<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308</id><updated>2012-02-02T14:56:18.594-02:00</updated><category term='Ovelhas Negras'/><category term='Morangos Mofados'/><category term='Dispersos'/><category term='As Frangas'/><category term='Cartas'/><category term='Pequenas Epifanias'/><category term='Pedras de Calcuta'/><category term='O Inventario do Irremediavel'/><category term='triangulo das aguas'/><category term='Onde Andara Dulce Veiga'/><category term='O Ovo Apunhalado'/><category term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><category term='Estranhos Estrangeiros'/><title type='text'>Caio Fernando Abreu</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>221</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-8195071165461468243</id><published>2011-10-23T09:11:00.008-02:00</published><updated>2011-10-24T00:03:37.194-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>3X4 LIÉGE</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sou morena e magrinha, mas não como qualquer polinésia, como queria Cecília, e também nada tenho de Oriente: sou mais britânica na minha morenez, sou mais Brontë, qualquer das três. Meu pequeno coração foi gestado numa áspera charneca, gasto os invernos tentando descobrir infrutífera um caminho qualquer sobre a neve capaz de transformar todos os caminhos num único descaminho gelado e sem porto, tivesse nascido cem anos atrás me fanaria em brancas rendas e hemoptises escarlates, menos por doença que por delicadeza, insuportáveis que são para meus olhos os escarpados penedos das tardes ou a luz clara do meio-dia, envolta em penumbras que amenizassem o duro contorno das coisas viventes, assim me fanaria, com a magra mão translúcida estendida para o aro metálico dos óculos pousados sobre a capa de couro de um romance antigo, cheio de paixões impossíveis. Frente ao espelho, é com recato que tranço meus longos cabelos, enquanto a ponta de meus frágeis dedos de unhas curtas, às vezes roídas, acaricia o roxo das olheiras, herança de solitárias insônias. Depois busco um lugar junto à janela, pouso o rosto sobre uma das mãos e com a outra vou traçando riscos tristes pelas vidraças sempre embaçadas, por vezes grafo nomes de lugares e gentes que nunca conhecerei, sóis fanados atrás de nuvens débeis, flores doentias, estrelas opacas, talos quebradiços, plátanos desfolhados, olhos profundos, rostos apoiados em mãos magras como as minhas, identifico enquanto meus dedos riscam e riscam e riscam sem parar o inefável. De mancebos e malícias pouco sei, meu precário aprendizado da carne limita-se àquela gosma gelada que um Estudante certo dia depositou entre minhas coxas virginais, contra um muro descascado e cheio de brutais palavrões gravados a prego, numa sépia tarde outoniça. Até a chegada das regras seguintes, temi que houvesse plantado sua áspera semente dentro de mim, e de cada vez que cerrava as pálpebras tornava a sentir seu bafo de fera no cio contra meu colo pálido, as pedras do muro ferindo minhas espáduas, a vergonhosa corrida com as meias soquete desabando sobre os sapatos de verniz, os inúmeros banhos e todos os perfumes, todas as colônias, sabonetes, essências que passei pelo corpo para arrancar de minha pele aquele cheiro descarado de animal. Prefiro os cheiros fanados, as rosas quase murchas, e nos transes mais dolorosos sempre fui eu a banhar os cadáveres familiares, cortando-lhes os cabelos e as unhas com infinito carinho, de certa forma meus mortos todos foram também meus filhos quando os polia esmerada para que São Pedro não lhes pusesse defeito ao baterem às portas celestes, que nada teriam contra mim no Reino dos Céus até minha partida que, rogo constantemente, há de ser breve. Mas até hoje persiste o cheiro, embora na chegada do fluxo tenha me embriagado feito demente naquele sangue que assegurava a permanência de minha pureza, deixei-me sangrar durante várias horas, empapando lençóis e roupas íntimas, até estar segura de que nem a mais ínfima gota do líquido vital daquele selvagem havia maculado minhas entranhas: eu as reivindico brancas como o linho das fronhas, como o cretone dos lençóis, como a renda destas cortinas que o vento sopra contra as violetas nessas tardes em que o sol demora a partir e o céu inteiro tinge-se de lilás. Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha. Para beber, além do chá com &lt;i&gt;une &amp;amp;irme de lait, &lt;/i&gt;raramente admito um cálice de vinho, mas que seja branco para não me entontecer, e que seja seco para não esbrasear em excesso minha garganta em ardores que, temo, poderiam descontrolar-se além do limite imposto pela pudicícia, e para vestir, além do branco absoluto, admito apenas o cinza e o bege, raramente o preto, demasiado dramático para quem busca integrar-se ao fundo, não destacar-se, poucas vezes ouso o bordô, contudo me agrade o sangue coagulado de seus tons, lembrando dores para sempre pacificadas na sua estagnação, e nunca me atrevi aos azuis, iluminados demais para minha severidade. Nas folhas que datilografo como secretária, os chefes jamais detectaram uma rasura sequer, uma violação de margem, um toque mais nítido ou esmaecido, sou sempre precisa, caracteres negros sobre o branco impecável, e isso é tudo. Recebo modesta os elogios, vou duas vezes ao banheiro cada dia, ao chegar e ao partir, quando não tenho serviço cruzo os braços sobre o busto escasso e simplesmente permaneço, existo mais profundamente assim, quando silente, ou abro discreta certo livro de poemas líricos para saborear algum verso enquanto contemplo as alamedas estendidas atrás das janelas. Mas desde que, há duas semanas, uma cigana desvendou as fracas linhas das palmas de minha mão, pouco sossego encontro até em meu próprio sossego: dois amores, ela apontou, um já passado, e com amargura localizei na memória aquele sôfrego Estudante, e outro em breve por chegar. Desde então, me desconheço. Abreviaram-se-me as idas ao banheiro para molhar os pulsos e os lóbulos das orelhas, animando a circulação que se me estanca nas veias, por vezes olvido a torneira aberta e surpreendo-me a odiar minhas próprias tranças, as manchas roxas sob os olhos e tudo que me torna assim, fugaz. Mal posso conter um susto investigando o porte de cada homem que se aproxima, em cada esquina que dobro, em cada ônibus que tomo para ir e vir, sinto que busco prometido e me detesto por essa inquietação febril, pelo amor que desconheço e mal consigo supor, tão parca é minha vida de memórias ou medidas. Esforço-me por dar-lhe pinceladas tênues, não me atrevo aos óleos nem aos acrílicos, é nos guaches e sobretudo nas aquarelas que procuro o verde esmaecido de sua tez, mas por vezes alguma coisa se alvoroça e me surpreendo alucinada, incontrolável, a chafurdar em tintas fortes, berrantes cores primárias, formas toscas, símbolos sensuais, e é então que mergulho em banhos gelados no meio da noite para apaziguar a carne incompreensível, fremente qual Teresa d'Ávila, afogada entre lençóis, as palavras da cigana me embalando feito uma berceuse, imagino se não será o próprio Senhor este que se aproxima, e não conheço. Em cada junho, sei que não suportarei o próximo agosto, me debato elaborando aquela futura tarde gris para encontrá-lo - não aqui, entre torpezas, mas numa outra dimensão de luz maior, além de meu próprio corpo, irmão-burro aprisionado pelos instintos, num espaço discreto e contido como eu mesma venho sendo através destas quase três décadas que, álgida, sobrepujei. Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam. Ninguém suspeita de meu segredo, caminho severa pelas calçadas, olhos baixos para que minha sede não transpareça: ah sou tão morena e magrinha que ninguém me adivinha assim como tenho andado - castamente cinzelada no topo deste morro onde os ventos não cessam jamais de uivar, tendo entre as mãos, como quem segura lírios maduros dos campos, uma espera tão reluzente que já é certeza. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-8195071165461468243?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/8195071165461468243/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=8195071165461468243&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8195071165461468243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8195071165461468243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/3x4-liege.html' title='3X4 LIÉGE'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-7659108510053675034</id><published>2011-10-23T09:11:00.007-02:00</published><updated>2011-10-24T00:03:19.222-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>18X24 GLADYS</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;Sou uma loura trintona e gostosa, dezoito por vinte e quatro, como se dizia antigamente, mas só repito essas expressões comigo mesma, aprendi que a gente entrega o tempo em lembranças assim, por isso sempre contenho o susto que me afoga o peito quando por acaso escuto Anísio Silva, Gregório Barrios, Lucho Gatica, porque além de trintona e gostosa sou também moderna e extrovertida. Daquelas louras que permanecem até o fim e o depois de qualquer coquetel, e há tantos coquetéis e tantos principalmente &lt;i&gt;depois &lt;/i&gt;de coquetéis na minha vida, sempre repito ao espelho passando as bem tratadas mãos de longuíssimas unhas ciclamens pelas fartas curvas perigosas da opulenta carne que Deus me deu, e só ele sabe a quantas duras e caras penas mantenho firme e fresca. Sou uma loura coquete que adora coquetéis, onde costumo degustar dulcíssimos martínis com cerejas, jamais com azeitonas, detesto o amargo, minha boca de insuspeitadas próteses foi feita apenas para saborear doçuras e todo dia, com as impecáveis unhas ciclamens, bato veloz nas teclas de minha IBM de secretária eficientíssima, a coluna muito ereta, realçando o arrogante relevo do busto que, em idos tempos, já mereceu a disputada faixa de Miss Suéter, acentuado ainda mais pelas malhas justas nem sempre decotadas, pois aos poucos a vida foi me ensinando que a luxúria reside menos na exibição integral do que naquela breve nesga de carne mal-e-mal entrevista entre a luva e a manga, e tenho meus sutis pudores: cruzo as pernas ardilosa, para que esse instante fugaz em que minha intimidade quase se revela por inteiro seja feito mais de ardentes expectativas do que de cruéis certezas. Não fui jamais uma loura óbvia demais, embora tenha estado sempre e por assim dizer à tona de mim mesma, em meu longo conhecimento dos homens descobri astuciosa que, no primeiro roçar de pupilas, é preciso prometer absolutamente tudo mas, no prosseguimento desses furtivos rituais, sei esmerar-me em caprichos lânguidos e débeis negativas, de forma que, quanto mais me esquivo, mais prometo, e mais abundante, se é que me entendem - cada &lt;i&gt;não &lt;/i&gt;saído de meus cristalinos dentes equivale a dois, dez, duzentos &lt;i&gt;sins, but not now; &lt;/i&gt;te daria já uma turmalina, mas te darei mais tarde uma urna de diamantes. Sou uma loura facílima, e por isso mesmo extremamente difícil, minhas obviedades possuem mapas complexos, os inúmeros x apontando o local exato do tesouro são quase todos falsos, eivados de seiemaranhadas, lagos barrentos infestados de piranhas, crocodilos famintos, pigmeus vorazes, caçadores de cabeça, tigres enfurecidos, ninhos de serpentes, pestes tropicais, febres malignas, curares e tisanas. Mas para o bom caçador, e aprendi também a importância de deixar o caçador supor-se caçador quando na verdade é o caçado, eu, pantera astuciosa de garras afiadas, andar felino, ferocidades invisíveis, mas como ia dizendo - sou também uma loura labiríntica em suas próprias tramas, tão densas que freqüentemente surpreendo-me atingindo o ponto oposto ao de minha rota anterior, um bom caçador-caçado sempre sabe como chegar direto ao próprio x que nem sempre é remoto, mas só os mais astutos percebem que o x, em vez de perdido entre incontáveis perigos, pode estar à beira do mais manso dos regatos, à sombra da mais florida cerejeira, no mais fresco desvão do mais fértil dos vales. Para estes, cedo, para estes, quase sem hesitar, escancaro minhas coxas de cetim e sou guia experiente em todos os passos que conduzem aos segredos de minha licorosa caverna, para estes acendo as luzes dos meus adentros, faço com que as sombras deixem de ser ameaçadoras para tornarem-se macias penumbras, veludosas alfombras distendidas com cuidados extremos para secar o suor e matar a sede dos bravos viajantes, extenuados pelo esforço de manterem eretas suas rijas armas de fogo nos roteiros por minhas intrincadas entranhas. É verdade que por vezes me perturbo tentando localizar entre esses o Grande Descobridor, qual América em sua nativa solidão virginal, impaciente pelo Colombo que a revele de vez para o mundo, explorando-a até o derradeiro veio de ouro para torná-la escrava cativa, serva humilhada dos mais brutais colonialismos, e para esse me preparo, para esse me burilo e me lapido esmerada - e sei que virá. Há duas semanas uma cigana localizou dois sinais, dois amores entre a minha linha do coração e o solitário sintético do anular esquerdo, um já vivido, afirmou, e logo lembrei daquele inábil escoteiro que em tempos imemoriais, inconfessáveis sob pena de revelar um coração já marcado pelas intempéries da existência, deixei que ensaiasse em minha exuberante geografia seus hesitantes primeiros passos, e após trinta e seis meses de proveitosa aprendizagem permiti que partisse, disseminando por outras paragens toda a sabedoria que, com trágica paciência e dilacerada alegria, concedi que extirpasse de mim, pois sempre soube ser eu, loura febril, nada mais que a primeira, jamais a derradeira, jamais a única entronizada em santa e mãe de filhos, a escolhida de seu esplêndido e insaciável ventre juvenil. Chafurdando em abissal melancolia na crise que se sucedeu, mergulhada em fugas barbitúricas, oceanos de gim, telefonemas noturnos em desespero, perambulações sedentas por todas as vielas pecaminosas do prazer, jurei solene aos pés de Oxum jamais voltar a ser como que progenitora de meus protegidos, preparando-os para a existência e, após, quedando em frenético abandono. Mas o segundo, a unha da cigana riscou forte a linha junto à base de meu dedo mínimo, o segundo chegará nos próximos meses e será sim ele, adivinhei, o Grande Descobridor, o tão sabido que nada terei a ensinar-lhe, e tão sabida eu mesma em todas as lições que já prestei que nada terei a aprender de si. Seremos, ele e eu, infatigável troca de prazeres, tilintar de cintilantes cristais em brindes com champanhe fervilhante de luxúria, línguas divididas na volúpia, corpos ensandecidos na selvageria dos gestos mais furiosos e mais amenos, entre suores, gemidos e secreções de líquidos pujantes feito cachoeiras tropicais, sete quedas, sete orgasmos terei eu de cada vez que me engolfe náufraga em sua ejaculação amazônica. Por ele espero, monja voraz, e desde que a cigana me desvairou assim investigo os volumes, os cheiros, os pêlos de todos os homens que ousam aproximar-se do covil desta pantera, receando então que uma excessiva ansiedade no fundo das castanhas luas gêmeas de meus olhos possam evidenciar uma sede demasiada para suas viris misoginias. Pelos inúmeros coquetéis por onde tenho desfilado meus ardis, observo em desprazer e apreensão meus desbragamentos cada vez mais freqüentes nos dulcíssimos martínis, e triturando a polpa das incontáveis cerejas temo explodir os limites de meus dezoito por vinte e quatro para transformar-me súbita em outdoor coloridíssimo, tão escandaloso e desesperadamente imenso que jamais caberia em quarto ou membro algum de qualquer homem. E quando despida e solitária em minha rendada furna investigo fatigada as novas marcas que o dia passado lavrou inclemente em meu rosto, tenho tido frêmitos próximos da dor, e quando me lanço sobre os lençóis acetinados do leito inutilmente perfumado, sinto que minhas ardências ameaçam arrebentar o negro négligé, e quando por malícia ou enfado cedo a algum caçador menor, suas estocadas já não despertam meu distraído prazer, perdido x inlocalizável até para mim mesma que o dispus no mapa, meu corpo enregelado agora abriga outros delírios, enquanto sob meus louros cabelos de raízes implacável e semanalmente descoloridas desfilam inconfessáveis fantasias com esse Grande Descobridor, cuja proximidade adivinho num eriçamento tal que nunca sei se será pressentimento ou puro engano. Por vezes raras, num misto de temor e júbilo, julgo escutar o ruído dos ramos secos sob a janela esmagados por suas negras botas reluzentes, enquanto se aproxima entre folhagens, e pelas madrugadas ardidas me engano supondo divisar nas sombras a massa escura e áspera da barba que lanhará meus seios intumescidos de desejo. É quando odeio a cigana por ter me enlouquecido assim, e custo a dormir, enredada em ódio, os dedos arquitetando delícias imaginárias nos lábios mais recônditos, mas na manhã seguinte não deixo de considerar o noturno coquetel de cada dia e então escovando cem vezes meus louros cabelos, sempre penso que pode ser Hoje. Escolho com cuidado os tules, as pedras, os organdis, os brilhos e brincos, e é tão luminosa e devastadora que enfrento o dia nascente que, apesar das sombras da madrugada, a cada nova manhã os que me vêem passar soberba e apocalíptica, pisando ereta no topo dos saltos, devem pensar qualquer coisa assim: lá vai uma loura trintona e gostosa, ao certeiro encontro de seu Grande Descobridor. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-7659108510053675034?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/7659108510053675034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=7659108510053675034&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7659108510053675034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7659108510053675034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/18x24-gladys_23.html' title='18X24 GLADYS'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3726043522806362367</id><published>2011-10-23T09:11:00.006-02:00</published><updated>2011-10-24T00:03:03.893-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>FOTOGRAFIAS</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Para Maria Adelaide Amaral&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;Desejo uma fotografia como esta &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;- &lt;i&gt;o senhor vê? &lt;/i&gt;- &lt;i&gt;como esta: [...] Não... neste espaço que ainda resta ponha uma cadeira vazia.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Cecilia Meireles: "Encomenda"&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3726043522806362367?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3726043522806362367/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3726043522806362367&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3726043522806362367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3726043522806362367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/fotografias.html' title='FOTOGRAFIAS'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-8800267642470807580</id><published>2011-10-22T20:04:00.002-02:00</published><updated>2011-10-24T00:02:21.020-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>TRANSFORMAÇÕES (Uma fábula)</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-8800267642470807580?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/8800267642470807580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=8800267642470807580&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8800267642470807580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8800267642470807580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/transformacoes-uma-fabula.html' title='TRANSFORMAÇÕES (Uma fábula)'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5504765786312574138</id><published>2011-10-21T10:49:00.002-02:00</published><updated>2011-10-24T00:02:50.106-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>OS COMPANHEIROS (Uma história embaçada)</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;Para Eduardo San Martin&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Poderia também começá-la assim - pi-gar-re-ou &amp;amp; disse: diríamos que ele apresentava-se ou revelava-se ou expressava-se (entregava-se, quem sabe?) ou fosse lá o que fosse, naquele momento específico, por uma predileção, tendência, símbolo, sintoma ou como queiram chamá-lo, senhores, senhoras, aos cafés amargos, aos tabacos fortes, aos blues lentos, embora a redundância deste último. E os morcegos esvoaçavam ao redor da casa. Esse o início. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Os morcegos esvoaçavam ao redor da&lt;span style="letter-spacing: -0.1pt;"&gt; &lt;/span&gt;casa e o De Camisa Xadrez, que fora amado e ferira de faca a quem o amara, ainda amarrava os cabelos na nuca. O De Camisa Xadrez ainda tinha cabelos suficientes para amarrar na nuca. Então era desse jeito: o De Camisa Xadrez amarrando os cabelos na nuca enquanto os morcegos esvoaçavam ao redor da casa e, como numa orgia, como num vício, como numa tara, como num inconfessável ritual sadomasoquista, Ele entregava-se aos blues amargos, cafés fortes, tabacos lentos. Só não tinha ainda identificado a moça porque era tão moreninha &amp;amp; brejeira que abriu logo o papo trans-cen-den-tal, ela embarcando. Peixes, logo vi, regente Netuno, ah Netuno, cuidado com as ilusões, mocinha, profundas e enganosas feito o mar que é teu elemento. E assim passaram-se anos. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Cruel citar grafites tipo homem, mate a mãe que existe dentro de você, a minha mãe já está morrendo objetivamente, no plano real-objetivo, feliz ou infelizmente ela existe fora de mim (e esse era um fato que não alterava e, repito, fato - porque tudo são fatos, só eles existem, mas isso é outra história) como ia dizendo, não se esquive do fato de haver uma história em suspenso aqui, não digamos assim, pois uma história jamais fica suspensa: ela se consuma no que se interrompe, ela é cheia de pontos finais internos, o que a gente imagina que poderia ser talvez uma continuação às vezes não passa de um novo capítulo, eventualmente conservando as mesmas personagens do anterior, mas seguindo uma ordem cujas regras nos são ilusoriamente às vezes familiares? ou inteiramente aleatórias? Isso eu não sei, mas a verdade é que chega-se sempre longe demais quando não se quer Ir Direto Aos Fatos, e o problema de Ir Direto Aos Fatos é que não há cir-cun-ló-quios então, e a maioria das vezes a graça reside justamente nesses Vazios Volteios Virtuosos, digamos assim: que não haja beleza nos fatos desde que se vá direto a eles? ou que não exista mistério, que seja insuportavelmente dispensável gostar dos tais circunlóquios. Ultrapasse-os, ordeno. Acontece que. Não, nada acontece - mas, por favor, não falemos disso agora. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O cruel vinha de que o silêncio também seria inábil e farposo, contudo educado, então feria, e não pense que vou esclarecer quem, facilitando as coisas por cegueira, pressa ou tontura: o cruel era a palavra verbalizada, e o verbo era o mal? mas o silêncio idem, e voltando um pouco atrás, se o verbo era o mal, no princípio seria o Mal e não o Bem como queremos supor? Oh. Apenas na estradinha de terra batida que subia o morro, entre o rio e o mar, foi que começaram a divertir-se um pouco, identificando-se sestrosos. A Médica Curandeira tinha crespos cabelos negros que acentuavam seu dramatismo, aliados a Certo Ar Sofrido De Mulher Com Mais De Trinta Anos Que Já Passou Por Muitas Barras. E até que era simpática, descobria prosaico o Jornalista Cartomante entre dois goles de vinho, duas tragadas do tabaco amargo velho conhecido. O Ator Bufão cumpria com eficácia paradoxal suas funções de pano de fundo freqüentemente estridente demais, mas inofensivo como costumam ser os bufões, mesmo quando se metem a contundentezinhos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Era nesse pé que as coisas estavam quando. E quase não havia nada a acrescentar, porque nada acontecia entre eles, a não ser, utilizando certa nor-ma-ti-vi-da-de e não necessariamente nessa ordem: a) Climas Indefiníveis; &lt;i&gt;b) &lt;/i&gt;Sutilezas Indizíveis; &lt;i&gt;c) &lt;/i&gt;Nobrezas Horríveis. Nomeava assim. Horríveis com maiúscula, porque mesmo não tendo que justificar-se enfim e ao cabo: nobreza em excesso roía por dentro, isso era como a conseqüência de uma aprendizagem instalada agora dentro do quarto. Como se por baixo do longo cano de uma luva branca imaculada por trás do rendilhado dos canutilhos houvesse garras torcidas, esguias feito torres góticas, arranhando vidraças fechadas na treva.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas assim era. Caminhava na rua sem tocar na rua, conseguia. Movimentava-se entre espelhos. Caminhar na rua: jogo de infinitos. O de agora remetendo ao de antes, que refletia o depois, que era algo bem próximo do agora, e assim por diante &lt;i&gt;ad infinitum &lt;/i&gt;circular. Tudo refletia-se Cada reflexo o devolvia a algo que não a rua propriamente dita. Essa, por onde caminhava. Poder-se-ia argumentar contra Ele que isso não passava de mais um meio de não se comprometer demasiado. Uma daquelas Horríveis Nobrezas, porque concluir ou reconhecer uma aprendizagem não significava necessariamente passar a agir de maneira diferente. Mas queria dizer que, naquele momento, naquele fato suspenso em que nada acontecia, de repente e sem nenhum motivo, a Médica Curandeira (de passado guerrilheiro), o Ator Bufão (egresso de um seminário) e o Jornalista Cartomante (com raízes contraculturais) não estavam preocupados ou diminuídos pelo fato de serem Caricaturalmente Representativos De Uma Geração, fosse qual fosse. A bem da verdade, revele-se em alto e bom som, embora por escrito: eles foram intensamente felizes enquanto nada acontecia. Pelo menos até que se ouvissem novamente os morcegos lá fora. Claro que não sabiam disso - da felicidade, não dos morcegos sinistramente audíveis - nem talvez saberão um dia; exatamente por isso é preciso que se diga, para que ninguém entenda, mas pelo menos fique registrado, em benefício de nada nem ninguém. Sendo completamente o que eram, inspiravam estufados de humaneza sem culpa. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;E tudo isso ia acontecendo sem acontecer propriamente, enquanto a Moreninha Brejeira, se olhada mais atentamente, o que era difícil, guardava alguma fundura por trás da brejeirice e, olhando bem, nem parecia tão moreninha assim. Era exaustivo, mesmo sem muitas palavras entre eles, não aqui, onde é o único jeito de tentar contá-los. Era incompreensível também, para quem nunca esteve dentro de algo semelhante. Mas reconfortante, mesmo que não bebessem chá. Como costumam ser os reencontros, afinal. Ou como deveriam costumar ser, que o mais das vezes são é mesmo puro desconforto, mesmo com chá.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Só que os morcegos, porra, não paravam de rondar, embora fosse verão e a casa tivesse sido branca um dia e o gramadinho até mesmo guardasse recuerdos fagueiros de tardes ensolaradas com bolas dessas de grandes gomos coloridos e doguezinhos saltitantes ao pé de raparigas um tanto antigas e naturalmente em flor nos seus modelinhos rendados com meias soquetes desabando sobre sapatinhos de verniz, bambolês &amp;amp; bilboquês abandonados nos degraus de pedra gasta. Tinha um gosto remoto disso tudo, a casa. Mas ele não acreditava o suficiente a ponto de justificar a presença dos morcegos, ou não seria mais que uma suspeita? pois sequer, falha imperdoável nesta história, a casa comportava sótãos poeirentos, porões sinistros, bananeiras nos quintais. Pensando melhor, continuavam sem saber, fazia muitos anos, se a realidade seria mesmo meio mágica ou apenas levemente paranóica, dependendo da disposição de cada um para escarafunchar a ferida. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Preferia então, ele, observá-la ao espelho, como quando caminhava na rua. Isso o remetia a outras feridas mais antigas, nem mais nem menos dolorosas, porque a memória da dor da feridantiga amenizou-se, compreende? Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva. O que provavelmente deve ser muito sadio. A Moreninha Brejeira jamais poderia supô-lo imerso em tais inutilidades cerebrinas, e já não restava uma gota de cumplicidade entre o De Camisa Xadrez e o Jornalista Cartomante, posto que isso implicaria uma espécie de homoerotismo sublimado, se é que me faço entender nesse meandro. Como uma cópula moral, uma foda ética ou etílica, sabe-se lá a que requintados níveis de abstração, perversidade ou subterfúgio podem chegar certas trepadas. Considerava feridas, enfim, totalmente mergulhado nos lentos blues, nos tabacos fortes, nos cafés amargos vezenquando substituídos por conhaques (densos) ou vinhos (secos). Entre duas palavras quaisquer, era capaz de deter-se para tomar providências objetivas, tipo esvaziar cinzeiros trocar discos servir bebidas abrir janelas para fechá-las em seguida, rápido, para que os morcegos não entrassem. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Quanto à Médica Curandeira, era ainda capaz de exibir na pele torturada as marcas dos cigarros acesos, principalmente nos seios e nas coxas, numa espécie de sedução pelo avesso, pelo ideológico, não pelo estético, mas isso só na intimidade mais absoluta, quando estivesse descartada qualquer possibilidade de ser enquadrada em algum tipo de exibicionismo leninista-trotskista. Se bem que, como rugas e perdas, cicatrizes também fossem troféus. Grandes fracassos, tipo Napoleão em Waterloo, deveriam ser condecorados, afinal por que essa discriminação maniqueísta? cobrava o Ator Bufão, vezenquando tomando as rédeas para jogar no ar palavras que, como bufão que era - e dos bons, diga-se a seu favor -, transformavam-se em várias bolas ao mesmo tempo jogadas para o alto. Seria capaz de (des)ordená-las nas mais infinitas seqüências combinatórias, tipo duas vermelhas no ar sobre a cabeça uma roxa na mão esquerda uma azul na mão direita e aquela amarela passando por baixo da perna direita ou esquerda, não importa, e no ar também, neste exato momento, aquela verde-musgo. O problema maior do Ator Bufão era que todos os seus talentos não valiam um vintém, visto que nos dias de hoje já não existe mais muita gente interessada em bizarras combinações no ma-la-ba-ris-mo com bolas coloridas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ele baixou os olhos. Feridas, cicatrizes, desejos - mastigou, mastigaram. Contra a janela fechada (para que não entrassem morcegos), a Moreninha Brejeira junto à Médica Curandeira parecia uma Capitu levemente amadurecida pedindo conselhos àquela Catharina dos ventos uivantes. Só não sabia de si, nem de parâmetros, o De Camisa Xadrez - aquele que muito fora amado e ferira fundo de faca a quem o amou: permanecia mudo parado suspenso entre várias coisas que já não eram e outras tantas que poderiam vir a ser, ou não. Enquanto nada se decidia, amarrava os cabelos na nuca, posto que ainda tinha cabelos, embora a década fosse outra, e outros os delírios. Amarrava-os assim e agora, tão nítido, porque essa era quem sabe sua vitória tácita, sua implícita vantagem naquele momento em que, além de nenhum avanço, todos os demais tinham cortado ou perdido os cabelos. Haviam chegado a um ponto em que verbalizar morcegos poderia arruinar tudo, mesmo que nada houvesse a ser arruinado. Mesmo que sequer houvesse morcegos. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pois diga-se ainda que, apesar do ruído côncavo de asas, daqueles miúdos guinchos cruzados no ar, das garras viscosas sem luvas nem canutilhos arranhando as vidraças, mesmo olhando-se vezenquando nos olhos há anos empapuçados de álcool e drogas, não se atreviam a verbalizar morcegos. Ou não é que não se atrevessem: os morcegos talvez fossem incomunicáveis, pois em não sendo verbalizados, e portanto compartilhados, cada um suspeitava que fossem estritamente pessoais &amp;amp; intransferíveis, compreende? O que quero finalmente dizer é que não verbalizando os morcegos, os morcegos não existiam, passando a ser o que não eram: uma metáfora de si mesmos. Sendo assim (tudo tão lógico), nem sequer obscuras tensões pairavam sobre o De Camisa Xadrez, a Moreninha Brejeira, o Ator Bufão, a Médica Curandeira e o Jornalista Cartomante, todos sem pretexto algum para estarem ali agora assim, sentados sobre o tapete no quarto do Marinheiro Frustrado, que andava ausente, embora deixasse em seus devidos lugares as âncoras polidas e as luzidias maquetes de transatlânticos, alguns dentro de garrafas. Ausente também o Marido Ideal, já que sua função na vida sempre fora mesmo ausentar-se estratégico sem deixar vestígios, o que tinha sua dose de melancolia, mas também de alívio, convenhamos. Como as estantes de madeira escura suportando o peso das obras completas de Karl May, Michel Zevaco e Edgard Rice Burroughs.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Dentro do pleno verão, pela escada soprou inesperadamente um vento frio. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Nesses momentos, quando os blues tornavam-se ainda mais lentos, é que se ouviam os morcegos lá fora. Nesses momentos é que contemplavam os mútuos tênis espatifados, mesmo que estivessem descalços, considerando fatos incontornáveis como a pilha de pratos sujos na pia da cozinha. Ir Direto Aos Fatos agora seria por exemplo correr sem vírgulas para a pia armado da mais higiênica das intenções &amp;amp; um bom detergente biodegradável. Ou virar o disco para libertar um blues ainda mais agônico, quase insuportável de tão dolorido, que cada nota emitida pelo sax durasse pelo menos o tempo do Gênesis. Até que a Moreninha Brejeira estalasse os dentes contra uma maçã imaginária para, de certa forma, expulsá-los do paraíso. E produzir-se-iam abrolhos e urzes e espinhos e nutrir-se-iam com as ervas dos campos e comeriam o pão temperado com o suor da própria fronte - pois são assim os ciclos, comentaria didático, mas um tanto fatigado e já sem graça, o Ator Bufão. Os demais, não se sabe, calariam. Ou não fariam gesto algum, o que é sempre uma maneira ainda mais muda de calar. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ao mesmo tempo, para todos, era extremamente cômodo e perfeitamente insuportável permanecer assim, no meio do parado, suspeitando vôos de morcegos por trás das janelas fechadas daquele quarto onde, quem sabe, apenas as âncoras ancoradas nas paredes poderiam indicar qualquer coisa como - um rumo? E finalmente, por uma longa série de razões vagas fundas baças tolas ou ainda mais confusas, esse tipo de coisa era praticamente tudo que se poderia dizer sobre eles. Assim lentos, assim amargos, assim surdos, assim fortes até. Sobrevivendo à morte de todos os presságios. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5504765786312574138?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5504765786312574138/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5504765786312574138&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5504765786312574138'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5504765786312574138'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/os-companheiros-uma-historia-embacada.html' title='OS COMPANHEIROS (Uma história embaçada)'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5683251199713656924</id><published>2011-10-18T10:38:00.002-02:00</published><updated>2011-10-18T14:41:20.934-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>EU, TU, ELE</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;Para Raquel Salgado&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tateio, tateias, tateia. Ou tateamos, eu e tu, enquanto ele se movimenta sem dificuldade entre as coisas? Sei pouco de ti, apenas suspeito da tua existência desde quando descobri que nem eu nem ele éramos os donos de certas palavras. Como se tivesse percebido um espaço em branco entre ele e eu e assim - por exclusão, por intuição, por invenção - te adivinhasse dono desse espaço entre a luz dele e o escuro de mim. Tateias, também? De ti, quase não sei. Mas equilibras o que entre ele e eu é pura sombra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Estou me afastando, estou indo embora e preciso que me entendas antes que eu vá, crucificado na parte externa do vagão de um trem em alta velocidade. Tento devagar, mais claro: ele não se afasta. Dia após dia, eu noto, torna-se mais simpático, mais eficiente, mais solícito - para utilizar palavras que não sei bem o que significam, mas imagino sempre alguém sorrindo muito, fazendo reverências, curvando constantemente a cabeça, como uma gueixa. Gueixa, ele, a grande puta, com seu silêncio de passinhos miúdos e pés amarrados. Preciso tentar certa ordem no que digo, e dizer de novo, vê se me entendes: ele não se afasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; letter-spacing: 0.1pt; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;O que vejo nos outros, com seus grandes poros abertos, são caras demasiado vivas. As caras de fora se debruçam sobre ele e eu tenho medo, eu nunca poderia olhar de frente para todos aqueles olhos boiando na superfície branco-gelatinosa, raiada de veiazinhas vermelhas, e eu sinto nojo. Não dos olhos, mas do interior das caras que transparece nas veiazinhas. Também não são as bocas, mas os gosmosos vermelhuscos de dentro, quando se abrem demasiado. Os inúmeros pontinhos pretos dos narizes, às vezes subindo para a testa, entre as sobrancelhas, o interior rosado dos narizes, as goelas abertas com suas umidades móveis ao fundo, cheias de pequenos espasmos, miúdas convulsões. Quando as grandes caras vivas se debruçam, sinto que transpareço nas veiazinhas dos olhos deles, e tenho medo que apenas um piscar me lance para fora, entre as coisas pontudas. E quando ele abre sua boca movediça para escarrar palavras, gotas de saliva e mau hálito, tenho medo de ele ser essa palavra, essa gota, esse hálito. O mesmo de quando esfrega as palmas das mãos e solta no ar os feixes de energia, como se fosse uma vibração, não um ser. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sempre posso parar, olhar além da janela. Mas do interior do trem, nunca é fixa a paisagem. Os pés de ipê coloridos misturam-se às paredes de concreto e as paredes de concreto às ruazinhas de casas desbotadas e as ruazinhas de casas desbotadas às caras das lavadeiras na beira do rio, e desta distância essas caras não são móveis nem vivas, mas sem feições, esculpidas em barro sob as trouxas brancas de roupa suja, e outra vez o roxo e o amarelo dos ipês e o marrom da terra e o bordô das buganvílias e o verde de uma farda militar atravessando os trilhos. Há um excesso de cores e de formas pelo mundo. E tudo vibra pulsátil, fremindo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; letter-spacing: 0.2pt; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Daquela última tarde de luz, o que me ficou na memória foi o visgo frio do suor nas palmas das mãos, os inúmeros pontos luminosos vibrantes dos automóveis, minhas frontes estalando com o barulho. Os automóveis eram faíscas coloridas metálicas voando sobre o cimento. Eu apertava minha tontura com as palmas molhadas das mãos, sem saber se ia, se voltava ou permanecia parado quieto entre aqueles pontos alucinados de luz girando em volta de mim. Devo ter começado a gritar, porque ele cerrou a boca com força, não me deixando escapar por sua garganta fechada. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas era a ti, a ele ou a mim que o homem visitava às vezes? De quem seria a língua sem nojo que explorava o mais fundo de todos os buracos do corpo dele? Da janela eu observava as mãos abrindo apressadas o fecho das calças, os dedos hábeis afastando panos, as narinas sugando o cheiro secreto das virilhas, O grande corpo vivo e móvel do homem, atrás das grades eu queria minhas aquelas mãos que o tocavam e também meus aqueles dedos e minhas ainda aquelas narinas e aquela língua lambendo o membro rijo dele até deixá-lo empinado o suficiente para, com muito cuidado, entrar rasgando de prazer e dor. Eras tu, era eu ou era ele quem torcia lentamente o corpo até desabar de costas na cama, e contornando com as coxas abertas o tronco e a bunda do homem pudesse assim senti-lo dentro de mim, de ti ou dele, como a fêmea deve sentir seu macho, cara a cara, jamais como um homem recebe a outro homem, o rosto contra a nuca, nesse amor feito de esperma e pêlos, de suor e merda? Atrás da janela dele, eu olhava sem me permitir. Mas nosso orgasmo era o mesmo, e éramos então um só os três, cavalgados por esse homem que esgotávamos com a sede das nossas línguas. Nesses momentos, eu conhecia a tua face tão detalhadamente quanto a dele e a minha. E não me assustavam os poros demasiado abertos, nem me enojava aquele gosmoso de dentro dos buracos. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Quanto a ti, já reparaste como o mundo parece feito de pontas e arestas? Já chamei tua atenção para a escassez de contornos mansos nas coisas? Tudo é duro e fere. Observo, observas como ele se move sem choques por entre os gumes. Te parece dócil, assim sinuoso, evitando toques que possam machucá-lo? Pois a mim parece falso, conheço bem suas tramas e sei de todas as vezes que concedeu para que o de fora não o ferisse. Olha, ouve e repara: essas sinuosidades são de cobra, não de ave. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Só às vezes julgo compreender. Então tenho vontade de abrir todas as janelas da casa para que o sol possa entrar. É isso que me ocorre pelas manhãs, sempre à mesma hora, depois de ouvir os ruídos que ele faz antes de sair. Fico atento à água escorrendo da torneira, ao rascar da escova contra os dentes, à água da privada levando para os esgotos os detritos recusados pelos intestinos, à água limpando os resíduos de sono no canto dos olhos, à água fria do chuveiro despertando os músculos, à água aquecida para o café, fico atento a tudo. E água, água, água e água, eu repito todas as manhãs, e mesmo que continue o dia inteiro entre lençóis, a mão inventando prazeres escondidos entre as pernas, há sempre uma parte de mim que o acompanha pelas ruas, no seu trajeto sujo entre as faíscas metálicas dos automóveis, distribuindo os primeiros sorrisos falsos do dia, e pelo dia adentro afora, cumprindo sem hesitações o seu bem traçado roteiro. Sabe tudo o que quer, ele, o grande porco. E sabe exatamente como consegui-lo. Pelo dia afora, adentro, essa parte de mim que vai com ele tenta extravasar-se pelos seus olhos, pela sua boca, para alertar as grandes caras móveis que o observam com simpatia. A cada tentativa, ele me pressente e me rechaça, ele me empurra para o fundo de si para que eu não o desmascare. E me rouba a voz, e me leva o gesto, fazendo com que me cale e me imobilize impotente entre as pontas duras das quais ele se desvia, porco bailarino capaz de todas as baixezas pelo solo principal. É sem testemunhas que eu o desmascaro todas as manhãs, enquanto escuto escorrer a água com que supõe lavar toda a sua sujeira. Mas te investigo, te busco, te suspeito cúmplice de mim, não dele, porque a tua ajuda é a única que posso esperar, então insisto sempre se me entendes, e volto a perguntar então, me entendes? assim, me entendes, tu? agora, me entendes, ou nunca? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; letter-spacing: 0.2pt; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Era agradável quando a moça vinha com suas tabelas, seus gráficos e compassos para falar do movimento dos astros sobre as nossas cabeças, sábia e distraída, desenhando pirâmides, triângulos, esferas e losangos nos papéis quadriculados. Foi numa das primeiras vezes que ele tentou afastá-la, rindo grosso, como as pessoas costumam rir dessas coisas, preferindo sempre os porcos às aves. Foste tu quem me ajudou daquela vez, a fechar violento a boca dele até seus dentes se cerrarem a ponto de quebrar? Pois não era apenas meu aquele esforço, eu soube, e essa quem sabe tenha sido a primeira vez que te descobri existindo paralelo a mim e a ele. Ou não importam cronologias, se coexistias mesmo anterior à minha consciência de ti. Quanto à moça, continuava a vir, dizia sempre que quando a Lua transitasse por Aquário. Mas eu nunca soube de constelações: limitava-me a recebê-la, e parecia uma menina cheia de fé em tudo aquilo que suspeitava real, embora invisível. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Meus dias são sempre como uma véspera de partida. Movimento-me entre as pontas como quem sabe que daqui a pouco já não vai estar presente. As malas estão prontas, as despedidas foram feitas. Caminhando de um lado para outro na plataforma da estação, só me resta olhar as coisas lerdo e torvo, sem nenhuma emoção, nenhuma vontade de ficar. As janelas abrem para fora, os bancos parecem-se aos bancos e os vasos foram feitos para se colocar flores em seu oco. As coisas todas se parecem a si próprias. Nada modificará o estar das coisas no mundo, e a minha partida ontem, hoje ou amanhã, não mudará coisa alguma. Cada coisa se parece exatamente com cada coisa que ela é. Assim eu próprio, me parecendo a mim mesmo, de um lado para outro, entre cigarros sem sabor, jornais sangrentos e a certeza de que o único fato que poderia deter minha partida seria a tua aceitação deste convite: não queres me ajudar a matá-lo? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Houve um dia em que o homem não veio mais. E sem saber se teria sido eu, tu ou ele quem o afastara, nesse mesmo dia escrevi qualquer coisa como uma oração que me pareceu ridícula. Mas revisitando papéis antigos agora, ela pulsa como se tivesse sido apunhalada e, percebo, como se tivesse sido escrita também para ti, para ele e para mim. Assim:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;eu não estou esperando por esse homem que não é só esse mas todos e nenhum como uma sede do que nunca bebi sem forma de águas apenas na estreiteza do aqui agora eu espero por ele desde que nasci e desde sempre soube que na hora da minha morte misturando memórias e delírios e antevisões um pouco antes a última coisa que perguntarei seria um mas onde está mas onde esteve esse tempo todo que me lanhei sem ti e para me alegrar depois quem sabe talvez enfim desista ou sorria lindo sem dentes sorria luminoso na escuridão da minha boca sorria vasto como nunca foi possível e cuspa qualquer coisa como então você esteve sempre aí uma vida de procuras sem te achar e silêncio para então morrer de morte morrida sem volta de vida gasta marcada de muitas cicatrizes de vida retalhada por muitos cortes mas nunca mortais a ponto de impedir este ridículo até na hora de minha morte amém.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas esta cara de mim, recém-desperta, revigorou-se aos poucos e sem suspiros, porque não há o que lamentar, e pensa crua, a cara descarada: pois não nos separamos, os três. Quando me julgo fora, estou dentro. E quando me suponho dentro, estou fora. De ti ou dele, de mim em mim, tríplice engastado, embora pareça confuso assim formulo, e me parece quase claro enquanto ruge a cidade longe e debruço este corpo de nós sobre os sete viadutos: tríplice engastado, tríplice entranhado, tríplice enlaçado. Tríplice inseparado para sempre, a morte de um é a morte de três, não quero que me ajudes a matá-lo porque mataria a ti e também a mim. E me recomponho, e te recomponho, e recomponho a ele, que é também eu e também tu. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A moça disse que a Lua passava por Escorpião, e contou: sem dentes, rasgado, fragmentos de vômito endurecido grudados nos pêlos do peito, o homem a perseguia. Antes que a tocasse, ela encontrou o animalzinho branco, de focinho rosado, e apanhando um pedaço de pau bateu, bateu e bateu até que o bicho se tornasse um mingau de sangue e ossos partidos e pêlos raros onde boiava um par de olhos abertos que não morriam. Eu contei: pelo tronco da árvore, de um lado a outro do precipício, eu atravessava. Foi quando parei, com medo do abismo. Não voltaria, nem iria em frente. Então olhei a parede do precipício e vi os cachos verdes de uvas e meu medo começou a passar porque eu não sentiria fome nem morreria pois logo viria a vindima, o tempo maduro das uvas. Oníricos, trocávamos sonhos os dois, os três, os quatro. E a fêmea emboscada no corpo da moça chamava por mim, por ti, por ele, sem se importar que fôssemos três. De nós três, ela sabia e queria. Antes de partir, ainda escreveu no papel cheio de gráficos, olhando para nós de um em um, guarda isso: o outro também se busca cego, o outro também e sempre é três. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Tempos depois - agora, para ser preciso percebo: é pelos corredores escuros do labirinto que caminhamos tateando, os três, à procura do vértice. Sei que não entendes, sei que ele também não entende. Do teu dia, quase não sei, mas sei do teu labirinto em ti, como sei do labirinto dele em mim, do meu labirinto em ti. E também não entendo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; font-size: 12pt; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;Preciso parar. Estou cansado. Pela cabeça, essa luz que não sei se é compreensão ou loucura. É de mim, de ti ou dele que sai essa voz contando o sonho de ontem? Como se fosses tu, assim entras no teatro e te chamam dentro do sonho e te chamam para fazer o papel do sonho de alguém que não veio, e dizes que nunca viste a peça e nunca leste o texto e nada sabes de marcações intenções interiorizações e te dizem que não importa porque é só um sonho e um sonho não precisa ensaio, e já não sabes se começas a rir ou a gritar, então foges para encontrar o outro, mas o rosto da moça tem os olhos do homem e a boca da moça, os seios da moça são os seios da moça, aqueles mesmos, cujos bicos duros roçavam tua barba malfeita quando os beijavas, mas o sexo da moça é o sexo do homem, aquele mesmo que te inundava de esperma quente, e não sentes medo nem nojo, mas te afastas confuso e caminhas&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; font-size: 12pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 12pt; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;caminhas&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: 12pt; mso-ansi-language: PT; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt; &lt;span lang="PT"&gt;em busca do teatro para entrar em cena e desempenhar tão bem quanto possas o teu papel de sonho do sonho de outro, depois procuras procuras dentro do teatro, em pirâmides de estreitos corredores, e continuas procurando o palco, o vértice, a câmara real, a tua deixa, a tua marca, e antes de acordar não pensas, ou pensas, sim, eu não sei, ele não sabe, tu não sabes nem ninguém se de repente não estarás perdido nem não sabes o papel de cor, pois o palco é a procura do palco e o teu papel é não saber o papel e tudo está certo e a aparente desordem se ordena súbita e a grande ordem de todas as coisas é o caos girando desordenado assim como deve girar o caos, e assim mergulho eu e assim mergulhas tu e assim mergulha ele: a tontura de nossos seis passos equilibra-se instável e precisa sobre o fio da navalha. Mas - sei, sabes, sabemos as uvas talvez custem demais a amadurecer. E quase não temos tempo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5683251199713656924?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5683251199713656924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5683251199713656924&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5683251199713656924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5683251199713656924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/eu-tu-ele.html' title='EU, TU, ELE'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2323484863513970955</id><published>2011-10-11T14:37:00.002-03:00</published><updated>2011-10-12T22:07:10.303-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>PERA, UVA OU MAÇÃ?</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;Para Celso Curi&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Rói as unhas no momento em que abro a porta, a bolsa comprimida contra os seios. Como sempre, penso, ao deixá-la passar, cabeça baixa, para sentar-se no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre. Fecho a porta, caminho até a poltrona à sua frente, sento, cruzo as pernas, tendo antes o cuidado de suspender as calças para que não se formem aquelas desagradáveis bolsas nos joelhos. Espero algum tempo. Ela não diz nada. Parece olhar fixamente as minhas meias. Tiro devagar os cigarros do bolso esquerdo do paletó, apanho um com a ponta dos dedos, sem tirar o maço do bolso, e fico batendo o filtro no braço da poltrona enquanto procuro o isqueiro no bolso pequeno da calça. Antes de acendê-lo, penso mais uma vez que não deveria usar esses isqueiros plásticos descartáveis. Alguém me disse que não-são-degradá. Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por quê. Rodo o isqueiro maligno entre os dedos, depois acendo o cigarro. Então ela diz:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Desculpe, mas acho que você está com as meias trocadas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; letter-spacing: 0.2pt; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Geralmente um cigarro dura entre cinco e dez minutos. Como eu, para tranqüilizá-la, tento gastar o máximo de tempo possível fazendo coisas como fechar a porta, puxar as calças, pensar em isqueiros e ecologias, quase sempre ela fala somente quando termino o primeiro cigarro. Quase sempre depois que pergunto, com extremo cuidado, no que está pensando. Só então ela suspira, ergue os olhos, me olha de frente. Desta vez, porém, não suspira ao falar nas meias. Penso em dizer que acordei um pouco tarde demais, razoavelmente atrasado, e que. Mas prefiro perguntar lento:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- E isso te incomoda?