que eu gostava e ela fingia que não, só Gardel, que ela gostava e eu tinha certeza que não. Falei que ia dormir também, a Mãe botou a mão no meu ombro e muito séria pediu pra mim prometer que ia ser educado com o primo Alex coitado que o pai dele tinha morrido e a tia Dulcinha passava muito trabalho e coisa e tal. Até prometi, não custava nada. Mas fiquei torcendo os dedos, rezando prela não repetir que ele era um bom rapaz tão esforçado o pobre, senão meu ódio voltava. Ela acabou falando, bem na hora que Gardel cantava sabia que nel mundo no cabía toda la humilde alegría de mi pobre corazón, e eu fui dormir com muito ódio. Dela, do Pai, do primo Alex, da tia Dulcinha, dos bagaceiras da praia, do Gardel, de tudo.&lt;br /&gt;Tirei a areia dos pés no bidê, lavei a cara e fiquei parado na frente do espelho. Pequeno monstro, falei. Mais de uma vez, três, doze, vinte, eu repetia sempre, me olhando no espelho antes de dormir: pequeno, pequeno monstro, ninguém, ninguém te quer. Mijei, escovei os dentes, gargarejei. Me deu vontade de vomitar, sempre me dava. Mas não vomitei, nunca vomitava. Tive vontade de me encolher ali mesmo, embaixo da pia, feito cusco escorraçado, e dormir até a manhã seguinte, para que todos vissem como eu era desgraçado. Meu quarto agora não era mais só meu, não podia ficar lendo até tarde nem nada, luz acesa até altas: a droga do primo Alex estava lá, e eu tinha prometido ser bem educado com ele, coitado.&lt;br /&gt;Aquele quarto que agora não era mais meu, mas. meu e do tal de primo Alex, ficava na parte de trás da casa de tábuas, numa espécie de puxado, ao lado de um banheiro que antes dele chegar também era só meu, mas agora era meu e dele, que nojo. Apaguei a luz, parei na porta do banheiro e fiquei remanchando um pouco por ali, parado no corredor escuro, antes de entrar. Eu tinha que estar preparado para enfrentar aquele tapume de óculos, que certamente - eu conhecia bem essa gente - tinha deixado seus óculos sebentos na minha mesinha de cabeceira, e aqueles vulcabrás nojentos com umas meias duras no garrão saindo pra fora e um fedor de chulé no ar, escarrapachado na cama, roncando e peidando feito um porco. Que ódio, que ódio eu sentia parado naquele biricuete escuro entre o banheiro e o quarto que não eram mais meus.&lt;br /&gt;Abri a porta devagarinho. A janela-guilhotina estava levantada, a luz apagada. Não tinha nenhum fedor no ar. A luz da lua entrando pela janela era tão clara que eu fui me guiando pelo escuro até a minha cama, sem precisar estender a mão nem nada. Sentei, levei a mão até a mesinha de cabeceira e apalpei: não tinha nenhum óculos em cima dela. Só meu livro Tarzan, o Invencível, da coleção Terramarear. Pelo menos isso, pensei: a trolha não usa óculos. Fiquei de cueca, camiseta, me deitei. Não tinha nenhum barulho de ronco, nenhum cheiro de peido no ar, só aquele perfume meio enjoativo do jasmineiro ali no pátio ao lado. Os meus olhos foram se acostumando mais no escuro, e eu comecei a olhar para a cama onde o primo Alex estava deitado, do outro lado do quarto.&lt;br /&gt;A luz da lua batia direto nele. Ele estava deitado por cima do lençol, completamente pelado. Meus olhos se acostumavam cada vez mais, e eu,podia ver o primo Alex virado sobre o lado direito, as duas mãos juntas fechadas no meio das pernas meio dobradas. Ele parecia muito grande, tinha que encolher um pouco as pernas, senão os pés batiam lá na guarda do fim da cama-patente. Ele tinha muitos pêlos no corpo, a luz da lua batendo assim neles fazia brilhar as pontas dos pêlos. Ele tinha a cara virada de lado, afundada no travesseiro, eu não podia ver. Via aqueles pêlos brilhando - uns pêlos nos lugares certos, não errados, que nem os meus - descendo para baixo do pescoço, pelo peito, pela barriga, escondidos e mais cerrados naquele lugar onde ele enfiava as mãos, depois espalhados pelas pernas, até os pés. Os pés encolhidos do primo Alex eram muito brancos, o pai dele tinha morrido, ele tinha estudado o ano inteiro e passado no vestibular não sei de quê, lembrei. E não fazia barulho nenhum quando dormia, coitado.&lt;br /&gt;Fiquei deitado na minha cama, olhando para ele. Depois de um tempo, comecei a ouvir a respiração dele e fui prestando atenção na minha própria respiração, até conseguir que ela ficasse igual à dele. Eu respirava, ele respirava. Eu cruzei as mãos no peito e encostei a cabeça na guarda da cama para poder olhar melhor. Ele tinha cruzado as mãos no meio das pernas decerto para dormir melhor, o pobre, podre da viagem. Fiquei olhando pra ele, respirando devagar, no mesmo ritmo. Bem devagar, para não acordá-lo. Não sei por quê, mas de repente todo o meu ódio passou. Ali deitado, olhando pro primo Alex dormindo inteiramente pelado, embaixo daquela lua enorme, o cheiro enjoativo dos jasmins entrando pela janela aberta, me dava uma coisa assim que eu não entendia direito se era tontura, sono, nojo ou quem sabe aquele ódio se transformando devagarzinho em outra coisa que eu ainda não sabia o que era.