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela contrai os ombros, de maneira que sobem até quase a altura das orelhas. Depois solta-os devagar, curvando-os para trás, convexos, como se fizesse uma massagem em si mesma:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Não é que incomode, só que. Olha, para falar a verdade eu não me importo nem um pouco com as suas meias.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Solta a última frase rápido demais, como se estivesse querendo se ver logo livre dela, e fica à espera para ver o que digo. Mas eu não digo coisa alguma. Limito-me a dar outra tragada no cigarro, batendo a cinza no cinzeiro italiano trazido de Milão. Arrumo os óculos sobre o nariz, estes aros estilo nouvelle-vague precisam ser ajustados, sempre escorregando. Alguma cinza cai sobre minhas calças. Molho o indicador e o polegar para apanhá-la sem que se esfarele, jogo-a no cinzeiro. Ela espera. Olho fixamente para ela. Ela olha fixamente para mim, depois baixa os olhos enquanto seus ombros também tornam a subir e novamente a baixar. Quando chegam ao lugar normal, ela torna a erguer os olhos. Eu continuo esperando. Resolvo ajudá-la, pausado:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Quer dizer então que você não se importa nem um pouco com as minhas meias?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela abre a boca sem falar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Não foi o que você disse? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela suspira. Estica as pernas, cruza os braços impaciente:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Foi, foi. Mas o que eu quero mesmo dizer é que hoje não estou disposta a gastar. Gastar não, passar. Não se sinta agredido, não é isso. O que acontece é que. Eu não estou disposta a passar. Eu, eu aposto nas ameixas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sem entender, espero. Ela também tira um cigarro da bolsa. Remexe algum tempo, procurando fogo. Chego a estender meu isqueiro não degradável, mas ela já encontrou uma caixa de fósforos. Acende, sacode a chama no ar decidida: &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Escuta, hoje eu não estou disposta &lt;i&gt;a passar &lt;/i&gt;aqui uma dessas suas horas de quarenta e cinco minutos discutindo as razões sub ou inconscientes de por que eu disse que você está com as meias trocadas, certo?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu bato o cigarro no cinzeiro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- É que aconteceu uma coisa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu descruzo as pernas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Uma coisa &lt;i&gt;muito &lt;/i&gt;importante.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu olho o relógio suíço, passaram-se quinze minutos. Volto a encará-la, esperando que continue a falar. Não continua, mas olha fixo para mim, as faces coradas, olhar brilhante como se tivesse um pouco de febre. Espero um pouco mais. Agora que estou com as pernas descruzadas, basta estendê-las para ver a cor das meias. Chego a ficar tão curioso que faço um pequeno movimento para a frente. Talvez a bordô com friso branco, e a xadrez de preto e vermelho? A cinza do cigarro torna a cair sobre as calças, mas desta vez não é necessário molhar o indicador e o polegar para levá-la ao cinzeiro. Basta uma leve sacudidela para que caia sobre o tapete. Quando torno a olhar para ela seus olhos brilham tanto que, mais uma vez, tento ajudá-la. Calmo:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Mas que coisa tão importante assim foi essa que te aconteceu?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela baixa a cabeça, murmura alguma coisa para si mesma em voz tão baixa que não consigo ouvir uma palavra.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Como foi que você disse?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela apaga o cigarro, tensa:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Quando vinha vindo para cá tropecei num caixão de defunto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Se eu trouxesse muito lentamente uma das pernas até o lado direito da poltrona, dobrando um pouco o joelho, conseguiria ver a cor pelo menos de uma das meias. Mas ela continua:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; letter-spacing: 0.2pt; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Quando dobrei a rua, daquele sobrado amarelo da esquina ia saindo um enterro. -Tira outro cigarro da bolsa. - Não, não foi assim. Antes, eu tinha comprado um quilo de ameixas. - Por um momento fica com dois cigarros nas mãos, um aceso, outro apagado. Depois acende um no outro. - Também não foi assim. Antes, ontem, eu dormi até quase as três horas da tarde de hoje. Então minha mãe me chamou para vir aqui.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Pára de falar, faz uma careta. Fico sem entender, até que ela apague o cigarro.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Acendi o filtro, que merda.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela nunca disse um palavrão antes, penso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Escute.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;Talvez a verde-musgo com losangos cinzentos? E no outro pé a cinza com debruns vermelhos?&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Eu vinha vindo para cá. Eu vinha vindo meio tonta, como sempre fico, assim meio tonta, meio aérea quando durmo tanto. E nem durmo, é mais uma coisa que parece assim. Que nem, sei lá. Foi numa dessas barraquinhas de frutas que eu vi. Eu vinha de cabeça baixa, umas ameixas tão vermelhas. Eu vinha pensando numa porção de coisas quando.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Que coisas?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Que coisas o quê?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- As que você vinha pensando.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Ah.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela acende outro cigarro. Do lado certo. E fala soltando a fumaça:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Sei lá, que eu ando. Muito triste. Uma merda, tudo isso. Mas não importa, não me interrompa agora. Deixa eu falar, por favor, deixa eu falar. Tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim. - Traga fundo. E solta a fumaça quase sem respirar. - Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagarinho as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada e foi aí que eu reparei naquelas pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e uma porrada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório. Quer dizer, um enterro. O velório é antes, certo?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- É - confirmo. - O velório é antes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Ficou todo mundo parado, me olhando. Eu me abaixei e comecei a catar as ameixas na sarjeta. Eu não estava me importando que fosse um enterro e que tudo tivesse parado só por minha causa, certo? Apanhei uma por uma. Só depois que tinha guardado todas de volta no pacote é que as coisas começaram a se mexer de novo. Eu continuei vindo para cá, as pessoas continuaram carregando o caixão para o carro fúnebre. Mas primeiro ficou assim um minuto tudo parado, como uma fotografia, como quando você congela a cena no vídeo. Eu juntando as ameixas e aquelas pessoas todas ali paradas me olhando. Você está prestando atenção? Aquelas pessoas todas paradas me olhando e eu ali juntando as ameixas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela pára de falar, fica olhando para mim. Depois repete:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Me olhando, as pessoas. Eu, juntando as ameixas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela apaga o cigarro. Olho o relógio, faltam quinze minutos. Acendo outro cigarro. Através da fumaça percebo que ela toca com cuidado alguma coisa dentro da bolsa, sem abri-la, por sobre o couro. Imagino que vá tirar mais um cigarro, mas ela nem chega a abrir a bolsa. Apenas toca nesse objeto no interior, distraída, com as pontas dos dedos de unhas roídas. Tão distante que preciso trazê-la de volta, firme:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- No que é que você está pensando?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela ri. Ela nunca riu antes, penso.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Numa brincadeira besta que a gente tinha quando eu era mais guria. Aquela coisa de reunião dançante, cuba-libre, você sabe. - Tira o objeto de dentro da bolsa, mas permanece com ele fechado dentro da mão. - Faz tanto tempo que eu não bebo, tanto tempo que eu não danço. Tanto tempo, meu Deus, que eu não brinco. Será que ainda existe reunião dançante? E cuba-libre, será que existe? E aquela brincadeira, será que alguém ainda brinca? - Olha para mim. Imagino que o objeto em suas mãos deva ser uma caixa de fósforos. - Era meio sacana, mas uma sacanagem boba, meio juvenil, era assim. Uma pessoa tapa os olhos da gente com um lenço, depois aponta para outra pessoa e pergunta se você quer pêra, uva ou maçã. Pêra é um aperto de mão. Uva, um abraço. Maçã é um beijo na boca. - Ri de novo. E me olha enviesada. - Só que a gente dá um jeitinho de falar com a pessoa que pergunta e daí, quando ela aponta alguém que a gente tá a fim, dá um puxão disfarçado no lenço. Então a gente pede: maçã. - Enquanto fala, percebo que esfrega suavemente aquele objeto contra a blusa, sobre os seios. Sorri mais ao dizer: - Foi a primeira vez que eu beijei de língua.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Agora seus ombros estão um tanto baixos demais, quase curvos, côncavos. Os olhos brilham menos, começam a ficar meio enevoados. Acho que vai chorar, procuro com os olhos a caixa de lenços de papel. E que mais, penso em perguntar. Então ela endireita o corpo:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Quanto tempo ainda falta?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Olho o relógio:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Cinco minutos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- &lt;i&gt;Faltam cinco minutos, já no existem mais palavras &lt;/i&gt;- ela cantarola desafinada, com uma entonação que me parece irônica. - Tem uma música assim, não tem? Ou acabei de inventar, sei lá.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Continua a esfregar aquele objeto contra a blusa. O que será, penso sem interesse. Ela torna a olhar para as minhas meias. Talvez uma inteiramente branca, outra azul, listradinha de preto?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Olha, antes de ir embora eu quero dizer a você que aposto nas ameixas. Foi isso que me veio na cabeça depois que saí caminhando. E quando entrei aqui no edifício, de costas para o enterro, o tempo todo, sem olhar para trás, no elevador, na sala de espera, quando entrei e sentei aqui, o tempo todo. - Os olhos brilham mais. Nunca ela me olhou tanto tempo de frente, antes. - Eu quero, certo? Eu preciso continuar apostando nas ameixas. Não sei se devo, também não sei se posso, se é. Permitido? Sei lá, acho que também não sei o que é &lt;i&gt;dever &lt;/i&gt;ou &lt;i&gt;poder, &lt;/i&gt;mas agora estou sabendo de um jeito muito claro o que é &lt;i&gt;precisar, &lt;/i&gt;certo? E quando a gente precisa, não importa que seja proibido. Querer? - Interrompe-se como se eu tivesse feito uma pergunta. Mas eu não disse nada. - Querer a gente inventa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu apago o cigarro. E bocejo sem querer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Ou não - ela diz levantando-se. Ela nunca levantou sem que eu dissesse &lt;i&gt;bem-por-hoje-é-só, &lt;/i&gt;antes.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Eu levanto também, sem ter planejado. Isso nunca me aconteceu antes. Ela continua esfregando o objeto contra a blusa. Só quando interrompe o gesto, a mão estendida para mim, é que percebo. Trata-se de uma ameixa. Madura, cor de vinho tinto. De sangue, talvez. Ela caminha até a mesa, coloca-a sobre a agenda ao lado do telefone.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Isto é para você.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Obrigado - eu digo sem querer.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela arruma os cabelos com os dedos antes de sair.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;- Feliz ano novo - diz, batendo a porta. Os olhos cintilam.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span lang="PT" style="font-family: Arial; mso-ansi-language: PT;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Mas estamos recém em setembro, penso em dizer. Apenas penso, ela já fechou a porta atrás de si. Torno a abri-la, mas não há mais ninguém na sala de espera além da secretária lixando as unhas. Fecho a porta outra vez e há um momento em que fico parado, ouvindo o barulho do relógio em contraponto com o ar-condicionado. Depois caminho até minha mesa. Toco a ameixa. A cor de sangue, de vinho, parece refletir-se na superfície polida das minhas unhas. É tão lustrosa que brilha, a casca estufada quase arrebentando pela pressão interna da polpa madura, que imagino amarela, sumarenta, estalando contra os dentes. Deixo a ameixa de lado e pego a agenda embaixo dela. Resolvo telefonar para seus pais, aconselhando que a internem novamente. Mas antes preciso ver a cor das minhas meias. Quem sabe a lilás, com pespontos azulmarinho? Os óculos tornam a escorregar para a ponta do nariz. Talvez a amarelinha de listras brancas? Não há tempo. A secretária começa a bater na porta, chegou o próximo cliente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2323484863513970955?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2323484863513970955/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2323484863513970955&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2323484863513970955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2323484863513970955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/pera-uva-ou-maca.html' title='PERA, UVA OU MAÇÃ?'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1004866135106700039</id><published>2011-10-08T20:24:00.000-03:00</published><updated>2011-10-08T20:24:50.930-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>Contracapa e orelhas  de Os dragões não conhecem o paraíso</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-Ay0thRAvfuE/ToRpzp2ZQGI/AAAAAAAAADE/sjoQ-6GK9_w/s1600/Drag%25C3%25B5esCapa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" kca="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-Ay0thRAvfuE/ToRpzp2ZQGI/AAAAAAAAADE/sjoQ-6GK9_w/s1600/Drag%25C3%25B5esCapa.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-GyCDkbrx_IA/ToRp4IuST0I/AAAAAAAAADI/2aLV12bGMc8/s1600/Drag%25C3%25B5esContracapa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" kca="true" src="http://3.bp.blogspot.com/-GyCDkbrx_IA/ToRp4IuST0I/AAAAAAAAADI/2aLV12bGMc8/s1600/Drag%25C3%25B5esContracapa.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1004866135106700039?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1004866135106700039/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1004866135106700039&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1004866135106700039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1004866135106700039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/contracapa-e-orelhas-de-os-dragoes-nao.html' title='Contracapa e orelhas  de Os dragões não conhecem o paraíso'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-Ay0thRAvfuE/ToRpzp2ZQGI/AAAAAAAAADE/sjoQ-6GK9_w/s72-c/Drag%25C3%25B5esCapa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-7597018783238913815</id><published>2011-10-06T09:43:00.001-03:00</published><updated>2011-10-06T09:44:47.611-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>Os contos de Os dragões não conhecem o paraíso</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-OzOpwEQ8hZE/ToRmRVCeXvI/AAAAAAAAADA/ADFVDcpMpbg/s1600/os+drag%255Boes+n%25C3%25A3o+conhecem+o+para%25C3%25ADso.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" closure_uid_xwv87s="104" height="320px" kca="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-OzOpwEQ8hZE/ToRmRVCeXvI/AAAAAAAAADA/ADFVDcpMpbg/s320/os+drag%255Boes+n%25C3%25A3o+conhecem+o+para%25C3%25ADso.jpg" width="207px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana;"&gt;Os dragões não conhecem o paraíso (1988) &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;span style="color: white; font-family: Verdana;"&gt;Linda, ma história horrível&lt;br /&gt;O destino desfolhou&lt;br /&gt;a beira do mar aberto &lt;br /&gt;sem Ana, blues &lt;br /&gt;Saudade de Audrey Hepburn&lt;br /&gt;O rapaz mais triste do mundo &lt;br /&gt;Os sapatinhos vermelhos &lt;br /&gt;Uma praiazinha de areia bem clara, ali, na beira da sanga&lt;br /&gt;dama da noite &lt;br /&gt;Mel &amp;amp; girassóis&lt;br /&gt;A outra voz &lt;br /&gt;Pequeno monstro&lt;br /&gt;Os dragões não conhecem o paraíso&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;span style="color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;span style="color: white;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;span style="color: white; font-family: Verdana;"&gt;*Todos os contos estão disponíveis no blog&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-7597018783238913815?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/7597018783238913815/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=7597018783238913815&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7597018783238913815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7597018783238913815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/os-contos-de-os-dragoes-nao-conhecem-o.html' title='Os contos de Os dragões não conhecem o paraíso'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-OzOpwEQ8hZE/ToRmRVCeXvI/AAAAAAAAADA/ADFVDcpMpbg/s72-c/os+drag%255Boes+n%25C3%25A3o+conhecem+o+para%25C3%25ADso.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-8856806570557749097</id><published>2011-10-03T21:37:00.000-03:00</published><updated>2011-10-03T21:37:07.152-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>O RAPAZ MAIS TRISTE DO MUNDO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para&lt;br /&gt;Ronaldo Pamplona da Costa &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“São aqueles que vêm do nada &lt;br /&gt;e partem para lugar nenhum. &lt;br /&gt;Alguém que aparece de repente,&lt;br /&gt;que ninguém sabe de onde veio nem para onde vai.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;A man out of nowhere.” &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(Nelson Brissac Peixoto: Cenários em Ruínas) &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;UM AQUÁRIO de águas sujas, a noite e a névoa da noite onde eles navegam sem me ver, peixes cegos ignorantes de seu caminho inevitável em direção um ao outro e a mim. Pleno inverno gelado, agosto e madrugada na esquina da loja funerária eles navegam entre punks, mendigos, neons, prostitutas e gemidos de sintetizador eletrônico - sons, algas, águas - soltos no espaço que separa o bar maldito das trevas do par que na cidade que não é nem será mais a de um deles. Porque as cidades, como as pessoas ocasionais e os apartamentos alugados, foram feitas para serem abandonadas - reflete, enquanto navega. &lt;br /&gt;Ele: esse homem de quase quarenta anos, começando a beber um pouco demais, não muito, só o suficiente para acender a emoção cansada, e a perder cabelo no alto da cabeça, não muito, mas o suficiente para algumas piadas patéticas. Sobre esse espaço vazio de cabelos no alto da cabeça caem as gotas de sereno, cristais de névoa, e por baixo dele acontecem certos pensamentos altos de noite, algum álcool e muita solidão. Ele acende um cigarro molhado, ele ergue a gola do impermeável cinza até as orelhas. Nesse gesto, a mão que segura o cigarro roça áspera na barba de três dias. Ele suspira, então, gelado. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há muitas outras coisas que se poderia dizer sobre esse homem nesta noite turva, neste bar onde agora entra, na cidade que um dia foi a dele. Mas parado aqui, no fundo do mesmo bar em que ele entra, sem passado, porque não têm passado os homens de quase quarenta anos que caminham sozinhos pelas madrugadas - todas essas coisas um tanto vagas, um tanto tolas, são tudo o que posso dizer sobre ele. Assim magro, molhado, meio curvo de magreza, frio e estranhamento. O estranhamento típico dos homens de quase quarenta anos vagando pelas noites de cidades que, por terem deixado de ser as deles, tornaram-se ainda mais desconhecidas que qualquer outra. &lt;br /&gt;O bar é igual a um longo corredor polonês. As paredes demarcadas - à direita de quem entra, mas à esquerda de onde contemplo - pelo balcão comprido e, do lado oposto, pela fila indiana de mesinhas ordinárias, fórmica imitando mármore. Nessa linha, estendida horizontal da porta de entrada até a juke-box do fundo onde estou e espio, ele se movimenta - magro, curvo, molhado - entre as pessoas enoveladas. Vestido de escuro, massa negra, monstro vomitado pelas ondas noturnas na areia suja do bar. Entre essas pessoas, embora vestido de cinza, ele parece todo branco. &lt;br /&gt;O homem pede uma cerveja no balcão, depois se perde outra vez no meio das gentes. Alongando o pescoço, mal consigo acompanhar o topo da sua cabeça de homem alto, meio calvo, até que ele descubra a cadeira vazia na mesa onde está sentado aquele rapaz. E daqui onde estou, ao lado da máquina de música próxima ao corredor que afunda na luz mortiça dos banheiros imundos, posso vê-los e ouvi-los perfeitamente através do bafo de cerveja, desodorante sanitário e mijo que chegam juntos às nossas narinas. &lt;br /&gt;Na máquina de música, para embalar esse encontro que eles ainda não perceberam que estão tendo, para ajudá-los a navegar melhor nisso que por enquanto não tem nome e poderiam sequer ver, se eu não ajudasse - escolherei lentos blues, solos sofridos de sax, pianos lentíssimos, à beira do êxtase, clarinetas ofegantes e vozes graves, negras vozes roucas ásperas de cigarros, mas aveludadas por goles de bourbom ou conhaque, para que tudo escorra dourado como a bebida de outras águas, não estas, tão turvas, de onde emergiram dois pobres peixes cegos da noite, para sempre ignorantes da minha presença aqui, junto à máquina de música, ao lado do corredor que leva aos banheiros imundos, a criar claridades impossíveis e a ninar com canções malditas esse encontro inesperado, tanto por eles, que navegam cegos, quanto por mim, pescador sem anzol debruçado sobre a água do espaço que me separa deles. &lt;br /&gt;Aquele, aquele mesmo para onde meu olhar se dirige agora, aquele rapaz em frente ao qual o homem de impermeável cinza senta com sua cerveja. Exatamente esse: um rapaz de quase vinte anos, bebendo um pouco demais, não muito, como costumam beber esses rapazes de quase vinte anos que ainda desconhecem os limites e os perigos do jogo, com algumas espinhas, não muitas, sobras de adolescência espalhadas pelo rosto muito branco, entre fios dispersos da barba que ainda não encontrou aquela justa forma definitiva já arquitetada na cara dos homens de quase quarenta anos, como esse que está à frente dele. Por trás das espinhas, entre os fios da barba informe, acontecem certos pensamentos - densos de névoa, algum álcool e muita solidão. Aquele rapaz acende um cigarro molhado, aquele rapaz desce a gola do casaco preto, aquele rapaz afasta da lapela puída umas cinzas, uns fios de cabelo, poeiras, gotas, grilos. Depois suspira, gelado. Olha em volta como se não visse nada, ninguém. Nem sequer esse homem sentado à sua frente, que aparentemente também não o vê. &lt;br /&gt;Há muitas outras coisas que se poderia dizer sobre aquele rapaz nesta noite sombria, na cidade que sempre foi a dele, neste bar onde agora está sentado à frente de um homem inteiramente desconhecido. Mas parado aqui no fundo do mesmo bar onde ele agora está sentado, com seu pequeno passado provavelmente melancólico e nenhum futuro, porque é sempre obscuro, quase invisível, o futuro dos rapazes de menos de vinte anos - todas essas coisas um tanto vagas, um tanto tolas, são tudo o que posso dizer sobre ele. Assim magro, molhado, meio curvo de magreza e frio. Com esse estranhamento típico dos rapazes que ainda não aprenderam nem os perigos nem os prazeres do jogo. Se é que se trata de um jogo. &lt;br /&gt;Pudesse eu ser o grande Zeus Olimpo e destruiria a cidade com raios flamejantes só para viver o momento da luz elétrica do raio*&amp;nbsp; - ele dirá, aquele rapaz, correspondendo à previsível arrogância de sua idade. Não agora. Por enquanto, não diz nada. Nem ele nem o homem de quase quarenta anos, sentados frente a frente na mesa à esquerda de onde estrategicamente espiono, junto à máquina de música, à direita de quem entra, surgidos do fundo do aquário de águas sujas da noite e da névoa na noite lá fora em que navegavam cegos e tontos, antes de entrarem neste bar. Antes que eu os sugasse com meus olhos ávidos dos encontros alheios, para dar-lhes vida, mesmo esta precária, de papel, onde Zeus Olimpo Oxalá Tupã também exercem seu poder sobre predestinados simulacros. &lt;br /&gt;Não, não dizem nada. Há ruído suficiente em volta para poupar-lhes as palavras, quem sabe amargas. Talvez também, pelo avesso, leite intolerável para a garganta ardida de quem ronda as noites feito eles, feito eu, feito nós. Adiáveis as palavras deles. Não as minhas. &lt;br /&gt;Por enquanto, olham em volta. Deliberadamente, não se&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(*) Um verso inédito de Antonio Augusto Caldasso Couto &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;encaram. Embora sejam os dois magros, meio curvos de tanta magreza, molhados da névoa lá de fora, embora um vista cinza e outro preto, como mandam os tempos, para não serem rejeitados, embora ambos bebam cervejas um tanto mornas, mas pouco importa neste bar o que se bebe, desde que se beba, e fumem cigarros igualmente amassados, viciosos cigarros tristes desses que só homens solitários e noturnos rebuscam nas madrugadas pelo fundo dos bolsos dos casacos, tenham eles vinte ou quarenta anos. Ou mais, ou menos homens solitários não tem idade. Embora gelados, tontos de álcool, hirtos de frio, lúcidos dessa solidão que persegue feito sina os homens sem passado nem futuro, nem mulher ou amigo, família nem bens - eles não se olham.&lt;br /&gt;Eles se ignoram. Porque pressentem que - eu invento, sou Senhor de meu invento absurdo e estupidamente real, porque o vou vivendo nas veias agora, enquanto invento - se cederem à solidão um do outro, não sobrará mais espaço algum para fugas como alguma trepada bêbada com alguém de quem não se lembrará o rosto dois dias depois, o pó cheirado na curva da esquina, a mijada sacana ao lado do garçom ausente de conflitos, mas compreensivo com qualquer tipo de porre alheio, um baseado sôfrego na lama do parque. Coisas assim, você sabe? Eu, sim: amar o mesmo de si no outro às vezes acorrenta, mas quando os corpos se tocam as mentes conseguem voar para bem mais longe que o horizonte, que não se vê nunca daqui. No entanto, é claro lá: quando os corpos se tocam depois de amar o mesmo de si no outro. &lt;br /&gt;Portanto, não se olham. E não sou eu quem decide, são eles. Não se deve olhar quando olhar significaria debruçar-se sobre um espelho talvez rachado. Que pode ferir, com seus cacos deformantes. Por isso mesmo hesito, então, entre jogar minha ficha em Bessie Smith ou Louis Armstrong (tudo é imaginário nesta noite, neste bar, nesta máquina de música repleta de outras facilidades mais em voga), para facilitar o fluxo, desimpedir o trânsito, para adoçar ou amargar as coisas, mesmo temendo que rapazes de menos de vinte anos não sejam ainda capazes de compreender tais abismos colonizados, negros requintes noturnos de vozes roucas contra o veludo azul a recobrir paredes de outro lugar que não este corredor polonês numa cidade provinciana cujo nome esqueci, esquecemos. Sofisticação, pose: fadiga e luvas de cano longo. &lt;br /&gt;Minha, deles. Porque somos três e um. O que vê de fora, o que vê de longe, o que vê muito cedo. Este, antevisão. Os três, o mesmo susto. Vendo de dentro, emaranhados. Agora quatro? &lt;br /&gt;Porque então começa. Mas começa tão banal - como é seu nome, qual o seu signo, quer outra cerveja, me dá um cigarro, não tenho grana, eu pago, pode deixar, fazendo o quê, por aí, vendo o que pinta, vem sempre aqui, faz tanto frio - que quase aperto o botão de outros sons que não aqueles que imagino, tão roucos, para que no grito tenso de um baixo elétrico possam chafurdar na estridência de cada noite. Mas subitamente os dois se compõem - esse homem de impermeável cinza, aquele rapaz de casaco preto, juntos na mesma mesa - e sem que eu esteja prevenido, embora estivesse, porque fui quem armou esta cilada, de repente eles se olham bem dentro e fundo dos olhos um do outro. Ao lado da massa negra, monstro marinho, no meio do cheiro de mijo e cerveja, por entre os azulejos brancos das paredes do bar, como um enorme banheiro cravado no centro da noite onde estão perdidos - eles se encontram e se olham. &lt;br /&gt;Eles se reconhecem, finalmente eles aceitam se reconhecer. Eles acendem os cigarros amarrotados um do outro com segurança e certa ternura, ainda tímida. Eles dividem delicadamente uma cerveja em comum. Eles se contemplam com distância, precisão, método, ordem, disciplina. Sem surpresa nem desejo, porque esse rapaz de casaco preto, barba irregular e algumas espinhas não seria o homem que aquele homem de espaço vazio no alto da cabeça desejaria, se desejasse outros homens, e talvez deseje. Nem o oposto: aquele rapaz, mesmo sendo quem sabe capaz de tais ousadias, não desejaria esse homem através da palma da mão inventando loucuras no silêncio de seu quarto, certamente cheio de flâmulas, super-heróis, adesivos e todos esses vestígios do tempo que mal acabou de passar, quando é cedo demais para saber se se deseja, fatalmente, outro igual. Quem sabe sim. Mas este homem, aquele rapaz - não. É de outra forma que tudo acontece. &lt;br /&gt;Eles se contemplam sem desejo. Eles se contemplam doces, desarmados, cúmplices, abandonados, pungentes, severos, companheiros. Apiedados. Eles armam palavras que chegam até mim em fragmentos partidos pelo ar que nos separa, em forma de interrogações mansas, hesitantes, perguntas que cercam com cautela e encantamento um reconhecimento que deixou de ser noturno para transformar-se em qualquer outra coisa a que ainda não dei nome, e não sei se darei, tão luminosa que ameaça cegar a mim também. Contenho o verbo, enquanto eles agora vêem o que mal começa a se desenhar, e eu acho belo. &lt;br /&gt;O rapaz olha os próprios braços e diz: eu sou tão magro, vê? Quando abraço uma mina - ele fala assim mesmo, mina, e o homem pisca ligeiramente, discreto, para não sublinhar o abismo de quase vinte anos - fico olhando para os meus braços frágeis incapazes de abraçar com força uma mulher, e fico então imaginando músculos que não tenho, fico inventando forças, porque eu sou tão fraco, porque eu sou tão magro, porque eu sou tão novo. O rapaz olha em volta seco, nenhuma sombra de paixão em seu rosto muito branco, e diz ainda: eu quero me matar, eu não entendo estar vivo, eu não tenho pai, minha mãe me sacode todo dia e grita acorda, levanta, vadio, vai trabalhar. Eu quero ler poesia, eu nunca tive um amigo, eu nunca recebi uma carta. Fico caminhando à noite pelos bares, eu tenho medo de dormir, eu tenho medo de acordar, acabo jogando sinuca a madrugada toda e indo dormir quando o sol já está acordando e eu completamente bêbado. Eu nasci neste tempo em que tudo acabou, eu não tenho futuro, eu não acredito em nada - isso ele não diz, mas eu escuto, e o homem em frente dele também, e o bar inteiro também. Então o homem responde, com essa sabedoria meio composta que os homens de quase quarenta anos inevitavelmente conseguiram. &lt;br /&gt;Ele, o homem, passa a palma da mão pelos cabelos ralos, como se acariciasse o tempo passado, e diz, o homem diz: não tenha medo, vai passar. Não tenha medo, menino. Você vai encontrar um jeito certo, embora não exista o jeito certo. Mas você vai encontrar o seu jeito, e é ele que importa. Se você souber segurar, pode até ser bonito. O homem tira a carteira do bolso, pede outra cerveja e um maço de cigarros novinhos, depois olha com olhos molhados para o rapaz e diz assim. Não, ele não diz nada. Ele olha com olhos molhados para o rapaz. Durante muito tempo, um homem de quase quarenta anos olha com olhos molhados para um rapaz de quase vinte anos, que ele nunca tinha visto antes, no meio de um bar no meio desta cidade que já não é mais a dele. Enquanto esse olhar acontece, e é demorado, o homem descobre o que eu também descubro, no mesmo momento. &lt;br /&gt;Aquele rapaz de casaco preto, algumas espinhas, barba irregular e pele branca demais - este é o rapaz mais triste do mundo. &lt;br /&gt;E para tornar todas essas coisas ainda mais ridículas, ou pelo menos improváveis, o amanhã que já é hoje será dia dos Pais. Atordoado por datas que nada significam para os que nada têm, sem nenhum filho, mais para reforçar o lado da solidão, o homem de quase quarenta anos começa a contar que veio de outra cidade para ver seu pai. E vai revelando então, naquele mesmo tom desolado do rapaz que agora e para sempre tornou-se o rapaz mais triste do mundo, igual ao que ele foi, mas não voltará a ser, embora jamais deixará de sê-lo, ele diz assim: eles não olham para mim, eles ficam lá naquela segurança armada de família que não admite nada nem ninguém capaz de perturbar o seu sossego falso, e não me olham, não me vêem, não me sabem. Me diluem, me invisibilizam, me limitam àquele limite insuportável do que eles escolheram suportar, e eu não suporto - você me entende? &lt;br /&gt;O rapaz de menos de vinte anos quase não entende. Mas estende a mão por cima da mesa para tocar a mão do homem de quase quarenta anos. Os dedos da mão desse homem se fecham dentro e entre os dedos da mão daquele rapaz. Há tanta sede entre eles, entre nós. &lt;br /&gt;Passou-se muito tempo. Vai amanhecer. O frio aumentou. O bar está meio vazio, quase fechando. Debruçado na caixa, o dono dorme. Gastei quase todas as minhas fichas: tudo é blues, azul e dor mansinha. Só me resta uma, que vou jogar certeiro em Tom Waits. Me preparo. Então - enquanto os garçons amontoam cadeiras em cima das mesas vazias, um pouco irritados comigo, que a tudo invento e alimento, e com esses dois caras estranhos, parecem dois veados de mãos dadas, perdidamente apaixonados por alguém que não é o outro, mas poderia ser, se ousassem tanto e não tivessem que partir - o homem segura com mais força nas duas mãos do rapaz mais triste do mundo. As quatro mãos se apertam, se aquecem, se misturam, se confortam. Não negro monstro marinho viscoso, vômito na manhã. Mas sim branca estrela do mar. Pentáculo, madrepérola. Ostra entreaberta exibindo a negra pérola arrancada da noite e da doença, puro blues. E diz, o homem diz: &lt;br /&gt;- Você não existe. Eu não existo. Mas estou tão poderoso na minha sede que inventei a você para matar a minha sede imensa. Você está tão forte na sua fragilidade que inventou a mim para matar a sua sede exata. Nós nos inventamos um ao outro porque éramos tudo o que precisávamos para continuar vivendo. E porque nos inventamos, eu te confiro poder sobre o meu destino e você me confere poder sobre o teu destino. Você me dá seu futuro, eu te ofereço meu passado. Então e assim, somos presente, passado e futuro. Tempo infinito num sZ, esse é o eterno. &lt;br /&gt;No bar de cadeiras amontoadas, resta apenas aquela mesa onde os dois permanecem sentados, alheios às ruínas do cenário. Do meu canto, espio. Deve haver alguma puta caída num canto, alguma bichinha masturbando um negro no banheiro. Eu não os vejo. Por enquanto e agora, não. Do meu canto, vejo somente esses homens diversos e iguais, as quatro mãos dadas sobre a mesinha ordinária, fórmica imitando mármore. &lt;br /&gt;E é então que o rapaz conta que entregou flores o dia inteiro, que juntou algum dinheiro, batalhou cem paus, qualquer micharia assim, essas coisas de rapazes com menos de vinte anos - e faz questão, magnífico, de pagar a última cerveja. Tudo é último agora. Não há mais bares abertos na cidade. Uma luz vítrea começa a varar a névoa da noite onde eles ainda estão mergulhados junto comigo, com você, peixes míopes apertando os olhos para se verem de perto, em dose, e conseguem. Lindos, assustadores: as guelras fremem. O homem puxa outra vez sua carteira cheia de notas e cheques e cartões, dessas carteiras recheadas que só os homens de quase quarenta anos conseguiram conquistar, mas não significam nada em momentos assim. O rapaz insiste, o homem cede, guarda a carteira. O último garçom traz a última cerveja. Eu jogo minha última ficha na máquina de música, no último blues. Ninguém vê, ninguém ouve mais nada na manhã que chega para adormecer loucuras. Amanhã, você lembrará? &lt;br /&gt;Ternos, pálidos, reais: eles se olham. Eles se acariciam mutuamente as mãos, depois os braços, os ombros, o pescoço, o rosto, os traços do rosto, os cabelos. Com essa doçura nascida entre dois homens sozinhos no meio de uma noite gelada, meio bêbados e sem nenhum outro recurso a não ser se amarem assim, mais apaixonadamente do que se amariam se estivessem à caça de outro corpo, igual ou diverso do deles - pouco importa, tudo é sede. De onde estou, vejo a alma dos dois brilhar. Amarelinho, violeta claro: dança sobre o lixo. Eles choram enquanto se acariciam. Um homem de quase quarenta anos e um rapaz de menos de vinte, sem idade os dois. &lt;br /&gt;Eu sou os dois, eu sou os três, eu sou nós quatro. Esses dois que se encontram, esse três que espia e conta, esse quarto que escuta. Nós somos um - esse que procura sem encontrar e, quando encontra, não costuma suportar o encontro que desmente sua suposta sina. É preciso que não exista o que procura, caso contrário o roteiro teria que ser refeito para introduzir Tui, a Alegria. E a alegria é o lago, não o aquário turvo, névoa, palavras baças: Netuno, sinastrias. E talvez exista, sim, pelo menos para suprir a sede do tempo que se foi, do tempo que não veio, do tempo que se imagina, se inventa ou se calcula. Do tempo, enfim. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esse estranho poder demiúrgico me deixa ainda mais tonto que eles, quando levantam e se abraçam demorada- mente à porta do bar, depois de pagarem a conta. Amantes, parentes, iguais: estranhos. &lt;br /&gt;Então o rapaz se vai, porque tem outros caminhos, O homem fica, porque tem outros caminhos. Ele acompanha o vulto do rapaz que se vai, exatamente com o mesmo olhar com que acompanho o vulto desse homem parado por um instante à porta do bar. E não ficará, porque esta cidade não é mais a dele. O rapaz sim, ficará, porque é nesta mesma cidade que deve escolher essa coisa vaga - um caminho, um destino, uma história com agá -, se é que se escolhe alguma coisa, para depois matá-la, essa coisa vaga futura, quando for passado, se é que se mata alguma coisa. A voz rouca de Tom Waits repete e repete e repete que este é o tempo, e que haverá tempo, como num poema de T. S. Eliot, e sim, deve haver, certamente, enquanto o último garçom toca suave no ombro desse homem de impermeável cinza, cabelos rareando no alto da cabeça, quase quarenta anos, parado à porta do bar. Delicado, amigável, apontando o vulto do rapaz mais triste do mundo que se afasta para tomar o primeiro ônibus, o garçom pergunta: &lt;br /&gt;- Ele é seu filho? &lt;br /&gt;De onde estou, ao lado da máquina de música que emudece, sinto um inexplicável perfume de rosas frescas. Como se tivesse amanhecido e uma súbita primavera se instaurasse no parque em frente - nada contra as facilidades dos finais. Antes que o homem se vá, consigo vê-lo sorrir de manso e então mentir ao garçom dizendo sim, dizendo não, quem sabe. E o que disser, como eu, será verdade. Aqui de onde resto, sei que continuamos sendo três e quatro. Eu pai deles, eu filho deles, eu eles próprios, mais você: nós quatro, um único homem perdido na noite, afundado nesse aquário de águas sujas refletindo o brilho de neon. Peixe cego ignorante de meu caminho inevitável em direção ao outro que contemplo de longe, olhos molhados, sem coragem de tocá-lo. Alto de noite, certa loucura, algum álcool e muita solidão. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quero mais um uísque, outra carreira. Tudo aos poucos vira dia e a vida - ah, a vida - pode ser medo e mel quando você se entrega e vê, mesmo de longe. &lt;br /&gt;Não, não quero nem preciso nada se você me tocar. Estendo a mão. &lt;br /&gt;Depois suspiro, gelado. E te abandono.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-8856806570557749097?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/8856806570557749097/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=8856806570557749097&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8856806570557749097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8856806570557749097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/o-rapaz-mais-triste-do-mundo.html' title='O RAPAZ MAIS TRISTE DO MUNDO'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6567793577044405189</id><published>2011-10-02T19:17:00.001-03:00</published><updated>2011-10-03T21:31:20.997-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>UMA PRAIAZINHA DE AREIA BEM CLARA, ALI, NA BEIRA DA SANGA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para&lt;br /&gt;&amp;nbsp;Antonio Maschio&lt;br /&gt;e &lt;br /&gt;Wladimir Soares&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Each man kills the things he loves. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(Oscar Wilde, citado por Fassbinder em &lt;br /&gt;Querelle) &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;1&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;HOJE faz exatamente sete anos que fugi para sempre&amp;nbsp; do Passo da Guanxuma, Dudu. É setembro, mês do teu aniversário, mas não lembro o dia certo. &lt;br /&gt;Lembrei disso agora há pouco, olhando minha cara no espelho enquanto decidia se faço ou não a barba. Continua dura e cerrada, a barba, você conhece. Se faço todos os dias, a cara vai ficando meio lanhada, uns fios encravados, uns vermelhões. Se não faço, fica parecendo suja, a cara. Não decidi nada. Mas foi quando olhei para o espelho que vi o calendário ao lado e aí me veio esse peso no coração, essa lembrança do Passo, de setembro e de você. Quando pensei setembro, pensei também numas coisas meio babacas, tipo borboletinhas esvoaçando, florzinhas arrebentando a terra, ventanias, céu azul como se fosse pintado a mão. Tanta besteirada tinha naquela cidade, meu Deus. Ainda terá? &lt;br /&gt;Agora olhei pela janela. A janela do meu quarto dá para os fundos de outro edifício, fica sempre um ar cinzento preso naquele espaço. Um ar grosso, engordurado. Se você estivesse aqui e olhasse para a frente, veria uma porção de janelinhas de banheiro, tão pequenas que nem dá para espiar o monte de sacanagens que devem acontecer por trás delas. Se você olhasse para baixo, veria aquelas latas de lixo todas amontoadas no térreo. Só quando olhasse para cima, poderia ver um pedacinho do céu - e quando escrevi pedacinho de céu lembrei daquela mágica antiga que você gostava tanto, era mesmo um chorinho? Sempre olho para cima, para ver o ar cinzento entre a minha janela e o paredão do outro edifício que se encomprida até misturar com o céu. Feito uma capa grossa de fuligem jogada sobre esta cidade tão longe aí do Passo e de tudo que é claro, mesmo meio babaca. &lt;br /&gt;Quando penso desse jeito, nesta cidade daqui, Dudu, você nem sabe como me dá uma vontade doida, doida de voltar. Mas não vou voltar. Mais do que ninguém, você sabe perfeitamente que eu nunca mais posso voltar. Pensei isso com tanta certeza que cheguei a ficar meio tonto, a mão escorregou e fez esse borrão aí do lado, desculpe. Eu apertei as duas mãos contra a folha de papel, como se quisesse me segurar nela. Como se não houvesse nada embaixo dos meus pés. &lt;br /&gt;Você não sabe, mas acontece assim quando você sai de uma cidadezinha que já deixou de ser sua e vai morar noutra cidade, que ainda não começou a ser sua. Você sempre fica meio tonto quando pensa que não quer ficar, e que também não quer - ou não pode - voltar. Você fica igualzinho a um daqueles caras de circo que andam no arame e de repente o arame plac! ó, arrebenta, daí você fica lá, suspenso no ar, o vazio embaixo dos pés. Sem nenhum lugar no mundo, dá para entender? &lt;br /&gt;Ando tão só, Dudu. Ando tão triste que às vezes me jogo na cama, meto a cara fundo no travesseiro e tento chorar. Claro que não consigo. Solto uns arquejos, roncos, soluços, barulhos de bicho, uns grunhidos de porco ferido de faca no coração. Sempre lembro de você nessas horas. Hoje, preferi te escrever. Também, os lençóis estão imundos. A dona que me aluga este quarto só troca de duas em duas semanas, e já deve andar pelo fim da segunda. Peguei ainda a mania de comprar comida na rua, naqueles pratinhos de papel metálico, fico comendo entre os lençóis, volta e meia acaba caindo algum pedaço no meio deles. Arroz, omelete, maionese, pizza - essas comidas de plástico que a gente come aqui, nada de costela gorda com farinha, como aí no Passo. &lt;br /&gt;Fora isso, que é bastante porco, continuo um cara bem limpinho. Dudu. E se você ainda consegue lembrar daqueles banhos que a gente tomava pelados na sanga Caraguatatá - porque eu, eu não esqueço um segundo nestes sete anos -, mais do que ninguém, você sabe como isso é verdade. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;2&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tenho trinta e três anos e sou um cara muito limpo. Tomo no mínimo um banho por dia, escarafuncho bem as orelhas com cotonetes, desses que, dizem, têm um dourado no meio, daí você ganha um prêmio se encontrar, mas eu nunca encontrei. As unhas não corto, não é preciso, desde criança rôo até o sabugo. &lt;br /&gt;Não sou um cara feio, acho que não. Verdade que podia ser mais alto um pouco, embora não seja nenhum pônei. E um pouco menos peludo, também podia. De vez em quando tiro toda a roupa e fico me olhando nu na porta de espelho do guarda-roupa. Tem pêlo por todo lado, quando faço a barba tenho que começar a raspar ali onde termina o peito e começa o pescoço. Fica parecendo uma blusa dessas sem gola, uma camiseta escura. Se não raspasse, emendava tudo. Tem pêlos também nos ombros, um pouco nas costas, depois rareia, só começa de novo pouco abaixo da cintura, antes da bunda. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pêlos pretos, crespos. Nos lugares onde não tem pêlos, a pele é muito branca. &lt;br /&gt;Não era assim, lá no Passo. Quero dizer, não que eu não fosse peludo - isso começou com uns treze, catorze anos, e não parou até hoje. Pêlo é o tipo de coisa que não pára nunca de crescer no corpo de um cara. Mas a pele, isso que eu quero dizer, a pele não era branca. No Passo tinha sol quase todo dia, e uma praiazinha de areia bem clara, na beira da sanga. Eu ficava ali deitado na areia, completamente nu, quase sempre sozinho. Eu nadava e nadava e nadava naquela água limpa. Deve ser por isso que, embaixo desses pêlos todos, os músculos são muito duros. &lt;br /&gt;Ou eram. Tenho ficado tanto tempo deitado que eles estão amolecendo. Esse é só um dos sintomas, ficar muito tempo deitado. Tem outros, físicos. Uma fraqueza por dentro, assim feito dor nos ossos, principalmente nas pernas, na altura dos joelhos. Outro sintoma é uma coisa que chamo de pálpebras ardentes: fecho os olhos e é como se houvesse duas brasas no lugar das pálpebras. Há também essa dor que sobe do olho esquerdo pela fronte, pega um pedaço da testa, em cima da sobrancelha, depois se estende pela cabeça toda e vai se desfazendo aos poucos enquanto caminha em direção ao pescoço. E um nojo constante na boca do estômago, isso eu também tenho. Não tomo nada: nenhum remédio. Não adianta, sei que essa doença não é do corpo. &lt;br /&gt;Quando apalpo meu corpo e sinto ele ficando mole, levanto de um salto e saio a caminhar pelo quarto. Faço cinqüenta flexões, até meus peitos e braços ficarem duros de novo. Isso durante o dia, porque não suporto o barulho das buzinas na rua. À noite saio, dou umas voltas. Gosto de ver as putas, os travestis, os michês pelas esquinas. Gosto tanto que às vezes até pago um, ou uma, para dormir comigo. Foi assim que acabei conhecendo o Bar. Mas não quero falar disso agora. &lt;br /&gt;Para não falar disso agora, levanto a cabeça, desvio os olhos do espelho para não ver a cara barbada que parece suja e, devagarinho, começo a soltar as mãos das bordas da pia enquanto olho fixo dentro do meu olho no espelho. Imagino aquele cara, o do arame no circo, mas o contato do arame com a pele da sola dos pés deve ser gelado e cortante tipo fio de faca. O da pia também é frio, mas redondo, redondo feito peito ou bunda de mulher. Embaixo dos meus pés descalços continua a não ter nada. Então contraio bem os dedos, que nem macaco querendo segurar alguma coisa. Depois solto os dedos dos pés do assoalho de tábuas lixadas. Solto os dedos das mãos da pia e caminho até a porta para ver se chegou.&lt;br /&gt;Assim todos os dias, várias vezes por dia, depois das duas da tarde. A dona que me aluga este quarto costuma colocar as cartas em cima da mesinha no corredor. Abro muitas vezes a porta, espio, nunca tem nada. Nem podia, claro, depois de tudo. Não tenho ninguém mais lá no Passo. Só o Dudu. Que agora, depois de sete -anos, já nem sei direito se tenho para sempre ou, ao contrário, não terei nunca mais. &lt;br /&gt;Não queria pensar no Dudu agora, mas quando abri a porta e vi a mesinha do corredor vazia - vazia de cartas, quero dizer, porque tem sempre aquele elefante rosa com flor de plástico do lado - sem querer, fiquei pensando bem assim: como seria bom se tivesse uma carta do Dudu agora. Aí eu pegava a carta, me sentava, lia devagar, devia ter notícia do Passo, devia falar naquela praiazinha, em setembro, numas tardes quase quentes outra vez, já dava para começar a tomar sol de novo, eu e ele, porque além de mim ele era o único cara que conhecia aquele lugar. Mas então eu acendia um cigarro e lia, depois pegava papel e caneta, pensava um pouco e começava a responder. Depois da data, tinha que escrever alguma coisa, aí embatucava, em dúvida se seria melhor meu-prezado-Dudu ou caro-Dudu, amigo-Dudu ou só Dudu, ou quem sabe meu-amigo. Ficaria um monte de tempo assim pensando, roendo a tampa da caneta, até começar a escurecer. Talvez resolvesse começar a escrever sem data nem nada, para não contar tudo. Talvez deixasse a carta assim mesmo, só uma data num papel em branco, e tomaria um banho, faria de vez &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;a barba, depois me vestiria lento até chegar a hora de sair para o Bar, decidindo que não era preciso carta alguma, porque desta vez. &lt;br /&gt;Só que essas eram o tipo de coisa que eu não queria de jeito nenhum pensar no meio daquela tarde, quase noite. No Passo, no Bar, no Dudu. Tudo isso me faz tanto mal. &lt;br /&gt;Fechei a porta, encostei a parte de cima da cabeça contra ela. Só nos filmes as pessoas fazem isso, nunca vi ninguém fazer de verdade. Comecei a fazer para ver se sentia o que as pessoas sentem nos filmes - pessoas sempre sentem coisas nos filmes, nos bares, nas esquinas, nas músicas, nas histórias. Nas vidas acho que também, só que não se dão conta. Depois percebi que aquela dor que sobe ali do olho esquerdo pela testa diminuía um pouco assim, então fui me virando até apertar o lado esquerdo da cabeça, justamente onde doía, contra a porta fechada. A dor doía menos assim, embora não fosse exatamente uma dor. Mais um peso, um calafrio. Uma memória, uma vergonha, uma culpa, um arrependimento em que não se pode dar jeito. &lt;br /&gt;Eu estava de costas contra a porta quando olhei pela janela aberta do outro lado do quarto. Então pensei que bastaria uma corrida rápida da porta até a janela, depois um impulso mínimo para jogar meu corpo por ela e plac! ó, pronto, acabou: moro no décimo andara. Não foi a primeira vez que isso me passou pela cabeça. O que me segurou desta vez, como me segurava em todas as outras, foi pensar naquele monte de latas de lixo lá no térreo. Meu pequeno corpo, cheio de pêlos e músculos duros, cairia exatamente sobre elas. Imaginei uns restos de macarrão enrolados nos anéis do meu cabelo crespo, uma garrafa vazia de pinga vagabunda no meio das minhas pernas, um modess usado na ponta do meu nariz. E continuei parado. Tenho horror à idéia de ficar sujo, mesmo depois de morto. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;3&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Só que desta vez, Dudu, por mais nojeiras que imaginasse sobre meu corpo caído lá embaixo, não sei por que, a vontade de saltar continua. Mas eu resisto. Não que alguém fosse sentir muita falta minha ou se achar, sei lá, sacaneado com a minha morte. Nem Teresângela, aquela putinha que veio me chupar o pau umas quatro ou cinco vezes, acho que te contei, nem Marilene, mulher do Indio, aí do Passo (um beijo nela), que gostava de mim, faz tanto tempo, nem os donos do Bar, o gordinho que sorri e às vezes abana de longe, ou o de bigode e chapeuzinho preto redondo de Carlitos. Nem você, que nunca me escreveu. Ninguém, Dudu. Eu comecei a enumerai nos dedos quem poderia sentir a minha falta: sobraram dedos. Todos estes que estou olhando agora. &lt;br /&gt;Eu ando muito infeliz, Dudu, este é um segredo que conto só para você: eu tenho achado, devagarinho, cá dentro de mim, em silêncio, escondido, que nem gosto mais muito de viver, sabia? &lt;br /&gt;Não é falta de grana, não. Aqui a gente se vira. Um dia vendo livros, no outro faço pesquisa. Sei ló, sempre pinta. Nunca precisei de muito, você sabe. Meu único luxo têm sido os discos de Dulce Veiga que fico catando nas lojas, já tenho quase todos, você ia gostar de ouvir, outro dia encontrei até o Dulce Também Diz Não, autografado e tudo. Nem falta de amor, que te falei da Teresângela, e tem também o Carlão ali da Praça Roosevelt, quando bebo demais, fumo maconha, tomo bola, me esqueço de mim e fico meio mulher, mais a Noélia, uma gatona repórter da revista Bonita, que conheci no Bar uma noite que ela perguntou o meu signo no horóscopo chinês, e eu sou Tigre e você, lembrei, Dragão. &lt;br /&gt;Amor picadinho, claro, amor bêbado, amor de fim de noite, amor de esquina, amor com grana, amor com fissura, chato nos pentelhos e doença, nas madrugadas de sábado desta cidade que você não conhece nem vai conhecer. De qualquer jeito, amor, Dudu, embora não mate a sede da gente. Amor aos montes, por todos os cantos, banheiros e esquinas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não é isso, nem a falta disso. Me roendo por dentro, é outra coisa que só você poderia saber o que é, mas nem você mesmo soube naquele tempo, e agora nem eu sei se saberia explicar a você ou a qualquer outro. &lt;br /&gt;Mas o que quero te contar, e só sei meio vagamente porque justo hoje, é um negócio tão louco que nem sei como começar. Quem sabe assim - sabia que uma noite eu vi você? Não ria, não duvide de mim, não pense que foi assim como quando você sente saudade demais de uma pessoa, então começa a vê-la nas outras, em todos os lugares, de costas, por um jeito de andar, de sorrir ou virar a cabeça de lado. Foi outra coisa. E não era apenas uma vontade de ver você que te trazia de volta, era você mesmo, Dudu. Você exato, como você é ou foi, sete anos atrás. Como uma pessoa, mesmo por engano, nunca pode ser outra pessoa. &lt;br /&gt;Foi no Bar, a primeira vez que fui ao Bar, e foi por sua causa que fui lá, faz uns três, quatro anos. Eu vinha descendo a rua Augusta quando vi você dobrar aquela esquina da banca de frutas, sorrir para mim, acenar com a mão, mascando chiclete (de hortelã, eu sabia) como sempre, depois entrar num portão de ferro desses altos, antigos. Eu fui atrás, eu nem sabia que aquilo era um bar. Me perdi numas salas cheias de fumaça e gente estranha, gente falando muito e muito alto, atravessei umas portas, uns arcos, desci escadas, tornei a subir, fui parar numa janela grande aberta para a rua. Então olhei para o outro lado e lá estava você, na calçada oposta, embaixo de um outdoor de carro, calcinha ou dentes, não lembro ao certo. &lt;br /&gt;Você não era uma visão do outro lado da rua, Dudu. Você nem sequer estava de branco, você vestia aquele jeans todo desbotado, meio rasgadinho na bunda e no joelho direito, com uma camiseta branca, como as que você usava, mascando aquele chiclete que de longe eu sabia que era hortelã. Era você exato, Dudu. Eu atravessei as salas, a fumaça dos cigarros, os sons estridentes de todas as palavras que aquelas pessoas jogavam feito bolas no ar, passei pelo balcão, atravessei aquele corredorzinho de entrada, afastei umas gentes amontoadas no portão enquanto você esperava por mim do outro lado. Então precisei parar e dar passagem a um desses ônibus elétricos que o tempo todo sobem e descem a Augusta. Quando o ônibus passou, você tinha desaparecido outra vez. &lt;br /&gt;Loucura, não é, Dudu? &lt;br /&gt;Fiquei dando umas voltas por ali, sem acreditar, até ir parar na Praça Roosevelt. Foi nessa noite que encontrei o Cartão pela primeira vez, parado na frente do cinema Bijou, onde passava, lembro tão bem, A História de Adele H, o tipo de filme que você gostava. De longe, as mãos nos bolsos, cigarro na boca, mascando chiclete ao mesmo tempo, parecia você. Essa foi só a primeira vez que te vi. &lt;br /&gt;Desde aquela noite, peguei a mania de ir ao Bar, pensando assim que era um lugar onde você costumava ir, feito íamos no Agenor da Boca, lá no Passo, encontrar a Marilene fugida do Indio, com dois poemas na bolsa. Te vi outras noites, Dudu, sempre no Bar. Acontece de repente, tão rápido que nunca consigo dizer nada. As vezes estou numa mesa, quase sempre com a Noélia, e você desce as escadas, como se fosse em direção à sala grande da frente. Você sempre sorri, me abana. Depois desaparece. &lt;br /&gt;Nunca falei sobre você a ninguém. Nem vou falar. Não falaria de você nem a você mesmo, se hoje não tivesse percebido que, além de fazer sete anos que saí para sempre do Passo da Guanxuma, é um dia próximo do teu aniversário. Por isso estou te escrevendo, depois de tanto tempo. Também para deter aquela vontade de saltar pela janela e acabar de vez com esta saudade do Passo, onde não vou voltar, com essa mania louca de procurar você no Bar quase todas as noites, sem te encontrar. Eu sinto tanta falta, Dudu.&amp;nbsp;Penso às vezes que, quando eu estiver pronto, embora não tenha a menor idéia de como possa ser estar-pronto, um dia, um dia comum, um dia qualquer, um dia igual hoje, vou encontrar você claro e calmo sentado no Bar, à minha espera. Na mesa à sua frente, um copo de vinho que você vai erguer no ar feito uma saudação, até que eu me aproxime sem que você desapareça, para que eu possa então te abraçar dando um soco leve no ombro, sem te machucar, como antigamente, e sentar junto para contar todas as coisas que aconteceram comigo nestes sete anos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desde aquela tarde quase quente de setembro, quando nos estendemos nus sobre a areia clara das margens da sanga Caraguatatá, um dia perto do teu aniversário, o cú azul feito alguém tivesse pintado ele, essas ventanias de primavera secando rápido nossos cabelos molhados, enquanto uma borboletinha amarela esvoaçava entre nós para escapar depressa no momento exato em que, ali do meu lado, você se debruçou na areia para olhar bem fundo dentro dos meus olhos, depois estendeu o braço lentamente, como se quisesse me tocar num lugar tão escondido e perigoso que eu não podia permitir o seu olho nos pêlos crespos do meu corpo, a sua mão na minha pele&amp;nbsp; que naquele tempo não era branca assim, o seu hálito de hortelã quase dentro da minha boca. Foi então que peguei uma&amp;nbsp; daquelas pedras frias da beira d’água e plac! ó, bati de uma só vez na tua cabeça, com toda a força dos meus músculos duros - para que você morresse enfim, e só depois de te matar, Dudu, eu pudesse fugir para sempre de você, de mim, daquele maldito Passo da Guanxuma que eu não consigo esquecer, por mais histórias que invente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6567793577044405189?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6567793577044405189/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6567793577044405189&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6567793577044405189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6567793577044405189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/10/uma-praiazinha-de-areia-bem-clara-ali.html' title='UMA PRAIAZINHA DE AREIA BEM CLARA, ALI, NA BEIRA DA SANGA'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-7634219104027870896</id><published>2011-09-29T08:26:00.000-03:00</published><updated>2011-09-29T08:26:48.242-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>A OUTRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;ERAM cinco e quinze da tarde. Sabia mesmo sem olhar o relógio, mesmo que nesse dia nem houvesse sol, para poder acompanhar a mancha clara de luz reduzindo-se cada vez mais na parede em frente à janela aberta, enquanto a noite chegava. E eles viessem, com a noite. Mas tinha medo de pensar nisso, então supunha que sabia por uma espécie de vibração no ar, assim como se as coisas, aquelas coisas de fora, tivessem um movimento especial, feito um leve arfar, todos os dias, passados quinze minutos das cinco horas, à tarde. Só que as coisas não se moviam. Talvez quem sabe na superfície ou dentro de seu corpo, contrair de vísceras, dilatação da pupila, um palpitar mais acelerado no coração, miúdas gotas de suor na palma das mãos - breve susto na alma. &lt;br /&gt;De qualquer forma, sabia - de onde quer que viesse o aviso. Sabia tanto que, igual às outras vezes, colocou a mão sobre o telefone um pouco antes que tocasse. E antes ainda sequer de começar a esperar, porque eram cinco e quinze, ele estremeceu ao ouvir o toque, quase sorrindo para dentro, para si, porque de alguma forma era como se o toque fosse produzido apenas pela vibração de seus dedos suspensos sobre o aparelho. Tivesse o poder de, à distância, magnetizar a mão de outra pessoa, induzindo o dedo indicador naquela mão daquela outra pessoa a discar seus seis ou sete números para chamá-lo. Mas já não tinha poder algum, se é que tivera um dia. E achava que não, além desse de agora: manter as pontes pelo tempo necessário e impreciso. &lt;br /&gt;Só atendeu depois do telefone tocar três vezes. &lt;br /&gt;Luminosa e viva, a outra voz, cheia de cristais agudos. Pedrinhas moídas de gelo batendo nas bordas de vidro de um copo. Tão reluzentes que piscou os olhos sem querer, ofuscado. Olhava pela janela, a sombra na parede oposta. Precisava de tempo, nessa transição entre as trevas do interior da caverna e o campo eletrizado de luz. Zona de penumbra, embora soubesse, acostumando retinas viciadas, perguntou lento: &lt;br /&gt;- Quem está falando? - e repetiu duas, três vezes, até que a voz parasse de falar sobre qualquer coisa que ele não entendia direito, qualquer coisa daquelas lá de fora, inteligíveis somente para quem estava lá, no meio do vivo, sem começo nem fim, nem dirigida especialmente a ele, interferência numa linha cruzada. &lt;br /&gt;- Não está me reconhecendo? Sou sempre eu. &lt;br /&gt;Afastou um pouco o fone do ouvido - tão alta, a outra voz. Não que fosse desagradável, nem estridente demais. Ao contrário: fugindo assim pelos furinhos do fone, o som parecia espalhar-se por todos os cantos do quarto estreito. Batia nas paredes, eco refletido, derramada sobre todos os objetos, envolvendo-os em finos tecidos sonoros, dissolvia o mofo, coloria a sombra, ensolarada. Asa de cigarra, manhã de janeiro. O quarto escuro brilhou, esmaltado pela voz de ouro. Por favor, quis pedir, me leva daqui, preciso de ajuda antes que seja tarde demais. Mas não era permitido. Rígidos rituais solenes, escondidos atrás das fórmulas de cortesia, às cinco e quinze da tarde. E a dor feito buraco de traça disfarçado sob castiçais. Tornou a aproximar o fone do ouvido, com carinho e cuidado. &lt;br /&gt;- O que é que houve? Você não está bem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Estou - disse devagar. Impossível dizer “tenho medo” ou alguma coisa dessas - pessoal, assustadora. Levou a mão livre ao coração. Suspirou, entre duas batidas. - Não houve nada. Estou bem. &lt;br /&gt;- Tive a impressão que você não estava ouvindo. A voz de rio, água deslizando entre pedras lisas, clarinhas, alguma flor amarela, respingos na corola, repetiu, o tronco áspero que arranhava a garganta dele mesmo, pedindo passagem - e o fio do telefone ligando as duas vozes sobre a cidade, às cinco e quinze de cada tarde - preciso tempo. &lt;br /&gt;- O quê? &lt;br /&gt;- Tempo. Preciso sempre de um certo tempo, desde o momento em que você começa a falar até. &lt;br /&gt;A voz riu. Levemente cúmplice, quase terna, visitante habitual e complacente das escadarias dentro dele, poeiras, sótãos, teias de aranha visguentas dificultando o caminho, e de repente a queda brusca no meio de um corredor conhecido, embora ele não tivesse terminado de falar. &lt;br /&gt;- Até poder falar. Ë a minha voz. Fica assim como se eu não tivesse controle nenhum sobre ela. Eu me desacostumo de falar. Parece depois que vem de longe, que não é minha. Nunca aconteceu isso com você? &lt;br /&gt;- Sempre se pode cantar. Ou ler um livro em voz alta. Você não tem nenhum livro aí? &lt;br /&gt;- Você sabe que não - começou a dizer. Mas um ruído de avião ou automóvel do outro lado do fio interrompeu por um momento o som. Uma nuvem cobria o sol. Havia ruídos lá, e movimentos, trepidâncias, pulsações: podia senti-los a atravessar a linha, irrequietos, quase vivos, para saírem do fone, junto com a voz, retorcendo-se pelos cantos do quarto. Nenhum interesse além das grades da janela, das quais se afastariam com nojo. Esse nojo curioso, apiedado, por um bicho numa jaula. &lt;br /&gt;- Quero que você fique bom logo - a outra voz disse. E parecia verdade. Só de ouvi-la, tinha vontade de debruçar-se à janela para cumprimentar alguém que estendesse roupas lá embaixo, sem medo dos dentes arreganhados. Não havia varais. Do outro lado da janela, apenas o muro de cimento, alto como uma parede, a aridez do pátio coberto de lajes, sem plantas. E as grades, antes, para barrar previamente o salto que ainda não dera. (Do lado de lá, a moça sorriu mais com os olhos azuis atrás de óculos redondos do que com a boca pequena, lábios polpudos, bem desenhados. Como costumava sorrir. Esboçou no ar um movimento para ampará-la - vacilava tanto nos últimos tempos, desde que desaprendera a ficar em pé, ou desinteressara-se disso, concentrada na aprendizagem de outros equilíbrios mais delicados. Ela esquivou-se suave, mas firme, como a dizer que agora já não importava, qualquer ajuda e’ inútil depois da travessia decidida: te estreito, te estreito e me precipito.*) Quis repetir isso ao telefone, para avisar à voz, mansa chantagem. Só conseguiu dizer: &lt;br /&gt;- Obrigado. &lt;br /&gt;Por trás da palma da mão contra o peito, por trás do pano da camisa, entre massas de carne entremeadas de músculos, nervos, gorduras, veias, ossos, o coração batia disparado. Você vai me abandonar - repetiu sem som, a boca movendo-se muito perto do fone - e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no prato. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(*) Ana Cristina César: inéditos e dispersos&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hein? &lt;br /&gt;- Nada. Não disse nada. &lt;br /&gt;- Tive a impressão de ter ouvido você falar. Muito baixo. Pensei que fosse com eles. &lt;br /&gt;- Quem? &lt;br /&gt;- Você sabe. Como é que você os chama? &lt;br /&gt;- Ana, Carlos. Eles não estão aqui, agora. &lt;br /&gt;- Eles têm voltado? &lt;br /&gt;- Todas as noites. &lt;br /&gt;(Paciente, determinado, o rapaz esperava a festa acabar. Tão determinado que, se alguém o olhasse mais atento, certamente perceberia alguma forma mais precisa nos movimentos, agora sem hesitação nenhuma, talvez na voz mais dura, um brilho estranho nos olhos. As contas, afinal, estavam feitas: não restara saldo. Um por um, esperava que todos se fossem. Limparia cinzeiros, depois, na casa vazia, recolheria migalhas da festa pelos cantos da sala para jogá-las no lixo. Talvez espiasse a noite de verão, parado à porta, sozinho com sua escolha, e respirasse muito fundo, ainda uma vez, deixando o cheiro denso do mar entontecer um pouco mais a cabeça cansada de tantos cansaços de tantos anos. Tão miúdos que nem percebera o peso. Era pequenino e manso de movimento e fala, como se temesse de alguma forma perturbar o campo vibratório das outras pessoas. Olharia as coisas uma última vez, coisas comuns: sofá, cadeira, mesa. Talvez não: estaria completamente cego no momento de tirar uma por uma as peças de roupa. Teria os olhos voltados para o outro lado, como quem sobe uma colina e, quase no topo, já consegue divisar algumas formas, uma moita, cumes de formigueiros, umas roxuras de flores rasteiras espalhadas no caminho de descida. Lento, lento. A lenta nudez, depois os dedos preparando o nó. Então o gesto de enfiá-lo pela cabeça, feito uma coroa - a coroa de loros que não teve ou desistiu de esperar - um tanto ridícula, excessivamente larga, que a corda descesse arranhando leve a ponta do nariz, o queixo. Ajustaria delicadamente o laço no pescoço, preparando a gravata para a festa -seria uma festa? - do outro lado. Não diria nada, embora na noite, às vezes, quando vinha, revelasse certas palavras fragmentadas, incompletas, no código baço dos que se foram, que se perdiam para sempre no mundo dos sonhos esquecidos, enquanto ele tentava inutilmente recompô-las na manhã seguinte. Mas não, não diria nada. Não se diz mais uma palavra quando, de muitas formas nunca claras o suficiente para que os outros entendam, tudo já foi dito. Então um impulso com o corpo, como quem vai voar, suspenso na forca. Depois, os dias quentes demais, o vento do mar espalhando o cheiro de podridão, misturado ao próprio cheiro, uma forte maresia soprava seu fedor de morte e fuga entre as curvas das areias nas dunas da praia remota.) &lt;br /&gt;- Hein? &lt;br /&gt;- As árvores, eu disse. Os cinamomos, você sabe. Já começaram a soltar aquele cheiro adocicado? &lt;br /&gt;- Não reparei. &lt;br /&gt;- Repara, então. Repara por mim. Depois me conta. &lt;br /&gt;- Mas não se conta um cheiro. &lt;br /&gt;- Explica, então. Você explica? &lt;br /&gt;- Explico, conto. Mas livre-se deles. &lt;br /&gt;- Livrar-se, você me ensina o jeito? &lt;br /&gt;(Chegava com a noite, ela também, a moça loura e magra, cabelos finos como os de uma inglesa. A medida que o escuro se insinuava para dentro do quarto, o branco da roupa dela tornava-se mais nítido, quase fosforescente, sempre no canto esquerdo, rondando janelas. Nunca vinham juntos. E não sabia se o espantava mais a lentidão dele ou a pressa dela. Em qualquer dos dois, o ato já estava pronto. Executá-lo não seria mais do que colocar em prática marcações longamente ensaiadas na cabeça. Com ela, havia três momentos bem destacados, mas tão rápidos que poderiam parecer um só, se a cada noite ela não os repetisse, câmara lenta, um por um. Primeiro, a porta fechada. Em seguida, a gilete no pulso. Quando o sangue começava a escorrer, e percebia-se um fio longo esticando-se vermelho pela roupa branca - parecia uma menina assim, de relance, assustada com a primeira menstruação. Entre esse momento e o outro, havia aquele, muito pequeno, em que ela parava à janela, olhando fixo. E como nele, o outro que também vinha, não saberia nunca se contemplava as coisas pela última vez - os automóveis, o cimento das ruas com suas cintilações de calor, algumas poças de luz, miragens, as cabeças escuras das pessoas sobre roupas coloridas e pares de pernas embaixo delas, indo e vindo de lugares aos quais ela nunca mais iria - ou se voltava os olhos para o lado de lá de todas as coisas, onde talvez pudesse distinguir vagamente, difuso como um rosto atrás de vidraças em dia de chuva, um par de olhos conhecidos, algum sorriso. Não: nenhum sorriso. Lábios e olhos duros. O ato de colocar- se em pé no parapeito, um segundo antes sempre pareciam à beira do vôo. Te estreito - ela repetia -, te estreito e me precipito. Em seguida, o salto, a queda, barulho de ossos partidos, os gritos, a sirene e a correria das gentes pelas calçadas sujas de Copacabana.) Pediu: &lt;br /&gt;- Venha me ver qualquer dia.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;- Você sabe que é proibido. - De água, de sol, a voz parecia agora nublada por qualquer sombra como um cansaço. Pensou primeiro, e depois, mais duramente: uma impaciência, uma distância, uma fadiga de repetir sempre as mesmas coisas, às cinco e quinze da tarde. &lt;br /&gt;Prometeu: &lt;br /&gt;- Eu vou ficar bem. &lt;br /&gt;- Claro que vai. &lt;br /&gt;- Um dia eu volto. &lt;br /&gt;- Claro que volta. Venha ver os cinamomos. &lt;br /&gt;- Eu não tenho culpa. &lt;br /&gt;- Claro que não. &lt;br /&gt;- Eles estão ficando cada vez mais vagos. Como uma dessas neblinas na serra. Numa manhã de inverno, quando o sol começa a furar as nuvens. - Tinha começado a mentir, tão intensamente que talvez falasse a verdade. Quase conseguia vê-los, os corpos mais e mais esgarçados enquanto falava. - Estão ficando ralos, meio transparentes. As vozes cada vez mais fracas. Quase nem consigo entender o que dizem. Mal completam os movimentos, são como desenhos a tinta num papel molhado. Se apagando, mas tão lentos: não sei até quando resisto. &lt;br /&gt;- Até quando for preciso. Estarei aqui. &lt;br /&gt;- Talvez dependa de mim. &lt;br /&gt;- Tudo tem seu tempo. Há o tempo deles, também. Eu sou a ponte para você, você é a ponte para eles. &lt;br /&gt;- Tenho medo que você falhe. Porque, se você falhar, eu falho também. E eu não posso. &lt;br /&gt;- Eu não vou falhar. Não porque não posso, mas porque não quero. &lt;br /&gt;- É como um pacto? &lt;br /&gt;- Se você quiser. &lt;br /&gt;Precisava acreditar na outra voz: era só o que tinha. Mas não conseguia impedir-se de ver alguém lá de fora puxando-a apressado pelo braço - bares, cinemas, encontros, esquinas - para mergulharem juntos naquela vertigem de caras vivas, palavras dispersas, talvez meio vadias, mas sempre envolventes, sorrateiras, a afastá-lo - a ele, a ela, à outra voz - cada vez mais de si mesmo. Um dia seria para sempre: e eu só tenho esse centro talvez escuro de mim, onde me agarro. Nesse outro dia, não haveria nada ao redor, exceto as grades. Quis alertá-lo para a necessidade de resistirem juntos nessa ponte frágil. Até um dia qualquer de sol, se você me esperar lá fora. &lt;br /&gt;De repente, agora, como antes, pressentindo o toque do telefone, alguma coisa começava a contorcer-se por dentro dele, no aviso da partida. Quis retê-la ainda, à outra voz, com alguma história. Os chineses, lembrou, os chineses mentiam aos gritos sobre a qualidade da colheita, para enganar e afugentar os deuses maus. Mas nunca achava que tivesse o direito de atraí-la, à outra voz, para o escuro onde estava. Percebeu mais claro que se afastava quando tentou recompor o rosto a quem pertencia a outra voz, sem conseguir. Debatia-se no lago, afundando cada vez que tentava voltar à tona. O rosto aproximava-se e afastava-se, cortado pelo movimento sinuoso dos peixes que faziam seus contornos oscilarem junto com as ondas, por um momento feito de água também. Guiava-se pela voz, um cego. Quis gritar por socorro, mas a água entrava-lhe boca adentro. Engolia as palavras proibidas, com gosto de algas secas. &lt;br /&gt;Antes que desligasse, a outra voz teve tempo de dizer: &lt;br /&gt;- Amanhã eu volto a ligar. &lt;br /&gt;Passou os dedos devagar sobre o telefone mudo. Estava frio. Já não havia sonoridades vivas fugindo pelos furinhos do fone para aquecer e colorir o quarto. Todo o resto ia-se embora com a outra voz, o mundo inteiro que habitava dentro dele. Esse era o momento mais difícil: entre o abandono da voz e a espera deles. Ana, Carlos. Era breve. Anoitecia cedo naqueles dias de começo de inverno. Podia ver o escuro espalhando-se lento na parede oposta à janela aberta, tão lenta- mente que talvez pudesse, as mãos nas grades, espantá-lo com um grito. &lt;br /&gt;Mas sabia que o escuro, ao contrário dos deuses chineses, não tem medo de gritos. Nem se deixa enganar. &lt;br /&gt;Ao invés de deixar as costas escorregarem pela parede, igual a todos os dias, até sentar-se ao chão, os braços em torno dos joelhos, para depois balançar-se suavemente, muitas vezes, preferiu caminhar até a janela. Um sino tocou longe, quase às seis da tarde. Cerrou os dentes, voltou-se para dentro, disposto a enfrentá-los quando viessem novamente, trazidos pela noite. Fechou os olhos. Enquanto esperava, contra o fundo infinito das pálpebras, com muito esforço, entre formas e fantasmas, conseguiu divisar, cada vez mais nítido, qualquer coisa como os dedos abertos de uma mão estendida em direção a ele. &lt;br /&gt;Não me abandone, pediu para dentro, para o fundo, para longe, para cima, para fora, para todas as direções. E curvou a cabeça como quem reza. Para que a mão pudesse tocá-lo, inaugurando finalmente a luz. Mesmo dentro do escuro, alguma espécie de luz. Talvez como aquela que habitava a outra voz, tão viva e cada vez mais remota. Todos os dias, por volta das cinco e quinze da tarde. Porque queria - e queria porque queria - a luz da outra voz, não a escuridão deles: escolheu. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-7634219104027870896?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/7634219104027870896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=7634219104027870896&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7634219104027870896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7634219104027870896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/09/outra-voz.html' title='A OUTRA VOZ'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3978836276754225283</id><published>2011-09-27T11:06:00.000-03:00</published><updated>2011-09-27T11:06:03.728-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>SAUDADES DE AUDREY HEPBURN</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(NOVA HISTÓRIA EMBAÇADA)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Como Billie Holiday &lt;br /&gt;I’m alone in the desolate dark” &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(Ricardo Redisch: Quem Se Debate É Afo-gado) &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;PERDEU-SE dele logo após encontrá-lo, numa véspera de São João. Não sabia que ia perdê-lo, não sabia sequer que iria encontrá-lo. Não sabia também da véspera - junho, São João. Mas foi assim que aconteceu. Não estava um pouco bêbado, nem tinha fumado ou cheirado absolutamente nada - o que talvez justificasse, tantas negações, encontrá-lo assim, de repente e também perdido entre a Pantera Loura Disposta a Tudo Por um Status Mais Elevado, a Lésbica Publicamente Assumida e o Patriarca Meio Sórdido Fugido Das Páginas De Satyricon. Perdidos, perderam-se, perdeu-se - e foi pelos viadutos que se perdeu. Um livro nas mãos, debatendo-se para não ser afogado, indeciso entre voltar e seguir em frente, porque havia fogueiras pela noite, embora ainda não soubesse delas. Consultando efemérides mais tarde, descobriria que a Lua, às vésperas do minguante, transitava por Peixes - o que explicaria, mas só em parte, nubladas espiritualidades, presságios ilusórios, embaçamentos. Ilusão, Netuno. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era quarta-feira, usava uma guia de Xangô, vermelha e branca. A mesma que tempos depois arrebentaria num estalo inesperado, ao tirar a última peça de roupa para deitar-se ao lado de um outro qualquer. Sem medo da morte, porque esta quase história pertence àquele tempo em que amor não matava. Sabia do clima de bolero desse Um Outro Qualquer, mas foi assim que foi. Nu, apoiado no cotovelo, o Outro Qualquer esperou sem entender, citando Marx e falando em baixo- espiritismo, até que ele juntasse uma a uma as contas vermelhas e brancas espalhadas pelo chão para colocá-las sobre a mesa, repetindo um dia eu jogo no mar, na água corrente da chuva. Estavam no meio do campo, a lenha da fogueira crepitando como num romance inglês já tinha queimado toda e precisavam esquentar os corpos com línguas e dedos para fingir que matavam a sede, o frio e o engano. &lt;br /&gt;O indicador de unha suja de tinta de máquina de escrever percorre os trinta dias do mês de junho no Almanaque do Pensamento, procurando assim: 20, Sábado - Ciríaco, Florentina; 21, Domingo - Luiz Gonzaga, Márcia; 22, Segunda - Tomás, Joana; 23, Terça - José, Agripina; 24, Quarta - São João Batista, Faustino. Pelo viaduto, lembrou do assalto, um ano atrás, navalha sevilhana - clac, a grana, cara. Talvez por isso ele agora se interrompe para ir até o banheiro, onde olha a cara no espelho sem ver precisamente nada, fora os dois vincos cada vez mais fundos ao lado da boca, marcas de Ogum, então lava devagar as mãos com sabonete alma-de-flores, passa água de alfazema, respira, esperando que o telefone toque para salvá-lo pelo menos momentaneamente desse momento que não decifra nem adjetiva. O telefone não toca e, sem garantias, ele continua a lembrar. Tão perigoso, mesmo passado. &lt;br /&gt;Um halo luminoso, mentiria se dissesse agora qualquer coisa do tipo, a tentação é forte: havia como um halo luminoso sobre o viaduto onde, perdido, caminhava sem poder escolher o lugar para onde ia. Porque os viadutos, você sabe, conduzem a um só lugar, independente de você querer ou não ir para lá. Faz algum tempo, não lembrava de halos nem de luzes. Lembra realmente só que voltou atrás, em busca de um café, um bar, um cigarro, talvez um conhaque para ajudar a compreender o que acontecia. Mas nada acontecia. Só restava tomar um táxi, dar o endereço, um livro nas mãos, comentar o tempo, a crise, espiar putas, michês, travestis pelas esquinas, vontade bandida que mal se esboça, depois a avenida reta, com luminoso de coca-cola, melita e galaxy, dobrar à esquerda, dobrar à direita, always in front of: reclamar, pagar, descer. &lt;br /&gt;(Anotaria mais tarde, na mesma noite, antes de dormir, talvez enganado, e totalmente óbvio: a vida é dinâmica.) &lt;br /&gt;Foi então que viu a fogueira de véspera de São João. Ao lado da fogueira, dois rapazes acendiam um enorme balão vermelho e branco. De Xangô, reconheceu. No carrinho de pipocas, o homem do realejo tocava uma musiquinha de caixinha de música. Mas não havia papagaio nem macaco com caneco na mão nem periquito tirando sortes - encontrarás-teu-amor-numa-tarde-de-domingo-do-signo-de-Libra. Deve ter piscado, porque além de dinâmica, folclórica e levemente frenética, naquele momento a vida lhe pareceu também excessivamente colorida, com tanta gente se mexendo e dizendo coisas como que bom que você pintou o astral tá ótimo bebe alguma coisa, cara. Beijou a Psicanalista Conflituada Com o elitismo da própria profissão, mas só apertou a mão, sem mais envolvimentos, do estudante de Pós-Graduação indeciso em assumir sua evidente homossexualidade, trocou duas ou três palavras, bastante amáveis, com o escritor que conseguiu mais sucesso na Itália que no Brasil. Depois ficou por ali, aceitando tudo que passasse nas bandejas opíparas - pinhões, quentões, curaus, pamonhas. Tudo de junino que você puder imaginar, haja. &lt;br /&gt;Agora ele esvazia lento o cinzeiro no cestinho indígena, enquanto observa a expressão da mulher frente ao cálice de absinto na reprodução ordinária de Degas, e pensa que pensa ou deveria pensar ou é como se pensasse qualquer coisa assim: porque é desse jeito mesmo que as pessoas se comportam quando não decifram nos olhos do outro nenhuma promessa ou convite. Melhor: como nada no olho ou no gesto ou no campo vibratório dele denunciasse/revelasse que estava à procura de alguém para dividir a cama nas próximas horas da noite quase fria, portanto propícia a esses lances, era automaticamente deixado em paz. Pior: de lado. Deixado de lado, junto à fogueira, um livro que leria depois, para encontrar versos como uma conversa que esquenta até os ossos sem dizer precisamente nada,* não agora, enquanto ele era pouco mais que uma câmera registrando silenciosa, impessoal, todos aqueles urbanos excessos juninos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FLASH-BACK:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Escreviam nomes em pedacinhos de papel umedecido, que colavam nas bordas da bacia de ágata. Então um barquinho de papel acabava por aportar lentamente num dos nomes: Naira, Roselene, Juçara, Ilone, Dulcinha, Valéria, Marília, Vera. Naquele tempo, já sabia? Paulo Antonio tinha uma sobrancelha fora de linha, invadindo a testa em direção ao cabelo. Nelson falava chiado, sardas, bunda arrebitada. Pingaria vinte e um pingos de vela acesa na água da bacia, até formar-se uma letra, a inicial: M, de Marcos ou Maria; C, de Clara ou Celso; R, de Ricardo ou Regina. Pularia a fogueira num pé só, pisasse nas brasas mijaria na cama. Meia- noite em ponto, debruçaria n poço, uma vela acesa na mão, para ver o futuro. Caixão de defunto: morte certa. Vestido de noiva: casamento breve. Uma rosa: amor novinho. À meia- noite, olhou. Não viu nada. Só o fundo escuro do poço com reflexos vadios, estrelas, fogueiras, o pulo de alguns sapos, tchuáááááá, círculos concêntricos, cheiro de limo. Era assim, o futuro. Depois estradas, bandeiras, prisões, exílios, porradas, viadutos, portas fechadas, revelações, divãs, pântanos, arco-íris. Tantos, muitas - e ninguém. A arraia pariu sete filhinhos com ferrõezinhos aguçados prontos para ferrar na hora que o anzol a arrancou do fundo do rio Uruguai para &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(*) Ricardo Redisch: quem se ddebate é afogado. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;jogá-la no fundo da chalana. Manchar os panos em degradée de laranja, então prendê-lo nas oito madeirinhas claras, com pregos miúdos e linha amarela. Do Flipperama ao lado do Jeca à esquina da Praça da República: mil possibilidades, todas furtivas. Agora, talvez mortais. Jogarei seis vezes as moedas do I Ching para encontrar Fogo sobre Fogo, o Esplendor. Tudo confirmará. Mas nada acontecerá. Ah: conheço essas rimas em á. E depois delas, passaram-se anos. Aqueles, em que se perderam, sem terem chegado a se encontrar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apertou o livro entre dedos subitamente frios, depois colocou-o no colo para ajoelhar-se e estender as mãos em direção ao fogo. Eu parado na porta às quatro da manhã. Você indo embora. Eu me perdendo então desamparado entre cinzeiros cheios e garrafas vazias. Você indo embora. Eu indeciso entre beber um pouco mais ou procurar uma beata em plena devastação ou lavar copos bater sofás guardar discos mastigar algum verso adoçando o inevitável amargo despertar para depois deitar partir morrer dormir sonhar quem sabe. Você indo embora. Acordar na manhã seguinte com gosto de corrimão de escada na boca: mais frustração que ressaca, desgosto generalizado que aspirina alguma cura. Tocaria, o telefone? Você indo embora, fotograma repetido. Na montagem, intercalar. Você indo embora você indo embora. &lt;br /&gt;Crepitava, a lenha cre-pi-ta-va como num romance inglês. Um halo luminoso. Na fogueira, quem sabe dentro dela, memórias manchadas de adrenalina, que tudo vinha num excesso de cafés e agostos. Já que não tentaria o suicídio pela quinta vez - nem sequer con-se-cu-ti-va, enumerou -, já que fora dispensado após tantos anos de análise, já que a crise permanente parecia ser a forma mais estável de sobreviver, já que ninguém lembrara de assassiná-lo nem pedi-lo em casamento, já que podia olhar em volta e em menos de um minuto escolher alguém para conversar dizendo coisas como você anda sumido(a), e aí, conta mais, diga lá, toma outra - em nome disso, prosseguia, embora sem saco. &lt;br /&gt;Ai São João, Xangô menino/ na fogueira de São João/quero ser sempre o menino, Xangô/ na fogueira e na razão*&amp;nbsp; - cantarolou em silêncio. E o balão foi subindo, sem garoa caindo, vermelho e branco, enquanto todos aplaudiam com caras de loucos fatigados da própria loucura iluminada pelas chamas da fogueira. Aplaudiu também, axé! Foi então que a moça ao lado falou que precisava ir embora, dois filmes na tevê com Audrey Hepburn. (Flash-back: Nara Claudina dizia Puber, Carlos Renato corrigia: Ré-p-bãrnnn. Numa tarde tão verde de Aquário, quantos anos antes de enforcar-se no banheiro? Certamente muitos, pois se naquele tempo, naquela tarde, até os vestidos, além de plissados, tinham bolinhas e alcinhas.) Maxilares agudos, Audrey, olhos enormes, constantemente arregalados, uma gazela de pescoço longo, pés muito finos e compridos, delicadamente calçados em sapatinhos Chanel, e tailleur, sempre tailleur bege-clarinho, verde- água, mãos de dedos sem fim, unhas sem pintura. Anastásia, a princesa esquecida. Nas matinês do cinema Imperial. &lt;br /&gt;Belga, afirmou, tenho certeza: era belga. Bélgica, capital Bruxelas, onde fomos presos - e tão louco agora qualquer coisa lembrar outra coisa, cada vez mais, enquanto o tempo avança - por nossos cabelos compridos, nossas roupas coloridas, uma cidade de ternos cinzentos e sapatos pretos bico fino de verniz, sem lugar para a nossa loucura. Tudo faz muito tempo: agora você me manda cartões do interior da Noruega enquanto enfrento cotidianos demônios tropicais com sal grosso, guias, axés, varinhas de incenso, alecrim, arruda, manjericão, rosas de Oxum: ora-yê-yê-ô! Estou certo de que não foi lá, mas na Holanda, que atravessamos a pé entre tulipas tão reluzentes que pareciam sintéticas. E - céus! - talvez o fossem. Havia uma ponte, depois um trem atrasado, também um sol de agosto sobre nossas cabeças. Não haveria espaço para Audrey lá, entre tantas torres, tantas praças, tantas pontes, eu vi. Mas se te torturas tanto a cada manhã, desligando sem sentir o despertador para que não te jogue brusca&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;(*) Caetano Veloso e Gilberto Gil: São João, Xangô menino&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;mente no centro de um mais um dia a ser preenchido unicamente pelo que conseguires inventar, por que não participar então de um curso qualquer de inverno? Algo como “Mandalas Alquímicos e a Arquitetura das Catedrais Góticas”, “Prefixos Sânscritos na Obra de Guimarães Rosa”, ou ainda “Premonições Pós-Modernas no Cinema de J. B. Tanko”. Ah descer a rua Augusta a cento e vinte por hora, altas botas, argola de calipso no convés da caravela, jaqueta de couro negro, madrugadas, temporais nas descargas abertas das motocicletas. Ninguém ouvirá o ruído seco de teus saltos batendo no cimento das calçadas sujas. E nem sequer é Gervaise, a Flor do Lodo, inculta e bela... &lt;br /&gt;Quando a moça levantou para ir embora, ele finalmente tomou coragem, bebeu outro gole de quentão e perguntou: &lt;br /&gt;- Você sabe o que realmente aconteceu quando a rainha da Transilvânia tomou de leve o queixo dela na mão cheia de anéis e disse: “Charming, very charming”? &lt;br /&gt;Modesta, a moça baixou os olhos. &lt;br /&gt;- Foi isso mesmo o que Audrey fez - esclareceu. &lt;br /&gt;E foi embora antes dela: no sex, baby. Caído na esquina, o balão incendiava lento. Amanhã, dois meses atrás ou doze, dependendo do ponto de vista, conferiu: exatamente vinte e cinco, quinta-feira, dia de Oxóssi, Guilherme e Lucia. &lt;br /&gt;Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida - reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sai, não do mel.&lt;br /&gt;Não havia ânforas, não havia néctar. Desilusão ainda mais cruel, embora provisória, no tempo de sal: não havia deusas. Mas depois de cravar fundo na própria superfície escura a ponta da agulha de diamantes, para libertar o Longo Solo Gemido de Sax, enfim, sempre podia ir até a cozinha e, distraído que não choraria sequer uma lágrima pela noite – e que bonita foi aquela noite - em que se encontraram e se perderam para sempre, repetir, e ninguém compreenderia, eu avisei, repetir num suspiro molhado de lembranças em que ninguém dá jeito: ah quantas, mas quantas, muitas, tantas Para saudades daquela moça magra chamada Audrey Hepburn.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3978836276754225283?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3978836276754225283/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3978836276754225283&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3978836276754225283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3978836276754225283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2011/09/saudades-de-audrey-hepburn.html' title='SAUDADES DE AUDREY HEPBURN'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5580647248235955759</id><published>2008-08-26T15:12:00.000-03:00</published><updated>2008-08-26T15:16:50.814-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>MARINHEIRO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Para&lt;br /&gt;Rubens Rodrigues Tôrres Filho e o Marinheiro real, onde quer que navegue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Ele consola... Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir o dia... Ele brilha como ouro, numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se cobrem... Se nada existisse, minhas irmãs?... Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?&lt;br /&gt;Fernando Pessoa: O marinheiro&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;1&lt;br /&gt;Me veio numa tarde de sábado. Não de agosto, como os antigos, embora comigo mesmo costumasse repetir que os agostos haviam invadido setembro, avançado sobre outubro até descobrir o novembro que ia em meio. Me veio numa tarde de sábado, em novembro. Em comum com os agostos de antes, a chuva. E bateu à porta, essa mesma que pintei inteira de amarelo para dar uma ilusão de luz às sombras desta casa. Tenho que ser preciso, tenho que refazer, e para isso preciso contar o que fazia antes.&lt;br /&gt;Eu pintava os vidros das janelas com arabescos coloridos das tintas que saio às vezes para comprar. A casa é um pequeno sobrado com poucas vidraças, numa ruazinha toda feita de sobrados pequenos apertados entre outros sobrados pequenos, portanto, não há muitas vidraças, já que os dois lados estão inteiramente comprimidos entre duas outras casas. As vidraças da frente, na parte de baixo apenas uma janela e uma porta, dessas com um retângulo vertical de vidro, para que se possa ver o rosto de quem chega, antes de abri-la, estavam completamente pintadas. São formas quase sempre abstratas, uns círculos, uns triângulos, só de vez em quando intercaladas por outras mais precisas, um olho aberto, um peixe, uma estrela, em tons principalmente de roxo e amarelo.&lt;br /&gt;Gosto de permanecer ali na sala em raros dias iluminados, sobretudo ao cair da tarde, quando os últimos raios de sol varam os vidros para espalhar cores sobre os objetos. São muitos objetos, tantos que freqüentemente penso que daqui a algum tempo será difícil movimentar-me aqui dentro, no espaço que se reduz, quase todos feitos por mim mesmo. Como já disse, pouco saio, uma certa renda sobre alguns imóveis deixados por meus pais me permite passar aqui dias inteiros, fazendo coisas com as mãos. Descobri faz algum tempo que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas. Ocupo-as então, fazendo coisas que depois disponho pelos cantos.&lt;br /&gt;Há longas tiras de pano colorido ou papel crepom penduradas do teto, pelas portas pendem cortinas, longos fios de contas ou sementes enfiadas em cordões que balançam emitindo sons nas poucas vezes em que abro as janelas para que entre o vento, restos de manequins, braços e pernas e troncos e cabeças que costumo recolher nas latas de lixo quando saio a caminhar, nas horas em que não há mais ninguém nas ruas, e cacos de louça, garrafas cheias de água de muitas cores, pedaços de caixotes que também pinto para que não pareçam demasiado crus, e ainda recortes de figuras ou velhas fotografias que vou colando pelas paredes, montes de palha, fitas, flores secas, sobretudo rosas, sobretudo vermelhas, cujas pétalas depois de mortas ganham uma tonalidade de sangue coagulado. Isso me pacifica.&lt;br /&gt;Naquela tarde, porque chovia e não havia luz suficiente para que eu pudesse permanecer na sala, vendo as cores dos vidros desdobradas em outras sobre os objetos, tinha caminhado pela casa toda procurando algo para fazer. Cheguei a pensar em pintar as vidraças na porta do andar inferior, a que dá para o pátio interno, mas só depois de preparadas as tintas, as águas, os pincéis, percebi que não gostaria de permanecer ali sentado, vendo as poucas plantas incharem com a água da chuva, o caminho de pedras que leva até o tanque cobrindo-se de folhas caídas.&lt;br /&gt;Foi então que subi para o quarto da frente, no andar superior, decidido a pintar os vidros que dão para a rua. Ë uma dessas janelas em forma de guilhotina, dividida em duas partes, cada uma delas com dois vidros retangulares, separados por uma tira estreita de madeira. Fiquei indeciso entre qual das quatro partes pintar primeiro, e acho que começava a escolher o segundo vidro, a contar de baixo para cima, pois é justamente o que dá para a casa em frente, e mais de uma vez surpreendi os vizinhos olhando aqui para dentro, as luzes apagadas, esperando descobrir qualquer coisa na minha vida que eles não compreendem.&lt;br /&gt;Não sei quem são os vizinhos. Vejo alguns rapazes, algumas moças, mas tantos e sempre tão diferentes — na verdade não sei se diferentes ou os mesmos, apenas não presto muita atenção neles cada vez que os vejo, porque não me interessam. Como supunha que eu também não interessaria a eles. As cidades grandes como esta têm dessas coisas — você não precisa simular interesse algum pelas pessoas em volta, elas não exigem mais que um bom-dia, boa-tarde, boa-noite, às vezes nem isso, silêncio nas horas em que se costuma fazer silêncio, ruído nas horas em que usualmente se faz ruído. Não faço ruídos nem mesmo nessas horas: eliminei máquinas, televisões, rádios, embora goste de música. Mas quando quero ouvi-la, canto para mim mesmo quase sem voz um som irregular, cheio de altos e baixos, que vem do fundo da garganta, sem palavras. Talvez seja essa ausência de ruídos que os interessa, os vizinhos, ou quem sabe os intriga a muralha de vidros coloridos interposta entre o de-dentro de minha casa e o de-fora dela, não sei. Rindo um pouco comigo mesmo, porque a pintura do segundo vidro na janela do quarto dificultaria ainda mais a observação da minha vida, eu me preparava para começar o trabalho quando alguma coisa no segundo quarto me chamou.&lt;br /&gt;Não sei mais há quanto tempo mantenho vazio o segundo quarto. Desde que se foi, não o que chegou na tarde de sábado, mas um outro que viveu ali faz algum tempo. Também não sei quando. Para isso teria que saber também a minha própria idade, mas não posso sabê-la desde que rasguei todos os documentos e começaram esses estranhos buracos na memória, ocultando lembranças importantes para deixar emergir outras ao acaso, como cenas isoladas, sem importância alguma, mas de extraordinária nitidez. Uma delas, que me enche de pânico cada vez que volta, sem que eu tenha controle algum sobre o seu aparecer ou desaparecer, é a imagem de uma mão humana segurando fortemente o ponto central entre duas asas brancas, tão brancas e grandes que imagino pertencerem a um cisne, uma garça ou outra dessas aves de pernas compridas que vivem nos banhados. As grandes asas brancas sem mancha alguma debatem-se com fúria e impotência enquanto essa mão as prende firmemente. Não chego a ver inteiramente os dedos, mergulhados nas penas. Vejo somente as falanges, depois as costas de uma mão grande, morena, forte, cheia de veias azuis estufadas de sangue pelo esforço. Talvez seja uma mão masculina, pois as bordas externas estão cobertas por uma vaga penugem escura, mas sempre penso que poderia também pertencer a uma dessas mulheres rudes do campo, não sei. Quase consigo ouvir os gritos da ave. Quando a lembrança é mais demorada, algumas penas voam em todas as direções. Tão nítidas que, se eu abrisse os olhos, imagino que poderia vê-las, as penas caindo pelos cantos, sobre meu corpo, sobre os objetos. Mas nunca abro.&lt;br /&gt;De alguma forma essa cena costumava retornar com mais freqüência quando me olhava ao espelho, e foi talvez um pouco por isso que resolvi eliminá-los de casa. Sem querer vejo às vezes minha própria imagem refletida em alguma das vidraças ou no fundo de um copo, mas desvio logo os olhos. Mesmo assim posso perceber uma sombra difusa, parece cinza e longa. De certa forma, então, o que poderia dizer de mais exato se quisesse descrever a mim mesmo, seria algo assim: sou cinza e longo. Ou: é cinza e longo o que de mim obliquamente se reflete em certos vidros.&lt;br /&gt;Mas falava no segundo quarto. Tentando agora recompor tudo que se passou antes da chegada dele naquele sábado de novembro, me ocorre que talvez tenha sido um rumor leve como o debater de asas que me levou até lá. Abandonei as tintas e caminhei em direção à porta. Desde que se foi, o outro, nunca mais consegui ultrapassar esse limite. Da porta que não ultrapasso posso ver as rachaduras nas quatro paredes, o piso riscado, a janela de vidraças sem pintura voltada para o pátio. Quase sempre vou me curvando lentamente para o chão enquanto tento virar do avesso um desses buracos na memória. E procuro, então, em vez do escuro, trazer de volta certa claridade e dentro dela a face, o jeito, quem sabe mesmo a voz ou o cheiro que o outro teve quando ocupou o segundo quarto e de certa forma também um determinado espaço nisso que, talvez impreciso, costumo chamar de a minha vida. Nunca consigo. Quando toco depois no meu próprio rosto e, no limite dos dedos, percebo sulcos fundos ou bruscas protuberâncias na superfície da pele, pergunto se não teriam nascido ou pelo menos começado a afundar depois daquela partida. Parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas- separações, as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim o rosto dos que ficam. E do buraco negro da memória que ocupa agora o espaço anteriormente ocupado por essa pessoa — sim, era uma pessoa que não lembro —, em vez de faces, jeitos, vozes, nomes, cheiros, formas, chegam-me somente emoções con fusa ou palavras como estas — doloroso, amargo, irreparável.&lt;br /&gt;Eu estava então ali parado na porta aberta do quarto vazio, cheio de rachaduras nas paredes, piso riscado, vidros nus, já a me curvar em direção ao assoalho para tentar lembrar quando de repente tive certeza de que esse outro me abandonara no que eu poderia chamar de: a metade de minha vida. Portanto a idade que tenho agora, ou que tinha naquele sábado, deveria ser exatamente o dobro a idade contada a partir daquela perda. E de alguma forma, por ser justamente naquele sábado de chuva, em novembro, na tarde, essa perda — ou partida, ou ausência, ou separação, ou como queiram chamá-la — atingia seu justo dobro. Alguma coisa tinha sido inteiramente paga, como um ciclo se fecha, um trânsito ou uma lunação acabam, dando origem a outra que será completa até o seu reinício. Eu poderia pensar que a partir de então conseguiria entrar naquele quarto, vedar as rachaduras das paredes, pintar meticulosamente os vidros, enchê-lo de trapos e papéis e palha e cascas e flores secas, como as outras peças da casa, acabando com o seu deserto. Me ocorre, essa é outra coisa que poderia dizer de mim mesmo, quisesse ser preciso — além de cinza e longo —, tenho um quarto vazio por dentro. Pensando nisso, poderia quem sabe me sentir mais inteiro, como se à medida que fosse me apropriando de cada peça da casa, uma por uma, como quem finca uma bandeira em território novo, me tornasse também dono de novos territórios de mim mesmo. Mas não sei se saberia o que fazer com essa inteireza, possivelmente não me sentiria mais feliz com isso. Então para quê? fui pensando ali parado, sem querer admitir que por trás desses pensamentos escorria um outro, uma cobra silenciosa entre juncos de beira de rio, em mais uma das imagens que a memória costuma devolver inesperada. Sobre a grama verde-claro, úmida, entre juncos na beira do rio, desliza uma cobra que quase não consigo ver, tão misturada está a cor de sua pele à cor da grama e dos juncos. Não vejo também sua cabeça, nem a cauda. Somente a metade escorregadia, lentíssima, amassando suave a grama, contornando viscosa as hastes esguias dos juncos.&lt;br /&gt;Enquanto meu corpo se curvava em direção ao piso, temi que voltassem as asas, a cobra. Mas chovia tanto que o ruído dos pingos abafaria por completo não só aquele quieto rastejar como também o debater violento das asas brancas. No entanto, o que vinha à tona, mais sinuoso que o movimento da cobra, mais branco que as asas, era um pensamento tão disparatado que eu não tinha coragem de dar-lhe forma.&lt;br /&gt;Eu não queria mais ter esperanças, essa coisa gentil. Isso que chamo de minha vida, ou o que restava dela, e não deveria ser muito porque o passeio dos dedos pelo rosto revela sulcos cada vez mais fundos, estava creio que deliberadamente reduzido àquele subir e descer escadas, mexer nas tintas, recortar papéis, pintar vidraças, enfiar contas, caminhar às vezes pelas ruas esvaziadas de gentes tarde da noite. Eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre tanto quanto pode ser para sempre o que por estar vivo tem um coração que bate mas, imprevisto e fatal, um dia deixará de bater. Por não querer mais depositar esperanças em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria, estava certo, além dessas imagens assustadoras da memória, curvei-me até o chão, uma das mãos na cabeça, como se segurasse o ponto de encontro entre duas asas, a outra procurando o assoalho, como se mergulhasse numa touceira espessa de juncos, até encontrar a grama molhada de beira de rio, tocando a pele fria daquela cobra.&lt;br /&gt;Foi principalmente para não gritar — acabo sempre fazendo coisas para não gritar, como contar esta história —, já que o grito faria ruído e o ruído abalaria os vizinhos, esses mesmos que entram e saem, e com isso, se soubessem de mim que sou cinza e longo, e possivelmente sabem, pois deve ser justamente essa a silhueta que vêem através das vidraças, que tenho um quarto vazio, isso não descobririam, desde que jamais entrarão em minha casa, saberiam também que dou gritos em horas inesperadas. Para que ninguém soubesse mais nada de mim, deixei que ganhasse forma e viesse lentamente à tona aquele pensamento. Que não era exatamente um pensamento, mas algo mais fundo, como uma anunciação, um pressentimento. Alguma coisa muito dentro de mim dizia algo informe, sem palavras, que poderia talvez ser expresso como — o outro voltará.&lt;br /&gt;Paro um pouco, agora. Fiquei exausto tentando dizer sem conseguir. Não sei se me estendo demasiado assim, mas é desse jeito que tudo surge, com enorme esforço para brotar, e brotando turvo, emaranhado, confuso. Contar é desemaranhar aos poucos, como quem retira um feto de entre vísceras e placentas, lavando-o depois do sangue, das secreções, para que se torne preciso, definido, inconfundível como uma pequena pessoa. O que conto agora é uma pequena pessoa, tentando nascer.&lt;br /&gt;Talvez num novo outro, o outro antigo voltará. Foi assim que me veio — cobra, ave — na tarde de novembro. Mas em vez dessas imagens ou de outras, que também vêm às vezes, o que chegou junto com as palavras claras como se ditadas por alguém visível, tangível, solto dentro de casa, foi um cheiro a princípio sem nome. Um cheiro grosso, nem bom nem mau, um cheiro vivo de coisa em constante movimento, um cheiro vivo de coisa grande viva cheia de miúdas infinidades de outras coisas também vivas dentro dela. Custei a reconhecê-lo, há muito tempo não o vejo, e é mais difícil talvez identificar um cheiro ou um gosto de algo distante do que uma imagem. Não havia imagem. Era como o vento. Ardia na pele, feito tivesse sal. Tinha sal, esse vento que não era vento.