&lt;br /&gt;De manhã, fiquei na cama até quase meio-dia. Escutei uns barulhos de gente acordando, mas não me mexi nem olhei, virado pra parede. Aí vieram outros barulhos, descarga de privada, torneira aberta, colher batendo em xícara na cozinha, a voz da Mãe dizendo que eu era assim mesmo, dormia até o cu fazer bico, e uma voz mais grossa, que não era a do Pai, falando outra coisa que não consegui ouvir. Depois uns barulhos de porta batendo, e silêncio. Eu sabia que eles tinham ido todos pra praia, e pensei em me levantar pra mexer um pouco nas tralhas do primo Alex, ninguém ia ver. Mas comecei a cair naquela coisa que eu chamava de entre-sono, porque não era bem um sono. Meu pau ficava tão duro que chegava a doer, toda manhã, então eu apertava ele contra o lençol, parecia que tinha uma coisa dentro que ia explodir, mas não explodia, tudo começava a ficar quente dentro e fora de mim, enquanto eu pensava numas coisas meio nojentas. Não sabia direito se eram mesmo meio nojentas - um peito da negra Dina que eu vi uma vez na beira do tanque, uns gemidos de gente e rangidos de cama no quarto do Pai e da Mãe. Eu não sabia quase nada dessas coisas. Mas era justo nelas que ficava pensando sempre no entre-sono, o pau apertado contra o colchão, até tudo ficar mais sono do que entre. Daí eu caía fundo no poço sem me lembrar de mais nada. Só saí da cama quando a Mãe bateu na porta e falou que estava quase na mesa. Olhei pra cama do primo Alex, toda desarrumada, e pensei que o idiota devia estar na sala, sentado como se a casa fosse dele, tomando cerveja com o Pai. Enfiei a bermuda, lavei a cara no banheiro e remanchei o mais que pude, pra não ver a cara de ninguém nem ninguém ver a minha. Mas quando saí e fui entrando pela casa, só tinha a Mãe remexendo na cozinha e o Pai sentado no degrau da varanda, lendo O Correio do Povo. Olhei em volta, não tinha nenhum sinal do primo Alex além da campeira xadrez desde a noite passada ali naquela guarda de cadeira. Não perguntei nada, fiquei sentado na ponta da mesa, riscando a toalha com a ponta da faca. Até que a Mãe disse: - O Alex se encantou com a praia. O pobre nunca tinha visto o mar. Precisava ver, parecia uma criança. Ficou lá, não teve jeito de querer voltar. Bem feito, pensei, vai ficar vermelho que nem um camarão. E de noite vai ter que passar talco nas costas e pasta de dente no nariz e ficar se rebolcando na cama sem conseguir dormir, porque quando a gente tá assim queimado até lençol dói na pele. Vai gemer e encher o saco a noite inteira e amanhã ou depois vai começar a descascar feito cobra trocando de pele até queimar tudo de novo e a pele ficar grossa que nem couro e ele começar a se sentir o máximo, de mocassim, calça branca e camisa banlon vermelha, todo queimado e idiota idiota idiota. Fui pensando nessas coisas enquanto a Mãe servia a comida e o Pai nem olhava direito pra mim, só lia o jornal, sacudia a cabeça e dizia barbaridade-mas-que-barbaridade, e eu nem conseguia comer direito nem sentir muito ódio. Que era mais um exercício de ruindade minha pensar aquelas coisas, precisava treinar todo dia pra não perder o jeito de ser pequeno monstro. Tomei quase um litro de quis- suco de groselha, puro açúcar, me deu um asco na boca do estômago, empurrei o prato, sem fome. Disse que não estava me sentindo muito bem, e o Pai falou também pudera, o lorde, dormindo feito um condenado, vai acabar tuberculoso, a Mãe falou deixa o guri, também que implicância, ele falou que era por isso mesmo que eu estava assim baseado, que ela parecia uma escrava minha, ela disse que tinha alugado aquela casa na praia pra ver se descansava um pouco, não pra ele infernizar ainda mais a vida dela, que já era um martírio - e os dois estavam começando a gritar cada vez mais alto quando eu aproveitei e peguei e fugi pro quarto sem ninguém ver.&lt;br /&gt;O quarto virava um forno depois do almoço. O sol batia no telhado de zinco, ficava tudo fervendo. Pensei que se eu ficasse ali todo aquele maldito quissuco ia começar a ferver na minha barriga, até sair uma espuma vermelha pela boca e cair no chão babujando e me batendo pelas paredes. Podia ser que pelo menos assim alguém no mundo prestasse atenção em mim. Peguei o livro de Tarzan, passei pela cozinha, onde eles continuavam berrando, fui deitar na rede embaixo dos ema- momos onde batia uma fresca. Mas mesmo ali, na sombra boa, não conseguia parar de pensar que a minha vida era um inferno. E que se um dia eu saísse mesmo caminhando reto por cima do mar, mesmo que não pisasse sobre a bosta das águas que nem Jesus Cristo, ia ser ótimo pra todo mundo se eu afundasse de uma vez e ninguém me encontrasse nunca mais afogado para sempre no fundo do mar igual ao Titanic. Tentei ler, mas aquela lenga-lenga dos sacerdotes nas cavernas de Opar estava me enchendo um 