&lt;br /&gt;Era um cheiro de mar, reconheci por fim.&lt;br /&gt;Talvez num novo outro, o outro antigo voltará. Junto com as palavras claras vinha um cheiro vivo de mar. Parado ali no chão, eu sentia que dentro de mim alguma coisa nova estava nascendo. Ou pressagiava o que viria também de fora e seria completo, pois são completas as coisas quando acontecem depois de anunciadas por dentro, criando um estado capaz de receber o que virá de fora. Como um telegrama, um telefonema, um aviso qualquer previamente anunciando a chegada, para que se possa arrumar a casa, tirar a poeira dos cantos, preparar a cama, trocar lençóis, limpar pratos, poltronas, recebendo o hóspede ao mesmo tempo desejado e inevitável.&lt;br /&gt;Começava a anoitecer quando levantei do chão e voltei ao meu quarto. Em cima da cama estavam as tintas com que começaria a pintar os vidros. O cheiro de mar era tão intenso que pensei em abrir a janela para que o ar circulasse melhor, afastando-o dali. Com aquele cheiro suspenso, a casa parecia uma ilha, um navio seminaufragado, um farol. Foi quando levei as mãos à parte de baixo da guilhotina para erguê-la, que eu o vi dobrando a esquina para aproximar-se da casa. Continuava chovendo sem parar, a luz do crepúsculo por trás das gotas de chuva tornava ainda mais vagos os contornos dos objetos. Mesmo assim tive certeza.&lt;br /&gt;As mãos nos bolsos, vestido de branco, o marinheiro dobrava lentamente a esquina da rua, como se não se importasse com a chuva.&lt;br /&gt;Na casa em frente havia música e movimento. Por um momento então quis me enganar imaginando que ele bateria naquela porta, não na minha. Porque eu não conhecia nenhum marinheiro, porque eu não recebia visitas, porque há muito tempo havia afastado disso que chamo a minha vida toda e qualquer pessoa que pudesse bater à porta numa tarde de sábado assim inesperada, porque nesta cidade sequer existe mar, porque afinal o resto do caminho não só estava traçado como era inabalável. Entre aqueles trapos, aquelas contas, aquelas cores, sem nunca ver de perto um outro rosto humano, a não ser numa cruzada ocasional tarde da noite, pelas ruas, com algum desconhecido sem importância, sem encarar de frente sequer meu próprio rosto, a tal ponto me desgostavam o humano de mim e dos outros, próximos ou distantes, e de todos. Dentro do marinheiro que vinha pela chuva havia uma coisa humana ameaçadora, estrelada, dobrando a esquina, ignorando as luzes, a música, os movimentos da casa em frente para atravessar a rua e, detendo-se sob minha janela, bater à porta.&lt;br /&gt;O cheiro de mar tornou-se mais forte quando ouvi as primeiras batidas. Contraí os olhos feridos pelo ar subitamente mais salgado. Com as duas mãos espalmadas contra o vidro, eu estava suspenso entre algo que começava a fechar-se e algo que terminava de abrir-se. As batidas continuavam. Eu precisava fazer alguma coisa, talvez descer as escadas, abrir a porta, deixar que entrasse. Ao fazer qualquer uma dessas coisas teria de aceitar que algo se fechara, e abrir a porta para que o marinheiro entrasse seria também permitir que esse outro algo terminasse de abrir-se, me levando para um caminho imprevisto.&lt;br /&gt;Como eu demorava a atender, lá embaixo ele recuou um pouco e olhou para cima. Então me viu. Ele viu meu rosto, esse mesmo que já não sei a forma. Eu vi seu rosto que não identifiquei, molhado pela chuva, esperando uma resposta.&lt;br /&gt;Tive medo que as asas ou a cobra pudessem me impedir de começar a descer as escadas. Mas nada aconteceu. Em vez dessas, uma nova visão me tomou no primeiro degrau. De um espaço aberto como o convés de um navio eu podia ver na linha do horizonte, atrás de outro navio seminaufragado entre rochas de coral vermelho, uma ilha pedregosa com uma baía de areias tão claras que brilhavam na luz do sol. Havia sol também, descobri enquanto avançava, não só porque as areias brilhavam mas porque brilhava também a água do mar, cheia de cintilações como diamantes miúdos na crista das ondas quebrando na praia da ilha. Mais além da praia percebi sobre uma elevação um farol apagado, porque era dia, erguendo-se quase desafiador contra o céu, continuei a ver, inteiramente azul, sem nenhuma nuvem. O ar tão limpo que pisquei, retinas machucadas pelo excesso de luz.&lt;br /&gt;Quando tornei a abrir os olhos, tinha acabado de descer a escada e olhava uma silhueta esbranquiçada atrás dos roxos-amarelos pintados no pequeno retângulo vertical de vidro da porta de entrada. Pensei em abri-lo, para entender o rosto que vinha antes de permitir sua entrada. Não consegui. Quase cego pelo verde do mar, pelo cristal branco da areia, pelo azul do céu que acabara de ver, pela transparência do ar, estendi a mão, dei a volta na chave e abri a porta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.&lt;br /&gt;Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.&lt;br /&gt;À minha frente, porta entreaberta, gotas da chuva caindo sobre sua roupa branca como se eu tivesse acendido uma vela com o pavio voltado para baixo, o marinheiro me olhava.&lt;br /&gt;— O quê? — perguntei. Só compreendo agora, talvez não pudesse aceitar o convite. Perguntei como quando você diz acho que vai chover ou está frio hoje, ou me dá um cigarro, qualquer outra coisa assim sem importância, pressupondo que eu e ele nos movimentaríamos ainda segundo os ritmos mecânicos, na dança urbana dos passos ensaiados de além dos vidros pintados de roxo-amarelo. Mas ele repetiu claro:&lt;br /&gt;— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.&lt;br /&gt;— De onde você veio? — perguntei ainda, a mão na porta me separando dele.&lt;br /&gt;— Vim da tua visão anterior — ele afastou as tiras coloridas que pendiam da porta. Gentilmente, mas seguro, afastou também meu braço, não como se pedisse licença para entrar num lugar que não lhe pertencia, mas ocupando o espaço que lhe era destinado. E repetiu: — Venho de tua visão imediatamente anterior a esta de agora, embora eu não seja uma visão.&lt;br /&gt;— Quando eu descia as escadas?&lt;br /&gt;Fechei a porta às suas costas.&lt;br /&gt;— Quando você descia as escadas. Daquele navio atracado na baía. Aquela de areias brancas ofuscantes, a praia daquela baía, naquela ilha. Você não viu que daquela praia partia uma estrada, subindo pelas rochas até o farol?&lt;br /&gt;Perguntei se não queria sentar.&lt;br /&gt;— Estou muito molhado — disse, afastando um monte de palha para ajeitar-se entre algumas almofadas. Tinha pernas longas, sapatos cobertos de uma lama escura onde havia alguns talos de grama grudados, vi quando estendeu os pés, eu parado no espaço à sua frente.&lt;br /&gt;— Você andou na grama?&lt;br /&gt;— Andei. Logo após a areia branca da baía, havia uma grama alta. E mais adiante, um rio.&lt;br /&gt;— E você viu então uma cobra deslizando entre juncos, na beira do rio?&lt;br /&gt;— Sim, uma cobra verde. Dessas que não fazem mal a ninguém.&lt;br /&gt;— Você a matou?&lt;br /&gt;— Não mato o que não ameaça. Nem o que vive. Eu apenas passei.&lt;br /&gt;— E a ave? Viu também a ave?&lt;br /&gt;— Estava no meio do caminho. Me limitei a afas tá-la.&lt;br /&gt;— Segurando naquele ponto exato onde as asas encontram uma com a outra?&lt;br /&gt;— E onde mais? — puxou o cachimbo do bolso, com a mão direita. Bateu-o três vezes, boca para baixo, contra a palma da mão esquerda. — Apanhei muita chuva. Tem alguma bebida forte?&lt;br /&gt;— Os marinheiros costumavam beber rum — eu disse, enquanto ele levantava a mão espalmada em frente ao meu rosto. Era uma mão grande, morena, forte, cheia de veias azuis salientes pelo esforço, as bordas externas cobertas por uma vaga penugem escura.&lt;br /&gt;— Isso é lenda — de um pacote de fumo tirado do outro bolso ele enchia lentamente o cachimbo. Teve uma espécie de sorriso. Um brilho de ouro no fundo de sua boca, eu vi. — Bebo qualquer coisa. Desde que seja forte.&lt;br /&gt;Entrei pelo pequeno corredor para ir à cozinha apanhar a garrafa de conhaque. Havia como uma vertigem na minha cabeça, mas meus gestos eram precisos. Atravessei o corredor, a segunda sala, alcan1 cei a cozinha, onde tirei de um armário a garrafa e F dois cálices. Eram cálices perfeitos, desses levemente ovalados, a boca mais estreita que a base bojuda. Tenho uma bandeja azul, não é uma bandeja especial, mas é bonita, de vidro azul, e brilha, sobre a qual dispus a garrafa com os dois cálices. Em certos dias de luz como aquele sábado não era, costumo colocar a bandeja azul ao sol, quando há, para que sua cor reflita os raios amarelos. Mudam de cor, dançam, circulam pela casa toda, pelo pátio, rebrilham, os raios. Com a bandeja nas mãos, voltando à sala, queria dizer a ele que estava atravessando a casa com o melhor que tinha nas mãos: uma bandeja de vidro azul, uma garrafa de conhaque e dois cálices perfeitos.&lt;br /&gt;Cruzava de volta a segunda sala, depois o corredor, quando me chegou uma nova visão. Ela não voltou, depois que ele se foi. Portanto o que tive daquela visão foi apenas o que houve naquele momento.&lt;br /&gt;Atrás de uma janela de vidraças divididas em vários pedaços miúdos estava o rosto de uma moça. Ela tinha uma das mãos, talvez a esquerda, aberta e apertada contra a vidraça. O outro braço suponho que estivesse caído ao longo do corpo, porque de onde estava não conseguia vê-lo. Uma franja espessa cobria sua testa, e entre o cabelo cortado na nuca e o rosto lavado eu podia ver um brinco cintilando. Um único brinco longo talvez com uma pérola ou um diamante suspensos na extremidade de um fio de ouro, e de alguma forma o sol ou outro tipo de luz, não das estrelas, porque não seria suficiente, embora bonito, devia bater contra a vidraça, pois a ponta do brinco, a pérola, ou a esmeralda, ou o diamante, ou o rubi, cintilavam, estrela mínima de sete pontas. Prefiro pensar agora que era um rubi, tinha brilho vermelho como de um Cristo flagelado que vi certa vez num museu, faz muitos anos. Chorava, o Cristo. Essa lágrima de sangue era um rubi. Do lado direito da boca da moça, um leve vinco, como esses de quem apenas tem vontade de sorrir ou por alguma razão precisa esconder uma espécie de divertida amargura. Mas no canto esquerdo, havia apenas dureza. Ou vazio. Ou nada disso, não importa.&lt;br /&gt;Fui me libertando aos poucos da visão. Como quem atravessa uma cortina de contas penduradas, dessas que se enovelam no corpo, com movimentos brandos, de ombros, cintura, pescoço, aos poucos os fios se desembaraçando dos membros. Um dos olhos dela sorria cúmplice. O outro criticava, cínico. Quando depositei a bandeja azul aos pés dele — tinha descalçado os sapatos, sustentava o calcanhar de um dos pés sobre os dedos do outro, as mãos cruzadas atrás da nuca —, perguntou servindo-se:&lt;br /&gt;— Quem era ela?&lt;br /&gt;— Ela quem?&lt;br /&gt;— A moça na janela.&lt;br /&gt;Eu me acomodei nas almofadas à sua frente. Minhas pernas ficaram estendidas ao lado das dele. Devagar enchi nossos cálices. Não tínhamos pressa. Estava anoitecendo. Chovia. Era sábado, era novembro. Atrás de qualquer palavra que disséssemos havia outras mais tranqüilas, porque tínhamos conseguido atravessar quase mais um ano inteiro — eu, ele, todos —, e tinha sido duro, mesmo que nem eu nem ele nem ninguém depois de um tempo fôssemos capazes de distingui-lo especialmente dos anteriores, tão iguais a esse que passava. Mas estávamos ali, como dois sobreviventes — para usar a linguagem que ele provavelmente teria, se falássemos disso — de um naufrágio. Ou para usar a minha própria linguagem, essa de gente que vive amontoada entre outras gentes, mesmo quando se retira, porque a vida incha lá fora, invadindo as janelas fechadas, sobreviventes de uma série descolorida de fracassos iguais e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas. Eu podia falar lento, deixando o que dizia escorregar da garganta para a língua, da língua em movimento contra o céu da boca para os lábios, que com o ar soprado entre os dentes formaria palavras um pouco ao acaso, sem muita importância, dizendo coisas como:&lt;br /&gt;— A moça. A moça na janela.&lt;br /&gt;— Sim, a moça na janela — bebeu mais um gole, me olhou atento.&lt;br /&gt;— Eu a tive um dia — fui dizendo sem dificuldade, exatamente como previra. De algo profundo como o estômago ou os intestinos subia pelo peito, atravessava longos canais escuros, atingia a língua, debruçava-se sonoro, quem sabe incompreensível, para o outro. Era assim, conversar, fui redescobrindo enquanto contava:&lt;br /&gt;— Não sei se era ela. Uma moça pálida. Tinha algumas sardas nos ombros. Essas manchas castanhas, às vezes avermelhadas. Ela as tinha, nos ombros. Sei porque via sempre seus ombros nus. — Toquei no pé dele, as meias brancas molhadas de chuva. — Eu a tocava assim, nos pés. E apertava. Ela sempre me sorria. Gostava de pintar a boca de vermelho forte. Você consegue imaginá-la? Muito branca, aquelas sardas nos ombros, a boca pintada de vermelho forte. Gostava de vestir-se de preto, também. Embora eu costumasse dizer que não era bom, absorvia vibrações, todas as vibrações, as energias. Boas, más, todas. Então a boca pintada de vermelho forte vivo ressaltava ainda mais. Qualquer coisa vermelho vivo, a boca, entre o preto do vestido e o branco da pele.&lt;br /&gt;Ele tornou a encher o cálice.&lt;br /&gt;— Você gostava dela?&lt;br /&gt;— O que é coisa, gostar?&lt;br /&gt;—Você sabe.&lt;br /&gt;— Acho que sim. Embora não parecesse. Tanto, tanto tempo.&lt;br /&gt;Bebi mais. Que não tinha importância. Gostar, o passado, a moça, os pés. Eu não podia ter memórias. Acho que disse isso em voz alta. Ou não era preciso, porque ele falou:&lt;br /&gt;— Por que não ter memórias?&lt;br /&gt;Os buracos negros, eu quis dizer. Mas fiquei quieto, desejando apenas ter um disco qualquer de cítara tocando para que nesse momento pudéssemos interromper a conversa para prestar atenção num acorde qualquer entre duas cordas, mais um silêncio que um som. Sempre podíamos ouvir a chuva, seu bater compassado na vidraça. Ou acompanhar com os olhos as gotas escorrendo atrás do roxo e do amarelo. De pontos diferentes, às vezes duas gotas deslizavam juntas para encontrarem-se em outro ponto, formando uma terceira gota maior. Mas talvez ele achasse tedioso esse tipo de diversão.&lt;br /&gt;— Ter memórias — repeti.&lt;br /&gt;Mas não era aquela moça, nem aquela a tarde, que tudo que foi de mim perdeu-se no inatingível centro obscuro desses buracos. Começava a ficar tonto com a bebida. Quis dizer a ele que a cidade não tinha mar, que eu apenas pretendia pintar a segunda vidraça de baixo para cima, para que os vizinhos não conseguissem espiar a minha vida. Quando pensei nisso tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma agitada roda colorida. Subia e baixava — eu, a Roda da Fortuna — nos braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um arcanjo dourado, em susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a ele que me havia afastado assim para que a Roda rodasse distante de mim, sem me envolver em seus volteios vertiginosos.&lt;br /&gt;— Vim de longe — ele disse. — Eu vim de fora de ti.&lt;br /&gt;Quis dizer-lhe ainda que longe estava eu, embora na rua de casas lado a lado, apertadas umas contra as outras feito pessoas com frio, mas por algum motivo precisei levantar. De repente fiquei no meio da sala, o cálice cheio numa das mãos, a outra solta no ar, esboçando um gesto que não era capaz de fechar.&lt;br /&gt;Ouça, tentei.&lt;br /&gt;E não sabia como continuar. Passa-me agora pela cabeça que os vizinhos poderiam reclamar das luzes nas janelas escancaradas, da energia excessiva saindo pelas janelas escancaradas. Bêbada, confusa, farpada. Mas não consigo me deter. Embora não conheça o ponto onde devo chegar, é para lá que me dirijo cego, aos trancos. Pouco importa o que poderia me afastar desta tentativa quem sabe inútil de recuperá-lo, ou o que trouxe consigo desde que veio e se foi. Perdi meu equilíbrio quando veio, e mentia meu equilíbrio antes que viesse.&lt;br /&gt;Olhava para mim, ali estendido sobre almofadas. Um vinco, eu via atentamente, um vinco partindo seu lábio inferior, quase emendado com outro que subia da extremidade do queixo até a borda do lábio inferior, onde o vinco anterior unia os dois num só, duas gotas de chuva se encontrando. Acho que o aceitei inteiramente nesse momento, ao perceber os contornos do rosto que me olhava com estranheza, como pedindo explicações ou tentando explicar a mim mesmo para mim, que não me via.&lt;br /&gt;— Você tem grades nos olhos — disse. Acendeu o cachimbo. Um perfume adocicado misturou-se ao cheiro de mar. — Elas estão quase sempre abertas. Não são suficientemente estreitas para prender alguém ou alguma coisa. Houve um dia em que você deixou alguém fugir por entre as grades.&lt;br /&gt;Voltei a sentar. Lembrei do segundo quarto no andar de cima. Cruzei as pernas na frente dele. Queria vê-lo melhor, embora já o tivesse visto. Um marinheiro, confirmei sem compreender. Tirara os sapatos, o chapéu, vestia-se de branco, estava deitado nas almofadas à minha frente. Então transformou-se. Sei que é brusco dizer assim, mas foi exatamente assim. Gostaria de ter certeza de que realmente o vira deitar alguma coisa como um pó ou comprimidos na minha bebida, tisanas, antes de transformar-se. Mas não seria verdadeiro.&lt;br /&gt;Eu estava um pouco tonto. As luzes da rua tinham começado a acender. Anoitecia. O roxo-amarelo dos vidros ganhou um brilho artificial quando me levantei para acender a vela no castiçal de cerâmica. Tenho horror a essas luzes que desvendam os poros abertos das pessoas, revelando sujeiras escondidas, mesmo que há muito tempo não as veja. Protegi a chama entre as palmas das mãos, mas quando me voltei para perguntar-lhe qualquer coisa como o que ou onde ou quando ou quem — ele era um grande gato cinzento me olhando com olhos verdes sobre a almofada cor de vinho. Espreguiçou-se lento, curvando as costas enquanto alongava à frente a pequena pata de unhas distendidas para depois cravá-las superficialmente, com tédio, com distraído gozo, na carne da almofada. Quando tornei a me abaixar, debruçando-me sobre ele, roçou o dorso quente contra as costas frias da minha mão. Apertei as frontes e os olhos com a outra mão. Ao retirá-la, o marinheiro me olhava.&lt;br /&gt;— Tive outra visão — eu disse.&lt;br /&gt;— Não foi uma visão. Sou muitos. — Sorriu. — Onde é o banheiro?&lt;br /&gt;Acompanhei-o escada acima. Pelo corrimão, podia ver: aquela mão saindo de sob a manga branca era a mesma que segurava as asas da ave no ponto onde se uniam. Escurecia. Quis avisá-lo de que passaríamos pelo quarto vazio, e me debati, asas seguras no limite da entrada, tentando dizer-lhe que tinha sido ali. Então olhei para dentro e vi um anjo de grandes asas brancas e pés descalços sobre o piso riscado.&lt;br /&gt;— Me olhas com olhos tristes — eu disse.&lt;br /&gt;— Porque já me fui e nada do que poderias fazer agora eu conseguiria fazer novamente, então sinto pena — disse o anjo fechando as asas sobre o rosto magro.&lt;br /&gt;Pairava sobre brasas incandescentes espalhadas pelo piso do quarto. Para não pisá-las com seus pés brancos precisava agitar as asas com algum esforço, mantendo-se em levitação, acima do fogo. Ele batia as asas suspenso sobre as brasas, um pouco ridículo. Tive vontade de rir, mas como uma ventania súbita tivesse invadido a casa, eu disse que tinha velas e mostrei a porta do banheiro.&lt;br /&gt;Conhecia aqueles ventos. Armavam-se de repente além do contorno dos edifícios que eu via da janela do segundo quarto, depois desabavam paredes adentro, soprando por todos os cantos os fiapos dos montes de palha, as contas, as tiras coloridas. Dentro do banheiro havia uma moça de ombros nus cobertos de sardas, olhos pintados de preto, boca muito vermelha, seios expostos como duas pêras maduras, as pontas levemente avermelhadas de onde sobressaía o bico mais escuro que devia prendê-los à árvore. Quis tocá-los. Cheguei a estender a mão. Foi quando vi a cauda úmida de peixe emergindo da banheira para elevar-se, verde brilhante escamoso contra os azulejos brancos. Ela sorria para mim, sereia, me convidando, Ulisses. Como uma visão, mas eu sabia que não era nenhuma das imagens libertadas do buraco negro da memória. Quando tentei tocar seus seios claros, respingados de sardas, senti o vento das asas batendo do anjo preso no segundo quarto a me comprimir contra a parede de corredor estreito, e logo depois o interior sedoso de uma capa negra com dois caninos agudos de vampiro dentro de lábios descorados abertos num meio sorriso, aproximando-se lento das veias da minha garganta. Quis senti-lo assim, macio assassino penetrante agudo suculento afundar os caninos na minha carne. Cheguei a inclinar de leve a cabeça sobre o ombro, oferecendo o pescoço para que me tivesse mais fácil.&lt;br /&gt;O vinho está quase no fim. A manhã vem vindo, não sei se conseguirei continuar contando. Naquele momento meu sangue escorreria para dar-lhe vida, essa mesma que não sei para onde levo, entre tantas quinas. Sinto frio, me debruço. O hálito gelado dele se aproxima das minhas veias, mas basta que eu suspire para que se transforme num cãozinho miúdo, inofensivo, descendo os degraus em direção à sala. Afago-o com as pontas distraídas dos dedos, manchas pretas sobre o dorso branco. Reconheço, estou em desequilíbrio, estou me distanciando cada vez mais. Faço este esforço até quem sabe alcançar um ponto tão remoto que não saberei jamais encontrar o caminho de volta, se existe um, e penso que não.&lt;br /&gt;Ao pé da escada ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem o peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas. Quero perder-me nele, como o que nunca terei, mas quando fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejam, eu, ele, uma coisa única, minhas mãos apertam o caule estreito e áspero de uma palmeira. Um vento qualquer faz com que seus galhos balancem. Quando balançam então é como se eu visse o céu, planetas, cometas, constelações, objetos não-identificados, essa palmeira nua estendida contra um céu cheio de estrelas, lunar crescente às tuas costas, quero dizer, Aldebarã logo abaixo, Vega à esquerda, Arcturus acima, basta estender a mão. Resta no ar o sal perdido de uma distante maresia, no limite dos dedos, e em cada uma das extremidades uma estrela de sete pontas iluminadas, dez rubis incendiados como a lágrima na face do Cristo que perdi no dia em que a luz cessou.&lt;br /&gt;Na base da escada, no centro da sala. Anoiteceu. Encosto o topo de minha cabeça de ralos cabelos contra o tronco seco da palmeira. Depois choro. Quase sem som. Como nas canções de miúdos arquejos, um estremecimento que faz o peito vibrar, elevando-se até os ombros. Sobe pela garganta, atinge os lábios, alcança a testa comprimida contra a palmeira como se quisesse ferir ou perfurar a si mesma. Ergo meus braços. Mesmo na ponta dos pés não consigo alcançar as palmas altas que balançam ao ritmo do vento vindo talvez de outras terras, mas certamente do mar presente nesse ar salgado que me faz contrair os olhos como antes, quando descia as escadas para abrir a porta.&lt;br /&gt;Eu estava parado no patamar da escada quando ele me disse:&lt;br /&gt;— Tenho sete formas. Navegue.&lt;br /&gt;Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade.&lt;br /&gt;Pedi que ficasse, como não ficou o outro. Mas não o suportaria, acrescentei a seguir. Sorriu. Como se nada do que eu pudesse dizer fosse capaz de modificar sua partida. Ainda chove, tentei dizer. Não importa, será melhor assim, repetia sua mão estendida. Passou-a devagar na minha face. Eu era uma coisa pequena, rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face. Ele tocou. Calçou os sapatos, apanhou o chapéu. Eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto — a segunda cama, a segunda vida — talvez para sempre. Eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida, oferecendo. Estendi a mão. Ele não podia acei tá-la&lt;br /&gt;Eu não devia estendê-la.&lt;br /&gt;— O navio demora pouco no porto — disse antes de partir. — Um marinheiro desce, olha a terra, às vezes deposita algo, e logo torna a partir.&lt;br /&gt;Seus olhos tinham a r do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, durante todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar. Conquistara esse verde móvel, inquieto, esse vagar. Tocou de leve minha mão estendida. E se foi. Ainda chovia. Fechei a porta às suas costas. Por entre os roxos e amarelos da pequena vidraça vertical, podia perceber a silhueta de alguém se afastando. Dentro de uma noite de sábado, não de agosto. Era novembro. Bebi outro gole de conhaque. Fui escorregando para o fundo, no meio das almofadas. Amanhecia. Na casa em frente, os ruídos tinham silenciado. Seria um longo domingo. Não estava triste, mesmo assim recomecei a chorar enquanto ouvia outra vez o aviso guardado para sempre na memória das paredes:&lt;br /&gt;— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;Faz hoje sete dias que se foi. Acabei de contar os sete traços de tinta preta que fui fazendo, um por um, cada noite depois de sua partida, exatamente naquela vidraça que eu tinha pensado em começar a pintar quando chegou, no meio da chuva. Completei o sétimo há pouco. São seis traços irregulares, quase ideogramas chineses, e um bem definido — um risco reto, seco, sem hesitações nem adornos, o último. Atrás dos sete traços posso ver a rua deserta e, do outro lado, a casa onde sem parar entram, saem pessoas. Pela porta aberta, quando terminei o sétimo risco imaginei ver uma noiva subindo as escadas, com outras moças se aglomerando embaixo, como se ela fosse jogar o buquê. Ouvi uns risos de criança, tinir de copos, champanhes. Bons augúrios, pensei. Mas não prestei muita atenção, nem me alegrei. Não tenho certeza do que imagino ter visto. Preferi olhar para além da casa, para além da rua.&lt;br /&gt;O sol acabou de se pôr. Nestes sete dias, a chuva foi parando aos poucos. Ficou apenas o cinza. Há muitas nuvens no céu, sobre os edifícios. São essas nuvens que estão agora muito coloridas, azuis profundos invadindo o roxo para transformar-se em laranja, em dourado na altura do que deve ser o horizonte.&lt;br /&gt;Os raios suspensos sobre a cidade. Se descesse ao andar inferior poderia talvez ver como antes esses raios soltos de luz varando os roxos, os amarelos pintados nos vidros da porta de entrada para misturar as cores sobre os objetos. Poucas vezes desci, depois que se foi.&lt;br /&gt;Na verdade, não sei ao certo como atravessei os primeiros destes últimos sete dias. Talvez tenha dormido ou me movimentado dentro de alguma daquelas visões do buraco negro, porque lembro de uma espécie de névoa rompida de vez em quando por algum ruído, alguma forma. Talvez não tenham sido visões, mas sonhos, se realmente dormi. De qualquer forma, não eram exatamente iguais às visões de antes da vinda dele, nada de cobras ou aves ou partes isoladas de corpos, como mãos ou rostos. Havia pessoas inteiras dentro dessa névoa, mesmo que eu não conseguisse vê-las, ainda que não possuíssem corpos. Uma dessas pessoas atravessava a meu lado um longo corredor, um corredor inteiro recoberto de mosaicos bizantinos, em cima, embaixo, dos lados, cada um com um desenho diferente. Nesses mosaicos quem sabe houvesse cobras, juncos, asas, grama, até mesmo marinheiros, porque o corredor se estendia feito dentro da própria memória, com todos os detalhes de cada uma das inúmeras lembranças. Seria possível permanecer durante muito tempo olhando detidamente cada um deles. Mas da extremidade vedada onde eu estava, com essa pessoa a meu lado, conseguia ver a extremidade aberta do outro lado, onde estava a luz.&lt;br /&gt;Havia urgência em chegar à luz. Havia uma urgência no ar que não era exatamente minha nem da pessoa que estava comigo, mas qualquer outra coisa assim, difícil dizer, um imperativo moral ou ético chegar do outro lado, do lado de lá, do lado da luz. Eu não me movia, embora localizasse no ar, entre as figuras dos mosaicos coloridos, esse impulso de me dirigir para lá. A outra pessoa também não se movia. Eu tinha perfeita consciência dela a meu lado. Não voltava a cabeça para vê-la. Estava perfeitamente consciente da presença dela a meu lado, e sabia que ela estava também perfeitamente consciente não só da minha presença a seu lado mas também da necessidade de atravessarmos o corredor em direção à luz. Talvez ficássemos ali parados para sempre, se eu não começasse a prestar atenção nos desenhos. Até o momento em que comecei a me curvar para observar um deles mais atentamente porque havia um poço, um poço desenhado no mosaico, um poço de pedras com uma data remota inscrita provavelmente com um prego sobre uma das pedras, e quase tenho certeza do ano, 1919— tinha consciência somente de uma série de formas e cores à minha volta, como se estivesse dentro de um caleidoscópio imóvel.&lt;br /&gt;Fui dobrando lentamente o corpo em direção ao poço. Sabia que poderia penetrar nele ou naquele tempo ou naquela memória que ele representava, poderia penetrar em qualquer uma das milhares de outras figuras do corredor. E da mesma forma como sabia que devia caminhar em direção à luz, sabia também que não podia me permitir mergulhar nos mosaicos, porque desse mergulho emergiria de volta para o mesmo corredor, e após outro mergulho tornaria a ser devolvido àquele corredor, sala infinit de espelhos, assim para sempre, para sempre estaria perdido entre representações de coisas que se tinham perdido no tempo, e por perder-se no tempo tinham perdido junto a sua própria existência. Não eram reais, aquelas cenas gravadas nos mosaicos. Eu não podia permitir a mim mesmo continuar me perdendo no que deixara de ser. Sabia de tudo isso enquanto me curvava em direção ao poço, mas não conseguia recuar, hipnotizado. Foi então que a outra pessoa me tocou no ombro. Alguma coisa no toque dela me dizia exatamente o mesmo que eu acabara de pensar, me arrancava da beira do mergulho. De alguma forma, instaurava entre nós o compromisso — solene, severo — de chegar à luz na extremidade do corredor.&lt;br /&gt;Nós começamos a caminhar. Primeiro com certa pressa, depois mais lentamente. Se caminhássemos depressa as formas e as cores nos mosaicos se enovelariam umas nas outras, provocando uma espécie de tontura viscosa, colorida. Alguém de fora dali girava nas mãos o imenso caleidoscópio dentro do qual estávamos presos, fazendo a copa de uma árvore esfiapar-se em várias pontas, e de cada uma dessas pontas nascerem imagens díspares feito uma maçã meio mordida, uma peça de dominó ou xadrez, um bibelô antigo em forma de bailarina, saltando sobre um abismo ao lado do qual estavam duas crianças guardadas por um anjo negro e nu. Para que as formas não se misturassem assim, evitando a náusea, a surpresa, a confusão, começamos a caminhar mais devagar, um passo após o outro. Não sei quanto tempo durou. Penso agora que talvez exatamente os cinco primeios dias destes sete últimos, porque quando tento lembrar de tudo que se passou desde então qualquer imagem que volta parece ter feito parte dos mosaicos daquele corredor. Mesmo quando eu subia ou descia escadas para ir à cozinha comer ou beber alguma coisa, não sei se eu mesmo não estaria sendo apenas mais uma daquelas figuras.&lt;br /&gt;Nem saberei.&lt;br /&gt;Mas houve um momento em que alcançamos a Luz. Digo assim — a Luz — porque não havia nada nela. Era uma luz clara sem cor nem objetos, absolutamente limpa se comparada à infinidade de formas de onde estávamos vindo. Havia espaço ali. Um largo espaço com uma luz clara. Acho que senti medo, tive vontade de voltar atrás, sabia como me movimentar facilmente entre as figuras dos mosaicos, diminuindo, aumentando o passo para que as imagens não se misturassem, mergulhando numa ou noutra que me remeteria a outros tempos para depois me devolver ao corredor, assim por diante, tanto quanto eu quisesse, o tempo todo que me restava nisso que costumo chamar de a minha vida. Esbocei um movimento para voltar atrás, mas a outra pessoa novamente me tocou no braço antes de desaparecer junto com o corredor. Eu fiquei só.&lt;br /&gt;Agora eu não vinha nem ia para parte alguma. Estava parado no centro da grande luz clara e limpa sem poder voltar atrás. Isso era tudo. Eu precisava me movimentar dentro dela. Era com esse movimento dentro dela que alcançaria outras figuras, talvez as dos mosaicos, que não seriam figuras pois não teriam acontecido num tempo passado, mas coisas reais que estariam acontecendo agora, num tempo presente. Não mais como se estivesse dentro de um caleidoscópio, e sim como se possuísse o grande poder de construí-lo eu mesmo, escolhendo cada conta, cada pedacinho de vidro ou papel que colocaria ali dentro. Ou nem isso. Como se não mais existissem caleidoscópios.&lt;br /&gt;Como se eu fosse ao mesmo tempo diretor, ator, autor e platéia de um espetáculo que ainda não começara a acontecer. Como se não fosse um espetáculo, porque nada estava previsto e não houvera ensaio algum, como se eu jamais pudesse ter certeza se alguém decorara a sua própria fala ou estava se apropriando da fala de outro ou inventando alguma para não permanecer parado e mudo. Embora não fosse um espetáculo, não podia parar, e a essa fala de outro que era de outro alguém, ou invenção, eu precisaria responder imediatamente, não podia parar, ainda que parasse não pararia, mesmo que meu papel fosse o de um cego ou mudo ou paralítico, de alguma maneira teria que reagir ao que aconteceria à minha volta. E o que aconteceria à minha volta aconteceria de qualquer jeito. A minha não-participação seria ainda uma forma de participar, permitindo que tudo acontecesse sem interferir.&lt;br /&gt;Antes de dar um passo, eu estava exausto daquele jogo tão absurdo que qualquer nova regra podia ser inventada na hora. Não sabia se saberia jogá-lo. Nem se queria.&lt;br /&gt;Aldebarã, Vega, Arcturus — repeti. Então olhei para cima e vi uma nuvem. Foi a primeira coisa que vi dentro da luz clara. Nesse momento soube que haveria outras, à medida que avançasse ou simplesmente permanecesse ali. A nuvem aos poucos ganhou cor, um tom de rosa, acho. Depois moveu-se, como nos dias de vento. Acompanhando a nuvem com o olhar, na direção do vento fui encontrando gradualmente, fotografia revelada cada vez mais nítida, na linha do horizonte uma ilha pedregosa com uma baía redonda de areias tão claras que brilhavam na luz do sol. Era do sol a luz que banhava a ilha, a praia, descobri, e mais além, sobre uma elevação, um farol apagado, porque era dia. Aquele farol se acenderia todas as noites, jorrando luz no espaço. Meus olhos já não tinham grades. Comecei a caminhar em direção ao que via, dentro da grande luz além do corredor.&lt;br /&gt;Iniciaria pelo andar inferior, decidi quando acabei de pintar o quinto risco negro que assinalava o princípio do quinto dia. Foi essa a única ordem imposta no que faria. Depois disso andei muito tempo pela casa recolhendo as tiras de pano e papel penduradas, as cortinas, os fios enfiados de contas, tapetes, restos de manequins, cacos de louças, caixotes, fotografias, almofadas, montes de palha, pétalas secas de flores, ampulhetas, os livros todos, copos, móveis, um por um — tudo. Atravessava a segunda sala para depositá-los no pequeno pátio, à medida que agia a casa começava a parecer cvasta&amp;amp;a ÔT 112728 tormenta, depois foi ficando mais limpa, inteiramente limpa, enquanto aumentava a montanha de objetos no pátio. Sabia que me restavam três dias inteiros. Se não houvesse concluído o trabalho ao fim deles permaneceria parado na grande luz, à mercê do que aconteceria em volta. Era tempo suficiente, embora fossem muitos objetos.&lt;br /&gt;Gastei o primeiro dos últimos três dias esvaziando o andar inferior. Gastei o segundo esvaziando meu próprio quarto, mais cheio de objetos que qualquer outro. Acrescentei à montanha de detritos no pátio também as roupas todas que tinha, todos os papéis, o baú com as cartas que costumava receber, antes, talismãs, caixas, fetiches. Na metade do terceiro e último dia — hoje — esvaziei o banheiro. Mantive apenas esta roupa branca que uso, um tubo de tinta negra e um pincel para fazer o sétimo traço na vidraça.&lt;br /&gt;Acabo de fazê-lo, há pouco. A casa inteira está deserta. A casa inteira agora é igual ao segundo quarto. Despi-la assim nestes sete dias acabou por revelar as rachaduras das paredes, as manchas, as falhas do reboco, o piso riscado. É uma casa verdadeira agora, e muito velha. Uma casa que não teria conserto, tão irremediáveis e obscenas são sua velhice e nudez. Arranquei seus disfarces um a um, como se arrancasse os mosaicos daquele corredor. Na montanha do pátio não há só móveis, lençóis, papéis, há também poços, maçãs meio mordidas, peças de xadrez, unicórnios, anjos da guarda, caleidoscópios, vampiros, centauros, cristais, baralhos, mandalas. Posso entrar sem medo no segundo quarto. Ele tornou-se como o resto da Casa, ou o resto da sa tor’zou-’e como ele, você ambos tornaram-se o que sempre foram, assim sem disfarces, e nada tenho a temer de paredes vazias. Me pergunto se alguém os amaria assim, tão nus. Não sei responder. Posso não sentir nada vendo a perna alongada de uma bailarina emergindo da confusão de trapos, o rosto pintado de um manequim sobre os restos do fogão, o gelo transformado em água escorrendo pelo quadro onde, forçando os olhos, consigo divisar a mão erguida de um homem empunhando uma espada, em luta com uma espécie de demônio de asas.&lt;br /&gt;O movimento na casa da frente começou a diminuir. Estou parado no topo da escada com o galão de gasolina numa das mãos, a caixa de fósforos na outra. Conto os degraus, ao descer. Dezenove, o Sol. Na sala, os vidros pintados ainda defendem a casa do olhar dos outros, se alguém se interessasse em olhá-la. Tão vazia que já não oferece nada à curiosidade de ninguém. E tão completamente real, penso sem querer, atravessando a primeira sala para penetrar na outra, depois na cozinha. Quase todo o pátio está tomado pela montanha de detritos. Acabou de anoitecer. As nuvens se foram. O céu está completamente limpo. Há algumas estrelas sobre a minha cabeça.&lt;br /&gt;Quem sabe Aldebarã, Vega, Arcturus.&lt;br /&gt;Com cuidado, com carinho, vou derramando gasolina sobre todos os objetos. Agora já não há dor nenhuma em lembranças de emoções como partidas, quartos vazios, separações. Não tenho mais emoção alguma. Sou só um corpo dotado de movimentos que vai derramando meticuloso a gasolina sobre os objetos. Tudo isso leva muito tempo. Não há nenhum centímetro dessa estranha montanha que não esteja impregnado até o fundo. Depois sento no chão, olho. Poderia chorar, ou pensar qualquer coisa funda, viva, forte. Não choro. Nem penso nada. Sou só um corpo sentado no chão de um pátio dentro de uma cidade qualquer, olhando para uma montanha de objetos encharcados de gasolina. Fico tempo assim, eu.&lt;br /&gt;Às vezes uma estrela cadente cruza o céu em direção ao horizonte. Poderia fazer pedidos, mas nada tenho a pedir. Sentado no chão, permaneço ouvindo os barulhos da noite de sábado além dos muros. Espero paciente que se dissolvam aos poucos, que a cidade reste quieta enquanto as estrelas mudam de lugar sobre minha cabeça. Minha mente está tão alerta que é como se pairasse acima da dormência que se infiltra nos membros. Sei que eles reagirão ao primeiro comando. Quando tudo está finalmente quieto e uma pálida luz esverdeada começa a anunciar o amanhecer, faço contas lentas para verificar se a constelação do Escorpião começa a se erguer no Oriente. Então levanto, estendo pernas e braços lentamente numa dança para desentorpecer os músculos. Só depois de sentir o sangue renovado fluindo quente nas veias, risco um fósforo e trago a chama até bem perto dos olhos. As pupilas se contraem, antes de jogá-la sobre o monte de detritos. Não chego a ver o fogo. Atravesso correndo as portas abertas do interior da casa. Alcanço a rua.&lt;br /&gt;No fim da rua, olho para trás e vejo as chamas subindo nos fundos daquela que eu chamava de a minha casa. Os cálculos estavam corretos, confirmo, quando volto a cabeça para o Ocidente e vejo as Plêiades e a constelação de Orion prestes a desaparecer. O céu está cada vez mais claro. Alguns pássaros começam a cantar. Tenho vontade de cantar também. Um canto feito de palavras, não como o antigo.&lt;br /&gt;Daqui a pouco vai amanhecer. Há um vago cheiro de mar solto nas ruas.&lt;br /&gt;Hesito um pouco na esquina. Antes de me pôr a caminho, abro devagar e completamente os braços para depois fechá-los arredondados, tocando suavemente as pontas dos dedos de uma das mãos nas pontas dos dedos da outra. Como se faz para abraçar uma pessoa. Mas não há nada entre meus braços além do ar da manhã. Suspiro, sorrio, desfaço o abraço.&lt;br /&gt;Então, com as mãos vazias, finalmente começo a navegar&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5580647248235955759?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5580647248235955759/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5580647248235955759&amp;isPopup=true' title='30 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5580647248235955759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5580647248235955759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/08/marinheiro.html' title='MARINHEIRO'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1223825897524751167</id><published>2008-04-05T15:48:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T15:52:40.109-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>MORANGOS MOFADOS</title><content type='html'>&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Para José Márcio Penido&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Let me take you down &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;‘cause I’m going to strawberryfields&lt;br /&gt;nothíng is real, and nothing to get hung about&lt;br /&gt;strawberryfieldsforever&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Lennon &amp;amp; McCartney: “Strawberry fields forever&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prelúdio&lt;br /&gt;No entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali e era assim que se via. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo — e queria? Enumerava frases como é-assimqile-as-coisas-são ou que-se-há-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas lTttsafinalque.importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto dernorangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de algama gaveta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allegro Agitato&lt;br /&gt;Pois o senhor está em excelente forma, a voz elegante do médico, têniporas grisalhas como um coadjuvante de filme americano, vestido d0 bege, tom sur tom dos sapatos polidos à gravata frouxa, na medida justa entre o desalinho e a descontração. Não há nada errado com o seu coração nem com o seu corpo, muito menos com o seu cérebro. Caro senhor. Acendeu outro cigarro, desses que você fuma o dobro para evitara metade do veneno, mas não é no cérebro que acho que tenho o câncor, doutor, é na alma, e isso não aparece em check-up algum.&lt;br /&gt;Mal do nosso tempo, sei, pensou, sei, agora vai desandar a tecer considerações sócio-político-psicanalíticas sobre O Espantoso Aumento da Hipocondria Motivada Pela Paranóia dos Grande Centros Usbanos, cara bem barbeada, boca de próteses perfeitas, uma puta certa Vt disse que os médicos são os maiores tarados (talvez pela intimidade colstante com a carne humana, considerou), e este? Rápido, analisou: no máximo chupar uma boceta, praticar-sexo-oral, como diria depois, escovando meticuloso suas próteses perfeitas, naturalmente que se o senhor pudesse diminuir o cigarro sempre é bom, muito leite, fervido, é claro, para evitar os cloriformes, ar puro, um pouco de exercício, cooper, quem sabe, mais pensando no futuro do que em termos imediatos, claro. Mas se o futuro, doutor, é um inevitável finalmente alguém apertou o botão e o cogumelo metálico arrancando nossas peles vivas, bateu com cuidado o cigarro no cinzeiro, um cinzeiro de metal, odiava objetos de metal, e tudo no consultório era metal cromado, fórmica, acrílico, anti-séptico, im-po-lu-to, assim o próprio médico, não ousando além do bege. Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas, peras pálidas, macilentas maçãs verdes. Nenhuma melancia escancarada, nenhuma pitanga madura, nenhuma manga molhada, nenhum morango sangrento. Um morango mofado — e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca?&lt;br /&gt;Azia, má digestão, sorriso complacente de dentes no mínimo trinta por cento autênticos (e o que fazer, afinal? dançar um tango argentino, ou seria cantar? cantarolou calado assim “quiero emborrachar mi corazón para olvidar um toco amor que más que amor fue una traición’ tinha versos à espreita, adequados a qualquer situação, essa uma vantagem secreta sobre os outros, mas tão secreta que era também uma desvantagem, entende? nem eu, versos emboscados da nossa mais fina lira, tangos argentinos e rocks dilacerantes, com ênfase nos solos de guitarra). Um tranqüilizante levinho levinho aí umas cinco miligramas, que o senhor tome três por dia, ao acordar, após o almoço, ao deitar-se, olhos vidrados, mente quieta, coração tranqüilo, sístole, pausa, diástole, pausa, sístole, pausa, diástole, sem vãs taquicardias, freio químico nas emoções. Assim passaria a movimentar-se lépido entre malinhas 007, paletós cardin, etiquetas fiorucci, suavemente drogado, demônios suficientemente adormecidos para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, passear sentimentos, passear sentimentos desesperados de cabeça para baixo, proibido emoções cálidas, angústias fúteis, fantasias mórbidas e memórias inúteis, um nirvana da bayer e se é bayer. Suspirou, suspirava muito ultimamente, apanhou a receita, assinou um cheque com fundos, naturalmente, e saiu antes de ouvir um delicado porque, afinal, o senhor ainda é tão jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adagio sostenuto&lt;br /&gt;Quando acordou, o sol já não batia no terraço, o que trocado em miúdos significavá algo assim como mais-de-duas-da-tarde. Tinha tomado três comprimidos, um pela manhã, outro pelo almoço, outro antes de dormir, só que juntos — e o gosto persistia na boca. Strawberry, pensou, e quis então como antigamente ouvir outra vez os Beaties, mas ainda na cama teve preguiça de dar dois passos até o toca-discos, e onde andariam agora, perdidos entre tantas simones e donnas summers, tanto mas tanto tempo, nem gostava mais de maconha. Acariciou o pau murcho, com vontade longe, querendo mandar parar aquele silêncio horrível de apartamento de homem solteiro, a empregada não viria, ele não tinha colocado gasolina no carro, nem descontado cheque, nem batalhado uma trepadinha de fim de semana, nem tomado nenhuma dessas pré-lúdicas providências-de-sexta-feira-após-o-almoço, e precisava. Precisava inventar um dia inteiro ou dois, porque amanhã é domingo e segunda—feira ninguém sabe o quê.&lt;br /&gt;Acendeu um cigarro, assim em jejum lembrando úlceras, enfisemas, cirroses, camadas fibrosas recobrindo o fígado, mas o fígado continuaria existindo sob as tais fibras ou seria substituído por? Ninguém saberia explicar, cuecas sintéticas dessas que dão pruridos &amp;amp; impotência jogadas sobre o tapete, uma grana, imitação perfeita de persa. O telefone então tocou, como costuma às vezes tocar nessas horas, salvando a página em branco após a vírgula, ele estendeu a mão, tinha dedos até bonitos ele, juntas nodosas revelando angústia &amp;amp; sensibilidade, como diria Alice, mas Alice foi embora faz tempo, a cadela que eu até comia direitinho, estimulando o clitóris comme ilfaut, não é assim que se diz que se faz que se. O telefone tocou uma vez mais, e como se diz nesses casos, mais uma e mais outra e outra mais, enquanto com uma das mãos ele ligava o rádio libertando uma onda desgrenhada de violinos, Wagner, supôs, que tinha sua cultura, sua leitura, valquírias, nazismos, dachaus, judeus, e com a outra acariciava o pau começando a vibrar estimulado talvez pelos violinos, judeus, davis.&lt;br /&gt;O telefone parou, o telefone não fazia nenhum som especial ao parar, mas deveria arfar, gemer quando entrasse fundo, duro e quente, judeuzinho de merda, deve estar metido naquele kibutz no meio da areia plantando trigo, não, trigo acho que não, é muito seco, azeitonas quem sabe, milho talvez, a cabeça quente do pau vibrava na palma da mão, foi no que deu ficar trocando livrinho de Camus por Anna Seghers, pervitin por pambenil, tesão se resolve é na cama, não emprestando livro nem apresentando droga, anote, aprenda, mas agora è troppo tarde, tudo já passou e minha vida não passa de um ontem não resolvido, bom isso. E idiota. E inútil.&lt;br /&gt;Levantou de repente. Foi então que veio a náusea, só o tempo de caminhar até o banheiro e vomitar aos roncos e arquejos, onde estão todos vocês, caralho, onde as comunidades rurais, os nirvanas sem pedágio, o ácido em todas as caixas-d’água de todas as cidades, o azul dos azulejos começando a brilhar, maya, samsara, que às vezes voltava. De súbito lisérgico no meio de uma frase tonta, de um gesto pouco, de um ato porco como esse de vomitar agora as quinze miligramas leves leves. Alice abria as coxas onde a penugem se adensava em pêlos ruivos, depois gemia gostoso, calor molhado lá dentro. Neurônios arrebentados, tem um certo número sobrando, depois vão morrendo, não se recompõem nunca mais, quantos me restarão, meu deus e a mão de pêlos escuros de Davi acariciando as minhas veias até incharem, quase obscenas, latejando azul-claro sob a pele. Sabe, cara, quando te aplico assim com a agulha lá no fundo, às vezes chego a pensar que. Noites sem dormir e a luz do dia esverdeando as caras pálidas e as peles secas desidratadas e as vozes roucas de tanto falar e fumar e falar e fumar. Vomitou mais. Nojo, saudade. Sou um publicitário bem-sucedido, macio, rodando nas nuvens, o Carvalho me disse que rodando-nas-nuvens é do caralho, que achado, cara, você é um poeta, enquanto olho pra ele e não digo nada como eu mesmo já rodei nas nuvens um dia, agora tou aqui, atolado nesta bosta colorida, fodida &amp;amp; bem paga. Strawberryfields: no meio do vômito podia distinguir aqui e ali alguns pedaços de morangos boiando, esverdeados pelo mofo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andante ostinato&lt;br /&gt;Nem ontem nem amanhã, só existe agora, repetia Jack Nicholson antes de ser morto a pauladas, enquanto ele espiava Davi jogado no fundo do poço tão profundo que precisaria de uma escada para descer até lá, evitando os escombros da cidadezinha que era ao mesmo tempo Kõln após a guerra e o Passo da Guanxuma, com aquele lago no centro de onde sem parar partiam ou chegavam barcos, nunca saberia, e não importa, Alice corria entre os ciprestes do cemitério sem túmulos enquanto ele gritava Alice, Alice, minha filha, quando é que você vai se convencer que não está mais do outro lado do espelho, até encontrar Billie Holiday em pé na escada entre paredes demolidas, aqueles degraus subindo para o nada, com Billie no topo decepada, solta no espaço de escombros repetindo e repetindo “you’ve changed, baby oh baby, you’ve cbangedso much’ estendeu a mão para socorrer John Lennon mas quando abriu a boca sangrenta, feito um vento preso numa caixa fugiu aquele horrível cheiro de morangos guardados há muito tempo, como um vento vindo do mar, um mar anterior, um mar quase infinito onde nenhuma gota é passado, nenhuma gota é futuro, tudo presente imóvel e em ação contínua, o cheiro de maresia era o mesmo do hálito da pantera biônica de cabelos dourados. Ah tantos anos de análise freudiana kleiniana junguiana reichiana rankiana rogeriana gestáltica. E mofo de morangos.&lt;br /&gt;Gritaria. Mas acordou com o plim-plim eletrônico antes sequer de abrir a boca. O vento fresco da madrugada embalava as cortinas brancas feito velas de um barco encalhado, uma nau com todas as velas pandas, não adianta chorar, Alice, já falei que é loucura, pára de bater essas malditas carreiras, teu nariz vai acabar furando, melhor ser monja budista em Vitória do Espírito Santo ou carmelita descalça em Calcutá ou a mais puta das puras na putaqueapariu, não me olhe assim do fundo do poço, não me encham o saco com esse plim-plim hipnótico, eu fico aqui, meu bem, entre escombros.&lt;br /&gt;Desligou a televisão, saiu para o terraço de plantas empoeiradas, devia cuidar melhor delas, não fosse essa presença viva dentro de mim corroendo carcomendo a célula pirada na alma fermentando o gosto nojento na língua. O cheiro daquele único jasmim espalhado sobre os sete viadutos da avenida mais central. Bastava um leve impulso, debruçou-se no parapeito, entrevado, morto da cintura para baixo, da cintura para cima, da cintura para fora, da cintura para dentro — que diferença faz? Oficializar o já acontecido: perdi um pedaço, tem tempo. E nem morri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minueto e rondó&lt;br /&gt;Amanhecia. Não havia ninguém na rua.&lt;br /&gt;Não, foi assim: debruçado no terraço, ele olhou primeiro para cima — e viu que o azul do céu quase preto aqui e ali se fazia cinza cada vez mais claro em direção ao horizonte, se houvesse horizonte, em todo caso atrás dos últimos edifícios que eram, digamos, um sucedâneo de horizontes. E amanhecia, concluiu então. Debruçado no terraço, ele olhou segundo para baixo — e viu que na longa rua não havia rumores nem carros nem pessoas, sóos sete viadutos também desertos. Não havia ninguém na rua, concluiu ainda.&lt;br /&gt;Debruçado no terraço, amanhecia.&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, em seguida, um de-dentro pensou: e se alguém realmente e finalmente apertou o botão? e se aquele cinza-claro no sucedâneo de horizonte for o clarão metálico? e se eu estava dormindo quando tudo aconteceu? e se fiquei sozinho na cidade, no país, no continente, no planeta? Sabia que não. E um outro de-dentro pensava também, se sobrepujando mais claro, quase organizado, não totalmente porque para dizer a verdade não era um pensamento nem uma emoção, mas algo assim como o cinza-claro brotando natural por sobre o horizonte, se houvesse horizonte, ou como o vento fresco batendo nas cortinas, ou ainda como se uma onda nascesse daquele imóvel mar ativo, ali onde começa a luz, onde começa o vento, onde começa a onda, desse lugar qualquer que eu não sei, nem você, nem ele sabia agora: brotou qualquer coisa como — não quero ser piegas, mas talvez não tenha outro jeito — uma luz, um vento, uma onda. Exatamente. Uma onda calma ou arquejante, um vento minuano ou siroco, uma luz mortiça ou luminosa, repito que brotou, repetiu incrédulo.&lt;br /&gt;Ele teve certeza. Ou claras suspeitas. Que talvez não houvesse lesões, no sentido de perder, mas acúmulos no sentido de somar? Sim sim. Transmutações e não perdas irreparáveis, alices-davis que o tempo levara, mas substituições oportunas, como se fossem mágicas, tão a seu tempo viriam, alices-davis que um tempo novo traria? Não era uma sensação química. Ele não tinha a boca seca nem as pupilas dilatadas. Estava exatamente como era, sem aditivos.&lt;br /&gt;Vou-me embora, pensou: a estrada é longa.&lt;br /&gt;Tocou então o próprio corpo. Uma glória interior, foi assim que batizou solene, infinitamente delicado, quando ela brotou. Arpejo, foi o que lhe ocorreu, ridículo complacente, cor-nu-có-pia soletrou, quero um instante assim barroco, desejou. Mas vestido de amarelo como estava, visto de costas contra o céu, supondo que uma câmera cinematográfica colocada aqui na porta desta sala o enquadrasse agora pareceria quase bizantino, ouro sobre azul, magreza mística, que tinha sua cultura, sua leitura. E culpa alguma. Gótico, gemeu torcido, unindo as duas mãos no sexo, no ventre, no peito, no rosto e elevando-as acima da cabeça.&lt;br /&gt;O sol estava nascendo.&lt;br /&gt;Poderia talvez ser internado no próximo minuto, mas era realmente um pouco assim como se ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. O gosto mofado de morangos tinha desaparecido. Como uma dor de cabeça, de repente. Tinha cinco anos mais que trinta. Estava na metade, supondo que setenta fosse sua conta. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se devagar, num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés, para deslizar as costas pela sacada até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros, as mãos postas sobre o sexo.&lt;br /&gt;Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.&lt;br /&gt;Achava que sim.&lt;br /&gt;Que sim.&lt;br /&gt;Sim. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1223825897524751167?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1223825897524751167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1223825897524751167&amp;isPopup=true' title='30 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1223825897524751167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1223825897524751167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/morangos-mofados.html' title='MORANGOS MOFADOS'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6737625626368709049</id><published>2008-04-05T15:46:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T15:48:01.484-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morangos Mofados'/><title type='text'>O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;(Velha história colorida)&lt;br /&gt;Para Zé e Lygia Sávio Teixeira e para Lucrécia (Luiz ou CesarEsposito)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião,Júpiter saindo deAquário ou a Lua fora de curso.&lt;br /&gt;Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia- noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele antro (eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) — renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.&lt;br /&gt;Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo — e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:&lt;br /&gt;Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.&lt;br /&gt;Ernest Becker, A negação a morte.&lt;br /&gt;Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, de-lí-ci-as-o-cul-tas, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.&lt;br /&gt;O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, ho-je, falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo e1e-quem-estava-onde?Urano o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado bem assim, ela disse a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer processos esquizóides, os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.&lt;br /&gt;Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:&lt;br /&gt;Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.&lt;br /&gt;André Barbault, Astrologie&lt;br /&gt;Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes lembrou que boulevard era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:&lt;br /&gt;L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire&lt;br /&gt;à une expression supérieure et originale de sapersonalité.&lt;br /&gt;Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, lucide, por exemplo, e originale, era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.&lt;br /&gt;O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.&lt;br /&gt;Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.&lt;br /&gt;Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6737625626368709049?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6737625626368709049/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6737625626368709049&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6737625626368709049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6737625626368709049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/o-dia-em-que-urano-entrou-em-escorpio.html' title='O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4611776540997200862</id><published>2008-04-05T15:21:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T15:24:23.768-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Os Dragoes nao conhecem o paraiso'/><title type='text'>O DESTINO DESFOLHOU</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Em memória de&lt;br /&gt;Tânia Beatriz Pacheco Pinto.&lt;br /&gt;E para&lt;br /&gt;Fanny Abramovich,&lt;br /&gt;que me fez lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor:&lt;br /&gt;onde um homem projeta seu perfil e pergunta atônito:&lt;br /&gt;em que direção se vai?”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;(Adélia Prado: O Coração Disparado)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VÊNUS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HÁ seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema - um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.&lt;br /&gt;Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se - não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.&lt;br /&gt;Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe - sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde-musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:&lt;br /&gt;- Beatriz.&lt;br /&gt;A mãe riu, jogou para trás os cabelos - uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão - e disse assim:&lt;br /&gt;- Credo, aquela estrelete?&lt;br /&gt;Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão numa das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azul-marinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.&lt;br /&gt;Estrelete estrelete estrelete estrelete - repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora em que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela D’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CENAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra cena acontecia num dos festivais de fim de ano do Grupo Escolar, no Cine Cruzeiro do Sul.&lt;br /&gt;Ele estava na platéia, porque não sabia cantar nem dançar nem declamar, nem nada que os outros pudessem sentar e aplaudir - como ele sentava e aplaudia agora. Então Beatriz entrava no palco com um vestido branco repolhudo, sentava numa cadeira e a professora-apresentadora colocava um acordeom nos braços dela. Embora alta demais para a idade, Beatriz quase desaparecia no palco do cinema, atrás daquele enorme acordeom. Dava só para ver o rosto pálido, sério, a franja lisa acima do instrumento, as pernas compridas abaixo, tão finas que os carpins de renda desabavam sobre os sapatos de verniz preto e presilha. As duas mãos de unhas roídas, nas teclas.&lt;br /&gt;Então, acontecia. Na memória, anos depois, tinha a impressão de que havia um silêncio pouco antes dela começar. Um silêncio precedendo o brilho. Talvez não, só fantasias.&lt;br /&gt;De repente, logo após esse silêncio incerto, os dedos de unhas roídas de Beatriz começavam a mover-se sobre as teclas. Do acordeom e da voz dela, uma voz fina de vidro, agulha, espinho, brotava aos poucos uma valsinha chamada O Destino Desfolhou. O-nosso-amor-traduzia-felicidade-e-afeição, ele lembraria, suprema-glória-que-um-dia-tive-ao-alcance-da-mão. O coração bateu mais forte. Como quando soltara o balão, de tardezinha, atrás do taquaral. E alguma coisa brilhou no ar entre vermelho e roxo do entardecer, no meio das paredes descascadas do Cine Cruzeiro do Sul. Era tudo: cenas.&lt;br /&gt;Depois dessa, havia outras.&lt;br /&gt;Cenas mais comuns, com ele sentado quase sempre atrás ou ao lado dela, na primeira, segunda, terceira, quarta e quinta séries primárias. Colava de Beatriz, em Aritmética. Ela colava dele, em Linguagem. Tiravam notas boas. Mas em Comportamento, todo mês ganhavam o mínimo, porque não paravam de conversar. Todas as manhãs, menos sábado e domingo.&lt;br /&gt;Sábado não tinha Beatriz. Mas domingo, vezenquando, na missa das dez, novamente ela aparecia, ao lado da mãe. Dona Lucy não usava saias de veludo nem tinha cabelos dourados: era viúva, vestia preto, cabelos presos num coque, rosário na mão. Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A SEPARAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo. E quando começaram o ginásio houve: A Separação. Ele foi para o colégio Estadual, ela para o colégio das Freiras. Depois das férias grandes, pelas manhãs, num fim de verão, não havia mais Beatriz.&lt;br /&gt;Aos domingos, sim, tinha Beatriz na matinê das quatro. Sem dona Lucy. Havia agora Betinha, Aureluce, Tanara e outras amigas barulhentas em volta, uma fila inteira delas no Cine Cruzeiro do Sul. Com blusinhas de banlon e risadinhas, pipocas e barulho de papel de bala amassado justo na hora em que Johnny Weissmuller ia cair nas mãos dos pigmeus canibais. Areias movediças, caçadores de cabeça, dardos fatais. Odiava todas as gurias: gasguitas gasguitas. Menos ela. Quando retardava ou apressava o passo para cruzá-la na saída, ruborizava um pouco, dizia ó-h! cumprimentando - e apressava o passo de novo, para afastar-se logo e levá-la por dentro, perdoando tudo.&lt;br /&gt;Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Beatriz crescia principalmente para cima. Pescoço cada vez mais longo, rabo-de-cavalo preto liso escorrido batendo nas costas, abaixo dos ombros. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro. Descoordenava os movimentos, descontrolava a voz. Umas espinhas, uns pêlos apareciam em lugares imprevistos. Sentia-se pesado, lerdo, desconfortável como se não coubesse dentro do próprio corpo, suspenso entre ter perdido um jeito antigo de comandá-lo e ainda não ter encontrado o jeito novo. Que devia haver um.&lt;br /&gt;Nessa época, começaram os boatos. A filha da Lucy, diziam, mas mudavam logo de assunto quando ele se aproximava. Que horror, ainda conseguia ouvir, que tragédia. Primeiro o marido, agora a filha. Coitadinha, nem quinze anos. Aprendeu a maneira de ouvir sem ser visto. Na sombra, atrás da porta.&lt;br /&gt;Até surpreender, um dia, a palavra nova: leucemia. No dicionário, encontrou. Mas não conseguiu entender direito. Glóbulos, era bonito, redondo. Parecia pétala, sânscrito, dádiva: gló-bu-los. Brancos, excesso. Mata? perguntou no colégio. Disseram que sim. Em pouco tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A URGÊNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então baixou a pressa.&lt;br /&gt;Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais. Procurou Betinha, bilhete pronto, escrito com Parker em folha de arquivo. Quero falar contigo amanhã sem falta, na praça, depois da aula.&lt;br /&gt;- Tu sabes? - perguntou Betinha, olho no olho.&lt;br /&gt;Ele disse que sim.&lt;br /&gt;De tardezinha, veio a resposta: Beatriz concordava. Amanhã na praça, sem falta.&lt;br /&gt;- Mas tu sabes mesmo? - Betinha perguntou novamente.&lt;br /&gt;Outra vez, disse que sim. Perguntou se era verdade. Betinha sacudiu a cabeça, que era. Antes de ir embora, ainda falou:&lt;br /&gt;- Olha bem para o pescoço dela. Tem uns caroços aqui, assim, inchados. Aquilo é a doença.&lt;br /&gt;Ele olhou bem, quase meio-dia da manhã seguinte, sentados num banco do centro da praça. Enquanto pedia, trêmulo de amor:&lt;br /&gt;- Beatriz, quero namorar contigo.&lt;br /&gt;Ela apertou contra o peito um livro de História do Brasil:&lt;br /&gt;- Tu é muito criança - disse.&lt;br /&gt;Quase não conseguia olhar para ela. Olhava o chão de pastilhas coloridas no centro da praça. Formavam círculos, quadrados, estrelas grandes e pequenas. Menores ainda, estreletes.&lt;br /&gt;- Mas se eu sou criança - foi dizendo devagar, convincente -, se eu sou criança tu também é, porque só tens doze anos.&lt;br /&gt;- Treze - ela corrigiu. E ergueu o rosto para o sol no meio do céu. Os gânglios inchados quase desapareciam assim. Gân-gli-os, repetiu mentalmente, essa palavra que quase não conhecia.&lt;br /&gt;Espantado, percebeu que Beatriz usava batom. Batom clarinho, mal se notava. Parecia tão divertida e distante que aquela coisa densa, meio suja, dentro dele começou a se contorcer feito quisesse sair para fora. Cobra armando o bote, vômito armado na garganta. Ainda tentava controlá-la, quando insistiu:&lt;br /&gt;- Eu gosto de ti, Beatriz. Eu gosto muito de ti. Eu gosto tanto de ti.&lt;br /&gt;- Pois eu não - ela abaixou os olhos, procurando os dele. Quando encontrou, falou quase sorrindo, como quem dá uma coisa doce, não como quem enfia uma faca afiada: - Gosto só como amigo.&lt;br /&gt;- Como amigo, não me interessa - gemeu.&lt;br /&gt;Devia ser março, porque o sol era tão quente que fazia gotas de suor escorrerem entre as espinhas da cara dele até o lábio superior, onde aquele pêlos escuros começavam a se adensar. Sua cara de macho em preparação devia estar nojenta como a de um bicho. Mais tarde, bem mais tarde, se lhe perguntassem, mas ninguém saberia, poderia explicar que não tinha tido culpa. Foi aquela coisa suja de dentro que subiu descontrolada garganta acima, para atravessar a língua e os dentes até arredondar-se de repente na pergunta cruel que jogou no ar morno de meio-dia (e Sol na X, era o destino):&lt;br /&gt;- Beatriz, tu sabe que vai morrer?&lt;br /&gt;Ela levantou. Nem pálida, nem lágrimas nos olhos. Remota, fatídica. Ele levantou também. Só então percebeu que, além do batom, ela usava sapatos de saltinho que a faziam quase dois palmos mais alta que ele. Por trás dela, podia ver a torre da igreja. Talvez uma ou duas palmeiras. A caixa d’água ao longe, muito alta. O sino começou a bater. Beatriz virou as costas e saiu caminhando, pescoço erguido, o livro de História apertado contra os seios tão empinados que, num último golpe, percebeu: além do batom e dos saltinhos, Beatriz também usava sutiã.&lt;br /&gt;Beatriz era uma mulher. E ia morrer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A PARTIDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta, quis dizer, parado no meio da praça.&lt;br /&gt;Mas agora, tantos anos depois, não saberia se teve mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca. Não disse nada. Pisando lenta, olhando o sol, Beatriz foi embora para sempre dos doze anos de vida dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AH, DINDI...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou, depois disso, mais um pouco. Um, dois anos em que, além de para dentro, ele começou a crescer igual aos outros: em todas as direções. Aqueles pêlos finos engrossaram sobre o lábio superior, outros surgiram, escureceram curvas, reentrâncias. As espinhas desapareceram, a voz definiu-se. Aquela coisa densa de dentro transformou-se numa espécie de leite espesso que descobriu o jeito de puxar para fora, com movimentos da mão e estremecimentos do corpo. Na cama ao lado, Toninho repetia:&lt;br /&gt;- Vai criar cabelo na palma da mão. Vai ficar tuberculoso desse jeito. Se quiser, um dia me fala, te levo na zona. Ou vai sozinho, chega na Morocha e diz que é meu irmão, ela já sabe.&lt;br /&gt;Foram esses os anos em que Beatriz foi embora. Para a capital, para se tratar, diziam.&lt;br /&gt;Isso depois de uma fase em que ela trocou aquele batom rosa clarinho por outro vermelho, muito forte, aqueles saltos baixos por outros altíssimos, e decotes fundos, costas de fora, saias curtas, pernas cruzadas no clube, risadas estridentes na rua, cigarros e rosas de ruge nas faces cada vez mais brancas. De mão em mão, Beatriz passou. Pelas mãos de Cacá, que na aula de Educação Física abaixava o calção para mostrar o pau, o maior do colégio, quem quisesse ver. Ou pegar, alguns pegavam. Pelas mãos de Mauro, que tinha cabelo no peito e encestava bola no basquete como ninguém. E Luizão e Pancho e Caramujo e Bira e tantos outros que nem lembrava direito o nome, a cara, divulgando pelas esquinas, pela sinuca, pela praça ou matinê: ela faz de tudo, só chegar e meter a mão, dá pra qualquer um - uma percanha.&lt;br /&gt;Com ele, quase nada aconteceu, além de uma tentativa desastrada de namorar Betinha, depois que Beatriz se foi. Mas só perguntava por ela, até que um dia Betinha encheu, foi namorar Luizão, que tinha uma lambreta. Quase nada além daquele corpo crescendo em direções imprevistas, de um B gótico desenhado em segredo e carinho nas folhas finais dos cadernos, principalmente os de Geografia, quando tentava decorar as capitais - Suíça, capital Berna; Polônia, capital Varsóvia; Honduras, capital Te-gu-ci-gal-pa - e a cada nome estranho repetia e repetia, morto de saudade: para lá, então, para lá, Beatriz, quem sabe - vamos?&lt;br /&gt;Aprendeu a dirigir o Simca Chambord branco forrado de vermelho do pai. Mas Passo da Guanxuma acabava logo: só restavam quatro estradas de terra vermelha poeirenta batida, perdidas até o horizonte. Precisou professor particular de Matemática. Ficou para segunda época em Latim, não conseguia passar da primeira declinação, terra, terrae, terram. Escreveu sonetos de pé quebrado, sem parar ouviu Silvinha Telles num compacto cantando ah-Dindi-se-soubesses-o-bemque-eu-te-quero-o-mundo-seria-Dindi-lindo-Dindi...&lt;br /&gt;Até aquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sempre verão quando alguma coisa acontecia. Talvez porque no verão as pessoas tiravam cadeiras para fora de casa e, pelas calçadas, olhando estrelas, falavam de tudo que não costumavam falar durante o dia. Ele tinha aprendido o jeito de se confundir com as sombras, sem que o notassem. Tinha-se tornado uma sombra à espreita do que nunca era dito claramente, à beira do momento em que não haveria mais nenhum segredo a descobrir e a vida, então, se tornasse crua e visível, por tê-la tocado ele mesmo, não por ouvir dizer.&lt;br /&gt;Frase após frase, ficou ouvindo:&lt;br /&gt;- E a filha da Lucy, tu já soube?&lt;br /&gt;- Quem, a Beatriz?&lt;br /&gt;- E a Lucy tinha outra filha, criatura?&lt;br /&gt;Perguntei por perguntar. Que aconteceu?&lt;br /&gt;- Pois diz que morreu, em Porto Alegre.&lt;br /&gt;- Mas não me conta, criatura. Quando?&lt;br /&gt;- Ontem, tresantontem. Não sei direito. Vão enterrar lá mesmo.&lt;br /&gt;- Que barbaridade Tão novinha.&lt;br /&gt;- Pois é. Mas uma perdida. Não tinha nem dezesseis anos.&lt;br /&gt;- Um guria bonitinha. Meio espevitada, mas jeitosinha.&lt;br /&gt;- Diz que morreu grávida.&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, não me conta.&lt;br /&gt;- Que sabia que ia morrer. Aí deu um desgosto, emputeceu de repente.&lt;br /&gt;- Mas quem era o pai?&lt;br /&gt;- Deus é que sabe. Só aqui no Paço, retoçou com todos. O Cacá da Zulma, o Luizão da Lia, o Eira do Otaviano. Fora os de lá, que ninguém sabe.&lt;br /&gt;- Que coisa de louco.&lt;br /&gt;- Diz que a cabeça rachou toda antes de morrer.&lt;br /&gt;- Como, rachou?&lt;br /&gt;- Pois rachou, ué. Que nem porongo no sol. A tal da doença.&lt;br /&gt;- Mas a pobre da Lucy. Primeiro o marido, depois a filha.&lt;br /&gt;- Cada vivente com a sua sina.&lt;br /&gt;- A pobre da Beatriz.&lt;br /&gt;- Que Deus a tenha.&lt;br /&gt;- Escuta, teu filho não tinha um rabicho por ela?&lt;br /&gt;- Tinha? (Tanto tempo hoje, a garrafa de vinho quase vazia e a voz travada de Marjanne Faithfull cantando As Tears Goes By, tantas dores novas, e tão inesperadas, tivesse visto de lá, naquele tempo, com aqueles olhos que nunca mais teria.) Tinha tido mesmo - tão grosseiro, como se diz? - um rabicho por Beatriz? Não sabia responder direito.&lt;br /&gt;Deve ter olhado para cima e visto a estrela vermelha (seria Marte?) que naquele verão costumava brilhar justamente sobre a casa da Morocha. Teve um impulso, coice no peito, suor na testa. Mas esperou que o assunto mudasse, virando página após página de O Cruzeiro, jogado no sofá-cama da sala. David Nasser, disco voador, Márcia e Maristela, candangos, Odete Lara, coisas assim. Só depois de ter remanchado horas pela casa - outra vez então aquela coisa grossa, aquela coisa porca, aquela coisa furiosa dando voltas dentro dele - resolveu emergir devagarinho das sombras para a luz do poste sobre as pessoas sentadas na calçada.&lt;br /&gt;E visto assim, à luz do poste, dos cigarros, vaga-lumes e estrelas, camisa aberta ao peito, as duas mãos enfiadas fundo nos bolsos, parecia tão seguro e decidido que ninguém teria coragem de negar absolutamente nada quando pediu:&lt;br /&gt;- Pai, me empresta o auto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu a partida e enveredou pelos barrancos em direção à casa da Morocha. Alto do chão.&lt;br /&gt;- El hermano de Tonico? - ela perguntou, oferecendo a cuja de mate novo, dente de ouro na frente. - Entonces, eres tu? Bién que él me tenha hablado, muy guapo.&lt;br /&gt;Os anéis cintilaram quando ela abriu a porta para que ele penetrasse no interior enfumaçado. Já estavam lá, ou chegariam depois, não lembrava, o Caramujo, o Pancho, o Bira e talvez um ou outro daqueles bagaceiras todos que tinham tocado em Beatriz. Não falou com ninguém. Sentou sozinho numa mesa, pediu um maço de Hudson com ponta, uma cerveja. Antes que pedisse a segunda, uma loira meio velha, olhos verdes e falha num dente, pediu licença para sentar com ele. Usava saia justa de veludo de cor viva, de que nunca mais conseguiu lembrar a cor exata, embora tivesse certeza de que não era verde-musgo nem azul-marinho.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quando Toninho aos berros finalmente conseguiu acordá-lo, lembrava apenas de ter pedido para ouvir O Destino Desfolhou, depois de uma vomitada espetacular bem no meio da sala. Mais que tudo, das pernas escancaradas de uma loira meio velha numa cama de lençóis com cheiro estranho. O resto, névoa opaca, gosto de palha na boca.&lt;br /&gt;Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo.&lt;br /&gt;Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4611776540997200862?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4611776540997200862/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4611776540997200862&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4611776540997200862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4611776540997200862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/o-destino-desfolhou.html' title='O DESTINO DESFOLHOU'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6449295143472828379</id><published>2008-04-05T14:34:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T15:30:50.495-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Não consegui. Do grande esforço através dos doze meses, doze signos, doze faces, só guardo essa certeza. Que tonta travessia. Tudo bem, descansa. Faz parte não conseguir. Como Sísifo, se queres mitologias. Queres ainda? Por favor, estou farto. Brilhos baratos, as jóias eram todas falsas. Está certo, mas não quiseram te fazer mal. O mal não existe reverso do bem. Tanto faz, só peço que me deixem. Vou ficar encostado na árvore até amanhecer. Olhos abertos, feito uma vela acesa. Se ela insistir, direi que não tenho piedade alguma. Que não compreendo, não aceito nem perdôo mais a loucura. Se ele vier, pedirei que fique. Serei bom para ele. Mentira, não pedirei nem direi nada a ninguém. É indivisível, aprendi. Talvez consiga dormir. Talvez consiga acordar amanhã finalmente livre de tudo isso. Terei apenas um corpo, poucos pensamentos todos pequenos. Sei que foi inútil quando os vejo obstinados recomeçar e recomeçar sempre. Uma serpente que morde a própria cauda, um círculo infinito de enganos, Maya. Talvez não, perdeste a fé? Não te castiga assim, está tudo em paz. Nunca houve cães. É como uma cantiga de ninar nas cinzas do fim do mundo. Um barbitú rico, se preferires. Entorpece, melancólico, te leva para longe. Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar&lt;/em&gt; &lt;em&gt;a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa, eu canto para te enganar. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;XII. ANAIS&lt;br /&gt;Sabia que em breve estariam aqui. Estou um pouco tonta, creio que misturei álcool demais neste licor. Mas com a janela aberta sempre posso colocar a cabeça para fora, em busca de ar. Meus pés doem, embora sejam o mais belo de meu corpo. Porque sei bem que, de mim, quando o sol novamente encontrar meu sol, talvez no próximo verão, quem sabe daqui a setenta verões, também estarei partindo: completa. Foi a última coisa que ouvi, parecia a voz de Virgínia. De certa forma, também a minha. Depois disso, mais nada. Foi então que soube que logo estariam aqui. Comecei a me preparar, acendendo o incenso de sândalo, arrumando sobre a cama as almofadas lilases, apagando a luz do canto, acendendo a da cabeceira, mais íntima, sob o lenço abissínio, para que me encontrem em paz e sintam-se perfeitamente à vontade nesta nuvem roxa suspensa que habito e que chamo às vezes, irônica, de “meu mundo’&lt;br /&gt;Mais tarde explicarei, mas preciso dizer agora que soube de tudo no momento em que acompanhei os passos de Marcelo até a cozinha, até vê-lo debruçado sobre Raul. Foi então que corri. Alguma coisa me doeu, mas não o que começava a acontecer, nem os pés. Eu pré-sentia tudo o que viria. Parada na porta, espiando os dois, as imagens se sobrepunham sem controle na minha cabeça. Precisei então correr para o quarto, fechar a porta, abrir completamente as folhas da janela. Podia ver ainda uns restos de roxo nascidos do vermelho mais forte do horizonte para transformar-se no azul profundo da noite. Sim, eu estaria quieta em minha nuvem numa tarde de fevereiro, talvez um pouco tonta — eu estive, corrigi, porque já tinha passado, embora não tivesse vindo — eu estaria absolutamente quieta, quem sabe ouvindo música, qualquer coisa sobre o difícil de sair às ruas onde sem parar correm automóveis e emoções se misturam enquanto pessoas mordem umas às outras, às dentadas, procurando matar a fome com pedaços, sem deixar nada em troca do membro decepado. Então invadirias subitossuave a minha porta e me falarias de coisas tão caras a mim, feitas de frágeis, falsos encantamentos, como aquele botão de rosa branca que te dei faz algum tempo, e depois se abriu espantosamente, feito uma estrela, assim durou, semanas à tua cabeceira, como se eu te iluminasse, falarias por muito tempo ainda, provando ávido meus licores, a mergulhar falsamente sábio nessas magias onde sabes que tento me equilibrar, lembrarias uns toques oblíquos de antes, certos olhares a anunciar esse momento, velhos agostos em que te afastei de mim porque te supunha menor, não me enganava, até mais tarde, tão naturalmente que nem eu nem tu saberíamos dizer de quem partiu o início do gesto, a mão de um tocaria redondaleve a pele do rosto do outro para que começasse a acontecer tudo aquilo de beijos e suores e salivas e gritos de prazer, misturados num sonho não sei se meu o teu/meu corpo que já não sabia até onde era meu ou teu, sentindo sempre, desde antes do início do gesto, do toque, que não haveria depois, até este duro engano de hoje, e na manhã seguinte tonta, saciada do esplendor, meio morta, consumada no que julgara impossível, atravessaria o dia meio cega para descobrir vagamente que, além das mentiras, terias deixado em mim a semente de uma história complicada, esta, que arrastei durante doze longos meses, até que todos brotem, até enfim te concluir primário, tosco, terrês, nunca capaz de compreender que além desta nítida dor cravada que por muitas vezes beirou a morte, porque te queria como se quer, vadia, humanamente, a solução de Deus no Outro, deixavas também um encontro que não aconteceu, que talvez nada esclareça, porque tudo é de vidro, porque brotou da confusão apaixonada que despertasse em mim, que te julguei esclarecendo a vida, peça final de um quebra-cabeça, peça inicial de outro, de um excesso de líquidos e desejos para sempre incompletos, mas que ficará, ainda que ninguém a entenda, esses ramos, esses castelos, como não ficaste, porque eras só mensagem de algo que ainda não sei, isso sei agora, o que não saberei, passageiro como o passo de um bailarino em seu curto vôo, porque minha fantasia ultrapassa tua dança e a miúda sede do teu corpo não passa de veículo mecânico, alheio, involuntário do divino ou demoníaco que suponha verbalizar.&lt;br /&gt;Quando voltar setembro, tudo estará acabado, pronto para refazer-se. Comecei a escrever sem saber&lt;br /&gt;o que dizia, e não parei. Não morri nem enlouqueci. O que invento me ultrapassa sempre. E tem asas.&lt;br /&gt;Agora também.&lt;br /&gt;Ouvi as batidas na minha porta. Eu contava os pequenos comprimidos sobre as folhas escritas, querendo morrer outra vez, quando ouvi as três batidas na porta. Antes de abrir já os tinha visto, os onze, lado a lado, me olhando. Eu estava cansada. Mas sorri para eles. Juntei os comprimidos brancos entre as mãos que estendi para Virgínia, joguei-os ao chão. Júlio começou a tentar explicar qualquer coisa que eu já sabia. Pego as folhas sobre a cama, convido-os para entrar. Mordo o último pedaço do tomate maduro que Marcelo me estende. Sento na janela aberta. Sopra um vento fresco do lado do rio. Sirvo para mim mesma uma dose de licor de violetas. Brindo a ninguém, a coisa alguma. A lua está cheia. Ordeno disciplinada as folhas. O verão acabou. E começo a ler para eles o que escrevi durante o tempo em que se batiam pela casa. Começa assim:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6449295143472828379?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6449295143472828379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6449295143472828379&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6449295143472828379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6449295143472828379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-dcimo-segundo-fragmento-da.html' title='DODECAEDRO DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1985697733643956859</id><published>2008-04-05T14:11:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T14:14:33.750-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Também conheço esse jogo। Agora pões a trunfa marroquina de espelhinhos, miçangas, bordados e cordões. Como uma coroa, sobre a cabeça. Acendes incenso, velas, jogas sal marinho nos quatro cantos, a água sobre toalha branca. Te benzes. E reviras os olhinhos, dispondo Fatídicos Arcanos. Traças sinais cabalísticos no ar e dizes coisas, Sacerdotisa de Nada, lançando profecias como quem lança milho às galinhas. A cabeça sempre um pouco baixa, para disfarçar a arrogância de ter sido A Grande Escolhida. Porca, porca, porca. Cumpres com humildade tua Amarga Sina De Ser Assim Abnegadamente Superior. E te melas toda no visgo das estrelas, te encharcas de visões equivocadas. Depois procuras o ponto de fogo entre as coxas, e só então suspiras, aliviada de tanta santidade. Ainda continuas? Pára, te ordeno. Não tens esse direito. Há mais. Onde? Tenho todos os direitos, só não suporto nenhum. Como discipliná-los, agora? Pensei que se conseguisse estaria livre. Pensei que se denunciasse a perdição deles me livraria da minha. Agora também me perdi. Destinos, anúncios luminosos. Faz um esforço, vamos. Apunhala, grita, arremata. Xangô te guia, machado em riste. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;XI. VIRGINIA&lt;br /&gt;Desde o início soube. Na verdade desde ontem, desde antes. Mas me limitei a observá-los, enquanto me aplicava nos cálculos para que não se emaranhassem os destinos nem se equivocassem os ângulos entre os planetas, as cúspides, os luminares. Embora nem sempre me ouvissem, falava assim mesmo. Dizia de Netuno embaçado, tornando ainda mais sangrenta a fúria de Marte, do movimento maléfico de Mercúrio, unido à Lua para obscurecer a luz do Sol, do brilho mais forte de Vênus em sua Casa, trazendo à tona as funduras de Saturno. Sobre todos, pairava Urano, a estimular o presságio da estranha abundância provocada por Júpiter, enquanto mais longe, por trás da consciência, como o jorro de lava dos vulcões, Plutão faria explodir o pus de todas as feridas. Dependeria de nosso exercício de alquimia saber transmutar o gosto nojento desse visgo amarelo em outro sabor mais limpo.&lt;br /&gt;Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.&lt;br /&gt;Não lhes disse isso. Não era preciso. Não porque mais uma vez não entenderiam, mas sim porque depois de desfeita a desordem instaurada por Júlio, até que se inaugurasse nova ordem, menos precária que esta, alguém precisaria ir em frente. Me limitei a chamar Arthur, apanhar seu martelo, entregar minha luneta a Raul e arrancar as tábuas pregadas sobre as janelas da cozinha. Com a ajuda de Isis e Linda, escancará-las para que entrasse o ar noturno e a luz da lua cheia. Chamei também Marcelo à porta de seu quarto, que me abraçou com ardor, umas ardências das quais talvez precisarei até minha partida no próximo verão. Por isso tomei-o pela mão, trouxe-o comigo, me agradam suas sobrancelhas espessas, unidas graves sobre o nariz, seu olho de quem não teme matar e sempre planta. Estendeu-me um tomate maduro mordido, que mordi também, passando-o depois aos outros. Ë o primeiro, ele disse. Um por um, nós o provamos, parados à frente do quarto de Anaís. Sem querer, antes de bater, pensei obscuramente qualquer coisa assim:&lt;br /&gt;porque me antecede, ela sabe mais. Repito, ainda não é claro: porque ela me antecede, talvez saiba mais; se me amparar no passado verei mais claro o futuro. Bati três vezes.&lt;br /&gt;Entre a confusão de panos roxos, cristais, fumaça de incenso, quadros, sininhos, tecidos orientais pendurados do teto sobre a cama, livros, frascos, papéis escritos, Anaís sorria muito calma. Estendeu para mim as duas mãos em concha, cheias de comprimidos brancos, depois jogou-os ao chão. Júlio quis começar a dizer alguma coisa longa demais, e um tanto confusa, mas com um sinal ela fez entender que não era preciso. Depois apanhou as folhas de papel sobre a cama, sentou-se na janela aberta — esteve aberta o tempo todo, disse, ordenando as folhas — e perguntou se queríamos entrar para ouvir. Marcelo tentou abraçá-la. Ela afastou-o com um gesto delicado, querendo dizer que não, que agora não, que desse jeito não, que assim não, que não mais, quem sabe nunca. Servindo-se de um desses licores açucarados que costuma fazer, tão roxo que acho que era o de violetas, Anaís começou a ler. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1985697733643956859?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1985697733643956859/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1985697733643956859&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1985697733643956859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1985697733643956859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-dcimo-primeiro-fragmento-da.html' title='DODECAEDRO DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-8139679856245786182</id><published>2008-04-05T14:09:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T14:10:48.863-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Bem sei que gostarias. Mas não te colocarão na cruz, querido. Quanta vaidade, quanto palavreado tolo, quanta culpa idiota. Tanta Piedosa Afetação Messiânica. Desde o começo, sempre foi mentira. E todos sabiam. Pelo menos, enfrenta. Como aquela, mentindo naturalidades com tamanha perfeição que até consegue dizer: sou simples. E diz a verdade quando mente. Não me venhas com Densas Complexidades Psicológicas. Artimanhas, embustezinhos corriqueiros. Portas falsas, coração. Tudo isso me nauseia como a décima dose de um licor de anis. Oxum boceja, uma pluma amarela cai de seu leque. A culpa não existe. A mentira não existe. Falas com arcanjos enquanto cagas. Depois lavas as mãos, lês amenidades pelos jornais. Tudo não passa de um emaranhado de vísceras. Levarás para o túmulo tanta delicadeza, tamanha pudicícia. Os vermes engordarão de tanto açúcar-cande. O que não impedirá o fedor deflutuar como uma aura às avessas sobre a tua cova. Depois, talvez, quem sabe, por que não o Túnel de Luz Ofuscante? Não decifras nada, esfinge de plástico. Até quando insistirás nessa valsa grotesca, nos cristais de palha?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;X. JÚLIO&lt;br /&gt;Que não sou apenas um, tentei dizer depois de olhar nos olhos de um por um de cada um dos outros. Éramos nove. Além de mim, Marília abraçada a Martha, ambas observando os cigarros que eu acendia sem parar, como se dissessem que precisávamos economizar, Pedro muito próximo de Ricardo, Isis com a mão ensangüentada, Linda dançando ainda, Virgínia de repente muito alta olhava para mim como se visse de longe, de cima, Raul caminhando de um lado para outro, a repetir que tinha provocado tudo. Olhei-os primeiro um a um, já disse, no fundo dos olhos de várias cores e formas. E repeti, para que entendessem, se possível perdoassem, porque senti medo de Anaís e Marcelo trancados nos quartos, de Arthur fechado no banheiro, alguma coisa que eu e não Raul deflagrara se tornava mais grave do que poderia ter sido. Eu precisava então revelar, repeti, que não era apenas um, que fora o eu de mim que eu mesmo tentava manter calado, imóvel, quem dissera aquilo, pois para torná-lo assim quieto, inofensivo, precisava me movimentar, incessantemente dizendo fazendo coisas sem muita importância para me atordoar, para estonteá-los. Sou dois, repeti, e foi esse um que vocês não conhecem direito, nem eu, quem disse que haviam soltado os cães. Depois que esse eu-ele disse foi que começou a acontecer tudo isso que me assusta agora, como um final sangrento onde só o amor de alguns que o caos fez vir à tona e a solidão ainda maior de outros, pelo contraste do encontro alheio, como eu-eu, eu-ele, como meus dois eus, parecem revelar qualquer coisa como um novo caminho para o qual talvez nem todos os meus eus nem os de vocês estarão preparados.&lt;br /&gt;Acendi outro cigarro. Linda parou de dançar, embora a música prosseguisse na sala. Isis guardou um bombom no ar, a caminho da boca aberta. Raul e Virgínia me olharam imóveis, cada um num canto. Ao mesmo tempo, Martha e Marília, Ricardo e Pedro, foram desfazendo lentos seus abraços para me olharem também. A dor e o desespero tinham ido embora das teclas do piano. Tentei ser mais claro: ele mentiu, eu disse — eu menti, se quiserem—, e mais lento, assim:&lt;br /&gt;ninguém soltou os cachorros loucos. Se alguém quiser saber por que, direi novamente: não fui eu quem mentiu, mas uma parte de mim, e se quiserem perguntar também a essa parte de mim que desconheço quase tanto quanto vocês, se eu conseguisse localizá-la para trazê-la com cuidado à tona, sem que ameace tomar o controle de tudo, talvez ela dissesse: porque o verão está no fim, porque na verdade não nos conhecemos, porque nada do que acontecia aqui, rituais, levezas mentirosas, até que minha mentira nos ameaçasse aconteceria realmente se minha mentira não fosse verdade e nada tivéssemos a defender além da verdade inteira de um próximo momento mais verdadeiro que aquele. Mesmo medonho. Baixei a cabeça quando sem pretender fui forçado a dizer assim, cínico talvez, mas absolutamente passível de perdão, embora não necessitasse dele, porque de alguma forma havia feito exatamente o que me fora destinado fazer, ainda que para isso um eu desconhecido precisasse tomar o comando de mim e disse então, olhando nos olhos de um por um dos outros oito: foi por Amor que menti.&lt;br /&gt;Afastando-se de Ricardo, Pedro aproximou-se devagar, me tocou sem ódio no ombro para dizer: és meu oposto, mas se por amor confundes e libertas o caos de tudo e de todos, por amor eu tento tocar mais fundo, procurando um vôo que não conseguiria jamais num amor menor. Eu não queria seu perdão. Eu talvez fosse embora no momento seguinte, porque não havia cães nem terror nem paixão nem encontros nem nada além da mentira que o outro eu de mim inventara.&lt;br /&gt;Eu nada disse a Pedro. Apenas observei Virgínia caminhar até a porta do banheiro para explicar tudo a Arthur, e pouco depois, o martelo nas mãos, voltar à cozinha, entregar sua luneta a Raul antes de começar o trabalho, então despregar lentamente as tábuas das janelas. As batidas do martelo misturavam-se aos sons do piano. Ajudada por Linda e Isis, escancarou de repente as duas janelas. Era possível ver a lua cheia subindo no céu, cor de laranja denso atrás dos montes, vento fresco como se viesse do mar, embora estivéssemos no centro de todas as terras, entrando pelas janelas abertas para fazer esvoaçar nossos cabelos, arrepiar os pêlos de nossos braços, esfriar nossas faces. Acho que sorri quando, acompanhada pelos outros, Virgínia enveredou pelo corredor, detendo-se à porta de Marcelo para tomá-lo pela mão, sem dizer nada. Pararam todos à frente do quarto de Anaís. Pensei que não me queriam com eles, mas Pedro me tomou pela mão e eu me deixei levar. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-8139679856245786182?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/8139679856245786182/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=8139679856245786182&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8139679856245786182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/8139679856245786182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-dcimo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO DÉCIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5258266631812075605</id><published>2008-04-05T14:03:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T14:09:17.423-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO NONO FRAGMENTO DA DÈCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;NONO FRAGMENTO DA DÈCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;O gosto é bom, eu te dizia. E não impede a asa, a seta disparada em direção a Hydrus, Eridanus. Mas primeiro prova da terra. Depois, voa. Não aprendeste com Ícaro? Só não queiras tocar o Carro de Apoio. Ah quanta Ânsia Sufocante de Pureza. Quanta Mentira Adocicada. Lixo gritarei na tua cara, pura merda. Merda fedida de quem bebeu demais na noite anterior. Conheces bem a cor escura, o cheiro estranho de álcool. Não me venhas com Espiritualidades Transcendentais. Tenho mais nojo de tuas flores amarelas que de teu cu. Tua alma me importa menos que o cheiro de teu suor. Espera — também-não-é-tudo-assim-escuridão-e-morte, já dizia HH. Pára de te debater, não vais agüentar. A mulher dos comprimidosjá te olhou desconfiada. A garganta dói, provei o que não devia. A cabeça me pesa, pensei o impermitido. Tens que te movimentar no meio desses brilha recos. Tens que desmenti-los um por um. A cada dia assassinar o pai, estuprar a mãe. Pára de sonhar coloridices. Tenho asco de tuas fitas coloridas, teus perfumes. Foi assim que vocês todos morreram antes do tempo. Foi assim que eu não morri. Embora oco, estou no alto da torre, na Curva das Tormentas, as janelas abertas para que entrem todos os demônios. Os anjos também.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;IX. PEDRO&lt;br /&gt;Bebi as lágrimas de Ricardo como se a sede fosse minha, não dele. Precisava que aceitasse e permitisse meu impulso de amor para não permanecer assim, perdido entre os outros. Precisava de seu riso como Martha precisou da limpeza dos ladrilhos, até parar sozinha em frente às tábuas pregadas da janela. Você tem medo de que o sol não venha mais, eu disse, mas ele não respondeu, enquanto Manha aproximava-se devagar de Martha e eu rebuscava em vão na minha memória — tantos livros — tantas palavras gastas — uma frase, um verso qualquer capaz de fazê-lo erguer a cabeça e olhar direto para mim, me iluminando com seu olho claro. Nós estávamos todos em silêncio, o som do piano vindo da sala era muito suave agora, meu coração batia dentro do corpo debruçado sobre Ricardo, as duas mãos postas em seus ombros, as cabeças unidas. Ao afundar o rosto no seu cabelo, como um relâmpago foi que lembrei, e repeti veloz antes que se perdesse para sempre:&lt;br /&gt;Círio, candil,&lt;br /&gt;farol y luciérnaga.&lt;br /&gt;La constelación&lt;br /&gt;de la saeta.&lt;br /&gt;Ventanitas de oro&lt;br /&gt;tiemblan,&lt;br /&gt;y en la aurora se mecen cruces superpuestas. Círio, candil,&lt;br /&gt;farol y luciérnaga.3&lt;br /&gt;Sou a constelação da seta, repeti, e de repente ganhei quatro patas de cavalo plantadas sólidas sobre a terra, tronco ereto, entre as mãos humanas um arco distendido pronto a disparar a seta em direção ao céu. Senti os ombros dele se soltarem aos poucos, à medida que erguia a cabeça para me olhar. Colocou os braços em volta da minha cintura. Eu me curvei, para poder abraçá-lo inteiro.&lt;br /&gt;No mesmo momento que os acordes do piano começaram a se repetir frenéticos, sem medo algum nossas bocas abertas se procuraram. Houve nas línguas um gosto remoto das pitangas que colhíamos no caminho para o rio, depois o fresco abraço das águas envolvendo nossos membros, as gotas das lágrimas que eu bebia uma por uma ganhando lentas o mesmo gosto claro das pedras mergulhadas na sombra, poças de sol entre as quais brotava vez que outra uma descuidada flor amarela onde pousavam borboletas, essas de asas azuis transparentes, debruadas de ouro, então emergiríamos da água doce abençoados por ninfas e devas pisando descalços na terra quente de sol para subir a encosta cheia de espinhos até a cerca de arame farpado separando o abismo do caminho cercado de hibiscos que conduzia à casa de portas e janelas todos os dias escancaradas, porque era para sempre verão, em torno da qual nunca houvera nem haveria cães furiosos, latidos transformados nesse gosto vermelho de pitangas, salivas misturadas, quase negras de tão maduras. Quis dizer a ele que voltariam as manhãs, ainda mais claras agora que estávamos juntos, voltariam sim as claridades, o calor das tardes sobre a terra coberta de verde e também os crepúsculos de nuvens roxas e rosadas colorindo o cume dos montes, e mais tarde as noites embaladas por flautas, cetins, brisas com cheiro de mato varando as frestas das vidraças, se não para sempre, acho que disse, por muito tempo, por tanto tempo, tão longo, tão fundo, que será como para sempre, Ricardo, como se finalmente disparasse minha seta incendiada em direção às estrelas, trazendo-te junto comigo, porque brilharemos ambos de fogo, mais que o teu sol, a caminho dos meus inúmeros satélites girando no infinito.&lt;br /&gt;Desprendeu-se aos poucos, sem dizer nada. Voltou a cabeça para Raul, repetiu que havia provocado tudo. Mas se nada houve, me ouvi dizendo sem pretender, portanto nada foi provocado. E parecia tudo em paz, Martha e Marília abraçadas, junto à janela. Ricardo voltou-se outra vez para mim, como se sentisse ao mesmo tempo espanto e tranqüilidade pelo que eu dizia. Isis mastigou um bombom, distraída. Linda girou numa pirueta rápida, como antigamente. Os cães estavam quietos. Virgínia desembaçava lenta sua luneta na barra da saia, na cozinha limpa. Mas Júlio, Júlio olhava um por um nos olhos de cada um de nós, até começar a dizer qualquer coisa que não deveria ser dita nunca. Porque a nova ordem imposta após a desordem estabelecida poderia outra vez transformar-se em uma outra desordem que, desta vez, não sei nem sabíamos se conseguiríamos transformá-la em ordem novamente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5258266631812075605?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5258266631812075605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5258266631812075605&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5258266631812075605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5258266631812075605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-nono-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO NONO FRAGMENTO DA DÈCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1496851199191612715</id><published>2008-04-05T13:58:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:59:56.197-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sempre virá. A solidão não existe. Nem o amor. Nem o nojo. Odeio quando te enganas assim, girando entre aspanelas. A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. São inúteis os panos, vassouras, espanadores. Tenho medo de continuar. E não suportaria parar, ondas de lemanjá. Vês como evito pedir ajuda? Vieram da noite, eram muitos, assim compreendes? Talvez mais que doze, muito mais, incontáveis todos esses doze, já faz tempo. Às vezes sonho com eles. Com todos. Com quem nem conheço. Por um momento, cede. Fecha os olhos. Chafurda, chapinha. Afunda o rosto, solta a língua. Lambe os orifícios. Deixa a baba escorrer. Geme, cadela no cio. Como um macaco, acaricia teus próprios colhões. Estende tua pata peluda para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;VIII. MARTHA&lt;br /&gt;Deixei que Pedro o abraçasse. Deixei que Linda corresse até a sala para repetir o mesmo disco. Deixei que tsis abrisse novamente o armário, à procura de outra caixa de bombons. Deixei que Júlio gritasse palavrões, chutando coisas, a caminhar de um lado para outro, como se estivesse aflito para dizer algo que não podia ser dito. Deixo que se batam e se espalhem pela casa todos os dias, feito porcos. Mas antes que acordem e depois que dormem, sou eu quem dispõe outra vez os objetos em seus lugares certos. Coloco nos cestos, nas estantes, os livros e revistas que Pedro costuma esquecer nos cantos. Verticalmente, decepo os caules das rosas que Linda traz do jardim, de tardezinha troco a água dos vasos para que durem mais. Com a flanela elimino a poeira da luneta de Virgínia, para que não se embacem os astros, os destinos. Nunca agradecem. E nada espero. Pouco me importavam os cães lá fora, pouco me importavam o terror e a loucura soltos. Não seriam eles a impor a desordem dentro desta casa que também é minha.&lt;br /&gt;Soube que não enlouqueceria quando comecei a varrer os cacos de louça espalhados pelo chão. Mesmo um pouco antes, quando vesti o avental bordado com morangos. Quando joguei no lixo os cacos coloridos das xícaras que eu mesma comprara na cidade e, sem saber por que, guardei no bolso um pedaço verde-escuro. E também ao jogar o pano bordado de Marília dentro do balde, com sabão em pó e algumas gotas de vinagre, para lavar as manchas do sangue de Isis. Recolhi as garrafas vazias de vinho, lavei os cálices, fechei as portas dos armários. Quando não restava nada mais para fazer, comecei a esfregar o chão. Depois arrumaria a sala, bateria os tapetes, as almofadas, trocaria os lençóis nos quartos, esvaziaria o cesto de roupas sujas no banheiro, lavaria as paredes dos corredores, endireitando cuidadosa os quadros tortos, bateria os tapetes, escovaria os sofás, as cortinas. Sabia que ao chegar ao fim da última tarefa a primeira estaria desfeita, e poderia então recomeçar até chegar à segunda, quando a penúltima também estaria desfeita, e novamente refazer e refazer sem parar, sem cansaços. Não me importo nem sinto medo. Sei como disciplinar as coisas, e mesmo que o caos seja inevitável, pelo menos será filtrado pela nitidez de cada coisa em seu lugar exato.&lt;br /&gt;Sim, saberia. Mas depois de lavar o chão, fiquei muito cansada de mim, de todos, de ser tudo a cada dia sempre assim. Eu me aproximei da janela e, apoiada na vassoura, olhei para fora. Era impossível olhar para fora da janela pregada por Arthur, mas olhei como se pudesse ver o pátio calçado com pedras irregulares, a parreira com restos de uvas excessivamente doces, maduras demais, depois a horta com os pés altos de milho, mais além os vales, o rio limpo, as montanhas atrás das quais devia estar nascendo uma lua cheia. Apoiada na vassoura, fui primeiro uma bruxa fatigada de seus próprios feitiços ineficientes e, um momento depois, ainda menos. Apenas uma mulher severa, marcada, sozinha, tentando inutilmente dar ordem numa casa cheia de loucos. Quis ir embora, viver minha própria vida, por mais mediana ou mesquinha que pudesse vir a ser, sem cor. Como li em algum livro, talvez de péssimo gosto na sua verdade afetada e amarga, a solidão seria uma coroa de rosas, não de espinhos, sobre a minha cabeça. Eu não esperava nada além de uma vida limpa como as águas do rio lá fora. Foi quem sabe quase longe o disco de Linda, com seu piano desesperado. Foi talvez o choro convulso de Ricardo, foi Pedro debruçado sobre ele. Nunca mais, eu pensei que alguém viria. Nunca outra vez a mão de alguém na minha pele cheia de células mortas. Mas a meu lado, tangível, no limite da mão Marília soltava meus cabelos, desabotoava um por um os botões de meu vestido empoeirado. Suave, na minha testa vincada, sua mão dissolvia as rugas, apagava aos poucos, descendo mais, esses sulcos fundos que tenho observado todos os dias lavrarem os cantos de minha boca. Quis dizer que precisava arrumar a sala, trocar os lençóis nos quartos, bater as almofadas. Mas ela colocou a mão sobre a minha boca, pedindo silêncio. Sem saber, então soube que ela não se importaria com o cheiro de pó nas minhas roupas. Como se a janela estivesse realmente aberta e pudéssemos ver, como antes, as plantas prateadas sob a luz da lua, joguei a cabeça para trás permitindo que ela lambesse devagar meus seios há tanto tempo esquecidos. E abracei-a com força, no momento exato em que a vassoura caiu ao chão, deixando minhas mãos inteiramente livres para acariciá-la também.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1496851199191612715?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1496851199191612715/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1496851199191612715&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1496851199191612715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1496851199191612715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-oitavo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO OITAVO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2494360136300640467</id><published>2008-04-05T13:52:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:54:37.007-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;strong&gt;SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;A pedra morna de sol sob as minhas costas। Os garis limpam os restos da feira। Encosto a cabeça no tronco da árvore. Fecho os olhos, ofuscado pelo excesso de luz Dificil conciliar a manhã de fora com a treva de dentro. Respirar é uma oração que nada pede, Obá humilde. Continua, já ultrapassaste o meio, não tens mais o que temer. Repara, agora é como o centro escuro da noite. O próximo movimento só pode ser em direção à luz. Ele brilhava, ele era claro, ele era frito de sol. Todos queriam não estar ali. Não se deve, não se pode querer estar em outro lugar além do que se está. Eles desejam coisas que não existem. Eles não conhecem a paixão, nem tu. A tudo isso eu chamo tontura, não prazer. Evita a vertigem. Resseca, desbasta, o limite é a nudez do osso. Além dele, se avançares, há somente poeira. Mas cuidado, exigem-se os dentes fortes que Nanã perdeu. Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real. Como te atreves a supor que carregas O Facho de Luz? Sei bem quanto brilha, mas te digo que serias incapaz de vencer as Iansãs do vento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;VII. RUIVO&lt;br /&gt;Não sei se tive medo — dos cães, da noite, dos corpos — ou se apenas queria que me vissem. De alguma forma, pensava confuso que jogando luz sobre a cozinha outra vez nos olharíamos nos olhos. Parecia importante saber se a mão no meu cabelo pertencia a Pedro ou a Virgínia, se a boca contra a minha era de Júlio ou Martha e assim, pensei, também os outros. Para que soubéssemos, acho, da exata medida e intenção de cada toque em cada membro, foi que acendi a luz. Como um filme que de repente pára, todos me olharam imobilizados no que faziam. Eu era o centro móvel do que começaria a acontecer no próximo momento. Marília olhou como se procurasse censura nos meus olhos. Mas eu queria festa, não dor. Caminhei para o armário, apanhei três garrafas de vinho tinto, coloquei-as sobre a mesa. Pedro abriu-as, enquanto Martha dispunha os cálices. O disco parou. Em silêncio, eu à cabeceira da mesa, brindamos a qualquer coisa que ainda não viera. À nossa sobrevivência, quem sabe.&lt;br /&gt;Mas embora o vinho, a festa tinha acabado. E não nos olhávamos nos olhos, apesar da luz. Os cães já não uivavam. Não havia mais a dança de Linda nem a canção de Isis. O silêncio tornou-se tão denso que cada movimento precisava ser feito devagar, como se o ar pesasse à nossa volta, dificultando os gestos. Quis pensar então na minha vida antiga, mesmo uma nem muito remota, que fosse pelo menos até pouco antes do pôr-do-sol quando, ao voltar para casa, do caminho cercado de hibiscos que liga o portão de entrada à varanda, enxerguei Virgínia ajustando a luneta para observar Vênus. Não consegui lembrar mais nada. Eu não tinha passado. Acho que pensei que não tivesse talvez também futuro. Como no centro de um palco, na cabeceira da mesa, a luz batendo direto no meu rosto, o braço esquerdo caído ao longo do corpo, o direito segurando um cálice de vinho. Alonguei lentamente a coluna. Então olhei-os.&lt;br /&gt;Éramos nove eremitas. Na cabeceira oposta da mesa, Raul olhava como se me tivesse transferido em segredo, em silêncio, o cetro de algum poder que eu sequer adivinhava o valor. Eu preparei o chá, ele disse, você preparou o vinho: um outro e novo movimento se inicia agora. Desejei que alguém colocasse outro disco na sala, que os cães recomeçassem a uivar, que caísse de repente uma dessas tempestades violentas de verão. Nada acontecia. A tática solenidade disposta entre nós começou a pesar tanto que, como um professor ou um psicanalista, tive o impulso de olhar o relógio para dizer qualquer coisa como bem, por hoje é só. Eu não conseguia dizer nada. Desviei meus olhos dos de Raul para fixá-los num quadro pouco acima da cabeça dele: a Santa Ceia desbotada de onde Tiago Menor parecia olhar direto nos meus olhos. Outra vez me voltou à memória o caminho de hibiscos. Tirei do bolso o quadrado de papel vegetal. Ergui-o como uma hóstia, as duas mãos unidas, até que a luz batesse justamente sobre ele. Através do papel, os grãos miúdos brilhavam feito pequenos sóis.&lt;br /&gt;Uma corrente de energia percorreu os outros. Júlio apressou-se a trazer o espelho. Pedro tirou da cintura o punhal marroquino. Marília acendeu a vela. Depositei na mesa o copo de vinho. Com a mão direita, abri devagar o papel sobre a palma da mão esquerda. Antes que alguém pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, soprei fortemente o pó. Flutuou por instantes no ar, depois espalhou-se sobre os móveis, pelos cantos, pelas quinas. Dissipar a névoa, sim, talvez fosse esse o meu sentido. Mas se era realmente assim, não compreendia por que, como a noite então, uma grande tristeza, neblina, começou a descer sobre mim. Eu não tinha passado algum antes do caminho de hibiscos, os cães recomeçaram a uivar, eu só queria iluminá-los, a cozinha estava muito suja, não havia futuro. Minha vida me doía fundo sangrada sem saída. Tudo que eu precisava era o sol quente da manhã seguinte que não viria, aquecendo minha cabeça confusa. Cobri o rosto com as mãos e comecei a chorar&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2494360136300640467?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2494360136300640467/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2494360136300640467&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2494360136300640467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2494360136300640467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-stimo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6415782129260089582</id><published>2008-04-05T13:48:00.002-03:00</published><updated>2008-04-05T13:50:27.039-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ele sabia dançar. Era bonito dançando. Mandavam sempre que repetíssemos, talvez para que os outros aprendessem a beleza. Ou mais cruéis: para que ele mesmo percebesse como eu já não conseguia dissimular o desejo de tocá-lo. Um dia, toquei. Mas sem cuidado. Como numa pirueta errada. Sem sentir, você calcula mal alguma coisa no passo e, em vez do vôo, vem a queda. O ridículo é que só no chão você percebe que caiu. Então é tarde demais. Mas havia um esboço de prazer quando nos tocávamos, na dança. E o próprio prazer, aquela noite. Gritos de gozo, mordidas, pêlos melados da porra do outro. Disse a ele que conhecia o gosto. Quando me permitem descer a colina, as pessoas olham com suspeita minha cabeça raspada: as cicatrizes expostas denunciam que estive lá. Não há como escondê-las, as marcas de Obaluaê. Por ter estado lá, quem sabe, um Quase Encontro merece punição? Me explica, que às vezes tenho medo. Deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;VI. LINDA &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como um gatinho estendido ao sol, as pernas cruzadas, curvei para dentro os ombros, abrindo lentamente os braços। O movimento brotava das omoplatas para descer pelos ombros, atingindo primeiro os antebraços, depois os cotovelos, até chegar aos pulsos, e então escorregar pelas mãos, avançar sobre um por um dos dez dedos, saindo pelas pontas, jatos de luz. Das minhas unhas jorravam raios iluminados pelas paredes da cozinha, orientados pela canção de Isis. Refletidos nas paredes, voltavam a iluminar o rosto dos outros, fachos de luz que eu conduzia para destacar as pálpebras fechadas de Marília, os cabelos de Ricardo, os olhos de Virgínia, azul, dourado. Junto com meus movimentos, a voz de Isis silenciava os cães e o terror solto em volta da casa, à procura de qualquer coisa como uma gota de sol caída no centro da cozinha suja. Meus movimentos e a voz dela limpavam o lixo da cozinha. E eu os queria assim, todos concentrados unicamente em arrancar beleza do espinho cravado naquele momento escuro que começara a se instalar dentro da casa.&lt;br /&gt;Como bailarina de circo, uma das pernas equilibrada no fio do arame, a outra alongada no ar, as mãos inesperadamente donas do poder de iluminar as coisas, as pessoas. Não sei precisar o momento em que o fio tremeu, abalando meu corpo inteiro, e o poder fugiu. De repente precisei me movimentar mais rápido, para não cair no espaço vazio sem rede, me arrebentando sobre os cacos coloridos espalhados no chão. Os gestos brotavam agora de todos os membros, já não era um gatinho novo ao sol damanhã, mas um animal ferido contraindo-se entre a dor das feridas e a tentativa de manter um equilíbrio qualquer ou captar um sopro capaz de evitar o desabamento da morte, da loucura e do ódio sobre cada uma das nossas cabeças. Isis parou de cantar, imune a meu poder que retornava, embora eu já não soubesse se com ele mobilizava luz ou treva. Mas dominava ainda outros, que acompanhavam minha fúria batendo palmas violentamente. Suada, contorcida, eu não consegui parar. Enquanto Isis procurava alguma coisa pelos armários, um a um eles levantaram-se para dançar comigo.&lt;br /&gt;Júlio apagou a luz. No escuro, não nos importávamos de pisar nos cacos, procurando pelo espaço os membros suados dos outros. Uma língua molhada, quem sabe a de Martha, entrou pela minha boca, ao mesmo tempo em que eu sentia os pêlos molhados de um peito de homem, talvez o de Pedro, colado às minhas costas. Eram da bacia que os movimentos surgiam, subindo pelo ventre, eriçando os bicos de meus peitos para alcançar o pescoço que eu jogava para trás, afastando da testa os cabelos suados. Preciso de um peso de homem sobre meu corpo, preciso de um membro duro de homem para umedecer em minhas entranhas esse vazio áspero que me faz sempre dançar e dançar, como possuída por alguma força estranha que reage sem cessar à imobilidade da morte. E no entanto, toda a ferocidade que eu provocava sem querer continuava sendo beleza e equilíbrio, porque talvez nada mais nos restasse naquela casa cercada por cachorros loucos senão amar uns aos outros. Mesmo como animais. Da selvageria, então, em vez da doçura, arrancaríamos nossa gota dourada de sol. Deitada na mesa, coxas escancaradas, puxei Pedro sobre mim. Como uma balança desequilibrada que pende de repente para um dos lados, Ricardo acendeu a luz. Vi primeiro Ísis, os enormes seios nus derramados sobre uma caixa vazia de bombons, a mão estendida para mim. O coração de Pedro batia forte contra o meu. Voltei a ouvir os sons do piano no disco que eu colocara na sala e não sei por que, olhando o chão repleto de cacos de louça coloridos, pedaços sujos de chocolate, gotas de sangue, peças suadas de roupa, percebi que a noite tinha descido completamente. Um cão uivou longe. Entre os bicos dos meus seios e os pêlos do peito de Pedro, uni cuidadosamente as pontas dos dez dedos, uma das mãos contra a outra. Como se circundasse uma delicada esfera de cristal. Como se procurasse, de alguma forma intensa e inútil, recuperar certa espécie de equilíbrio ou beleza para sempre perdidos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6415782129260089582?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6415782129260089582/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6415782129260089582&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6415782129260089582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6415782129260089582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-sexto-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3063723167454831823</id><published>2008-04-05T13:42:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T13:45:21.173-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Tanto sangue dentro do meu derramado coração, era assim? Talvez fosse, mas não se trata disso. Lamúria insuportável, o corpo, esse que se arrasta com suas carências. Não precisa pressa, calma lá. A porteira está fechada para quem quiser passar, era isso? Já te disse que não responderei. Quero saber, e depois? Passaram-se meses, ele voltou. Foi longo. Doía. Continua doendo. Ainda não acabou. Passa, passará. Às vezes ficávamos deitados na minha cama enquanto eu tentava decifrar o seu destino. Marte, Ossanha gostava das folhas, das pedras. De peixes também. Ele me ensinou que as pedras eram vivas. Desde então eu as mantenho imersas em copos cheios d’água, para que cresçam. São muitas. Agora espero outro. Que como ele, não será mais do que Uma Nova Metáfora do Encontro. Por enquanto espio as pombas nas cumeeiras. Quando não há música, canto. Quando paro de cantar, como maçãs. Os talos estão jogados pelo quarto, entre os lençóis. Apodrecem como meus sentimentos, jogados na via-láctea. Esfrego a lâmpada, mas o gênio se foi. Talvez me bata outra vez contra as grades da janela até me levarem para a mesa de choques.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;V. ISIS&lt;br /&gt;Fiquei olhando os bombons caídos no chão, misturados aos cacos coloridos. Martha e Marília repetiam tanto que precisávamos economizar que me curvei para apanhá-los. Júlio esbarrou em mim, cravei um dos cacos na palma da mão esquerda. Quando consegui arrancá-lo percebi que era de um azul muito claro, cor do céu nas tardes de verão. Lambi o sangue que não estancava, manchando os bombons, os outros cacos. Ia enxugar o sangue na barra da saia quando vi o pano branco no chão, mas só depois de tê-lo enrolado nos dedos é que Marília gritou e percebi que era o seu bordado. Aquele inacabado, dos ramos de trigo, dos quatro cantos. Tarde demais, pensei. E sem querer pensei junto que, com as manchas de sangue, o trigo pareceria ter brotado num campo de papoulas. Lembrei em seguida das papoulas que Linda e eu costumávamos comprar no final da primavera. Desejei que hoje fosse outra vez como uma manhã de novembro, verão novo no ar, para que pudéssemos colocá-las, sobretudo as vermelhas, as papoulas por todos os cantos da casa, em vasos brancos.&lt;br /&gt;Tive vontade de chorar quando pensei que o verão estava quase no fim, tive pena de mim mesma assim gorda, inícios de março, os cachorros loucos em volta da casa, jogada ali no chão da cozinha entre bombons esmagados, tábuas, pregos, cacos coloridos, sangue, Marcelo e Anais trancados nos quartos. Arthur no banheiro, Marília muito pálida à minha frente, braços cruzados sobre o peito, olhos fixos no pano que o sangue de minha mão encharcava cada vez mais. Ai o trigo, as papoulas, o bordado.&lt;br /&gt;Para não chorar, por ter pensado na noite de março descendo clara sobre os telhados, pelos bombons esmagados, principalmente por meu medo, acho, para calar a fome de açúcar no fundo da garganta, foi que comecei a cantar. Devia estar patética e porca e triste jogada no chão, mas como se aprovasse que eu ainda não começara a fazer, Linda sorriu quando abri a boca. Sem que eu escolhesse, a canção&lt;br /&gt;foi nascendo summertime2 sim eu repeti summertime and the living is easy. A voz a princípio fraca, desafinada, perseguindo uma melodia que escorregava entre os acordes repetidos do piano vindos da sala, mas aos poucos mais forte, nítida, para meu próprio espantofish are jumping and the cotton is high sufocando todos os outros sons. Pouco a pouco Marília, Raul, Júlio, Linda, Ricardo, Pedro, Martha, Virgínia sentaram-se à minha volta enquanto a noite descia, e quem sabe para tranqüilizá-los eu repetia e repetia one of these mornings e Marília fechou os olhos 1 will gonna rise up singing e Raul sorriu you’re gonna spread e Júlio apagou o cigarro your wings e Ricardo distendeu os músculos do rosto and you’ll take to the sky e Pedro fechou o livro but tili that morning e Martha tirou os óculos there’s nothing can harm you e Virgínia olhou para cima como se visse o céu with your mammy and daddy standing by e Linda então abriu devagarinho os braços começando a dançar enquanto todos batiam palmas ritmadamente e eu retomava a primeira parte da letra e todos cantávamos juntos tão alto e claro summertime summertime summertime tão completamente confiantes na manhã de sol próxima que não havia mais cães soltos nem xícaras quebradas ou bombons esmagados pelo chão.&lt;br /&gt;Minha voz era maior que eu e mais forte que todos os demônios soltos pela casa. Para manter eterno o verão atrás da janela, eu cantaria até o amanhecer, cantaria cada vez mais alto até que Marcelo, Anais e Arthur viessem se reunir a nós como antigamente, e como antigamente Linda me abraçaria entrelaçando papoulas douradas nos meus cabelos, pedindo que cantasse mais. Como se estivesse grávida de um tempo novo, eu cantava. Mas tudo mudou. Linda começou a girar cada vez mais depressa. O que costumava ser doce em sua dança foi-se transformando numa espécie de fúria que fazia os outros baterem palmas cada vez mais rapidamente até que, dissociados, havia quatro planos, distintos, sonoros, dentro da cozinha, Os uivos dos cães, o piano na sala, os movimentos de Linda e minha canção cada vez mais esfarrapada. Comecei a cantar mais baixo. Até calar. E voltou a fome de açúcar. O sangue escorria da palma da mão. Levantei com dificuldade para procurar nos armários fechados outra caixa de bombons. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3063723167454831823?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3063723167454831823/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3063723167454831823&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3063723167454831823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3063723167454831823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-quinto-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4927666211946214059</id><published>2008-04-05T13:36:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T13:41:13.357-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO QUARTO FRAGMENTO DA  DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;QUARTO FRAGMENTO DA DECIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Me perdoa, não sei se conseguirei. Disse a ela, é necessário o escuro porque dele brota a luz. Como uma larva no interior visguento da crisálida, sem supor que a borboleta será seu próximo momento. Tão bíblico, ai, tão edificante. Toma cuidado, senão daqui apouco escreverás que viste uma pombinha branca cruzando mansamente os céus, talvez uses até o plural (não te atreverias a dizer “firmamento’ não?), e era sexta-feira, dirias. Faz parte o que vi, mas esquece. Tudo. Tenho vontade de trazê-la para cá, do morro em Santa Teresa. Ela não suportaria, não suporta estardesperta e ter emoções. O ar é muito puro, chega a doer nos pulmões, eu disse quando ele espatifou as doze xícaras. Nenhum de nós poderia voltar atrás. Nem avançar ou parar de contar. Eu era o décimo terceiro. E estava mudo. Tudo isso começou faz tanto tempo. Obliqüidade, transparências. Reflexos sinuosos, ninguém compreenderia. Não estás sofrendo. Estás ausente da dor, tudo é branco. A escolha foi tua. Tem um preço: este.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV. ARTHUR&lt;br /&gt;Gosto do cheiro do corpo dela. Ao entardecer, quando se banha, deixando a pele libertar aquele perfume como o da terra molhada após as primeiras gotas de chuva. Gosto de seu rosto sem pintura alguma, do ar severo, das marcas sob os olhos, os cabelos escuros, partidos ao meio em bandós, presos na nuca por uma fita áspera, juta, sarja. Se mais tarde alguém me perguntasse por que, só poderia responder que quero Marília — soube disso pela primeira vez no momento exato em que a vi levantar-se da mesa com o bordado nas mãos. Como se a pata de um desses cães que andam lá fora se abatesse sobre a minha cabeça e entre a dor, a tontura e quem sabe também algum medo, localizasse um fogo me incendiando por dentro. Sem soltar as tábuas, o martelo e os pregos, segui atrás dela pelo corredor, desviando-me do movimento que Linda fez com os braços para tentar me impedir. Não, ninguém perguntaria nada. Batem-se todos pela casa fechada, mais loucos que os cães lá fora. Sei ainda que somente eu — cabeça, princípio — mantenho qualquer coisa como uma lucidez, poderosa o suficiente para que nenhum deles se atreva a cobrar o que fiz.&lt;br /&gt;Uma bofetada em pleno rosto vê-la ali sentada, à beira daquela ridícula Pietá, a cabeça de Raul prestes a desabar em seu colo. Não decidi nada. Como se não fosse eu, ouvi o ruído das tábuas caindo nos ladrilhos, um momento depois de já ter feito o gesto. Sem largar o martelo, torci o braço de Marília até erguê-la do chão. O pano bordado escorregou sobre o rosto de Raul, como um desses lenços que cobrem a face dos cadáveres. Quase morto assim, face encoberta: matá-lo seria apenas consumar o que já estava feito. Com o braço livre, Marília interrompeu meu impulso no instante de baixar o martelo com força sobre os ossos dele. As unhas curtas, cheias de terra, cravadas no meu braço, um pedido nos olhos escuros. Eu disse que sim, que o pouparia se ela fugisse comigo. Pela clarabóia no teto do banheiro, se empilharmos alguns móveis poderemos abri-la para alcançar o telhado, de lá saltar para um dos galhos da figueira ao lado da casa e então, como macacos, através das árvores, chegar até o rio, passando para o outro lado. Os cães hidrófobos não se atreverão a cruzar aquela água.&lt;br /&gt;Pedi todas essas coisas, cercando-a em volta da mesa. Percebi que tentava proteger alguma coisa com o corpo. Agora consigo dar certa ordem a tudo que ia acontecendo. Lembro da grande mesa de madeira e do vestido preto de Manilha encobrindo algo sobre a mesa.&lt;br /&gt;Não quero fugir, ela disse. Não daqui, não com você. Foi quando tentou alcançar a porta que liga a cozinha ao corredor e o corredor à sala que vi o bule branco cercado por doze xícaras coloridas. De repente soube que o martelo permanecera entre meus dedos exatamente para esse próximo gesto. Muito tempo antes, ele já estava pronto. Creio que foi nesse momento que Manilha fugiu.&lt;br /&gt;Os cães uivavam, cada vez mais próximos. Espatifei primeiro o bule, depois, uma a uma as xícaras coloridas. Lembro dos cacos roxos de uma delas e de como, por alguma razão obscura, absurda, tentei proteger de meus próprios golpes a xícara vermelha. Mas meu gesto não respondia à minha vontade. Guardei apenas um dos cacos, que trouxe comigo para o banheiro. Os outros começaram a correr para a cozinha. Ao passar, esbarrei no corpo redondo de Isis. Martha falou alguma coisa que não entendi. Acho que escutei Raul repetir chorando que agora nada mais podia ser feito, que estávamos perdidos. Talvez estejam, eles. Não eu. Quando meu coração parar de bater tão forte, colocarei a cadeira sobre a privada, forçarei a clarabóia com o martelo para alcançar o telhado, a figueira, o rio, o outro lado. Talvez tenha o cuidado maligno de abrir por dentro a porta do banheiro, antes de fugir. Não seria impossível, nem muito difícil, que um dos cães alcançasse o telhado. Ele gostaria de atravessar o corredor rangendo os dentes, a espuma negra na boca, para encontrá-los como se nada tivesse acontecido, reunidos feito um patético simulacro de famiia na sala de jantar. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4927666211946214059?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4927666211946214059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4927666211946214059&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4927666211946214059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4927666211946214059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-quarto-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO QUARTO FRAGMENTO DA  DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5611721543640093420</id><published>2008-04-05T13:31:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:33:51.962-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO TERCEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;TERCEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Naquele tempo a escada ainda não era amarela. Ela me ajudava. Quando as contrações se tornavam insuportáveis, eu descia pela escada que ainda não era amarela para repetir o disco. Isso me acalmava, molhar plantas, abrir livros ao acaso. Foi numa dessas vezes que encontrei os versos falando da maldição. Só então entendi que aquele era o momento exato do abandono dos Deuses. Quando Medéia perde os poderes por amor a Jasão, Exu se ausenta. Mas tudo isso é necessário? Tudo isso o quê? As explicações, as memórias, os mitos. Não sei, não sei, não consigo de outro jeito. Continuo esperando certa nitidez vinda de fora. Por enquanto, nesta outra cidade, ouço e vejo apenas o vento misturando terras, pólens, papéis, sementes, miasmas, folhas e histórias. Sopra mais forte na minha esquina sobre o abismo. Curva das Tormentas, eu a chamei. A enfermeira disse que por isso estão todos hoje mais agitados. Recuso a injeção para esquecer. Quero voar com o vento para o centro da Curva das Tormentas. Me ajuda, pai, meu pai&lt;br /&gt;— meu pai Ogum, senhor das estradas.&lt;br /&gt;III. MARILIA&lt;br /&gt;Eu a vi atravessar rápido o corredor. Parecia chorar. Nunca sabemos ao certo quando Anaís chora realmente ou se está apenas um pouco embriagada por seus licores açucarados, pelas drogas que costuma comprar nos dias em que vai à cidade, quase sempre às sextas. Logo depois ouvi os passos pesados de Marcelo saindo da cozinha para bater com força a porta do quarto. Não tive tempo de compreender. De repente havia um excesso de ruídos no ar, aquele disco de piano de que Linda tanto gosta, muito alto, um grito estridente de Ísis, os uivos dos cães, Ricardo parado no meio da sala dizendo que precisávamos fazer alguma coisa, Arthur trancando todas as portas enquanto Júlio caminhava de um lado para outro, fumando sem parar. Na mesa, Pedro, Virgínia, Martha e eu. Martha parecia concentrada fazendo contas na calculadora, anotando números no pequeno bloco, detendo-se às vezes para levantar os óculos redondos que freqüentemente escorregam por seu nariz comprido. Virgínia terminava um mapa, traçando riscos retos, azuis ou vermelhos, com quadrados ou triângulos, entre os planetas. Pedro lia. Espiei por cima de seu ombro no momento em que sublinhava uns versos assim: Aí, da terra trevosa e do Tártaro nevoento e do mar infecundo e do céu constelado, de todos, estão contíguos às fontes e confins, torturantes e bolorentos, odeiam-nos os deuses. Eu olhava minhas unhas sujas de terra, sem conseguir estender as mãos para apanhar aquele bordado com ramos de trigo nos quatro cantos, que prometi a Raul terminar hoje.&lt;br /&gt;Hesíodo: Teogonia.&lt;br /&gt;Estendia as mãos mas, antes de apanhar o pano, via a terra das unhas, então lembrava de Raul, da promessa feita. Acho que de repente fiquei espantada por estar exatamente aqui, entre todas essas pessoas, e devo ter me perguntado vagamente por que tudo em minha vida teria me conduzido para este momento, esta mesa, esses cães uivando lá fora. Não estava preocupada. Tudo que precisávamos era economizar o que restava de comida, cigarros, papel, todas essas coisas. Mas Isis, comendo bombons sem parar enquanto Júlio fumava e Martha escrevia, parecia não compreender que ignorávamos até quando os cães permaneceriam soltos. Da sensação de estranheza e também de irritação que me veio de todos eles, emergiu lenta a figura de Raul. Sabia que preparava o chá das ervas que eu colhera pela manhã, quando Marcelo foi até a cozinha contar a ele. Mas agora, depois de todos os ruídos silenciados, somente o som do piano vibrando no ar, entrecortado pelos uivos dos cães, era como se não nos importássemos com ele. Vou ver Raul, eu disse, e me afastei da mesa com o bordado inacabado nas mãos. No corredor ouvi gemidos vindos do quarto de Anaís, e qualquer coisa como um resfolegar de bicho no quarto de Marcelo. Mas não sabia se não seriam talvez os uivos dos cães, os acordes do piano ou os passos de Júlio.&lt;br /&gt;Raul estava deitado no chão da cozinha. Ele sempre me lembrava um lago. Quieto feito um lago, o branco da roupa destacado contra os ladrilhos escuros. Olhava para o teto, como se não houvesse teto. Apontou o bule branco com as doze xícaras coloridas em volta, pedindo que não deixasse ninguém quebrá-las. Todos correm perigo, disse. Para tranqüilizá-lo, sentei a seu lado. Tremíamos. Pensei em colocar a cabeça dele no meu colo, tomar suas mãos, cantar, fazer carinhos. Mas só consegui ficar muito próxima. De alguma forma, eu queria dizer que tudo aquilo importava pouco. Se soubéssemos controlar a nós mesmos, ao nosso terror, e poupar o gasto exagerado de tudo que tínhamos armazenado, nada aconteceria. Amanhã, depois, dentro de uma semana, um mês, os cães morreriam e poderíamos novamente abrir a casa, sair para o sol. Lera um dia em algum lugar que a raiva corrói aos poucos o cérebro deles. Não resistem muito. Queria dizer a Raul que pensasse no tempo que fatalmente passaria, como sempre passa.&lt;br /&gt;O que hoje é drama, sempre, amanhã estará quieto na memória. A casa, ele disse, a casa. Em seguida: o que vai ser de nós? Está tudo bem, tentei dizer, tudo bem. Mas com um martelo na mão Arthur segurou meu braço, forçando-me a levantar. Com tanta violência que o pano bordado caiu sobre o rosto de Raul.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5611721543640093420?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5611721543640093420/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5611721543640093420&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5611721543640093420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5611721543640093420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-terceiro-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO TERCEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2059701637303296125</id><published>2008-04-05T13:14:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:16:04.364-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Talvez não consiga. Ela acaba de chamar outra vez, pedindo que eu vá. Ela ainda não aprendeu a ser sozinha uma pessoa. Estou esperando por ele, eu disse. Eu não o conheço. Estou contando a história deles, como te disse naquela tarde, quando me convidaste para ir ao cinema. Preciso ter cuidado com seu nascimento, expliquei. Como uma pequena cadela prenhe, são fetos delicados estes. Mas só sabias dançar, pouco entendes dessas histórias inventadas. Requintadas, talvez banais. Espera, está ficando ainda mais obscuro. Tenta de outro jeito. Cronológico, quem&lt;br /&gt;sabe? Pode ser, pode ser. Tento: a casa, o rio, o piano, está bem assim? Porque eles queriam nascer, eu voltei na manhã seguinte para a Grande Cidade Vazia. O cimento das avenidas da Grande Cidade Vazia cheio somente de serpentinas, restos de confete, preservativos esporrados, trapos de cetim, flores de plástico, garrafas quebradas, máscaras partidas, pontas de cigarro, latas de cerveja. Fomos avançando pelo meio do lixo da alegria. Era de manhã. Fie me deixou na porta. Então comecei.&lt;br /&gt;II. MARCELO&lt;br /&gt;Achei de me masturbar. Não lavo as mãos para começar escrever. O esperma vai manchando a folha, misturado às gotas de suor que escorrem dos pêlos de ir peito. Queria saber ficar tranqüilo como Linda, que se limitou a sorrir dos cães, aumentando o volume o som para erguer uma das pernas no ar, lentameii , trazendo o braço direito estendido até a frente do tronco. Queria poder espatifar copos no chão da co)zinha, feito Arthur. Quem sabe apenas levantar uni a das sobrancelhas, feito Martha, pedindo irônica a ele que pelo menos evite quebrar também portas e janelas, para que os cães não entrem na casa. Nada me vem pela harmonia, pela violência ou pela razão. Com o sexo é que sinto.&lt;br /&gt;Decidi que me masturbaria no momento em que Júlio entrou correndo para avisar que alguém havia soltado os cães. Poderia ter procurado Anaís, que sempre deixa de lado suas cartas, seus búzios, pedras e dragões para me abrir as pernas. Um pouco distraída, às vezes meio bêbada, como se não fosse eu, como se pouco importasse, tira sem pressa minha roupa, passa as mãos nas minhas costas, fecha os olhos, às vezes lambe meu pau, escancara as coxas para que eu a penetre com vontade cada vez maior de machucá-la, de fazê-la torcer-se e gritar de dor no meio do prazer. Nunca grita. Apenas suspira, não sei se gozo ou desgosto, quando ejaculo e volta a fumar, a beber, a preparar feitiços, a cantar canções vadias. Talvez por tudo isso, também porque sabia de Anaís atrás de mim, tenha corrido à cozinha para contar a Raul.&lt;br /&gt;Sentado num banco, quase no escuro, ele estava debruçado sobre a mesa como se escolhesse feijões. Parecia rezar, a mão direita pousada sobre uma dessas esquisitas xícaras coloridas que Martlia comprou na cidade. Antes de acender a luz, por cima de seu ombro, por baixo da camisa desabotoada, eu podia ver um pedaço da carne tão branca que quase brilhava na penumbra. Quis então encostar nele, para que não gritasse, para que sentisse como uma proteção o calor do meu corpo colado às suas costas. Depois, enquanto deixasse a cabeça tombar para trás, apoiando-se contra minha barriga, eu faria com que minha mão invadisse o pano fino para beliscar-lhe o mamilo até que gemesse baixinho, repetindo meu nome. E só mais tarde, talvez, contaria dos cães, quando já estivéssemos inteiramente nus, enrolados um no outro sobre os ladrilhos frios. Tudo estava preparado. O que aconteceria já estava desenhado no ar da cozinha, bastava que eu fizesse o primeiro gesto, acompanhando o esboço de um desenho pronto. Foi quando uma voz que me pareceu a de Isis gritou ao longe e, sem planejar, meu dedo apertou o botão da luz. Coloquei a mão no ombro dele. Apertei forte. E repeti exatamente o que Júlio me dissera há pouco: soltaram os cachorros loucos.&lt;br /&gt;Não queria assustá-lo. Mas Raul ergueu-se brusco, derrubando o banco, olhando para mim como se não acreditasse. Com aquela luz dura derramada sobre a cara dele, eu via suas pupilas crescendo para invadir o azul desbotado da íris. Talvez porque meus olhos estivessem acostumados à sombra, como num desses truques de parque de diversões onde mulheres se transformam pouco a pouco em feras, de repente vi nossos doze rostos, um a um, sobrepondo-se ao rosto dele, inclusive o meu. Quando seus ossos um tanto arredondados ganharam os contornos vagos do rosto de Anaís, estendi a mão e puxei-o para mim. Tinha cheiro de ervas verdes. O cheiro de ervas verdes do corpo de Raul misturou-se ao cheiro de suor do meu próprio corpo. Eu tinha estado o dia inteiro na horta, sem camisa, embaixo do sol. Eu trazia no bolso o primeiro tomate maduro. Com uma das mãos, forcei meu amigo a ficar de frente para mim, muito próximo. Com a outra, tirei de bolso o tomate maduro. Ele me olhava sem compreender. Ouvi um dos cães uivando, perto do poço, pensei, e antes que o uivo terminasse e outro cão começasse então a uivar, entre talvez o primeiro e o segundo uivos mordi muitas vezes a boca dele, interrompendo-me apenas para repetir que estávamos perdidos.&lt;br /&gt;Então senti uma presença macia às nossas costas. Me voltei rápido, ainda a tempo de perceber as fitas das sandálias de Anaís afastando-se leves para não serem vistas. Empurrei Raul contra a mesa. Corri para o quarto. Foi tudo sôfrego, urgente. Tentei me concentrar somente em um corpo, um rosto, um sexo, mas os doze sobrepunham-se, inclusive o meu, sem ordem, no ritmo do gesto sem controle. Agora sinto os pêlos melados entre as coxas, na barriga, o leite branco no umbigo. Provo esse meu gosto espesso, adocicado. Depois o misturo — com nojo, com alegria, com fome também — aos grãos maduros do tomate que acabo de morder&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2059701637303296125?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2059701637303296125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2059701637303296125&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2059701637303296125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2059701637303296125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-segundo-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3064175660892664384</id><published>2008-04-05T12:56:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T13:04:25.834-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='triangulo das aguas'/><title type='text'>DODECAEDRO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;(Possível coreografia verbal para In Concert, de Keith Jarrett)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À memória de&lt;br /&gt;Ana Cristina Cesar (Ana C.)&lt;br /&gt;Para :&lt;br /&gt;José Maria Carvalho &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;quando soltaram os cachorros loucos eu estava fazendo chá&lt;br /&gt;de ervas do campo&lt;br /&gt;e de repente o espanto&lt;br /&gt;tremendo a chaleira&lt;br /&gt;e bombeando medo&lt;br /&gt;larguei as ervas e danado&lt;br /&gt;precipitei-me à janela&lt;br /&gt;de onde vi&lt;br /&gt;enormes matilhas&lt;br /&gt;com olhos cheios de negra espuma&lt;br /&gt;a espuma invadia a rua&lt;br /&gt;e abraçava postes, que caíam&lt;br /&gt;cheios de óleo e náusea&lt;br /&gt;engolia as pessoas&lt;br /&gt;que alucinadas&lt;br /&gt;enchiam o ar de berros&lt;br /&gt;depois os cachorros foram embora&lt;br /&gt;eu voltei ao meu chá&lt;br /&gt;e lá fora a solidão&lt;br /&gt;e uma flor quase despercebida&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Henrique do Valle&lt;em&gt;: Uma flor num buraco de calçada&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O tom, o problema é o tom. A tua mão está débil. Parece que não ousas. Espera um pouco, certa paciência. Quem sabe se eu explicasse como me veio, ajudaria? Mas ajudaria a quem, a quê? Não me pergunta ainda, só depois talvez quase saberei. É que o tom, eu te falava do tom. Sei, mas lá o tom, maldição, era exatamente esse. Mas assim... diluído? Assim contido? Espera: havia o rio, depois o mato. Foi entre o rio e o mato que me veio. Da casa chegavam uns acordes obsessivos de piano. E da memória, juntos, me brotaram uns versos falando nos cães. Não éramos doze, aquelas pessoas não me interessavam. Eu não as amaria, elas nunca me amariam, a não ser estonteadamente, por levezas, distrações. Eram outras. Era carnaval, pleno carnaval. Eu precisava voltar, elas queriam nascer, eu não as conhecia. Sabia apenas que estavam cercadas, que eram doze, que havia um rio, um mato, um piano tocando sem parar dentro da casa branca. No início da noite, nofim do verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.RAUL&lt;br /&gt;Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, Verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos. Gostava de misturá-las assim, as ervas, um pouco ao acaso, deixando a água esquentar enquanto as macerava devagar no pote de cerâmica. Tinha começado a anoitecer, mas ninguém lembrara ainda de acender as luzes. Talvez porque ficasse tudo mais calmo, mais bonito, quase perfeito: aquela meia penumbra avermelhada, o som do piano vindo da sala, as vozes caladas, as ervas verdes sobre a madeira da mesa. Agora, horas depois, minhas mãos continuam a guardar o cheiro fresco do capim-cidró que Marília colheu pela manhã, tomando cuidado para que a lâmina afiada das folhas não lhe cortasse os dedos. Se ficar bem atento, conseguirei localizar sob as unhas remotos vestígios do perfume da hortelã, do funcho, misturados ao cheiro ardido da arruda no galhinho colocado atrás da orelha para afugentar maus espíritos. Rindo de exorcismos, galhos, pedras, velas, incensos: os maus espíritos estão soltos, imunes aos axés, e não consigo ficar atento a mais nada além dos passos e dos uivos dos cães rondando a casa. A todo instante lembro de quando ainda estava tudo em aparente paz: as ervas sobre a mesa, a chaleira de ferro no fogo, o bule esmaltado de branco com as doze xícaras de cores diferentes dispostas em volta. Eu acompanhava com a cabeça a música vinda da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as em círculo ao redor do bule. Escolhi a vermelha para Arthur, que dá ordens, prega pregos, corta fios e sem parar faz coisas pela casa. Separei a azul-celeste para Isis, azul no tom exato de sua voz aguda quando canta, cristal retinindo na luz. Determinei que a verde mais clara pertenceria a Júlio, que se enreda em palavras, movimentos, e me parece — pelo menos agora, em plena noite — que o movimento tem exatamente essa cor, sobretudo às três horas das tardes de sol quente. Hesitei um pouco até encontrar minha própria cor, mas acabei escolhendo o branco, não só porque assim me visto sempre, mas também porque é meu oficio fazer coisas brancas, preparar os chás, assar os pães, lavar a louça. Para Ricardo, cujos cabelos claros às vezes brilham, ouro, com uma inspiração separei certeiro a amarela. Não tive dúvidas ao destinar a Martha, que tira a poeira da casa e lava o chão, a xícara verde-escuro. Para Linda, por sua dança de meneios harmoniosos, mansas curvaturas, separei a cor-de-rosa. Quando pensei nas sobrancelhas cerradas de Marcelo, imediatamente tomei a cor de vinho tinto, paixões, intensidades. Pedro, o que nos faz rir quando não está lendo ou caminhando sozinho pelo mato com seus Oxóssis, ficará com a laranja. Por gostar de terra, por nunca usar cores, Manilha ganhou a marrom. Restavam duas: a azul-marinho, cor do céu noturno, seria de Virgínia, para ajudá-la a decifrar as estrelas quando se embaçarem nas quadraturas. A roxa pertenceria a Anaís. São dessa cor os sonhos e premonições que costuma ter, os licores que prepara, o esmalte de suas unhas, os panos que a cercam. Assim: Como um pequeno zodíaco, doze xícaras em volta do bule. Pensei em repetir palavras mágicas para concentrar energia em cada uma delas, mas nenhuma me ocorreu. Abracadabras, shazams. Talvez não fossem necessárias, porque eu estava carregado de amor por nós todos.&lt;br /&gt;Falo banalidades, sei, mas amor é magia, condão, pedra de toque — embora o pressentimento da teia escura se armando sobre nossas cabeças. Seria quem sabe o vermelho vivo do poente, tudo parado, nenhum vento na copa das árvores, a noite chegando do outro lado do mundo, o verão no fim. Sem que eu quisesse, meu pensamento voltava-se insistente para a xícara cor de vinho tinto. As notas do piano enleavam meu corpo em fios sonolentos. Eu deveria rir ou bocejar, suspenso à beira do sono, quando Ísis gritou ao longe, a chaleira ferveu e Marcelo entrou. Ele colocou a mão no meu ombro, apertou forte e disse que tinham soltado os cachorros loucos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3064175660892664384?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3064175660892664384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3064175660892664384&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3064175660892664384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3064175660892664384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/dodecaedro-primeiro-fragmento-da-dcima.html' title='DODECAEDRO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4329449602730173892</id><published>2008-04-05T11:57:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T13:09:13.188-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>A MARGARIDA ENLATADA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi de repente. Nesse de repente, ele ia indo pelo meio do aterro quando viu um canteiro de margaridas. Margarida era um negócio comum: ele via sempre margaridas quando ia para sua indústria, todas as manhãs. Margaridas não o comoviam, porque não o comoviam levezas. Mas exatamente de repente, ele mandou o chofer estacionar e ficou um pouco irritado com a confusão de carros às suas costas. O motorista precisou parar um pouco adiante, e ele teve que caminhar um bom pedaço de asfalto para chegar perto do canteiro. Estavam ali, independentes dele ou de qualquer outra pessoa que gostasse ou não delas: aquelas coisas vagamente redondas, de pétalas compridas e brancas agrupadas em torno dum centro amarelo, granuloso. Margaridas. Apanhou uma e colocou-a no bolso do paletó.&lt;br /&gt;Diga-se em seu favor que, até esse momento, não premeditara absolutamente nada. Levou a margarida no bolso, esqueceu dela, subiu pelo elevador, cumprimentou as secretárias, trancou-se em sua sala. Como todos os dias, tentou fazer todas as coisas que todos os dias fazia. Não conseguiu. Tomou café, acendeu dois cigarros, esqueceu um no cinzeiro do lado direito, outro no cinzeiro do lado esquerdo, acendeu um terceiro, despediu três funcionários e passou uma descompostura na secretária. Foi só ao meio-dia que lembrou da margarida, no bolso do paletó. Estava meio informe e desfolhada, mas era ainda uma margarida. Sem saber exatamente por que, ficou pensando em algumas notícias que havia lido dias antes: o índice de suicídios nos países superdesenvolvidos, o asfalto invadindo as áreas verdes, a solidão, a dor, a poluição, a loucura e aquelas coisas sujas, perigosas e coloridas a que chamavam jovens. De repente, a luz. Brotou. Deu um grito:&lt;br /&gt;—É isso!&lt;br /&gt;Chamou imediatamente um dos redatores para bolar um slogan e esqueceu de almoçar e telefonou para suas plantações e mandou que preparassem a terra para novo plantio e ordenou a um de seus braços-direitos que comprasse todos os pacotes de sementes encontráveis no mercado depois achou melhor importá-las dos mais variados tamanhos cores e feitios depois voltou atrás e achou melhor especializar-se justamente na mais banal de todas aquela vagamente redonda de pétalas brancas e miolo granuloso e conseguiu organizar em poucos minutos toda uma equipe altamente especializada e contratou novos funcionários e demitiu outros e precisou tomar uma bolinha para suportar o tempo todo o tempo todo tinha consciência da importância do jogo exaustou afundou noite adentro sem atender aos telefonemas da mulher ao lado da equipe batalhando não podia perder tempo quase à meia-noite tudo estava resolvido e a campanha seria lançada no dia seguinte não podia perder tempo comprou duas ou três gráficas para imprimir os cartazes e mandou as fábricas de latas acelerar sua produção precisava de milhões de unidades dentro de quinze dias prazo máximo porque não podia perder tempo e tudo pronto voltou pelo meio do aterro as margaridas fantasmagóricas reluzindo em branco entre o verde do aterro a cabeça quase estourando de prazer e a sensação nítida clara definida de não ter perdido tempo. Dormiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, acordou mais cedo do que de costume e mandou o chofer rodar pela cidade. Os cartazes. As ruas cheias de cartazes, as pessoas meio espantadas, desceu, misturou-se com o povo, ouviu os comentários, olhou, olhou. Os cartazes. O fundo negro com uma margarida branca, redonda e amarela, destacada, nítida. Na parte inferior, o slogan:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ponha uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorriu. Ninguém entendia direito. Dúvidas. Suposições: um filme underground, uma campanha antitóxicos, um livro de denúncia. Ninguém entendia direito. Mas ele e sua equipe sabiam. Os jornais e revistas das duas semanas seguintes traziam textos, fotos, chamadas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O índice de poluição dos rios é alarmante.&lt;br /&gt;Não entre nessa.&lt;br /&gt;Ponha uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O asfalto ameaça o homem e as flores.&lt;br /&gt;Cuidado.&lt;br /&gt;Use uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alegria não é difícil.&lt;br /&gt;Fique atento no seu canto.&lt;br /&gt;Basta uma margarida na sua fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jingles. Programas de televisão. Horário nobre. Ibope. Procura desvairada de margaridas pelas praças e jardins. Não eram encontradas. Tinham desaparecido misteriosamente dos parques, lojas de flores, jardins particulares. Todos queriam margaridas. E não havia margaridas. As fossas aumentaram consideravelmente. O índice de alcoolismo subiu. A procura de drogas também. As chamadas continuavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O índice de suicídios no país aumentou em 50%.&lt;br /&gt;Mantenha distância.&lt;br /&gt;Há uma margarida na porta principal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contratos. Compositores. Cibernéticos. Informáticos. Escritores. Artistas plásticos. Comunicadores de massa. Cineastas. Rios de dinheiro corriam pelas folhas de pagamento. Ele sorria. Indo ou vindo pelo meio do aterro, mandava o motorista ligar o rádio e ficava ouvindo notícias sobre o surto de margaridite que assolava o país. Todos continuavam sem entender nada. Mas quinze dias depois: a explosão.&lt;br /&gt;As prateleiras dos supermercados amanheceram repletas do novo produto. As pessoas faziam filas na caixa, nas portas, nas ruas. Compravam, compravam. As aulas foram suspensas. As repartições fecharam. O comércio fechou. Apenas os supermercados funcionavam sem parar. Consumiam. Consumavam. O novo produto:&lt;br /&gt;margaridas cuidadosamente acondicionadas em latas, delicadas latas acrílicas. Margaridas gordas, saudáveis, coradas em sua profunda palidez. Mil utilidades: decoração, alimentação, vestuário, erotismo. Sucesso absoluto. Ele sorria. A barriga aumentava. Indo e vindo pelo aterro, mergulhado em verde, manhã e noite — ele sorria. Sociólogos do mundo inteiro vieram examinar de perto o fenômeno. Líderes feministas. Teóricos marxistas. Porcos chauvinistas. Artistas arrivistas. Milionários em férias. A margarida nacional foi aclamada como a melhor do mundo: mais uma vez a Europa se curvou ante o Brasil.&lt;br /&gt;Em seguida começaram as negociações para exportação: a indústria expandiu-se de maneira incrível. Todos queriam trabalhar com margaridas enlatadas. Ele pontificava. Desquitou-se da mulher para ter casos rumorosos com atrizes em evidência. Conferências. Debates. Entrevistas. Tornou-se uma espécie de guru tropical. Comentava-se em rodinhas esotéricas que seus guias seriam remotos mercadores fenícios. Ele havia tornado feliz o seu país. Ele se sentia bom e útil e declarou uma vez na televisão que se julgava um homem realizado por poder dar amor aos outros. Declarou textualmente que o amor era o seu país. Comentou-se que estaria na sexta ou sétima grandeza. Místicos célebres escreviam ensaios onde o chamavam de mutante, iniciado, profeta da Era de Aquarius. Ele sorria. Indo e vindo. Até que um dia, abrindo uma revista, viu o anúncio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Margarida já era, amizade.&lt;br /&gt;Saca esta transa:&lt;br /&gt;O barato é avenca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito para que tudo desmoronasse. A margarida foi desmoralizada. Tripudiada. Desprestigiada. Não houve grandes problemas. Para ele, pelo menos. Mesmo os empregados, tiveram apenas o trabalho de mudar de firma, passando-se para a concorrente. O quente era a avenca. Ele já havia assegurado o seu futuro — comprara sítios, apartamentos, fazendas, tinha gordos depósitos bancários na Suíça. Arrasou com napalm as plantações deficitárias e precisou liquidar todo o estoque do produto a preços baixíssimos. Como ninguém comprasse, retirou-o de circulação e incinerou-o.&lt;br /&gt;Só depois da incineração total é que lembrou que havia comprado todas as sementes de todas as margaridas. E que margarida era uma flor extinta. Foi no mesmo dia que pegou a mania de caminhar a pé pelo aterro, as mãos cruzadas atrás, rugas na testa. Uma manhã, bem de repente, uma manhã bem cedo, tão de repente quanto aquela outra, divisou um vulto em meio ao verde. O vulto veio se aproximando. Quando chegou bem perto, ele reconheceu sua ex-esposa.&lt;br /&gt;Ele perguntou:&lt;br /&gt;– Procura margaridas?&lt;br /&gt;Ela respondeu:&lt;br /&gt;– Já era.&lt;br /&gt;Ele perguntou:&lt;br /&gt;– Avencas?&lt;br /&gt;Ela respondeu:&lt;br /&gt;– Falou.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4329449602730173892?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4329449602730173892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4329449602730173892&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4329449602730173892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4329449602730173892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/margarida-enlatada.html' title='A MARGARIDA ENLATADA'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-7465976922653259397</id><published>2008-04-05T11:42:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:44:15.993-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>CAVALO BRANCO NO ESCURO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Lá fora alguém caminha no escuro. Posso ouvir nitidamente seus passos esmagando devagar o cascalho fino do jardim. Como se tomasse cuidado para não me acordar. Como se eu dormisse. Às vezes se detém, ejulgo ouvir sua respiração espessa de animal atravessando as vidraças abaixadas para chocar-se contra as paredes, e depois tombar sobre mim sufocando minha própria respiração. É então que sinto medo. Deixo de sentir o contato gorduroso dos lençóis contra minha pele, e fico todo concentrado nessa coisa: o medo. Não dele, nem de seus passos, nem de que possa de repente espatifar as vidraças para entrar no quarto — também não tenho medo de sua possível violência, de suas prováveis garras. O que me assusta é justamente essa respiração de animal. Essa coisa grossa, azeda, estranhamente flácida e morna, da mesma consistência dos lençóis sujos.&lt;br /&gt;Para evitar esse medo que sufoca o cheiro dos lençóis e de meu próprio corpo, penso no jardim. E quando, por segundos, o cascalho pára de estalar sob seus pés, penso que é porque se aproximou do canteiro de margaridas. E recomponho na memória essas margaridas amontoadas no canteiro de tijolos, com seus talos verdes e rígidos, suas longas pétalas brancas e o miolo amarelo, granuloso, sem nenhum cheiro. Quando o medo é maior, penso nas hortênsias. Eram azuis, as hortênsias. Ficavam distantes da janela, próximas do poço e da parreira, quase no quintal. Eram azuis e sólidas, as hortênsias. Também não tinham cheiro, como as margaridas, nem gosto. Uma vez experimentei mastigar algumas pétalas, e tive a sensação exata de ter entre os dentes algo tão fino e frágil como uma asa de borboleta. Eram azuis e sólidas, e às vezes eu cobria os cabelos com elas, prendendo-as atrás das orelhas para depois olhar-me no espelho grande do corredor e achar-me parecido com uma daquelas gravuras japonesas do livro de História de minha mãe — as gueixas, as hortênsias. Essas eram elas.&lt;br /&gt;Quando o medo é quase absurdo, e principalmente quando o cheiro daquela respiração ameaça tornar-se insuportável, recorro aos jasmins. Só então recorro aos jasmins. Deixo-os por último, quando estou à beira de dar um grito ou fazer algum movimento brusco para libertar-me — mesmo sabendo que estou demasiado enfraquecido para dar gritos ou fazer gestos bruscos. Talvez a impossibilidade de fazer essas coisas é que me obrigue a recorrer aos jasmins. Porque eu sempre soube que eles eram o último recurso, última porta, última chave. Eles, os jasmins: última varanda antes da fronteira que me separa do que não conheço. Vejo-os crescer nas sombras para se abrirem em corolas fartas e pálidas: eu me debruço na janela, eu sou muito jovem, eu acredito, eu sou quase um menino que se debruça na janela e olha para esses jasmins pálidos e frios e entontece aos poucos com o perfume doce e olha para a lua, porque havia uma lua quase sempre cheia naquele tempo, e pergunta em espanto o que vai ser dele, que durezas ou doçuras lhe trará essa coisa que ainda não tocou com suas próprias mãos e que chamam de vida, eles, os outros, os que dormem além da porta sem saberem desse menino e desse espanto e dessa lua e sobretudo desses jasmins gelados no jardim. Esse quase menino que sou eu, esse menino suspeita e sente que quase pode viajar na esteira do perfume dos jasmins que voa por cima do muro de tijolos, ultrapassa a sarjeta para misturar-se à terra vermelha da rua e perder-se nas unhas-de-gato do terreno ao lado e no valo da calçada oposta e na casa branca de madeira sobre a elevação de terra — esse menino não chora e não diz nada. Tem olhos enormes para o que ainda não chegou e talvez não chegue nunca.&lt;br /&gt;Tudo isso é doloroso para mim, porque sei que o jardim não é esse, sei mesmo que talvez nem exista um jardim, sei que os jasmins se perderam, e recorro à casa, e penetro cada um de seus aposentos, e desvendo a casa, e recorro à rua, ao arco branco no fim da rua, e à cidade de ruazinhas estreitas e tortas e vizinhos na janela e estradas de terra batida e poeirenta. Mas sei: sempre sei que tudo isso não está mais do lado de fora: sei que já não bastaria abrir a janela: sei que não bastaria a janela. Como se minhas unhas crescessem e eu as cravasse no meu próprio peito. Digo para mim mesmo que não é preciso assassinar o que já está morto, mas enquanto dura a respiração dele, preciso continuar enterrando as unhas devagar na carne, afastando músculos e veias e ossos, como se escavasse a terra em busca de uma semente. Preciso revirar o punhal com dedos seguros, até conseguir extrair algumas gotas de sangue da carne morta. Não consigo. Sei que não consigo no momento em que a respiração cessa e os passos voltam a esmagar o cascalho.&lt;br /&gt;De vez em quando um movimento mais brusco faz com que brote um ruído de folhagens esmagadas. Imagino-o pisando nas margaridas, rasgando as hortênsias, esmagando os jasmins entre os dentes escuros, nas mãos de dedos curtos e juntas grossas, sob as patas de cascos partidos, o corpo áspero de pêlos espojando-se sobre os verdes que minha mãe esquecia de regar e que cresciam apenas por teimosia. A teimosia e a chuva enredando seus membros sobre o muro, sob a terra. Sei que o sangue já não corre: sei que nenhuma semente veio à tona: sei que de nada adianta espreitar dia após dia o seu crescimento, porque não crescerão: sei que é inútil afastar as pedras e os parasitas, tentando distinguir uma pequenina folha verde. Sei que as chuvas não caem mais como antigamente. Então me encolho entre os lençóis e fico ouvindo o cascalho rangendo sob seus pés.&lt;br /&gt;Quando o ruído cessa e penso que ele se afastou por alguns momentos, fixo os olhos no teto ou na parede e tento distinguir apenas cores e formas. Mas não sei mais se o que vejo é o que vejo ou apenas o que penso ver. Dizem que quando se fica muito tempo sem comer acontecem alucinações, da mesma forma como quando se toma drogas. Não sei se são alucinações causadas pela fome, e já não tomo nenhuma droga desde que resolvi deixar que tudo secasse para que viesse à tona apenas o que quisesse vir, sem que eu o chamasse. Seja como for, eu o via. Não esse, o que caminha no escuro, porque não sei de seu corpo nem de sua face, mas um outro, talvez o mesmo, não sei.&lt;br /&gt;Ele estava na parede. A parede é azul. No começo, foi só o que vi: a parede azul. Depois notei que o azul se movia e aquilo que eu julgava fazer parte da matéria da parede destacava-se e ganhava a forma de um corpo, um corpo vestido de azul. Esse corpo vestido de azul destacou-se da parede e veio sentar-se a meu lado, na beira da cama. Foi quando colocou uma das mãos na minha testa que tive vontade de sorrir para ele. Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém, então era extraordinário que ele conseguisse perturbar assim os cantos de meus lábios, fazendo com que eles se movimentassem duramente, numa tentativa de se abrirem. Mas não sorri. Sabia de meus dentes sujos, sabia da escuridão de minha boca. E não queria assustá-lo, sobretudo isso: não queria assustá-lo porque poderia retirar a mão de minha testa e levantar-se daquele lugar. Há muito tempo ninguém me tocava. Acho que ele sentiu o meu sorriso preso e a minha confusão, porque perguntou devagar alguma coisa, exatamente como se tentasse quebrar um momento de embaraço. Não sei que coisa foi, também não sei o que respondi. Sei que depois de ouvir minha resposta, afastou-se abanando a cabeça e dizendo que não era possível, que não ia dar certo, que ele sabia que não tinha jeito. Abriu os braços e voltou a confundir-se com a parede.&lt;br /&gt;Foi depois disso que começou essa coisa dos passos, a respiração, o medo, as margaridas, as hortênsias, os jasmins. Ou antes, não lembro. Você é bonito, quis dizer a ele. Mas não foi possível. Foi tudo demasiado rápido. Agora já é muito tarde e eu simplesmente me recuso. Quando resolvi fugir daquelas coisas torpes lá de fora não pensei que fosse tão fácil: na verdade foi tudo muito natural, como se um dia isso tivesse mesmo que acontecer, e exatamente dessa forma. Não precisei fazer esforço algum. Só deitar e esperar. A princípio ainda classificava lembranças e memórias, tinha consciência de um antes, um durante, um depois, de um real e um irreal, um tangível e um intangível, um humano e um divino: separava minha memória e meus conhecimentos em partes cuidadosamente distintas. Depois que ele começou a rondar minha janela, ou antes, não sei, tudo se confundiu num só bloco, e fiquei assim: esta massa compacta toda à superfície de si mesma. Não lembro de ninguém assim tão à flor de si mesmo: raiz, caule, folhas e frutos. Talvez seja bonita uma coisa assim, uma pessoa assim. Ou horrível, não sei. Talvez eu esteja sendo gerado, também não sei. Sei que falta pouco. Eu queria que não fosse assim, que não tivesse sido assim. Mas não consegui evitar. A semente recusava-se a vir à tona, eu nem sempre tinha tempo ou vontade de regá-la, e não chovia mais — foi isso o que aconteceu.&lt;br /&gt;Pressinto que vai ser agora. Tenho mesmo certeza de que vai ser agora. Os passos se aproximam. Faço um grande esforço e consigo aprumar um pouco meu corpo sobre a cama. O cascalho estala. Distendo meus braços e pernas, e nesse movimento há como uma dor brotando de um fundo muito escondido. A janela começa a ceder. Fixo a atenção na minha própria cabeça, até deixá-la ereta. Ouço o barulho dos vidros caindo sobre o chão. Todos esses movimentos fazem com que um cheiro desagradável de coisa apodrecida se desprenda dos lençóis e de meu corpo e quando sinto as garras tocando-me devagar nos dedos dos pés já não sei distinguir se esse cheiro que violenta minhas narinas vem dos lençóis ou de meu corpo ou de sua respiração ofegante pesada viscosa grossa repulsiva e morna subindo por minhas pernas até atingir meus joelhos misturada a uma baba viscosa e não sinto nojo apenas uma vaga curiosidade e pergunto a mim mesmo se tudo isso pertencerá mesmo a um animal ou a um homem ou a qualquer outra coisa e passa-me pela cabeça um rápido pensamento assim: não será a trepadeira que caía da janela? e digo que não e digo que sim e é quando sinto uma coisa escura como uma boca abater-se sobre meu sexo que começo a pensar nas margaridas e digo assim agora que a tua linha paralela à minha vai ficar ainda mais distante não vou ter ninguém mais pra me dar uma margarida de repente pra não dizer nada pra me encontrar no fim da rua1 mas tudo isso está morto então volto às hortênsias e vejo as encostas cobertas de borboletas azuis amarelas cor-de-rosa no meio do trigo da serra no sul e quase esqueço de meus dentes sujos para mostrá-los num sorriso mas esse visgo mas essa gosma essa náusea avança por meu peito até quase minha boca e olho para os jasmins abertos sob um céu de lua cheia e vejo um menino espantado numa janela aberta um menino nu e espantado da parede azul ele me sorri e estende os braços como se me esperasse você é tão bonito eu tenho vontade de dizer esse perfume me entontece e sinto que vomito e que sua língua preta suga a matéria espessa de meu vômito mas é muito tarde ouço o galope de um cavalo que pressinto branco varando o escuro em busca da madrugada e vibro inteiro como se tivesse sangue como se a semente brotasse você é tão bonito tenho vontade de dizer mas há um poço tapando a minha boca e então toco o rendilhado de um vôo em direção à casa oposta em direção ao arco branco no fim da rua e não digo nada eu não digo nada eu só quero olhar de olhos abertos para esse azul engastado na parede e pensar como você é bonito mas duas garras atingem meus olhos e enquanto grito de dor e de prazer as minhas órbitas perfuradas libertam estrelas marinhas e medusas e sereias e algas verdes que oscilam lentamente empurradas pelas ondas para a areia branca onde um dia meus pés deixaram lagos tão breves que não houve tempo da lua refletir-se neles.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-7465976922653259397?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/7465976922653259397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=7465976922653259397&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7465976922653259397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/7465976922653259397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/cavalo-branco-no-escuro.html' title='CAVALO BRANCO NO ESCURO'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-6137214758070093302</id><published>2008-04-05T11:37:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:40:20.419-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>NOÇÕES DE IRENE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Levou algum tempo para abrir a porta, a campainha soando sem resposta até que ele terminasse de ajeitar cuidadosamente as duas poltronas, uma em frente À outra. Depois entreabriu a pequena janelinha e simulou uma espécie de espanto:&lt;br /&gt;– Ah, é você — e abriu a porta para que o outro entrasse. – Você foi pontual — acrescentou, apontando para uma das poltronas. – Sente-se, por favor. Estava com medo que você não viesse.&lt;br /&gt;– Medo?&lt;br /&gt;– É, não exatamente medo. Você compreende, praticamente não me conhecia. Deve ter ficado surpreso com o convite.&lt;br /&gt;O outro sacudiu ligeiramente a cabeça. Parecia mesmo espantado, as mãos um pouco tensas sobre os joelhos dos jeans desbotados. Ele encaminhou-se para a mesinha e mostrou a garrafa de uísque.&lt;br /&gt;– Muito ou pouco gelo?&lt;br /&gt;– Puro, por favor.&lt;br /&gt;Espantou-se também, um pouco. Mas imediatamente conteve-se: era preciso que tudo fosse feito com muito cuidado, e que todas as palavras e movimentos se encaminhassem para um único fim. Enquanto enchia o copo, examinou-o disfarçadamente. Tão jovem, pensou com uma sombra que chamaria amargura, não estivesse tão empenhado em delicadezas. Voltou com os dois copos e, sentando, não soube por onde começar. Hesitava entre falar diretamente ou esperar que um clima de cordialidade — certa cordialidade, pelo menos, concedeu — se estabelecesse enquanto os copos eram esvaziados. Então percebeu que o outro olhava para os discos.&lt;br /&gt;– Gosta de música?&lt;br /&gt;– Muito.&lt;br /&gt;Claro, claro — pensou. — Todos eles gostam de música. Fez um movimento como se fosse levantar.&lt;br /&gt;– Quer ouvir alguma coisa? — Sorriu. – Curtir um som... não é assim que vocês dizem?&lt;br /&gt;O outro também sorriu:&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Bem, acho que não tenho exatamente aquilo que vocês gostam de ouvir. Irene sempre se queixa disso — estremeceu. Mas não havia nenhuma premeditação. O nome dela saíra naturalmente, assim como se não tivesse importância. Caminhou até a vitrola e perguntou: – Rock?&lt;br /&gt;– Bach.&lt;br /&gt;Escolheu rapidamente e voltou a sentar. Surpreso. Porque, afinal, não era como esperava. Talvez tivesse sido demasiado apressado em julgar, catalogar gostos, rotular expressões, como se nenhum deles fosse capaz de alguma individualidade. Afundou na poltrona. Os olhos muito claros do outro. Ou, quem sabe, estava apenas representando, justamente para confundi-lo.&lt;br /&gt;– Não queria que fosse como um jogo.&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– Desculpe, não entendi direito o que você disse.&lt;br /&gt;Cruzou as pernas, contrafeito:&lt;br /&gt;– Falei sem pensar, desculpe. Ou melhor, pensei em voz alta. Disse que não queria que fosse como um jogo. — Ouviu a própria voz, um pouco rouca. Estava se comportando como um idiota. Mas subitamente resolveu dizer: – Bem, suponho que sabe por que pedi que viesse aqui.&lt;br /&gt;– Sei. Suponho que sei.&lt;br /&gt;Já havia começado. Não poderia mais voltar atrás:&lt;br /&gt;ele olhou para cima da mesa e viu o porta-retratos voltado para baixo. Estendeu o prato com biscoitos. O outro serviu-se devagar.&lt;br /&gt;– Estes biscoitos têm gosto de flor, não é?&lt;br /&gt;O outro tornou a sorrir, os dentes aparecendo súbitos entre os fios de barba manchados de sol e fumo, os cabelos enormes. Ele levou o copo até a boca e ficou sentindo as pedras de gelo baterem contra os lábios. Arrancou um fio invisível da perna da calça.&lt;br /&gt;– Quero dizer, se você sabe, ou se acha que sabe por que o convidei, bem, creio que não há necessidade de ficarmos... Bem, de ficarmos falando sobre outras coisas. Afinal, somos homens civilizados, não é?&lt;br /&gt;O outro concordou sem falar, contraindo imperceptivelmente as sobrancelhas. Ele julgou perceber ironia no movimento, e por um instante odiou: todo concentrado em odiar profundamente. Falou rápido:&lt;br /&gt;– Sou só um pouco mais velho que vocês. Uns dez anos. — Lembrou da outra vez que o vira, dizendo convicto: todo homem com mais de trinta anos é um canalha. Voltou a odiar um ódio compacto e breve: – Talvez daqui a vinte anos isso seja uma diferença insignificante. Mas por enquanto é terrível, quase um abismo. — Levantou-se brusco, não suportando o olhar muito claro do outro e suas mãos magras sobre os jeans desbotados. Afastou as cortinas e ficou olhando para fora: — O que quero dizer é que...&lt;br /&gt;Deteve-se. No lado oposto da rua a pequena loja de flores fechava suas portas. Era quase noite. Sem sentir, fez uma longa pausa, praticamente esquecido do outro. Depois completou:&lt;br /&gt;– Não me surpreende que ela vá embora.&lt;br /&gt;Olhou-o. E de repente a música começou a ter importância: as notas subiam e baixavam, davam voltas concêntricas sobre um ponto desconhecido, subitamente se espatifavam para voltarem a recompor-se, cheias de pequenos movimentos internos, mas sem perderem a continuidade, escorrendo, fluidas. O outro, na esquina, os dedos formando um V, os dentes entre os fios manchados de barba, os cabelos crespos, enormes: – Grande lance, bicho. — Sentou-se com um suspiro:&lt;br /&gt;– Quero dizer que não pretendo colocar a mínima dificuldade. Entendo perfeitamente tudo. E depois, mesmo que não entendesse, não adiantaria nada. Ela sempre fez o que quis. Mas não com... com agressividade, entende? Quero dizer, ela está sempre tão dentro dela mesma que qualquer coisa que faça não é nem certa nem errada, é simplesmente o que ela podia fazer. — Parou por um momento, talvez estivesse sendo subjetivo demais, quase literário. Não queria parecer ridículo, nem demasiado velho. Mesmo porque não sou velho. Nem ridículo. Tornou a levantar-se.&lt;br /&gt;– Quer mais uísque?&lt;br /&gt;O outro disse que não.&lt;br /&gt;Encheu um copo e trouxe a garrafa para perto da poltrona. De repente perguntou, quase alegre:&lt;br /&gt;– Sabia que Irene é um nome de origem grega?&lt;br /&gt;O outro perguntou: – O quê?&lt;br /&gt;– Quer dizer Mensageira da Paz — continuou, sem dar atenção. – Gozado, não é? Uma vez eu disse isso a ela, ela riu, disse que era besteira. Mas outro dia eu fiquei pensando e achei que tudo foi realmente muito calmo. Mesmo agora, não está sendo difícil. — Ergueu o copo. – Sabe, nunca houve assim... grandes cenas, choros ou desesperos, tentativas de suicídio ou sequer ameaças. Nenhuma dessas coisas. Ela tem horror de tragédia. — Sentou-se, o copo na mão. E repetiu: – Ela tem horror de tragédia. Às vezes, na hora do jantar, a televisão ficava ligada e a gente via umas novelas. Sabe, eu chorava potes com aquelas coisas, separações lancinantes, amores impossíveis. Ela ria o tempo todo e dizia que eu era uma besta. Ou então aqueles concursos de empregada mais desvelada, eu precisava sair da sala para que ela não me chamasse de besta. — A voz dele ficou um pouco mais baixa, quase inaudível. – Mas uma vez eu voltei de repente e surpreendi ela com uma lágrima escorrendo pela face. Desculpou-se e disse que às vezes era mesmo meio cafona. E mais baixo ainda: – Faz tanto tempo.&lt;br /&gt;Estremeceu. Como se, de repente, percebesse que enveredava por um caminho perigoso. Sacudiu os ombros e reaprumou-se na poltrona. Riu alto e meio desafinado, enquanto tornava a encher o copo:&lt;br /&gt;– A gente está falando dela como se estivesse morta. Mas está tão viva, não é?&lt;br /&gt;Levantou-se para virar o disco. Depois voltou-se e perguntou:&lt;br /&gt;– Você leu Cleo e Daniel?&lt;br /&gt;Não prestou atenção na resposta. Apoiou a mão no encosto da cadeira:&lt;br /&gt;– A primeira vez que vi vocês juntos, foi o que lembrei. Cleo e Daniel. Tudo era parecido, até aquela quantidade incrível de bolinhas brancas que você tirava do vidro enquanto ela formava figuras sobre a toalha. Ficava assim tão... tão doce, depois. Ou então falava horas. Às vezes sentava no chão e ficava enrolando aqueles cigarros fininhos, que eu achava com um fedor horrível. Dizia que eu estava por fora, me chamava de careta e ficava horas fazendo uns desenhos malucos.&lt;br /&gt;Interrompeu-se para olhá-lo fixamente:&lt;br /&gt;– Você é pintor, não é? Lembro que ela falou que uma vez você tinha feito uma exposição na praça, e que a polícia chegou e rasgou todos os quadros, menos os dois que ela tinha comprado. — E sem mudar de tom: – Talvez eu seja mesmo um chato. — Dobrou-se sobre a poltrona: – Você acha que eu sou um chato?&lt;br /&gt;Olhou longamente para o outro, para as pernas cruzadas sobre a poltrona, como um iogue. Mas não ouviu a resposta.&lt;br /&gt;– Lembra daquela cena, quando ela está deitada e passa alguém na rua cantando? Lembra aquela cena?&lt;br /&gt;– De Cleo e Daniel?&lt;br /&gt;– Não, não. Um livro não tem cenas, tem trechos. — Olhou para o próprio dedo, parado no ar. – Às vezes eu fico meio didático, não dê importância. — Acrescentou:&lt;br /&gt;– Quem tem cenas é um filme.&lt;br /&gt;– Qual era o filme?&lt;br /&gt;– Filme?&lt;br /&gt;– É, quando ela estava deitada e passava alguém na rua, cantando.&lt;br /&gt;– Ah, você lembra, então? — Sorriu largo. – Sempre soube que você tinha visto aquele filme. Lembra da música?&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;– A música. A música que alguém passava cantando. Era assim: lo che non vivo piú di un‘ora senza te... Não lembro o resto. Faz tanto tempo. Acho que foi o primeiro filme que vimos juntos. Ela chorou o tempo inteiro.&lt;br /&gt;Deslizou para a poltrona, tornou a encher o copo e virou-o de uma só vez:&lt;br /&gt;– Talvez eu esteja falando demais: logo, isto não é um diálogo, é um monólogo. — Repetiu: – Às vezes eu fico meio didático. Mas fale alguma coisa, você não disse quase nada. Pode crer que nada me choca. Não que eu espere ouvir somente coisas chocantes de você, não é isso. Mas acho que vocês pensam que me chocam o tempo todo. Vocês não acham mesmo que sou muito velho e muito careta? Afinal, já tenho alguns anos de canalhice.&lt;br /&gt;O outro disse que absolutamente. Então ele disse que achava que aquela música já estava enchendo, mas o outro não disse nada, então ele permaneceu durante muito tempo na mesma posição, acompanhando com a cabeça o som do cravo. Só parou para encher mais uma vez o copo. Subitamente falou em voz muito baixa:&lt;br /&gt;– Sabe, não é verdade que eu entenda tudo.&lt;br /&gt;– Não?&lt;br /&gt;– Não, não é verdade. Não entendo, por exemplo, como é que ela pode trocar a segurança de ficar comigo pela insegurança de ficar com você. Vocês são todos tão... tão... — Interrompeu-se, procurando a palavra. – Tran-sitó-ri-os, é isso. Vocês são muito transitórios, entende? Tão instáveis, hoje aqui, amanhã ali. Eu sei, também já fui assim. Só que chega um ponto que a gente cansa, que não quer mais saber de aventuras ou de procuras, entende? Acho que é isso que vocês não são capazes de compreender, que a gente, um dia, possa não querer mais do que tem. É isso que ela não compreendia. Acho que é por isso que ela foi embora. Talvez as coisas comigo fossem muito chatas, muito arrumadas. Acordar todos os dias à mesma hora para encontrar a mesma cara. É engraçado. Ela dizia sempre que morreria qualquer dia, de susto, de bala ou vício. Acho que citava algum verso de um desses cantores que vocês tanto gostam, desses que morrem por excesso de drogas.&lt;br /&gt;Levantou-se, o passo precário. Deu algumas voltas sem direção, depois tornou a encarar o outro:&lt;br /&gt;– Sabe, acho que ela vai se destruir com você.&lt;br /&gt;Virou mais uma vez o disco. Sabia que estava saindo tudo errado. Não era aquilo o que planejara, detalhado, meticuloso, arrumando as duas poltronas, uma em frente à outra, a mesinha com uísque, o balde de gelo. Talvez até chorasse agora, admitiu. A sala inteira girava quando ele se encaminhou para a janela. Espiou pelas dobras da cortina. Havia anoitecido. A loja de flores estava fechada, as latas de lixo transbordavam cravos, palmas, crisântemos. Deixou-se cair sobre os joelhos e não fez o menor esforço para levantar-se, as costas apoiadas contra a superfície fria da parede. O outro levantou-se e perguntou se não achava que estava bebendo demais. Ele disse que não, que não achava. E perguntou mais uma vez se não era mesmo um chato. O outro fez que não com a cabeça. Que de maneira alguma. Então ele disse que precisavam ainda conversar muitas coisas, com muita calma, com muito tato, como homens civilizados.&lt;br /&gt;– Não é verdade que somos homens civilizados?&lt;br /&gt;O outro disse que sim, disse muitas vezes que sim — e subitamente apertou o ombro dele com aquelas mãos magras e nervosas, como se compreendesse. Vistos de perto, os olhos eram ainda maiores e mais claros, um brilho seco nas pupilas dilatadas. A barba crescida, manchada de sol e fumo. Depois saiu devagar, fechou a porta atrás de si. Então ele encostou a cabeça na parede e ficou ouvindo aquelas notas subindo e baixando, dando voltas concêntricas sobre um pequeno ponto desconhecido, mas sem perderem a continuidade. De certa forma, disse baixinho, de certa forma Irene era assim. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-6137214758070093302?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/6137214758070093302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=6137214758070093302&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6137214758070093302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/6137214758070093302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/noes-de-irene.html' title='NOÇÕES DE IRENE'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-4797830086232577277</id><published>2008-04-05T11:23:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:34:46.090-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>O AFOGADO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;&lt;em&gt;Para Augusto Rigo&lt;br /&gt;“Sim, nada é mais difícil e delicado, até mesmo sa-grado, quanto o ser humano. Nada pode igualar o poder voraz desses misteriosos elementos que, sem grandeza ou finalidade, nascem entre desconhecidos para acorrentá-los pouco a pouco com elos terríveis”&lt;br /&gt;(Witold Gombrowicz: Bakakai)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Há um morto jogado na praia!&lt;br /&gt;De repente ele interrompeu tudo que fazia para prestar atenção no grito. Despiu o avental enxugando as mãos úmidas de suor, deu dois passos sem direção no meio da sala pesada de mormaço — e só depois de um tempo relativamente longo é que se deu conta de que alguém gritara no meio da praça. Então abriu a janela e ficou olhando o burburinho lento que se armava, as pessoas maldespertas da sesta movimentando-se molemente em direção ao menino que fazia sinais desesperados sob a estátua do general. Palavras soltas chegavam a seus ouvidos, algumas janelas se abriam, os vidros faiscando bruscos para depois chocarem-se contra as paredes caiadas de branco, passos na escada, aqui e ali algum cão espantado, as moscas esvoaçando tontas — e pouco a pouco intensificava-se o movimento em torno do menino de pés descalços, abrigado nas sombras escassas da praça sem árvores. O chão de terra crestada.&lt;br /&gt;Aconteceu alguma coisa, pensou entediado, como se aquilo se repetisse há muito tempo, e como se qualquer curiosidade ou acontecimento fossem antigos e conhecidos, embora inesperados. Como se não houvesse mais nada a surpreender — pensou lentamente que alguma coisa havia acontecido. No mesmo momento ouviu que batiam – há quanto tempo? – à porta do quarto, e uma voz gorda de mulher repetia:&lt;br /&gt;– Doutor, aconteceu alguma coisa na praia.&lt;br /&gt;Abriu a porta e desceu as escadas contando degraus, a mão amparada pelo corrimão de madeira descascada, sem a menor pressa. Porque na realidade — dizia-se, e estava tão acostumado a esse diálogo consigo mesmo que movia os lábios como se falasse, embora sem produzir nenhum som —, porque na realidade jamais acontecera alguma coisa naquele lugar. Alguma estrela cadente durante as noites comprimidas entre o cheiro vagamente apodrecido da maresia e o calor viscoso que vinha das montanhas — e nada mais que isso. As cadeiras dispostas em desordem sobre as calçadas, um sem-número de olhares de repente acompanhando o roteiro daquela chispa brilhante que cessava de existir e, ao mesmo tempo em que morria, permitia-lhes fazerem três pedidos, remotas superstições, velhos mitos: três desejos. Como se fosse possível desejar alguma coisa naquele lugar, suspirou antes de transpor a soleira da porta para ganhar a rua cheia de passos e gritos. Quase cambaleou com o sol pesando súbito no topo da cabeça, precisou apoiar o braço contra os tijolos de uma parede sem reboco e, abrindo lento os olhos, divisou por entre lágrimas ofuscadas o brilho da calça branca do menino. Aproximou-se impaciente, os braços afastando pessoas que se esquivavam respeitosas, chamando-o doutor e dizendo coisas sobre o que o menino dizia:&lt;br /&gt;– Um morto... um morto na praia...&lt;br /&gt;Frente a frente com o menino, tomou-o pelo ombro sentindo a pele queimada em contraste com seus dedos muito brancos — e de repente viu no menino todo um desesperançado crescimento no meio daquelas duas dúzias de casas. Então, com súbita delicadeza, perguntou:&lt;br /&gt;– O que foi que você viu?&lt;br /&gt;O menino encarou-o com olhos verdes ainda capazes de algum espanto:&lt;br /&gt;– Um morto.., lá na praia... jogado na areia...&lt;br /&gt;– Me leve até lá — pediu. E tomou da mão do menino como se fosse capaz de salvá-lo daquelas duas dúzias de casas, algumas caiadas de branco — as mais ricas —, a maioria simplesmente sem reboco, o barro aparecendo endurecido entre os tijolos escuros. As outras pessoas acompanharam-no em silêncio, para vencerem sem pressa a extremidade da praça, as últimas casas, o caminho circundado de pedras que conduzia ao mar, às primeiras dunas e, logo após, a uma baixada onde o menino parou, apontando qualquer coisa na faixa de areia molhada:&lt;br /&gt;– Lá.&lt;br /&gt;Todos os olhares convergiram para a mesma direção. Sem conseguir evitar, novamente o médico pensou nas estrelas cadentes e nas prováveis cismas daquelas cabeças queimadas, quase uniformes em seus olhos esverdeados de sol, suas roupas esfarrapadas, seus gestos precisos e poucos, embora marcados pela lentidão do cansaço — o cansaço dos que esperavam por um acontecimento indefinido, capaz de fazê-los movimentarem-se subitamente com mais vontade, talvez com medo. Precisavam do temor como quem precisa de um sentido. Uma voz rouca cortou o pensamento:&lt;br /&gt;– Como é que você sabe que ele está morto?&lt;br /&gt;– Cheguei perto.&lt;br /&gt;– Muito perto?&lt;br /&gt;– Não. Fiquei com medo. Só sei que não se mexe. Fiquei muito tempo olhando e ele não se mexeu nem uma vez.&lt;br /&gt;Alguns pescadores começaram a descer a encosta, os pés afundados na areia quente, dois ou três meninos os seguiram — mas um gesto do médico os deteve:&lt;br /&gt;– Esperem — disse, e quase num sussurro sinistro, para amedrontá-los: – Pode ser a peste.&lt;br /&gt;A peste. Os mais velhos encolheram-se atemorizados e vivos, lembrando aquele tempo de portas fechadas com trancas, todo dia alguns cadáveres alimentando a terra e ampliando a pequena extensão do cemitério sobre a colina. Rodearam-no, esperando uma decisão. Sem dizer nada, ele e o menino começaram a caminhar em direção ao corpo, enquanto os outros entreolhavam-se indecisos entre segui-los ou permanecer no alto das dunas. Avançou trôpego pela areia, desdobrada à sua frente a sombra de um homem alto e magro, os cabelos esvoaçando ao vento. Mordeu os lábios salgados. A água verde do mar. Algumas gaivotas em círculos estonteados sobre a água verde do mar. Um mergulho súbito: a água partia-se em borbulhas cintilantes, gotas de vidro e luz, soltas no ar.&lt;br /&gt;Aos poucos, os contornos foram ficando mais nítidos: qualquer coisa escura como cabelos destacados sobre a areia, depois a extensão de um tronco de onde saíam dois braços abertos em cruz, duas pernas unidas e molhadas pelo movimento repetido das ondas. Julgou enxergar algumas algas envolvendo o corpo, mas depois de alguns passos percebeu não serem mais que placas de areia, coladas à carne nua e branca. A vastidão despida de uma carne branca ao sol pesado das três horas da tarde. Antes de curvar-se para tocá-lo, voltou-se e viu os homens formando uma massa imóvel no alto das dunas. Apenas o menino olhava-o com olhos enormemente verdes, subitamente sérios, como se esperasse. &lt;em&gt;Esperas uma solução para esses teus olhos que não nasceram assim verdes e que dia a dia se farão mais claros até que não consigas mais olhar o mar sem pensares que de certa forma essa cor te foi dada por ele e até não saberes mais distinguir outra coisa que não seja verde e até que essa claridade deixe um dia de te cegar para que mergulhes no escuro irremediável da morte? &lt;/em&gt;Abanou a cabeça, afastando uma mosca, e curvou-se. Estendeu a mão para tocar muito de leve no corpo, mas antes de completar o gesto percebeu um ruído feito um sopro, uma respiração. O menino esperava. Os homens esperavam. O corpo esperava, de bruços. Rapidamente voltou-o sobre si mesmo e, sem fixar o rosto, colou o ouvido no peito do homem.&lt;br /&gt;– Está vivo — disse, e podia sentir contra a aspereza da barba não-feita as batidas tênues dentro do peito do outro.&lt;br /&gt;O menino começou a fazer sinais agitados para os pescadores, que desceram em bandos sôfregos pelas encostas das dunas. Então o médico ergueu os olhos e viuo rosto do afogado. E o rosto de homem não era ainda um rosto de homem: uma adolescência indefinida, permanente e talvez cruel guardada nas sobrancelhas espessas, escuras, nos maxilares fortes, nariz curto, reto, a boca entreaberta com lábios partidos, ressecados pelo sal, o queixo levemente vincado, os cabelos crespos pesados de areia. A testa queimava. Subitamente o médico apertou-o com força, e enquanto pressentimentos sombrios se desenrolavam no espaço que separava seu peito do peito do afogado, manteve-o junto de si, como a protegê-lo dos homens que continuavam a correr pela praia, aproximando- se. Como a protegê-lo do sol, do mar, do menino que dava voltas em torno deles, exigindo uma participação naquilo que descobrira. Tirou a camisa para cobrir o rosto dele, depois ergueu-o suavemente pelos ombros e ficou esperando que alguém o ajudasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou com cuidado ao lado da cama, para não despertá-lo. Era quase dezembro. Aproximou o lampião e examinou mais detido o rosto agora limpo, mas ainda marcado pela febre. &lt;em&gt;Quem te trouxe dessa quase morte para um lugar que é a própria antecipação da morte tu que pareces para sempre imobilizado nessa postura que não é tua porque não te imagino assim abandonado entre lençóis mas em constante movimento tu que fazes dessa ausência de movimentos de agora a tua enorme e falsa fragilidade?&lt;/em&gt; Estalou os dedos, inquieto. Sentia necessidade de algum terror, mas não se apressava porque sabia que ele viria, breve e denso. Suspendeu os óculos deixando-os em repouso sobre a cabeça, depois pousou-os devagar na mesa. Andou até a janela e ficou a ver os homens e as mulheres largados nas cadeiras, as brasas dos cigarros, pontos vivos na escuridão, alguns curiosos postados sob a janela da pensão, sem ousarem fazer perguntas.&lt;br /&gt;O céu muito escuro: naquela noite, não haveria estrelas cadentes. Passou as mãos pelos braços. Não conseguia aterrorizar-se, e há muito tempo não sentia frio. Fizera seu aprendizado de solidão enquanto as coisas sentidas a cada dia tornavam-se mais e mais semelhantes, para finalmente permanecerem numa massa informe a escorrer monótona por dentro dele, alterando-se apenas em insignificantes cintilações cotidianas. Apenas reagia. Tudo ali estaria para sempre excessivamente silencioso para que se pudesse soltar um grito ou chorar sozinho no escuro, como nos primeiros tempos. E ainda que gritasse: o silêncio seria maior e mais desesperado que qualquer grito, porque todos gritavam e agiam da mesma forma, calada e idêntica. Mesmo o respeito com que o cercavam não chegava a ser exatamente o reconhecimento de uma superioridade: não passava de um frio constatar do ser do outro. Encarar sem emoção a perdição alheia e a própria perdição, porque não havia distinções nem individualidades: eram todos o mesmo grande e triste monstro humano, uma única cabeça, tronco, membros. Numa noite de quase dezembro, a alma deserta. A estátua do general no meio da praça e um desconhecido no quarto. Voltou- se e encontrou dois olhos fixos nas suas mãos. Foi-se aproximando enquanto falava:&lt;br /&gt;– Há dois dias que estavas desacordado.&lt;br /&gt;Esperou algum tempo. Os dois olhos percorriam o quarto, inventariando a pobreza dos móveis poucos e arrebentados, as paredes gretadas, a bacia de louça num canto. As mãos se moviam: dez dedos torcidos sobre o lençol de tecido áspero.&lt;br /&gt;– Quer alguma coisa?&lt;br /&gt;Os lábios ressecados se abriram com dificuldade — a percepção dessa dificuldade fez com que os dedos se crispassem lentamente, aos poucos criando tramas estranhas no tecido grosso do lençol. A cabeça oscilou em direção à mesa, os olhos piscaram algumas vezes, e finalmente qualquer coisa como uma voz entremeada de sal e algas murmurou:&lt;br /&gt;– Água.&lt;br /&gt;Estendeu-lhe o copo e, sem nenhum pensamento na cabeça um pouco dolorida, ficou observando a avidez do outro. Tornou a servi-lo, e mais uma vez, e ainda outra, até que o desconhecido levasse dois dedos à boca, como a pedir silêncio, mas evidenciando uma saciedade que, por sua nitidez, quase assustou o médico. Ele então recuou para trás do lampião, onde sabia-se protegido pela sombra. Isento, e praticamente ausente, sondou-o mais uma vez. Ausente o outro, também — havia uma insólita ausência naquele rosto.&lt;br /&gt;Devia ter uns vinte anos, decidiu. E com o cuidado extremo de quem sabe que começa a penetrar no conhecimento de alguma região muito frágil, permitiu que seu próprio olhar fosse descendo do rosto para o pescoço e o peito coberto de pêlos claros, ensolarados, até onde o lençol permitia a visão. E de repente um impulso que não chegou a compreender exigiu que falasse, como se falando conseguisse evitar uma reação indesejada, talvez dura, do outro. Mas teve uma consciência tão grande da própria necessidade de apenas preencher um momento perigoso que, mal abriu a boca, sentiu-se extremamente falso. Mesmo assim, perguntou com uma espécie de carinho seco:&lt;br /&gt;– Sente-se bem?&lt;br /&gt;O outro acenou afirmativamente. A sombra na parede acenou afirmativamente. O médico tornou a perguntar:&lt;br /&gt;– Quer alguma coisa?&lt;br /&gt;O outro não respondeu. Havia uma dissimulada ferocidade no jeito como cerrava os maxilares, uma contida agressividade nos dedos fortes esmagando o lençol, uma sede além daquela água que bebera: certa vibração que exigia, intimidava e penalizava, abandonada. Entrelaçou os dedos. Queria paz. E deixou a cabeça apoiar-se no encosto da cadeira. Muito tempo depois acordou com batidas na porta. Ainda tonto, abriu-a e deparou com a mulher gorda espiando para dentro:&lt;br /&gt;— Ele acordou faz pouco — explicou, perguntando-se há quanto tempo teria acontecido aquilo que chamava, cuidadoso, de o despertar. – Bebeu muita água, depois dormiu novamente. Está fora de perigo. Não tem nenhum ferimento. A febre também baixou. Talvez amanhã já esteja em condições de levantar — objetivo, acumulava informações no desejo não revelado de ficar a sós com o que incompreendia.&lt;br /&gt;– Mas o senhor não perguntou quem era, de onde vinha, como veio dar na praia? Deus me livre, pode ser algum criminoso, a gente nunca sabe.&lt;br /&gt;– Não, não perguntei nada — disse secamente. E acrescentou: – Ele não está em condições de falar.&lt;br /&gt;A mulher sacudiu os ombros:&lt;br /&gt;– Está bem, mas não me responsabilizo por nada. O senhor é que sabe — deu alguns passos em direção à escada, subitamente voltou-se e encarou-o com ar de dúvida.&lt;br /&gt;– Sabe o que dizem na vila? Que o senhor já conhecia ele, quero dizer, que o senhor cuidou bem demais dele para um desconhecido. Que o senhor não deixou ninguém ver o rosto dele.&lt;br /&gt;Não respondeu. Fez um rápido sinal com a cabeça, como se a despedisse ou concordasse, e fechou a porta. Encostou a cabeça na madeira, e por um momento temeu que o descobrissem. Mas não tenho nada a esconder, espantou-se. Partia-se todo em pedaços incompreensíveis: o terror voltava. A espessa camada: quebrando-se, cascas finas. Acendeu um cigarro e tornou a sentar-se na beira da cama do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As noites passadas na cadeira doíam nas costas. Esticou o corpo, o sol já alto da manhã estendendo um feixe de luz por sobre a mesa e o piso riscado. E imediatamente envolveu-se em ocupações matinais, a bacia de louça num dos cantos, a água fresca nas têmporas devolvendo, lentamente, uma espécie de lucidez. Do canto, olhou para a cama: pela janela aberta, o feixe de luz do sol clareava ainda mais os lençóis. O corpo adormecido, pesado, os cabelos crespos espalhados sobre o travesseiro. A poeira dourada suspensa no ar. Evitou aproximar-se. Caminhou até a porta e, antes de dar duas voltas na chave, virou-se ainda mais uma vez para dentro. E só depois de pensar com desgosto em outro dia repleto de queixas e feridas, o cheiro de álcool, o nojo contido, só depois de lembrar da cara endurecida das mulheres, a pele gretada dos homens — só depois é que ele fechou a porta e desceu as escadas. Comeu o pão em silêncio enquanto a mulher observava-o da porta, o ar vagamente agressivo. Percebia nela o curso tenso das dúvidas, em contraponto com uma curiosidade quase obscena, embora calada. Não havia necessidade de palavras para expressar o que brilhava com suficiente intensidade nos braços cruzados em expectativa. Falou apenas quando ele começou a preparar café, pão e algumas bananas numa bandeja — simulava uma doçura de mulher gorda, pronta a assumir seu ofício de servir:&lt;br /&gt;– O senhor não precisa se preocupar. Pode deixar que eu mesma levo o café dele. Qualquer jeito, tenho mesmo que arrumar as camas e varrer os quartos.&lt;br /&gt;– Não é preciso — disse seco, e mal havia falado arrependeu-se.&lt;br /&gt;Ele pressentia: se não fizesse nenhuma concessão à mulher, se continuasse a negar-lhe qualquer possibilidade de contato com o desconhecido, a cada dia ela se faria mais e mais ávida, tornando-se talvez perigosa. Já se referia ao outro em termos velados, chamando-o de ele, em voz baixa, como nomearia qualquer coisa que não lhe fosse permitido conhecer. Ele era aquele homem lá em cima — toda a distância de outras terras, paisagens feitas não só de mar e montanhas, mas de outros elementos que ela não conseguia sequer supor, a não ser por velhas histórias, tão esgarçadas quanto inverossímeis. Ele era o inverossímil. Ele era a possibilidade negada de ampliar a visão.&lt;br /&gt;O médico pesou o rosto astuto da mulher, os cabelos repartidos ao meio e presos atrás, desnudando uma testa estreita sobre dois olhos miúdos, vivos e verdes: até que ponto ela seria capaz de avançar? Hesitou por momentos em conceder — e portanto quebrar o início de um clima que anunciava insuportável — e negar, e portanto jogar-se numa rede a se fazer cada vez mais sutil: as tramas cresceriam entrelaçadas como folhagens, até que ele não pudesse mais controlá-las? A sala calma e contida. Decidiu:&lt;br /&gt;— Eu mesmo levo.&lt;br /&gt;Subiu as escadas, a bandeja na mão. Depois depositou-a leve na mesinha de pernas tortas, ao lado da cama. Curvou-se para tocar a testa do afogado: era fresca e lisa, sobre a fisionomia repousada. Evitou qualquer pensamento. Tomou da pequena maleta e saiu para a rua.&lt;br /&gt;Fora: o sol começando a pesar, acentuado ainda mais por um vento morno que vinha do norte, as pessoas cumprimentando dissimuladas, sem perguntas, mínimas quebras de suspeita nos gestos. Visitou algumas casas, os doentes escassos, nunca houvera muito a fazer por ali, tratava-os com uma seca cordialidade que, para todos, era a marca de um homem bom, embora incógnito. Não se permitia excentricidades, e por excentricidades abrangia uma série infindável de atitudes, desde dividir a cachaça do entardecer no bar dos pescadores, mostrar a si mesmo ou evidenciar carências. Alguns, talvez, o julgassem orgulhoso. Era. Carregava com alguma dificuldade uma aceitação tão grande e silenciosa, tão absurda no seu quase mutismo e absoluta desnecessidade de comunicá-la ou demonstrá-la, sobretudo tão óbvia, lhe parecia, que parecia também que nenhuma daquelas pessoas seria capaz de compreendê-lo, da mesma forma como não compreenderiam a sua própria e pesada, intransferível, indivisível carga. Passava com sua roupa branca, todos os dias — e não era nem mais nem menos assustador que qualquer outro dos homens, ou qualquer das casas. Ninguém se indagaria em profundidade, e vistos superficialmente eram todos iguais. Apenas aceitavam — ele, como todos —, e aceitar era uma forma de compreender.&lt;br /&gt;Foi no meio da praça que encontrou com o padre. Cumprimentou-o, disposto a passar adiante, quando percebeu um movimento diverso do costumeiro a se fazer num gesto nascendo da batina negra. Ainda assim tentou continuar, mas a voz obrigou-o a deter os passos e olhar fixamente para a calva lustrosa ao sol de quase meio-dia.&lt;br /&gt;– Precisava falar com o senhor.&lt;br /&gt;– Pois não.&lt;br /&gt;– Trata-se... bem, trata-se do homem encontrado na praia.&lt;br /&gt;– Sim?&lt;br /&gt;– Bem, o senhor sabe, o povo está curioso, quer saber quem é o homem, se houve algum naufrágio. Os paroquianos estão todos um pouco... como direi?... bem, o senhor sabe... é perfeitamente natural essa curiosidade... Afinal, a vila é tão pequena, todos sabem ao mesmo tempo de tudo que acontece, ontem mesmo todos ficaram sabendo que o desconhecido está fora de perigo. Eu mesmo...&lt;br /&gt;Atalhou-o, ríspido. Detestava aquela preparação, as justificativas dissimuladas e rodeios tontos para chegar a um único ponto.&lt;br /&gt;– O que é que o senhor quer saber?&lt;br /&gt;O padre pareceu notar as farpas atrás das palavras. Imediatamente empertigou-se, passou o lenço sobre a calva encharcada de suor e respondeu no mesmo tom:&lt;br /&gt;– Quero saber quem é esse homem, de onde veio, o que quer aqui.&lt;br /&gt;– Ele não quer nada aqui. Ele nem sequer sabe que está aqui.&lt;br /&gt;– O que quer dizer com isso?&lt;br /&gt;– Não quero dizer nada. Estou apenas cuidando de um doente.&lt;br /&gt;– Mas pode ser uma criatura de maus costumes, O senhor sabe que a nossa comunidade, graças a Deus e aos meus modestos mas desvelados esforços, a nossa comunidade prima pela decência, pelos bons costumes e a moral elevada.&lt;br /&gt;– Não acredito que um desconhecido seja capaz de abalar a sua decência, os seus bons costumes e a sua moral elevada.&lt;br /&gt;– O senhor não acreditar é uma coisa. Do que ele é capaz ninguém sabe. Falo em nome de Deus — apontou para a estátua do general — e em nome do nosso mais ilustre antepassado. Esse homem pode ser um criminoso.&lt;br /&gt;– Não acredito que seja.&lt;br /&gt;– Mas o senhor tem que me prometer que falará com ele, tão logo seja possível. E que me comunicará de qualquer perigo.&lt;br /&gt;– Não prometo nada.&lt;br /&gt;– Mas ele pode ser um criminoso! Devo zelar pela segurança dos meus paroquianos! O senhor está assumindo uma responsabilidade muito grande.&lt;br /&gt;Com um aceno breve da cabeça, o médico saiu caminhando sob o sol escaldante. O padre ofegava, o rosto avermelhado pela cólera. Nas casas em volta da praça, o médico observou, portas e janelas se abriam para mostrar rostos curiosos. Pequenos grupos se formavam pelas esquinas. Uma tensão ainda mais nítida que o calor sufocante ampliava-se por toda a vila, como uma corrente elétrica. Ainda ouvia a frase do padre: – “Mas ele pode ser um criminoso!” Um criminoso. Criminoso.&lt;br /&gt;Inúmeras suspeitas atravessaram-lhe súbitas a mente: ele mesmo não chegava a compreender por que agia daquela maneira. Sabia apenas, cegamente, que precisava protegê-lo. Ao atravessar a rua mediu bem o passo para que não percebessem alguma alteração. Era preciso ser natural. Surpreendia-se precisando construir uma naturalidade, quando nada seria mais natural do que essa naturalidade — e no entanto precisava aplicadamente construí-la em cada passo, em cada movimento de braço, cada respiração, cada olhar. Uma agulha fina penetrou na têmpora esquerda, lentamente varando carne, músculos, ossos, para comprimir um recôndito ponto. Que doía. Depois de muito tempo. Um ponto doía, inacessível. Quando entrou no quarto, o desconhecido esperava. Estava em pé, ao lado da bacia de louça, a mão esquerda levantada na altura do rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Alfa é meu nome — disse.&lt;br /&gt;E ele perguntou:&lt;br /&gt;— Esse é teu nome de guerra?&lt;br /&gt;E ele respondeu:&lt;br /&gt;— Não. Esse é meu nome de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— mas o que chamas de paz se pressinto em ti essa coisa mansa que se faz nos outros e em cada momento que te olho inúmeras coisas escuras escorrem dentro de mim pois se a paz não é uma coisa escura pois senão não continuarei não te farei nenhuma pergunta embora precisasse não para te definir ou para te compreender não preciso saber de onde vens assim como para me definires ou me compreenderes não precisas de nenhum dado concreto mas eu não te defino nem te compreendo apenas sei que chegaste e que esta tua chegada modificará em mim todas as coisas que se tornaram suaves todas as cordialidades ou amenida des que construí nesse tempo de absoluta sede ansiava por ti como quem anseia pela salvação ou pela perdição porque qualquer coisa poderia me salvar desta imobilidade que me devasta por dentro te direi apenas para sobreviver mas já não quero sobreviver já não quero apenas ir adiante é preciso que qualquer coisa abata esta letargia porque já não admiro precariedades por que não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto ainda que tudo isso seja um lento processo de morte um enveredar em direção ao mais terrível vejo em ti o meu roteiro de agonia além disso nada sei mas não fujo foram muito poucas as coisas que vivi percebo que não cheguei a existir exatamente mas não sou forte apenas construí de minhas fraquezas essa coisa que talvez chamasses força há muito tempo eu permanecia esquecido de mim mesmo foi preciso que chegasses para eu perceber que somente destruindo se pode construir agora eu quero a destruição que me propões mas não propões nada deixas que eu enverede sozinho é assim sei que não me deixarás sozinho sei que te recusas a te definires em palavras não por que eu me atemorizasse mas por que as palavras não te dizem te mos muito pouco tempo nesse pouco tempo é preciso que todos percebam em ti o que nunca viram e somente no último momento possam ver a tua face essa face terrível que todos suspeitam terrível mas eu reivindico a posse desse terrível porque me sei capaz de suportá-lo não falta muito tempo agradeço por me teres dado a consciência da minha inutilidade mas eu de nada sei nada conheço do que falo mesmo assim estou pronto embora sem compreender inteiramente sim semearemos a fome e a discórdia semearemos o que eles não seriam capazes de viver se não chegasses não me esquivarei vejo a tua mão estendida em direção a mim e estendo a minha própria mão e minha mão e tua mão se tocam e a minha espera e a tua conduz sim preparo-me para o grande mergulho no desconhecido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— antes que tentes aviso já te disse tudo não sou nada além de meu nome meu nome é minha essência mais profunda assim como a tua talvez seja a que vivas no momento talvez nada sejas além destas paredes descascadas destes móveis poucos esta bacia de louça naquele canto mas não te julgo pelo que vejo em ti externamente não julgo a ninguém nem a mim mesmo vim duma coisa que ainda não conheces vim duma coisa enorme da es curidão e de luz mais absolutas que possas imaginar a um só tempo vim duma coisa sem medo mas não sabes que trago em mim o princípio e o fim de todas as coisas sabes por ventura que te farei meu cúmplice e despertarei teu ódio esse ódio calado que consome as vísceras por que de todos és o único que sabes da absoluta inutilida de de todas as coisas e sa bes dessa vontade incon tida de ser maior que todas essas coisas sabes dessa vontade amarga no peito de cada um e esquecida duran te a trivialidade sabes de tudo isso e por saberes é que te escolhi te digo que o acaso não existe e que aconteci no momento exato em que não suportavas mais embora não soubesses da tua exaustão é preciso que as coisas se intercalem exatamente como está sen do feito esses momentos de luz aparentemente banais é preciso essa linearidade para que subterraneamente escorra um fluxo intenso e te digo que subitamente os homens enlouquecerão e perpetrarão o que ja mais seriam capazes de perpetrar te digo dessa loucura tão próxima te digo da proximidade de tua própria destruição e sei que não temes porque eu não te escolheria se não soubesse embora saiba que temerás no momento exato e que mais tarde julgarás que foste fraco mas eu te digo ainda que todas as coisas estão sendo feitas e que não podes fugir delas porque a partir do momento em que alguém é escolhido faz-se necessário assumir essa escolha os temores não serão infundados nem mesmo esses obscuros pressentimen tos que te assaltam é preciso que alguém faça penditar a ordem das coisas por que essa ordem permane cena inabalável se não houvesse a minha chegada pois quem provou do ódio desejará provar coisas cada vez mais intensas e o mais intenso que o ódio só pode ser essa região sombria à qual os homens deram um nome mas esses de nada sabem mesmo tu de nada sabes eu vim dessa região para semear a fome e a discórdia e não preciso te convencer de nada quero apenas que te deixes conduzir toma a minha mão e vê como ela é leve toma da minha mão e pensa nos lugares para onde te levarei nesta noite de quase dezembro e agora prepara-te para o grande mergulho no desconhecido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das duas da tarde uma aglomeração se fez no meio da praça. Era o sétimo dia. Rumores diluídos de vozes humanas misturadas ao barulho do vento norte que varria a vila há vários dias, levando para longe o cheiro dos animais apodrecidos, latas velhas chocavam-se contra paredes, árvores libertavam folhas que ficavam soltas no ar, frutos caíam pesados no chão, janelas batiam com força espatifando vidros. A princípio não chegou a compreender o que se passava: parecia impossível que alguém ou alguma coisa voluntariamente quebrasse o silêncio estabelecido tácito e imutável, perdurando sempre do meio-dia às quatro da tarde. Com esforço, afastou da testa os cabelos empastados de suor e aproximou-se da janela.&lt;br /&gt;Então distinguiu os homens amontoados sob a estátua do general, em torno do padre, cuja batina esvoaçava estranhamente leve com o vento. Tão logo sua presença foi notada, um brusco silêncio se armou: voltaram-se todos para observá-lo, os pescadores com os chapéus nas mãos, as mulheres com os filhos dependurados na cintura, mesmo os cães cessaram os movimentos e, atentos ao que se preparava, olhavam-no imóveis. Sentiu medo. Aquilo que se desenrolava há tempos, tão de leve que não conseguira ainda nomeá-lo, de repente se concretizou, estampado em sua fisionomia. Não o recusou: descobria no mesmo instante que o medo era matéria de sobrevivência, como o eram todas as coisas, mesmo as esperas frustradas e as inúmeras sedes e os espantos e pequenas descobertas que em si nada significam mas que juntas formavam lentamente camadas superpostas e densas demais, sim, as densidades insuspeitadas e as estrelas cadentes e a queda de estrelas e a cadência dos passos todas as manhãs a aspirar a maresia e atravessar a praça e muitas coisas e todas as coisas — e finalmente o estar ali parado na janela olhando fixamente a massa que exigia, não permitindo que alguém se individualizasse ou protegesse um mistério qualquer — pois que era fundamental para a sobrevivência de todos que as vidas fossem identicamente claras — tão claras que o sol pudesse vará-las como varava as janelas constantemente abertas — finalmente comprimir os dedos contra o parapeito empoeirado da janela, enfrentando o que ele próprio construíra, as costas molhadas de suor, os olhos ofuscados pela luz intensa, os pés descalços sobre a madeira — cara a cara com o seu invento.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mas não é verdade que nunca tivesses suspeitado desta tarde e desta fome: não é verdade que por um momento sequer tivesses tentado fugir à tua trágica determinação: não é verdade que alguma vez tivesses sequer pensado numa possibilidade de salvação: sabias desde o começo da consistência ácida do que tecias, e no entanto persistias nela, como quem penetra num beco sem saída, caminhando pela estreita dimensão que sabias desde sempre intransponível: sim, tu sabias deste momento a construir-se desde o começo, e não fizeste nenhuma tentativa de evitá-lo: agora é necessário que enfrentes: embora talvez não soubesses do depois deste momento que se faz agora e portanto não possas estar preparado para o próximo momento: mas deste sabes: tudo se encaminhou para ele, e já não podes fazer mais nada, a não ser enfrentá-lo: tens ainda no peito a chama que te consumia nessas noites paradas de verão: tens ainda o que convencionaste chamar força: tens ainda todas as partículas de tua determinação: tens ainda a tua integridade, embora saibas que ela pode te destruir: pois então toma dessa fibra que a si mesma se construiu em solidão sob teu olhar espantado e impassível: toma dessa fibra feita de algo tão denso quanto o ódio: tomado teu ódio: e agora enfrenta.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Suspirou exausto. Conservou as duas mãos crispadas no parapeito da janela, enquanto o padre se aproximava: sentiu o contato da outra mão em seu ombro, como a ampará-lo. E disse:&lt;br /&gt;– Volta para dentro. Espera. Eles não podem te ver.&lt;br /&gt;Fora do círculo formado pelos pescadores, destacava-se o padre, avançando. Ouviu:&lt;br /&gt;– Queremos que o senhor desça.&lt;br /&gt;E já não era um pedido, já não eram mais aquelas tímidas aproximações cheias de justificativas, não era sequer um convite, nem mesmo uma ordem — mas um fato irreversível.&lt;br /&gt;– Não tenho nada a dizer.&lt;br /&gt;– Não queremos que o senhor diga alguma coisa. Queremos ver o desconhecido. O senhor não nos pode explicar. Queremos que ele nos diga por que depois de sua chegada os pescadores não trouxeram mais peixes, por que o leite coalhou todas as manhãs, por que morreram as crianças nos ventres das mulheres prenhes, por que todas as donzelas perderam a pureza, por que sopra esse vento desde a sua chegada, por que não caíram mais estrelas, por que todas as plantações secaram e os animais morrem de sede pelas ruas, por que esta sede. Esse homem traz a destruição e o demônio dentro de si. O senhor protege esse homem. O senhor é cúmplice da destruição. Um hálito de morte percorre a vila. E o senhor é o culpado disso. Por que não o deixou morrer? Por que não nos deixa ver a face dele? Por que ele não sai às ruas se já está recuperado? Por que o senhor deixou de visitar seus doentes? Por que o senhor está encaminhando estes homens pacíficos para a violência? Queremos saber dos estranhos poderes desse desconhecido.&lt;br /&gt;– Não sei do que o senhor fala. Todas as coisas são as mesmas há muito tempo.&lt;br /&gt;Um murmúrio cresceu na praça. O padre tornou a falar:&lt;br /&gt;– Não queremos usar a força. É melhor que o senhor desça.&lt;br /&gt;Voltou-se para dentro, escrutou-o detidamente, mas sem conseguir perceber nenhum sinal.&lt;br /&gt;– Não tenha medo — disse. – Eu te protegerei.&lt;br /&gt;– Não tenho medo. E não preciso de tua proteção.&lt;br /&gt;– O que há em ti que não compreendo?&lt;br /&gt;– O que há em mim e não compreendes é o mesmo que há em ti, e tampouco compreendes.&lt;br /&gt;Sorriu. Os dentes muito claros. Os olhos azuis. Punhalada de luz.&lt;br /&gt;– Eles são capazes de tudo.&lt;br /&gt;– Eu sei. Também eu sou capaz de tudo.&lt;br /&gt;– Preciso descer. Não quero que morras.&lt;br /&gt;– Também eu não quero que morras. Mas morreremos.&lt;br /&gt;O médico encaminhou-se para a porta. Os ombros curvos. Hesitava entre sair e permanecer no quarto. Então voltou-se e disse:&lt;br /&gt;– Foge pelos fundos enquanto falo com eles — e acrescentou apressadamente, como se precisasse dar forma a uma idéia inesperada antes que ela se desfizesse: – Sim, foge pelos fundos e me espera na praia, no mesmo lugar onde te encontrei, mais tarde irei encontrar contigo, então...&lt;br /&gt;– Então fugiremos?&lt;br /&gt;– Sim, sim. Fugiremos.&lt;br /&gt;– Mas não vês que é impossível?&lt;br /&gt;– Não, não é impossível. Fugiremos para qualquer lugar, não importa onde, não importa qual.&lt;br /&gt;– Havias falado que daqui ninguém foge.&lt;br /&gt;– Não tem importância, não sei mais. Agora vai. Preciso descer.&lt;br /&gt;Desceram juntos a escada, no final separaram-se. O médico abriu a porta e encarou o padre.&lt;br /&gt;– Podem subir — disse. – Ele foi embora. Não há ninguém lá em cima.&lt;br /&gt;Os pescadores entreolharam-se surpresos, subitamente desarmados. Pareceram não saber para onde ir ou o que fazer, até que o padre fez um sinal com a cabeça, encaminhando-se para a porta aberta. O médico recuou, esperando que todos entrassem. De baixo, viu-os subirem rapidamente as escadas, os pés empoeirados marcando os degraus. Depois ouviu o barulho da porta aberta com violência, exclamações de espanto, rumor de móveis despedaçados, gritos. De repente um silêncio e a voz da mulher sobrepujando ruídos, nítida:&lt;br /&gt;– Não é verdade. Ele enganou vocês. O homem está na praia.&lt;br /&gt;Permaneceu estático por um momento, o vento batendo nos cabelos, os olhos voltados para cima. Depois saiu correndo em direção ao mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do alto das dunas, viu-o no mesmo lugar onde o encontrara pela primeira vez. Os cabelos esvoaçavam ao vento: parecia um menino assim, de longe, um menino qualquer construindo castelos na areia. Correu para ele, os braços abertos, seu corpo oscilava precário, para depois enristar-se feito uma seta, as agulhas finas penetrando as têmporas — seu corpo inteiro: uma agulha fina em direção à pequena mancha. Os pés afundavam e queimavam na areia.&lt;br /&gt;– Eles nos descobriram — gritou.&lt;br /&gt;O desconhecido abanou a cabeça. E novamente o médico pensou em que estranhas marcas, sem serem propriamente marcas, pois não deixavam traços, havia naquele rosto queimado e ainda em preparo, na introdução de alguma coisa que não viria a ser.&lt;br /&gt;– É muito tarde.&lt;br /&gt;– Não. Ainda é tempo. Podemos fugir.&lt;br /&gt;Tentou tomar da mão dele, mas o outro se esquivou num movimento perfeitamente definido, embora suave. Ficaram a encarar-se durante um tempo que o médico julgou longo demais, incompreensível demais — como tudo. Não conseguiu compreender exatamente o que se passava: sabia apenas que precisavam fugir. Embora desde o começo tudo estivesse previsto, não conseguira perceber essa obstinada negação que se faria. Insistiu ainda. E outra vez. Até que ouviu vozes sobre as dunas. Não precisou voltar-se para saber que eram os pescadores: o padre, a mulher e o menino à frente, conduzindo a massa que descia rápida, armada de paus e pedras. Gritavam.&lt;br /&gt;– Não quero ir sozinho — disse. – Vem comigo.&lt;br /&gt;– Mas não irás sozinho, embora eu não vá contigo.&lt;br /&gt;Sem saber exatamente o que fazia, começou a correr pela praia, sem saber também para onde. O sol cegava-o. Pequenos vermes se movimentavam na areia úmida, esmagada sob seus pés. Correu durante muito tempo, depois deixou-se cair exausto sobre os próprios joelhos. Então voltou-se e viu-o, no meio da multidão enfurecida, os braços baixavam e abatiam-se sobre sua cabeça repetidas vezes. Podia ver o sangue escorrendo, misturando seu vermelho com a brancura da areia. Mas não havia gritos. Tudo estava muito quieto.&lt;br /&gt;Esperou que todos se afastassem e voltou. Escurecia aos poucos. Quando alcançou o corpo, uma chuva fina começou a cair. O vento tinha cessado. A chuva pouco a pouco adensada: tomou entre as mãos a cabeça destroçada e ficou olhando durante muito tempo para dois olhos azuis escancarados. O sangue ainda escorria. Quente. Quando a noite baixou, arrumou cuidadoso o cadáver lavou as manchas de sangue do rosto, depois foi entrando lentamente no mar. Antes de mergulhar olhou para cima e, embora chovesse, inúmeras estrelas cadentes riscavam o céu de ponta a ponta. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-4797830086232577277?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/4797830086232577277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=4797830086232577277&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4797830086232577277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/4797830086232577277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/o-afogado.html' title='O AFOGADO'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1795860808632357369</id><published>2008-04-05T11:20:00.000-03:00</published><updated>2008-04-05T11:21:32.350-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>SARAU</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estou certo de que se não tivesse ido à cozinha aquela noite não os teria encontrado. Apenas não era possível ficar sem fazer nada enquanto meus pais jogavam cartas na sala. Tinham-me perguntado duas ou três vezes se eu não queria jogar — e duas ou três vezes respondi que não. Talvez houvesse falado secamente, porque eles baixaram a cabeça como se estivessem sendo agredidos e, espantosamente, continuaram a jogar. Digo espantosamente porque era quase inacreditável a lentidão com que movimentavam os braços para depositar cartas sobre a toalha de plástico. As vezes os movimentos se espaçavam a tal ponto que, suspenso, eu esperava o momento em que um deles dissesse não suportar mais. Mas embora os espaços aumentassem, ninguém dizia nada A impressão que eu tinha era de que o jogo ganhava a forma de enormes intervalos de silêncio, cada vez mais vazios, interligados por uma ou outra carta. Desde sempre jogavam assim, ninguém ganhava, ninguém ganharia nunca — dizia-me lentamente enquanto olhava para suas cabeças falsamente absortas. Olhei em volta, mas também ali não acontecia nada. Algumas folhas batiam na vidraça, e nada mais que isso.&lt;br /&gt;Foi então que surpreendi os dois olhando para mim como se esperassem. Mas não havia nada para dar a eles. Rapidamente, então, imaginei uma cimitarra e, sem parar de pensar, dotei-a de uma infinidade de movimentos circulares — como se dançasse. Só que não havia nenhuma mão a sustentá-la. Eles continuavam me olhando enquanto o som do relógio crescia, espalhado quase insuportável por entre as cartas e os espaços vazios. E foi ainda então que houve a necessidade de um gesto meu. Levantei-me e enveredei em direção à cozinha. Debrucei a cabeça sobre a mesa limpa como se chorasse. Apenas como. Não havia porquê, e eu sempre pensava que devia haver uma motivação a orientar qualquer gesto meu. Rocei a face contra a superfície da madeira. Ela me feriu de leve com suas aparas quase imperceptíveis.&lt;br /&gt;Fechei os olhos e julguei descobrir alguma coisa no fundo das pupilas: criavam-se certos movimentos verticais, tão imprecisos quanto bruscos, e apertando mais os olhos eles se alargavam, ganhando alguns toques dourados. Esse era um dos meus divertimentos favoritos nos últimos tempos: acreditava sentir em mim remotas forças reveladas e expressas naquelas sombras que moravam no fundo de meus olhos. Não sabia que espécie de forças, afinal de contas sempre fui um desconhecido para mim mesmo — sabia porém que eram violentas essas forças, diria mesmo fortes forças, não fosse sem sentido. Mas essas forças, ou o que quer que fossem aqueles movimentos escuros e verticais, nunca chegavam além das pálpebras. Foi pensando nisso que abri os olhos e encontrei a cimitarra. Ela avançava para mim com seus movimentos circulares, como se desejasse cortar-me. Como não me surpreendi, ela parou no meio do caminho.&lt;br /&gt;Saí da cozinha e desci velozmente as escadas sem parar na sala. À porta do edifício detive brusco os passos e olhei para trás, a ver se ela me seguia. Não consegui enxergar nada na escuridão: abri a porta e saí para a noite. Sentei num dos bancos do jardim do edifício e fiquei ali, perdido entre as hortênsias meio murchas, até que um contato frio no ombro esquerdo obrigou minha cabeça a voltar-se. Independente de meu comando, ela voltou-se e viu a cimitarra. Não posso negar que seus movimentos eram doces, e não foi por outro motivo que obriguei meus olhos a encararem-na sérios, talvez excessivamente sérios, porque seus movimentos começaram a intensificar-se de tal maneira que fui obrigado a suspirar, exausto.&lt;br /&gt;A verdade é que ela me cansava um pouco com seus movimentos sempre iguais, e principalmente com aqueles vulgares reflexos da lua em sua lâmina polida. Mas não podia negar também que era bela, tão bela quanto pode ser uma cimitarra, apesar de um tanto acadêmica. Bocejei, tentando fechar novamente os olhos para voltar à minha brincadeira. Mas não foi possível descobrir no fundo das pupilas os mesmos objetos imprecisos, contraindo-se vertical e horizontalmente, como numa dança hindu. Agora eram duas cimitarras de lâminas cintilantes que, nítidas, oscilavam por entre as pálpebras. Dentro e fora de meus olhos, a paisagem era a mesma. Resolvi, portanto, abri-los, o que fiz com certo cuidado, temeroso de que um gesto brusco pudesse provocar o desabamento de qualquer coisa que eu não conseguia precisar o que fosse.&lt;br /&gt;Olhei primeiro as hortênsias, depois a luz, depois espalmei a mão sobre o cimento do banco, certifiquei-me de que não havia estrelas, constatei a frieza do cimento, tentei sentir um pouco de frio — mas finalmente fui obrigado a admitir o impossível: a cimitarra havia-se multiplicado em cinco. Essas cinco cimitarras agora estavam paradas à minha volta, poderia mesmo dizer que: expectantes. Não fiz nenhuma pergunta: limitei-me apenas a observá-las com mais cuidado que antes. Mas não havia nada de extraordinário nelas.&lt;br /&gt;Pensei ficar mais tranqüilo com essa descoberta, mas aos poucos fui distinguindo alguns contornos bastante esmaecidos por trás delas. Forcei a vista e, à medida que me empenhava em ver cada vez melhor, mais esmaecidas se faziam as formas. Depois de alguns minutos, desisti. No momento em que julguei ter desistido, as sombras se tornaram mais acentuadas e, sem nenhum esforço de minha parte, transformaram-se em cinco seres desconhecidos. Tinham a mesma aparência — todos baixos, musculosos, de cabeças raspadas, narinas largas e olhos inteiramente verdes, sem pupila, íris ou esclerótica, seu lábios eram grossos e traziam argolas nas orelhas.&lt;br /&gt;“Mas eu nunca os imaginei” — tentei dizer-lhes, ao mesmo tempo em que, sem saber exatamente a razão, achava-os parecidos com uma tapeçaria que vira em algum antiquário no mercado persa da cidade. Ao mesmo tempo em que abri a boca, senti contra os lábios o contato da madeira. Isso era impossível, porque eu estava sentado num banco de cimento. Sem me mover, percebi que meus olhos estavam fechados, e erguendo uma das mãos apalpei a superfície onde estava debruçado. Parecia uma mesa, a mesma da cozinha de nossa casa. Deve ser um sonho — pensei sem originalidade. Vim até a cozinha e dormi. Mas ao abrir olhos verifiquei que, embora realmente estivesse na mesa da cozinha, os seres continuavam presentes.&lt;br /&gt;Não movi um músculo, com a intenção de não fazer absolutamente nada enquanto não fosse usada a violência. Mas lentamente alguma coisa em meu cérebro começou a pulsar. Julguei que fosse uma célula, embora não soubesse ao certo o que seria uma célula. Pulsava do lado esquerdo de minha fronte, exatamente como pulsaria uma veia. Levando as mãos à testa, porém, percebi que a veia continuava imóvel, no mesmo lugar de sempre, e por entre as gotas de suor continuei sentindo o pulsar invisível da coisa, cada vez mais intenso. Já quase dilacerava meu cérebro, me impedindo de pensar, ensurdecedora, absurda — quando tive a sensação que gritava.&lt;br /&gt;Os cinco seres tiveram um quase imperceptível movimento de alegria quando fiz menção de levantar. Havia-se formado entre nós uma espécie de corrente telepática: olhando a extensão inteiramente verde de seus olhos percebi que sorriam e me incitavam a ir adiante no que começara. Tentei dizer que não começara coisa alguma, mas imediatamente senti quase como um soco a extraordinária beleza daqueles cinco seres e suas cimitarras. Enquanto avançava na compreensão do que eles me ditavam, ia descobrindo com mais precisão o sentido de tudo aquilo.&lt;br /&gt;Não hesitei quando um deles me empurrou em direção à porta. Entrando na sala, percebi com surpresa que o ponteiro dos minutos do relógio quase não se movera desde a última vez que eu o olhara. E, no entanto, a minha sensação era de que tinham se passado horas. Curvados sobre a mesa, os meus pais continuavam seu espaçado jogo. Cruzei os braços e me recostei à janela, abrindo-a para que entrasse um pouco de ar&lt;br /&gt;Quando senti que tudo estava preparado, fiz um sinal em direção aos dois velhos e esperei. Os cinco seres deixaram-se cair sobre eles. Dois seguraram meu pai enquanto outros dois seguravam minha mãe e o quinto cortava-os rapidamente com golpes de cimitarra. Cortaram-nos em inúmeros pedaços que caíram espalhados pelo chão, sem sangue nem gritos. Em seguida reuniram-se em torno da carne e banquetearam-se fartamente, sem deixar vestígios. Antes de terminarem, um deles me ofereceu um pedaço das costas de meu pai, mas preferi ir até a geladeira e beber um copo de leite. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1795860808632357369?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1795860808632357369/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1795860808632357369&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1795860808632357369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1795860808632357369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/sarau.html' title='SARAU'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-2588510633114748431</id><published>2008-04-05T11:16:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T11:18:04.645-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>NOS POÇOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-2588510633114748431?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/2588510633114748431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=2588510633114748431&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2588510633114748431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/2588510633114748431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/poos.html' title='NOS POÇOS'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-1944789230243719836</id><published>2008-04-05T11:12:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T11:15:42.037-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>OÁSIS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Para&lt;br /&gt;José Cláudio Abreu,&lt;br /&gt;Luiz Carlos Moura&lt;br /&gt;e o negrinho Jorge&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brincadeira não era difícil: bastava que nos concentrássemos o suficiente para conseguirmos transformar tudo que havia em volta. E treinados como estávamos nas imaginações mais delirantes, era relativamente fácil avistar um deserto na rua comprida e um oásis no arco branco do portão do quartel, lá no fundo. Algumas vezes tentamos iniciar um ou outro guri da nossa idade, mas eles não conseguiam nunca chegar até o fim. Os mais persistentes alcançavam a metade do caminho, mas era mais comum rirem de saída e irem cuidar de outra coisa. Talvez porque, ao contrário de nós três, nunca houvessem visto o quartel por dentro, com seus lagos, cavalos, alamedas calçadas, eucaliptos, cinamomos, soldados.&lt;br /&gt;Acho mesmo que foi naquela tarde em que visitamos o quartel pela primeira vez que a brincadeira nasceu. Absolutamente fascinados, sentimos necessidade de vê-lo mais e mais vezes, principalmente ficamos surpresos por não termos jamais imaginado quantas maravilhas se escondiam atrás daquele portão branco, e tão tangíveis, ali, no fim da rua de nossa casa. Não sei de quem partiu a idéia mas, seja de quem foi, ele foi muito sutil ao propôla, disfarçando a coisa de tal jeito que não suspeitamos tratar-se de apenas um pretexto para visitar mais vezes o quartel. Claro que não confessaríamos claramente nosso fascínio, tão empenhados andávamos em, constantemente, simular um fastio em relação a todas as coisas. Fastio esse que, para nós, era sinônimo de superioridade.&lt;br /&gt;Era preciso bastante sol para brincar — fazíamos questão de ficar empapados de suor e de sentirmos sobre as cabeças aquela massa amarela quase esmagando os miolos. Era preciso também que não houvesse chovido nos dias anteriores, pois por mais hábeis que fôssemos para distorcer pequenos ou grandes detalhes, não o éramos a ponto de aceitar um deserto lamacento. Quando todas essas coisas se combinavam, a proposta partia de qualquer um de nós.&lt;br /&gt;Brincar de oásis era a senha, e imediatamente caíamos no chão, ainda desacordados com o choque produzido pela queda do avião onde viajávamos, depois lentamente abríamos os olhos e tateávamos em volta, no meio da rua, tocando as pedras escaldantes da hora de sesta. Quase sempre Jorge voltava a fechar os olhos, dizendo que preferia morrer ali mesmo do que ficar dias e dias se cansando à toa pelo deserto. E quase sempre eu apontava para o arco no fim da rua, dizendo que se tratava de um oásis, que meu avião já havia caído lá uma vez e que, enfim, tinha experiência de caminhadas no deserto. Em seguida Luiz investigava os bolsos e apresentava algum biscoito velho, acrescentando que tínhamos víveres suficientes para chegar lá. Convencido Jorge, tudo se passava normalmente. Aos poucos nossas posturas iam decaindo:&lt;br /&gt;no fim da primeira quadra, tínhamos os ombros baixos, as pernas moles — na altura do colégio das freiras começávamos a tropeçar e, para não cair, nos segurávamos no muro de tijolos musguentos.&lt;br /&gt;A partir do colégio as casas rareavam, e além de algumas pensões de putas não havia senão campo, cercas de arame farpado e a poeira solta e vermelha do meio da rua. Então, sem nenhum pudor, andávamos nos arrastando enquanto algumas daquelas mulheres espantosamente loiras nos observavam das janelas por baixo das pálpebras azuis e verdes, pintando as unhas e tomando chimarrão embaixo das parreiras carregadas. Tudo se desenvolvia por etapas que eram vencidas sem nenhuma palavra, sem sequer um olhar. Raramente alguém esquecia alguma coisa. Apenas uma vez Jorge não resistiu e, interrompendo por um momento a caminhada, pediu um copo d’água para uma daquelas mulheres. Eu e Luiz nos entreolhamos sem falar, escandalizados com o que julgávamos uma imperdoável traição. Mas a tal ponto nos comunicávamos que, mal voltou, a água ainda pingando do queixo, Jorge justificou-se com um sorriso deslavado:&lt;br /&gt;– Foi uma miragem.&lt;br /&gt;A partir de então as miragens se multiplicaram: vacas que atravessavam a rua, pitangueiras no meio do campo, alguma pedrada num passarinho mais distraído. Chegávamos no portão e ficávamos olhando para dentro, sem coragem de entrar, com medo dos dois soldados de guarda. Lá dentro: o paraíso. Mas era como se tivéssemos entrado: voltávamos novamente eretos, bem-dispostos, com as peças para consertar o avião caído e que, sem a menor explicação, tínhamos encontrado entre duas palmeiras.&lt;br /&gt;Houve um verão de seca tão intensa, sol, poeira, sede e crepúsculos esbraseados, que brincávamos quase todos os dias. Acabamos fazendo amizade com um soldado que ficava de guarda às segundas, quartas e sextas. Aos poucos, então, começamos a suborná-lo, usando os métodos mais sedutores, adestrando-nos em cinismos. Começamos por mostrar a ele figurinhas de álbum, depois levando revistas velhas, biscoitos, rapaduras, pedaços de galinha assada do almoço de domingo, garrafas ‘azias e, finalmente, até mesmo alguma camisa que misteriosamente desaparecia do varal de casa. Mas a vitória só foi consumada quando Dejanira, a empregada, entrou em cena Com muito tato, conseguimos interessar o soldado numa misteriosa mulata que espiava todos os dias a sua passagem para o quartel, de manhã cedinho, escondida atrás da janela da sala. Era uma mulata tímida e lânguida, que fazia versos às escondidas e pensava vagamente em suicídio nas noites de lua cheia. Dejanira parecia um nome muito vulgar para uma criatura de tais qualidades, então tomamos a batizá-la de Dejanira Valéria e, pouco a pouco, fomos acrescentando mais e mais detalhes, até conseguir enredar o soldado a um ponto que ele chegava a nos convidar para entrar no quartel. Antes do avião cair nos esmerávamos em forjar bilhetes cheios de solecismos e compor versos de pé quebrado em folhas de caderno, sensualmente assinados por docemente tua, Dejanira Valéria, numa caligrafia que Luiz caprichadamente enchia de meneios barrocos altamente sedutores. E na hora do banho Dejanira não entendia por que a tratávamos com tanto respeito, chamando-a candidamente de doce Valéria, até que nos enchia de cascudos e palavrões. Mas a confiança do soldado estava ganha: já agora se empenhava em nos agradar, atraindo-nos para dentro do quartel e permitindo que ficássemos horas zanzando pelo pátio calçado, as árvores pintadas de branco até a metade, os cavalos de cheiro forte e crina cortada, apitos, continências, bater de pés e outras senhas absolutamente incompreensíveis e deslumbrantes em seu mistério. Coisas estranhas se passavam ali, e tínhamos certeza de estarmos lentamente ingressando numa espécie de sociedade mágica e secreta.&lt;br /&gt;Foi quando, uma tarde, tudo se passando exatamente como das outras vezes, nos encontramos os três parados à frente de um portão sem guarda. Não conseguimos compreender, mas estávamos tão habituados a entrar e a passar despercebidos que, como das outras vezes, entramos. Havia um movimento incomum lá dentro: carroças se chocavam, armas passavam de um lado para outro, soldados corriam e gritavam palavrões, o chão estava sujo de esterco, os cavalos todos enfileirados. Conseguimos passar mais ou menos incógnitos pelo meio da babilônia, até chegarmos numa sala onde nunca estivéramos antes. Examinamos as paredes vazias, depois descobrimos num canto, sobre uma mesa, um estranho aparelho cheio de fios. Jorge descobriu um microfone e, por algum tempo, ficamos ali parados, sem compreender exatamente o que era aquilo, mas certos de que se tratava de uma peça importantíssima para o funcionamento de toda a organização.&lt;br /&gt;Estávamos tão entretidos na descoberta que não percebemos quando entraram dois soldados com fardas diferentes das dos outros, com penduricalhos coloridos nos ombros. Fui o primeiro a vê-los, mas não foi possível avisar os outros: os soldados já avançavam sobre nós, vermelhos, segurando-nos pelos ombros e nos sacudindo até que Jorge começasse a chorar e a chamar pela mãe. Falavam os dois ao mesmo tempo, aos berros. Depois, com mais alguns trancos, nos jogaram num canto. Um deles, de enorme bigode preto, avançou para nós e, com uma voz que me pareceu completamente hedionda, disse que ficaríamos presos até aprendermos a não nos meter onde não era da nossa conta. Ainda discutiu um pouco com o outro, que parecia estar do nosso lado, pelo menos torcemos para que fosse assim. Mas não adiantou nada: o de bigode enorme disse que era só um susto, e saiu nos empurrando até a prisão.&lt;br /&gt;Era um quartinho ainda menor que o de Dejanira, infinitamente mais sujo e frio, apesar de todo o calor que fazia lá fora, com uma janelinha gradeada na altura do teto. Ficamos ali durante muito tempo, incapazes de dizer qualquer palavra, num temor tão espesso que não era preciso evidenciá-lo através de um grito. Jorge chorava, eu e Luiz nos encolhíamos contra as paredes. Pensamentos terríveis cruzavam a minha cabeça, pelotões, fuzilamentos, enquanto uma dor de barriga se tornava cada vez mais insuportável, até escorregar pelas pernas numa massa visguenta.&lt;br /&gt;Já era noite quando vimos com alívio a porta se abrir para dar passagem ao soldado nosso conhecido. Sem falar nada, fomos levados para casa num jipe militar. Mamãe estava descabelada, as vizinhas todas em volta, as luzes acesas: entramos na sala pela mão do soldado, que falou rapidamente coisas que não conseguimos entender, enquanto todo mundo nos envolvia em beijos e abraços, logo contidos quando perceberam meu estado lastimável. Mamãe disse que a culpada era Dejanira, que não cuidava de nós; papai disse que a culpada era mamãe, que nos entregava a Dejanira; Dejanira disse que os culpados éramos nós, uns demônios capazes de enlouquecer qualquer vivente; mamãe disse que Dejanira era uma china desaforada, e que demônios eram os da laia dela, e que o culpado era papai, que achava que em criança não se bate; Dejanira disse que não ficava mais nem um minuto naquela casa de doidos; papai disse que mamãe não nos dava a mínima; mamãe disse que era uma verdadeira escrava e que os homens só queriam mesmo as mulheres para aquilo; papai disse que não podia dar atenção a seus faniquitos na hora em que o país atravessava uma crise tão grave. E acabaram os três gritando tão alto quanto os dois soldados de farda diferente, com penduricalhos coloridos nos ombros.&lt;br /&gt;Depois do banho assistimos à partida de uma Dejanira nem um pouco Valéria e muito menos lânguida: jogava as roupas na mala e resmungava desaforos em voz baixa. Doía vê-la ir embora, mas as chineladas e a vara de marmelo doeram muito mais. Fomos postos na cama sem jantar. Ficamos muito tempo acordados no escuro, ouvindo o som do rádio que vinha da sala e os passos apressados na rua. Antes de dormir ainda ouvi a voz de Jorge perguntando a Luiz o que era uma revolução, e um pouco mais tarde a voz de Luiz, apagada e hesitante, dizer que achava que revolução era assim como uma guerra pequena. Mais tarde, não sei se sonhei ou se pensei realmente que os aviões não caíam no meio das ruas, e que as ruas não eram desertos, e que portões brancos de quartéis não eram oásis. E que mesmo que portões brancos de quartéis fossem oásis e cinamomos pintados de branco até a metade fossem palmeiras, não se encontraria nunca uma peça de avião no meio de duas palmeiras. E por todas essas coisas, creio, soube que nunca mais voltaríamos a brincar de encontrar oásis no fim das ruas. Embora fosse muito fácil, naquele tempo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-1944789230243719836?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/1944789230243719836/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=1944789230243719836&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1944789230243719836'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/1944789230243719836'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/para-jos-cludio-abreu-luiz-carlos-moura.html' title='OÁSIS'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5394812738031405475</id><published>2008-04-05T10:56:00.001-03:00</published><updated>2008-04-05T10:58:36.719-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O Ovo Apunhalado'/><title type='text'>ELES</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O que eles deixaram foram estes três postulados: importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. Nem foram notados a princípio, por isso ninguém sabe dizer a data exata de sua chegada. É provável que desde o começo tivessem se estabelecido no bosque, afinal você sabe que por aqui não há outro lugar onde pessoas como eles pudessem passar assim despercebidas como eles passaram, a princípio. Aqui todos se conhecem, tudo é pequeno e sem mistério, ou era, antes, há apenas esse bosque sobre a colina, e talvez por medo de penetrarem no impenetrável de um mistério qualquer, ou mesmo por preguiça de se movimentarem de seus lugares, os moradores daqui nunca vão ao bosque, ou nunca iam, não sei mais. Apenas alguns namorados, mas muito raramente, porque ao voltarem todos sabiam que tinham ido e as mulheres daqui, as mulheres mais velhas, não perdoam jamais. Por isso, às vezes, eu penso que talvez eles estivessem aqui desde sempre, desde um começo que não se sabe quando começou. E ninguém saberia jamais se aquele menino não tivesse ido lá.&lt;br /&gt;Aqui as pessoas dormiam muito, você sabe, não há sequer lenhadores porque existe o mar do outro lado, e é sempre mais fácil pescar do que derrubar árvores. Naquele tempo, as pessoas dormiam, pescavam, à noite colocavam suas cadeiras na frente das casas e ficavam olhando o céu. Às vezes apareciam luzes estranhas no céu, luzes estranhas fazendo estranhos percursos, mas nem isso os interessava, antes. Eu? Eu não tenho importância, não procure saber nada sobre mim porque ninguém saberá dizer, nem eu próprio, estou apenas contando esta história que não é minha e a que assisti como todos os outros habitantes da vila assistiram, talvez com um pouco mais de lucidez, eu, mas de qualquer forma, embora a bomba esteja nas minhas mãos, estamos todos no mesmo barco, no mesmo beco.&lt;br /&gt;Se você quer ouvir, ouça. Mas não pergunte nada além do que eu direi, porque eu não saberia dizer, ou talvez não devesse, ou talvez mesmo eu chegue a dizer — por que não? Se você não quiser ou achar que estou mentindo ou que a história é desinteressante, diga logo, você não precisa ouvir, ninguém precisa ouvir: eu só queria que vocês soubessem que eles estão aqui, no meio de vocês, ainda que vocês não queiram ou não saibam.&lt;br /&gt;Mas como eu ia dizendo, se aquele menino não tivesse ido lá ninguém saberia jamais, porque não creio que um outro menino ou qualquer outra pessoa se atrevesse a ir, inventavam coisas, cobras, plantas, animais estranhos, medos — e não se atreviam. Aquele menino, não. Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível: pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar. Essas são as escolhidas — as que vão ao fundo, ainda que fiquem por lá. Como aquele menino. Ele não voltou. Quero dizer, ele voltou, mas já não era o mesmo, e quando se foi em definitivo não era mais o mesmo menino que tinha ido ao bosque um dia.&lt;br /&gt;Não sei se você sabe que muitas pessoas trazem a mesma marca daquele menino. Algumas, a maioria delas, passam a vida inteira sem saber disso, outras descobrem cedo, outras tarde, algumas tarde demais, algumas nunca. Sei que se o menino não tivesse ido lá, não teria descoberto, seria no máximo um desses pescadores que olham o mar com olhar profundo. Você deve ter notado que há os que olham o mar com olhar profundo e os que olham o mar com ar torvo. Não só o mar. Os que trazem a marca, mesmo que não saibam dela, esses olham as coisas com olhar de sangue. Os que sabem da marca ganham uma luz estranha e uma lentidão e um jeito de quem sabe todas as coisas. Os outros todos olham todas as coisas com um olhar torvo. Os outros são escuros, estúpidos, pobres. Os outros não sabem. Quando aquele menino foi lá pela primeira vez, tinha apenas um olhar de sangue — mas quando foi pela última vez, o seu olhar já era de luz, era todo lentidão, complacência, compreensão, todo ele amor e sol.&lt;br /&gt;Ele não era um menino comum, isso eu soube desde que o vi. Ainda que andasse vestido da mesma maneira que os outros, tivesse as mesmas conversas e as mesmas brincadeiras, eu sempre pressenti nele aquele sangue que não corria nos outros. As vezes, fazia perguntas que assustavam. E ficava horas sentado num lugar olhando qualquer coisa sem importância, uma pedra, um inseto, um grão de areia. Ninguém compreendia. Andava sozinho por lugares desconhecidos e voltava com o sangue dos olhos quase em luz. Eu pressentia que ele acabaria descobrindo, porque só ele poderia descobrir. Não, eu não sabia deles, talvez eu soubesse sempre, mas no fundo, ou na superfície, não sei, eu não sabia, não me pergunte agora, em algum lugar de mim eu não sabia, embora em outros soubesse, não tem importância que você não compreenda isso, porque estou acostumado com a incompreensão alheia, com a minha própria incompreensão, mais do que tudo.&lt;br /&gt;Da minha janela eu via quando o menino voltava, todas as tardes, e foi numa dessas tardes que eu o vi descendo lento o caminho do bosque. Vinha mais lento do que de costume, e desde o momento em que sua silhueta apareceu na curva do morro, desde esse momento eu soube. Não que houvesse algo especial, além daquela lentidão não havia nada — mas é preciso estar com as sete portas abertas para saber quando as coisas se modificam. As coisas começaram a se modificar quando o menino apareceu lento na curva que levava ao bosque.&lt;br /&gt;Foi quando eu senti, mais uma vez, que amar não tem remédio.&lt;br /&gt;Acho que ele soube que eu sabia, porque baixou a cabeça quando me viu. Nunca tínhamos conversado, nunca conversei com ninguém daqui, desde que cheguei, e faz muito tempo, mas havia uma espécie de clima, eles tinham um certo respeito por mim, os habitantes da vila, e assim o menino. Por isso não me surpreendi quando a mãe dele me procurou, no dia seguinte. Chegou acanhada, sentou num canto, fez comentários sobre o tempo, olhou espantada para esses livros e esses quadros, e depois de várias palavras sem importância disse que estava muito preocupada com o filho. Então contou: ele havia visto três seres estranhos no bosque. Não sabia dizer se homens ou mulheres, eram altos, claros, tinham grandes olhos azuis e gestos compassados, cabelos compridos até os ombros, movimentavam-se mansos dentro de vestes brancas com amuletos sobre o peito. Falavam uma língua estranha e sorriam fazendo círculos em torno do menino e tocando-o de leve às vezes nos ombros, no peito, na testa Agora de tinha febre e delirava. Ela me pediu que eu fosse ao bosque, e eu disse que esperaria o menino melhorar para irmos juntos. Ela achou que eu tinha medo e disse que não queria que o menino voltasse lá. Mas eu disse que não iria sozinho, que o bosque era muito grande e apenas o menino poderia mostrar-me onde estavam as criaturas. Ela concordou, e quando o menino melhorou, poucos dias depois, uma tarde subimos ao bosque.&lt;br /&gt;Nem eu nem ele falamos nada enquanto subíamos a montanha. Não era preciso. Quando entramos no bosque, senti que ele se modificava e seu olhar ganhava aquela espécie de luz de que falei a você. Foi então que eu o senti maior do que eu — maior porque sendo apenas um menino se atrevera a penetrar no que me assustava, embora soubesse do irreversível do que o menino vira. Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. O que vem depois, não se sabe. Há aquele olhar de que lhe falei, e aquelas outras coisas, mas nada sei de você por dentro, depois de ver.&lt;br /&gt;Por isso eu não compreendia mais aquele menino a partir do momento em que penetramos no bosque. Não compreendia seu ato de coragem e seu despojamento em enfrentar o que eu desconhecia, e sua disponibilidade em se modificar penetrando em regiões talvez escuras e perigosas. Aquele menino era um homem mais velho e mais corajoso do que eu quando entramos no bosque. Não foi difícil encontrá-los. Acho que vieram logo ao sentir a presença do menino. Chegaram devagar, do meio das árvores, com suas vestes brancas e seus enormes olhos de luz.&lt;br /&gt;Não sei explicá-los. Sei que eram espantosos. Pareciam não pisar sobre o chão, pareciam não ter peso nenhum: eram inteiros leveza, amor, bondade, embora houvesse na lentidão de seus gestos qualquer coisa de definitivo. Ainda que fossem belos e bons e mansos, qualquer coisa no seu gesto pressagiava o terrível de sua condição. Eram fortes. Cercaram o menino como velhos amigos, talvez irmãos, pois o menino se parecia com eles no jeito e no olhar. Emitiam sons estranhos e fragmentados, andavam à volta do menino numa ciranda, tocavam-no no ponto central da testa, e então seus olhos se faziam ainda mais claros, tocavam-no no plexo, e eu senti que o coração do menino batia com mais força, renovando um sangue que fluía nas veias feito fogo.&lt;br /&gt;A mim? quase não deram atenção. Lembro apenas que em certo momento um deles tentou tocar-me, da mesma maneira como tocavam o menino, mas os outros dois detiveram seu gesto. Confabularam um instante entre si, depois sorriram como a desculpar-se por não poderem iniciar-me, por enquanto, pelo menos. Mas não fiquei humilhado. Sabia que meu papel era outro, sabia que eu ficaria, assim como o menino também sabia o que lhe estava destinado.&lt;br /&gt;Apoiado numa árvore, deixei-me ficar durante muito tempo olhando aquela espécie de dança, e acho que de repente adormeci, um pouco porque anoitecia, mas principalmente porque talvez a minha ausência talvez fosse importante naquela hora. Quando acordei, estava tudo escuro e em silêncio. Não consegui encontrá-los, nem ao menino. Lembrei então que me espreitavam, antes que eu dormisse, e que colavam seus pulsos aos pulsos do menino e comunicavam qualquer coisa como ordens, e ele parecia entender, concordar. Um pressentimento me veio. Soube apenas que precisava voltar o quanto antes à vila. Era difícil me movimentar no meio dos galhos e das folhas e das raízes sem enxergar absolutamente nada, formas se enredavam em meus pés, coisas geladas tocavam meus braços, arranhavam meu rosto. Não sei quantas horas fiquei por ali, tentando sair, andando em círculos, aquele pressentimento negro me oprimindo o peito.&lt;br /&gt;Acho que já era muito tarde quando consegui alcançar a estrada. E lá de cima vi o fogo. A vila ardia. Desci a montanha correndo, estava muito cansado mas havia alguma coisa que precisava ser salva antes que fosse demasiado tarde, embora eu soubesse que não conseguiria salvar nada, e que tanto o menino como aqueles três seres haviam escolhido o mais fundo que a simples salvação. Quando cheguei, a vila era um inferno. As casas queimavam e as pessoas corriam desesperadas tentando apagar o fogo. Fui perguntando como aquilo acontecera, disseram-me que tudo havia começado na casa do prefeito e se alastrara depois pelas casas dos outros líderes e que ninguém sabia ao certo como tudo começara: haviam apenas visto aquele menino olhando fixamente do meio da praça para a casa do prefeito, e depois o fogo, e que o menino não se movera do meio da praça, e repetira que o mais importante é a luz, mesmo quando consome, isso lhe dissera o primeiro ser, e que a cinza é mais digna que a matéria intacta, isso lhe dissera o segundo ser, e que se salvariam apenas aqueles que aceitassem a loucura escorrendo em suas veias. Com o olhar, ateava fogo às casas dos líderes, um a um. Chamaram sua mãe para que o detivesse, e foi ela quem falou dos estranhos seres. Dividiram a população em dois grupos: um deles tentava apagar o fogo enquanto o outro partia armado de tochas em direção à montanha.&lt;br /&gt;Fiquei um instante sem saber o que fazer, procurei o menino no meio da praça, dos escombros e da cinza, mas não consegui encontrá-lo. Saí então para a montanha, tentei chegar na frente do grupo, mas eles estavam enfurecidos, os olhos torvos, as bocas cheias de espuma, ódio, incompreensão e noite. Eles estavam os três na entrada do bosque, como se esperassem. Exatamente como se esperassem. Não reagiram quando as pessoas caíram sobre eles, espancando-os até que uma substância clara e perfumada começasse a escorrer das feridas. Ao aspirarem essa substância as pessoas caíam ao chão, os olhos desmesurados, os movimentos descontrolados, fazendo e dizendo coisas sem nexo, como se tivessem tomado alguma droga. Pareciam embriagadas, loucas e felizes com o sangue dos três seres alucinando suas mentes. Não teriam conseguido subjugá-los se alguns dos habitantes não tivessem arrancado as camisas para taparem as narinas, evitando aspirar aquele perfume enlouquecedor.&lt;br /&gt;A mim, não aconteceu quase nada: pouco mais que uma vertigem e algumas cores nunca suspeitadas e extremamente nítidas. Os homens com os narizes tapados pelas camisas amarraram e amordaçaram os três seres, depois carregaram-nos a pontapés pela montanha abaixo. Levei algum tempo para despertar da tontura e daquela loucura de cores e formas que envolviam meus sentidos. Quando consegui movimentar-me desci correndo a montanha. Ao chegar à vila era madrugada, o fogo fora dominado, embora as casas estivessem calcinadas e a cinza cobrisse as ruas. Havia apenas um grande fogo no meio da praça. Caminhei até lá, na esperança de salvá-los. Mas já não era possível. Estavam os três sobre uma fogueira que começava a lamber-lhes os pés. Afastei as pessoas que jogavam pedras e gritavam insultos — alguma coisa me dizia que precisava tocá-los. Quando consegui me aproximar, os três deixaram seu olhar cair sobre mim, seus olhos de luz deslizaram por sobre todo meu corpo até se deterem nos pulsos.&lt;br /&gt;Então, senti a carne queimar e abrir numa ferida — voltaram os próprios olhos para os próprios pulsos, abrindo as mesmas feridas que libertaram uma substância clara —, depois, um de cada vez, colaram seus pulsos escorrendo substância clara contra meus pulsos escorrendo sangue. Senti que o meu sangue se dissolvia em contato com o sangue deles — e em breve sentia escorrer dentro de minhas veias aquele mesmo líquido ardente de loucura e alegria. O fogo já atingia seus joelhos quando, entontecido, comecei a me afastar. As cores se chocavam contra minhas retinas. E tudo era: belo não: não belo tudo: as coisas: elas próprias: as coisas verdadeiras: e profundas belas como: pode ser belo: também o terrível eu: me afastava entre céu e inferno tentando ver: beleza no fogo carbonizando: suas carnes claras o líquido: escorria farto e as: pessoas correndo enlouquecidas: vastas e miúdas: ruas. Fui afundando aos poucos numa vertigem em direção sem direção às cores multifacetadas multifacientes as faces e as formas e depois os roxos do amor e do nojo sobre um branco silêncio em branco como contra um muro nem fundo sem fim.&lt;br /&gt;Quando acordei, só restavam cinzas. Três pequenos montículos de cinza clara boiando na substância estagnada — loucura coagulada. A população enlouquecida se estraçalhava pelas ruas. E de repente vi outra vez o menino: saía da vila em direção ao bosque. Corri atrás dele quis detê-lo para que me explicasse alguma coisa, mas quando voltou-se tive certeza de que não conseguiria mais atingi-lo: não era mais aquele menino. Era um deles, com os mesmos olhos azuis em luz, sem sexo, lento e decidido. Voltou-se e disse a única coisa que ouvi de sua voz. Uma coisa assim:&lt;br /&gt;— Deixa que a loucura escorra em tuas veias. E quando te ferirem, deixa que&lt;br /&gt;o sangue jorre enlouquecendo também os que te feriram. Depois se foi.&lt;br /&gt;Nunca mais o vi. Mas sei que existem outros como ele, isso eu queria dizer a você: eles estão aqui.&lt;br /&gt;Os habitantes da vila levaram muitos dias para voltarem ao normal — depois dos homens terem provado do sexo de outros homens, e também dos peitos das mães e das irmãs, e de terem bebido dos pais o mesmo líquido de que foram feitos, e de terem cruzado com animais e se submetido à luxúria dos cães e dos cavalos e dos touros, e de terem possuído a terra e a palha como se fossem mulheres ou o reverso de homens iguais a eles —, mas não voltaram. Agora os dias não são mais de pesca, sono, sesta, cadeiras sem procuras na frente das casas. Todos buscam com olhos desvairados luzes estranhas no céu, alfa, beta, gama, delta, sinas, signos, cumprem esquisitos rituais de devoção e perdição. Nada sabem. Nem sequer lembram dos três seres e do menino: foram apenas despertos para o oculto. Mas não sabem o que fazer do desconhecido — do imensamente permitido — revelado. E não podem voltar atrás.&lt;br /&gt;Eu disse a você que ver era irreversível. Eles viram. Às vezes penso se eles não sabem que eu sei, e desta substância clara correndo dentro de minhas veias. Às vezes escuto murmúrios indistintos e agressivos quando saio às ruas. Mais cedo ou mais tarde, alguma coisa vai acontecer. Talvez me firam, mas, quando isso acontecer, das minhas veias vai escorrer tanta loucura que eles não voltarão nunca do inferno onde serão jogados por meu sangue. Ainda não os odeio o suficiente. Mas esse ódio cresce dia a dia: eles mataram a claridade. Não souberam entender que haviam sido escolhidos. Os seres não voltarão jamais. A vingança foi perfeita. Eles ficarão perdidos na treva da insatisfação até o fim de seus dias. E mesmo aquele menino que eu amava porque era como eu não me atrevi a ser ou os outros como ele que existem por aí consigam que a luz se faça em outros pontos do mundo, aqui não chegará um raio.&lt;br /&gt;Por isso meu ódio cresce Quando atingir um nível insuportável, não será difícil: basta uma lâmina contra o pulso. Nem isso. Uma simples picada de alfinete. Menos até Um arranhão. Talvez aquele menino volte, talvez eu esteja mesmo sozinho, talvez você ache que sou louco. Queria que você entendesse que apenas contei o que realmente aconteceu, e se isso que aconteceu é loucura, quem enlouqueceu foi o real, não eu, ainda que você não acredite. Não tem importância. A história é essa, talvez eu tenha falado mais do que devia, mas tenho uma certeza dura de que nem você nem os outros todos perdem por esperar. Cuidado: eles estão aqui: à nossa volta: entre nós: ao seu lado: dentro de você. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-5394812738031405475?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/5394812738031405475/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=5394812738031405475&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5394812738031405475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/5394812738031405475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2008/04/eles.html' title='ELES'/><author><name>ludelfuego</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08109557533556971820</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://3.bp.blogspot.com/_WxPBl7M8VRo/SR2XY2IIepI/AAAAAAAAAe8/zyNiuch-q6M/S220/21092007(011).jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-3118703982318024723</id><published>2007-11-20T14:30:00.000-02:00</published><updated>2007-11-20T14:31:57.400-02:00</updated><title type='text'>A Lucienne Samôr</title><content type='html'>POA 29.09.94[cartão]&lt;br /&gt;Lucienne,querida:&lt;br /&gt;Tenho chamado muito Rafael,para que verta o conteúdo de sua ânfora dourada em meu sangue,para purificá-lo.E nael,meu amigo particular,me protege sempre.A tal ponto que consegui transmutar o HIV numa coisa boa dentro de mim.Depois de quase morrer ando feliz agora.A emoção,estranhamente,parece "curada".Falo sempre de você(e me pergunto,e os livros?),mas nos últimos anos a vida me levou para lugares inimagináveis.Viajo dia 4 para a Europa mas,no final de novembro,estou de volta.&lt;br /&gt;Não vamos nos perder.&lt;br /&gt;Muito amor,seu&lt;br /&gt;Caio F.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/16282308-3118703982318024723?l=semamorsoaloucura.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/feeds/3118703982318024723/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=16282308&amp;postID=3118703982318024723&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3118703982318024723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/16282308/posts/default/3118703982318024723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semamorsoaloucura.blogspot.com/2007/11/lucienne-samr.html' title='A Lucienne Samôr'/><author><name>Lara</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-16282308.post-5260043081990640569</id><published>2007-11-20T14:29:00.000-02:00</published><updated>2007-11-20T14:36:32.866-02:00</updated><title type='text'>A Déa Martins</title><content type='html'>[Noruega] 31.05.94 [cartão]&lt;br /&gt;Déa querida:&lt;br /&gt;Tô no sul da Noruega,depo
